30 de julho de 2016

Capítulo oito


Enquanto o jipe avançava com o motor pipocando à frente deles, os órfãos Baudelaire fizeram a pé o caminho de volta para a casa do tio Monty, com o cheiro de raiz-forte invadindo suas narinas e um sentimento de frustração dominando integralmente seu ânimo. É muito exasperante quando alguém prova que estamos errados, sobretudo se na verdade estamos certos e a pessoa que na verdade está errada é aquela que prova que estamos errados, desse modo dando a entender erroneamente que está certa. Certo?
“Não sei como foi que ele se livrou da tatuagem”, disse Klaus teimosamente para o sr. Poe, que tossia no lenço, “mas não há a menor dúvida de que é o conde Olaf.”
“Klaus”, disse o sr. Poe quando parou de tossir, “isso está ficando muito cansativo, essa insistência, essa repetição. Acabamos de ver o tornozelo imaculado de Stephano. Imaculado significa...”
“Nós sabemos o que significa imaculado”, disse Klaus, prestando atenção nos movimentos de Stephano, que saiu do jipe do tio Monty e caminhou rapidamente para dentro da casa. “’Sem tatuagens'. Mas é sem sombra de dúvida o conde Olaf! Como é que o senhor não percebe?”
“Tudo o que eu percebo”, disse o sr. Poe, “é o que está diante de mim. Vejo um homem sem sobrancelhas, com barba e nenhuma tatuagem: ora, o conde Olaf não é assim. De qualquer modo, ainda que por algum acaso esse Stephano quisesse fazer mal a vocês, não há o que possam recear. É bem chocante que o dr. Montgomery tenha morrido, mas nós simplesmente não vamos entregar vocês e a sua fortuna ao assistente dele. Meu Deus, esse homem não consegue sequer lembrar-se do meu nome!”
Klaus olhou para as irmãs e suspirou. Seria mais fácil, pensou, discutir com um dos arbustos em forma de cobra do que com o sr. Poe depois de ele ter formado uma opinião. Violet estava a ponto de tentar convencê-lo mais uma vez, quando soou por trás do grupo a buzinada forte de um carro. Os Baudelaire e o sr. Poe afastaram-se para dar passagem ao veículo que se aproximava, um pequeno automóvel cinzento com um motorista muito magro. O carro parou em frente à casa e dele saiu uma criatura muito magra, um homem alto de paletó branco.
“Posso ajudá-lo em alguma coisa?”, disse-lhe o sr. Poe, aproximando-se dele com as crianças.
“Sou o dr. Lucafont”, disse o homem alto, apontando para si próprio com uma das mãos, grande e sólida. “Recebi um telefonema a propósito de um acidente terrível que envolve uma cobra.”
“O senhor já está aqui?”, perguntou o sr. Poe. “Mas se Stephano mal teve tempo de telefonar, que dizer então do tempo que o senhor precisou para vir até aqui!”
“Creio que a velocidade é essencial numa emergência, o senhor não acha?”, disse o dr. Lucafont. “Se há uma autópsia a ser feita, é preciso que seja feita imediatamente.”
“É claro, é claro”, apressou-se em dizer o sr. Poe. “Eu só estava surpreso.”
“Onde se acha o corpo?”, perguntou o dr. Lucafont, caminhando em direção à porta.
“Stephano lhe dirá”, falou o sr. Poe, abrindo a porta da casa. Stephano estava esperando no hall de entrada, com uma cafeteira nas mãos.
“Vou fazer um pouco de café”, disse. “Quem quer?”
“Aceito uma xícara”, disse o dr. Lucafont. “Nada como uma estimulante xícara de café para começar o dia.”
O sr. Poe franziu a testa. “O senhor não deveria ir primeiro dar uma olhada no dr. Montgomery?”
“É verdade, dr. Lucafont”, disse Stephano. “O tempo é fator essencial numa emergência, o senhor não acha?”
“Sim, certo, acho que o senhor tem razão”, disse o dr. Lucafont.
“O pobre dr. Montgomery está na Sala dos Répteis”, disse Stephano, indicando com um gesto o local onde ainda jazia o tutor dos Baudelaire. “Por favor, faça um exame completo, e depois eu lhe servirei o café.”
“O senhor é quem manda”, respondeu-lhe o dr. Lucafont, abrindo a porta da Sala dos Répteis com uma mão estranhamente rígida. Stephano levou o sr. Poe até a cozinha, e os meninos os seguiram, melancólicos. Quando nos sentimos inúteis e incapazes de ajudar, é hábito usar a expressão “sentir-se como uma quinta roda” (equivalente em outras línguas a “sentir-se como um peso morto”), porque se alguma coisa tem quatro rodas, como um vagão ou um carro, na verdade uma quinta não faz a menor falta. Enquanto Stephano preparava o café para os adultos, as três crianças sentaram-se à mesa da cozinha onde, fazia pouco tempo, haviam comido bolo de creme de coco com o tio Monty – e Violet, Klaus e Sunny sentiram-se como a quinta, a sexta e a sétima rodas de um carro que seguia para a direção errada: ou seja, rumo ao Porto Enevoado e ao Próspero, pronto para partir.
“Quando falei com o dr. Lucafont pelo telefone”, disse Stephano, “mencionei o acidente com o seu carro. Assim que ele terminar o exame médico, irá de carro com o senhor até a cidade para buscar um mecânico, e eu ficarei aqui com as crianças.”
“Não”, disse Klaus com firmeza. “Não ficaremos a sós com ele nem por um instante.”
O sr. Poe sorriu enquanto Stephano lhe servia uma xícara de café, e olhou severo para Klaus. “Klaus, eu compreendo que você esteja muito abalado, mas não se justifica que você continue tratando Stephano tão grosseiramente. Por favor, peça-lhe desculpas imediatamente.”
“Não!”, exclamou Klaus.
“Tudo bem, sr. Po”, disse Stephano, querendo apaziguar. “As crianças estão abaladas com o assassinato do dr. Montgomery, e não é mesmo de esperar que se portem como modelos de boa educação.”
“Assassinato?”, disse Violet. Ela virou-se para Stephano e tentou parecer apenas polidamente curiosa, quando na verdade estava furiosa. “Por que você disse assassinato, Stephano?”
O rosto de Stephano anuviou-se, e as mãos dele agarraram-se aos quadris. Poderíamos dizer que neste momento o que ele mais gostaria de fazer era arrancar os olhos de Violet. “Troquei as palavras”, disse, finalmente.
“Claro que sim”, disse o sr. Poe, sorvendo o conteúdo de sua xícara. “Mas as crianças podem vir com o dr. Lucafont e comigo, se preferirem.”
“Não sei se vão caber”, disse Stephano, com os olhos brilhando. “É um carro muito pequeno. Mas se os órfãos preferirem não ficar, poderiam ir comigo no jipe e seguiríamos o senhor e o dr. Lucafont até o mecânico.”
Os três órfãos entreolharam-se e ficaram pensando, muito concentrados. A situação se apresentava como um jogo, se bem que esse jogo envolvesse apostas muito altas. O objetivo era não ficarem sozinhos com Stephano, pois, caso ficassem, ele na mesma hora dispararia com eles para o Próspero. E o que então iria lhes acontecer, quando estivessem a sós no Peru com essa pessoa tão gananciosa e desprezível, era algo em que nem queriam pensar. Tinham que pensar era em como impedir que isso acontecesse. Parecia incrível que para salvar suas vidas dependessem de uma conversa sobre “quem daria carona a quem”, mas muitas vezes na vida os pequenos detalhes acabam sendo os mais importantes.
“Por que não vamos com o dr. Lucafont”, disse Violet cautelosamente, “e o sr. Poe vai no carro de Stephano?”
“Mas para quê?”, perguntou o sr. Poe.
“Eu sempre quis ver o interior do automóvel de um médico”, disse Violet, sabendo que essa era uma explicação pouco convincente.
“Pois eu também!”, disse Klaus. “Por favor, podemos ir com o dr. Lucafont?”
“Sinto muito, mas não dá”, disse o dr. Lucafont, chegando à porta de entrada e surpreendendo a todos com suas palavras. “Todos os três, pelo menos, é impossível. Coloquei o corpo do dr. Montgomery no meu carro e sobra espaço apenas para mais dois passageiros.”
“O senhor já completou o exame?”, perguntou o sr. Poe.
“O preliminar, sim”, disse o dr. Lucafont. “Tenho que levar o corpo para testes ulteriores, mas minha autópsia mostra que o doutor morreu de uma mordida de cobra. Sobrou um pouco de café para mim?”
“É claro”, respondeu Stephano, e serviu-lhe uma xícara.
“Como é que o senhor pode ter certeza?”, Violet perguntou ao médico.
“Que é que você quer dizer?”, falou o dr. Lucafont, achando muita graça na pergunta. “Posso ter certeza de que sobrou café porque o estou vendo diante de mim.”
“O que Violet quer dizer, me parece”, disse o sr. Poe, “é como o senhor pode ter certeza de que o dr. Montgomery morreu de uma mordida de cobra?”
“Encontrei em suas veias o veneno da Mamba do Mal, uma das cobras mais venenosas do mundo.”
“Isso significa que há uma cobra venenosa solta nesta casa?”, perguntou o sr. Poe.
“Não, nada disso”, respondeu o dr. Lucafont. “A Mamba do Mal está isolada em sua gaiola. Deve ter saído, mordido o dr. Montgomery, e em seguida trancou-se de novo.”
“O quê?!”, perguntou Violet. “Que explicação mais absurda! Uma cobra não consegue abrir um cadeado sozinha.”
“Talvez contasse com a ajuda de outras cobras”, disse o dr. Lucafont, saboreando seu café tranquilamente. “Há alguma coisa aqui para se comer? Tive que vir para cá correndo, com o estômago vazio.”
“Sua história parece, de fato, um pouco estranha”, disse o sr. Poe. Ele olhou interrogativamente para o dr. Lucafont, que estava neste momento abrindo um armário e olhando o que havia dentro.
“A experiência tem me mostrado que esses acidentes terríveis costumam ser estranhos”, respondeu ele.
“Não pode ter sido um acidente”, disse Violet. “O tio Monty é...” Ela se deteve. “O tio Monty foi um dos mais respeitados herpetologistas do mundo. Jamais deixaria uma cobra venenosa numa gaiola que ela pudesse abrir sozinha.”
“Se não foi um acidente”, disse o dr. Lucafont, “alguém teria feito isso de propósito. É óbvio que vocês três, crianças, não o mataram. E a única outra pessoa na casa era Stephano.”
“E eu”, apressou-se em acrescentar Stephano, “não entendo praticamente nada de cobras. Só estou trabalhando aqui há dois dias e mal tive tempo de aprender o que quer que fosse.”
“Certamente parece ter sido um acidente”, disse o sr. Poe. “É uma pena. Sinto muito, crianças. O dr. Montgomery tinha todo o perfil de um tutor adequado para vocês.”
“Ele era mais do que isso”, disse Violet sem levantar a voz. “Ele era muito, muito mais do que um tutor adequado.”
“Essa comida é do tio Monty!”, gritou Klaus de repente, com o rosto encrespado de raiva. Ele apontou para o dr. Lucafont, que havia tirado uma lata de dentro do armário. “Pare de avançar na comida dele!”
“Eu só ia apanhar uns pêssegos”, disse o dr. Lucafont. Com uma das mãos estranhamente rígidas, ele segurava uma lata de pêssegos em calda comprada na véspera pelo tio Monty.
“Fique à vontade”, disse o sr. Poe gentilmente ao dr. Lucafont. “As crianças estão muito abaladas. Estou certo de que o senhor pode compreender. Violet, Klaus e Sunny, por que não se afastam um pouco? Temos muito que discutir, e vocês estão obviamente muito estressados para participar. Vejamos, dr. Lucafont, vamos ver como podemos resolver este caso. O senhor tem espaço para três passageiros, incluindo o corpo do dr. Montgomery. E você, Stephano, tem espaço para três passageiros também.”
“É muito simples”, disse Stephano. “O senhor e o cadáver irão no carro do dr. Lucafont, e eu irei seguindo os senhores no meu carro com as crianças.”
“Não”, disse Klaus com firmeza.
“Ouçam, Baudelaire”, disse o sr. Poe com igual firmeza, “podem fazer-nos o favor de se retirar um momento?”
“Afu!”, gritou Sunny, o que provavelmente significava “Não”.
“Claro que podemos”, disse Violet, lançando a Klaus e Sunny um olhar significativo; tomando-os pelas mãos, foi meio que os levando, meio que os arrastando para fora da cozinha. Klaus e Sunny ergueram os olhos para a irmã mais velha e notaram que algo havia mudado nela. Seu rosto parecia mais decidido do que triste, e ela andava depressa como se estivesse atrasada ou algo parecido.
Vocês se lembram, é claro, de que, mesmo depois de passados muitos anos do episódio, Klaus ficaria deitado na cama sem conseguir dormir, tomado pelo arrependimento de não ter feito nenhum sinal chamando de volta o motorista do táxi que reintroduzira o conde Olaf mais uma vez em suas vidas. Com relação a isso, Violet teve mais sorte do que seu irmão. Pois, ao contrário de Klaus – tão surpreso quando reconheceu pela primeira vez Stephano que deixara passar a oportunidade de agir a respeito –, Violet, ouvindo a lengalenga interminável dos adultos, sentiu que aquele era o momento de agir. Não direi que Violet, anos depois, conseguisse dormir sem problemas ao pensar no que ficara para trás em sua vida – foram tantas as ocasiões dolorosas para os Baudelaire que dificilmente qualquer um deles teria um sono tranquilo pela vida afora –, mas ela sempre se orgulhou de ter percebido no momento certo que ela e seus irmãos deveriam então retirar-se da cozinha e passar a um lugar que oferecesse maiores chances de ajuda.
“Que estamos fazendo?”, perguntou Klaus. “Para onde estamos indo?” Sunny também olhou interrogativamente para a irmã, mas Violet, em resposta, simplesmente balançou a cabeça e andou ainda mais depressa na direção da Sala dos Répteis.

5 comentários:

  1. Tenho uma sensação ruim em relação a esse Dr. Lucafont... Acho q ele é um dos amigos do Conde Olaf

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    1. Tambem to achando q merda

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    2. Eu também acho... e desconfio que seja aquele das mãos de gancho...
      Gente que raiva do Sr. Poe, já teve mais provas que deveria acreditar nas crianças!!

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  2. esse sr poe é muito cego

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  3. Esse senhor Poe é muito besta, por que não acredita nas crianças!

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