25 de julho de 2016

Capítulo oito


 Klaus passou a noite inteira lendo, o que era algo que ele normalmente adorava fazer. Quando seus pais ainda estavam vivos, Klaus costumava levar uma lanterna para a cama, se esconder debaixo das cobertas e ler até não conseguir mais manter os olhos abertos. Certas manhãs, seu pai entrava no quarto para acordá-lo e encontrava Klaus adormecido com a lanterna numa das mãos e o livro na outra. Mas nessa noite de que estamos tratando, é claro, as circunstâncias eram muito diferentes.
Klaus se postou junto à janela, apertando os olhos para ler, à tênue luz da lua por ela filtrada, o livro que contrabandeara. Vez por outra dava uma espiada nas irmãs. Violet estava dormindo de modo descontínuo – expressão que aqui significa “mexendo-se e virando-se com muita frequência” – na cama com aqueles calombos todos, e Sunny se envolvera de tal maneira no amontoado de cortinas que ficara parecendo uma trouxinha de pano. Klaus não havia contado nada do livro para as irmãs, porque não queria lhes dar falsas esperanças. Não tinha certeza se o livro os ajudaria mesmo a sair do seu dilema.
Era um livro de texto longo e difícil, e Klaus foi ficando cada vez mais cansado à medida que transcorria a noite. Seus olhos às vezes se fechavam. Pegou-se lendo a mesma frase de novo, e de novo, e de novo. Pegou-se lendo a mesma frase de novo, e de novo, e de novo. Pegou-se lendo a mesma frase de novo, e de novo, e de novo. Mas aí lhe vinha à lembrança como haviam brilhado as mãos de gancho do colega do conde Olaf na biblioteca, e ele então as imaginava dilacerando sua carne, e mais que depressa acordava e retomava a leitura. Encontrou um pedaço de papel que não prestava para nada, rasgou-o em pequenas tiras e as aproveitou para marcar passagens significativas do livro.
Quando a luz de fora passou a se tornar acinzentada com a aproximação do dia, Klaus já havia descoberto tudo o que precisava saber. Suas esperanças se levantaram junto com o sol. Finalmente, logo que os primeiros pássaros começaram a cantar, Klaus caminhou na ponta dos pés até a porta do quarto, abriu-a devagarinho, com o máximo cuidado para não tirar do seu sono sempre incompleto Violet e Sunny (esta ainda embrulhada no amontoado de cortinas), e seguiu para a cozinha, onde sentou e ficou à espera do conde Olaf.
Não precisou esperar muito até ouvir os passos do conde descendo atropeladamente os degraus da torre. Ao entrar na cozinha e ver Klaus sentado à mesa, o conde Olaf deu um sorriso oblíquo, expressão que aqui significa “sorriu de maneira inamistosa e afetada”.
“Olá, órfão”, disse ele. “Acordou cedo.”
O coração de Klaus batia acelerado, mas ele se sentiu calmo na aparência, como se estivesse coberto por uma couraça invisível.
“Passei a noite em claro”, disse, “lendo este livro.” Pôs o livro sobre a mesa para que Olaf pudesse vê-lo. “Intitula-se Direito Nupcial”, disse Klaus, “e me ensinou muitas coisas interessantes.”
O conde Olaf pegara uma garrafa de vinho para se servir da bebida como café da manhã, mas assim que viu o livro, interrompeu o que estava fazendo e sentou-se.
“A palavra nupcial”, disse Klaus, “significa relativo a casamento”.
“Eu sei o que a palavra significa”, resmungou o conde. “Onde foi que você arranjou esse livro?”
“Na biblioteca da juíza Strauss”, disse Klaus. “Mas isso não interessa. O que interessa é que descobri qual é o seu plano.”
“É mesmo?”, disse o conde Olaf, erguendo sua sobrancelha tipo duas-em-uma. “Pois então me diga qual é o meu plano, seu fedelho atrevido.”
Klaus ignorou o insulto e abriu o livro na página marcada por uma das tiras de papel. “As leis sobre casamento nesta comunidade são muito simples”, ele leu em voz alta. “Tudo o que se exige é o seguinte: a presença de um juiz, uma declaração de sim pronunciada pela noiva e pelo noivo, e a assinatura pelo próprio punho da noiva de um documento explanatório.” Klaus baixou o livro e observou para o conde Olaf: “Se minha irmã disser 'sim' e assinar um pedaço de papel na presença da juíza Strauss, estará legalmente casada. Essa peça que o senhor está montando não deveria se chamar O casamento maravilhoso, mas O casamento ameaçador. O senhor não vai se casar com Violet no sentido figurado... o senhor vai se casar com ela literalmente! Essa peça não é um faz-de-conta; é um compromisso real e amparado na lei”.
O conde Olaf deu uma gargalhada grosseira. “Sua irmã não tem idade para se casar.”
“Ela pode se casar se tiver a permissão de seu tutor legal agindo in loco parentis”, disse Klaus. “Li isso também. Não adianta querer me enganar.”
“Por que razão do mundo eu haveria de querer me casar com sua irmã?”, perguntou o conde Olaf. “Não resta dúvida de que ela é muito bonita, mas um homem como eu tem condições de conseguir as mulheres bonitas que quiser, e quantas quiser.”
Klaus passou a um capítulo diferente do Direito nupcial. “Um esposo legal”, leu em voz alta, “tem o direito de controle sobre qualquer dinheiro em cuja posse se ache sua esposa legal.” Klaus encarou o conde Olaf com expressão triunfante. “O senhor vai se casar com minha irmã para ter o controle da fortuna dos Baudelaire! Ou, pelo menos, foi o que o senhor planejou fazer. Mas quando eu mostrar essa informação ao sr. Poe, sua peça não será apresentada, e o senhor irá para a cadeia!”
Os olhos do conde Olaf brilharam com intensidade muito maior, mas ele continuou a sorrir obliquamente para Klaus. Isso foi surpreendente. Klaus esperava que, quando lhe anunciasse o que sabia, aquele homem horrível ficasse furioso, até violento. Afinal de contas, ele não havia explodido daquela forma absurda só porque queria rosbife em vez de macarrão à puttanesca? Sem sombra de dúvida, a descoberta de seu plano teria que enraivecê-lo muito mais. No entanto, o conde Olaf continuou sentado, com a mesma calma de quem estivesse discutindo se iria chover ou fazer sol.
“Acho que você me pegou direitinho”, disse Olaf simplesmente. “Tem razão: eu vou para a cadeia enquanto você e as órfãs ganham sua liberdade. Mas então por que não sobe ao quarto e acorda suas irmãs? Elas vão ficar encantadas, tenho certeza, quando souberem de sua grande vitória sobre minhas maquinações perversas.”
Klaus olhou bem de perto para o conde Olaf, que continuava sorrindo como se houvesse acabado de contar uma piada inteligente. Por que não ameaçava Klaus num acesso de fúria, ou não arrancava os próprios cabelos no auge da frustração, ou não corria para fazer as malas e fugir? As coisas absolutamente não estavam acontecendo como Klaus tinha previsto.
“Pois bem, eu vou contar para as minhas irmãs”, disse ele, e voltou para o quarto. Violet continuava cochilando na cama, e Sunny continuava embrulhada nas cortinas. Klaus acordou primeiro Violet.
“Passei a noite toda em claro, lendo”, disse Klaus de um só fôlego, assim que a irmã abriu os olhos, “e descobri o que o conde Olaf está aprontando. O plano dele é casar-se com você de verdade, quando você e a juíza Strauss e todos estiverem pensando que tudo não passa de uma peça, e uma vez que ele se torne seu marido, terá controle sobre o dinheiro de nossos pais e fará conosco o que bem entender.”
“Mas como ele pode se casar comigo de verdade?”, perguntou Violet. “É só uma peça.”
“A única exigência legal para o casamento nesta comunidade”, explicou Klaus, erguendo bem visível o Direito nupcial a fim de mostrar a sua irmã onde colhera a informação, “é você dizer 'sim' e assinar um documento por seu próprio punho na presença de um juiz... como a juíza Strauss!”
“Mas não tenho idade suficiente para casar, é claro”, disse Violet. “Tenho só catorze anos.”
“Moças menores de dezoito anos”, disse Klaus, correndo os dedos pelas folhas do livro até chegar a uma outra página marcada, “podem se casar se tiverem a permissão de seu tutor legal. No caso, o conde Olaf.”
“Oh, não!”, exclamou Violet. “O que podemos fazer?”
“Podemos mostrar isto ao sr. Poe”, disse Klaus, apontando para o livro, “e ele finalmente vai acreditar quando dizemos que o conde Olaf não é flor que se cheire. Vista-se depressa enquanto eu acordo Sunny, e vamos chegar ao banco na hora em que ele abre.”
               Violet, que em geral se movimentava devagar pela manhã, concordou com um gesto de cabeça e na mesma hora pulou da cama e foi até a caixa de papelão procurar uma roupa decente para vestir. Klaus remexeu na trouxa de cortinas para acordar a irmã caçula.
“Sunny”, ele chamou, carinhosamente, pondo a mão onde achava que estivesse a cabeça da irmã. “Sunny.”
Não houve resposta. Klaus tornou a chamar “Sunny”, e afastou a dobra superior das cortinas para acordar a pequena Baudelaire. “Sunny”, disse mais uma vez, mas aí se deteve. Porque, debaixo da cortina, tudo o que havia era outra cortina. E, assim, com todas as camadas de cortinas, mas sua irmãzinha não estava em lugar nenhum. “Sunny!”, gritou ele, olhando para todos os lados do quarto. Violet deixou cair o vestido que estava segurando e começou a ajudá-lo na procura. Esquadrinharam canto por canto, olharam debaixo da cama e até mesmo dentro da caixa de papelão. Mas Sunny tinha sumido.
“Onde ela pode estar?”, perguntou Violet, preocupada. “Ela não é de fugir.”
“Realmente, onde ela pode estar?”, disse uma voz atrás deles, e as duas crianças se viraram. O conde Olaf se encontrava na soleira da porta, observando Violet e Klaus em sua busca pelo quarto. Os olhos dele estavam brilhando mais do que nunca, e ele continuava com aquele sorriso de quem acabou de contar uma piada.

4 comentários:

  1. IDIOTA!!! COITADA DA SUNNY GENTE!!

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  2. FDP de merda nao acredito q ele vai usar a Sunny pra obrigar a Violet casar

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  3. Mds alguém mata esse cara. Ele dá uma raiva, fica fazendo essas coisas com as coitadas das crianças. Alguém ajuda eles!

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