16 de julho de 2016

Capítulo oito

— MALCOLM!
Pulo no lugar onde estou enquanto acordo ao som do meu nome, ofegando de volta à consciência.
— Finalmente — diz Briggs. — Estive gritando por você por um minuto inteiro. Pensei que teria que dar outro tapa em você.
Ele está no banco à minha frente, com a perna ferida estendida. O sangue está começando a escorrer pelas bordas da bandagem. Meus olhos examinam o vagão de trem até encontrar Gamera, ainda em forma de tartaruga, dormindo no chão perto dos meus pés.
— Onde estamos? — pergunto.
— Quase no bunker. Achei que você gostaria de alguns minutos para acordar.
Concordo com a cabeça, esfregando os olhos. Eles doem, e percebo que provavelmente estou a caminho da desidratação, se já não estiver desidratado. Olho para meu telefone. Nada ainda. Dormi menos de uma hora.
— Ainda estamos no subsolo?
— Todo esse sistema é subterrâneo — diz Briggs. — É secreto, lembra?
— Fascinante — respondo, ainda tentando fazer minha cabeça entender tudo isso. Desde que fui libertado dos mogs, acordar tem sido um processo de lembrar lentamente onde estou e o que estou fazendo, especialmente se eu me encontrar em um lugar estranho. — Eu tenho tantas perguntas que não sei por onde começar.
— Você tem perguntas? — ele aponta para Gamera. — Esse é um animal de estimação alienígena que muda de forma. É a coisa mais louca que já vi. Bem... talvez tivesse sido uma semana atrás. Antes de tudo acontecer.
Gamera olha para o dedo dele com curiosidade.
— Parece que ele está com fome — diz Briggs.
— Ele não vai morder. Pelo menos, eu acho que não. Gamera é o nome dele. Fui eu que o batizei assim. Ele... sempre pareceu afeiçoado ao meu filho.
Briggs murmura algo que não consigo entender.
— Quando chegarmos ande quer que estivermos indo, eu apreciaria se você não o mencionasse aos outros. Não é que eu não confie em quem está lá... é só que temo...
— Não se preocupe. Você tem razão para ser cauteloso. Todos estão no limite. Ainda estamos tentando descobrir quem está envolvido com os mogadorianos e quem não está. É um grupo seleto que está no bunker. Mesmo assim... quero dizer, os alienígenas são reais, então não sei o que mais esperar.
Tenho que me concentrar. Nomes flutuam pela minha mente – os homens e mulheres que sabemos que são agentes ProMog.
— Será que o vice-presidente está no bunker? — pergunto. Ele é o funcionário no cargo mais alto que posso pensar que vendeu a alma para os mogadorianos.
— Não. Pelo o que entendo, ele é um desertor. Desapareceu junto com a sua equipe de segurança inteira logo depois que tudo aconteceu na ONU. Eles devem tê-lo localizado agora, mas é um procedimento padrão manter o presidente e o vice em locais diferentes em uma situação como esta. Você sabe, para que não se perda os dois ao mesmo tempo se algo der errado.
— Ah. Isso é bom.
— Você não acha... — ele não termina a pergunta. Apenas permite que se prolongue no ar. Porém, é óbvio que está pairando em sua mente.
— Os federais acham que ele está trabalhando com os mogs.
Esta foi uma das primeiras coisas Walker nos disse quando apareceu em Ashwood. Isso realmente aconteceu ontem?
— Jesus — Briggs muda seu foco e me olha direto nos olhos. Seu olhar é penetrante. — Apenas... Jesus. Será que temos mesmo alguma chance?
— Eu tenho que acreditar que sim.
Briggs parece confortado com isso. Os músculos de seu rosto relaxam um pouco.
— Eu não vou nem mencionar Gamera.
— Sabe, você nunca me disse o seu nome.
— Major Briggs.
— Eu quis dizer seu primeiro nome.
— Oh — ele dá de ombros. — Sim. Você se acostuma a todos usando o seu sobrenome, eu acho. É Samuel.
Sam.
Claro que é. Eu sorrio, mesmo como minha preocupação por Sam aumentando dentro do meu peito.
— Esse é o nome do meu filho.
— Ele não estava lá em Ashwood, estava?
— Não. Ele já tinha saído. Indo para Nova York para tentar parar os mogadorianos. Está lutando contra eles faz meses agora, tentando evitar que tudo isso acontecesse. Trabalhando junto com a Garde. Os alienígenas bons.
Briggs assente com a cabeça, mas não diz nada por um minuto ou dois. Quando fala, sua voz tem o tom mais suave que escutei desde que ele apareceu para me levar para o bunker secreto.
— Minha mãe é a única que me resta. Ela vive no Bronx, mas ela... ela trabalha na cidade. Eu não fui capaz de chegar até ela — há uma centelha de algo doloroso em seu rosto e, em seguida, se esvai. Ele está de volta com a expressão de pedra que parece ser seu estado natural.
Estendo o meu telefone.
— Aqui — ofereço.
— Não há sinal no subterrâneo.
— Eu tenho sinal.
Ele olha para mim com curiosidade e depois pega o telefone.
— Como isso é possível? — ele pergunta.
— É uma longa história.
Eu o vejo discar, com cuidado, os dedos hesitantes sobre cada botão. Ele segura o telefone na orelha por um longo tempo antes de finalmente entregá-lo de volta para mim, balançando a cabeça.
— Tenho certeza de que ela está bem — eu digo, sabendo muito bem que é uma garantia inútil.
O trem começa a desacelerar. Briggs se levanta.
— Ela é uma velha forte. Tenho certeza de que está bem. Escute, pode devolver a minha arma? Eles são um pouco rigorosos com quem pode ter armas aqui embaixo.
Entrego a arma. Ele manca um pouco enquanto se posiciona na frente da porta de correr do vagão. Os freios guincham, e nós chegamos a um ponto final. Ele se estica, cerrando os dentes, enquanto coloca peso sobre a perna ferida.
— Espero que eles tenham uma equipe de médicos fixos aqui. E água quente.
Gamera se encolhe a um inseto de novo e sobe em meu ombro enquanto me posiciono ao lado de Briggs.
— E café — acrescento. — Espere, é a sua primeira vez aqui?
— Pessoalmente, sim. Mas conheço as plantas como a palma da minha mão, então sei muito bem o que esperar.
A porta desliza e abre, e a primeira coisa que vejo são cinco homens em ternos escuros, as metralhadoras apontando para o nosso rosto.
Briggs não se move à visão das armas. Eu, por outro lado, dou um pulo e ergo as mãos.
— Major Samuel Briggs — um homem de preto diz, enquanto caminha para frente.
Briggs assente. O homem segura algum tipo de dispositivo eletrônico pequeno e o leva até os olhos de Briggs, depois coloca os dedos dele em um tablet eletrônico. Ele deve ter passado por todos esses testes, porque homem acena para Briggs para sair do vagão do trem.
— Este é o objeto, Malcolm Goode — Briggs fala enquanto segue entre os homens. Nenhum deles desvia a arma de mim. — Ele está limpo. Eu o desarmei.
Apesar disso, um dos homens dá alguns passos a frente e me revista. Ele mostra meu telefone via satélite para o homem que parece estar no comando, mas ele apenas balança a cabeça.
— Não vai lhe adiantar nada no subterrâneo e com toda a nossa blindagem — ele fala, e meu coração afunda. Ele continua. — Mão.       
Estendo a mão, obrigado a seguir todas as ordens neste momento, e ele posiciona a palma da mão no tablet. Uma foto minha antiga aparece na tela – e eu sei que eles utilizaram a foto dos cartazes de “desaparecido” – juntamente com algum tipo de registro completo da minha formação. O homem puxa o tablet antes que eu possa ler qualquer coisa de verdade.
— Bem-vindo à Base Liberdade — ele fala. — Eu sou o chefe adjunto Richards com o Serviço Secreto. Siga-me.
— Espere um pouco. Como você tem as minhas impressões digitais? — pergunto, guardando o telefone que o outro homem me devolve e agradecendo em silêncio ao universo por ele não ter verificado se tinha sinal. — Que informação acabou de ser puxada sobre mim?
O homem deixa escapar uma risada curta e não se preocupa em responder às perguntas. Ao contrário, ele se afasta e começa a andar para uma porta do outro lado da sala, que é nada mais que uma caixa de concreto imensa. É só então que percebo um homem de jaleco pairando sobre um painel de controle em um canto.
— Mantenha o trem aqui — Richards fala enquanto passamos. — Este é o último dos nossos hóspedes da Union Station.
Ele nos leva a um corredor estreito. As paredes e pisos são todos cinza ardósia. Nossos passos ecoam pelo corredor. Briggs segue atrás de mim, com os homens armados na retaguarda.
— O senhor está ferido, major — Richards diz sem olhar para trás. Eu me pergunto se ele percebeu a atadura anteriormente ou se só pôde dizer com base no som desigual dos passos de Briggs. — Nós despertaremos a equipe médica.
— Onde estamos? — pergunto.
— Você está em um bunker subterrâneo secreto. Isso é tudo o que tenho liberdade para lhe dizer neste momento.
Ele se vira. Outro corredor. Quanto tempo passei navegando por labirintos subterrâneos nos últimos dias? “Base Liberdade” está começando a me lembrar do subsolo de Ashwood, e não é exatamente uma sensação reconfortante.
— Me disseram que o presidente mandou me buscar. Quando vou me encontrar com ele? Há muito para discutir sobre os mogadorianos e quem no governo...
— São quase quatro da manhã. Todos estão tendo um intervalo de duas horas antes do reagrupamento. Quando você for necessário, alguém virá buscá-lo.
Ele para na frente de uma porta, abrindo-a. Dentro há uma pequena sala com uma mesa e uma cama com um cobertor. Um frigobar e um armário estão entre duas portas estreitas. É um pouco melhor do que eu esperaria encontrar em um dormitório ou hotel barato.
— Você encontrará roupas limpas no armário e produtos de higiene pessoal no banheiro. Há um pouco de comida e água, também.
— Você me trouxe até aqui para me colocar em um quarto e... — eu começo.
— Perdoe-nos por não ter uma cesta de presentes e uma suíte esperando por você, mas nós estamos em um estado de emergência, Dr. Goode. Aconselho-o a permanecer aqui até que seja chamado. Não vagueie pelos corredores. Manterei um homem à sua porta... caso precise de alguma coisa.
— Espere — falo, de repente, sentindo-me mais como um prisioneiro do que alguém que está aqui para ajudar o presidente. — Você não vai me dizer onde estou, e por que supostamente não devo deixar o meu quarto? O que está acontecendo aqui?
Richards expressa um leve sorriso no rosto.
— Se quiser sair, doutor, o senhor pode fazer isso. Eu apenas colocarei alguns dos meus homens atrás de você na superfície para fazerem com que o senhor não seja capaz de encontrar este lugar outra vez.
Olho para Briggs, que acena para mim de uma maneira que imagino que deva ser reconfortante. Então suspiro e entro no quarto.
— Alguém será enviado aqui mais tarde — Richards continua. — Durma um pouco. Será um dia longo.
Em seguida, a porta é fechada e eu sou deixado sozinho. Eu meio que esperava que ele me trancasse aqui antes de sair, mas ele não faz. Pelo menos, não que eu tenha ouvido.
Lavo o rosto no banheiro minúsculo assim que percebo que a combinação de sujeira e vários dias de barba tem me feito parecer um vagabundo. É só quando a água na pia fica rosa que percebo que tenho manchas de sangue em minhas mãos.
Do ferimento Briggs ou de Lujan. Talvez seja o meu próprio sangue – há um corte na lateral da minha cabeça que deixou meu cabelo grudento. Pego o telefone. O que quer que Adam tenha feito, é genial: estou recebendo sinal, apesar do que Richards falou. Estou prestes a caminhar de volta para o quarto e ligar para meu filho quando paro, olhando ao redor. Dada a forma como todos têm sido sigilosos, tenho certeza de que eu não deveria ter contato com o mundo exterior, e este lugar provavelmente é vigiado. Não posso perder o meu telefone, então fico no banheiro, fecho a porta e ligo a torneira e chuveiro, tentando esconder a minha voz tanto quanto posso.
Tento Sam, mas não há nenhuma resposta. Mais uma vez. Bato meu punho contra a pia, fazendo com que o espelho na minha frente trema.
Disco outro número. Desta vez, alguém atende.
— Alô?
— É Malcolm — falo. — Espero não tê-lo acordado.
— Eu não durmo muito — responde Noto.
— Fico feliz em ouvir que você conseguiu sair dessa confusão.
— Eu também. Temos alguns feridos, mas eles vão sobreviver. Terão que mandar mais do que aquela escolta para nos eliminar. Mas os mogs voltarão.
— Provavelmente — concordo. — Embora eu não tenha certeza se Ashwood está no topo da sua lista de prioridades no momento.
— Não importa. Estamos recolhendo tudo o que conseguimos dos arquivos e indo para um local seguro. Ordens de cima. O pessoal acha que Ashwood está fervendo demais agora. Tenho que dizer, eu concordo — ele faz uma pausa. Quando começa a falar de novo, ele está um pouco mais contido. — Nós não ouvimos nada de Walker, mas agora que os mogs sabem que estamos aqui, não podemos ficar esperando por mais um ataque. Não se preocupe. Nós estamos, hã, tentando levar as aves de guarda com a gente. Onde você está? Está seguro?
Olho em volta para as paredes estéreis do banheiro. Vapor do chuveiro começa a encher o banheiro. De repente, estou me sentindo claustrofóbico
— Sabe — eu digo baixinho — eu não tenho ideia.

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