16 de julho de 2016

Capítulo oito

ACABO DESCOBRINDO QUE SAM NÃO É UM ALIENÍGENA.
John Smith por outro lado... é outra história.
— Então... — começo, tentando entender tudo o que Sam me contou. — Ele de fato é um alienígena do bem.
— Eu acabei de lhe contar tudo o que sei sobre ele — Sam diz. — Se você não está convencida agora de que ele não foi infectado pelo lado negro da força, acho que nunca se convencerá.
— Por que vocês não contaram isso a todos antes? Por que não gravaram uma nota explicativa, talvez? Fizessem tipo, um protesto ou coisa assim.
Sam se vira para mim, semicerrando os olhos.
— Você realmente acha que um protesto teria impedido os mogarianos?
— Não, mas pelo menos estaríamos mais preparados para essa merda toda. Nós poderíamos tê-los atacado com bombas nucleares no espaço ou algo do tipo.
Ele balança a cabeça.
— Você estava ouvindo quando eu falei que o governo faz parte disso, certo?
— Merda — eu sussurro. — Acho que você ganhou.
Estamos a alguns vagões de distância de onde deixamos John Smith dormindo como uma pedra. Benny costumava desmaiar assim às vezes – embora fosse por conta da bebida – e ficava completamente imóvel até de manhã. Estou achando que John não vai levantar tão cedo também. Ele está tão cansado quanto eu. E não posso dizer que o culpo.
Eu carrego em meu ombro uma imitação de uma bolsa Prada. Sam carrega uma que diz “Música É Minha Mochila” na lateral. Fazer a limpa foi ideia do Sam. Ele disse que era para o caso de termos que sair rapidamente do trem e não tivéssemos tempo para saquear depois, mas acho que ele só estava com fome – o que, depois de ter lutado o dia todo e passado a noite correndo, eu entendo totalmente.
Para nossa sorte, o que quer que tenha acontecido nesse trem fez com que muitas pessoas deixassem seus pertences para trás. Eu já encontrei algumas barras de cereais, alguns pacotinhos de biscoitos e até garrafas de água. Sem mencionar os celulares – o que é ótimo, porque minha bateria já acabou. Não tive a sorte de encontrar um carregador ainda. Não que eu teria sinal ou algo do tipo aqui embaixo, mesmo que a internet estivesse funcionando.
— Você está indo para Wall Street, certo? — Sam pergunta.
Ele está de joelhos tentando pegar uma sacola de plástico que está embaixo de um dos assentos.
— Sim. É onde a minha mãe trabalha. Ela é garçonete. Algumas vezes trabalha no bar. O restaurante é bem legal. Cheio de bancários ricos.
— Que legal.
— Sim, eu acho.
Ele se levante e olha para mim com uma expressão séria.
— Você tem alguma ideia...?
Ele não termina, mas eu entendi o que ele queria dizer.
— Ela me ligou quando tudo isso começou. Me disse para ir para casa. Então teve um tipo de... — eu luto com a palavra. — Barulho alto. Uma explosão, talvez. Não tenho certeza. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Não percebi o que era até chegar em casa e ver o seu garoto John no noticiário lutando contra um alienígena grandão. Citrus Ramen ou o que quer que seja.
— Setrákus Ra.
— Ou o que quer que seja — eu repito. — Enfim, não tenho notícias nem nada desde então. Tenho certeza de que ela está bem. Ela é forte. Bem, não totalmente. Ela é a pessoa mais legal e amável do mundo. Porém é uma sobrevivente.
Parece que Sam quer dizer alguma coisa, mas estou tão cansada física, psicológica e emocionalmente que ele apenas levanta uma das mãos e continua andando. Se continuarmos falando sobre isso, eu vou desmoronar.
— Daniela — ele começa.
— Aqui, nerd — eu digo, erguendo uma barra de granola que acabei de encontrar no chão, interrompendo-o.
Ele olha para a barra por um momento.
— Espere. Por que eu sou um nerd? Por que todo mundo presume isso?
Eu dou de ombros.
— Apenas um palpite. Você exala a vibe dos nerds.
Parece que ele vai protestar, mas não. Em vez disso, ele pega um lanche.
— Você não gosta desses?
— Não — minto.
Eu me espreguiço e bocejo. Sam também, como se isso fosse contagioso. Estou tão exausta que estou me perguntando se eu poderia usar meu novo poder recém-descoberto para me fazer flutuar de volta para o vagão onde John se encontra.
— Deveríamos voltar — Sam diz. — Dormir um pouco. Não serviremos pra nada se nossa energia estiver zerada.
— Eu não posso acreditar que estou prestes a dormir num vagão do metrô — eu me pergunto o que minha mãe diria.
— Há outra metade inteira do trem que ainda não exploramos. Podemos dar uma olhada de manhã. Então podemos subir para as ruas e ver...
Ele não termina. Eu não pergunto sobre o que ele estava pensando. Tenho muitas perguntas próprias pairando na minha mente. Muitas imagens do que pode estar acontecendo na superfície.
Balanço a cabeça. Nós começamos a voltar por onde viemos.
— Você estava nas Nações Unidas mais cedo? — pergunto.
— Sim. Foi doido.
— Por que eu não o vi lutando?
— Ei, eu estava fazendo o meu melhor — ele diz. — Além disso, eu não tinha meu Legado ainda. E não sou exatamente treinado em armas.
— Legado? — pergunto. — John usou essa palavra quando estávamos na rua. É assim que chamam a telecinesia e as mãos-lanternas dele?
— Exato.
Mordo meus lábios.
— É uma palavra boba. Espere — ah, droga — alguém teve que morrer para eu ganhar isso? Eu herdei, tipo, poderes da alma de um alienígena? Isso ferraria tudo.
— Hum, eu acho que não — Sam diz. — Quero dizer, acho que eles são heranças dos Anciãos que mencionei mais cedo sobre o John e os lorienos, mas pelo o que sabemos... — ele dá de ombros.
— Então você não tem ideia do motivo por termos sido escolhidos? — pergunto enquanto passamos pela abertura entre dois vagões. — O que temos de tão especial?
Ele balança a cabeça, e posso dizer que ele faz a mesma pergunta em seus pensamentos.
— Cara, eu me perguntei isso o dia todo. Honestamente, até encontramos você, pensei que eu fosse o único — seu tom de voz diminui um pouco. — Pensei que talvez eu estivesse sendo recompensado por estar ajudando os lorienos.
— Bem, eu tenho certeza absoluta que não fui recompensada por nada, a menos que isso seja algum tipo de recompensa esquisita por finalmente ter tirado notas altas na escola — penso nisso por alguns segundos. — Acho que isso não importa mais.
O Harlem, a lanchonete e meu apartamento parecem tão distantes. Eu estava mesmo surtando por causa de fones de ouvido hoje cedo?
— Qualquer que seja o motivo, eu vou usá-los — Sam assente enquanto fala, como se estivesse me dizendo a coisa mais importante do mundo. — Agora eu posso finalmente ajudar os outros. Eu não ficarei preso no banco de reservas. Eu posso proteger meus amigos. Posso proteger o planeta.
— Certo — eu digo. O discurso que John fez mais cedo volta à minha mente. Sobre como eu deveria usar esses poderes para ajudá-lo a vencer uma guerra. Sam obviamente já se juntou à causa. — Talvez você seja o próximo a estar lutando contra alienígenas na TV.
Ele sorri um pouco.
— Talvez. Eu nunca vou me parecer com John enquanto estiver lutando. Ele é um herói — ele parece tão genuíno quando diz isso. Há um certo respeito em seu tom de voz.
Me faz perguntar.
— Vocês dois... tem tipo... alguma coisa?
Sam parece confuso por alguns segundos. De repente ele entende o que estou perguntando.
— Nós... — ele hesita. — Melhores amigos eu acho? Nós dois temos... — ele pausa novamente. — .... garotas — ele finalmente diz, um pouco envergonhado.
Eu o encaro por alguns segundos. Então dou de ombros.
— Porque é completamente normal se tiverem.
— Não temos coisa alguma.
— Eu sei. Vocês dois têm... — eu pauso dramaticamente. — Garotas?
Sam revira os olhos e pula para o vagão onde deixamos John dormindo. Ele ainda está desmaiado, roncando um pouco.
— É uma situação complicada. A namorada dele está com o ex dela agora tentando expor os mogs. Foram eles que fizeram o vídeo que você viu. Eles encontraram algum hacker misterioso que os está ajudando a descriptografar informações governamentais confidenciais. E minha... a garota que eu estive... ah, cara, eu não tenho certeza do que Seis está fazendo agora. Ela está no México procurando por algum Santuário Lórico.
— O nome da sua namorada é Seis? — pergunto. — Estranho.
Sam olha para mim.
— É isso o que você acha estranho em tudo o que está acontecendo?
Dou de ombros, e então bocejo novamente.
— Eu sei — Sam diz com um sorriso. — Guerras espaciais intergalácticas e o destino do mundo são tão entediantes.
— Calado — respondo, tentando não bocejar mais uma vez.
— Com tantos túneis, duvido que alguém vá descer aqui para nos procurar, mas nós provavelmente deveríamos dormir em turnos, apenas por precaução. Eu fico com o primeiro turno e acordo você quando estiver caindo de sono.
— Tudo bem. Você tem certeza de que não vai desmaiar imediatamente após eu dormir?
— Você está brincando? Eu tenho barras de granola e... — ele tira outra coisa da sacola. — Alguém deixou basicamente toda a loja de gibis aqui embaixo.
— Claro. Nerd.
Ele quase que sorri, então sua expressão fica triste.
— Ei — ele fala. — Espero que sua mãe esteja bem. Meu pai... ele ficou desaparecido por muito tempo. Houve dias em que pensei que nunca o veria novamente. Logicamente eu continuei a vida, mas nunca perdi a esperança. Eventualmente nos encontramos novamente. Eu não estou dizendo que é a mesma coisa, óbvio. Mas você tem que continuar lutando e acreditando. Tem que honrar a pessoa que não está presente através de suas ações — ele balança a cabeça. — Desculpe, estou muito cansado. Acho que não estou falando coisas com nexo agora.
— Obrigada — murmuro. — De verdade.
Pego a Prada falsa e faço como travesseiro em um dos bancos, virando de costas para Sam e John, meu rosto quase tocando a parte de trás do banco do vagão de metrô. Estou tão cansada que nem me importo quão nojento é dormir aqui. Em vez disso, agora que tudo está finalmente em silêncio e eu não estou correndo ou caçando lanches e eletrônicos deixados para trás, tudo o que eu consigo fazer é pensar nela. A incerteza. As palavras de Sam se repetem na minha cabeça.
As lágrimas começam a escorrer, silenciosas e caindo no banco à minha frente. Elas levam consigo minha última gota de energia, e antes que eu perceba, estou dormindo.

Um comentário:

  1. As suposições da Daniela me matam de rir! Kkkkkkkkk Ó azideia! Kkkkkkkkkk

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