16 de julho de 2016

Capítulo nove

ALGUÉM BATE FORTE NA PORTA, ME ACORDANDO. SAIO DA CAMA AOS TROPEÇOS, onde adormeci vestido, em cima dos cobertores. Minha mente está nebulosa, e uma olhada no relógio me diz que só estive no quarto por algumas horas.
Richards está no outro lado da porta. Ele me olha dos pés à cabeça.
— Você tem cinco minutos para se recompor — diz ele. — O senhor foi convocado para a sala de guerra.
— Convocado? — pergunto, tentando me concentrar e encontrar sentido nisso.
Olho para minhas roupas amarrotadas. Não tenho certeza de quando foi a última vez que tomei banho. Para alguém me levar a sério, precisarei me tornar um pouco mais apresentável.
— Cinco minutos — ele repete.
Fecho a porta e encontro uma camisa de botão branca no armário que é um pouco grande demais e espano minhas calças, em seguida, escovo os dentes, limpo os óculos, e tento arrumar o cabelo, que está apontado para todas as direções. Estou apenas começando a calçar os sapatos quando há outra batida na porta. Gamera vibra no ar ao meu lado, mas eu balanço a cabeça, esticando a mão para ele.
Ele já salvou minha vida, e não quero correr o risco de ele ser exposto na frente de quem quer que seja. Afinal, com certeza alguém vai notar que sempre tenho um inseto voando atrás de mim.
No corredor, Richards me entrega um copo de isopor de café.
— É preto — diz ele.
— É assim que eu gosto.
— Boa escolha.
Ele vira as costas e começa a seguir pelo corredor.
— O senhor tem certeza de que pode confiar nas pessoas que juntou aqui? Os ProMog – os humanos apoiantes dos alienígenas – são muitos. O vice presidente, o...
— A administração passou por uma turbulência generalizada ontem, quando tudo foi para o inferno. Um verdadeiro esquadrão de ataque do FBI comandado pela sua amiga Agente Walker cuidou da maioria daqueles que você designa parte do ProMog. Eles estão sob custódia agora. Os que escaparam estão escondidos. Os homens e mulheres aqui foram convocados ou, em alguns casos, tirados da aposentadoria para servir. Ainda assim, estamos mantendo um olhar atento sobre todos.
Meu quarto está definitivamente sendo vigiado.
— Essa é parte da razão pela qual estamos tão isolados? Será que as outras pessoas aqui também não sabem onde estamos?
— Decidiremos por conta própria em quem podemos ou não confiar — diz ele quando passamos por uma série de portas que me fazem perguntar quantas pessoas, exatamente, estão aqui embaixo. — Lembre-se que você foi trazido aqui como assessor especial, mas que o seu conselho só deve ser dado quando solicitado. Quaisquer decisões que forem tomadas aqui serão decisivas para o bem maior do país e, acima de tudo, elas são confidenciais. Partilhar qualquer informação que você ouvir aqui com pessoas não autorizadas será considerado um ato de traição.
— Claro — concordo, me perguntando se seria melhor ter ficado em Ashwood Estates.
Richards para na frente de duas portas duplas guardadas por quatro homens armados em uniformes militares.
— O destino da América e, possivelmente, do mundo, está prestes a ser decidido aqui. Há uma cadeira para você na parede dos fundos. Fique em silêncio até que lhe deem permissão para falar.
Ele empurra uma das portas e me leva para dentro.
A sala é mal iluminada, a maior parte da luz vem dos enormes monitores que cobrem as paredes, mostrando atualizações de notícias de todo o mundo. Pelo menos dois deles estão mostrando as imagens do vídeo de Sarah sobre John e a Garde. Outro mostra uma imagem instável de um edifício destruído em Manhattan.
Sam está seguro?
O cômodo em si é quase totalmente preenchido por uma mesa retangular gigante de mogno, onde uma dúzia de homens e mulheres está sentada. Eles vão desde a minha idade às pessoas com seus sessenta anos, talvez até um pouco mais velhas. Reconheço alguns deles como membros do gabinete. Um punhado de assessores mais jovens está ao fundo, tomando notas, tocando em dispositivos eletrônicos, ocasionalmente sussurrando no ouvido de alguém sentado à mesa.
Vozes enchem o ar, sobrepondo-se, todas competindo por atenção.
— ... a Guarda Nacional no Brooklyn. As tropas estão sendo mobilizados na Geórgia, mas quanto mais rápido pudermos levá-los até lá...
— ... Obviamente, seria um último recurso, mas temos protótipos de armas não testadas que poderiam revelar-se eficazes...
— .... viram o que aconteceu na China. As naves de guerra estão protegidas por algum tipo de campo de força. Nós poderíamos muito bem bombardear nossos próprios civis se lançarmos mísseis contra eles...
— ... sugere que uma evacuação em larga escala das grandes cidades americanas pode salvar milhões de vidas, mas o custo e a logística seriam...
— ... forças marcham através da ponte de Brooklyn e ao mesmo tempo deixam cair simultaneamente unidades no Central Park...
No outro extremo da sala, Arnold Jackson, o presidente dos Estados Unidos, está de costas para todos. Ele tem um telefone fixo encostado na orelha. Após alguns segundos, ele o abaixa. Vejo como ele respira fundo, recompondo-se, antes de virar-se para a mesa. Ele não se senta, apenas se inclina com as mãos pressionadas sobre a madeira polida.
Existem bolsas sob seus olhos. Seu cabelo preto cortado rente está salpicado com cinza, mais do que tenho notado na TV. Parece que ele envelheceu dez anos nas últimas vinte e quatro horas. O resto da sala fica em silêncio.
— A União Europeia está oficialmente aberta à ideia de negociar com Ra, apesar da forte desaprovação de várias nações, incluindo a Alemanha e a Espanha. Há tumultos generalizados em Moscou. Houve confirmação visual de uma nave ao longo da Coreia do Norte, mas não há comunicações do país, por isso não temos ideia de como eles vão reagir. Não há planos para atacar as naves depois de termos visto o que aconteceu em Pequim e o que levou a resistência em Nova York, mas todos estão juntando forças em silêncio para um contra-ataque, se necessário. E aqui estamos nós, nos escondendo no subsolo, enquanto naves de guerra pairam sobre milhões de cidadãos americanos. Então me digam, o faremos agora?
Todos começam a falar ao mesmo tempo. Dura, talvez, cinco segundos.
— Chega — diz Jackson. Ele se vira para um homem mais velho sentado à sua esquerda, que está vestido com um uniforme de oficial coberto por estrelas e pinos. — General Lawson. Qual é a sua avaliação da situação?
Lawson se inclina para trás em sua cadeira.
— Nova York e Pequim eram jogadores fortes — ele começa. Ele fala devagar, com um sotaque sulista vago que não consigo identificar a origem. — Estes alienígenas são espertos. Eles foram lentamente se infiltrando por anos. Isso significa que eles sabem como nós funcionamos como países individuais e como um planeta. Eles sabem como nos ganhar. Não se pode simplesmente destruir uma cidade como Nova York por causa de um evento que deu errado. Você faz isso para mostrar que é o único com o poder. Que pode fazê-lo novamente. Nova York era a sua bomba A. Inferno, eu apostaria que o contra-ataque em Pequim foi orquestrado pelos bastardos para mostrar ao resto do mundo que eles não podem ser tocados. Eles estão nos dizendo, em termos sutis, que este mundo é deles, se eles quiserem. Parece-me que temos dois cursos de ação: tentarmos ser mais espertos que eles, ou tentar explodi-los para fora do céu. Nenhuma forma será fácil.
— Há outra opção — diz o presidente. — Nós acatamos os mogadorianos. Vamos jogar junto com eles, pelo menos por agora. Se eles começarem a matar mais civis, que outra escolha teremos?
— O senhor está falando em rendição? — Lawson pergunta, estreitando os olhos. Mudo o peso dos meus pés enquanto ele continua. — Prefiro ver a humanidade à beira da extinção antes de nos tornarmos escravos. Há a possibilidade do emprego de algumas medidas mais extremas...
— Não autorizarei um ataque nuclear em solo americano — diz o presidente. — Mesmo se conseguirem derrubar uma dessas naves, as consequências seriam catastróficas, e o inimigo abriria fogo imediatamente sobre as outras cidades.
— Oh, eu concordo — responde Lawson. — Além disso, vamos deixar algum outro país com o dedo no gatilho para testar as armas nucleares em primeiro lugar. O que sugiro é enviar pequenas equipes para Nova York. Calmamente tomamos algumas de suas naves menores e soldados como reféns. Veremos o que podemos descobrir ou fazer através da engenharia reversa. Nós também devemos começar a interrogar os traidores do ProMog que foram presos. Agressivamente.
Jackson assente com a cabeça, em seguida, aponta para um dos monitores que exibe o vídeo de Sarah.
— E este “Garde”? John Smith. Já o encontramos?
— Eles são alienígenas ilegais que podem ter acabado de começar uma guerra interplanetária em solo americano — uma mulher loira com um coque diz. — Ra estava falando sobre a paz antes de eles o atacarem.
Me viro para ela, tentando entendê-la, tentando imaginar como a Garde pode ser responsabilizada por isso. Mas essas pessoas não fazem conhecem os lorienos como eu.
— Isso foi antes dele se transformar em um monstro ao vivo na televisão — alguém diz. Então, todo mundo está falando novamente.
— Eles são alienígenas. Como você esperava que eles parecessem?
— Por que não dizer ao povo de Manhattan que eles vieram em paz?
— Temos tropas procurando por ele em Nova York agora — Lawson se levanta e começa a andar em volta da mesa. — Francamente, senhor, apesar do que seus informantes do FBI dizem, eu não coloco muita fé em qualquer um desses extraterrestres. Não sabemos nada sobre eles, além do que este vídeo anônimo diz. O inimigo do nosso inimigo não é sempre um amigo. Quem vai dizer se John Smith não é pior que Ra?
— Ele não é — eu falo, dando um passo à frente. Todos se viram para olhar para mim. — Ele é – eles são a nossa única esperança de derrotar os mogadorianos.
Richards coloca a mão no meu ombro e me puxa para trás, mas o presidente acena para me chamar para a frente.
— Malcolm Goode, não é? — o general pergunta, enfatizando cada sílaba. — Bem-vindo. Sabe, fiz alguma pesquisa sobre você quando ouvi o presidente convidá-lo. Parece que muitas de suas teorias e ideais foram desacreditados por seus colegas quando você era professor. Na verdade, isso custou seu trabalho, não custou? Antes de ter sido sequestrado pelos alienígenas — ele faz uma pausa. — Eu sei por quê. Mesmo quando a prova de vida extraterrestre está caindo do céu ao nosso redor, dizer que fomos sequestrados ainda soa loucura para a maioria das pessoas — ele continua. — Como teremos certeza de que você não é apenas um idiota quem vai nos dizer que o Pé Grande é o líder dos illuminati?
— Com todo o respeito, General — falo, sentindo o aumento de calor em minhas bochechas - uma mistura de raiva e vergonha. — Eu sei mais sobre o que está acontecendo ao redor do mundo neste momento do que qualquer um nesta sala.
— Se os mogadorianos estiveram com você todos esses anos, por que não seria um espião?
Richards fala-se atrás de mim.
— Maior Briggs relata que os inimigos fizeram de tudo para tentar matá-lo.
— Não foi o suficiente, eu vejo — Lawson diz com uma sugestão de um sorriso.
— Tudo bem, General, isso é o suficiente — fala Jackson. — Dr. Goode, entendo que não foi fácil para o senhor chegar até aqui. Agradeço por ter vindo. Tenho sido informado sobre o seu trabalho em relação à comunicação intergaláctica e achei muito interessante. Brilhante mesmo, embora eu admita que certas partes foram de difícil compreensão. O que pode nos dizer sobre o que está acontecendo?
Tomo uma respiração profunda.
— Bem... tudo vem acontecendo durante mais de uma década. Mais tempo, na verdade. E isso levando em conta apenas o papel da Terra.
Conto-lhes tudo, ou pelo menos destaco os pontos mais importantes rapidamente. Minha prisão. Paradise. Chicago. A base mog em West Virginia. Não há motivo para esconder nada agora.
Algumas das pessoas da mesa riem ou reviram os olhos quando conto sobre os píkens ou os poderes que a Garde têm. Mesmo eles já tendo visto John em ação na TV, quando tento descrever a capacidade de Seis de criar tempestades, parece ser uma brincadeira. Mas eles se calam quando começo a falar sobre como nós descobrimos que os mogs e o governo estavam trabalhando juntos. Depois de tudo, o presidente e Lawson me encaram, sem expressar uma única emoção.
— E agora eu estou aqui — falo finalmente.
A sala fica mortalmente em silêncio por alguns segundos. Quase lamento não trazido Gamera comigo. Eu faria um desfecho espetacular ao atirá-lo em cima da mesa e assistir as bocas de todos se abrirem em estado de choque quando ele se transformasse. É claro, é provável que isso pudesse ser interpretado como um ataque contra o presidente, o que provavelmente terminaria comigo e Gamera mortos.
— Precisaremos retomar à base em Dulce — Jackson finalmente fala. — Eu quero saber o que aconteceu lá e porque diabos nós não sabíamos de nada. Ver se podemos rastrear este esquadrão do FBI que estava passando pente fino nos arquivos em Ashwood também. Oferecer-lhes o que eles precisarem para proteger a informação que reuniram a partir da base mogadoriana e descobrir se eles têm alguma pista sobre a forma de derrubar esses escudos das naves de guerra. Talvez haja alguma coisa nesses arquivos. E alguém precisa descobrir onde este lugar em West Virginia está localizado.
— Sr. Presidente — diz Lawson. — Esta história é muito boa, mas estamos falando de um punhado de adolescentes contra todo o seu exército. O senhor realmente quer confiar o destino do país num garoto de dezesseis anos?
Um dos assessores sussurra na orelha da mulher de coque.
— Parece que este John Smith se dá bem com a nação. Eles o amam. Pelo menos com base nestas imagens.
— Essas crianças soam como bombas-relógio, na melhor das hipóteses — um homem aponta. — Eu, pelo menos não gostaria de ficar em uma sala com um garoto que mal saiu da puberdade e que poderia quebrar o meu pescoço com um pensamento.
Lawson sorri.
— Aposto que nossos inimigos se sentem da mesma maneira.
— Gostem ou não — eu falo — a Garde é sua melhor chance de derrotar os mogadorianos sem lançar uma guerra em grande escala.
— Se eles querem lutar, deveriam estar lutando sob o nosso comando.
— Sem ofensa, general, mas o governo não tem uma história boa quando se trata de lorienos.
— Estamos falando de menos de uma dúzia da Garde e seus aliados, certo? — Jackson pergunta. Ele se vira para um assessor. — Prepare uma videoconferência com os nossos homens na zona de evacuação do Brooklyn. Quero esses Gardes encontrados. Quero falar com John Smith. Então descobriremos o que fazer a partir daí.
Um dos assessores de Jackson respira fundo e corre para o seu lado, deslizando um tablet na frente dele e sussurrando algo que não posso ouvir. Seus olhos se arregalam.
— Sr. Presidente... — eu começo.
Ele levanta a mão.
— Tenho as operações militares para coordenar e uma nação apavorada para presidir. Entrarei em contato quando tivermos mais perguntas.
E assim, Richards começa a me puxar para o corredor.
— Mas, senhor... — eu digo, mas todos na sala já voltaram sua atenção para um dos monitores na parede, onde o assessor está trazendo algum tipo de vídeo.
A última coisa que vejo antes de as portas da sala de guerra se fecharem atrás de mim são os olhos negros de Setrákus Ra na tela.

4 comentários:

  1. OMG! OMG! OMG! OMG! OMG!
    Espero que não dê merda.
    PS: kkkkk como se eu não soubesse que SEMPRE dá merda.

    ResponderExcluir
  2. Como se atrevem a duvidar da Garde depois de tudo o que aconteceu? Karina, pelo amor de Atena diz que o último livro está na lista para ser postado aqui!

    ResponderExcluir
  3. Karina nessa frase tem um errinho: "quando se trata da lorienos." você pode concertar por favor

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!