16 de julho de 2016

Capítulo nove

ACORDO DE REPENTE. DESCUBRO QUE LUTAR CONTRA ALIENÍGENAS A NOITE TODA E depois dormir num vagão de metrô sujo não te dá uma boa noite de sono. Pesadelos sobre minha mãe voltam à minha mente enquanto eu me recupero do choque de acordar num lugar estranho. Meus olhos ardem pelo lapso de sono, e a minha cabeça voltou a doer. Por alguma razão eu me lembro da escola, de quando tivemos que ler A Ilíada e aprender sobre os deuses gregos e coisas do tipo. Eu me lembro que uma das deusas nasceu da cabeça de seu pai. Afrodite, talvez? Ou Atena? Qualquer que seja, é como minha cabeça está agora: como se alguém estivesse batendo nela, tentando sair.
São estranhos os pensamentos que passam pela sua mente quando você acorda num vagão de metrô abandonado com um alienígena e seu companheiro super-humano.
O vagão do metrô está escuro como breu, exceto pelo brilho fraco do celular que está nas mãos de Sam. Ele está sentado em um dos assentos. Um punhado de revistas em quadrinhos escorregou de seu colo para o chão. Insuficiente para deixá-lo vigia e responsável por ter me acordado.
Eu me levanto, me espreguiço e sigo até ele. Há um fio de baba escorrendo pela lateral de sua boca. Eu me pergunto como ele pode dormir tão calmamente com tudo o que está acontecendo, mas acho que ele teve mais tempo para processar a informação de que alienígenas existem do que eu. Pego o celular de sua mão, o que não o faz esboçar reação alguma. Eu provavelmente não conseguiria acordá-lo nem se tentasse.
O celular me diz que já passou das cinco da manhã. Eu não sei se o sol já nasceu na superfície. Mal sei se ainda existe um sol, na verdade. Ligo a lanterna do celular e observo o interior do vagão. John não se moveu. Eu mantenho a luz sobre ele por tempo suficiente para saber se seu peito está se movendo para cima e para baixo antes de mudar minha atenção para a mochila de dinheiro que está abaixo do assento onde dormi. Eu não espiei dentro dela ainda, então abro o zíper, para o caso de haver algum tipo de arma que possamos usar. Eu me encontro olhando para uma quantidade de dinheiro que eu jamais saberia como gastar. Pego um montinho de notas de cem dólares e penso no que esse dinheiro teria significado apenas vinte e quatro horas atrás. Tudo. E agora... quem sabe? O futuro parece tão incerto.
O dinheiro é o único conteúdo da mochila.
Eu me sento, pegando um maço gordo de dinheiro na minha frente, formando um semicírculo, me abanando com ele e tentando descobrir quão longe eu estou da Canal Street ou onde quer que seja a próxima estação de metrô. Mas eu não sei onde estou. Não com certeza. Direciono a luz para as portas do vagão. Eu poderia ir embora agora. Pegar minha mochila e sair.
Esses caras ficariam bem sem mim. Não é a mesma situação de quando os túneis estavam desmoronando ao nosso redor. Eles acordariam e seguiriam em frente. Continuariam lutando.
Continuariam lutando.
As palavras que Sam disse. Talvez seja porque tive apenas algumas poucas horas de sono, ou talvez porque alienígenas grotescos atacaram nossa cidade – o que quer que seja, eu de repente me sinto só e perdida.
Tanto que eu quase chacoalho Sam para tentar acordá-lo. Eu poderia mentir dizendo que o estava acordando por ele ter dormido durante seu turno de vigia.
Mas ele precisa descansar. Ambos precisam.
Independentemente se eu decidir partir sozinha ou ficar com eles, precisarei de suprimentos. Mesmo se eu tiver uma dúzia de celulares comigo, se eu me perder nos túneis, não quero correr o risco de ficar presa com um bando de baterias descarregadas. Então guardo o dinheiro no bolso e sigo para a outra metade do trem que eu e Sam não vasculhamos.
É praticamente a mesma coisa dos outros vagões que exploramos ontem à noite. Um monte de lixo no chão. De vez em quando uma bolsa ou sacolas de supermercados com algumas coisas úteis. Encontro mais alguns celulares e duas sacolas de mercado gigantes – provavelmente mais de cem dólares em suprimentos. Pego um pote de amêndoas e as como enquanto continuo.
Três vagões depois, encontro uma pequena mochila azul em um dos assentos. Há saquinho de cenouras para bebês e uma maçã no bolso da frente. A parte maior contém um urso de pelúcia e alguns livros ilustrados. Essa é a mochila de algum aluno do ensino fundamental. Talvez até da pré-escola. Deixou para trás quando o trem parou por qualquer motivo.
De repente eu não me sinto mais com tanta fome.
Eu me sento com a mochila no colo, me sentindo um pouco tonta.
Tento usar a lanterna do celular para iluminar o lado de fora da janela, mas ela apenas é refletida pelo vidro. Não há nada além da escuridão esperando por mim do lado de fora, e a ideia de andar sozinha pelos túneis nessa escuridão parece maluca.
Mas então, tudo parece maluco agora. Eu me concentro na mochila. Ela flutua do meu colo e paira no ar. Eu olho para minhas mãos. Esse poder. O que eu devo fazer com ele? Percebi agora que estive fugindo – literalmente – desde que derrubei os mogs com minha telecinesia pela primeira vez. Eu não tive tempo para me sentar e pensar no que tudo isso significa. Quais serão meus próximos passos. Eu tinha um objetivo concreto de ir para o restaurante em que minha mãe trabalha que nem parei para pensar no que eu faria caso ela não estivesse lá. Essa nem foi uma possibilidade em que pensar, na verdade.
O que eu daria para poder voltar no restaurante e comer waffles? Para caminhar com minha mãe? Eu até seria mais legal com Benny – o veria com outros olhos. Como é possível a vida virar de cabeça para baixo num piscar de olhos? Na manhã de ontem eu era apenas uma garota normal. Meu maior problema era conseguir novos fones de ouvido. E agora... agora tudo é diferente. Eu estou diferente. Eu sou poderosa. E o mundo está acabando.
Mas talvez eu possa ajudar a impedir isso. Eu só não tenho certeza do que devo fazer.
Honre a pessoa que não está presente através de suas ações.
Minhas mãos começam a tremer e faço com que a mochila retorne para meu colo, e a abraço com força. Eu me pergunto o que seu dono estará fazendo agora. Espero por Deus que ele esteja seguro. Talvez a criança e seus pais tenham conseguido ir para a ponte do Brooklyn, para a zona segura de que John e o cara do rádio falaram.
Brooklyn. Tento colocar as coisas em perspectiva. Durante todo esse tempo eu estava cogitando minha mãe ainda estar no restaurante. Se escondendo. Porém, sendo mais realista, não é isso o que ela estaria fazendo, certo? Não se ela sobreviveu. Ela estaria me procurando. Tentaria chegar ao Harlem. Ela pode estar em qualquer lugar.
Ou talvez ela tenha sido levada para o Brooklyn contra sua vontade. Se ela foi ferida, deve ter sido levada para lá. Ou se o exército apareceu, devem ter forçado uma evacuação. Se o sol ainda não raiou – e se ele ainda estiver lá – será logo. Um novo dia irá começar, e minha mãe começará a se perguntar onde estou.
Eu me levanto, colocando a pequena mochila azul cuidadosamente de volta no assento. Então respiro fundo, junto o resto das coisas que encontrei e volto para o vagão onde meus amigos esquisitos estão dormindo.
Quando chego, tento me sentar e ficar quieta, e decido esperar que os meninos acordem sozinhos. Checo a bateria de alguns dos celulares que encontrei, deixando os que estão com a bateria cheia ligados para tentar fazer com que o interior do vagão pareça menos depressivo. Depois de um minuto ou dois, no entanto, começo a me preocupar que os dois pretendam dormir a manhã toda, e estou muito bem acordada para dormir de novo e esperar. Então eu tusso algumas vezes e jogo a falsa bolsa Prada no assento acima da cabeça de John.
Ele acaba acordando.
— Você está vivo — eu digo. Eu não tenho que fingir o sorriso.
John parece drogado, mas isso não o impede de recomeçar outro discurso de recrutamento depois de me repreender por estar carregando uma mochila cheia de dinheiro, como se eu fosse algum tipo de ladra comum. Como se ele me conhecesse. Eu não sei de onde ele tira toda essa coisa de “eu sei tudo o que você deveria estar fazendo com sua vida”. Ele fica todo sério e me diz como ele era jovem para revidar quando os mogs atacaram o planeta dele, mas que eu não sou e que posso fazer a diferença na Terra. As palavras fazem sentido.
Talvez, se eu não estivesse tão assustada por conta de minha mãe e dos alienígenas, eu aproveitaria essa chance. Eu não sei. É difícil pensar nisso agora.
John não é tão esperto quanto ele pensa que é. Ele nem sabia do vídeo no YouTube sobre ele que não para de passar nos noticiários, e fica com um olhar muito estranho quando termino de contar tudo para ele.
Eventualmente ele acorda Sam e diz que precisamos continuar andando. Antes de eu concordar em seguir com eles ou mesmo perguntar para onde estão indo, quero saber tudo o que eles sabem sobre o que está acontecendo no Brooklyn.
— Você mencionou que eles estão levando algumas pessoas para fora de Nova York...
— Sim — John responde. — O exército e a polícia estão protegendo a ponte do Brooklyn. Estão evacuando as pessoas por lá. Pelo menos estavam, até a noite passada.
Eu assinto. Na minha cabeça, tento imaginar os lugares onde minha mãe pode estar. Eu poderia tentar ir sozinha para o restaurante, ou poderia ir para a ponte do Brooklyn com esses dois caras que podem mover as coisas com a mente e atirar bolas de fogo e ver se ela está lá primeiro.
Seria bom não estar sozinha nessa busca. Especialmente se ainda houver esquadrões mogadorianos pelas ruas.
— Eu gostaria de ir para lá — digo, me levantando. — Para ver se minha mãe conseguiu escapar.
— Tudo bem.
Ele começa a sorrir como se soubesse que eu diria alguma coisa parecida com isso. Olho para ele e sigo para a porta do trem.
Que maluco.
— Nós devemos seguir por essa direção também.
— Que seja — eu murmuro, embora uma onda de alívio caia sobre mim quando ele diz isso. Eu não sei se algum deles me ouviu. Isso não importa. Estou grata por eles virem comigo, por não ter de seguir sozinha.
Sam grita para que eu não esqueça minha mochila. Troco um olhar com John, pronta para que ele me diga que esse dinheiro deveria ir para o fundo de guerra da Terra ou algo do tipo. Eu sei que falei algumas coisas parecidas para Jay mais cedo, mas não preciso ouvir uma lição de moral de John Smith sobre...
— Use sua telecinesia — ele diz, apontando para a mochila. — É bom para praticar.
Ok, talvez ele não seja um garoto escoteiro, afinal de contas. Dou-lhe um sorriso e sigo pela porta, a mochila flutuando atrás de mim. Hoje as coisas serão diferentes. Hoje eu irei encontrar minha mãe e nós vamos juntar as peças.
Estou a um passo fora do vagão quando eu vejo armas apontadas para mim. Levanto minhas mãos, e estou pronta para gritar e usar minha telecinesia. E então percebo que essas armas não são canhões mogadorianos. São armas humanas, seguradas por soldados humanos.
Ah, merda. Vou ser presa. A Terra está por um fio e eu vou para a prisão por estar levando o dinheiro que tecnicamente eu nem roubei.
— Opa, opa — eu digo, enquanto dou um passo para trás, usando meu poder para tentar esconder a mochila embaixo de um dos assentos.
Vejo John se mover lá atrás pelo canto do olho. Suas mãos estão em chamas.
— Espere — Sam diz. — Não são mogs.
Um deles reconhece John quando eles iluminam nossos rostos com lanternas. Percebo que eles não abaixam as armas imediatamente.
— Amigos seus? — pergunto.
— Não tenho certeza — John diz.
— Algumas vezes o governo gosta da gente, outras, nem tanto — Sam aponta.
— Ótimo — eu murmuro. Eu fiz um excelente trabalho escolhendo meus amigos. — Por um segundo, pensei que eles estavam aqui para me prender.
A voz de uma mulher sai através do walkie-talkie de um dos militares. Vejo John endurecer um pouco quando ele ouve. O homem dá um passo à frente.
— Por favor, venham conosco — ele fala. — A Agente Walker gostaria de dar uma palavrinha.
Olho para John, que assente para mim. Acho que Walker é amiga.
— Ei, para onde vamos? — pergunto.
— Para a zona de evacuação do Brooklyn — o soldado diz antes de se virar e seguir de volta pelo túnel.
Penso que as coisas estão começando a melhorar.
Eu não sei como explicar minha mochila para esses caras, então por mais que me doa, eu a deixo para trás.
Em algum lugar entre Spring e Canal, eu repito em minha mente, eu vou voltar por você, mãe. Logo estaremos juntas.

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