25 de julho de 2016

Capítulo dois


Não adianta tentar transmitir como foi duro para os sentimentos de Violet, Klaus e Sunny o período que se seguiu em sua vida. Se alguma vez vocês perderam uma pessoa que tinha grande importância para vocês, então sabem como é que nos sentimos nessas horas, e, se nunca perderam, não dá nem para imaginar. Para os jovens Baudelaire, é claro, foi uma experiência especialmente terrível, porque perderam pai e mãe de uma só vez, e durante muitos e muitos dias se sentiram tão arrasados que mal tinham ânimo para sair da cama. Klaus não conseguia achar interesse nos livros. Os mecanismos que punham em ação o cérebro inventivo de Violet pareciam estar travados. E até mesmo Sunny, que evidentemente era jovem demais para entender de fato o que estava acontecendo, dava suas mordidas com menos entusiasmo.
Naturalmente, não melhorou nada a situação o fato de eles terem ficado também sem a casa e sem tudo o que possuíam. Vocês devem saber muito bem que basta estarmos em nosso próprio quarto, em nossa própria cama, para os momentos mais horríveis perderem um pouquinho do seu peso esmagador. Mas as camas dos Baudelaire órfãos haviam sido reduzidas a escombros carbonizados. O sr. Poe os levara para dar uma olhada no que restava da mansão, para ver se sobrara algo que se pudesse aproveitar, e a impressão foi terrível: o microscópio de Violet se fundira por completo no calor do fogo. A caneta preferida de Klaus estava transformada em cinzas, e todas as argolas de Sunny pôr na boca para morder tinham se derretido. Num e noutro canto, as crianças podiam notar os vestígios do que outrora fora o casarão tão amado por elas: pedaços do seu piano de cauda, uma elegante garrafa em que o sr. Baudelaire guardava o conhaque, o estofamento esturricado da poltrona que ficava junto à janela e em que a mãe deles gostava de sentar e ler.
Com seu lar destruído, os Baudelaire tiveram que se recuperar da terrível perda transferindo-se para a casa da família Poe, cujo ambiente não era agradável. O sr. Poe raras vezes estava em casa, porque ficava muito ocupado cuidando dos interesses dos Baudelaire, e quando estava, tossia tanto que mal conseguia manter uma conversa. A sra. Poe comprou para os órfãos roupas em cores grotescas e que pinicavam o corpo. E os dois filhos de Poe – Edgar e Alberto – eram meninos barulhentos, agitados, muito antipáticos, com quem os Baudelaire tiveram que partilhar um quarto minúsculo em que predominava um cheiro de flor dos mais enjoativos.
Mas, apesar desse ambiente pouco convidativo, os jovens Baudelaire afundaram em dúvidas quando, durante um jantar de galinha cozida com batatas cozidas e vagem escaldada – a palavra escaldada que estou usando aqui significa “cozida” – o sr. Poe avisou que no dia seguinte eles se mudariam de sua casa.
“Ainda bem”, disse Alberto, com um pedaço de batata entre os dentes. “Assim recuperamos o quarto. Não aguento mais dividir o espaço. Violet e Klaus passam o tempo todo sem fazer nada, e não têm a menor graça.”
“E o bebê morde”, disse Edgar, jogando um osso de galinha no chão como se ele fosse um bicho no Jardim  zoológico e não o filho de um respeitável membro da comunidade financeira.
“Para onde iremos?”, perguntou Violet, nervosa.
O sr. Poe abriu a boca para dizer algo, mas rompeu num breve acesso de tosse.                   “Tomei providências” disse finalmente, “para que sejam criados por um parente afastado de vocês que mora no outro lado da cidade. Chama-se conde Olaf.”
Violet, Klaus e Sunny se entreolharam, sem saber o que pensar. Por um lado, eles não queriam continuar morando com os Poe. Por outro, nunca tinham ouvido falar no conde Olaf e não faziam Ideia de como ele pudesse ser.
“O testamento de seus pais”, disse o sr. Poe, “estabelece que vocês sejam criados nas melhores condições possíveis. Vocês já se acostumaram a morar na cidade, e esse conde Olaf é o único parente que vive dentro dos limites urbanos.”
Klaus refletiu um minuto sobre o assunto, enquanto mastigava longamente um pedaço de vagem que estava custando a engolir. “Mas nossos pais nunca mencionaram para nós o conde Olaf. Qual é exatamente o grau de parentesco que ele tem conosco?”
O sr. Poe suspirou e baixou os olhos na direção de Sunny, que mordia um garfo e escutava, atenta. “Ele é primo em terceiro ou quarto grau de vocês. Não é o seu parente mais próximo na árvore genealógica, mas é o mais próximo geograficamente. É por isso que...”
“Se ele mora na cidade”, disse Violet, “como é que nossos pais nunca o convidaram para ir lá em casa?”
“Talvez por ele estar sempre muito ocupado”, disse o sr. Poe. “É um ator profissional, e viaja muito pelo mundo com as mais diversas companhias teatrais.”
“Pensei que ele fosse um conde”, disse Klaus.
“Ele é um conde e um ator”, disse o sr. Poe. “Bom, lamento interromper a refeição, mas vocês precisam arrumar as malas, e eu tenho que voltar ao banco para continuar meu trabalho. Na condição de seu novo tutor legal, eu tenho muitos afazeres.”
Os três irmãos Baudelaire tinham muitas outras perguntas para fazer ao sr. Poe, mas ele já se levantara da mesa e, com um leve aceno de mão, retirou-se da sala. Ainda ouviram quando tossiu no seu lenço, até que finalmente a porta da frente rangeu ao fechar quando ele saiu para a rua.
“Bom”, disse a sra. Poe, “vocês tratem de ir arrumando as malas. Edgar, Alberto, por favor, venham me ajudar a tirar a mesa.”
Os órfãos Baudelaire foram para o quarto e melancolicamente arrumaram as malas com seus poucos pertences. Klaus olhava desgostoso para cada uma das camisas feiosas e ordinárias que a sra. Poe havia comprado para ele, à medida que as dobrava,  ia pondo numa maleta. Violet observava à sua volta e colhia uma impressão geral do cômodo malcheiroso e atravancado em que tinham estado morando. E Sunny engatinhava em todas as direções e mordia solenemente cada um dos sapatos de Edgar e Alberto, deixando marcas de seus dentinhos para que não fossem esquecidos. De quando em quando, os jovens Baudelaire se entreolhavam, mas, com o futuro sendo um tal mistério, não conseguiam imaginar nada para dizer. Deitados para dormir, viraram-se e se agitaram na cama a noite toda, mal conseguindo um farrapo de sono entre os roncos pesados de Edgar e Alberto e a perturbação que os seus próprios pensamentos aflitivos lhes causavam. Até que, por fim, o sr. Poe bateu à porta e pôs a cabeça dentro do quarto.
“Bom dia, vamos começar o grande dia”, disse ele. “Está na hora de vocês irem para a casa do conde Olaf.”
Violet olhou para o quarto atravancado em torno dela e, apesar de não gostar dali, sentiu-se muito aflita por ter que ir embora. “Temos que ir neste exato momento?” perguntou.
O sr. Poe abriu a boca para falar, mas primeiro tossiu algumas vezes. “Têm, sim. Vou deixá-los no meu caminho para o banco, de forma que precisamos ir o mais rápido possível. Por favor, saiam da cama e vistam-se”, disse ele, num tom de absoluta determinação.
De absoluta determinação aqui significa “que não dava margem a dúvidas quanto à urgência dos jovens Baudelaire irem para a rua”.
Os órfãos Baudelaire deixaram a casa. O automóvel do sr. Poe seguiu, lento e ofegante, pelas ruas calçadas com paralelepípedos em direção ao bairro da cidade onde morava o conde Olaf. Passaram por carruagens puxadas por cavalos, passaram por motocicletas ao longo da Passagem da Calmaria. Passaram pela Fonte Volúvel, um monumento lindamente esculpido de que às vezes jorrava água, fazendo a diversão da criançada. Atravessaram um vasto espaço de terra batida onde outrora ficavam os Jardins Reais. Após algum tempo, o sr. Poe desceu com seu carro uma viela ladeada por casas de tijolos e parou a meio caminho do final do quarteirão.
“Cá estamos”, disse o sr. Poe, num tom de voz que tinha a intenção de ser animador. “Eis o novo lar de vocês.”
Os jovens Baudelaire olharam para fora e se depararam com a casa mais bonita do quarteirão. Os tijolos haviam recebido uma limpeza para valer, e pelas amplas janelas abertas dava para ver uma coleção de plantas bem tratadas. Diante da entrada da casa, com uma das mãos segurando a reluzente maçaneta de metal da porta, uma senhora de certa idade, elegantemente vestida, sorria para os Baudelaire. Na outra mão tinha um vaso de flores.
“Olá!”, cumprimentou com muita simpatia. “Vocês devem ser as crianças que o conde Olaf está adotando.”
Violet abriu a porta do automóvel e saiu para cumprimentar a mulher com um aperto de mão. Sentiu um contato firme e caloroso, e pela primeira vez desde um tempo razoavelmente longo sentiu que sua vida e a de seus irmãos poderiam enfim tomar um rumo feliz.
“Sim”, disse. “Somos nós, sim. Eu sou Violet Baudelaire, e este é meu irmão Klaus, e esta é minha irmã Sunny. E este é o sr. Poe, que tem se encarregado de resolver tudo para nós desde a morte de nossos pais.”
“Soube do acidente”, disse a mulher, enquanto todos terminavam de dizer como vai?. “Sou Justice* Strauss.”
“Um prenome meio fora do comum”, observou Klaus.
“É meu título”, ela explicou, “não meu prenome. Sou juíza na Suprema Corte.”

(*) Justice pode, de fato, ser “Justiça” (como Klaus achou que fosse). Mas é também o título usado na Inglaterra e nos Estados Unidos para designar “Juiz da Suprema Corte”. (N. T)

“Fascinante!”, disse Violet. “E é casada com o conde Olaf?”
''Ah, não, imagine!”, disse a juíza Strauss. “Na verdade, eu nem o conheço muito bem. Ele é apenas meu vizinho.”
Os meninos deslocaram o olhar, transferindo-o da casa lindamente conservada da juíza Strauss para a casa deploravelmente dilapidada que ficava ao lado. Os tijolos estavam encardidos e ensebados. Na fachada, só duas pequenas janelas, mantidas fechadas apesar de o dia estar muito bonito. Acima das janelas se erguia uma torre alta e suja, um pouco tombada para a esquerda. A porta da frente estava precisando ser repintada, e entalhada em seu centro havia a imagem de um olho. A construção inteira caía para um dos lados, como um dente torto.
 “Oh!”, disse Sunny, e todo mundo entendeu o que ela quis dizer. Ela quis dizer: Que lugar mais terrível! Não quero ir morar lá de jeito nenhum!
“Bem, foi um prazer conhecer a senhora”, disse Violet para a juíza Strauss.
“Sim”, disse a juíza, e indicou com um gesto o seu vaso de flores. “Quem sabe vocês não aparecem qualquer dia desses para me ajudar na jardinagem?”
“Isso seria muito agradável”, disse Violet muito tristemente. Sem dúvida, seria muito agradável ajudar ajuíza Strauss em sua jardinagem, mas Violet não pôde deixar de pensar que seria bem mais agradável morar na casa da juíza Strauss, e não na casa do conde Olaf. Que tipo de homem seria aquele, perguntou-se Violet, capaz de entalhar a imagem de um olho na sua porta da rua?
O sr. Poe tocou com os dedos respeitosamente aba do seu chapéu para se despedir da juíza Strauss, que sorriu para as crianças e em seguida desapareceu dentro de sua adorável casa. Klaus deu dois passos para a frente e bateu à porta do conde Olaf, com os nós dos dedos fazendo pontaria bem no centro do olho entalhado. Houve uma pausa, e logo a porta se abriu com um rangido, e as crianças viram o conde Olaf pela primeira vez.
“Olá, olá, olá”, disse o conde Olaf num murmúrio ofegante. Ele era muito alto e muito magro, e vestia um terno cinzento com várias manchas escuras. O rosto estava sem barbear e, no lugar das duas sobrancelhas que a maioria dos seres humanos possui, tinha uma única, bem comprida. Seus olhos brilhavam intensamente, o que lhe dava uma aparência de faminto e zangado ao mesmo tempo. “Olá, meus filhos. Entrem em seu novo lar, mas antes esfreguem a sola dos sapatos aí fora, para não trazerem lama para dentro de casa.”
Quando entraram na casa, com o sr. Poe atrás, os órfãos Baudelaire perceberam o ridículo das palavras que o conde Olaf acabara de dizer. A sala em que se encontravam era o lugar mais sujo que já tinham visto, e um pouco de lama que trouxessem da rua não teria feito a menor diferença. Mesmo à luz fraca de uma única lâmpada presa num fio que pendia do teto, as três crianças podiam ver que tudo naquela sala estava na maior imundície, desde a cabeça empalhada de um leão pregada na parede até a tigela com pedaços de maçã sem casca sobre uma mesinha de madeira. Klaus fez força para não chorar quando passou os olhos à sua volta.
“Parece que esta sala está precisando de uma limpeza”, disse o sr. Poe, tentando enxergar na penumbra reinante.
“Sei muito bem que minha humilde morada não se compara à mansão dos Baudelaire”, disse o conde Olaf, “mas talvez com um pouco do seu dinheiro possamos lhe dar um aspecto melhor.”
Os olhos do sr. Poe cresceram, tomados de surpresa, e sua tosse ecoou pela sala escura antes de ele falar. “A fortuna dos Baudelaire”, disse com firmeza, “não será usada para finalidades como essa. Na verdade, não será usada de forma nenhuma antes de Violet atingir a maioridade.”
O conde Olaf se virou para o sr. Poe com um piscar de olhos semelhante ao de um cão enfurecido. Por um instante Violet pensou que ele ia esbofetear o sr. Poe. Mas ele engoliu em seco – as crianças viram o seu pomo-de-adão se mexendo para cima e para baixo dentro da garganta magrela – e deu de ombros.
“Tudo bem”, disse, “para mim tanto faz. Muito obrigado, sr. Poe, por tê-los trazido até aqui. Meus filhos, agora deixem-me mostrar o seu quarto.”
“Adeus, Violet, Klaus e Sunny”, disse o sr. Poe, encaminhando-se para a porta da rua. “Espero que sejam muito felizes aqui. Continuarei a visitá-los ocasionalmente, e vocês podem me procurar no banco se tiverem perguntas a fazer.”
“Mas nem sequer sabemos onde fica o banco”, disse Klaus.
“Tenho um mapa da cidade”, disse o conde Olaf. “Adeus, sr. Poe.” O  conde se inclinou depressa para a frente a fim de fechar a porta, e os órfãos Baudelaire estavam mergulhados demais em seu desespero para querer se despedir do sr. Poe ainda uma última vez. Naquele momento teriam desejado mais que tudo continuar na casa do sr. Poe, apesar do mau cheiro. Em vez de olhar para a porta, os órfãos olharam foi para baixo, e viram que, embora o conde Olaf estivesse calçado com sapatos, não estava usando meias. E dava para eles verem, no intervalo de pele muito branca situado entre a surrada bainha da calça e o seu sapato preto, que o conde Olaf tinha tatuada a imagem de um olho em seu tornozelo, igual à do olho em sua porta da rua. Ficaram imaginando quantos outros olhos não haveria na casa do conde Olaf, e veio-lhes um pressentimento de que, para o resto de sua vida, estariam sempre se sentindo sob a estreita vigilância do conde Olaf, mesmo quando ele não estivesse por perto.

4 comentários:

  1. Por um momento, eles pensaram que não ia ser tão ruim

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  2. Nossa imagina a decepção !

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  3. Tadinhos deles, esse homem é estranho.

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