16 de julho de 2016

Capítulo dois

NADA DISSO PARECE REAL.
Uma nave gigante paira sobre Manhattan. Ela apareceu do nada. Uma droga de nave. Eu tentei vê-la com meus próprios olhos, mas as únicas janelas do nosso apartamento me mostravam apenas os outros prédios da vizinhança, então tudo o que posso ver quando olho para fora são tijolos e vidros sujos e o pequeno beco abaixo de nós.
Mas está tudo na TV. Estamos sentados, vidrados na tela. Benny fica cruzando as mãos e sussurrando orações que eu nem imaginava que ele soubesse. Ele tem um taco de baseball no colo e não se mexeu por uma hora. Talvez mais.
Passo o meu tempo mudando de lugar no sofá ou andando pela sala de estar, constantemente checando meu celular e também o de Benny, para ver se algum deles capta algum sinal. Não conversamos entre nós salvo quando ouvimos grupos de pessoas correndo pelos telhados. Começo a seguir em direção à porta, mas Benny diz “fique aqui” de uma forma que me faz sentar novamente.
Além disso, fico esperando a porta se escancarar e minha mãe aparecer. Eu não quero estar no telhado quando isso acontecer.
O que quer que isso seja, não está acontecendo apenas aqui em Nova York, mas em cidades ao redor do mundo. Alguns estão chamando de invasão. Outros de guerra. Nada disso faz sentido. É impossível fazer a minha cabeça entender. Esses alienígenas estranhos com armas a laser que continuam aparecendo na TV só podem ser montagens feitas por computador. Ou é apenas algum tipo de jogada de marketing para um filme ou coisa do tipo. Eu me lembro de aprender na escola sobre uma antiga transmissão de rádio em 1930 que falava sobre invasão alienígena. As pessoas pensaram que fosse real, mas acabou por ser uma farsa. Isso tem que ser uma farsa, certo?
Ou pelo menos é nisso que tento acreditar.
Se isso for uma piada, é a melhor e mais cara piada da história. Os noticiários continuam mostrando imagens feitas por celulares e tablets – acho que algumas pessoas têm a sorte de conseguir sinal. A maioria tem imagens tremidas ou borradas. Algumas com maior qualidade.
Alguns canais começam a mostrar um vídeo retirado do YouTube. É de uma garota que deixou um recado como num anúncio público, fala sobre o garoto loiro que vi lutando na TV mais cedo – aparentemente seu nome é John Smith – e como ele é um alienígena do bem. E que um bando de alienígenas do mal está aqui para conquistar a Terra.
Essa é a porcaria mais louca que já vi.
Toda vez que o portão bate, fico agitada e olho para a porta, esperando que seja minha mãe. Mas nunca é. Na décima segunda vez que ouço, o barulho do metal é seguida por uma voz masculina gritando:
— Caramba! Merda! Eles estão aqui! — o eco do seu choro sobe pelas escadas do prédio. — Eles estão no quarteirão! Eles estão no quarteirão!
Reconheço a voz como sendo a do homem de idade que se senta na nossa varanda e de vez em quando conversa com os pássaros. Eu me viro para Benny, mas ele apenas estala a língua e balança de leve a cabeça.
— O garoto está perdendo — ele diz, sem tirar os olhos da TV. — Esses monstros pálidos não vão se incomodar com Harlem. Estamos seguros aqui.
Ele aumenta o volume da TV. O canal que estamos assistindo está transmitindo ao vivo do centro, onde a maioria dos policiais de NY está – parece que os alienígenas estão concentrados lá. Benny se inclina para frente em sua poltrona, murmurando algo que não ouço. Alguns alarmes são disparados no quarteirão. Embora ele esteja convencido de que os alienígenas não virão para o Harlem, eu me levanto e vou na ponta dos pés até a porta da frente, abrindo-a um pouco para que eu possa espiar o pequeno hall de entrada. Mas não há nada lá – apenas as duas portas dos outros apartamentos e a luz com mal contato que deveria ter sido trocada há meses.
Atrás de mim, uma repórter fala.
— Os... os... os mogadorianos — ela diz, e eu repito a palavra em minha mente. — Eles tomaram as ruas em massa e parecem estar, ah, fazendo prisioneiros, embora tenhamos visto algumas cenas mais violentas à... à... menor provocação...
Prisioneiros?
— Jesus Cristo — Benny diz.
Continuo olhando para fora, tentando captar algo fora do comum.
Há um barulho muito alto lá embaixo e o som do metal se torcendo, como se o portão tivesse partido ao meio ou coisa assim. Eu me afasto para trás na porta, gritando um pouquinho, e começo a entrar em pânico.
— São eles! — exclamo, mais alto do que pretendia. Meu coração de repente está a mil por hora enquanto olho em volta, procurando por uma arma.
— Cale a boca! – Benny diz, pulando de sua poltrona e colocando a TV no mudo. Estou tão assustada que nem me irrito com as ordens dele. Quando ele vê meu rosto, sua expressão fica mais branda e ele abaixa o tom de voz para um sussurro. — Quis dizer para não fazer barulho. Droga.
Há gritos em algum lugar lá embaixo. Altos e aterrorizantes. Prendo a respiração enquanto dou cinco passos para longe da porta e vou para perto de Benny. Há outro grito, e esse foi interrompido de repente. Começo a tremer. Minha respiração vem aos trancos.
Benny segura meus ombros e me puxa para trás. Por um segundo penso que ele está apenas me puxando para longe da porta. Então percebo que ele está tentando me pôr para trás dele.
— Vá se esconder — ele ordena me soltando.
Eu me viro para ele. Há algo em seus olhos que eu nunca tinha visto antes.
Medo.
— Vá logo — ele incita.
Começo a pensar em alguns lugares onde eu poderia me esconder no nosso apartamento – debaixo da minha cama, no armário – e de repente eu me sinto como se tivesse cinco anos de idade, brincando de esconde-esconde. Mas essas aberrações alienígenas definitivamente não estão de brincadeira. Nosso apartamento é tão pequeno. Se eles quiserem me encontrar, encontrarão.
Os gritos estão ficando mais altos, mais perto. Eles estão subindo. Posso ouvi-los arrombando as portas agora, junto com sons eletrônicos como os que ouvi na TV – o som de suas armas.
Que diabos está acontecendo?
Há gritos do lado de fora do nosso apartamento agora. Berros e ordens para abrir as portas. Eu congelo em nossa sala de estar.
Benny segura o taco de baseball e anda devagar na direção da porta, quase na ponta dos pés. Ele se encosta na parede ao lado vão de entrada e segura o taco como se fosse um martelo. Ele olha para mim, e seu rosto se franze numa expressão a que estou mais familiarizada: raiva.
— Vamos lá, sua idiota – ele diz. — Vai!
Ele gesticula para a janela do outro lado da sala de estar, onde as cortinas brancas e transparentes que mamãe ama estão ondulando para fora com a leve brisa.
A escada de incêndio. Ele quer que eu fuja por ela.
Eu o escuto e corro, e então estou na metade do andar de baixo quando percebo que Benny ficou para trás para afastar os alienígenas e me dar uma chance para escapar. Ele deveria estar vindo comigo. O que minha mãe diria se descobrisse que eu simplesmente o deixei para trás?
Oh Deus, espero que ela esteja segura.
Então subo e estico minha cabeça até a janela da nossa sala de estar a tempo de ver a porta da frente voar para dentro.
Qualquer esperança desses caras serem atores com uma maquiagem realmente boa desaparece quando quatro dos monstros pisoteiam a porta, todos com pele pálida, dentes afiados e narizes grandes.
Não há dúvidas de que essas coisas sejam de outro planeta.
E eles não parecem nada felizes.
Um deles vê algo do lado de fora da janela, seus olhos negros se estreitando.
Eu me abaixo, esperando que nenhum deles tenha me visto.
— Renda-se ou morrerá – um deles diz com uma voz ríspida e grossa.
Benny sai de onde estava e gira o taco como um profissional, acertando a cabeça do alienígena. O bastardo cai com força no chão, e então se desintegra. Simplesmente se transformou em cinzas como se fosse um vampiro de filme que foi empalado ou coisa do tipo.
Mas essa foi a única tacada que Benny realizou. Um dos alienígenas – mogadorianos – atira com uma arma a laser contra ele, e Benny voa para trás por alguns metros antes de se chocar contra a mesinha de centro. Ele começa a convulsar no chão.
Coloco minha mão sobre minha boca.
Quando Benny começa a retomar o controle de seu corpo, ele olha para a janela. Nós trocamos olhares por alguns momentos. Os meus olhos estão arregalados, assustados. Os deles estão implorando.
— Corra! — ele grita, e parece que fazer isso causa um bocado de dor nele. Sangue escorre de seus ouvidos e nariz. — Corra, droga!
E então eu corro. Enquanto desço correndo pelos degraus de metal, ouço mais daquele som elétrico vindo do meu apartamento. Benny grita algumas vezes. E então tudo fica em silêncio. Paro na extremidade do fim da escada de incêndio. Eu só quero ouvir Benny xingando os alienígenas ou o som de seu taco acertando a cabeça de mais alguém. Em vez disso, olho para cima e vejo um dos bastardos pálidos saindo da janela de estar do meu apartamento. Ele está com sua arma apontada para mim.
— Merd...! — eu exclamo, mas não consigo terminar a frase. Ele atira e eu apenas tenho tempo para sair da escada de incêndio. Eu prefiro cair no chão do que ser atingida pelo tiro da arma de um alienígena.
O tiro elétrico deve ter passado raspando em mim, pois enquanto caio, consigo sentir algum tipo de estática através do meu corpo. Mas então não há nada além do vento entre mim e o chão abaixo, e estou caindo.
Despenco dentro de uma lixeira aberta – salva pelo lixo.
Saio de dentro da lixeira e sigo tropeçando pelo beco que há entre nosso prédio e o do lado, tentando captar algum sentido no caos que há ao meu redor. Faço uma pausa na esquina e espio em direção à rua do meu bairro. Alguns carros foram virados ao contrário. Alarmes estão sendo disparados em todos os lugares. Uma das naves extraterrestres que vi na TV está estacionada no meio de um cruzamento no final do quarteirão.
Do outro lado da rua, meia dúzia de alienígenas lidera uma fila de pessoas que saem dos prédios. Pessoas que reconheço do meu bairro. Homens, mulheres e crianças. Eles são forçados a ficar de joelhos na calçada com as mãos para cima. Os mogadorianos seguem atingindo-os com os cabos de suas armas. Eu quero ajudá-los, quero fazer alguma coisa para salvá-los, mas não consigo nem me mover.
Mal estou conseguindo respirar. Estou tão assustada, e tenho que engolir com força a vontade de vomitar. Sinto como se meu coração estivesse tentando sair através do meu peito.
Assim as lágrimas enchem os cantos dos meus olhos, mas não tenho certeza se são por mim, pela minha mãe ou até mesmo por Benny. É só então que me dou conta de que ele é única razão por eu ter conseguido escapar. Ele distraiu os alienígenas, tentou impedi-los para que não chegassem até mim. Ele não precisava ter feito o que fez. Droga, ele poderia ter fugido comigo.
Mas não fugiu. Ele me disse para correr enquanto ficava para trás.
Meu padrasto estúpido me protegeu e acabou morto por isso.
Por um segundo, há uma gota de culpa em minha garganta por cada coisa ruim que eu já disse sobre Benny. Mas então ouço um rangido vindo do beco: um daqueles bastardos está começando a descer a escada de incêndio, talvez vindo atrás de mim. Então sussurro um pedido de desculpas para Benny e para meus vizinhos que estão na calçada, e sigo em frente para tentar me salvar. Minhas pernas começam a se mover, a correr. Vou para longe da nave e das pessoas que estão enfileiradas nas ruas e vou em direção ao parque.
Se eu conseguir atravessá-lo, talvez eu consiga alcançar o metrô. Talvez os trens ainda estejam funcionando e eu possa chegar ao centro para encontrar a minha mãe.
Sigo devagar e uso os carros que estão nas laterais da rua como cobertura. Passo por vários outros prédios residenciais e pelo hidrante de incêndio que eu costumava a usar para brincar nos verões quando eu era criança. Água jorra do hidrante, agora quebrado, sobre um corpo que está caído na calçada. Um corpo que não está se movendo.
Tento não olhar para ele enquanto sigo pela rua e dobro a esquina, onde dou de cara com três alienígenas que estão de costas para mim. Eu fico tão surpresa que acabo tropeçando no meu próprio pé, caindo com força no chão. Forte o bastante para eu não conseguir evitar um grito.
Eles se viram. O que está mais perto de mim tem tatuagens negras por toda a sua cabeça. Ele solta um som que se parece com o som de uma lixa. Demora algum tempo para eu perceber que ele está rindo de mim.
Estou ferrada.
Tento levantar e correr, mas os três são mais rápidos. Eles apontam suas armas para mim, e sei que não importa o quão rápido eu consiga me mover, eu não vou conseguir escapar. Eles atirarão em mim se eu correr.
— Renda-se ou morrerá — o mogadoriano diz.
Eu olho ao redor, mas não há ninguém para me ajudar. Eu mal posso ver as pessoas que estavam no meu quarteirão de onde estou agora. Acho que todos fomos cercados, ou estão todos escondidos, ou...
Meus olhos recaem sobre o corpo imóvel perto do hidrante.
Esses alienígenas vão me matar na droga do meu próprio bairro.
O que está mais perto de mim range seus dentes pontiagudos e cinzentos no que eu talvez possa considerar como sendo um sorriso em Marte ou qualquer que seja o inferno de onde eles vieram. Seus dedos estão no gatilho.
Há um zunido em meu peito. Eu mal posso suportar. Sinto como se alguém tivesse explodido uma bexiga dentro de mim, a dor é tanta que tenho certeza que estou prestes a explodir.
Meu coração acelera.
Esse é o fim.
Mãe, me desculpe.
Jogo minhas mãos para frente para me proteger. Como se isso fosse fazer alguma coisa para me defender.
E então o impossível acontece.

2 comentários:

  1. "Eu quero ajudá-los, quero fazer alguma coisa para salvá-los, mas não consigo nem me mover." Será esse um dos motivos dela ter ganhado legado? :v

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  2. Também estava pensando nisso em como esses legados parece coveniente, a invisibilidade para a 6 fugir, da transformaçao do 8 em um Deus indiano, da 7 respirar em baixo d'água, do 5 poder voar quando estava quase morrendo no meio do nada, sei lá me pareceu bem conveniente.

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