30 de julho de 2016

Capítulo dez


Quando vocês eram muito pequenos, talvez alguém tenha lido para vocês a insípida história – a palavra “insípida” aqui quer dizer “indigna de se ler para alguém” – do Menino que deu Alarme contra o Lobo. Um menino muito bobo, vocês devem estar lembrados, gritou “Lobo!” quando não havia nenhum lobo, e então os crédulos habitantes da aldeia que correram para salvá-lo ficaram sabendo que era tudo brincadeira. Até que um dia ele gritou “Lobo!” quando não era de brincadeira, e os habitantes não vieram salvá-lo, e o menino foi comido, e a história, graças a Deus, terminava aí.
A moral da história, é claro, deveria ser: “Não more jamais num lugar onde os lobos passeiam à vontade”, mas quem leu para vocês a história provavelmente terá dito que a moral era que não se deve mentir. Ora, essa é uma moral absurda, pois tanto vocês como eu sabemos que às vezes mentir não somente é bom como é necessário. Por exemplo: era perfeitamente apropriado que, depois de Violet deixar a Sala dos Répteis, Sunny se arrastasse até a gaiola onde a Víbora Incrivelmente Mortífera estava presa, destravasse o fecho e começasse a gritar o mais alto de que era capaz, embora nada de realmente errado estivesse acontecendo.
Há outra história a respeito de lobos que provavelmente devem ter contado a vocês e que também é absurda. Estou falando de Chapeuzinho Vermelho, uma garotinha bastante desagradável que, como o Menino que deu Alarme contra o Lobo, insistiu em intrometer-se no território de animais perigosos. Como vocês hão de estar lembrados, o lobo, depois de ser tratado muito rudemente por Chapeuzinho Vermelho, comeu a avó da menina e vestiu a roupa da velha como disfarce. Esse é o aspecto mais ridículo da história, porque mesmo uma garota tão boboca como Chapeuzinho Vermelho saberia na mesma hora notar a diferença entre a avó e um lobo metido numa camisola e calçado com chinelos felpudos. Quando conhecemos muito bem uma pessoa, como nossa avó ou a babá, na mesma hora sabemos dizer se elas são reais ou se são impostoras. Por isso, quando Sunny começou a gritar, Violet e Klaus perceberam de imediato que o grito era absolutamente falso.
“Esse grito é absolutamente falso”, Klaus disse para si mesmo, do outro extremo da Sala dos Répteis.
“Esse grito é absolutamente falso”, Violet disse para si mesma, das escadas, enquanto subia para o seu quarto.
“Meu Deus! Alguma coisa está saindo terrivelmente errado!”, disse o sr. Poe para si mesmo, da cozinha, onde falava ao telefone. “Adeus”, disse, concluindo a ligação. Pôs o aparelho no gancho e saiu correndo para ver o que tinha acontecido. “Que foi que houve?”, perguntou o sr. Poe a Stephano e ao dr. Lucafont, que acabavam de tirar as malas do carro e entravam na casa. “Ouvi uns gritos vindos da Sala dos Répteis.”
“Tenho certeza de que não houve nada”, disse Stephano.
“Sabe como são as crianças”, disse o dr. Lucafont.
“Não podemos ter outra tragédia em nossas mãos!”, disse o sr. Poe, que saiu disparado para a enorme porta da Sala dos Répteis. “Crianças! Crianças!”
“Aqui!”, gritou Klaus. “Venha depressa!” A voz dele soava profunda e rascante, e quem não o conhecesse diria que estava muito assustado. Quem de fato o conhecesse saberia que quando Klaus realmente estava com medo a voz dele saía tensa e esganiçada, como foi o caso quando ele descobriu o corpo do tio Monty. Sua voz só ficava rascante e profunda quando ele tentava conter o riso. Foi uma grande coisa Klaus ter conseguido não rir no momento em que o sr. Poe, Stephano e o dr. Lucafont entraram na Sala dos Répteis. Teria estragado tudo.
Sunny achava-se deitada sobre o piso de mármore, com os bracinhos e as perninhas agitando-se freneticamente como se ela estivesse tentando nadar. A expressão facial dela foi o que fez Klaus ter vontade de rir. A boca de Sunny estava escancarada, mostrando seus quatro dentes afiados, enquanto os olhos piscavam rápido e sem parar.
Ela estava tentando parecer muito assustada, e quem não conhecesse Sunny acreditaria piamente. Mas Klaus conhecia Sunny e sabia que, quando ela ficava muito assustada, seu rosto se franzia todo e mergulhava no maior silêncio, como quando Stephano ameaçou de arrancar um dos dedos do pezinho dela. Para todos, menos para Klaus, Sunny parecia bem apavorada, especialmente levando-se em conta a companhia. Enroscada no corpo miúdo de Sunny, estava uma cobra negra, de um negrume de mina de carvão e grossa como um cano de esgoto. Ela olhava para Sunny com olhos verdes que brilhavam intensamente, e tinha a boca aberta como se estivesse a ponto de mordê-la.
“A Víbora Incrivelmente Mortífera!”, gritou Klaus. “Vai mordê-la!”, e a voz de Klaus esganiçou-se ao mesmo tempo que Sunny escancarou ainda mais a boca e arregalou ainda mais os olhos para parecer ainda mais assustada. A boca do dr. Lucafont também se abriu, e Klaus percebeu que ele começou a dizer qualquer coisa mas foi incapaz de encontrar palavras. Stephano, que evidentemente não estava ligando a mínima para a segurança de Sunny, mostrou-se pelo menos surpreso, mas foi o sr. Poe quem entrou em pânico absoluto.
Há dois tipos básicos de pânico: a pessoa não se move e não diz uma palavra, ou a pessoa fica aos saltos balançando-se para todos os lados e tagarelando qualquer coisa que lhe venha à cabeça. O sr. Poe era do tipo de saltar, balançar-se e falar compulsivamente. Klaus e Sunny jamais o haviam visto mover-se tão rapidamente ou falar com voz tão esganiçada:
“Meu Deus!”, gritou. “Minha nossa! Em nome de Alá! Por Júpiter e Juno! Maria e José! Edgar Allan Poe! Não toque nela! Peguem a cobra! Cheguem mais perto! Fuja! Não se mexa! Matem a cobra! Deixem ela em paz! Deem qualquer comida a ela! Não deixem ela morder a menina! Atraiam a cobra para ela se afastar! Vem cá, cobrinha! Vem, cobrinha, cobrinhazinha!”
A Víbora Incrivelmente Mortífera ouviu pacientemente a fala do sr. Poe, sem deixar de olhar em momento nenhum para Sunny, e, quando o sr. Poe fez uma pausa para tossir no lenço, ela avançou e mordeu Sunny no queixo, no mesmo lugar em que a havia mordido quando as duas amigas se viram pela primeira vez. Klaus tentou não rir, mas o dr. Lucafont interrompeu a respiração, Stephano olhou fixo e o sr. Poe recomeçou a pular e a falar compulsivamente.
“Oh! ela mordeu a menina! Ela mordeu!”, gritou. “Calma, todo mundo! Temos que agir! Chamem uma ambulância! Chamem a polícia! Chamem um cientista! Chamem minha mulher! Isso é terrível! Que coisa mais horrível! Apavorante! Fantasmagórico! Isso é...”
“Não há por que se preocupar”, interrompeu Stephano, tranquilamente.
“Como não há por que se preocupar?!”, perguntou o sr. Poe, incrédulo. “Sunny acaba de ser mordida por... como é que se chama a cobra, Klaus?”
“Víbora Incrivelmente Mortífera”, respondeu Klaus na mesma hora.
“Víbora Incrivelmente Mortífera!”, repetiu o sr. Poe, apontando para a cobra que cravara os dentes no queixo de Sunny e não o largava. Sunny soltou outro grito agudo de falso terror. “Como é que é que o senhor pode dizer que não há por que se preocupar?”
“Porque a Víbora Incrivelmente Mortífera é inteiramente inofensiva”, disse Stephano. “Tenha calma, Poe. O nome da cobra é inapropriado, o dr. Montgomery deu-lhe esse nome de pura gozação.”
“Tem certeza?”, perguntou o sr. Poe. Baixou um pouco o tom de voz e passou a mover-se um pouco mais devagar, à medida que começou a acalmar-se.
“Claro que tenho certeza”, disse Stephano, e Klaus reconheceu no rosto dele uma expressão familiar, de que se lembrava da época em que morava com os irmãos na casa do conde Olaf. Era uma expressão de pura vaidade, palavra que aqui tem o sentido de “conde Olaf julgando-se a pessoa mais incrível que já existiu em todos os tempos”. Quando os Baudelaire se achavam sob os cuidados de Olaf, ele muitas vezes agiu dessa maneira, sempre feliz em exibir ostentosamente seus talentos, fosse no palco com a sua atroz companhia teatral, fosse em sua sala no alto da torre enquanto arquitetava planos maléficos. Stephano sorriu, e continuou a falar para o sr. Poe, ansioso por se mostrar. “A cobra é perfeitamente inofensiva, eu diria até amigável. Li e me informei muito bem sobre a Víbora Incrivelmente Mortífera e sobre muitas outras cobras na biblioteca da Sala dos Répteis, sem falar que consultei os trabalhos no arquivo pessoal do dr. Montgomery.”
O dr. Lucafont limpou a garganta: “Hã, chefe...”, disse.
“Não me interrompa, dr. Lucafont”, disse Stephano. “Estudei livros sobre todas as espécies principais. Examinei cuidadosamente esboços e gráficos. Fiz anotações meticulosas que revi todas as noites antes de ir dormir. Considero-me, se assim posso dizer, um especialista e tanto em cobras.”
“A-há!”, exclamou Sunny, desembaraçando-se da Víbora Incrivelmente Mortífera.
“Sunny! Você não se machucou!”, exclamou o sr. Poe.
“A-há!”, exclamou Sunny novamente, apontando para Stephano. A Víbora Incrivelmente Mortífera piscou os seus olhos verdes, triunfante.
Sr. Poe olhou para Klaus, intrigado.
“Que é que sua irmã quer dizer com A-há?”, perguntou.
Klaus suspirou. Às vezes tinha a sensação de haver passado metade de sua vida explicando coisas ao sr. Poe. “Com A-há”, disse ele, “ela está querendo dizer que Stephano primeiro declara que não sabe nada sobre cobras e depois vem afirmar que é um especialista e tanto! Esse A-há é para ser entendido como 'Stephano esteve mentindo para nós'. A-há é igual a 'finalmente conseguimos demonstrar a desonestidade dele para o senhor!'. Com A-há ela quer dizer A-há!”

2 comentários:

  1. A-há
    Kkkkk te pegou kk

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  2. Ahaha se fu.... Chupa essa conde .. carinha mais nogento e burro ... Da um ódio

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