16 de julho de 2016

Capítulo dez

NEM RICHARDS NEM EU FALAMOS ENQUANTO SEGUIRMOS DE VOLTA PARA O MEU quarto. Tudo bem por mim. Estou muito ocupado me perguntando quais serão as exigências de Ra e passando por cima todas as maneiras que eu deveria ter reenquadrado meus argumentos na sala de guerra, como eu poderia ter ajudado mais a Sam e os lorienos.
Quando voltamos, Briggs está do lado de fora da minha porta, apoiado em uma muleta.
— O major Briggs aqui foi atribuído para guardá-lo — diz Richards.
— Você quer dizer que me vigiar — corrijo.
O Briggs não me olha nos olhos.
— É um procedimento padrão — diz Richards. — Aos hóspedes é sempre atribuído um acompanhante. É para sua própria segurança.
— Sabe, eu posso ser útil para vocês — eu continuo. — Me deem dados para analisar. Um computador. Inferno, eu estou apenas olhando para as paredes aqui. É uma cela. Mesmo presos têm acesso a bibliotecas.
— Isso é temporário — responde Richards. Ele franze a testa. — Olhe, todos nós estamos apenas tentando seguir o protocolo da melhor forma possível. A quantidade de decisões a serem tomadas aqui... — ele balança a cabeça. — Voltarei mais tarde. Tenho certeza que o presidente vai querer falar com você depois que todo mundo tiver tempo para digerir o que você explicou na reunião.
— Você pode pelo menos me avisar se encontrarem a Garde?
— Você vai ser informado de qualquer informação não-confidencial considerada relevante para a sua situação. Agora, se...
Entro em meu quarto e fecho a porta atrás de mim.
Imediatamente eu me sinto estúpido, como uma criança pisando duro até seu quarto porque os pais o deixaram com raiva. Mas eu estou com raiva. Por não ter sabido de Sam. Por estar sendo tratado como um prisioneiro. Porque, apesar de tudo o que fizemos para tentar proteger a Terra, estão ainda pensando que a Garde pode ser um possível inimigo.
Deito na cama com raiva, tentando se acalmar. Começo a contar do cem até um, algo que costumava fazer quando os mogs me mantinham em cativeiro – qualquer coisa para tirar da mente as coisas horríveis que eram prováveis de vir. Em algum lugar no cinquenta eu perco a conta outra vez, meu corpo tentando desesperadamente dormir todo o sono perdido dos últimos dias.
Depois de algumas horas de cochilo sem sonhos, meu telefone toca.
Desperto imediatamente, correndo para o banheiro e ligando as torneiras novamente.
Eu não reconheço o número.
— Alô? — eu respondo, prendendo a respiração enquanto espero para ouvir quem está do outro lado da linha.
— Hey, pai — diz Sam. — Eu temia que você não atendesse.
Apesar de tudo que está acontecendo, no momento em que ouço a sua voz, tudo no mundo fica bem. Ondas de alívio caem sobre mim, e por um breve momento penso que eu poderia desmoronar. Apoio minhas costas contra a parede e afundo até o chão.
— Estou aqui, filho. Onde está você? O que está acontecendo? Você está seguro?
Consigo fechar a boca antes de mais mil perguntas saírem.
— Eu estou seguro, sim. John e eu estamos no Brooklyn. Depois que o ataque começou, nós tentamos salvar o máximo de pessoas que conseguimos. Em seguida, fomos à procura de Nove, mas a equipe de Walker nos encontrou no metrô e nos trouxe para um acampamento temporário. Eu não posso dizer se eles estão prestes a nos dar medalhas, tentar nos alistar ou nos prender.
Há muito que eu poderia dizer sobre isso, mas posso dizer que há algo mais em sua mente pela forma como a sua voz soa enquanto ele fala. Algo que ele não está me contando. Descobrir o que é parece muito mais importante do que contar a ele sobre tudo o que passei.
— E? — pergunto. — O que está errado?
— Não há nada errado — diz ele lentamente. — Pelo menos, eu não penso assim. Mas, pai... você está sentado?
— Sim.
— Hum, eu realmente não sei como dizer isso, mas... Eu tenho Legados agora. Ou, pelo menos, telecinesia. Havia um píken vindo na nossa direção, e eu só... fiz. Eu o empurrei com meu pensamento como se fosse John ou Seis ou Luke Skywalker ou algo assim. Eu sou como um Jedi. Tenho usado esse poder o dia todo.
Ruídos saem da minha boca que não são nada mais do que sílabas ímpares e vogais semi-formadas. Eu não consigo processar o que ele está me dizendo.
Meu filho tem Legados agora? Como? Por quê? O que isso significa?
— É — Sam diz em resposta à minha falta de coerência. — Foi assim que me senti no começo também.
— Mas como isso é possível? — eu finalmente falo. — Será que John transferiu os poderes dele para você ou...?
— Eu acho que não. Ele está tão confuso com tudo isso quanto eu. Ah, e nós conhecemos alguém na cidade. Uma menina comum que nunca sequer ouviu falar dos lorienos ou dos mogs até então. Ela desenvolveu Legados também. Pai... e se existem outras pessoas lá fora? Como que os seres humanos em todo o planeta começaram a desenvolver Legados?
As implicações são extraordinárias – especialmente em termos de proteção da Terra. Que tipo de força tem a capacidade de conceder habilidades como essa? Talvez algo que os outros tenham encontrado no Santuário? Será que Adam e os outros bem?
— Pai? Você está aí?
— Sim, apenas... tentando encontrar sentido nisso — eu falo, minha mente ainda se recuperando. Um sorriso se abre ocupando todo o meu rosto enquanto percebo que, se Sam tem esse Legado, ele será mais capaz de se proteger agora. — Vamos dar um passo de cada vez. Qual é o próximo passo de vocês?
— Hum, eu não tenho certeza. John está falando com Walker. Nove e Cinco estão em algum lugar por aqui, lutando. Eu vou mantê-lo atualizado. E você?
Dou-lhe um resumo sobre o que aconteceu depois que ele se foi. Na maioria das vezes ele responde com “o quê?!” e variações de “Ah merda!” Então eu lhe conto que esta manhã falei com o presidente.
— Uau. Parece que eles lhe deram o status de estrela do rock.
Olho ao redor do banheiro, o espaço de onde não devo sair.
— Algo assim.
— Pelo menos vocês não estão presos em Ashwood. Eventualmente, vocês teriam ficado sem waffles.
Leva-me um segundo para perceber que ele deve pensar que os agentes de Walker estão comigo, mas não tenho a chance de corrigi-lo. Há novas vozes em seu lado da linha que não consigo entender.
— Merda, pai, eu preciso ir. Eu vou falar com você em breve, ok? Fique seguro.
— Você também, filho. Você também.
Ele desliga. Fico sentado no chão, tentando entender o que tudo isso poderia significar.
Alguns minutos após eu ter desligado o telefone há outra batida na minha porta. Eu a abro, esperando ver Richards lá pronto para me arrastar para outra reunião ou algo assim, mas é Briggs.
— Ei — diz ele. Ele ainda está usando uma muleta e segura uma caixa de papelão que alguém escreveu “carne assada” nela com um pincel atômico. — Almoço.
— Obrigado — eu pego a refeição. — Como está sua perna?
— Muito melhor, obrigado. Eles têm uma enfermaria de primeira aqui. Eu nunca tinha visto algumas das máquinas antes.
— Se divertindo no corredor?
Ele dá de ombros.
— Tenho que apresentar um relatório se você for a qualquer lugar, mas não posso impedi-lo. Você não é um prisioneiro ou qualquer coisa assim.
Ele soa um pouco envergonhado por sua admissão.
— Ah — ele lembra, puxando um livro debaixo do braço e segurando-o para mim. The Once and Future King por T. H. White. — Aqui. Havia alguns livros na sala de descanso, mas acho que os outros eram todos guias de campo e manuais de operação.
— Obrigado.
Ele ainda não está me olhando nos olhos. Parece mais brando do que ontem, mas por quê?
— De qualquer forma, pensei ter ouvido um telefone tocar mais cedo. Mas isso é impossível, uma vez que não há como conseguir sinal aqui embaixo.
Eu não digo nada. Ele faz um gesto para trás de mim, e eu abro mais a porta para que ele possa entrar.
— O telefone funciona aqui? -—ele sussurra quando a porta está fechada atrás de nós. Eu mal posso ouvi-lo e respondo na mesmos voz baixa.
— Pelo visto, sim. Como eu disse anteriormente, é uma longa história.
— Nós não deveríamos ter qualquer comunicação com o mundo exterior. Eu deveria confiscá-lo.
Droga. Eu não posso deixá-lo levar minha única conexão com o meu filho. É por isso que ele parece tão hesitante?
— Olha, as únicas pessoas que têm este número são pessoas confiáveis. É importante que eu mantenha contato com elas. Elas sabem mais sobre o que está acontecendo lá fora do que nós.
Briggs olha para mim, sem piscar, pelo o que parece ser um longo período de tempo. Finalmente, ele fala novamente.
— Eu poderia... — ele hesita, olhos encarando o chão de cimento. — Estaria tudo bem se eu fizesse uma chamada rápida?
Dou um suspiro de alívio e faço um gesto para que ele me siga até o banheiro, onde ligo o chuveiro.
— Aqui — eu digo.
Tiro o som e deixo apenas no vibra, sentindo-me estúpido por não ter feito isso antes.
Ele olha para o celular como se eu tivesse lhe entregado uma granada – algo me diz que esta pode ser a primeira vez que ele desobedece uma ordem. Ou talvez seja apenas o medo do que ele vá encontrar do outro lado da linha. Sua mão treme um pouco quando ele disca e ergue o telefone ao ouvido. Enquanto toca, sua respiração fica mais e mais rápida, e ele flexiona sua mandíbula. Posso ouvir o toque continuar, cinco, em seguida, seis vezes.
Finalmente alguém atende.
A postura de Briggs muda. Ele relaxa. Por um segundo, acho que ele vai entrar em colapso no chão.
— Mãe — ele diz.
Eu saio do banheiro para lhe dar um momento de privacidade, sentando-me na cama, colocando a cabeça nas mãos. Minha mente ainda está processando as coisas, tentando construir um sentido para o que Sam me disse.
Meu filho. Com Legados.
acho que eu sempre soube que ele era especial.
É só então que penso na reunião mais cedo, como a Garde é considerada aliada, mas também possíveis ameaças ao país.
E o meu coração cai quando percebo que agora isso se aplica a Sam também.

3 comentários:

  1. Ele não consegue ter nem uma hora de alívio quanto ao Sam, tadinho.

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  2. como se fosse John ou Seis ou Luke Skywalker ou algo assim. Eu sou como um Jedi. kkkk sam sempre fala de star wars kkk

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