16 de julho de 2016

Capítulo cinco

SOU ACORDADO COM UM TAPA NO ROSTO. MEUS OLHOS SE ABREM RAPIDAMENTE, mas o mundo está indistinto e cheio de fumaça, nada além de formas borradas e uma escuridão desorientadora. Por alguns segundos fico apreensivo, estou novamente dentro do pod de contenção dos mogs, e tudo o que aconteceu nos últimos meses – minha fuga, meu reencontro com Sam – tudo não passou de um sonho em um coma induzido.
Alguém está gritando, mas não consigo entender o que estão dizendo, o som se distorce em minha cabeça. Me sinto caindo para frente, e então antes que eu me dê conta do que está acontecendo, alguém está me puxando, me arrastando.
Outro tapa em meu rosto. Definitivamente não é Anu ou Zakos: ambos preferem agulhas e lâminas a sujar suas mãos com assuntos humanos.
Devagar, tudo entra em foco, e começo a me lembrar do que está acontecendo. Me apoio sobre as mãos e joelhos num trecho de grama, tossindo, tentando recuperar meu fôlego. Meus pulmões parecem estar cheios de fumaça e fogo. A primeira coisa que vejo é o helicóptero e o Skimmer; metal retorcido e chamuscado a centenas de metros de distância. Lujan e Briggs estão de pé acima de mim, o último apoiado numa árvore, carregando mais peso do que sua perna machucada é capaz de suportar. O rosto de ambos está manchado com alguma coisa escura. A extremidade da nave de guerra está acima de nós, obscurecendo o céu.
Enquanto continuo a arfar por ar, minha cabeça gira. Ficar sobre meus pés é um processo vacilante, Lujan me apoiando para evitar que eu caia. Finalmente, então, me sinto forte o suficiente para avaliar o entorno. É quando eu o vejo, aceso à nossa frente e ardendo contra o que agora é quase madrugada.
— Aquilo é... — começo, mas não consigo terminar o pensamento.
Estou sobrecarregado demais por perceber onde estamos, e o que houve.
— O monumento Washington - Lujan diz. — Tivemos sorte de termos vindo por aqui, caso contrário teríamos perdas civis. Não estamos longe do nosso destino.
O fato da aterrissagem forçada no meio de meia dúzia de monumentos nacionais ser considerada uma coisa boa provavelmente diz mais sobre o estado do mundo do que deveria.
— Os outros? — pergunto, me lembrando dos homens abordo.
— Eles não conseguiram — diz Briggs.
Há mais alguma coisa me incomodando em minha mente, mas meus pensamentos estão uma bagunça. Sangue escorre pelo meu rosto vindo da têmpora esquerda. Devo ter batido a cabeça quando caímos.
Como seu eu já não tivesse danos cerebrais o suficiente.
— Precisamos nos mover — Lujan diz. — Agora. Há hostis patrulhando a cidade, e não tem como eles não terem notado nossa queda.
É quando eu me lembro.
— Minha mochila! — grito enquanto corro na direção dos destroços.
Gamera está lá dentro. O que aconteceu vom ele?
— Você não pode... — Briggs começa, mas eu o ignoro.
Até onde sabemos, existe agora apenas um punhado de Chimærae, e não vou deixar um deles – o meu guarda costas – ser queimado vivo.
Lujan me intercepta, agarrando a parte de trás da minha blusa com um aperto firme e me girando antes que eu possa chegar à clareira.
— Ouça, Goode — ele rosna. — Briggs arriscou a vida dele para tirá-lo dali, e estarei ferrado se eu deixá-lo morrer por inalação de fumaça, explosão ou ser capturado enquanto tenta recuperar sua bagagem. Nossa missão é levá-lo para o bunker, e é isso o que faremos, não importa o que aconteça.
— Você não entende... — começo, mas então ouço um guincho familiar no ar – o som de um pássaro gritando. Um grande falcão está empoleirado num galho de árvore acima de nossas cabeças, me encarando. Ele bate as asas, sinalizando para mim.
Balanço a cabeça um pouco, aliviado. Obviamente eu subestimei quão inteligentes esses animais são. Lujan me encara como seu eu fosse um idiota e então me empurra de volta na direção de Briggs.
— Com alguma sorte, podemos fazer o resto do caminho sem chamar atenção — Lujan fala.
— Eu não diria exatamente que a sorte está do nosso lado esta noite — Briggs resmunga.
— Aonde estamos indo? — pergunto.
— Union Station — Lujan pega sua arma e a checa para ter certeza de que está carregada. — Há um transporte lá que nos levará a um lugar seguro.
— Os trens ainda estão funcionando?
— Nenhum que os civis saibam.
Minha boca abre um pouco. Me lembro de ler teorias da conspiração sobre túneis secretos que levam a lugares como a Casa Branca e o Capitólio, tudo conectando através da Union Station em DC. Eu não tinha percebido que realmente existiam. Acho que eu não deveria estar surpreso.
Briggs avança com os olhos bem abertos.
— Senhor — ele sussurra enquanto pega seu rifle de assalto das costas.
Me viro e encontro outro Skimmer se aproximando dos destroços a alguns metros de distância.
— Movam-se — Lujan diz, apontando na direção oposta. — Se eles forem espertos, vão procurar por sobreviventes.
Ele nos conduz até o National Mall, mantendo-nos sob as árvores que nos cobrem ao invés da área aberta central. Elas oferecem um pequena cobertura, mas não são densas o bastante para nos esconder completamente do mogs em um Skimmer com farol aceso. Pelo menos a folhagem faz um ótimo caminho para Gamera, que pula de galho em galho como um esquilo de rabo espesso. É um pequeno milagre que nós tenhamos abrigo na escuridão, mas há luz o bastante do ambiente de forma que não estamos exatamente invisíveis. A capital dos Estados Unidos se ergue a menos de um quilômetro e meio à nossa frente, sua fachada branca brilhando na escuridão. Está assustadoramente quieto, especialmente onde estamos. Eu temia que as cidade fossem tomadas por pessoas frenéticas e militares – ou pior, esquadrões de mogadorianos.
— Onde está todo mundo? — eu sussurro quando passamos por uma série de museus. — Esse lugar não vive cheio de turistas? O que aconteceu com todos eles? Por que não havia um grupo de reforços imediatamente lá quando quase batemos no Monumento a Washington?
— Essa área era zona de evacuação prioritária — Lujan explica. — Bairros ao redor da Casa Branca e do Capital foram evacuados. Após a resistência em Nova York, tudo transformou-se em uma destruição generalizada, a posição oficial dos militares é de não se envolver com os mogadorianos nem interferir nas patrulhas que eles mandam das naves de guerra. Pessoas tem sido arrancadas de suas casas em Manhattan. Estamos tentando evitar que isso aconteça também.
Engulo em seco à menção de Nova York e tateio o bolso para ter certeza de que meu telefone via satélite ainda está ali. Sam está a salvo?
— E qual a posição não oficial? — pergunto.
— O que parece? Nós estamos unindo secretamente nossos ativos e preparando contramedidas. Por que acha que está aqui?
Estamos quase na capital quando Briggs começa a ficar para trás. Há sangue empapando as bandagens em sua perna.
— Droga — Lujan diz quando percebe. — Quão ruim está isso?
— Continuem sem mim — Briggs se apoia numa árvore. Ele está suando em grande quantidade agora, a adrenalina provavelmente está começando a deixar o seu sistema. — Eu ficarei bem aqui. Qualquer um deles que passar por mim, não vou colaborar.
Lujan olha ele por alguns segundos e então concorda.
— Não podemos apenas deixá-lo aqui — protesto.
— Nossa missão é levar você a salvo ao bunker — Lujan diz pelo o que parece ser a décima vez desde que nos conhecemos. Ele já começou a andar novamente.
— Bem, eu não vou sem ele.
O coronel se vira para mim, um pouco sarcástico.
— Neste ponto, não é uma decisão sua.
Olho de um lado para o outro entre os dois, mas também não parece que ele vai ceder sobre este assunto. Então continuo falando.
— Você não conhece o inimigo como eu. Este é o motivo pelo qual o presidente me quer, certo? Se deixarmos Briggs aqui e os mogs o encontrarem, o que você acha que vai acontecer? Um soldado ferido, sozinho perto dos destroços de uma das naves deles? Na melhor das hipóteses, eles vão matá-lo imediatamente. É mais provável que o levem como prisioneiro. Suponho que ele saiba para onde estamos indo. Você ao estaria levando direto ao presidente.
— Não vou falar — Briggs diz.
— Você acha que isto importa? — pergunto, levantando dois dedos do lado de minha mão onde os mogs ataram eletrodos. — Eles vão extrair tudo o que você sabe da sua mente. Eles têm tecnologias que vocês nem sequer sonham. Você vai dizer a eles todos os segredos que sabe e apenas então eles vão realmente feri-lo.
Lujan range os dentes. Por um segundo me preocupo de ter sentenciado Briggs a uma morte precoce, e mentalmente começo a preparar argumentos contra isso.
Eventualmente Lujan aponta um espesso dedo no meu rosto.
— Não se mova. Vou dar uma olhada na frente — ele lança um olhar a Briggs. — Quando eu voltar, estejam preparados para correr.
Então ele se vai. Briggs encara o chão, com raiva. Ele parece irritado, mas não tenho certeza se é com os mogs, comigo ou consigo mesmo.
Provavelmente uma combinação dos três.
— Você deveria apenas ter me deixado para trás — ele finalmente murmura.
— Você me puxou dos destroços, certo? — pergunto.
— Eu estava fazendo o meu trabalho.
— Bem, agora ambos estamos.
Ele fica quieto e mantém seus olhos na grama. Pego o meu telefone via satélite para ter certeza de que não há nenhuma chamada perdida de Sam e para ter certeza de que está intacto após a queda. Então tateio meus bolsos para ver se tem alguma coisa útil ali que eu tenha esquecido.
— Perdeu alguma coisa? — Briggs pergunta.
— O canhão mogadoriano, na queda. Eu tinha um escondido na minha mochila.
Ele encolhe os ombros e puxa uma pistola do coldre em suas costas.
— Sabe como usar uma dessas? — ele pergunta.
— Sou melhor com um rifle de sniper, mas acho que posso me virar.
Ele solta uma única risada e me entrega a arma. Na lateral dela está gravada a palavra “Beretta”.
— Não é uma arma alienígena — ele diz, — mas faz um trabalho muito bom.
Briggs tem gaze extra em seu bolso, e peço para me deixar enfaixar novamente a sua perna. Ele precisa de um atendimento médico verdadeiro, mas no momento eu sou tudo que ele tem.
Lujan aparece quando estou terminando.
— Está tudo limpo à frente. Vi uma patrulha mog rondando o local da queda. Devem ter sido mandados para procurar por sobreviventes. Felizmente os bastardos não são bons em rastrear.
Ele nota a pistola em minhas mãos.
— Não use essa coisa a menos que precise. Furtividade é nossa maior vantagem no momento.
De repente, há um som acima. Gamera saltando em um dos ramos, soltando guinchos estranhos de roedor com os dentes enquanto olha de um lado para o outro entre mim e as árvores pelas quais atravessamos.
— Vamos — Lujan começa, mas é interrompido. Mas o que quer que ele fosse dizer depois disso é abafado pelo rugido que segue por trás das árvores.

3 comentários:

  1. Karina nessa frase tem um errinho: "o última apoiada numa árvore", você pode concertar por favor.

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    1. Claro, corrigir todos os erros que vc apontou. Obrigada :)

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    2. Eu que agradeço!

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