1 de julho de 2016

Capítulo 8 - Fora da nuvem à noite

Emma abriu a porta do estúdio de Julian com o ombro, se esforçando para não entornar nada das canecas cheias de sopa que trazia.
Havia dois cômodos no estúdio de Julian: o que Julian permitia que as pessoas vissem, e o que não permitia. A mãe dele, Eleanor, usava o cômodo maior como um estúdio, e o menor como uma sala escura para revelar fotos. Ty frequentemente perguntava se os produtos químicos de revelação e a armação continuavam intactos, e se ele poderia utilizá-los.
Mas a segunda sala do estúdio era a única coisa que ele não cedia à vontade dos irmãos mais novos e não oferecia para dar o que era seu. A porta preta ficava fechada e trancada, nem Emma podia entrar.
E ela sequer pedia. Julian tinha pouquíssima privacidade, ela não queria impedi-lo de aproveitar o pouco que conseguia.
O estúdio principal era lindo. Duas das paredes eram de vidro, uma dava para o mar, a segunda, para o deserto. As outras duas exibiam um tom marrom acinzentado clarinho, e as telas da mãe de Julian – pinturas abstratas em cores fortes – ainda as adornavam.
Jules ocupava a ilha central, um enorme bloco de granito cuja superfície era coberta por maços de papel, caixas de tinta de aquarela; tubos de tinta com nomes líricos: vermelhos de alizarina, laranja de cádmio, azul ultramarino.
Ele levantou uma das mãos e colocou um dedo contra os lábios, olhando para o lado. Tavvy estava sentado em um pequeno cavalete, munido de uma caixa aberta de tintas atóxicas. Ele as espalhava sobre uma longa folha de papel pardo, parecendo satisfeito com sua criação multicolorida. Havia tinta laranja nos cachos castanhos.
— Acabei de acalmá-lo — falou Julian, enquanto Emma se aproximava e colocava as canecas na ilha. — O que está acontecendo? Alguém falou com Mark?
— A porta continua trancada — disse Emma. — Os outros estão na biblioteca. — Ela empurrou uma caneca na direção dele. — Tome — falou. — Cristina quem fez. Sopa de Tortilla. Apesar de ela ter dito que temos as pimentas erradas.
Julian pegou uma caneca e se ajoelhou para colocá-la perto de Tavvy. O irmão levantou o olhar e piscou para Emma como se tivesse acabado de notar sua presença.
— Jules mostrou os retratos? — Quis saber. Azul tinha se juntado ao laranja e ao amarelo em seu cabelo. Ele parecia um pôr do sol.
— Que retratos? — perguntou Emma, enquanto Julian se ajeitava.
— Os nossos. As cartas.
Ela ergueu uma sobrancelha para Jules.
— Que cartas?
Ele ruborizou.
— Retratos — respondeu. — Fiz no estilo Rider-Waite, como o tarô.
— O tarô mundano? — insistiu Emma, enquanto Jules alcançava um portfólio.
Caçadores de Sombras costumavam evitar objetos de superstição mundana: quiromancia, astrologia, bolas de cristal, cartas de tarô. Não era proibido ter ou tocá-las, mas eram associadas a pessoas desagradáveis das fronteiras da magia, como Johnny Rook.
— Fiz algumas mudanças — disse Julian, abrindo o livro para mostrar uma porção de papéis, cada qual com uma ilustração colorida e marcante. Havia Livvy com seu sabre e cabelos esvoaçantes, mas em vez do nome dela, lia-se A PROTETORA. Como sempre, as pinturas de Julian pareciam emocioná-la, uma linha direta ao seu coração, fazendo com que ela tivesse a sensação de entender o que Julian sentiu enquanto pintava. Olhando a foto de Livvy, Emma sentiu admiração, amor e até medo da perda. Julian jamais diria isso, mas ela desconfiava que ele estava assistindo ao crescimento de Livvy e Ty com um pouco mais que medo.
E então havia Tiberius, com uma mariposa da morte voando sobre a mão, seu belo rosto para baixo e para longe do espectador. A figura transmitia a Emma uma sensação de amor voraz, inteligência e vulnerabilidade. Abaixo dele dizia: O GÊNIO.
E então vinha A SONHADORA – Dru com a cabeça enfiada em um livro – e O INOCENTE – Tavvy de pijama, com a cabeça sonolenta apoiada na mão. As cores eram quentes, afetuosas e carinhosas.
E então vinha Mark. Braços cruzados, cabelos louros como palha, usando uma camisa com estampa de asas abertas. Cada asa tinha um olho: um dourado, outro azul. Uma corda o envolvia pelo calcanhar, esticando-se para fora da moldura.
O PRISIONEIRO, dizia.
O ombro de Jules tocou o de Emma quando ela se inclinou para examinar a imagem. Como todos os desenhos de Julian, pareceu sussurrar para ela em uma língua silenciosa: perda, dizia, tristeza e anos irrecuperáveis.
— Era isso que você estava fazendo na Inglaterra? — perguntou ela.
— Era. Eu queria fazer o baralho todo. — Ele esticou o braço e esfregou os próprios cachos castanhos. — Eu talvez tenha que mudar o nome da carta de Mark — comentou. — Agora que ele está livre.
— Se ele permanecer livre. — Emma colocou de lado o desenho de Mark e viu que o seguinte era de Helen, entre campos de gelo, seus cabelos claros cobertos por um gorro de tricô. A SEPARADA, dizia. Havia outra carta, A DEDICADA, para a mulher dela, Aline, cujos cabelos escuros formavam uma nuvem ao seu redor. Ela usava o anel Blackthorn no dedo. E a última era de Arthur, sentado à mesa. Um laço vermelho corria no chão abaixo dele, cor de sangue. Não tinha título.
Julian esticou o braço e as colocou de volta no caderno.
— Ainda não acabei.
— Eu vou ganhar alguma carta? — provocou Emma. — Ou são só para os Blackthorn de sangue e os Blackthorn por casamento?
— Por que você não desenha a Emma? — perguntou Tavvy, olhando para o irmão. — Você nunca desenha a Emma.
Emma viu Julian ficar tenso. Era verdade. Julian raramente desenhava pessoas, mas, mesmo quando o fazia, já não desenhava Emma havia anos. A última vez que ela se lembrava de ter sido desenhada por ele fora no retrato de família do casamento de Helen e Aline.
— Você está bem? — perguntou ela, torcendo para que a voz fosse baixa o suficiente para que Tavvy não ouvisse.
Ele exalou, forte, e abriu os olhos, relaxando os músculos. Seus olhos encontraram os dela, e o redemoinho de fúria que tinha começado a se desenrolar em seu estômago desapareceu. O olhar dele era franco, vulnerável.
— Desculpe — falou. — É que eu sempre achei que, quando ele voltasse, quando Mark voltasse, ele fosse ajudar. Fosse tomar as rédeas, cuidar de tudo. Nunca imaginei que ele seria mais uma coisa com a qual eu teria que lidar.
Emma foi transportada de volta àquele momento para todas as semanas, os meses, depois que Mark foi levado e Helen exilada, quando Julian acordava gritando pelos irmãos mais velhos que não estavam lá, que jamais estariam lá. Ela se lembrou do pânico que o fez ir aos tropeços para o banheiro, para vomitar, das noites em que o segurou no chão gelado enquanto ele se sacudia como se estivesse com febre.
Não posso, ele disse. Não consigo fazer isso sozinho. Não posso criá-losNão posso criar quatro crianças.
Emma sentiu a raiva no estômago de novo, mas dessa vez era direcionada a Mark.
— Jules? — chamou Tavvy, parecendo nervoso, e Julian passou a mão no rosto dele. Era um hábito nervoso, como se estivesse limpando um cavalete, quando abaixou a mão, o medo e a emoção tinham desaparecido de seus olhos.
— Estou aqui — respondeu, e foi até Tavvy pegá-lo.
Tavvy apoiou a cabeça no ombro de Jules, parecendo sonolento e sujando toda a camiseta do irmão de tinta. Mas Jules não se importou. Apoiou o queixo nos cabelos do irmão mais novo e sorriu para Emma.
— Esqueça — pediu ele. — Vou levar esse aqui para dormir. Você provavelmente deveria dormir também.
Mas as veias de Emma chiavam com um elixir agudo de raiva e senso de proteção. Ninguém podia machucar Julian. Ninguém. Nem mesmo o irmão muito saudoso e amado.
— Esquecerei — retrucou ela. — Mas primeiro tenho que fazer uma coisa.
Julian pareceu alarmado.
— Emma, não tente...
Mas ela já tinha se retirado.


Emma parou na frente da porta de Mark, com as mãos nos quadris.
— Mark! — Ela bateu com as juntas dos dedos pela quinta vez. — Mark Blackthorn, sei que está aí. Abra a porta.
Silêncio. A curiosidade e a raiva de Emma lutaram contra o respeito pela privacidade de Mark e venceram. Símbolos de abertura não funcionavam nas portas internas do Instituto, então ela pegou uma pequena faca do cinto e a colocou no buraquinho entre a porta e o batente. A tranca abriu, e a porta se escancarou.
Emma colocou a cabeça para dentro. As luzes estavam acesas, as cortinas, fechadas contra a escuridão do lado de fora. A cama parecia bagunçada e vazia.
Aliás, o quarto todo estava vazio. Mark não parecia estar lá.
Emma fechou a porta e se virou com um suspiro exasperado – e quase gritou. Dru surgiu atrás dela com olhos arregalados e sombrios. Apertava um livro contra o peito.
— Dru! Sabe, normalmente, quando as pessoas aparecem sorrateiramente atrás de mim, eu dou uma facada. — Emma soltou o ar, trêmula.
Dru estava tristonha.
— Você está procurando Mark.
Emma não viu motivo para negar.
— Sim.
— Ele não está aqui — falou Dru.
— Sim. É uma bela noite para observar o óbvio, não? — Emma sorriu para Dru, sentindo uma pontada. Os gêmeos eram tão próximos, e Tavvy, tão pequeno e dependente de Jules, que era difícil, ela pensou, para Dru encontrar o próprio lugar. — Vai ficar tudo bem, você sabe.
— Ele está no telhado — respondeu a menina.
Emma ergueu a sobrancelha.
— Porque você diz isso?
— Ele sempre ia para lá quando se chateava — respondeu Dru. Ela olhou para a janela no fim do corredor. — E lá em cima ele fica sob o céu. Pode ver a Caçada se eles passarem.
Emma sentiu calafrios.
— Não vão passar — falou Emma. — Não vão. Não vão levá-lo outra vez.
— Mesmo que ele queira ir?
— Dru...
— Vá até lá e traga Mark de volta — disse Drusilla. — Por favor, Emma.
Emma ficou imaginando se parecia espantada; estava se sentindo espantada.
— Por que eu?
— Porque você é uma menina bonita. — explicou Dru, um pouco melancólica, olhando para o próprio corpo arredondado. — E meninos fazem tudo que meninas bonitas querem. A tia Marjorie disse. Ela falou que, se eu não fosse tão gorducha, seria uma menina bonita, e os meninos fariam o que eu quisesse.
Emma ficou chocada.
— Aquela va... aquela velhota, desculpe, disse o quê?
Dru abraçou o livro ainda mais forte.
— Sabe, não me parece tão ruim, parece? Gorducha? Como se você pudesse ser alguma coisa bonitinha, como um esquilo ou uma tâmia.
— Você é muito mais bonita do que uma tâmia — disse Emma. — Elas têm dentes estranhos e, sei de fonte segura, falam com vozes agudas e esganiçadas. — Ela afagou os cabelos macios de Dru. — Você é linda — falou. — Sempre será linda. Agora vou ver o que posso fazer em relação ao seu irmão.


As dobradiças do alçapão que levam ao telhado não eram lubrificadas havia meses; elas chiaram alto quando Emma se equilibrou no alto da escada e o empurrou para cima. O alçapão se abriu, e ela foi para o telhado.
Ela se ajeitou, tremendo. A brisa do mar estava fria, e ela só tinha um casaco leve sobre a camiseta e o jeans. As telhas pareciam ásperas contra seus pés descalços.
Ela já estivera ali vezes demais para conseguir contar. O telhado era plano, fácil de andar, só um singelo declive nas bordas onde as telhas davam lugar a calhas de cobre para a chuva. Havia até uma cadeira dobrável de metal, na qual Julian às vezes se sentava para pintar. Ele passara por uma fase em que pintava o sol se pondo sobre o mar – desistiu quando decidiu perseguir as cores mutantes do céu, convencido de que cada etapa do pôr do sol era melhor do que a anterior até todas as telas acabarem pretas.
Havia poucos lugares reservados por ali; ela rapidamente avistou Mark, sentado na beira do telhado com as pernas penduradas, olhando o mar.
Emma foi até ele, o vento soprando suas tranças claras sobre o rosto. Ela as afastou com impaciência, imaginando se Mark a estaria ignorando, ou se ele realmente não sabia que ela se aproximava. Ela parou a alguns centímetros dele, lembrando-se de como ele tinha agredido Julian.
— Mark — chamou.
Ele virou a cabeça devagar. Sob o luar, era preto e branco; era impossível ver que seus olhos tinham duas cores.
— Emma Carstairs.
O nome todo. Isso não era muito favorável. Ela cruzou os braços.
— Vim aqui para levá-lo para baixo — informou ela. — Você está enlouquecendo sua família e chateando Jules.
— Jules — repetiu ele, com cuidado.
— Julian. Seu irmão.
— Quero falar com minha irmã — disse ele. — Quero falar com Helen.
— Tudo bem — respondeu Emma. — Pode falar com ela quando quiser. Pode ligar para ela, podemos pedir para ela ligar para você, ou podemos o usar Skype se você quiser. Teríamos dito isso antes se não tivesse começado a gritar.
— Skype? — Mark a olhou como se várias cabeças tivessem surgido nela.
— É uma coisa de computador. Ty sabe. Você vai poder vê-la enquanto conversam.
— Como o vidro de vidência das fadas?
— Mais ou menos. — Emma se aproximou dele, como se estivesse chegando perto de um animal selvagem que pudesse se assustar com o movimento. — Vamos descer?
— Prefiro ficar aqui. Eu estava sufocando lá embaixo com todo aquele ar morto, esmagado pelo peso de toda essa construção... telhados, vigas, vidro e pedra. Como conseguem viver assim?
— Você se saiu muito bem por dezesseis anos.
— Praticamente não me lembro — explicou Mark. — Parece um sonho. — Ele olhou para o mar. — Tanta água — emendou. — Consigo ver a água e através dela. Consigo ver os demônios submarinhos. Fico olhando, e não parece real.
Isso era algo que Emma podia entender. Foi o mar que levou os corpos dos seus pais e depois os devolveu, destruídos e vazios. Ela sabia, pelos relatórios, que eles já estavam mortos quando foram jogados na água, mas isso não ajudava. Ela se lembrava dos versos de um poema que Arthur recitou certa vez sobre o mar: água lava, navios vão a pique, e a morte profunda espera.
Era isso que o mar além das ondas representava para ela. A morte profunda, esperando.
— Certamente tem água no Reino das Fadas, não? — perguntou Emma.
— Não tem mar. E nunca tem água suficiente. A Caçada Selvagem frequentemente cavalgava por dias e dias sem água. Gwyn parava para bebermos água somente se estivéssemos desmaiando. E tem as fontes no Reino Selvagem das Fadas, mas elas correm com sangue.
— “Pois todo o sangue derramado na terra corre por aquele lugar” — recitou Emma. — Não sabia que era literal.
— Eu não sabia que você conhecia versos antigos — disse Mark, olhando-a com o primeiro sinal de interesse real desde a sua volta.
— Toda a família sempre tentou aprender tudo que fosse possível sobre o Reino das Fadas — disse Emma, sentando-se ao lado dele. — Desde que voltamos da Guerra Maligna, Diana nos ensinou, e mesmo os pequenos sempre quiseram saber sobre o Povo das Fadas. Por sua causa.
— Isso deve ser algo muito impopular no currículo dos Caçadores de Sombras — argumentou Mark. — Considerando a história recente.
— Não é culpa sua o que a Clave pensa sobre as fadas — disse Emma. — Você é um Caçador de Sombras, nunca foi parte daquela traição.
— Sou um Caçador de Sombras — concordou Mark. — Mas faço parte do Povo das Fadas também, assim como a minha irmã. Minha mãe era Lady Nerissa. Ela morreu depois que eu nasci, e, sem alguém para nos criar, eu e Helen fomos devolvidos ao nosso pai. Minha mãe era nobre, tinha um dos mais altos títulos das fadas.
— Eles o tratavam melhor na Caçada por causa dela?
Mark balançou a cabeça uma vez negativamente.
— Acho que pensam que meu pai é o responsável pela morte dela. Por ter partido seu coração e ido embora. Isso não fez com que me tratassem bem. — Ele colocou uma mecha de cabelo claro atrás da orelha. — Nada do que as fadas fizeram com meu corpo ou mente foi tão cruel quanto o instante em que eu soube que a Clave não iria me buscar. Que não tinham enviado nenhuma equipe de resgate. Quando me encontrou no Reino das Fadas, Jace me falou, “mostre a eles do que é feito um Caçador de Sombras”. Mas do que são feitos, se abandonam os seus?
— O Conselho não são todos os Caçadores de Sombras do mundo — disse Emma. — Muitos Nephilim acharam que o que foi feito com você foi errado. E Julian nunca deixou de tentar demover a Clave. — Ela cogitou esticar o braço para afagá-lo, depois pensou melhor. Ainda havia algo de selvagem nele; seria como se esticar para afagar um leopardo. — Você vai ver, agora que está em casa.
— Estou em casa? — perguntou Mark. Ele balançou a cabeça, como um cachorro sacudindo água. — Talvez eu tenha sido injusto com meu irmão — falou. — Talvez eu não devesse ter me descontrolado. É como... como se eu estivesse em um sonho. Parece que foi há semanas que vieram até mim na Caçada e falaram que eu ia voltar para o mundo.
— Disseram que você voltaria para casa?
— Não. — respondeu ele. — Disseram que eu não tinha escolha e tinha que deixar a Caçada. Que o Rei da Corte Unseelie tinha ordenado. Arrancaram-me do meu cavalo e amarraram as minhas mãos. Cavalgamos por dias. Me deram alguma coisa para beber, algo que me fez alucinar e imaginar coisas que não estavam lá. — Ele olhou para as mãos. — Foi para que eu não conseguisse achar o caminho de volta, mas eu queria que não tivessem feito isso — falou. — Queria ter chegado aqui sendo quem fui durante anos, um integrante capacitado da Caçada. Queria que meus irmãos me vissem alto e orgulhoso, não medroso e encolhido.
— Você realmente está muito diferente agora — comentou Emma.
Era verdade. Ele parecia alguém que havia açodado de um sonho centenário, tentando se livrar da poeira de um século de sonhos nos sapatos. Ele estava apavorado; agora as mãos estavam firmes, a expressão, sombria.
De repente, ele sorriu timidamente.
— Quando mandaram eu me revelar no Santuário, achei que fosse mais um sonho.
— Um sonho bom? — perguntou Emma.
Ele hesitou, depois balançou a cabeça.
— Nos primeiros dias da Caçada, quando eu desobedecia, me faziam ver sonhos, horrores, visões da minha família morrendo. Pensei que fosse isso que eu veria de novo. Estava apavorado, não por mim, mas por Julian.
— Mas agora você sabe que não é um sonho. Ver sua família, sua casa...
— Emma. Pare. — Ele fechou os olhos, como se sentisse dor. — Posso dizer isso para você, porque não é uma Blackthorn. Não tem sangue Blackthorn correndo pelas veias. Passei anos no Reino das Fadas, lá é um lugar onde o sangue mortal é transformado em fogo. É um lugar de beleza e horror, além de tudo que se pode imaginar aqui. Cavalguei com a Caçada Selvagem. Talhei um caminho claro de liberdade entre as estrelas e fui mais rápido que o vento. E agora me pedem para caminhar na terra outra vez.
— Seu lugar é onde é amado — assegurou Emma. Era algo que seu pai havia dito um dia, algo em que ela sempre acreditou. O lugar dela era aqui porque Jules a amava e as crianças a amavam. — Você foi amado no Reino das Fadas?
Uma sombra pareceu cair sobre os olhos de Mark, como cortinas se fechando em um quarto escuro.
— Eu estava para lhe falar. Sinto muito por seus pais.
Emma esperou a onda de raiva que vinha quando alguém, que não era Julian, mencionava seus pais, mas ela não veio. Alguma coisa na forma como ele falou – alguma coisa na estranha mistura da entonação formal de fada e na tristeza sincera – parecia estranhamente calmante.
— E sinto muito pelo seu — disse a ele.
— Eu o vi Transformado — retrucou Mark. — Apesar de não tê-lo visto morrer na Guerra. Espero que ele não tenha sofrido.
Emma sentiu uma onda de choque pela espinha. Será que ele não sabia como o pai tinha morrido? Será que ninguém havia lhe contado?
— Ele... — começou ela. — Foi no meio da batalha. Foi rápido.
— Você viu?
Emma se levantou com dificuldade.
— Está tarde — constatou ela. Precisamos dormir.
Ele a encarou com olhos fantasmagóricos.
— Não quero dormir — retrucou Mark, e de repente pareceu selvagem, selvagem como as estrelas ou o deserto, selvagem como todas as coisas indomáveis da natureza. — Você sempre gostou de aventura, Emma, e não acredito que isso tenha morrido dentro de você, morreu? Por mais próxima que você seja do meu irmão tão certinho?
— Julian não é certinho — respondeu Emma, irritada. — Ele é responsável.
— Você quer que eu acredite que são coisas diferentes?
Emma olhou para a lua e, depois, novamente para Mark.
— O que você está sugerindo?
— Me ocorreu enquanto olhava para o mar — falou ele — que talvez eu possa encontrar o ponto de convergência das Linhas Ley. Já vi lugares assim com a Caçada. Irradiam uma energia que as fadas conseguem sentir.
— Quê? Mas como...
— Eu mostro. Venha comigo procurar o lugar. Por que esperar? A investigação é urgente, não é? Temos que encontrar o assassino, não?
Uma animação floresceu em Emma, assim como um desejo agudo; ela tentou disfarçar o quanto queria, o quanto precisava saber, dar o próximo passo, se jogar na busca, lutar, encontrar.
— Jules — lembrou ela, se levantando. — Temos que buscar Jules e levá-lo conosco.
Mark pareceu sombrio.
— Não quero vê-lo.
Emma foi firme.
— Então não vamos — completou. — Ele é meu parabatai; onde eu vou, ele vai.
Algo brilhou nos olhos de Mark.
— Se não for sem ele, não vamos — decidiu o garoto. — Não pode me obrigar a dar informação.
— Obrigar? Mark... — Emma se interrompeu, exasperada. — Tudo bem. Tudo bem. Podemos ir. Só nós dois.
— Só nós dois — repetiu ele. E se levantou. Seus movimentos eram impossivelmente leves e velozes. — Mas primeiro você precisa se provar.
Emma foi até a beira da telha e se inclinou. Lá estava Mark, agarrado à parede do Instituto, um braço abaixo dela. Ele olhou para cima com um sorriso feroz. Um sorriso que transmitia ar vazio e vento frio, a superfície rasgada do oceano, as bordas esfarrapadas das nuvens. Um sorriso que chamava o lado selvagem e livre de Emma, o lado que sonhava com fogo, batalha, sangue e vingança.
— Desça comigo — sugeriu Mark; agora tinha um tom de deboche em sua voz.
— Você é louco — sibilou a garota, mas ele já tinha começado a descer pela parede, usando apoios para mãos e pés que Emma sequer conseguia ver. O chão balançou embaixo dela. Alturas reais: se caísse do telhado do Instituto, poderia morrer; não havia qualquer garantia de que um iratze pudesse salvá-la.
Ela se ajoelhou e virou as costas para o mar. Desceu, as unhas arranhando as telhas, e, em seguida, estava agarrando a calha com as mãos; as pernas penduradas.
Emma desceu pela parede se apoiando nos pés descalços. Graças ao Anjo não calçava botas. Seus pés eram calejados de andar e lutar; deslizaram pela parede até encontrarem uma rachadura na superfície. Ela enfiou os dedos ali, aliviando o peso dos braços.
Não olhe para baixo.
Desde sempre, a voz que acalmava o pânico na cabeça de Emma era a de Jules. Ela a ouviu agora, abaixando as mãos, colocando os dedos no espaço entre duas pedras. Ela se abaixou, primeiro, um centímetro, depois, um pouco mais e encontrou outro apoio para os pés. E ouviu Jules: Você está descendo as pedras em Leo Carillo. Falta pouco para chegar areia macia. Está tudo bem.
O vento soprou seu cabelo sobre o rosto. Ela virou a cabeça para sacudi-lo e afastá-lo dos olhos, e percebeu que estava passando por uma janela. Luz clara ardia por trás das cortinas. Talvez o quarto de Cristina?
Você sempre foi tão relapsa?
Só desde a Guerra Maligna...
Ela imaginou que já havia descido a metade do percurso ao olhar para cima e ver o telhado desaparecendo. Tinha começado a se apressar, as pontas dos dedos das mãos e dos pés rapidamente descobrindo novos apoios. O reboco entre as pedras ajudava, impedia que as mãos suadas escorregassem enquanto ela agarrava e soltava, agarrava e soltava, pressionando o corpo contra a parede até, de repente, esticar o pé e atingir o solo firme.
Ela se soltou e caiu, aterrissando com uma nuvem suave de areia. Eles estavam no lado leste da casa, de frente para o jardim, o pequeno estacionamento e o deserto além.
Mark já estava lá, é claro, banhado pela luz da lua, parecendo parte do deserto, uma escultura curiosa em pedra nova e pálida. Emma estava ofegante ao se afastar da parede, mas era de empolgação. Seu coração batia acelerado, o sangue pulsando; ela podia sentir o gosto do sal no vento, na boca.
Mark balançou para trás, com as mãos nos bolsos.
— Venha comigo — sussurrou ele, dando as costas para a construção e indo em direção à areia e à vegetação do deserto.
— Espere — pediu Emma. Mark parou e olhou por cima do ombro para ela. — Armas — emendou. — E sapatos.
Ela foi até o carro. Um rápido símbolo de Abertura destrancou a mala, revelando pilhas de armas e uniformes. Ela vasculhou até achar um cinto e um par de botas. Afivelou o cinto rapidamente, guardou nele algumas lâminas e adagas, pegou algumas extras e calçou as botas.
Por sorte, na volta da casa de Malcolm, ela havia deixado Cortana enrolada em panos na mala do carro. Pegou a lâmina e a colocou nas costas antes de correr para Mark, que aceitou silenciosamente a lâmina serafim e as facas que ela ofereceu antes de gesticular para que ela o seguisse.
Atrás de um muro baixo que cercava o estacionamento, via-se o jardim de pedra, geralmente tranquilo adornado por cactos e estátuas de gesso de heróis clássicos, colocadas aqui e ali por Arthur. Ele mandou que fossem enviadas da Inglaterra quando se mudou para o Instituto, e elas despontavam entre os cactos, inesperadas.
Havia outra coisa agora, uma grande sombra escura, coberta por um pano. Mark foi até ela, novamente com aquele sorriso estranho; Emma se afastou e permitiu que ele fosse na frente e puxasse o pano preto.
Abaixo dele, havia uma moto.
Emma engasgou. Não era nenhum tipo de moto que conhecia: era branca e prateada, como se tivesse sido esculpida em osso. Brilhava ao luar, e, por um instante, Emma quase achou que pudesse enxergar através dela, como às vezes enxergava através de feitiços de disfarce, uma forma embaixo daquilo, com crina revolta e olhos arregalados.
— Quando você tira um cavalo, cuja substância é mágica, do Reino das Fadas, a natureza dele pode mudar para se adequar ao universo mundano — explicou Mark, sorrindo para a expressa de espanto dela.
— Está dizendo que isso um dia foi um cavalo? Isso é um pôneicicleta? — perguntou Emma, se esquecendo de sussurrar.
O sorriso dele se ampliou.
— Há muitos tipos de cavalos que correm com a Caçada Selvagem.
Emma já estava ao lado da moto, passando as mãos nela. O metal era liso como vidro, frio sob seus dedos, branco leitoso e brilhante. Ela sempre quis uma moto. Jace e Clary andavam em uma moto voadora. Havia quadros com essa imagem pintada.
— Ela voa?
Mark fez que sim com a cabeça, e ela enlouqueceu.
— Quero dirigir — pediu ela. — Eu quero pilotar.
Ele fez uma reverência elaborada. Foi um gesto gracioso e estranho, do tipo que talvez tivesse existido em uma corte real, há centenas de anos.
— Então fique à vontade para isso.
— Julian me mataria — falou Emma reflexivamente, ainda acariciando a máquina. Por mais bonita que fosse, ela sentiu uma onda de trepidação ao pensar em pilotar; não tinha exaustor nem velocímetro, nem nada das coisas normais que ela associava a uma moto.
— Você não me parece uma pessoa fácil de matar — disse Mark, e agora ele não estava sorrindo; a forma como olhava para ela era direta e desafiadora.
Sem mais uma palavra, Emma montou na moto. Esticou os braços para pegar o guidão, e ele pareceu se encolher por dentro para caber nas mãos dela. Ela olhou para Mark.
— Suba atrás de mim — falou Emma — se quiser ir junto.
Ela sentiu a moto balançar quando ele subiu; as mãos dele seguraram-na suavemente nas laterais. Emma expirou, os ombros tensos.
— Está viva — sussurrou Mark. — Vai responder a você se você comandar.
As mãos dela apertaram o guidão ainda mais forte. Voe.
A moto se lançou no ar, e Emma gritou, meio por causa do choque, meio de prazer. As mãos de Mark apertaram a cintura da garota quando eles subiram, o chão se distanciando. O vento soprava ao redor. Inabalada pela gravidade, a moto avançou enquanto Emma a comandava, inclinando-se para a frente para comunicar com o corpo as suas vontades.
Passaram voando pelo Instituto, a via que levava à estrada se abrindo abaixo deles. Eles correram pelo alto, o vento do deserto dando lugar a sal na língua de Emma ao chegarem à Pacific Coast Highway; abaixo, carros acelerando em linhas brilhantes de faróis dourados. Ela gritou de alegria, estimulando a moto a avançar: mais rápido, mais rápido.
A praia voou abaixo deles, areia clara dourada transformada em branca pela luz das estrelas, e, em seguida, estavam sobre o oceano. A lua desenhava para eles um caminho prateado; Emma podia ouvir Mark gritando algo ao seu ouvido, mas, por um momento, não havia nada além do mar e da moto abaixo dela, o vento batendo em seu cabelo e fazendo os olhos lacrimejarem.
E então ela olhou para baixo.
Em ambos os lados da trilha do luar havia água, azul-escura à noite. A terra era uma linha distante de luzes brilhantes, a sombra desenhada das montanhas contra o céu, quilômetros de oceano, e Emma sentiu o frio familiar do medo, como um bloco de gelo subitamente aplicado à nuca e se espalhando pelas veias.
Quilômetros de oceano, e, ah, a vastidão de tudo, sombras e sal, água escura feroz preenchida por um vazio e pelos monstros que ali viviam. Imagine cair nessa água e saber o que vivia abaixo de você, enquanto bate os braços tentando permanecer na superfície; o terror da percepção do que estava embaixo de você – quilômetros e quilômetros de nada e monstros, a escuridão que se estendia por todos os lados, e fundo do mar tão longe – acabaria com sua sanidade.
 A moto tremeu sob as mãos dela, se rebelando. Ela mordeu o lábio com força, marcando com sangue a boca e concentrando a mente.
A moto mudou de direção com violência e foi para a praia. Mais rápido, Emma comandou, de repente, desesperada para ter terra seca debaixo deles. Ela teve a impressão de ter visto sombras se movendo sob a pele do mar. Ela pensou em antigas histórias de marinheiros cujos barcos eram levantados da água nas costas de baleias e monstros do mar. Em pequenas embarcações destruídas por demônios marinhos, nas tripulações devoradas por tubarões...
Emma prendeu a respiração, a moto saltando sob ela, e, por um instante, perdeu o controle do guidão. Eles começaram a despencar. Mark gritou quando passaram pelas ondas quebrando em direção à praia. Os dedos de Emma tatearam e agarraram o guidão outra vez, o aperto firme quando a roda dianteira derrapou na areia; e então a moto começou a subir de novo, roçando o terreno e se erguendo para passar pela estrada embaixo deles.
Ela ouviu Mark rir. Foi um ruído selvagem; Emma pôde ouvir o eco da Caçada ali, o rugido da corneta e os cascos batendo. Ela respirou o ar frio e limpo; seus cabelos esvoaçaram atrás; não havia regras. Ela era livre.
— Você se provou, Emma — falou ele. — Poderia cavalgar com Gwyn se quisesse.
— A Caçada Selvagem não aceita mulheres — observou Emma, as palavras arrancadas de sua boca pelo vento.
— São tolos — disse ele. — Mulheres são muito mais corajosas do que homens. — Ele apontou para a costa, em direção às montanhas que os ladeavam. — Vá por ali. Vou levá-la até a convergência.

11 comentários:

  1. Cara que foda!!!!! Mas pff Emma não vai gostar dele não!!!

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  2. Só eu que acho que o Mark gosta da Emma? Sou TeamJulian então aquieta o forninho Mark! Eu quero narração dele gente!

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    1. Acho que ele gostOU dela. Mas não desse jeito. Primeiro, quando se conheciam ela tinha só 12 anos. São praticamente desconhecidos agora, mas ele n pareceu demonstrar nenhum interesse romântico. A Emma é rebelde, meio parecida com ele. Ele gostou disso. É mais provável que ele vá ter algum tipo de envolvimento romântico com a Cristina do que com a Emma.

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  3. Raziel eu quero uma moto dessas,voar assim,ter essa liberdade isso foi demais.

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  4. Caçadora de sombras10 de julho de 2016 00:45

    — Está dizendo que isso um dia foi um cavalo? Isso é um pôneicicleta? — perguntou Emma, se esquecendo de sussurrar.
    Pôneicicleta kkk
    Clace é o casal famoso, se existisse revista de fofoca dos caçadores de sombras, certeza que sempre teria matérias como: "Nova moda de Clary Fairchild", "O que anda fazendo Jace Herondale?"kkkk

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    1. Pôneicicleta é algo tão Tyson :3

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    2. O Will também diria algo do tipo

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  5. Não se atreva Mark a gostar de Emma e tentar conquistá-la NÃO ATRAPALHE JEMMA fique com a Cristina que todos ficam do bem e seguros #TeamJulian&Emma

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  6. Pelo Anjo, já estou shippando eles <3

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  7. Gente, aquietem os rabos. O Mark não tá fazendo nada, oxi. Aposto que eles vão ser bons amigos u_u
    E na verdade, acho que o Mark vai acabar com a Cristina.

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