1 de julho de 2016

Capítulo 7 - O mar retumbante

Cristina estava sentada no chão do lado de fora do quarto de Mark Blackthorn.
Não ouviu qualquer ruído ali dentro pelo que pareceram horas. A porta estava entreaberta, e ela podia vê-lo, encolhido no canto como um animal selvagem preso.
Fadas eram sua área de estudo em casa. Ela sempre foi fascinada pelos contos das hadas, dos nobres guerreiros das Cortes aos duendes que provocavam e incomodavam os mundanos. Ela não esteve em Idris para a declaração da Paz Fria, mas seu pai, sim, e a história lhe dava calafrios. Ela sempre quis encontrar Mark e Helen Blackthorn, contar para eles...
Tiberius apareceu no corredor, carregando uma caixa de papelão. Sua irmã gêmea estava ao seu lado, com uma colcha de retalhos na mão.
— Minha mãe fez isso para Mark quando ele foi deixado conosco — disse ela, ao perceber que Cristina estava olhando. — Achei que ele pudesse se lembrar.
— Não conseguimos entrar no depósito, então trouxemos alguns presentes para Mark. Para ele saber que o queremos aqui — explicou Ty. Seu olhar percorreu incansavelmente o corredor. — Podemos entrar?
Cristina olhou para o quarto. Mark estava imóvel.
— Não vejo por que não. Mas tentem não fazer barulho para não o acordar.
Livvy entrou primeiro, colocando a colcha na cama. Ty pôs a caixa de papelão no chão, em seguida, foi para onde Mark estava deitado. Ele pegou a colcha que Livvy tinha colocado ali e se ajoelhou ao lado do irmão. Um pouco desajeitadamente, ele cobriu Mark com a colcha.
Mark se levantou. Seus olhos azuis e dourados se abriram, e ele segurou Ty, que soltou um grito como o de uma ave do mar. Mark tinha uma velocidade incrível, e puxou Ty para o chão. Livvy gritou e saiu correndo, assim que Cristina entrou.
Mark estava sobre Tiberius, prendendo-o no chão com os joelhos.
— Quem é você? — dizia Mark. — O que estava fazendo?
— Sou seu irmão! Sou Tiberius! — Ty se debatia loucamente, e os fones de ouvido deslizaram para o chão. — Estava lhe dando um cobertor!
— Mentiroso! — Mark estava arfando. — Meu irmão Ty é um garotinho! Ele é uma criança, meu irmãozinho, meu...
A porta se abriu atrás de Cristina. Livvy voltou para o quarto, os cabelos castanhos voando.
— Solte-o! — Uma lâmina serafim apareceu em sua mão, já começando a brilhar. Ela falou para Mark entre dentes, como se jamais o tivesse visto antes. Como se não tivesse trazido uma colcha de retalhos para ele há poucos instantes. — Se machucar Tiberius, eu te mato. Não me importo se você é Mark, eu mato.
Mark parou. Ty continuava se contorcendo e girando, mas Mark tinha parado completamente de se mexer. Lentamente, ele virou a cabeça para a irmã.
— Livia?
Livvy engasgou e começou a chorar. Julian ficaria tão orgulhoso, pensou Cristina, ela estava chorando sem se mexer, com a lâmina ainda firme na mão.
Ty se aproveitou da distração de Mark para bater nele, acertando-o com força no ombro. Mark fez uma careta e rolou para longe sem revidar. Ty se levantou e atravessou o quarto para se juntar a Livvy; ficaram ombro a ombro encarando o irmão, com olhos arregalados.
— Vocês dois, saiam! — Cristina disse a eles. Deu para sentir o pânico e a preocupação exalando dos dois em ondas; Mark claramente também sentiu. Ele estava contorcendo o rosto, abrindo e fechando as mãos como se estivesse com dor. Ela se abaixou para sussurrar para os gêmeos. — Ele está assustado. Não teve a intenção.
Livvy fez que sim com a cabeça e guardou a lâmina, então pegou a mão de Ty e disse algo baixinho para ele na linguagem quieta e particular que tinham. Ele a seguiu para fora do quarto, parando apenas brevemente para virar a cabeça e olhar para Mark, cuja expressão era de dor e espanto.
Mark estava sentado, arfando, com o corpo curvado sobre os joelhos. Ele sangrava pelo machucado reaberto que manchava sua camiseta. Cristina começou a sair lentamente do quarto.
O corpo de Mark ficou tenso.
— Por favor, não vá — pediu ele.
Cristina o encarou. Até onde sabia, essa era a primeira coisa coerente que ele tinha dito desde que chegara ao Instituto.
Ele levantou a cabeça, e, por um instante, ela enxergou, sob a sujeira, os machucados e os arranhões, o Mark Blackthorn de quem viu fotos, o Mark Blackthorn que podia relacionar a Livvy, Julian e Ty.
— Estou com sede — falou. Havia algo de enferrujado, quase sem uso, em sua voz, como um velho motor ligando outra vez. — Tem água?
— Claro. — Cristina pegou um copo na cômoda e foi até o pequeno banheiro da suíte. Quando voltou e entregou o copo para Mark, ele estava sentado, com as costas apoiadas no pé da cama. Olhou torto para o copo.
— Água da torneira — falou. — Quase me esqueci. — Ele tomou um longo gole e limpou a boca com o dorso da mão. — Você sabe quem eu sou?
— Você é Mark — respondeu Cristina. — Mark Blackthorn.
Fez-se uma longa pausa até ele fazer que sim com a cabeça, quase imperceptivelmente.
— Há muito tempo que ninguém me chama assim.
— Continua sendo seu nome.
— Quem é você? — perguntou ele. — Eu deveria me lembrar, provavelmente, mas...
— Sou Cristina Mendoza Rosales — respondeu ela. — Não existe razão para que se lembre, considerando que só nos conhecemos hoje.
— Isto é um alívio.
Cristina ficou surpresa.
— É?
— Se você não me conhece, e eu não a conheço, então, você não terá qualquer... expectativa. — Ele de repente pareceu exausto. — Sobre quem eu sou, ou como sou. Eu poderia ser qualquer pessoa para você.
— Mais cedo. Na cama. Você estava dormindo ou fingindo? — perguntou ela.
— Faz diferença? — rebateu ele, e Cristina não pôde deixar de pensar que era uma resposta típica de fada, uma resposta que não respondia a pergunta. Ele se mexeu novamente contra o pé da cama. — Por que você está no Instituto?
Cristina se ajoelhou, colocando a cabeça no mesmo nível que a de Mark. Ajeitou a saia sobre os joelhos – mesmo sem ela querer, palavras de sua mãe sobre uma Caçadora de Sombras sempre estar apresentável ecoaram em sua mente.
— Tenho 18 anos — falou. — Vim estudar a vida no Instituto de Los Angeles como parte do meu ano de intercâmbio. Quantos anos você tem?
Desta vez a hesitação de Mark se prolongou tanto que Cristina ficou imaginando se ele falaria alguma coisa.
— Não sei — respondeu afinal. — Eu fiquei... acho que fiquei fora... por muito tempo. Julian tinha 12 anos. Os outros eram bebês. Dez, 8 e 2. Tavvy tinha 2 anos.
— Para eles se passaram cinco anos — explicou Cristina. — Cinco anos sem você.
— Helen — disse Mark. — Julian. Tiberius. Livia. Drusilla. Octavian. Todas as noites contei os nomes deles entre as estrelas para não me esquecer. Estão todos vivos?
— Sim, todos eles, apesar de Helen não estar mais aqui; ela se casou e vive com a esposa.
— Então estão todos vivos e felizes juntos? Que bom. Soube do casamento lá no Reino das Fadas, apesar de já parecer que aconteceu há muito tempo.
— Sim — Cristina examinou o rosto de Mark. Ângulos, planos, agudeza, a curva no topo da orelha que denunciava sangue de fada. — Você perdeu muita coisa.
— Acha que não sei disso? — O calor fervilhou em sua voz, misturado ao espanto. — Não sei qual é a minha idade. Não reconheço meus próprios irmãos. Não sei por que estou aqui.
— Sabe — respondeu Cristina. — Você esteve presente quando as fadas conversaram com Arthur no Santuário.
Ele inclinou a cabeça para ela. Tinha uma cicatriz na lateral do pescoço, não como a marca de um símbolo desbotado, mas um vergão elevado. Seus cabelos estavam desalinhados e pareciam que não eram cortados há meses, talvez até anos. As pontas brancas e curvas tocavam seus ombros.
— Confia nelas? Nas fadas?
Cristina balançou a cabeça.
— Ótimo. — Ele desviou o olhar dela. — Não deve — falou, alcançando a caixa de papelão que Ty deixou no chão, e a puxou para si. — O que é isso?
— Coisas que eles acharam que você poderia querer — respondeu Cristina. — Seus irmãos.
— Presentes de boas-vindas — disse Mark com um tom confuso, e se ajoelhou perto da caixa, retirando um bando de itens estranhos; algumas camisetas e jeans que provavelmente pertenciam a Julian, um microscópio, pão e manteiga, um punhado de flores selvagens do deserto, do jardim atrás do Instituto.
Mark levantou a cabeça e encarou Cristina. Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas. A camiseta era fina e esfarrapada; dava para enxergar através do tecido outros vergões e cicatrizes em sua pele.
— O que eu digo para eles?
— Para quem?
— Minha família. Meus irmãos e irmãs. Meu tio. — Ele balançou a cabeça. — Eu me lembro deles e, ao mesmo tempo, não lembro. Sinto-me como se tivesse vivido a vida inteira aqui, mas ao mesmo tempo sempre estive com a Caçada Selvagem. Ouço os rugidos no meu ouvido, o chamado das cornetas, o barulho do vento. São mais fortes do que as vozes. Como explico isso?
— Não explique — respondeu Cristina baixinho. — Só diga que os ama e sentiu saudade deles todos os dias. Diga que detestava a Caçada Selvagem. Diga que está feliz por ter voltado.
— Mas por que eu faria isso? Não vão saber que estou mentindo?
— Não sentiu saudade deles? Não está feliz por ter voltado?
— Não sei — falou ele. — Não consigo ouvir meu coração ou o que ele me diz. Só ouço o vento.
Antes que Cristina pudesse responder, uma batida forte atingiu a janela. Bateu de novo, um padrão de batidas que soava quase como um código.
Mark se levantou. Atravessou o quarto até a janela e a abriu, inclinando-se para fora. Quando voltou para dentro, tinha algo na mão.
Uma bolota. E os olhos de Cristina arregalaram. Bolotas eram a forma como as fadas enviavam mensagens umas para as outras. Escondidas em folhas, flores e outros materiais selvagens.
— Já? — disse ela, sem conseguir se conter. Não podiam deixá-lo em paz, sozinho com a família, nem por um tempinho, na própria casa?
Parecendo pálido e cansado, Mark esmagou a bolota no punho. Um pergaminho enrolado caiu. Ele o pegou e leu a mensagem em silêncio.
A mão dele se abriu. Mark deslizou para o chão, puxando os joelhos contra o peito, abaixando a cabeça para as mãos. Seus longos cabelos claros caíram para a frente quando o pergaminho voou para o chão. Um ruído baixo saiu de sua garganta, algo entre um rosnado e um ganido de dor.
Cristina pegou o papel. Nele estava escrito, com uma letra delicada: Lembre-se de suas promessas: Lembre-se de que nada disso é real.


— Fogo para água — disse Emma, enquanto voltavam pela rodovia para o Instituto. — Depois de todos esses anos, finalmente sei o que algumas das marcas significam.
Julian estava dirigindo. Emma tinha os pés apoiados no painel, sua janela estava abaixada, o ar suave do mar preenchia o carro e levantava seus cabelos claros em torno das têmporas. Era sempre assim que ela andava de carro com Julian, com os pés levantados e o vento no cabelo.
Era algo que Julian adorava, Emma ao seu lado, dirigindo com o céu azul no alto e o mar azul a oeste. Era uma imagem que parecia cheia de possibilidades, como se simplesmente pudessem continuar no carro para sempre, com o horizonte como único destino.
Era uma fantasia que às vezes se desenvolvia quando ele estava caindo no sono. Que ele e Emma fariam as malas e deixariam o Instituto, em um mundo onde ele não tinha crianças e não havia Lei, nem Cameron Ashdown, onde nada além dos limites do amor e da imaginação os impedia.
E, se havia duas coisas que ele acreditava que não tinham limites, eram amor e imaginação.
— Parece de fato um feitiço — falou Julian, forçando a mente a voltar ao presente. Ele acelerou, o vento soprando mais forte pela janela de Emma à medida que ganhavam velocidade. Os cabelos dela levantaram, seda clara entornando de suas tranças, deixando-a com uma aparência jovem e vulnerável.
— Mas por que o feitiço estaria gravado nos corpos? — perguntou Emma. A ideia de algo a machucando doeu no peito de Julian.
No entanto, ele a estava machucando. Sabia disso. Sabia e detestava. Ele achou que havia tido uma grande ideia quando resolveu levar as crianças para a Inglaterra por oito semanas. Sabendo que Cristina Rosales viria, sabendo que Emma não ficaria sozinha ou infeliz. Parecia perfeita.
Ele achou que as coisas fossem ser diferentes quando voltasse. Que ele estaria diferente.
Mas não.
— O que Magnus te disse? — perguntou ele, enquanto ela olhava pela janela, os dedos cicatrizados tamborilando uma tatuagem sem ritmo no joelho dobrado. — Ele sussurrou alguma coisa.
Um vinco apareceu entre as sobrancelhas dela.
— Ele disse que existem lugares onde Linhas Ley convergem. Presumo que ele queria dizer que, como elas dobram e se curvam, existem locais onde mais de uma se encontram. Talvez todas.
— E isso é importante porque...?
Ela balançou a cabeça.
— Não sei. Sabemos que todos os corpos foram desovados em Linhas Ley, e isso é um tipo específico de magia. Talvez as convergências tenham alguma característica que a gente precise entender. Devíamos encontrar um mapa das Linhas Ley. Aposto que Arthur saberia onde procurar na biblioteca. Se não, nós mesmos podemos encontrar.
— Ótimo.
— Ótimo? — Ela pareceu surpresa.
— Vai demorar alguns dias para Malcolm traduzir aqueles papéis, e não quero passar esses dias sentado no Instituto, olhando para Mark, esperando para que ele... esperando. É melhor que continuemos trabalhando, tendo o que fazer. — A voz dele soou cansada aos próprios ouvidos. Ele detestava isso, detestava qualquer sinal visível ou audível de fraqueza.
Apesar de, pelo menos, ser só com Emma, para quem ele podia demonstrar essas coisas. Emma, a única em sua vida que não precisava ser cuidada por ele. Não precisava que ele fosse perfeito ou perfeitamente forte.
Antes que Julian pudesse dizer qualquer outra coisa, o telefone de Emma tocou com um zumbido alto. Ela o pegou do bolso.
Cameron Ashdown. Ela franziu o rosto para a lhama na tela.
— Agora não — reclamou ela, e guardou o telefone na calça.
— Você vai contar para ele? — perguntou Julian, ouvindo a rigidez na própria voz, e a detestando. — Sobre tudo isso?
— Sobre Mark? Eu jamais contaria. Nunca.
Ele continuou segurando firme o volante, com a mandíbula dura.
— Você é meu parabatai — falou ela, mas agora tinha raiva na voz. — Você sabe que eu não contaria.
Julian pisou no freio. O carro saltou para a frente, o volante escapando de suas mãos. Emma gritou quando deslizaram da rodovia e quicaram em uma vala perto do acostamento, entre a rua e as dunas.
Poeira subia em volta do carro feito plumas. Julian se virou para Emma. Ela estava com a boca branca.
— Jules.
— Não quis dizer aquilo.
Ela o encarou.
— O quê?
— Você ser minha parabatai é a melhor coisa da minha vida — confessou Julian. As palavras foram simples e firmes, ditas sem qualquer indício de nada sendo contido. Ele vinha reprimindo tanto que o alívio foi quase insuportável.
Impulsivamente, ela soltou o cinto de segurança, levantando do assento para encará-lo com serenidade. O sol estava alto lá fora. De perto, ele conseguia ver linhas douradas nos olhos castanhos de Emma, o fraco esboço de sardas no nariz, as mechas mais claras de cabelo que pegavam sol, misturadas aos fios mais escuros na nuca. Tom amarelo, misturado com branco. Ele podia sentir o cheiro de água de rosas e de sabão em pó nela.
Ela se inclinou para ele, e o corpo de Julian perseguiu a sensação de proximidade, de tê-la de volta e perto. Os joelhos dela bateram nos dele.
— Mas você disse...
— Eu sei o que eu disse. — Ele virou para ela, girando o corpo no assento do motorista. — Enquanto estive fora, percebi algumas coisas. Coisas difíceis. Talvez tenha percebido antes mesmo de partir.
— Pode me contar. — Ela o tocou gentilmente na bochecha. Ele sentiu todo o corpo trancar de tensão. — Eu me lembro do que você disse sobre Mark ontem à noite — continuou ela. — Você nunca foi o irmão mais velho. Ele sempre foi. Se ele não tivesse sido levado, se Helen tivesse podido ficar, você teria feito outras escolhas porque teria tido quem cuidasse de você.
Ele suspirou.
— Emma. — Dor crua. — Emma, eu disse o que disse porque... porque às vezes acho que pedi que você fosse minha parabatai porque queria que você ficasse presa a mim. A Consulesa queria que você fosse para a Academia, e eu não podia suportar essa ideia. Já tinha perdido tanta gente. Não queria te perder também.
Ela estava tão perto que ele pôde sentir o calor da pele queimada de sol de Emma. Por um instante ela não disse nada, e ele se sentiu como se estivesse na forca, com um nó amarrado na garganta. Esperando apenas pela queda.
Então ela colocou a mão na dele sobre o painel entre os dois.
As mãos deles. As dela pareciam tão delicadas, mas tinham mais cicatrizes do que as dele, eram mais calejadas, a pele dela áspera contra a de Julian. A pulseira de vidro marinho brilhava como joia ao sol.
— As pessoas complicam as coisas porque as pessoas são complicadas — falou ela. — Tudo isso sobre como você deve tomar decisões sobre parabatai apenas por motivos puros, isso é idiotice.
— Eu queria que você fosse amarrada a mim — revelou ele. — Porque eu estava amarrado aqui. Talvez você devesse ter ido para a Academia. Talvez tivesse sido o lugar certo para você. Talvez eu tenha tirado algo de você.
Emma olhou para ele. O rosto dela estava aberto e cheio de confiança. Ele quase pensou que pudesse sentir as próprias convicções estilhaçando, as convicções que ele construiu quando viajou no começo do verão, as convicções que levou consigo para casa até o momento em que a viu. Ele pôde senti-las quebrando dentro de si, como madeira boiando no mar, chocando-se contra as pedras.
— Jules — chamou ela. — Você me deu uma família. Você me deu tudo.
Um telefone tocou de novo. O de Emma. Julian reclinou, com o coração acelerado, enquanto ela o tirava do bolso. Ele observou enquanto o rosto dela enrijecia.
— Livvy está mandando uma mensagem — resumiu ela. — Disse que Mark acordou. E ele está gritando.


Julian pisou fundo na volta para casa, Emma manteve as mãos fechadas sobre os joelhos enquanto o velocímetro ultrapassava os 120. Eles entraram no estacionamento atrás do Instituto, e ele pisou no freio. Julian se jogou do carro, e Emma correu atrás dele.
Eles chegaram ao segundo andar e viram os Blackthorn mais jovens sentados no chão do lado de fora do quarto de Mark. Dru estava encolhida, com Tavvy apoiado em sua lateral; Ty estava sozinho, sentado com as mãos penduradas entre os joelhos. Todos tinham olhares fixos, a porta estava entreaberta, e, através da abertura, Emma ouviu a voz de Mark, elevada e furiosa, e depois outra voz, mais baixa e mais calma: Cristina.
— Desculpe por ter mandado mensagem — disse Livvy baixinho. — É que ele estava gritando sem parar. Ele finalmente parou, mas... Cristina está lá com ele. Se algum de nós entra, ele uiva e grita.
— Meu Deus. — Emma foi para a porta, mas Julian a pegou e virou para que ela o encarasse. Ela olhou e viu que Ty tinha começado a se balançar, com os olhos fechados. Era algo que ele fazia quando as coisas eram demais: altas demais, duras demais, severas, rápidas ou dolorosas.
O mundo era mais intenso para Ty do que para qualquer pessoa, Julian sempre disse isso. Era como se os ouvidos dele escutassem com mais clareza, os olhos enxergassem melhor, e, às vezes, era demais para ele. Ele precisava cobrir o barulho, sentir alguma coisa com a mão para se distrair. Ele precisava se balançar para se acalmar. Todos processavam o estresse de um jeito diferente, Julian dizia. Era assim que Ty fazia, e isso não prejudicava ninguém.
— Em — falou Julian, com o rosto duro de tensão. — Preciso entrar sozinho.
Ela fez que sim com a cabeça. Ele a soltou quase relutantemente.
— Pessoal — anunciou Julian, olhando para os irmãos; para o rosto redondo e preocupado de Dru, para a face confusa de Tavvy, para os olhos infelizes de Livvy, e para os ombros encolhidos de Ty. — Vai ser difícil para Mark. Não podemos esperar que ele fique bem de uma hora para outra. Ele passou muito tempo longe. Tem que se acostumar a estar aqui.
— Mas somos a família dele — argumentou Livvy. — Por que alguém precisaria se acostumar com a própria família?
— Pode acontecer — respondeu Julian, com aquela voz suave e paciente que às vezes impressionava Emma — se você tivesse passado muito tempo longe e se tivesse ido para algum lugar onde a mente engana a pessoa.
— Como o Reino das Fadas — disse Ty. Ele tinha parado de se balançar e estava apoiado na parede, os cabelos escuros molhados contra o rosto.
— Certo — disse Julian. — Então vamos ter que dar tempo a ele. Talvez deixá-lo sozinho um pouco. — Ele olhou para Emma.
Ela forçou um sorriso – meu Deus, ela era tão pior do que Jules nisso – e disse:
— Malcolm está trabalhando na investigação. Nos assassinatos. Achei que pudéssemos ir até a biblioteca pesquisar sobre Linhas Ley.
— Eu também? — perguntou Drusilla.
Emma disse:
— Você pode ajudar a fazer um mapa. Tudo bem?
Dru fez que sim com a cabeça.
— Tudo bem.
Ela se levantou, e os outros foram atrás. Enquanto Emma os conduzia pelo corredor, um grupo quietamente vencido, ela olhou para trás apenas uma vez. Julian estava perto da porta do quarto de Mark, observando-os. Seus olhos encontraram os dela por uma fração de segundos antes de ele desviar, como se ele não a tivesse visto olhar.


Se ao menos Emma estivesse com ele, Julian pensou ao abrir a porta, isso seria mais fácil. Tinha que ser mais fácil. Quando Emma estava com ele, era como se ele respirasse o dobro de oxigênio, tivesse duas vezes mais sangue, tivesse dois corações para conduzir o próprio corpo. Ele atribuiu isso à magia parabatai: ela fazia com que ele fosse duas vezes mais o que seria sem ela.
Mas ele teve que mandá-la ir com as crianças; ele não confiava em mais ninguém com elas e, definitivamente, não confiava em Arthur. Arthur, pensou amargamente, que se escondia no sótão enquanto um de seus sobrinhos tentava desesperadamente manter a família unida e outro...
— Mark? — chamou Julian.
O quarto parecia mal iluminado, as cortinas fechadas. Dava para ver o quanto ele estava magro; havia músculos vigorosos nele, mas do tipo que você ganhava passando fome e seguindo em frente ainda assim. A cabeça dele se levantou quando Julian disse seu nome.
Os olhares se encontraram, e, por um momento, Julian viu um lampejo de reconhecimento nos olhos do irmão.
— Mark — repetiu ele, e deu um passo para a frente, com a mão esticada. — Sou eu. Jules.
— Não... — Ele rosnou. — Alucinações... eu o conheço... Gwyn o enviou para me enganar...
— Sou seu irmão — repetiu Julian. A expressão no rosto de Mark era selvagem.
— Você conhece os desejos do meu coração — disse Mark. — E os está utilizando contra mim, como facas.
Julian olhou para Cristina. Ela estava se levantando lentamente, como se estivesse se preparando para se colocar entre os dois irmãos, caso isso fosse necessário.
Mark se virou para Jules. Seus olhos estavam cegos, sem enxergar.
— Você traz os gêmeos para mim e os mata sem parar. Meu Ty, ele não entende por que não posso salvá-lo. Você me traz Dru e, quando ela ri e pede para ver o castelo dos contos de fada, todo cheio de cercas vivas, você me lava com o sangue de Octavian, pois o sangue de uma criança inocente é mágico sob a colina.
Julian não se aproximou mais. Ele se lembrou do que Jace Herondale e Clary Fairchild contaram a ele e à irmã, sobre o encontro que tiveram com Mark há anos sob as colinas das fadas, os olhos partidos e as marcas de chicote no corpo.
Mark era forte, ele repetiu para si mesmo na escuridão de mil noites que se seguiram. Ele aguentaria. Julian só pensava na tortura do corpo. Não tinha pensado na tortura da mente.
— E Julian — falou Mark. — Ele é forte demais para quebrar. Você tenta quebrá-lo em movimento, tenta rasgá-lo com espinhos e lâminas, mas nem assim ele desiste. Então você o leva até Emma, pois os desejos de nossos corações são facas para você.
Foi demais para Julian. Ele avançou, agarrando um dos pilares da cama para se apoiar.
— Mark — começou Julian. — Mark Antony Blackthorn. Por favor. Não é um sonho. Você realmente está aqui. Está em casa.
Ele alcançou a mão de Mark. Mark a puxou de volta, para longe dele.
— Você é uma fumaça mentirosa.
— Sou seu irmão.
— Não tenho irmãos e irmãs, não tenho família, sou sozinho. Cavalgo com a Caçada Selvagem. Sou leal a Gwyn, o Caçador. — Mark recitou as palavras como um mantra.
— Não sou Gwyn — disse Julian. — Sou um Blackthorn. Tenho sangue Blackthorn, assim como você.
— Você é um fantasma e uma sombra. Você é a crueldade da esperança. — Mark virou o rosto. — Por que está me punindo? Não fiz nada para desagradar a Caçada.
— Não tem nenhuma punição aqui. — Julian deu um passo para perto de Mark. Mark não se mexeu, mas seu corpo tremeu. — Essa é a sua casa. Posso provar.
Ele olhou por cima do ombro. Cristina estava completamente imóvel contra a parede, e ele viu que o brilho na mão dela era uma faca. Claramente ela esperava para ver se Mark ia atacá-lo. Julian ficou se perguntando por que ela se dispôs a ficar sozinha no quarto com Mark; será que não tinha medo?
— Não existem provas — sussurrou Mark. — Não quando você pode criar uma ilusão diante dos meus olhos.
— Eu sou seu irmão — repetiu Julian. — E, para provar, vou dizer algo que só o seu irmão saberia.
Com isso, Mark levantou o olhar. Algo piscou em seus olhos, como uma luz brilhando em uma água distante.
— Eu me lembro do dia em que o levaram — falou Julian.
Mark se encolheu.
— Qualquer fada saberia disso...
— Nós estávamos na sala de treinamento. Ouvimos barulhos, e você desceu. Mas antes de ir, você me disse uma coisa. Você se lembra?
Mark ficou parado.
— Você disse “fique com Emma” — continuou Julian. — Você me mandou ficar com ela, e eu fiquei. Somos parabatai agora. Cuidei dela por todos esses anos, e sempre vou cuidar, porque você me pediu, porque a última coisa que você me disse foi isso, porque...
Ele se lembrou, então, que Cristina estava ali, e se interrompeu subitamente. Mark olhava fixamente para ele, em silêncio. Julian sentiu o desespero inflar dentro dele. Talvez fosse um truque das fadas; talvez tivessem devolvido Mark, mas tão destruído e vazio que ele não era mais Mark. Talvez...
Mark quase caiu para a frente e abraçou Julian.
Julian mal conseguiu se ajeitar antes de quase cair no chão. Mark estava magro como uma corda, mas era forte, suas mãos agarravam a camisa de Julian. Ele sentiu o coração de Mark martelando, sentiu os ossos afiados sob a pele. Ele cheirava a terra, míldio, grama e ar noturno.
— Julian — disse Mark, abafado, com o corpo tremendo. — Julian, meu irmão, meu irmão.
Em algum lugar ao longe, Julian ouviu o clique da porta ao se fechar; Cristina os tinha deixado a sós.
Julian suspirou. Ele queria relaxar no abraço do irmão, permitir que Mark o abraçasse como outrora o fez. Mas Mark estava mais magro do que antes, mais frágil sob suas mãos. Ele é que abraçaria Mark de agora em diante. Não foi o que tinha imaginado ou sonhado, mas era a realidade. Era seu irmão. Ele apertou as mãos em volta de Mark e preparou o coração para mais esse fardo.


A biblioteca do Instituto de Los Angeles era pequena – nada como as famosas bibliotecas de Nova York e Londres, mas ainda assim conhecida por sua coleção surpreendentemente grande de livros em grego e latim. Tinham mais livros sobre magia e ocultismo no período clássico do que o Instituto do Vaticano.
Outrora a biblioteca teve azulejos de argila e janelas antigas; agora era um salão moderno. A velha biblioteca fora destruída durante o ataque de Sebastian Morgenstern ao Instituto, os livros acabaram espalhados entre tijolos e deserto. Após a reconstrução, ela era feita de vidro e aço. O chão era de pedra polida, liso e brilhante com a aplicação de feitiços de proteção.
Uma rampa em espiral começava no lado norte do primeiro andar e subia pelas paredes; o lado externo da rampa continha livros e janelas, ao passo que o interno, de frente para o interior da biblioteca, era um corrimão na altura do ombro. No alto, havia uma abertura – uma claraboia fechada por uma larga tranca de bronze, feita de vidro espesso e também decorada com símbolos de proteção.
Os mapas ficavam em um baú enorme decorado com o brasão da família Blackthorn – um anel de espinhos – e com o lema da família abaixo: lex malla, lex nulla.
Uma lei ruim não é lei.
Emma suspeitava que os Blackthorn nem sempre tivessem tido boas relações com o Conselho.
Drusilla remexia o baú de mapas, Livvy e Ty estavam na mesa com mais mapas, e Tavvy brincava embaixo dela com soldadinhos de plástico.
— Dá para saber se Julian está bem? — perguntou Livvy, apoiando o queixo na mão e encarando Emma ansiosamente. — Você sabe, como ele está se sentindo...
Emma balançou a cabeça.
— Parabatai não é bem assim. Quero dizer, consigo sentir se ele estiver machucado, fisicamente, mas não tanto com as emoções.
Livvy suspirou.
— Seria tão bom ter um parabatai.
— Não vejo por quê — disse Ty.
— Alguém que sempre cuide de você — respondeu a menina. — Alguém que sempre vai protegê-lo.
— Eu faria isso por você de qualquer jeito — retrucou Ty, puxando um mapa para si. Era uma discussão que já tinham tido antes; Emma havia escutado uma variação da mesma mais dúzia de vezes.
— Nem todo mundo nasceu para ter um — disse ela.
Por um momento desejou que tivesse palavras para explicar melhor: como amar alguém mais do que a si mesmo dava força e coragem; como se ver nos olhos de seu parabatai significava enxergar a melhor versão de você mesma; como, na melhor das hipóteses, lutar ao lado do seu parabatai era como tocar instrumentos harmoniosamente um com o outro, cada trecho musical melhorando o do outro.
— Ter alguém que jure protegê-lo dos perigos — disse Livvy, com os olhos brilhando. — Alguém que colocaria a mão no fogo por você.
Brevemente Emma se lembrou de que Jem um dia lhe disse que seu parabatai, Will, colocou a mão no fogo para pegar um remédio que salvaria a vida dele. Talvez ela não devesse ter contado essa história a Livvy.
— Nos filmes, Watson se joga na frente de Sherlock quando ouve um tiro — disse Ty, parecendo pensativo. — Isso é tipo parabatai.
Livvy pareceu ligeiramente confusa, e Emma sentiu dó. Se Livvy dissesse que isso não era tipo parabatai, Ty questionaria. Se ela concordasse que era, ele observaria que não era preciso ser parabatai para saltar na frente de alguém em uma situação de perigo. Ele não estava enganado, mas ela se solidarizava com o desejo de Livvy de ser parabatai de Ty. De garantir que o irmão sempre estivesse ao seu lado.
— Consegui! — Drusilla anunciou de repente. Ela se levantou da função de revirar os mapas nos baús e apareceu com um grande pedaço de pergaminho nas mãos. Livvy, abandonando a discussão sobre parabatai, se apressou para ajudá-la a levar tudo para a mesa.
Em uma vasilha clara no centro da mesa havia um monte de vidro marinho que os Blackthorn colecionaram ao longo dos anos: pedaços de azul leitoso, verde, cobre e vermelho. Emma e Ty utilizaram o vidro azul como peso para as pontas do mapa das Linhas Ley.
Tavvy, agora sentado à beira da mesa, tinha começado a separar o resto dos vidros marinhos por cor. Emma permitiu; ela não sabia de que outro jeito poderia mantê-lo distraído então.
— Linhas Ley — falou Emma, passando o indicador pelas linhas longas do mapa. Era um mapa de Los Angeles que provavelmente datava dos anos 1940. Havia pontos de referência sob as Linhas Ley: o Crossroads of the World, em Hollywood, o prédio Bullocks, em Wilshire, a estrada de ferro Algels Flight, em Bunker Hill, o Píer de Santa Monica, a curva que jamais mudava da costa e do oceano. — Todos os corpos foram deixados onde havia uma Linha Ley. Mas Magnus disse que existem lugares onde todas as Linhas Ley convergem.
— O que isso tem a ver com alguma coisa? — Livvy quis saber, prática como sempre.
— Não sei, mas não acho que ele teria dito isso se não fosse importante. Imagino que o ponto de convergência tenha alguma magia muito poderosa.
Enquanto Ty estudava o mapa com um vigor renovado, Cristina entrou na biblioteca e fez um gesto para que Emma viesse falar com ela. Emma saiu da mesa e seguiu Cristina até a cafeteira perto da janela. Era ligada por energia enfeitiçada, o que significava que sempre tinha café, apesar de o café nem sempre ser muito bom.
— Está tudo bem com Julian? — perguntou Emma. — E Mark?
— Estavam conversando quando eu saí. — Cristina encheu dois copos com café preto e pegou açúcar de um pote no parapeito da janela. — Julian conseguiu acalmá-lo.
— Julian consegue acalmar qualquer pessoa. — Emma pegou o segundo copo de café, aproveitando o calor contra a pele, apesar de não gostar de fato de café, e não tender a tomá-lo. Além disso, seu estômago estava tão cheio de nós que ela não achava que devesse forçar nada.
Ela foi até a mesa onde os Blackthorn estavam discutindo sobre o mapa das Linhas Ley.
— Bem, não posso fazer nada se você não faz sentido — dizia Ty irritadiço. — É aqui que diz que está a convergência.
— Onde? — perguntou Emma, chegando por trás dele.
— Aqui. — Dru apontou para o círculo que Ty tinha marcado a lápis no mapa. Era em cima do mar, mais longe de Los Angeles do que a Ilha Catalina. — Ninguém vai poder fazer magia lá.
— Acho que Magnus só estava puxando papo — disse Livvy.
— Ele provavelmente não sabia... — começou Emma, se interrompendo quando a porta da biblioteca abriu.
Era Julian. Ele entrou no recinto e chegou um pouco para o lado, timidamente, como um mágico apresentando o resultado de um truque.
Mark atravessou a entrada depois dele. Julian deve ter pegado as coisas de Mark do depósito. Ele estava com uma calça jeans um pouco curta – provavelmente alguma antiga – e uma das camisetas de Julian, cinza e um pouco desbotada. Em contraste, seu cabelo era muito louro, quase prateado. Batia nos ombros, mas parecia um pouco menos emaranhado, como se ele tivesse pelo menos escovado os gravetos para fora.
— Oi — cumprimentou ele.
Os irmãos olharam para ele com espanto silencioso e olhos arregalados.
— Mark queria vê-los — disse Julian. Ele esticou o braço para afagar o próprio cabelo atrás da nuca, como se não tivesse ideia do que fazer em seguida.
— Obrigado — disse Mark. — Pelos presentes de boas-vindas que me deram.
Os Blackthorn continuaram encarando. Ninguém se moveu, exceto Tavvy, que lentamente repousou os vidros marinhos sobre a mesa.
— A caixa — esclareceu Mark. — No meu quarto.
Emma sentiu o copo de café que segurava sendo retirado de sua mão. Ela emitiu um ruído indignado, mas Cristina já o tinha pegado, e estava atravessando a sala, caminhando até Mark, com a coluna reta. Ela estendeu o copo.
— Quer um pouco? — ofereceu.
Parecendo aliviado, ele aceitou. Então o levou até a boca e engoliu, a família toda olhando para ele com fascínio, como se ele estivesse fazendo algo que ninguém jamais houvesse feito.
Ele fez uma careta. Afastando-se de Cristina, tossiu e cuspiu.
— O que é isso?
— Café. — Cristina pareceu espantada.
— Tem gosto do mais amargo dos venenos — respondeu Mark indignado.
Livvy de repente riu. O barulho cortou o silêncio do resto da sala, a posição congelada dos outros.
— Você adorava café — falou ela. — Eu me lembro disso a seu respeito!
— Não consigo imaginar por quê. Nunca provei nada tão nojento. — Mark fez uma careta.
Os olhos de Ty se moveram entre Julian e Livvy; ele parecia ansioso e animado, os dedos longos batucavam a mesa diante de si.
— Ele não está mais acostumado com café — falou para Cristina. — Não tem café no Reino das Fadas.
— Tome. — Livvy se levantou, pegando uma maçã da mesa. — Coma isso, então — falou se adiantando e entregando a maçã ao irmão. Emma a achou parecida com uma Branca de Neve mais atual, com longos cabelos escuros e uma maçã na mão branca. — Não tem problemas com maçãs, tem?
— Meus agradecimentos, graciosa irmã. — Mark fez uma reverência e pegou a maçã enquanto Livvy olhava para ele com a boca parcialmente aberta.
— Você nunca me chama de “graciosa irmã” — reclamou Livvy, voltando-se para Julian com um olhar acusador.
Ele sorriu.
— Eu a conheço bem demais, pingo de gente.
Mark esticou o braço e puxou a corrente do próprio pescoço. Pendurada nela, via-se o que parecia a ponta de uma flecha. Era transparente, como se fosse feita de vidro, e Emma se lembrava de já ter visto algo parecido em fotos que Diana havia mostrado.
Mark começou a usar a borda do pingente para descascar a maçã, como se aquilo fosse um hábito. Tavvy, que tinha voltado para baixo da mesa e observava, emitiu um ruído interessado. Mark olhou para ele e deu uma piscadela. Tavvy voltou para baixo da mesa, mas Emma viu que ele sorria.
Ela não conseguia parar de olhar para Jules. E pensou em como ele limpou o quarto de Mark, tirando vorazmente as coisas do irmão e empilhando-as como se pudesse estilhaçar suas lembranças. Durou somente um dia, mas ele tinha sombras nos olhos desde então. Ela ficou imaginando, se Mark ficasse, será que as sombras desapareceriam?
— Gostou dos presentes? — perguntou Dru, girando em torno de mesa, o rosto redondo ansioso. — Coloquei pão e manteiga para você, caso ficasse com fome.
— Eu não soube o que eram todas as coisas — falou Mark com sinceridade. — As roupas foram muito úteis. O objeto preto de metal...
— É o meu microscópio — disse Ty, olhando para Julian, em busca de aprovação. — Achei que você pudesse gostar.
Julian se apoiou contra a mesa. Ele não perguntou a Ty por que Mark ia querer um microscópio, apenas esboçou seu sorriso de lado, delicado.
— Foi gentil de sua parte, Ty.
— Tiberius quer ser detetive — explicou Livvy para Mark. — Como Sherlock Holmes.
Mark pareceu confuso.
— É alguém que conhecemos? Como um feiticeiro?
— É um personagem literário — respondeu Dru, rindo.
— Tenho todos os livros de Sherlock Holmes — disse Ty. — Sei todas as histórias. São 56 contos e quatro romances. Posso contar para você. E ensinar como se usa o microscópio.
— Acho que passei manteiga nele — admitiu Mark, parecendo envergonhado. — Não me lembrei que era uma ferramenta científica.
Emma olhou preocupada para Ty – ele era muito meticuloso com suas coisas e poderia ficar profundamente chateado com qualquer pessoa tocando-as ou tirando do lugar. Mas ele não parecia irritado. Alguma coisa na franqueza de Mark parecia encantá-lo, do jeito que ele, às vezes, se encantava com um icor demoníaco incomum ou o ciclo de vida das abelhas.
Mark tinha cortado a maçã em pedaços cuidadosos e comia lentamente, como alguém acostumado a ter que fazer sua comida durar. Ele era muito magro, mais magro do que um Caçador de Sombras da sua idade normalmente seria – Caçadores de Sombras eram estimulados a comer e treinar, ganhar músculos e energia. A maioria dos Caçadores de Sombras, em função do constante e brutal treinamento físico, variava entre magro e musculoso, apesar de Drusilla ser mais cheinha, algo que a incomodava cada vez mais, conforme crescia. Emma sempre sofria ao ver o rubor que coloria as bochechas de Dru quando o uniforme designado a meninas da sua idade não cabia nela.
— Ouvi vocês falando em convergências? — disse Mark, indo em direção aos outros, cuidadosamente, como se não tivesse certeza de que era bem-vindo. Seus olhos levantaram, e, para surpresa de Emma, ele olhou para Cristina. — A convergência das Linhas Ley é um local onde magia negra pode ser executada sem que a detectem. O Povo das Fadas sabe muito sobre as Linhas Ley e a usa com frequência. — Ele tinha colocado a ponta da flecha de volta no pescoço; ela brilhou quando ele abaixou a cabeça para olhar o mapa na mesa.
— Este é um mapa das Linhas Ley em Los Angeles — disse Cristina. — Todos os corpos foram encontrados nelas.
— Errado — observou Mark, inclinando-se para a frente.
— Não, ela está certa — respondeu Ty com o rosto franzido. — É um mapa de Linhas Ley e os corpos foram desovados nelas.
— Mas o mapa está incorreto — apontou Mark. — As Linhas Ley não são precisas, nem os pontos de convergência. — Sua mão direita de dedos longos passou sobre o círculo desenhado à lápis por Ty. — Não está nada correto. Quem fez esse mapa?
Julian se aproximou, e, por um instante, ele e o irmão ficaram ombro a ombro, os cabelos claro e escuro em um contraste marcante.
— É o mapa do Instituto, presumo.
— Pegamos do baú — disse Emma, inclinando-se sobre ele do outro lado da mesa. — Com todos os outros mapas.
— Bem, foi alterado — disse Mark. — Precisaremos de um mapa correto.
— Talvez Diana possa conseguir um — falou Julian, alcançando um bloco de papel e um lápis. — Ou poderíamos pedir a Malcolm.
— Ou ver o que conseguimos no Mercado das Sombras — disse Emma, sorrindo sem qualquer arrependimento ao ver o olhar de Julian. — Só uma sugestão;
Mark olhou para o irmão e depois para os outros, claramente preocupado.
— Isso ajudou? — perguntou. — Foi alguma coisa que eu não deveria ter dito?
— Tem certeza? — disse Ty, olhando do mapa para o irmão, e alguma coisa em seu rosto era tão aberta quanto uma porta. — O mapa está incorreto?
Mark fez que sim com a cabeça.
— Então ajudou — respondeu Ty. — Poderíamos ter perdido dias em um mapa errado. Talvez até mais.
Mark exalou aliviado. Julian colocou a mão nas costas do irmão. Livvy e Dru sorriram. Tavvy estava olhando de baixo sob a mesa, claramente curioso. Emma olhou para Cristina. Os Blackthorn pareciam unidos por uma espécie de força invisível, naquele momento eram realmente uma família, e Emma nem conseguia se importar com o fato de que ela e Cristina estavam de fora.
— Eu posso tentar corrigir — disse Mark. — Mas não sei se tenho essa capacidade. Helen... Helen saberia — ele olhou para Julian. — Ela é casada e está longe, mas imagino que vá voltar para fazer isso? E para me ver?
Foi como observar vidro se quebrando em câmera lenta. Nenhum dos Blackthorn se mexeu, nem mesmo Tavvy, mas um branco se espalhou por suas feições ao perceberem exatamente o quanto Mark não sabia.
Mark empalideceu e lentamente colocou o meio da maçã na mesa.
— O que foi?
— Mark — começou Julian, olhando para a porta — vamos conversar no quarto, e não aqui...
— Não — interrompeu Mark, a voz se elevando com medo. — Vai me contar agora. Onde está minha irmã cem por cento de sangue, a filha de Lay Nerissa? Onde está Helen?
Fez-se um silêncio dolorosamente desconfortável. Mark olhava para Julian; eles não estavam mais lado a lado. Mark tinha se afastado, tão quieta e rapidamente que Emma não viu acontecer.
— Você disse que ela estava viva — acusou Mark, e em sua voz havia medo e acusação;
— Ela está — Emma se apressou em responder. — Ela está bem.
Mark emitiu um ruído impaciente.
— Então quero saber onde está minha irmã. Julian?
Mas não foi Julian quem respondeu.
— Ela foi embora quando decretaram a Paz Fria — explicou Ty, para surpresa de Emma. Ele soou prático. — Foi exilada.
— Houve uma votação — continuou Livvy. — Alguns integrantes da Clave queriam matá-la, por causa do sangue de fada, mas Magnus Bane defendeu os direitos dos membros do Submundo. Helen foi mandada para a Ilha Wrangel para estudar as barreiras de proteção.
Mark se apoiou na mesa, com a palma da mão esticada sobre ela, como se estivesse tentando recuperar o fôlego após levar um soco.
— Ilha Wrangel — sussurrou ele. — É um lugar frio; gelo e neve. Já cavalguei por aquelas terras com a Caçada. Nunca soube que minha irmã estava lá, no meio do lixo congelado.
— Não teriam deixado vê-la, mesmo que soubesse — comentou Julian.
— Mas vocês deixaram que ela fosse mandada para lá — os olhos bicolores de Mark ardiam. — Deixaram que ela fosse exilada.
— Nós éramos crianças. Eu tinha 12 anos. — Julian não levantou a voz; os olhos azuis estavam frios e secos. — Não tivemos escolha. Falamos com Helen toda semana, e todo ano pedimos para a Clave permitir que ela volte.
— Discurso e petições — Mark desdenhou. — É o mesmo que nada. Eu sabia... eu sabia que eles tinham escolhido não me procurar. Sabia que tinham me abandonado com a Caçada Selvagem. — Ele engoliu em seco dolorosamente. — Achei que fosse porque tinham medo de Gwyn e da vingança da Caçada. Não por me odiarem e desprezarem.
— Não era ódio — disse Julian. — Era medo.
— Disseram que não podíamos procurar você — falou Ty. Ele tinha pegado um dos brinquedos do bolso: um pedaço de cabo que constantemente passava pelos dedos, dobrando e formando oitos. — Que era proibido. E também nos proibiram de visitar Helen.
Mark olhou para Julian; os olhos agora sombrios de fúria, preto e bronze.
— Vocês sequer tentaram?
— Não vou brigar com você, Mark — disse Julian. A lateral da boca estava tremendo; era algo que só acontecia quando ele estava muito chateado, e algo que, Emma supunha, só ela notaria.
— Não vai brigar por mim também — disse Mark. — Isso está bem claro. — Ele olhou em volta do quarto. — Voltei para um mundo onde não me querem, ao que parece — falou, e se retirou da biblioteca.
Fez-se um silêncio terrível.
— Vou atrás dele — disse Cristina, saindo de lá.
No silêncio deixado por sua partida, os Blackthorn olharam para Jules, e Emma combateu o impulso de correr e se colocar entre ele e os olhares suplicantes dos irmãos; eles o olhavam como se ele pudesse consertar aquilo, consertar tudo, como sempre fazia.
Mas Julian estava completamente imóvel, com os olhos semicerrados e os punhos fechados. Ela se lembrou de como ele olhou para ela no carro, do desespero em sua expressão. Havia poucas coisas na vida capazes de perturbar a calma de Julian, mas Mark era, e sempre tinha sido, uma delas.
— Vai ficar tudo bem — garantiu Emma, esticando a mão para afagar o braço macio de Dru. — Claro que ele está furioso; ele tem todo o direito de estar, mas não está com raiva de nenhum de vocês. — Emma olhou para Julian, por cima da cabeça, tentando captar o olhar dele, tranquilizá-lo. — Vai ficar tudo bem.
A porta se abriu outra vez, e Cristina voltou para o recinto. Julian voltou o olhar para ela bruscamente.
As tranças escuras e lustrosas de Cristina estavam enroladas e brilhavam enquanto ela balançava a cabeça.
— Ele está bem — falou —, mas se trancou no quarto, e acho melhor ele ficar sozinho. Posso ficar no corredor se vocês quiserem.
Julian balançou a cabeça.
— Obrigado — disse o garoto. — Mas ninguém precisa ficar de olho nele. Ele é livre para ir e vir.
— Mas e se ele se machucar? — Tavvy foi quem perguntou. Sua voz soou baixa e fraca.
Julian se abaixou e pegou o irmão no colo, abraçando Tavvy com força, uma vez, antes de colocá-lo novamente no chão. Tavvy ficou segurando a camisa de Jules.
— Isso não vai acontecer. — respondeu Julian.
— Quero ir até o estúdio — disse Tavvy. — Não quero ficar aqui.
Julian hesitou, em seguida, concordou. O estúdio no qual pintava era um lugar para onde frequentemente levava Tavvy quando o irmãozinho estava assustado: Tavvy achava as tintas, os papéis e até os pincéis relaxantes.
— Eu o levo até lá — falou. — Tem sobra de pizza na cozinha se alguém quiser, e sanduíches, e...
— Está tudo bem, Jules. — disse Livvy. Ela havia se sentado à mesa, perto do irmão gêmeo; ela estava acima de Ty enquanto ele olhava o mapa de Linhas Ley, com a boca rija. — Cuidaremos do jantar. Vamos ficar bem.
— Levo alguma coisa para você comer — disse Emma. — E para Tavvy também.
Obrigado, Jules moveu a boca sem emitir som e se virou para a porta. Antes de alcançá-la, Ty, que estava quieto desde que Mark saiu, se pronunciou:
— Você não vai puni-lo — perguntou, com a corda enrolada firmemente nos dedos da mão esquerda — vai?
Julian virou, claramente surpreso.
— Punir Mark? Por quê?
— Por todas as coisas que ele disse. — Ty estava vermelho, desenrolando a corda lentamente ao deslizá-la pelos dedos. Ao longo de anos observando o irmão e tentando aprender, Julian tinha entendido que, no tocante a sons e luzes, Ty era muito mais sensível do que a maioria das pessoas. Mas em relação a toque, isso o fascinava. Foi como Julian aprendeu a criar distrações e ferramentas manuais para Ty, observando o irmão passar horas investigando a textura da seda ou da lixa, as ondulações das conchas e a aspereza das pedras. — Foi tudo verdade, é a verdade. Ele falou a verdade e ajudou com a investigação. Não deve ser punido por isso.
— Claro que não — disse Julian. — Nenhum de nós o puniria.
 — Não é culpa dele se não entende tudo — continuou Ty. — Ou se as coisas são demais para ele. Não é culpa dele.
— Ty-Ty — disse Livvy. Era o apelido de Emma para Tiberius quando ele era bebê. Desde então, a família inteira o adotou. Ela esticou o braço para esfregar o ombro dele. — Vai ficar tudo bem.
— Não quero que Mark vá embora outra vez — disse Ty. — Entendeu, Julian?
Emma observou enquanto o peso daquilo, a responsabilidade, recaia sobre Julian.
— Entendi, Ty — retrucou ele.

9 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira1 de julho de 2016 16:37

    Esperando o melhor boy que já é meu (chorem mulheres e homens) aceitar ser Parabatai da Livvy, mas como ele quer entrar para aquela escola zuada e mó poderosa não vai acontecer, que triste, EU CHORO CONTIGO LIVVY

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    1. Ele provavelmente não vai aceitar ser parabatai dela. E pelas coisas q a tia Cassie disse acho q ele é gay.

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  2. "Cristina pegou o papel. Nele estava escrito, com uma letra delicada: Lembre-se de suas promessas: Lembre-se de que nada disso é real." Não Vai embora Mark!
    #EuOdeioACaçada

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  3. "Brevemente Emma se lembrou de que Jem um dia lhe disse que seu parabatai, Will, colocou a mão no fogo para pegar um remédio que salvaria a vida dele." CHOREI SÓ DE LEMBRAR DO WILL!!!

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  4. Pelo Anjo é muita responsabilidade pra cima do Julian, coitado!!!

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  5. Vdd. Coitado do Julian!
    Que lindo a Emma falando do Jem e do Will! ❤❤❤
    #amoaspeçasinfernais #saudade

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  6. WILLLLLLLLL! JEMMMM! TESSA!!
    Estou surtando, falam tão pouco deles, são tão poucas referências q me dói. Queria saber mais sobre eles, Jem e Tessa, já q infelizmente shadowhunters n são imortais... (Will)

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  7. Tavvy <3 já ta virando meu bebe <3 quando foi anunciado a saga quando tmi acabou eu pensei (já sei q meus favoritos serão mark, jules e ty) mas quem diria q Tavvy ta em primeiro em preferência e em segundo empate entre mark e jules e terceiro entre ty e livvy
    O resto eu amo mas esses <3
    Pela primeira vez alguém empatou com o jem em primeiro
    Em ttodas as sagas e contos contendo ele como parte da história ele ta em primeiro na lista de favoritos agora ele divide o trono com o meu bebe Tavvy <3

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  8. Eu sinto muita, muita pena do Jules. Todas essas responsabilidades sobre ele. Ele é só um adolescente agora, mas quando as responsabilidades começaram ele era só uma criança. Perdeu praticamente metade da infância e teve que se tornar pais dos próprios irmãos. E ai o Mark chega e fica acusando ele de não tentar. Por favor. né! Eu sei que o Mark tá chateado e n consegue entender, mas ainda assim, n machuca meu bebê (Jules) u_u

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