1 de julho de 2016

Capítulo 6 - Muitos bem mais sábios

O quarto de Mark estava cheio de pó.
Eles o deixaram intocado durante anos desde que ele desapareceu. Finalmente, naquele que teria sido seu décimo oitavo aniversário, Julian abriu a porta e limpou tudo em um impulso selvagem. As roupas de Mark, brinquedos, jogos, tudo foi para o depósito. O quarto estava despido e vazio, um espaço desabitado aguardando decoração.
Emma percorreu o recinto, abrindo as cortinas empoeiradas e as janelas, permitindo que a luz entrasse enquanto Julian, que tinha carregado o irmão pelas escadas, colocava Mark na cama. As cobertas estavam puxadas, uma camada fina de poeira sobre a colcha. Uma nuvem subiu quando Mark foi colocado na cama; Mark tossiu; mas não se mexeu.
Emma ficou de costas para as janelas. Abertas, elas inundavam o quarto com luz e transformavam as partículas de poeira esvoaçantes em criaturas dançando.
— Ele parece tão magro — disse Julian. — Não está pesando quase nada.
Alguém que não o conhecesse poderia julgá-lo inexpressivo: seu rosto só traia uma ligeira esticada dos músculos, a boca fina comprimida em uma linha dura. Era como ele ficava quando era atingido no coração por alguma emoção forte e tentava esconder, normalmente dos irmãos mais novos.
Emma foi até a cama. Por um instante,. dois ficaram parados, olhando para Mark. De fato, as curvas dos cotovelos, joelhos e clavículas eram dolorosamente agudas sob as roupas que vestia: jeans rasgados com botas de couro de bezerro amarradas até o joelho e uma camiseta quase transparente depois de tantos anos de lavagem. Cabelos louros emaranhados cobriam metade do seu rosto.
— É verdade? — disse uma vozinha da entrada.
Emma se virou. Ty e Livvy tinham entrado de mansinho no quarto. Cristina parou na porta atrás deles; ela olhou para Emma como se dissesse que tinha tentado contê-los. Emma balançou a cabeça. Ela sabia que era impossível segurar os gêmeos quando eles queriam participar de alguma coisa.
Foi Livvy quem falou. Ela agora olhava através do quarto, através de Emma, para o lugar onde Mark estava deitado na cama. Ela respirou fundo.
— É verdade.
— Não pode ser. — As mãos de Ty estavam agitadas ao lado do corpo. Ele estava contando nos dedos, de um a dez, de dez a um. O olhar fixo no irmão demonstrava incredulidade. — O Povo das Fadas não devolve o que pega.
— Não — disse Julian, com a voz suave, e Emma se perguntou, não pela primeira vez, como ele podia ser tão gentil quando ela sabia que por dentro devia estar com vontade de gritar, se estilhaçar em mil pedaços. — Mas, às vezes, devolve o que pertence a você.
Ty não disse nada. As mãos dele continuavam balançando em seus movimentos repetitivos. Houve um tempo em que o pai de Ty tentou treiná-lo na imobilidade; segurava firme as mãos do filho nas laterais do corpo quando ele ficava chateado, e dizia "parado, parado". Isso fez Ty vomitar em pânico. Julian nunca fazia isso. Simplesmente dizia que todo mundo se agitava quando ficava nervoso; algumas pessoas tinham borboletas no estômago, e Ty tinha nas mãos. Ty ficou satisfeito com isso. Ele adorava mariposas, borboletas, abelhas – qualquer coisa com asas.
— Ele não está como eu me lembro — disse uma voz baixinha. Era Dru, que tinha entrado no quarto, cercando Cristina. Ela estava de mãos dadas com Tavvy.
— Bem — disse Emma. — Mark está cinco anos mais velho agora.
— Ele não parece mais velho — disse Dru. — Só parece diferente.
Fez-se um silêncio. Dru tinha razão. Mark não parecia mais velho, certamente não cinco anos mais velho. Em parte, por estar tão magro, mas era mais que isso.
— Ele passou todos esses anos no Reino das Fadas — disse Julian. — E o tempo funciona de forma diferente lá.
Ty deu um passo para a frente. Seu olhar se fixou na cama, examinando o irmão. Drusilla ficou para trás. Ela tinha 8 anos quando Mark foi levado, Emma não conseguia imaginar como seriam as lembranças que ela tinha do irmão – anuviadas e embaçadas, provavelmente. Quanto a Tavvy... Tavvy tinha 2 anos. Para ele, o menino na cama seria um completo estranho.
Mas Ty. Ty lembrava. Ty se aproximou da cama, e Emma quase pôde ver a mente veloz trabalhando por trás dos olhos cinza.
— Faz sentido. Existem várias histórias de pessoas que desaparecem por uma noite com as fadas e voltam para descobrir que cem anos se passaram. Cinco anos podem ter sido uns dois para ele. Ele parece ter a mesma idade que você, Jules.
Jules limpou a garganta.
— Sim. Sim, ele parece.
Ty inclinou a cabeça para o lado.
— Por que o trouxeram de volta?
Julian hesitou. Emma não se mexeu; ela não sabia, não mais do que ele, como dizer para as crianças observando com olhos arregalados que o irmão perdido, aparentemente devolvido para sempre, poderia estar ali apenas temporariamente.
— Ele está sangrando — disse Dru.
— O quê? — Julian acendeu a lâmpada de luz enfeitiçada no lado da cama, e o brilho do quarto se intensificou a uma luminosidade quente.
Emma ofegou. O lado da camisa branca, no ombro, estava vermelho de sangue; uma mancha se espalhava lentamente.
— Estela — gritou Julian, estendendo a mão.
Ele já estava puxando a camisa do irmão, expondo o ombro e a clavícula, onde um rasgo semicurado tinha aberto. Sangue escorria do ferimento, não rápido, mas Tavvy emitiu um ruído inarticulado de incômodo.
Emma pegou a estela do cinto e a jogou. Ela não disse nada; não precisava. A mão de Julian levantou e a pegou no ar. Ele se abaixou para pressionar a ponta contra a pele de Mark, para começar o símbolo de cura...
Mark gritou.
Seus olhos se abriram, brilhantes e ensandecidos, e ele atacou o ar comas mãos manchadas, sujas e cheias de sangue.
— Tire daqui — rosnou ele, lutando para ficar de pé. — Tire daqui, tire essa coisa de mim!
— Mark...
Julian alcançou o irmão, mas Mark o afastou. Ele podia estar magro, mas era forte; Julian cambaleou, e Emma sentiu como uma explosão de dor na parte de trás da cabeça. Ela avançou, se colocando entre os dois irmãos.
Ela estava prestes a gritar com Mark, mandar que ele parasse, quando viu o rosto dele. Seus olhos estavam arregalados e brancos de medo, a mão fechada sobre o peito – tinha alguma coisa ali, algo que brilhava na ponta de um cordão em volta da garganta – e então ele se levantou da cama, com o corpo sacudindo, mãos e pás arranhando a madeira.
— Para trás — falou Julian para os irmãos, sem gritar, mas com a voz rápida e autoritária. Eles se afastaram, se espalhando. Emma viu o rosto infeliz de Tavvy enquanto Dru o levantava do chão e o carregava para fora do quarto.
Mark tinha corrido para o canto do quarto, onde congelou, com as mãos abraçando os joelhos, as costas pressionadas violentamente contra a parede. Julian foi atrás do irmão, então parou, com a estela pendurada inutilmente na mão.
— Não toque em mim com isso — disse Mark, e sua voz, reconhecidamente a voz de Mark, muito fria e precisa, divergia muito da aparência assustada que exibia. Ele os manteve afastados com o olhar.
— O que há de errado com ele? — perguntou Livvy em um quase sussurro.
— É a estela — respondeu Julian, com a voz baixa.
— Mas por quê? — perguntou Emma. — Como um Caçador de Sombras pode ter medo de uma estela?
— Está dizendo que eu tenho medo? — Mark quis saber. — Torne a me insultar e terá seu sangue derramado, garota.
— Mark, essa é Emma — disse Julian. — Emma Carstairs.
Mark se pressionou ainda mais forte contra a parede.
— Mentiras — falou. — Mentiras e sonhos.
— Eu sou Julian — disse Jules. — Seu irmão Julian. E esse é Tiberius...
Meu irmão Tiberius é uma criança! — gritou Mark, de repente, furioso, com as mãos arranhando a parede atrás de si. — Ele é um menininho!
Fez-se um silêncio horrorizado.
— Não sou — disse Ty, finalmente, no silêncio. As mãos batiam nas laterais do corpo, borboletas claras à pouca luz. — Não sou criança.
Mark não disse nada. Fechou os olhos, e lágrimas correram sob suas pálpebras, descendo pelo rosto, se misturando à sujeira.
— Chega! — Para surpresa geral, foi Cristina quem falou. Ela pareceu envergonhada quando todo mundo virou para falar com ela, mas se manteve firme, com o queixo erguido e a coluna ereta. — Não estão vendo que ele está atormentado com isso? Se fôssemos para o corredor...
— Vá você — disse Julian, olhando para Mark. — Eu vou ficar aqui.
Cristina balançou a cabeça.
— Não. Todos nós. — Ela soou apologética, porém, firme. E fez uma pausa quando Julian hesitou. — Por favor.
Ela atravessou o quarto e abriu a porta. Emma assistiu impressionada enquanto os Blackthorn, um por um, saíram enfileirados; um instante mais tarde estavam todos no corredor, e Cristina fechava a porta do quarto de Mark.
— Não sei — falou Julian imediatamente, assim que a porta fechou. — Deixá-lo sozinho ali...
— É o quarto dele — falou Cristina. Emma a encarou impressionada; como, ela conseguia se manter tão calma?
— Mas ele não se lembra — disse Livvy, parecendo agitada. — Ele não se lembra... de nada.
— Ele lembra — retrucou Emma, colocando a mão no ombro de Livvy. — É que tudo de que ele se lembra mudou.
— A gente não mudou. — Livvy parecia tão acabrunhada que Emma a puxou para perto e a beijou na cabeça, o que não foi pouca coisa, considerando que Livvy só tinha um centímetro a menos do que ela.
— Ah, mudaram — garantiu. — Todos nós mudamos. E Mark também.
Ty pareceu agitado.
— Mas o quarto está cheio de poeira — disse ele. — A gente tirou as coisas dele. Ele vai achar que nos esquecemos dele, que não nos importamos.
Julian fez uma careta.
— Eu guardei as coisas dele. Estão em um dos depósitos lá embaixo.
— Ótimo. — Cristina bateu as mãos com força. — Ele vai precisar delas. E de mais. Roupas para substituir as que está usando. Qualquer coisa que tenha guardado. Qualquer coisa que pareça familiar. Fotos, ou coisas de que ele possa se lembrar.
— Podemos pegar — disse Livvy. — Eu e Ty.
Ty pareceu aliviado por receber instruções específicas. Ele e Livvy desceram, as vozes um murmúrio baixo.
Julian, olhando para eles, exalou asperamente – uma mistura de tensão e alivio.
— Obrigado por ter dado uma tarefa a eles.
Emma esticou o braço para apertar a mão de Cristina. Ela se sentiu estranhamente orgulhosa, como se quisesse apontar para Cristina e dizer: "Veja só, minha amiga sabe exatamente o que fazer!"
— Como você sabe exatamente o que fazer? — perguntou ela em voz alta, e Cristina piscou os olhos.
— É minha área de estudo, lembra? — disse Cristina. — Reino das Fadas e os resultados da Paz Fria. Claro que o Povo das Fadas o devolveu com exigências, é parte de sua crueldade. Ele precisa de tempo para se recuperar, para começar a reconhecer esse mundo e a vida dele outra vez. Em vez disso o jogaram aqui de volta, como se fosse fácil para ele tornar a ser Caçador de Sombras.
Julian se inclinou para trás, para a parede perto da porta. Emma viu o fogo escuro em seus olhos, por baixo, das pálpebras.
— Eles o machucaram — argumentou ele. — Por quê?
— Para você fazer o que fez — respondeu Emma, — Para pegar uma estela.
Ele praguejou, curto e duro.
— Para eu ver o que fizeram com ele, o quanto ele me odeia?
— Ele não te odeia — retrucou Cristina. — Ele odeia a si mesmo. Ele odeia ser Nephilim, porque ensinaram isso a ele, ódio por ódio. São um povo antigo, e é essa a ideia de justiça que eles têm.
— Como está Mark? — perguntara Diana, emergindo do alto da escada. Ela correu para eles, a saia farfalhando em volta dos calcanhares. — Tem alguém aí com ele?
Enquanto Julian explicava o que tinha acontecido, Diana escutou em silêncio. Ela estava abotoando o cinto de armas. Tinha calçado botas, e o cabelo estava preso. Trazia uma bolsa de couro pendurada sobre o ombro.
— Espero que ele consiga descansar — falou quando Julian terminou. — Kieran disse que a viagem até aqui levou dois dias através do Reino das Fadas, sem dormir; ele deve estar exausto.
— Kieran? — respondeu Emma. — É estranho chamar fadas nobres pelo primeiro nome. Ele é nobre, certo?
Diana fez que sim com a cabeça.
— Kieran é um príncipe do Reino das Fadas; ele não disse, mas é óbvio. larlath é da Corte Unseelie, não é príncipe, mas é um tipo de membro da Corte. Dá para perceber.
Julian olhou para a porta do quarto do irmão.
— É melhor eu voltar...
— Não — disse Diana. — Você e Emma vão encontrar Malcolm Fade. — Ela mexeu na bolsa e pegou os documentos das fadas que Kieran tinha lhe dado mais cedo. De perto, Emma pôde ver que eram duas folhas de pergaminho, finas como casca de cebola. A tinta nelas parecia ter sido talhada ali. — Leve para ele. Veja o que ele consegue fazer com isso.
— Agora? — perguntou Emma. — Mas...
— Agora. — Diana respondeu secamente. — As fadas deram a vocês, deram a nós, três semanas. Três semanas com Mark para resolvermos isso. Depois o levam de volta.
— Três semanas? — repetiu Julian. — Não é nem próximo de ser suficiente.
— Eu poderia ir com eles — disse Cristina.
— Preciso de você aqui, Cristina — avisou Diana. — Alguém tem que cuidar de Mark, e não pode ser uma das crianças. E não tem como ser eu. Preciso ir.
— Ir para onde? — Emma  quis saber.
Diana, porém, apenas balançou a cabeça, disposta a manter segredo. Era uma parede familiar, Emma já tinha colidido contra ela mais de uma vez.
— É importante. — Foi tudo que disse. — Terá que confiar em mim, Emma.
— Sempre confio — murmurou a menina.
Julian não disse nada. Ela desconfiava que o jeito vago de Diana o incomodava tanto quanto a ela, ou mais, mas ele nunca demonstrava.
— Mas isso muda tudo — falou Emma, e ela combateu a emoção da voz, a faísca de alívio, até mesmo de triunfo, que sabia que não devia sentir. — Por causa de Mark. Por Mark, você vai nos deixar tentar descobrir o culpado.
— Sim. — Pela primeira vez desde que tinha chegado ao corredor, Diana olhou diretamente para Emma. — Você deve estar satisfeita — alfinetou. — Conseguiu exatamente o que queria. Agora não temos escolha. Temos que investigar as mortes, e teremos que fazer isso sem o conhecimento da Clave.
— Não fui eu que provoquei essa situação — protestou Emma.
— Nenhuma situação em que você não tenha escolha é boa, Emma — censurou Diana. — Coisa que você vai acabar aprendendo. Pode achar que foi bom ter acontecido, mas garanto que não é o caso. — Ela desviou a atenção de Emma, fixando-a em Julian. — Como você bem sabe, Julian, essa é uma investigação ilegal. A Paz Fria proíbe colaborações com fadas, e certamente proíbe o que constitui trabalho para elas, não importa o motivo. É melhor resolvermos isso o mais rápido e discretamente possível, para que a Clave não tenha chances de descobrir o que estamos fazendo.
— E quando acabar? — perguntou Julian. — E a volta de Mark? Como explicamos isso?
Alguma coisa mudou nos olhos de Diana.
— Nós nos preocuparemos com isso quando for a hora.
— Então estamos correndo contra a Clave e as Cortes — disse Julian. — Ótimo. Talvez tenha mais alguém que a gente possa irritar. O Labirinto Espiral? A Scholomance? A Interpol?
— Ninguém está irritado ainda — retrucou Diana. — Vamos manter assim. — Ela entregou os papéis a Emma. — Só para deixar claro: não podemos colaborar com o Povo das Fadas e não podemos abrigar Mark sem informar, exceto que obviamente é isso que faremos, então a conclusão é que ninguém fora deste recinto pode saber. Eu me recuso a mentir diretamente para a Clave, então espero que a gente consiga concluir isso antes que eles comecem a fazer perguntas. — Ela olhou alternadamente para cada um deles, com a expressão séria. — Temos que trabalhar juntos. Emma, chega de brigar comigo. Cristina, se quiser ir para outro Instituto, nós vamos entender. Só pedimos que guarde segredo.
Emma ficou boquiaberta.
— Não!
Cristina já estava balançando a cabeça.
— Não preciso de outro lugar — garantiu. — Vou manter seu segredo. Será meu segredo também.
— Ótimo — disse Diana. — Por falar em guardar segredos, não contem a Malcolm como conseguimos esses papéis. Não falem sobre Mark, não mencionem a delegação das fadas. Se ele disser alguma coisa, deixem que eu resolvo.
— Malcolm é nosso amigo — falou Julian. — Podemos confiar nele.
— Estou tentando me certificar de que ele não se encrenque se alguém descobrir — rebateu Diana. — Ele precisa poder negar. — Ela fechou o zíper do casaco. — Muito bem, amanhã eu volto. Boa sorte.
— Ameaçando o Alto Feiticeiro — murmurou Julian enquanto Diana desaparecia pelo corredor. — Cada vez melhor. Talvez devêssemos ir à sede do clã de vampiros e socar a cara de Anselm Nightshade?
— Mas pense nas consequências — disse Emma. — Ficaríamos sem pizza.
Julian lançou um sorriso torto para ela.
— Eu posso ir sozinha até Malcolm — sugeriu Emma. — Pode ficar aqui, Jules, e esperar Mark...
Ela não concluiu. Não sabia ao certo o que estavam esperando que Mark fizesse, isso nenhum deles sabia.
— Não — falou Julian. — Malcolm confia em mim. Sou eu quem o conhece melhor. Posso convencê-lo a guardar segredo. — Ele se endireitou. — Vamos os dois. Como parabatai. Como nós devemos.
Emma fez que sim com a cabeça e pegou a mão de Cristina.
— Vamos o mais rápido possível — falou. — Você vai ficar bem?
Cristina assentiu. Estava com a mão na garganta, os dedos apoiados no colar.
— Cuidarei de Mark — prometeu. — Vai ficar tudo bem. Tudo vai ficar bem.
E Emma quase acreditou nela.


Ser um Alto Feiticeiro devia ser uma tarefa bem remunerada, Emma pensou, como sempre fazia quando via a casa de Malcolm Fade. Parecia um castelo.
Malcolm vivia no fim da rodovia do Instituto, depois da Kanan Dume Road. Era um local onde as falésias eram elevadas, marcadas por grama marinha verde. A casa era escondida dos mundanos por feitiços de disfarce. Se você passasse dirigindo – que era o que Emma estava fazendo – tinha que olhar fixamente para o ponto entre duas falésias e, então, uma ponte prateada que subia pelas colinas aparecia.
Emma foi para o lado da estrada. Filas de carro estavam estacionados nas laterais da estrada do Pacífico, a maioria era de surfistas atraídos pela praia.
Emma exalou, desligando o carro.
— Tudo bem — falou. — Nós...
— Emma.
Ela parou. Julian tinha ficado quase completamente em silêncio desde que saíram do Instituto. Ela não podia culpá-lo. Ela mesma não encontrava palavras. Permitiu que a distração de dirigir a guiasse, a necessidade de se concentrar no caminho. Ela teve consciência dele ao seu lado o tempo todo, no entanto; da cabeça apoiada no encosto do assento, dos olhos fechados, do punho cerrado sobre o joelho da calça.
— Mark pensou que eu fosse meu pai — falou Julian subitamente, e Emma percebeu que ele estava se lembrando daquele momento terrível, do olhar de esperança no rosto do irmão, uma esperança que não tinha nada a ver com ele. — Ele não me reconheceu.
— Ele se lembra de você com 12 anos — observou Emma. — Ele se lembra de todos vocês muito novos.
— E de você também.
— Duvido que se lembre de mim.
Ele soltou o cinto de segurança. Luz brilhou na pulseira de vidro marinho.
— Ele lembra — garantiu. — Ninguém jamais poderia te esquecer.
Ela piscou surpresa para ele. Um instante mais tarde, Julian já estava fora do carro. Ela se apressou para segui-lo, batendo a porta do lado do motorista enquanto carros assobiavam a uma rua de distância.
Jules estava ao pé da ponte de Malcolm, olhando para a casa. Ela pôde ver as omoplatas sob o algodão fino da camiseta, a nuca, um tom mais claro do que o resto da pele, onde o cabelo a impediu de se queimar ao sol.
— O Povo das Fadas é traiçoeiro — falou Julian sem se virar. — Eles não vão querer devolver Mark: sangue de fada com sangue de Caçador de Sombras, isso é valioso demais. Deve haver alguma cláusula que os permita levá-lo de volta quando terminarmos.
— Bem, vai depender dele — disse Emma. — Ele vai poder escolher se quer ir ou ficar.
Julian balançou a cabeça.
— Uma escolha parece simples, eu sei — comentou ele. — Mas muitas escolhas não são simples.
Eles começaram a subir as escadas. A escadaria era helicoidal, girando para cima pelas colinas. Era disfarçada, visível apenas a criaturas sobrenaturais. Na primeira visita de Emma, Malcolm a acompanhou; ela olhou maravilhada para os mundanos que seguiam acelerando em seus carros, completamente alheios ao fato de que havia uma escadaria de cristal se erguendo impossivelmente para o céu.
Ela já estava mais acostumada agora. Uma vez que você visse a escadaria, ela jamais voltaria a ser invisível para você.
Julian não disse mais nada enquanto subiam, mas Emma descobriu que não se importava. O que ele tinha dito no carro foi sério. Seu olhar era fixo e direto quando falou. Foi Julian falando, o Jules dela, o que vivia nos seus ossos, no seu cérebro e na base da sua espinha, o que estava costurado nela, como veias ou nervos.
A escada terminava subitamente em uma trilha até a porta da frente de Malcolm. O certo era descer, mas Emma saltou, com os pés aterrissando na terra dura. Um instante mais tarde, Julian aterrissou ao lado dela e esticou o braço para apoiá-la; os dedos eram cinco linhas calorosas em suas costas. Ela não precisava de ajuda – entre eles dois, ela provavelmente tinha mais equilíbrio – mas, percebeu, era algo que ele sempre fez, sem pensar. Um reflexo protetor.
Ela o encarou, mas ele pareceu perdido em pensamento, mal percebendo que estavam se tocando. Ele se afastou enquanto a escadaria se escondia novamente com o feitiço.
Eles estavam diante de dois obeliscos que se erguiam do chão empoeirado, formando um portão de entrada. Cada um era marcado por símbolos alquímicos: fogo, terra, água, ar. A trilha que levava à casa do feiticeiro era ladeada por plantas desérticas: cactos, artemísias, lírios californianos. Abelhas zumbiam entre as flores. A terra se transformou em conchas trituradas enquanto se aproximavam da porta metálica da frente.
Emma bateu, e a porta se abriu com um chiado quase silencioso. Os corredores na casa de Malcolm eram brancos, cobertos com reproduções de Pop Art, girando em diversas direções. Julian estava ao lado dela, discreto; ele não tinha trazido o arco consigo, mas ela sentiu uma faca presa ao pulso quando ele a cutucou com o braço.
— Pelo corredor — indicou ele. — Vozes.
Eles foram na direção da sala. Era toda de aço e vidro, inteiramente circular, com vista para o mar. Emma achava que parecia o tipo de casa que um astro de cinema teria: tudo era moderno, desde o sistema de som que tocava música clássica até a piscina de borda infinita que se pendurava sobre os penhascos.
Malcolm estava esticado no longo sofá que percorria toda a extensão da sala, de costas para o Pacífico. Trajava terno preto, muito simples e evidentemente caro. Ele fazia gestos afirmativos com a cabeça e sorria, parecendo concorrer com os dois homens de ternos bem parecidos com o dele e maletas nas mãos, falando em voz baixa e urgente.
Malcolm, ao vê-los, acenou. Os visitantes eram homens brancos na casa dos 40 e rostos indecifráveis. Malcolm fez um gesto descuidado com os dedos, e eles congelaram no lugar, os olhas fixos e vazios.
— Sempre me assusta quando você faz isso — falou Emma. Ela foi arfam dos homens congelados e o cutucou, pensativa. Ele se inclinou de leve.
— Não quebre o produtor de cinema — disse Malcolm. — Eu teria que esconder o corpo no jardim de pedra.
— Foi você que o congelou. — Julian se sentou no braço do sofá. Emma se jogou nas almofadas ao lado dele, com os pés na mesa de centro. Ela balançou os dedos do pé na sandália.
Malcolm piscou os olhos.
— Mas de que outro jeito posso falar com vocês sem que eles ouçam?
— Você poderia pedir que a gente esperasse até o fim da reunião — respondeu Julian. — Provavelmente não arriscaria nenhuma vida.
— Vocês são Caçadores de Sombras. Sempre pode ser vida ou morte — argumentou Malcolm, o que não deixava de ser verdade. — Além disso, não sei se quero o emprego. Eles são produtores de cinema e querem que eu lance um feitiço para garantir o sucesso do novo lançamento. Mas parece péssimo. — Ele olhou sombriamente para o pôster no sofá ao seu lado. Mostrava vários pássaros voando em direção ao espectador, com a legenda EXPLOSÃO DA ÁGUIA TRÊS: PENAS VOAM.
— Acontece alguma coisa nesse filme que não tenha sido explicada em Explosão da Águia um e dois? — perguntou Julian.
— Mais águias.
— E faz diferença se for ruim? Filmes ruins vivem dando certo — observou Emma.
Ela sabia mais sobre filmes do que gostaria. A maioria dos Caçadores de Sombras não prestava muita atenção à cultura mundana, mas era impossível morar em Los Angeles e escapar disso,.
— Significa um feitiço mais forte. Mais trabalho para mim. Mas pagam bem. E estava pensando em colocar um trem na minha casa. Poderia me trazer torradas de camarão da cozinha.
— Um trem? — Julian ecoou. — Um trem de que tamanho?
— Pequeno. Médio. Assim. — Malcolm gesticulou, baixo no chão. — Faria “tchuu tchuu”.
Ele estalou os dedos para ilustrar o barulho, e os produtores de cinema voltaram à vida.
— Ops — falou Malcolm, quando eles piscaram. — Não tive a intenção de fazer isso.
— Sr. Fade — disse o mais velho. — Vai considerar nossa proposta?
Malcolm olhou desanimado para o pôster.
— Entrarei em contato.
Os produtores viraram para a porta de entrada, e o mais novo deu um pulo ao ver Emma e Julian. Emma não podia culpá-lo. Pela perspectiva dele, eles deviam ter aparecido do nada.
— Desculpem, pessoal — disse Malcolm. — Meus sobrinhos. Hoje é dia de passar um tempo com a família.
Os mundanos olharam de Malcolm para Jules e Emma, e de volta para Malcolm, evidentemente se perguntando como alguém que parecia ter 27 anos poderia ter sobrinhos adolescentes. O mais velho deu de ombros.
— Aproveitem a praia — falou, enquanto eles marcharam para fora, esbarrando em Emma com um aroma de colônia cara e o tilintar das maletas.
Malcolm se levantou, se inclinando um pouco para um lado; tinha um jeito um pouco estranho de andar que fazia com que Emma pensasse se algum dia teria sofrido algum ferimento que não tinha se curado por completo.
— Tudo bem com Arthur?
Julian ficou tenso ao lado de Emma, quase imperceptivelmente, mas ela sentiu.
— A família está bem, obrigado.
Os olhos violetas de Malcolm, sua marca de feiticeiro, escureceram antes de clarearem como um céu brevemente tocado por nuvens. A expressão dele ao se dirigir ao bar que corria por uma das paredes e se servir de um drinque parecia amigável.
— Então, como posso ajudar?
Emma foi em direção ao sofá. Tinham feito cópias dos papéis entregues pelas fadas. Ela os pousou sobre a mesa de centro.
— Você se lembra do que a gente falou naquela noite...
Malcolm deixou o copo de lado e pegou os papéis.
— Aquela língua demoníaca outra vez — falou o feiticeiro. — A que estava no corpo que você achou no beco e nos corpos dos seus pais... — Ele parou para soltar um assobio através dos dentes. — Veja só — falou, cutucando a primeira página. — Alguém traduziu a primeira linha. Fogo para água.
— É um avanço, certo? — Emma quis saber.
Malcolm balançou a cabeça branca.
— Talvez, mas não posso fazer nada com isso. Não se Diana e Arthur não estiverem sabendo. Não posso me envolver em nada assim.
— Diana está numa boa com isso — falou Emma. Malcolm a olhou desconfiado. — Sério. Pode ligar para ela e perguntar...
Ela se interrompeu quando um homem entrou na sala, com as mãos nos bolsos. Ele parecia ter mais ou menos 20 anos, alto, com cabelos espetados e pretos, e olhos de gato. Vestia um terno branco que contrastava com a pele morena.
— Magnus! — falou Emma, levantando em um pulo.
Magnus Bane era o Alto Feiticeiro do Brooklyn e também o detentor do assento de representante dos feiticeiros no Conselho dos Caçadores de Sombras. Possivelmente era o feiticeiro mais famoso do mundo, apesar de que ninguém adivinharia; ele parecia jovem e foi gentil e amigável com Emma e os Blackthorn desde que os conheceu durante a Guerra Maligna.
Ela sempre gostou de Magnus. Ele parecia trazer um senso de possibilidade infinita consigo aonde quer que fosse. Parecia o mesmo de quando ela o viu pela primeira vez, inclusive o sorriso sardônico e os dedos cheios de anéis.
— Emma. Julian. É um prazer. O que estão fazendo aqui?
Emma voltou o olhar para Julian. Eles podiam gostar de Magnus, mas ela notou pela expressão de Julian – que ele escondeu rapidamente, disfarçando com um olhar de leve interesse, mas ela viu assim mesmo – que ele não estava feliz com a presença de Magnus ali. Jules já precisaria pedir segredo a Malcolm. Acrescentar mais alguém... principalmente alguém do Conselho...
— O que você está fazendo em Los Angeles? — O tom de Julian soou casual.
— Desde a Guerra Maligna, a Clave tem mapeado incidências do tipo de magia utilizada por Sebastian Morgenstern — respondeu Magnus. — Energia vinda de fontes maléficas. Dimensões infernais e coisas do tipo, extração de poder para obter vida. Necyomanteis, os gregos chamavam.
— Necromancia. — Emma traduziu.
Magnus fez que sim com a cabeça.
— Fizemos um mapa — continuou ele — com a ajuda do Labirinto Espiral e dos Irmãos do Silêncio, inclusive de Zachariah, que revela onde a magia necromante está sendo utilizada. Captamos uma incidência aqui em Los Angeles, perto do deserto, então achei melhor vir e ver se Malcolm sabia de algo.
— Foi um necromante rebelde — explicou Malcolm. — Diana disse que cuidou dele.
— Meu Deus, detesto necromantes rebeldes — comentou Magnus. — Por que eles não podem simplesmente seguir as regras?
— Provavelmente porque a principal regra é justamente “proibido necromancia”? — sugeriu Emma.
Magnus sorriu para ela, de lado.
— Enfim. Não foi nada demais passar aqui a caminho de Buenos Aires.
— O que tem em Buenos Aires? — perguntou Julian.
— Alec — respondeu Magnus. Alexander Lightwood era o namorado de Magnus há meia década. Eles poderiam ter se casado com a nova lei que permitia que Caçadores de Sombras se casassem com integrantes do Submundo (que não fossem fadas), mas não o fizeram. Emma não sabia por quê. — Uma verificação de rotina em um culto adorador de vampiros, mas ele acabou encontrando problemas.
— Alguma coisa séria? — perguntou Julian. Ele conhecia Alec Lightwood há mais tempo do que Emma; os Blackthorn e os Lightwood eram amigos havia anos.
— Complicado, mas não sério — disse Magnus, exatamente quando Malcolm se afastou da parede.
— Vou ligar para Diana. Já volto — avisou ele, desaparecendo pelo corredor.
— Então. — Magnus sentou no sofá, no lugar que Malcolm tinha acabado de vagar. — O que os traz ao Alto Feiticeiro da Cidade dos Anjos?
Emma trocou olhares preocupados com Julian, mas exceto por pular pela sala e bater na cabeça de Magnus – o que não era aconselhável por muitos motivos – ela não conseguiu pensar em nada para fazer.
— Algo que não podem me contar, eu suponho. — Magnus apoiou o queixo nas mãos. — Sobre as mortes? — Quando eles o olharam surpresos, o feiticeiro acrescentou: — Tenho amigos na Scholomance. Catarina Loss, por exemplo. Qualquer coisa a respeito de magia rebelde ou do Povo da Fadas me interessa. Malcolm está ajudando?
Julian balançou a cabeça, um gesto mínimo.
— Alguns dos corpos eram de fadas — falou Emma. — Não podemos nos envolver. A Paz Fria...
— A Paz Fria é desprezível — declarou Magnus, e o humor deixou sua voz. — Punir uma espécie inteira pelo erro de alguns. Negar-lhes direitos. Exilar sua irmã — acrescentou, olhando para Julian. — Eu falei com ela. Helen me ajudou a fazer o mapa que mencionei; qualquer magia global envolve as barreiras. Com que frequência você fala com ela?
— Toda semana — respondeu Julian.
— Ela falou que você sempre diz que está tudo bem — comentou Magnus. — Acho que ela temia que você não estivesse falando a verdade.
Julian não disse nada. Era verdade que falava toda semana com Helen; todos falavam, passavam o telefone e o computador uns para os outros. E também era verdade que ele nunca contava nada a ela, exceto que tudo estava bem, todos estavam bem, que ela não precisava se preocupar.
— Eu me lembro do casamento dela — falou Magnus, e havia gentileza em seus olhos. — Como as duas eram jovens. Apesar de não ter sido o último casamento em que nos vimos, não é mesmo?
Emma e Julian trocaram olhares confusos.
— Tenho quase certeza de que foi — rebateu Julian. — Que outro casamento teria sido?
— Hum — disse Magnus. — Talvez minha memória esteja comprometida pela minha idade avançada. — Ele não soou como se acreditasse nessa possibilidade. Em vez disso, se inclinou para trás, deslizando as pernas longas sob a mesa de centro. — Quanto a Helen, tenho certeza de que é preocupação de irmã mais velha. Alec certamente se preocupa com Isabelle, com ou sem necessidade.
— O que você acha das Linhas Ley? — perguntou Emma de súbito.
Magnus ergueu as sobrancelhas.
— O que tem elas? Feitiços feitos sobre as Linhas Ley são potencializados.
— Faz diferença o tipo de magia? Magia negra, magia de feiticeiros, magia de fadas?
Magnus franziu o rosto.
— Depende. Mas é incomum usar uma Linha Ley para potencializar magia negra. Normalmente são utilizadas para transportar poder. Como um sistema de entrega para magia...
— Bem, quem diria — falou Malcolm ao voltar para a sala. Lançou um olhar entretido para Emma. — Diana corroborou sua história. Estou impressionado. — Seus olhos se voltaram para Magnus. — O que está acontecendo?
Uma luz brilhou em seus olhos, mas se era entretenimento ou outra coisa, Emma não soube dizer. Às vezes, Malcolm parecia completamente infantil, falando sobre trens, torradas de camarão e filmes de águias. Outras vezes, ele parecia mais afiado e focado do que qualquer um de seus conhecidos.
Magnus esticou os braços sobre o encosto do sofá.
— Estávamos falando sobre Linhas Ley. Eu estava dizendo que elas potencializam mágica, mas apenas certos tipos de mágica. Magia que tem a ver com transferência de energia. Você e Catarina Loss não tiveram um problema com Linhas Ley quando moravam em Cornwall, Malcolm?
Uma expressão vaga passou pelo rosto de Malcolm.
— Não me lembro exatamente. Magnus, pare de incomodar Emma e Julian — disse ele, e havia algo de irritação em sua voz. Inveja profissional, Emma supôs. — Esse aqui é o meu território. Você tem seus próprios humanos perdidos em Nova York.
— Um desses humanos perdidos é o pai do meu filho — observou Magnus.
Magnus não tinha engravidado, apesar de que isso teria sido interessante, Emma pensou. Ele e Alec adotaram um menino feiticeiro, chamado Max, que tinha um tom cintilante de azul.
— E — acrescentou Magnus — os outros salvaram o mundo, pelo menos, uma vez.
Malcolm gesticulou para Julian e Emma.
— Tenho grandes esperanças nesses dois.
O rosto de Magnus se abriu em um sorriso.
— Tenho certeza de que você está certo — falou ele. — Enfim, tenho que ir. Uma longa viagem me espera, e Alec não gosta quando me atraso.
Despediram-se rapidamente. Magnus deu tapinhas no braço de Malcolm, depois, parou para dar um abraço em Julian, e outro em Emma. O ombro dele esbarrou na testa dela quando ele abaixou a cabeça, e ela ouviu a voz do feiticeiro em seu ouvido, sussurrando. Ela o encarou com surpresa, mas ele simplesmente a soltou e marchou até a porta, assobiando. No meio do caminho, eles viram o brilho familiar e o cheiro de açúcar queimado de magia de Portal, e Magnus desapareceu.
— Falaram para ele sobre a investigação? — Malcolm pareceu ansioso. — Ele falou em Linhas Ley.
— Eu perguntei sobre isso para ele — admitiu Emma. — Mas não contei por que eu queria saber. E não falei nada sobre traduzir as marcas.
Malcolm deu a volta para olhar novamente o papel.
— Suponho que não vão me contar quem desvendou a primeira linha? Fogo para água. Ajudaria saber o que isso significa.
— Não podemos — falou Julian. — Mas acho que o tradutor também não sabia o significado. Mas é útil para você, certo? Para descobrir o resto do feitiço, ou mensagem ou o que quer que seja.
— Provavelmente, mas ajudaria se eu conhecesse a língua.
— É uma língua muito antiga — falou Emma, com cautela. — Mais antiga do que os Nephilim.
Malcolm suspirou.
— Não está me ajudando muito. Certo, língua demoníaca antiga, muito anciã. Vou consultar o Labirinto Espiral.
— Cuidado com o que vai dizer para eles — aconselhou Julian. — Como dissemos, a Clave não pode saber que estamos investigando.
— O que significa que há envolvimento de fadas — falou Malcolm, com um leve divertimento passando em seu rosto ao ver as expressões apavoradas. — Não se preocupem, não vou falar nada. Não gosto da Paz Fria, não mais que qualquer outro integrante do Submundo.
Julian estava inexpressivo. Ele deveria investir em uma carreira de jogador de pôquer, Emma pensou.
— De quanto tempo acha que vai precisar? — perguntou ele. — Para traduzir?
— Alguns dias.
Alguns dias. Emma tentou esconder a decepção.
— Desculpe por não poder fazer mais rápido. — Malcolm soou verdadeiramente lúgubre. — Vamos. Eu os acompanho até lá fora. Preciso de um pouco de ar.
O sol tinha saído de trás das nuvens e estava iluminando o jardim da frente de Malcolm. As flores do deserto tremiam, suas bordas prateadas, ao vento que vinha dos desfiladeiros. Um lagarto correu de trás de um arbusto e os encarou. Emma mostrou a língua para ele.
— Estou preocupado — declarou Malcolm subitamente. — Não estou gostando disso. Magia necromante, línguas demoníacas, uma série de mortes que ninguém entende. Trabalhar sem o conhecimento da Clave. Me parece, ouso dizer, perigoso.
Julian estava olhando para as colinas distantes, em silêncio. Foi Emma quem respondeu:
— Malcolm, no ano passado combatemos um batalhão de demônios Forneus com tentáculos e sem rostos — lembrou Emma. — Não tente nos assustar com isso.
— Só estou falando. Perigo. Vocês sabem, aquela coisa que a maioria das pessoas evita.
— A gente não — respondeu Emma alegremente. — Tentáculos, Malcolm. Sem rostos.
— Teimosa. — Malcolm suspirou. — Apenas me prometam que vão me chamar se precisarem de alguma coisa ou se descobrirem algo novo.
— Com certeza — garantiu Julian. Emma ficou se perguntando se o nó de culpa que ela sentiu por esconder coisas dele também o incomodava. A brisa do oceano tinha aumentado. Fez a poeira do jardim voar em redemoinhos. Julian tirou o cabelos dos olhos. — Obrigado por ajudar — acrescentou. — Sabemos que podemos contar com você. — Ele desceu pela trilha, em direção aos degraus para a ponte, que brilhava viva na medida em que se aproximavam dela.
O rosto de Malcolm ficou sombrio, apesar da luz forte do meio-dia, que se refletia do mar.
— Não contem demais comigo — falou ele, tão suavemente que Emma ficou imaginando se ele sabia que ela ia escutar.
— Por que não? — Ela virou para encará-lo, piscando os olhos para o sol. Os olhos dele tinham a cor de botões de jacarandá.
— Por que vou decepcioná-los. Todo mundo decepciona — retrucou Malcolm, e voltou para dentro de casa.

13 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira1 de julho de 2016 16:20

    "— Mark pensou que eu fosse meu pai — falou Julian subitamente, e Emma percebeu que ele estava se lembrando daquele momento terrível, do olhar de esperança no rosto do irmão, uma esperança que não tinha nada a ver com ele. — Ele não me reconheceu.
    — Ele se lembra de você com 12 anos — observou Emma. — Ele se lembra de todos vocês muito novos.
    — E de você também.
    — Duvido que se lembre de mim.
    Ele soltou o cinto de segurança. Luz brilhou na pulseira de vidro marinho.
    — Ele lembra — garantiu. — Ninguém jamais poderia te esquecer."

    Essa parte foi a única que importou, até que...... BOOM MAGNUS BANE BITCHES HAHHAHAHHAHAHHAHAHHAHAHHAHAHHAHAH

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  2. Max... q vontade de chorar
    Acho q o Malconm tá sendo chantagem do e vai ter q trair eles
    Mas é só um palpi5

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  3. me sinto importante por fazer parte da vida do casal que salvou o mundo e tem poderes de anjo, do ex diurno, dos irmaos metralha que também salvaram o mundo e do feiticeiro mais famoso do mundo

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  4. Magnusssssssssssssssssss chegou divando!!! Ai que saudades o pouco que apareceu deixou gostinho de quero mais!!!

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  5. MAGNUSSSSSSSSSSSS OMG OMG OMG
    Ok, passou. Já shippo Cristina e Mark hahaha

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  6. — Esse aqui é o meu território. Você tem seus próprios humanos perdidos em Nova York.
    — Um desses humanos perdidos é o pai do meu filho — observou Magnus.
    Magnus não tinha engravidado, apesar de que isso teria sido interessante, Emma pensou. Ele e Alec adotaram um menino feiticeiro, chamado Max, que tinha um tom cintilante de azul.
    — E — acrescentou Magnus — os outros salvaram o mundo, pelo menos, uma vez.

    AAAAAAAAAAAH <3<3<3

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  7. — Não me lembro exatamente. Magnus, pare de incomodar Emma e Julian — disse ele, e havia algo de irritação em sua voz. Inveja profissional, Emma supôs. — Esse aqui é o meu território. Você tem seus próprios humanos perdidos em Nova York.
    — Um desses humanos perdidos é o pai do meu filho — observou Magnus.
    Magnus não tinha engravidado, apesar de que isso teria sido interessante, Emma pensou. Ele e Alec adotaram um menino feiticeiro, chamado Max, que tinha um tom cintilante de azul.
    Socorro eles adotaram um Baby ❤

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    1. Isso conta em contos da academia dos caçadores das sombras. Vc já leu ?

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  8. ''— Eu me lembro do casamento dela — falou Magnus, e havia gentileza em seus olhos. — Como as duas eram jovens. Apesar de não ter sido o último casamento em que nos vimos, não é mesmo?
    Emma e Julian trocaram olhares confusos.
    — Tenho quase certeza de que foi — rebateu Julian. — Que outro casamento teria sido?
    — Hum — disse Magnus. — Talvez minha memória esteja comprometida pela minha idade avançada. — Ele não soou como se acreditasse nessa possibilidade. Em vez disso, se inclinou para trás, deslizando'' Do q ele tá falando? '-' Fiquei bem confusa.

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