24 de julho de 2016

Capítulo 5

Os dias seguintes passaram voando enquanto Will se familiarizava com a vizinhança. O jantar de boas-vindas que Ergell ofereceu em sua homenagem foi uma ocasião um tanto quanto agradável. Como foi uma ocasião oficial, Chefes de Ofícios como o Armeiro, Chefe da Cavalaria e o Escriba compareceram, bem como os Cavaleiros e suas esposas. Os rostos e nomes se confundiam, mas Will sabia que nas semanas seguintes começaria a se lembrar deles e atribuir traços e características individuais a cada pessoa. Por outro lado, todos os convidados estavam ansiosos para conhecer o novo arqueiro, e Will era realista o suficiente para reconhecer que sua reputação o precedia.
Por ser o antigo aprendiz de Halt, um dos melhores e mais famosos arqueiros da Corporação dos Arqueiros, Will sempre gozou de certa popularidade. Entretanto, ele também foi o responsável pela descoberta dos planos secretos de Morgarath, o maligno Senhor da Chuva e da Noite, bem como o responsável pela frustração dos mesmos, quando ele, Morgarath atacou o reino há pouco mais de cinco anos atrás. Depois ele virou o protetor da Princesa Cassandra, quando ela virou refém dos escandinavos. Esse episódio, ainda por cima veio recheado com a maior batalha contra os temujai, a força de cavalaria selvagem das Estepes do Leste, e finalmente veio o acordo de não-agressão mútua com os escandinavos – acordo esse que ainda valia nos dias atuais.
De fato, foi sua participação no Tratado de Hallasholm que deu a Will o nome pelo qual agora era reconhecido: Will Tratado. Criado no Castelo Redmont como órfão, ele não tinha sobrenome, então era natural que as pessoas ao conhecê-lo se surpreendessem com a sua juventude, ou ainda, em alguns casos, achassem que haviam se enganado, confundindo-o com outro arqueiro, e esperavam alguém obviamente mais velho e muito maior.
Nos anos que passou com Halt, Will estava acostumado com a descrença de algumas pessoas ao conhecerem pela primeira vez o arqueiro pequeno, grisalho, e com cabelo mal cortado, como se ele mesmo o tivesse cortado com sua faca. As pessoas sempre romantizam a figura de seus heróis. De fato, a maioria dos arqueiros são pequenos, magros, ágeis e rápidos, apesar da ideia contrária da população.
Então Will encarou olhares de confusão e desapontamento enquanto conhecia seus novos vizinhos – especialmente das senhoras da corte. Seacliff era um feudo afastado, e a chegada de uma celebridade – uma que havia sido pessoalmente homenageada pelo Rei Duncan por ter protegido sua filha – era esperada com grande expectativa. E se a realidade não fazia jus à expectativa, simplesmente não era seu problema, pensava Will.
De sua parte, quanto mais ele conhecia Seacliff, mais ficava desapontado. Era um feudo um tanto quanto agradável, localizado em uma bonita parte do reino. Mas os anos de paz e segurança trouxeram juntos um sentimento de negligência e descuido à guarnição do castelo. E a culpa por essa negligência se devia somente ao Barão e ao seu Chefe de Guerra. E isso colocou Will numa posição um tanto quanto estranha, pois ele não só gostava, como respeitava os dois. Mas não tinha como negar que o treinamento dos cavaleiros e soldados estava aquém dos níveis aceitáveis.
Por dias Will ficou imaginando como levaria o assunto ao Barão sem causar nenhuma ofensa. Como ele imaginou, as coisas pareciam... Confortáveis demais. Entretanto tanto Ergell quanto Norris riram dos comentários, e pareciam levá-los em consideração apenas como se combinasse ao confortável estilo de vida de Seacliff.
Todos os Barões do reino eram obrigados a manter uma força de cavaleiros e soldados para assegurarem ao rei a paz no feudo. E, quando em épocas de guerra, cada castelo enviava seus homens para se juntarem às tropas do Rei, sob o comando do próprio rei e seus conselheiros. Um feudo grande como Redmont mantinha centenas de cavaleiros e soldados. Seacliff, sendo um dos menores feudos, eram exigidos apenas doze cavaleiros, dez aprendizes na Escola de Guerra, e uma infantaria de 25 soldados. E uma força de cinquenta arqueiros compostas pelos próprios fazendeiros também estava disponível caso fosse necessário.
Várias semanas passaram e Will ainda não tinha visto nenhum treino oficial dos cavaleiros ou soldados. Havia alguns treinos com armas, que eram realizados ocasionalmente numa espécie de arena. Mas nenhum programa real de treinamento e prática – o tipo de treino constante que seria necessário para manter o nível dos guerreiros.
E ainda por cima, os aprendizes da Escola de Guerra, sob a orientação de Sir Norris e seus dois auxiliares, eram desleixados em seu treinamento, e até mesmo para o olhar não treinado de Will, os níveis deles estavam bem abaixo se comparados com os contemporâneos de outras escolas.
A única área em que Seacliff se destacava era na cozinha. O Chefe de Cozinha Rollo era realmente excepcional, e suas habilidades certamente rivalizavam com as de Mestre Chubb, em Redmont, que era de longe o melhor cozinheiro de todo o reino. Talvez aí estivesse o problema, pensava Will. A vida em Seacliff era simplesmente confortável demais, estável demais.
De modo geral, sem intercorrências.
Ao mesmo tempo Will ia ao interior várias vezes e visitando as pequenas vilas e vilarejos que se encontravam a apenas um dia de viagem. Nessas ocasiões, se despia dos símbolos que o identificavam como arqueiro, como a capa verde e cinza multicolor, o arco longo e o estojo de suas duas facas, e assumia o disfarce de um camponês viajante. Ele sabia que as pessoas falavam mais livremente e viajantes desconhecidos que aos misteriosos arqueiros. E Will descobriu que nem tudo eram flores no Feudo de Seacliff, se a vida no castelo era boa demais, a vida no interior estava longe de ser tão tranquila.
Havia rumores de bandidos assaltando viajantes solitários. Estranhos sendo agredidos e em algumas ocasiões, até mesmo desaparecendo. Eram rumores apenas, e Will sabia que as pessoas do interior, com suas vidinhas “mais ou menos” tendiam a exagerar qualquer coisa que fugisse do padrão, até o evento tomar proporções gigantescas. Mas ele ouviu rumores com certa frequência pelo menos para assumir que neles havia algum fundo de verdade. Muitas vezes ele ouviu o nome Buttle, e na maioria das vezes com um tom de medo embutido.
E pelo lado positivo, a cadela se fortalecia a cada dia, e já estava praticamente recuperada do ferimento que lhe fora infligido. Agora que ela conseguia se mover livremente, Will notou que era jovem, muito jovem. E apesar disso, a reputação de lealdade e inteligência que acompanhava os pastores não era exagero. A cadela se tornou companhia constante para ele e Puxão, sendo capaz de correr o dia inteiro lado a lado,  acompanhando o pequeno cavalo sem nenhum esforço.
Entretanto não era sem esforço sua tentativa de conseguir um nome à pequena cadela. O comentário de Edwina sobre “um cachorro tão bom, merece um nome melhor ainda” estava preso em sua mente. Ele queria algo realmente especial para ela, mas até agora tudo que vinha a sua mente era na sua opinião vulgar. Por isso, se referia a ela apenas como “cadela” ou simplesmente “garota”.
No começo, Puxão achava a presença da cadela meramente divertida, mas com o tempo passou realmente a apreciar a recém chegada “preto-e-branco”, assim como ela ajudou a manter a vigia durante a noite enquanto Will explorava seu novo domínio. Puxão estava acostumado a atuar como sentinela para Will, todos os cavalos de arqueiros eram treinados para isso. A cadela assumiu um papel complementar nessa tarefa e de certa forma seu olfato era mais apurado ainda que o de Puxão. E os dois animais, unidos pela lealdade ao jovem mestre, desenvolveram rapidamente um elo e cumplicidade no trabalho, cada um respeitando a melhor habilidade do outro.
Foram três semanas após a chegada de Will à Seacliff que os eventos começaram a dar uma guinada. Pelo menos no que se diz respeito ao treinamento das forças de defesa do Barão. Will estava apoiado em seu arco, observando o treinamento dos aprendizes da Escola de Guerra, em uma tarde. Envolto em sua capa e capuz, ele permanecia nas sombras que pequenas árvores faziam atrás do campo de treinamento, imóvel como estava, era praticamente invisível. A cadela, que já havia entendido a importância da necessidade de permanecer quieta e sem se movimentar, permanecia deitada logo aos seus pés, com o focinho entre as patas. Seus únicos movimentos eram ocasionais balanços nas orelhas ou o movimento dos olhos que fazia para checar se Will não tinha um ordem não-verbal para ela.
Ele ficava cada vez mais carrancudo ao observar os aprendizes e seus mestres. Os movimentos realizados estavam tecnicamente corretos. Entretanto, parecia a ele que havia uma falta de urgência, uma falta de interesse. O movimento era um movimento, nada mais que isso. Eles não conseguiam ver além, ver o real significado. Seu velho amigo Horace,agora um cavaleiro na corte do rei, em Araluen, havia feito esses mesmo movimentos incontáveis vezes durante as sessões de treinamento enquanto era apenas um aprendiz. Mas ele os realizara com paixão, e entendia que realizar esses movimentos instintivamente, sem pensar, ou se esforçar, podia ser a diferença entre viver ou morrer durante uma batalha. E esse instinto de Horace salvou a vida de Will pelo menos uma vez, durante a batalha de Hallasholm.
A carranca de Will ficou ainda maior quando ele se deu conta de que em menos de uma semana teria que enviar seu primeiro relatório sobre as atividades ao Corpo dos Arqueiros, e ele seria certamente negativo.
Ele ouviu a voz, muito antes que a pessoa entrasse em seu campo de visão. E em poucos segundos ele viu uma forma corpulenta atravessando as árvores que estavam logo atrás do castelo, correndo, gritando e agitando as mãos para chamar a atenção. Apesar de não conseguir entender ainda o que era dito, o tom de alarme era visível, tanto no tom de voz, como na linguagem corporal do homem.
A cadela sentiu também, e um longo rosnado nasceu em sua garganta e ela levantou-se, imediatamente pondo-se em alerta.
— Quieta  Will a advertiu, e ela imediatamente se imobilizou.
O som das armas se chocando no treinamento foi morrendo aos poucos quando as pessoas começaram a notar a pessoa que corria e gritava.
E nesse momento Will foi capaz de distinguir as palavras.
Lobos do Mar! Lobos do Mar!
Essas eram palavras capazes de gelar o sangue de qualquer araluense desde os séculos passados. Lobos do Mar eram os corsários escandinavos, que velejam desde suas terras geladas e cobertas por neve e florestas de pinheiros do norte para assaltar a agradável e pacífica costa de Araluen, Gálica e tantos outros países.
Terríveis em seus enormes capacetes com chifres, e produzindo destruição com seus enormes machados de batalha os escandinavos e seus navios eram os produtores de pesadelos. Entretanto não aqui, ou pelo menos não pelos últimos cinco anos, desde que Erak Starfollower, recém-eleito Oberjal dos escandinavos firmou um acordo com os araluenses.
Estritamente falando, o acordo punha fim somente aos ataques em massa organizados etentativas de invasões. Entretanto quando posto em prática, também acabou com os assaltos individuais à costa araluense. Apesar de Erak não poder formalmente proibir os ataques por parte de seus capitães, era de conhecimento geral que ele desaprovava, guiado por um sentimento de honra ao pequeno grupo de araluense que os salvou da invasão dos cavaleiros temujais. E quando Erak não aprovava alguma coisa, isso geralmente era o suficiente para que não ocorresse.
O homem que estava gritando estava praticamente no campo de treino agora,cansado e sem fôlego. Estava vestido como um fazendeiro.
— Escandinavos!  ele ofegou. Lobos... do mar... em Bitteroot Creek... escandinavos...
Exausto, ele vergou contra a cerca do campo, seus ombros pesados, cansados pelo esforço. Sir Norris vinha atravessando rapidamente o campo para se encontrar com ele.
— O que você disse? Escandinavos aqui?
Havia uma note de descrença preocupada. Apesar do desleixo no treinamento de seus homens, Will sabia que Sir Norris era profissional. Ele poderia ter deixado as coisas correrem frouxas e sem cuidados nos anos de paz que se passaram, mas agora, frente a uma ameaça real. Ele tinha experiência suficiente para saber que estavam com sérios problemas. Seus homens não eram o suficiente para enfrentar nenhum inimigo real.
O fazendeiro apontava o caminho pelo qual tinha vindo balançando furiosamente a cabeça para assegurar a veracidade do que estava afirmando.
Escandinavos, eu os vi em Bitteroot Creek, navegando pelo mar. Centenas deles  acrescentou, e nesse ponto houve grande comoção entre os aprendizes e cavaleiros que vieram ver o que acontecia.
— Silêncio  Sir Norris gritou.
Will, que se aproximou sem ter sido visto, perguntou diretamente ao fazendeiro.
— Quantos navios? Você os viu?
O fazendeiro virou-se para ele, e um olhar desconfiado apareceu quando se deu conta que falava diretamente com um arqueiro.
— Um  ele disse — enorme, e com uma grande cabeça de lobo entalhada na proa.
E de novo houve comoção, um misto de medo e especulação naqueles que os rodeavam. Sir Norris se virou violentamente e o barulho cessou. Will e o Chefe de Guerra de olharam.
— Um navio, haverá pelo menos quarenta homens-Will disse.
Norris concordou.
— Perto de trinta se eles deixarem vigias a bordofalou.
Não que isso melhorasse a situação. Afinal, trinta escandinavos desembarcando na ilha de Seacliff seriam virtualmente uma força quase imbatível. Os mal treinados soldados e cavaleiros fora de forma seriam de pouca ajuda e certamente ofereceriam pouca resistência aos selvagens piratas, Norris sabia disso, e o Mestre de Guerra culpava ninguém menos que ele próprio. E era sua responsabilidade fazer alguma coisa, e também era sua responsabilidade a vida dos homens sob seu comando. E levá-los a combater um bem treinado bando de escandinavos, certamente seria o mesmo que levá-los a morte.
E ainda sim, era sua responsabilidade.
— Vocês estão em minoria  Will disse.
A força de soldados disponíveis era de vinte cinco, mas Norris sabia que seria sorte se conseguisse contar com pelo menos vinte, mais três ou quatro cavaleiros, no máximo. Quanto aos aprendizes, Will estremeceu só de pensar no oposto que eram os escandinavos e seus machados com sua força de vontade, contra os desleixados aprendizes que vinha observando.
Norris hesitou. Como todo nobre, ele teve uma vida cheia de privilégios. Mas os privilégios existiam para que fossem cobrados e pagos em tempos como esse. E agora,quando ele era necessário, se encontrava despreparado, incapaz de proteger àqueles que dependiam dele.
— Não há sentido em guiar seus homens para a morte  Will disse bem baixo, de modo que só o Chefe de Guerra pudesse ouvi-lo.
A mão de Norris balançava na bainha de sua espada, ora agarrando o punho da mesma, ora soltando.
— Bom, preciso fazer alguma coisa...  ele disse meio sem jeito.
Will interrompeu gentilmente o Chefe de Guerra.
E iremos...  virou-se para o homem mais velho. — Mande os aldeões entrarem no castelo, com o máximo de pertences que puderem carregar. Leve os animais aos campos, e solte-os, mas os assustem de modo que se os escandinavos os quiserem, vão ter que caçá-los. Ponha seus homens em prontidão e armados. E claro, pergunte ao mestre Rollo se ele pode preparar algo rápido, um banquete.
Norris não tinha certeza se tinha escutando direito.
— Um banquete?!  perguntou confuso.
Will confirmou.
— Um banquete, não precisa ser nada especial, tenho certeza que ele pode pensar em alguma coisa para nós. Nesse meio tempo, irei ter uma palavrinha com os escandinavos...
O Chefe de Guerra arregalou os olhos enquanto mirava o jovem calmo que encontrava diante de si.
— Ter uma palavrinha com eles?! Repetiu um pouco mais alto do que esperava. — Como você espera impedir um ataque apenas tendo uma palavrinha com eles?
Will respondeu:
— Pensei em apenas pedir para eles apenas não atacarem, e depois, bom, convidá-los para jantar...

5 comentários:

  1. Então "Tratado" é mais um título do que um sobrenome.

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    1. Hum, não penso assim. Tratado é sobrenome adotado, mas sobrenome

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  2. Bom, acho que esse sobrenome não combinou muito com ele. Na minha opinião isto está mais para um titulo!
    Ass: Bina.

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  3. Acho que o nome em ingles combina mais... "Will Treaty". Poderiam ter mantido o original, na minha opiniao

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