24 de julho de 2016

Capítulo 39

Alyss mal se sentou à mesa quando a porta foi aberta e Keren entrou. Assim que trancou a porta atrás dele, ela respirou fundo e forçou-se a se acalmar. Usou toda sua concentração para encarar com um olhar de desprezo.
— Bem, estou de volta — Keren disse.
Ele sorriu alegremente, ignorando o olhar gelado que ela lhe deu. Então ele franziu o nariz enquanto cheirava o ar.
— Bom Deus, que cheiro terrível é esse? Você estava queimando alguma coisa?
Alyss pensou rapidamente. Ela havia se acostumado com o cheiro do ácido, que obviamente ainda enchia o quarto. Ela levantou automaticamente em toda sua altura e lhe olhou desdenhosamente.
— Alguns documentos que estavam comigo — disse ela. — Pensei que seria melhor se não soubesse o que havia neles.
Keren a considerou, pensativo.
— Verdade? — ele disse, um pouco menos feliz que antes. — Eu suponho que devia tê-la revistado antes. Por eu ter escolhido ser um cavalheiro, você decidiu me decepcionar.
Ele alcançou o bolso de seu cinto.
— Mas você parece esquecer que meu amiguinho azul aqui pode fazer você me dizer qualquer coisa que estivesse nesses documentos.
O coração de Alyss bateu rápido ao ver a pedra azul. Apesar de tudo que ela sabia sobre ela, sentiu uma vontade sobre-humana de olhar para a pedra. Alyss virou os olhos para longe dela com um esforço supremo.
— Você parece esquecer — ela disse imitando seu tom sarcástico — da outra vez, eu quebrei seu poder sobre mim.
Keren sentou em uma cadeira, cruzando as pernas enquanto ele passava a pedra pelas mãos. Ele sorriu numa verdadeira diversão.
— Verdade — ele disse. — Mas eu lhe disse que na segunda vez seria muito mais fácil?
Alyss virou as costas pra ele e andou em direção à porta, garantindo que ele olhasse diretamente longe da janela. Ela não tinha certeza, mas ela pôde ouvir um ocasional estalo vindo da corda amarrada na barra.
— Seu feitiço barato não me impressiona — ela disse — é tudo truque e desilusão e eu sei como anulá-los.
Keren assentiu para ela.
— Tenho certeza de que sabe — ele disse — se fosse, de fato, feitiçaria. Mas isso é algo completamente diferente. Isso é Mesmerismo, uma forma de domínio mental. A pedra é um mísero ponto de foco para sua mente. Ela relaxa e me ajuda a controlá-la.
Alyss riu desdenhosamente, apesar de profundamente desconfortável com o que ele disse. Ela estava chegando ao fim da conversa, percebeu. Mas ela tinha que jogar o jogo para dar mais tempo para Will.
— E agora que você me disse, vou resistir à tentação de dormir.
Keren balançou a cabeça.
— Normalmente você poderia fazer isso. Se você soubesse o propósito da pedra, poderia resistir a ela. Mas você já foi hipnotizada, e um primeiro controle mental causa um efeito chamado ‘sugestão pós-hipnótica’.
Alyss girou os olhos em sarcasmo.
— Que assustador! — Ela disse.
Mas algo a corroía por dentro. Keren estava completamente confiante, e uma coisa que ela aprendeu sobre ele é que ele não blefa.
— Não é assustador, só é útil — disse num tom razoável. — Veja, enquanto está hipnotizada, eu posso plantar uma sugestão dentro de sua mente que vai me permitir trazer você sobre meu controle instantaneamente. Só tenho que voltar ao assunto que discutimos por último.
— Tenho certeza de que era um muito chato — a disse sarcasticamente.
Mas o medo crescia com cada palavra que ele dizia. Ele continuou sorrindo. Ele admirava sua coragem e seu espírito de luta. Mas então, ele pensou, poderia se dar ao luxo de admirá-la a qualquer instante, pois poderia hipnotizá-la novamente. Ele segurou a pedra perto dela, que rapidamente virou os olhos para longe.
— Não, não — ele disse suavemente — você deve olhar para a pedra.
Ela manteve os olhos afastados e uma voz ameaçadora chamou-a.
— Eu posso ter meus homens forçando isso se você se recusar. Mas você VAI olhar para pedra.
Relutante, ela permitiu seu olhar retornar à pedra. Tão azul, tão profunda, tão bonita.
A voz de Keren parecia vir de muito longe agora. Era profunda e calma agora. Não havia nenhuma ameaça nela.
— Relaxe, Alyss. Relaxe e respire profundamente. Isso! Boa menina. Isso não é uma maneira muito melhor de se comportar?
— Sim — ela disse sonhadora — muito melhor.
— Recapitulando — sua voz veio, parecendo encher a consciência dela. — Nós estávamos falando sobre seu amigo Will na última vez.
— Will é um arqueiro — ela disse.
No fundo da mente dela havia uma sensação de que disse algo errado. Algo que devia ter escondido. Por um momento, ela sentiu um vago sentimento de repulsa por ter sido covarde.
— É claro que é. Nós sabemos isso — disse a voz calma, e ela sentiu-se um pouco melhor. Se ele sabia, não tem perigo em ter dito a ele. — Mas agora estou interessado nos documentos que você queimou. Fale-me sobre eles.
— Não existem documentos — ela disse.
De novo, sua mente lutou para recuperar o controle. Suas palavras eram monótonas e sem sentimento, e ela não pôde parar ela mesma enquanto percebeu que estava revelando o segredo mais perigoso de todos.
— Era o ácido que você conseguiu cheirar.
Seu sorriso desapareceu e seu rosto ficou vermelho. Ele não podia entender...
— Ácido? Que ácido? — Ele perguntou rapidamente.
— Will pôs acido nas barras — Alyss disse.
Sua consciência estava gritando. Cale-se, por Deus, cale-se! Will precisa de tempo para fugir, sua covarde! Então, horrorizada, ela ouviu-se dizendo as ultimas palavras.
— Will precisa de tempo para fugir.
A compreensão chegou ao rosto de Keren com essas palavras. Ele arremessou-se para fora da cadeira. Todos os sinais de calma, atitudes descontraídas que ele usava desapareceram, enquanto a cadeira caía no chão atrás dele. Ele alcançou a janela em passos largos e tirou a pesada cortina para o lado.
A fumaça era muito maior agora que o ácido continuou a comer através do ferro das barras: espirais de fumaça subiam das bases das duas barras centrais, que ele pôde ver estar cercada de pequenas piscinas de líquido. O ácido, antes claro, estava agora bolorento e marrom por destruir parte do ferro. Ele puxou uma das barras com força, quebrando o resto de metal que o segurava. Seus olhos se estreitaram e ele voltou-se para Alyss.
— Onde ele foi? — Ele exigiu.
A lógica disse que Will Barton não poderia ter escapado pela janela, apesar de como ele entrou no quarto o intrigava.
Não ocorreu a ele que Will nunca esteve realmente dentro do quarto. E, com seus olhos atraídos pelas fumegantes piscinas de ácido nas barras, ele não percebeu a corda amarrada em volta da barra da esquerda.
Não houve resposta da parte de Alyss. Dominada pelo conflito em sua mente, ela desmaiou assim que Keren pulou de sua cadeira. Ela estava caída no chão ao lado da cadeira virada. Amaldiçoando, ele foi na direção dela. Iria conseguir respostas, mesmo que tivesse que arrancá-las dela.
Ele parou assim que ouviu um estalo vindo da janela. Girou para trás e dessa vez viu o nó de corda envolta da base da barra. Ele correu até a janela, amaldiçoando novamente quando inclinou-se no parapeito e queimou a mão no ácido. A corda estava esticada, suas fibras estalando enquanto movia levemente com o peso de alguma coisa – ou alguém – no final dela.
Num segundo, Keren tirou sua faca, alcançando a corda esticada e sentindo as fibras se rompendo. Ele pensou em chamar os guardas fora da cela, mas percebeu que havia alguns mais próximos e melhores. Ele gritou com toda força para os guardas no topo dos muros de vigia.
— Guardas! Guardas! Intruso no castelo! Intruso no castelo! Detenham-no!


Longe abaixo, Will ouviu os gritos, sentiu a vibração da corda que Keren tentava cortar com sua faca. Sabendo que tinha apenas segundos, ele tentou encaixar os pés de volta na parede. Desesperado, apalpou o muro à procura de apoio, finalmente achando uma funda fenda entre dois blocos de granito. Enquanto procurava apoio para outra mão, a corda desceu, caindo no chão e se enrolando como uma cobra gigante sobre as pedras no chão do pátio.
Ele ainda estava a sete metros do chão e podia ouvir os gritos confusos dos vigias da muralha atrás dele, enquanto tentavam entender o que Keren gritava. Will desceu rapidamente, machucando a pele e as unhas e rasgou as calças na altura dos joelhos nas pedras ásperas da torre. A três metros do chão, ele pulou, pousando como um gato, deixando os calcanhares e joelhos amortecerem a queda. Em volta, gritos confusos ecoavam enquanto os vigias chamavam uns aos outros, tentando entender o que estava acontecendo.
Quatro metros dali, a porta da torre de guarda abriu e um sargento, armado com uma alabarda – uma combinação de machado e lança – saiu, olhando em volta de direita à esquerda para ver o que estava acontecendo. Antes que ele percebesse, Will tirou o capuz e saiu a luz, apontando para a pilha de corda enrolada no chão.
— Ele veio nessa direção — gritou. — Atrás dele! Ele está indo para os estábulos!
Era natural para um sargento reagir ao óbvio som de um comando. Na confusão do momento, a última coisa que ele pensou foi que aquela pessoa gritando ordens para ele pudesse ser o intruso que ele estava procurando. Ele foi na direção que Will apontou.
Quando chegou perto, perdeu a vantagem de sua arma de longo alcance, como era a intenção de Will.
Tarde demais, reconheceu o rosto do bardo que tinha escapado no dia anterior.
— Um momento — ele disse — você é...
Antes de terminar a sentença, ele mexeu desajeitadamente sua alabarda. A faca de Will estava em sua mão e ele desviou a pesada arma para um lado. Agarrando o braço do sargento, girando e abaixando em um único movimento, ele o jogou por cima do ombro nas pedras do pátio. A cabeça do sargento bateu na pedra dura. Seu elmo rolou para o lado e ele ficou desacordado.
Will pegou o elmo e a longa e pesada arma. Então ele parou para cortar um pedaço da corda da pilha antes de ir para as escadas. Longe da torre, ele pôde ouvir Keren gritando enquanto o via correndo. Will começou a gritar também, para aumentar a confusão.
— Eles estão no pátio do portão! — Ele berrou. — Centenas deles! Todos os guardas para o portão!
Ele desceu para as ameias, ainda gritando variadas ordens contraditórias, mandando os soldados para o portão e a torre norte, com o elmo chacoalhando em sua cabeça enquanto corria.
A confusão era sua melhor aliada. Isso e o fato de que ele sabia que todos que viu eram inimigos, então os guardas identificavam cada nova pessoa, enquanto não imaginavam que já tinham o visto o intruso e o confundido com um sargento.
Ele subiu pela rampa do muro do sul, para as ameias. Havia três vigias correndo até ele, com a torre do oeste as costas de Will. Os homens pararam quando o viram. Ele apontou descontroladamente para fora do muro.
— Abaixem-se, idiotas! Eles têm arqueiros! — ele berrou.
Desde que eles não esperavam que um inimigo avisasse de um perigo, os três homens acreditaram, caindo rápido no chão enquanto esperavam que uma chuva de flechas voasse por cima deles no próximo instante.
Will virou e entrou rápido na torre, batendo a porta atrás dele. Tinha um grande barril por perto e ele o rolou, fazendo-o bloquear a porta anterior antes de sair pelo outro lado, para as ameias oeste. Tinham mais homens correndo e gritando ao longe, mas ali estava relativamente quieto, exceto pelos passos que ele ouvia descendo as escadas internas das torres de vigia. Habilmente, ele amarrou a corda no cabo da alabarda, prendeu-a entre duas ameias, então jogou o resta da corda, e caiu pelo lado de fora da muralha.
Segurando a corda, ele desceu pela beira, andando pelo muro de pedras ásperas. Ele chegou ao fim da corda, mas era curta para chegar ao chão. Olhando em volta, viu que estava a dois metros do chão, então pulou o resto da altura. Dessa vez, ele não caiu tão facilmente, bateu no terreno irregular e bateu seu joelho forte contra uma pedra afiada.
— Vou ter que usar cordas mais longas — ele murmurou.
Então, pensando que a corda traria a caçada para este lado da torre, ele ocultou-se e, mancando, contornou a base da torre para a parede sul, ficando perto da pedra áspera, e oculto nas sombras da torre. Lá, ele assoviou – um som curto, cortante e de alta-frequência, que subiu um tom.
Acima dele, um som de gritos e passos corridos. Ordens estavam sendo berradas. Ele não podia mais ouvir Keren, então supôs que o cavaleiro renegado estava descendo a torre interna para controlar a caçada, querendo encurralá-lo, Will pensou sombriamente. Ele assoviou de novo. Ninguém no castelo parecia perceber o som com toda a confusão. Mas a cento e cinquenta metros dali, depois de uma ligeira subida, aguçados ouvidos podiam ouvir.
Will estava para assoviar novamente quando ouviu o som de uma cavalgada. Era uma que ele reconheceu facilmente – o curto galope do cavalo de pequenas pernas, Puxão.
Ele viu o pequeno cavalo um pouco acima de onde estava, indo a algum lugar um pouca a direita de onde estava escondido. Ele assoviou e Puxão corrigiu o percurso correndo diretamente para ele.
Abandonando qualquer tentativa de se esconder, Will correu o melhor que pôde para longe do castelo. Ele ouviu mais gritos atrás dele, mas, tanto se tiver sido descoberto ou tanto se foi parte da confusão acontecendo no castelo, ele não tinha ideia e não tinha nenhum desejo de parar e tentar descobrir.
Puxão parou de repente ao lado dele, orelhas em pé, dentes descobertos e relinchando uma saudação. Will não tentou responder. Ele segurou-se no cavalo para andar melhor enquanto este girava para voltar por sua própria trilha.
— Vai! — Ele gritou. — Corre, vai!
Agora ele podia ouvir gritos próximos a rampa e sabia que foi visto. Mas, a não ser que alguém tivesse uma besta e fosse capaz de atingir um alvo se mexendo rápido em pouca luz, ele sabia que estava a salvo. Puxão lançou-se para longe do castelo, alcançando um galopar completo em meia dúzia de passos. Will, pendurado no cavalo, esperou e, quando julgou o momento pela velocidade do cavalo, ele deu um impulso no chão, pulando em cima da sela. Puxão balançou a cabeça em aprovação.
— Bom garoto — Will disse a ele, esfregando seu pescoço.
Sem diminuir a marcha, Puxão relinchou suavemente. Havia uma nota de condenação no som.
Eu pensei que disse para ficar longe de confusões.
— Não seja resmungão — Will disse.
O animal ignorou-o. Chegaram à elevação e Will viu as figuras de Xander e Malcolm esperando por eles. Ele diminuiu com uma puxada nas rédeas.
— O que aconteceu? — Xander perguntou.
Will balançou a cabeça.
— Eu a vi. Falei com ela. Mas o maldito do Keren chegou antes que eu pudesse tirá-la de lá.
— E o que planeja fazer agora? — perguntou Malcolm.
— Agora nós voltamos para floresta — Will disse, entregando-se ao inevitável.
Xander olhou para ele curiosamente. O jovem arqueiro parecia admitir a derrota, mas tinha uma nota de determinação em sua voz. Xander sabia que esse assunto estava muito longe de acabar.
— E depois? — ele perguntou.
Will virou seu rosto para ele. O capuz de sua capa escondia grande parte do rosto nas sombras. Xander somente conseguia ver a boca e parte determinada de seu queixo.
— Então — ele disse. — Eu vou tirar Alyss daquele maldito castelo, nem que eu tenha que remover pedra por pedra para conseguir.

6 comentários:

  1. Pohha. Will deu meda agora. Ui. Kkkk
    Acho que até agora, ele nunca falou tão sério, tão ameaçador, com tanta raiva e com tanta dor.

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  2. É pq ele finalmente tá mais velho. Sério, ele tem.q sentir algo pela Alyss, sla, pelo menos um beijinho quando ele resgatar ela(ele TEM q fazer isso). E, aonde tá o Horace? Eletá sumido...

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  3. Naao acredito q o livro acabou assim. Eu viajaria pra dar um soco no autor se eu tivesse na época em q ele tava lançando a série, juro. 😤

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  4. Assim, lendo pela segunda vez, fica mais fácil avaliar as coisas e deduzir que ia continuar no outro livro. Os inimigos não chegariam e seriam derrotados em poucos capítulos, seria muito injusto Keren ter uma morte rápida, Hoarace não iria chegar pra ficar de bobeira, escandinavos também não aparecem para serem ignorados. Enfim, muita coisa que indica uma continuação, coisas que eu não notei da primeira vez. Tenho que parar com essa mania de ler muito rápido, pelo Anjo!

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    1. Opa disse Pelo Anjo? Shadowhunter detectada!!!

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  5. "LERIA" FALOU A VOZ DA EXPERIENCIA TEMOS QUE ACEITAR UM POUCO DE SABEDORIA MESMO QUE A FORÇA

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