24 de julho de 2016

Capítulo 38

— Alyss!
A garota loira sentou-se, assustada, ao som sussurrado de seu nome. Ela virou-se na cadeira para ver o rosto de Will na janela gradeada, o familiar, irreprimível sorriso iluminando seu rosto. Ela se levantou num salto. A cadeira caiu atrás dela e ela a segurou pouco antes de bater no chão. Ela atravessou rápido o quarto até a janela.
— Will? Meu Deus! Como você chegou aqui em cima?
Ela olhou para fora, pela queda vertiginosa abaixo e percebeu que ele estava pendurado nas saliências cobertas de gelo sem nenhum outro suporte. Ela recuou meio passo, seu coração batendo forte.
Alyss podia encarar os maiores perigos sem vacilar, mas tinha um medo terrível de altura. A visão da escura queda depois da janela a encheu de medo. Will estava mexendo as mãos sobre o manto e logo estava tirando uma longa corda e a jogando para dentro do quarto.
— Vim te tirar daqui — ele disse a ela. — Aguente só alguns minutos.
Ela olhou ansiosamente por cima do ombro enquanto ele jogava a corda para dentro do quarto, a desenrolado de sua capa. A boca dela ficou seca quando entendeu a ideia de Will.
— Você quer que eu desça pela corda? — Ela disse, apontando para o monte enrolado na frente dela.
Ele sorriu calmamente.
— É fácil — ele disse. — E eu vou estar aqui para ajudá-la.
— Will, eu não posso — ela disse, com sua voz quebrando — eu não suporto altura! Eu vou paralisar! Eu não consigo fazer!
Will parou por um momento, contemplando. Ele sabia que tinha pessoas que possuíam um medo mortal de altura. Pessoalmente, ele não podia entender. Toda sua vida ele teve facilidade de escalar árvores, barrancos e muros. Mas percebeu que aquele medo dela seria totalmente debilitante. Ele pensou e então sorriu.
— Sem problema — disse. — Eu vou amarrar a corda na sua cintura e descer você daqui.
O resto da corda finalmente estava fora do manto e caiu em cima da pilha, em frente a janela.
Então Alyss percebeu que medo de alturas era imaterial. Não tinha jeito de ela passar pelas barras – ao menos que ele planejasse cerrá-las, o que levaria muito tempo. Ela olhou assustada para a porta. Keren disse que estaria de volta em uma hora ou menos. Quanto tempo havia se passado enquanto ela estava na mesa? Era “uma hora ou menos”, seria meia hora? Quarenta minutos? Ele poderia estar vindo agora.
— Você deve sair daqui — ela disse, com outra intenção na voz. — Keren pode voltar a qualquer minuto.
— Então ele vai desejar não ter voltado — Will disse, com seu sorriso desaparecendo — você descobriu o que ele vai fazer? — ele perguntou.
Will imaginou que a melhor maneira de fazê-la descer pela janela era distraí-la. Alyss balançou a cabeça, impaciente, enquanto Will procurava algo nas costas, tirando uma pequena garrafa coberta de couro de sua capa. Ele a segurava com muito cuidado quando ele a deixou no parapeito.
— Você tem que ir! — ela disse. — Nós não temos muito tempo, ele está voltando para me interrogar novamente!
Will parou com o que estava fazendo.
— Novamente? — perguntou — ele machucou você?
Sua voz era fria. Se Keren a machucou, ele seria um homem morto. Mas ela balançou a cabeça mais uma vez.
— Não, ele não me machucou. Mas ele tinha um pedra entranha... — sua voz vacilou.
Ela não queria dizer a ele o quão perto ela esteve de entregar a verdadeira identidade do amigo.
— Uma pedra? — ele repetiu, confuso.
Ele consentiu.
— Uma gema azul. Ela... de algum jeito, me fez dizer qualquer coisa que ele quisesse saber. Will, eu quase disse que você é um arqueiro! — Ela exclamou. — Eu não pude me conter. A gema faz... faz você responder perguntas. É estranho.
Will pensou sobre isso. Uma memória tirada de sua primeira noite no castelo, na sala de jantar, onde os seguidores de Keren reagiram entusiasmadamente a sugestão que Will devia cantar outra música. Talvez ele estivesse brincando com controle mental á muito tempo.
Ele mudou de pensamento. Puxando sua faca, começou a cavar uma pequena vala envolta das bases das barras do meio da janela para por ácido. Tinham quatro barras ao todo e ele pensou que se removesse as do meio poderia criar uma passagem grande suficiente para seu propósito. Ele poderia entrar e amarrar a corda na cintura de Alyss, usando as barras restantes para dar apoio enquanto ele a faria descer até o chão. Então desamarraria a corda e desceria por ele mesmo.
— Bem — ele disse — nenhum dano causado. Buttle já adivinhou quem eu sou de qualquer jeito.
Ele sorriu para melhorar o ânimo dela, mas ele pode ver que ela estava triste por como ele viu as suas próprias fraquezas.
— Ele poderia só ter suspeitado — disse ela miseravelmente — não podia ter certeza, mas de algum jeito ele me fez falar.
— Isso faz parecer que Keren era o feiticeiro todo tempo — Will disse pensativo.
Alyss olhou para ele, confusa.
— O que quer dizer? — Ela perguntou.
— Ele que está por trás da doença misteriosa do lorde Syrion. E ele envenenou Orman igualmente. Por isso ele quis que eu o tirasse daqui. Agora você me diz que ele tem um jeito misterioso para te fazer responder suas perguntas. Keren usou a velha lenda e as histórias sobre Malkallam, para reforçar seu próprio teatro. Ele queria controlar o castelo... mas ainda não consegui pensar de que forma ele pretende mantê-lo.
— Ele fez um acordo com os escoceses — ela disse.
Mais cedo, ela fez essa acusação contra Keren, mas havia sido um tiro no escuro. Sua resposta, porém, confirmou sua suspeita.
— Escoceses? — ele disse.
Ele pensou por um momento. Se os escoceses tivessem o controle do castelo de Macindaw, sua passagem para Araluen seria segura. Eles poderiam liderar um ataque surpresa atravessando a região rural, ou até uma invasão completa. Pequena como era, Macindaw era uma chave vital para segurança ao norte de Araluen.
— Então nos temos que impedi-lo de qualquer jeito.
— Certo! — Alyss disse, com uma nova urgência na voz — por isso que você deve sair daqui agora! Vá para Norgate e soe o alarme. Traga com você um exército para detê-lo!
Will estava concentrado no pequeno frasco de couro, apertando sua língua entre os dentes da frente enquanto removia a tampa com cuidado. Ele a olhou e balançou a cabeça.
— Não sem você — falou.
Cuidadosamente, ele derramou um pouco de líquido da garrafa na pequena trincheira que ele fez na base da barra de ferro. O liquido fumegou quando atingiu a pedra e o ferro, derretendo um pouco do gelo envolta. A nuvem acre que surgiu fez Will tossir. Ele tentou abafar o som, com pouco sucesso. Alyss se afastou um passo ou dois, cobrindo as narinas com a manga de sua camisa.
— O que é essa coisa? — Ela disse.
— Ácido. Coisa realmente desagradável. Malcolm disse que iria corroer essas barras em segundos — ele franziu. A barra ainda parecia sólida. — Ou talvez ele tenha dito minutos — emendou.
Ele retampou a garrafa e foi para próxima barra, usando sua faca novamente para cavar a trincheira na base.
— Vamos deixar essa e vamos para próxima. Enquanto isso, amarre uma ponta da corda em uma das outras barras.
Ela fez como ele disse. Mas ela estava pensando sobre algo que ele disse.
— Quem é Malcolm? — Perguntou.
Ele olhou para ela e sorriu.
— É o nome real de Malkallam. Ele é, na verdade, um cara bem legal quando você o conhece direito.
— Que foi o que você fez, é claro — ela disse secamente.
Parecia tanto com a Alyss de antes, que ele até sorriu mais.
— Vou te contar sobre ele depois. Só me de um minuto, essa é a parte complicada.
Ele tinha a garrafa novamente e estava colocando líquido no pequeno poço que cavou na pedra e argamassa. De novo, a nuvem acre subiu novamente, seguida pelo cheiro de ferrugem queimada. Ele parou, seu lábios pressionados de concentração, vendo o resultado. Como antes, o ácido parecia demorar mais que devia para corroer a barra. Ele testou a outra barra e sentiu um pouco de movimento. Estava funcionado – mas não tão rápido como ele estava esperando. Ele pensou em colocar mais ácido, mas desistiu.
Somente iria transbordar pelo parapeito e isso era algo que deveria evitar.
Ele não podia fazer nada exceto esperar. Ele recolocou a rolha e passou o frasco para Alyss pelas barras.
— Aqui. Ponha em algum lugar — ele disse.
Ele não desejava fazer a descida com aquilo no seu bolso. Distraída, ela colocou a garrafa ao seu lado, em cima da verga da janela.
— O que me mata — ele continuou, tentando manter a mente dela longe da descida — é de onde aquele maldito John Buttle veio? Nesse momento ele devia estar no meio de Skorghijl.
— O navio teve problemas — Alyss respondeu.
Buttle vangloriou-se sobre isso quando ele a reconheceu, antes de Keren trazê-la para este quarto.
— Eles foram pegos por uma tempestade. Ela os levou para oeste e ele atingiram um recife na costa. O navio estava com muitos danos quando chegou no litoral. Eles subiram o Rio Oosel para passar o inverno, mas quando perceberam que ia afundar, desamarraram Buttle e ele teve a chance de fugir.
— E ele pagou esse ato de bondade como de costume? — Will disse, e ela assentiu.
— Eles estavam exaustos quando chegaram ao Oosel. Ele matou dois guardas e fugiu. Veio pra cá por pura sorte.
— E se encaixou perfeitamente — Will disse.
Ela concordou.
— É engraçado — Will disse — como pessoas como Buttle e Keren parecem encontrar um ao outro...
Ele parou no meio da frase quando ela levantou a mão. Olhou para ela com curiosidade, seu sangue fugindo do rosto. Ela ouviu a porta do outro quarto abrir e fechar, e o som da voz de Keren enquanto falava com os guardas do lado de fora.
— Keren! — ela sussurrou com urgência. — Will, você tem que sair daqui agora! Vai!
Ela juntou a corda e a jogou pelas barras, deixando-as caírem pelas lajes longe dali. Will puxou desesperado a primeira barra. Ela se mexeu mais agora, mas ainda estava muito sólida para remover.
— Vai! — Alyss repetiu desesperada — se ele te encontrar aqui, mata nós dois!
Relutante, Will concordou que ela estava certa. Apoiado na borda estreita, ele não podia lutar contra Keren e seus guardas. Pelo menos se estiver livre, terá outra chance de resgatar a amiga.
Houve uma explosão de risos do lado de for a. Os olhos de Alyss arregalaram quando ela ouviu a chave girar na fechadura. Will sabia que tinha que fugir, mas tinha algo que ainda tinha que dizer a ela.
— Alyss — ele disse, e ela o olhou com grande agitação. — Se ele perguntar, diga qualquer coisa que ele quiser saber. Isso não pode nos ferir mais. Somente responda as perguntas.
Ela não podia revelar os planos dele, pensou, porque ele não tinha um. Mas não havia sentido em sofrer para revelar fatos que Keren, provavelmente, já adivinhou.
— Certo! — ela disse.
— Prometa — ele insistiu. — Nada que você disser vai me prejudicar.
Alyss estava no limite do pânico, mas sabia que ele não iria se ela não prometesse.
— Eu prometo! Eu vou dizer tudo! Mas vá! AGORA!
Ele estava ocupado passando a corda das pernas pelas suas costas e por cima do ombro. Ele apertou as luvas e segurou a parte logo abaixo do nó que estava a meio metro de sua cabeça com sua mão esquerda, enquanto usava sua mão direita para segurar a corda, pressionando-a contra seu quadril.
Alyss estava com o estômago pesado enquanto Will descia pelo espaço, controlando sua descida com a volta da corda pelo seu corpo, se afastando da parede com seus pés.
— Eu voltarei por você — ele disse suavemente.
Ele começou a descer devagar. A vontade era chegar ao final rápido, mas movimentos rápidos são mais fáceis de serem vistos pelos vigias nas torres e muralha.
Apressada, Alyss afastou-se da janela, antes fechando a cortina. Ela tinha que impedir que Keren visse a corda pelo maior tempo possível. Se Will fosse pego na metade da descida, ele com certeza morreria.

6 comentários:

  1. Nãaaaaaaaaaaaoooo!!! Tão perto! As barras vão corroer, se ela não tivesse medo de altura, poderia tentar fugir sozinha depois.

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  2. Não acredito, vai termina o livro e ela vai ficar presa na torre! Que chatisseeee!
    Ass: Bina

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  3. Alyss, Will, Horace, vão se catar seus fdms!!!!

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  4. MZS, o livro vai acaba e o Horace nao chega. Alem deles dois ficarem nessa enrolacao e nao rola nenhum beijo. P*r*a, ta demorando demais.
    -Sinead

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    Respostas
    1. "MZS" seria meu Zeus? Ou eu to vendo PJO em todos os lugares?

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