24 de julho de 2016

Capítulo 36

— Daqui para frente sou só eu — Will disse, abaixando e rastejando, sinalizando para Xander e Malcolm fazerem igual.
Eles deixaram os cavalos atrás de um cume e agora o vulto escuro do Castelo Macindaw surgiu a menos de cento e cinquenta metros de distância.
— Não tenho nada contra — Xander disse.
Ele rastejou até o lado de Will, estudando o castelo e sua alta torre central.
— Lá. Consegue ver a luz no topo da torre? Aposto que é onde está sua amiga. Aquele é o quarto-cela da torre e está ocupado. Não tinha ninguém lá hoje de manhã.
— Tem barras na janela, obviamente? — Malcom disse e Xander assentiu, e então continuou. — Você pensou em como vai resolver esse problema?
Will franziu.
— Eu tenho uma lima — disse, e Malcolm balançou a cabeça, e passou um pequeno frasco coberto de couro.
— Muito demorado e barulhento — Malcolm disse — isso resolverá muito mais fácil.
Will estudou o frasco.
— O que é? — perguntou.
— É um poderoso ácido. Vai corroer as barras de ferro em alguns minutos. — Ele sorriu quando Will segurou o frasco cautelosamente. — Tem uma garrafa de vidro dentro, mas é revestida de palha e tem essa cobertura de couro. É um tanto segura. Só tenha cuidado enquanto carrega ela.
Will decidiu não argumentar que essas duas últimas informações pareciam discordar uma da outra. Ele prendeu o frasco no meio do cinto, na parte de trás. Seria seguro levá-la ali, ele pensou.
— A lua está quase sumindo — Malcolm apontou.
Will assentiu.
— Estou indo então.
Mas ele não foi imediatamente. Ele passou alguns minutos estudando a paisagem, absorvendo o ritmo natural da noite. Então ele simplesmente se misturou à escuridão.
Will parou nas profundas sombras da base do muro. Ali era onde ele deveria subir, no ângulo entre torre e muro. Nem os vigias da torre nem os guardas da muralha poderiam vê-lo ali. O único possível perigo era vinha da outra torre de vigia, a trinta metros. Mas o vigia continuava curvado sobre o parapeito, olhando fixamente para noite.
Ele explorou a superfície do muro com as mãos, tirando suas luvas e guardando-as no cinto para fazê-lo. O trabalho na pedra, que parecia harmônico e elegante de longe, era na verdade áspero e irregular, com muitas rachaduras, fendas e saliências, fornecendo apoio para um alpinista com a experiência de Will. Além disso, o ângulo entre a torre e o muro dava apoio extra se ele precisasse. Ele sorriu. Poderia escalar esse muro até se tivesse sete anos de idade.
Ele levava uma longa corda enrolada nos ombros por baixo da capa, mas seria usada para ajudar Alyss a descer, não para ele subir. Com os vigias circulando, era quase impossível arriscar jogar a corda e prendê-la entre as ameias no topo do muro. Flexionando os dedos, ele levantou suas mãos sobre a cabeça, colocou-as em duas saliências na pedra fria e se puxou para cima.
Subiu lentamente e suavemente o muro. Às vezes, tinha que se mover para direita ou esquerda da posição original para usar o melhor apoio. Seus dedos doíam com o esforço e o frio, mas estavam resistentes e fortes, resultado de anos de prática.
Chegando perto do topo, ele ouviu os passos do vigia e parou, segurando no muro como uma aranha gigante, dedos das mãos e pés doendo com o esforço. O vigia parou no final da sua ronda e bateu os pés uma ou duas vezes. Então ele saiu, voltando por onde veio. Will esperou alguns segundos e pulou sobre as ameias. Movendo-se como uma sombra em uma noite cheia de sombras, ele atravessou o caminho até as escadas e desceu silenciosamente até o pátio abaixo.
Ele parou na base das escadas. Não tinha vigias aqui, mas sempre tinha a chance de alguém surgir das portas que levam ao castelo ou à torre do portão. Ele estudou a situação por longos minutos. O espaço aberto que levava até a entrada da torre era bem iluminada por tochas presas no muro. Seria melhor andar direto, sem qualquer tentativa de se ocultar. Alguém que é visto andando até a porta seria muito menos fácil de levantar suspeita que alguém que obviamente está se infiltrando. Ele tirou o capuz e pegou um chapéu de tecido macio, arrumou as penas de seu tecido e o endireitou na cabeça. Então, andando confiante até a porta sem nenhuma tentativa de se ocultar, ele andou até as escadas que levam a entrada do castelo.
Quando chegou às escadas, desviou sabiamente para a esquerda e ficou nas sombras da própria escadaria. Ele guardou o chapéu e colocou o capuz sobre a cabeça de novo. Oculto pelas escadas, observou a muralha atrás dele para ver se alguém o percebeu. Mas os vigias estavam atentos ao lado de fora, não de dentro, e eles nunca observavam em volta.
Satisfeito por não ter sido visto, ele moveu-se pela base da torre para um ponto entre duas tochas acesas. Na extrema borda do alcance da luz, ele estava incerto e inconstante. Ele respirou fundo, checou se o frasco de ácido estava em segurança no cinto as suas costas, então começou a subir mais uma vez.
Como esperava, a torre interna foi construída da mesma pedra que os muros e estava cheia de apoios para ele. Ele escalou firmemente. Mesmo acostumado com alturas, evitou olhar para baixo. Você nunca sabe quando a vertigem pode te atingir. O muro devia ter oito metros de altura. Essa torre tinha mais de três vezes aquela altura, algo perto de trinta metros acima do chão. Enquanto subia, o vento ficou mais forte e assoviou em volta dele, ameaçando tira-lo de seus apoios precários.
Sempre se segure com três, repetia para ele mesmo – o velho ditado que ele dizia desde garoto enquanto escala. Significava que ele nunca deveria mover uma mão ou um pé para outro apoio a menos que tenha os outros três seguramente firmes. Tinham muitas janelas pequenas no caminho e ele desviou delas. Ficou tentado a olhar, mas entendeu que seria um erro fatal. Se tivesse alguém olhando pela janela e visse um rosto estranha surgir do nada com certeza iria dar o alarme.
O vento ficava forte à medida que subia, fazendo o ar frio ficar congelante. Suas mãos estavam dormentes, o que o aborreceu. Ele precisava uma boa sensibilidade nas mãos para encontrar as mais seguras fendas rachaduras na pedra. Se não pudesse senti-las direito, sempre teria a chance de ele segurar numa pedra solta e ela cairia quando transferisse peso para ela. Mentalmente ele deu de ombros. Não tinha nada que pudesse fazer sobre isso e agora já tinha subido três quartos da torre, de qualquer jeito.
Ele olhou para um lado, onde a terra coberta de neve estava. A quilômetros dali, ele podia ver a massa escura da Floresta Grimsdell, com os topos das árvores cobertas com o branco da neve que caiu sobre elas. Se estivesse escalando por pura diversão, teria parado para admirar a vista maravilhosa. Ele sorriu tristemente. Já fazia um bom tempo que não escala somente pela diversão do esporte.
Ele olhou para cima e viu que a ameia estreita da torre estava apenas a alguns metros acima. Ele cobriu a distância e alcançou o topo com cuidado. Ninguém nunca sabia o que podia ser encontrado nessa bordas. Alguns arquitetos de castelo gostavam de colocar pontas de lança para desencorajar os alpinistas.
Não havia pontas, mas ele franziu ao tocar a superfície congelada. Gelo, pensou. Água da chuva era coletada na ameia e congelava-se quando a temperatura caía. Aquilo seria complicado. A maioria se seguraria nas ameias rapidamente, transferindo o peso para as mãos enquanto o faziam. Com gelo escorregadio por toda a beira, isso poderia ser fatal.
Will deixou algum peso sobre as pernas enquanto procurava por um ponto seguro para se apoiar. Seus dedos do pé se enrolavam pelo esforço e ele podia sentir o inicio de uma cãibra no peito do pé esquerdo. Ele encontrou um ponto seguro com a mão direita e subiu um pouco mais alto, seu pé esquerdo procurando um novo apoio. Sempre três, ele repetia.
Ele moveu seu sua mão esquerda pela ameia, a escorregando até encontrar um ponto sem gelo para se apoiar. Então seu pé direito veio acima ele podia subir totalmente na ameia, virando devagar para sentar nela, suas costas contra a parede da torre atrás dele. Quando se inclinou para trás, com um pouco mais de força do que o desejado, ele sentiu uma pressão vindo de algo pequeno nas costas. Seu coração saiu pela boca quando ele lembrou do frasco nas suas costas. Coberto daquele jeito pela capa, se quebrasse agora, não teria jeito de tirá-la a tempo. Ele se afastou um pouco do muro enquanto contava os segundos. Dez. Quinze. Vinte. Um minuto inteiro e ele não sentiu nenhuma sensação de calor do ácido corroendo sua pele. Ele deu um suspiro de alívio.
— Agora onde está Alyss? — ele se perguntou.
Enquanto subia a torre ele girou em volta dela à partir do seu ponto original, procurando pelos melhores apoios. Ele olhou para direita e agora viu que a janela onde devia ser o quarto de Alyss estava a três metros dali. Ele andou de lado até lá, seus pés sobre as ameias. Ele franziu enquanto movia-se até a janela. Tinha um monte de gelo na passagem estreita e isso viraria uma dificuldade para ele parar e girar, na intenção de olhar para dentro da janela.
Pelo menos, pensou, teria as barras para dar apoio seguro para as mãos. Ele parou quando a janela estava a sua direita, um pouco acima de sua cabeça. Ele a procurou com sua mão direita, tateando pela volta, e encontrou uma das barras de ferro.
Se o quarto estivesse ocupado por alguém além de Alyss, pensou, seria perigoso. Sua mão estaria na linha de visão de alguém olhando pela janela, e a medida que ele virasse e ficasse de frente para janela estaria totalmente exposto. Ele se comprometeria sem antes saber quem estava no quarto. Mas, por causa do gelo nas ameias, ele não tinha alternativa.
Ele se apoiou com as nádegas na parede, tirando seu pé direito da ameia. Seu peso era suportado quase totalmente pela mão na barra desde que não houvesse reação dentro do quarto, assumindo que quem fosse que estivesse lá dentro não estava olhando para janela. O pé direito estava instável na ameia, ele percebeu, enquanto colocava mais força na perna esquerda, virando devagar para seu lado direito, esticando o joelho para ficar mais alto.
Seu coração pulou quando sentiu seu pé escorregando pelo gelo, e ele virou mais rápido, jogando seu braço esquerdo para segurar outra barra na janela. E ele fez bem na hora. Seu pé escorregou para fora da ameia escorregadia e ficou pendurado apenas pelas suas mãos. Com um gemido suave de esforço, ele se puxou para cima. Seu pé direito encontrou a ameia novamente e ele transferiu peso para sua perna – não muito, pois não confiava que não iria escorregar novamente.
Ele agradeceu os anos que praticou com seu arco e desenvolveu os seus músculos dos braços e das costas. Agora seu pé esquerdo estava de volta à ameia e recebeu um pouco de peso como o outro.
Devagar, seus olhos encontraram a parte baixa da janela e ele pôde ver dentro do quarto, onde Alyss estava sentada, jogada em uma mesa, de costas para janela, sua cabeça apoiada nas mãos.

8 comentários:

  1. Até que fim o Will chegou. Por um momento pensei que iria terminar o livro e Alyss iria ficar presa nessa torre!
    Ass: Bina.

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  2. Will-aranha, Will-aranha
    Pouco Will e mais aranha

    Vai tecendo sua teia
    Mas chouriço não faz isso

    Cuidado!
    Ele é o Will-aranha!
    kkkk

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  3. espera ai como corroi ferro e não corroi palha e couro

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    Respostas
    1. É uma garrafa de vidro, e para proteger da quebra, ela é recoberta por palha e couro. Só o vidro entra em contato com o ácido

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