24 de julho de 2016

Capítulo 32

Passou-se mais de uma hora desde que Malkallam reaparecesse. Will realmente tinha cochilado no banco, quando cada vez mais a luz do sol rastejou para baixo, aparecendo sob o beiral e banhou-o em seu calor. Ele começou a acordar quando o trinco da porta sacudiu e o homem franzino saiu para a varanda ao lado dele. Malkallam sorriu quando viu a pergunta nos olhos de Will.
— Ele vai ficar bem — disse — embora se você esperasse por mais tempo, não estou certo de que ele teria conseguido. Seu servo ainda está com ele, cuidando dele — acrescentou.
Will assentiu. Ele iria esperar que Xander permanecesse ao lado de seu mestre até ele se recuperasse.
— Ele estava drogado, então? — ele perguntou.
Malkallam assentiu.
— Envenenado, mais precisamente. É uma toxina chamada corocore, particularmente desagradável. É muito obscura, não incluída em nenhum dos grandes textos sobre plantas e venenos. Demora cerca de uma semana para ter efeito, por isso foi provavelmente colocada na comida ou na bebida de Orman em algum momento nos últimos dez dias. Uma pequena dose faria o truque. Nada acontece por dias, mas depois, com o tempo você nota os sintomas, e muitas vezes é tarde demais.
— Como é que os curandeiros do castelo não sabiam isso? — Will perguntou.
— Como eu disse, é muito obscuro. Muitos curandeiros não ouviram falar sobre ela e mesmo que tivessem, não saberiam o antídoto.
— Mas você sabia? — Will disse, e Malkallam sorriu.
— Eu não sou como a maioria dos curandeiros.
— Não, você não é. O que exatamente você é, se posso perguntar?
Malkallam o estudou por alguns segundos antes de responder. Então ele fez um gesto mostrando para Will ir até o banco.
— Tem mais espaço lá e vamos conversar sobre isso — disse ele.
Ele se sentou ao lado de Will e olhou ao redor da clareira. Trobar ainda estava com o cão, jogando uma bola de couro para ele ir buscar. Cada vez que recuperava a bola, ele iria levá-la de volta e em seguida, soltava a bola e mantinha o focinho sobre as patas da frente, a bola entre eles, sua cauda no ar, desafiando-o a tomá-lo dele. A maioria dos habitantes da pequena composição de Malkallam tinha se dispersado para dormir. Alguns deles estavam envolvidos em tarefas cotidianas banais como pegar água ou serragem e empilhar lenha.
— Então, vamos começar — disse Malkallam. — O que você sabe sobre mim?
— Sei? — Will repetiu. — Muito pouco. Eu ouvi os rumores, é claro: que você é um feiticeiro, a reencarnação do feiticeiro negro Malkallam que assassinou o ancestral de Orman mais de cem anos atrás. Ouvi dizer que sua casa é na floresta de Grimsdell, e que a floresta em si é o lar de estranhas aparições, visões e sons, e eu mesmo vi ou ouvi alguns deles.
— Sim — ponderou Malkallam — você visitou minha floresta várias noites atrás, não é? E você não estava assustado com o terrível guerreiro?
— Eu estava apavorado, completamente fora do meu juízo — Will admitiu.
— Mas você voltou.
Will se permitiu um sorriso irônico.
— Não à noite. Sob a luz do dia. Foi quando vimos que as aparições foram causadas por algum tipo de show de uma gigantesca lanterna mágica.
Malkallam ergueu as sobrancelhas.
— Muito bom — disse ele. — Como é que você descobriu isso?
— Alyss imaginou isso. Ela descobriu as manchas queimadas na grama onde a lanterna tinha ficado.
— Eu creio que Alyss é a moça que te acompanhou no outro dia? — Malkallam perguntou. Ele franziu a testa. — O que aconteceu com ela?
— Ela ainda está no castelo — disse Will.
Malkallam ergueu as sobrancelhas.
— Você a deixou lá?
Will franziu a testa.
— Não por muito tempo — disse ele.
Esse era, obviamente, um ponto sensível para ele, mas Malkallam fez um gesto suave com a mão.
— Tempo suficiente para isso. Ela parece ser uma jovem notável.
— Ela é. Mas estávamos falando de você — Will assinalou, decidindo que ele tinha sido desviado por tempo suficiente.
Malkallam sorriu para ele.
— Então, onde nós estávamos. Bem, como você parece ter adivinhado, eu não sou feiticeiro. Eu costumava ser um curandeiro — sua voz tornou-se melancólica. — E eu era muito bom nisso, de fato. — Ele acenou com a cabeça uma ou duas vezes enquanto ele pensava sobre o passado. — Eu realmente gostava daquela vida. Sentia que estava fazendo algo de valor.
— O que aconteceu para mudar isso? — Will perguntou.
Malkallam suspirou.
— Alguém morreu — disse ele. — Ele era um jovem de quinze anos... um menino que promovia uma companhia muito agradável, e que todos gostavam. Ele tinha uma febre simples e seus pais o levaram para mim. Era o tipo de coisa que eu tinha curado dezenas de vezes, deveria ter sido fácil. Só que ele não respondeu às ervas que lhe dei. Pior, ele reagiu mal a elas e um dia depois ele estava morto.
Sua voz tremia um pouco e Will olhou rapidamente para ele. Havia uma única lágrima rolando pelo seu rosto. Ele percebeu o olhar de Will e olhou para ele, limpando a lágrima com o punho de sua manga.
— Acontece dessa forma às vezes, sabe. As pessoas podem morrer por nenhuma razão aparente — disse Malkallam.
— E os moradores culparam você? — Will disse.
Malkallam assentiu.
— Não imediatamente. Começou com uma campanha de boatos. Havia outro homem que queria pegar a minha posição como curandeiro. Tenho certeza de que foi ele que começou com os boatos. Ele disse que eu deixei o menino morrer. Gradualmente, percebi que cada vez menos pessoas estavam vindo para mim. Eles estavam indo para o novo homem.
— Eu presumo que ele estava cobrando deles por seus serviços?
Malkallam assentiu.
— Claro. Eu costumava cobrar também. Mesmo um curandeiro tem de comer, depois de tudo. Gradualmente, os rumores ficaram cada vez mais selvagens, e se uma pessoa da aldeia morresse depois de ver o outro curandeiro, ele tinha uma desculpa conveniente: dizia que eu tinha amaldiçoado eles.
— Isso é ridículo — disse Will. — Você não quer me dizer que as pessoas acreditavam nisso?
Malkallam encolheu os ombros.
— Você ficaria surpreso no que as pessoas podem acreditar. Geralmente, quanto maior e mais improvável é a mentira, mais estão dispostos a acreditar. Muitas vezes é um exemplo de que se algo é tão chocante, deve ser verdadeiro. Enfim, as pessoas começaram a murmurar sempre que eu passava por eles. Eu estava recebendo olhares nervosos de toda a gente e decidi que a minha própria saúde poderia ser melhorada se eu saísse da aldeia. E eu silenciosamente desapareci um dia e entrei na Floresta Grimsdell. Morei em uma tenda por um mês, enquanto construía essa casa. Eu sabia que os moradores locais hesitariam em seguir-me para dentro da floresta. Afinal, era suposto que o Malkallam original havia feito o seu covil lá.
— Por que você tem o mesmo nome? — Will perguntou, e o rosto do curandeiro deu uma risadinha de desprezo.
— Eu não tenho. As pessoas que me deram ele — disse ele. — Meu nome é Malcolm. Depois de ter desaparecido, os moradores juntaram dois com dois e deu sete. Eles decidiram que Malcolm era apenas uma forma disfarçada de Malkallam. A partir daí, foi fácil fazer a próxima etapa. Eu era o feiticeiro infame retornado dos mortos. Devo dizer que me aproveitei do fato para me proteger. Eu inventei as aparições e truques que você viu. Se alguém tivesse a coragem de entrar em Grimsdell, rapidamente a perderiam quando vissem o meu Guerreiro da Noite, ou ouvissem a minha voz.
— Como você faz as vozes? — Will perguntou. — Eles pareciam vir de todos os lados em torno de mim quando eu as ouvi.
Malcolm sorriu.
— Sim. É um efeito bastante bom, não é? É feito com uma série de tubos ocos colocados entre as árvores. Você fala em uma extremidade e a voz é transportada para o outro. Há um grande sino no final que amplifica o som. Costumamos colocá-lo em uma parte oca da árvore para ocultá-lo. Luka aqui fornece a voz.
Ele indicou um homem que estava juntando gravetos no outro lado da clareira. Seu tronco era enorme, mas as pernas que o apoiavam eram curtas e malformadas então ele mancava sem jeito quando andava. Um ombro era mal curvado e as características do seu rosto estavam torcidas para o lado. O homem tinha uma barba grande e espessa, e possuía cabelos longos, em uma tentativa frustrada de esconder a deformidade.
— Ele tem a voz mais maravilhosa que já ouvi — Malcolm continuou. — Esse tórax enorme permite-lhe produzir um som de uma tremenda força e timbre. E pode projetar palavras com grande clareza e volume através do sistema. Veja bem, ele não é utilizado para responder as pessoas. Você causou-lhe um considerável susto quando começou a acenar com a grande faca na outra noite.
— Ele me causou muito mais, eu posso assegurá-lo — disse Will, estudando o homem deformado. — Diga-me, de onde é que essas pessoas vêm? Luka, Trobar e o resto?
— Eu suponho que você pensou que eu os criei? — Malcolm disse, um sorriso levemente amargo brincando nos lábios.
Will moveu-se desconfortavelmente no banco.
— Bem... esse pensamento me ocorreu, de fato — disse ele.
Malcolm rosto ficou triste.
— Sim. Ocasionalmente as pessoas os veem e pensam a mesma coisa. Estes são os meus sujeitos deformados. Minhas criaturas. Meus monstros... A verdade é que são rejeitados. São pessoas que não são desejadas em suas próprias vilas, porque eles não parecem normais. Parecem diferentes ou soam diferentes ou se movem de forma diferente. Alguns nascem dessa forma, como Trobar e Luka. Outros são queimados, escaldados ou desfigurados nos acidentes e as pessoas decidem que não querem que eles fiquem ao seu redor.
— Como eles vêm para você? — Will perguntou.
O curandeiro deu de ombros.
— Eu vou procurá-los. Trobar foi o primeiro. Encontrei-o por acaso, quando ele tinha oito anos. Isso foi a dezoito anos atrás. Ele tinha sido expulso de sua vila porque tinha crescido demais. O deixaram na floresta para morrer. Ele tentou levar seu cão com ele. Era o seu único amigo no mundo. Não se importava que fosse feio e deformado. Ele o amava, porque o adorava. Cães são assim. Eles são muito imparciais.
— O que aconteceu com o cachorro? — Will perguntou.
Ele achava que sabia a resposta.
— Ele tentou defendê-lo, é claro, e um dos aldeões o matou. Trobar levou-o para dentro da floresta e eles finalmente desistiram da perseguição Ele estava cuidando de seu corpo e chorando quando eu o encontrei. Enterramos o cachorro juntos e eu trouxe para cá. Então, ao longo dos anos mais e mais dessas pessoas se juntaram a nós. Nós os víamos afastados das suas aldeias e os coletamos para trazê-los para cá. Às vezes, eles precisavam do tipo de tratamento que eu poderia lhes dar com ervas e poções. Outras vezes, precisavam de um tipo diferente de cura.
— Que você também lhes dava? — Will perguntou, e Malcolm balançou a cabeça.
— Eu tento. Muitas vezes é suficiente que eles saibam que pertencem a algum lugar. Que existem outras pessoas que não os julgam pela forma como eles olham. Veja bem, isso leva tempo. É muito mais fácil curar um corpo ferido, do que uma alma danificada.
Will balançou a cabeça, enquanto ele considerava a história.
— Então, há quase vinte anos, você está cuidando de pessoas como essas e você ainda é considerado como um mago negro?
Malcolm deu de ombros.
— Em parte por minha culpa, suponho. Eu criei a ilusão para manter as pessoas fora. Mas no ano passado, alguém parece ter percebido que poderia transformar a fábula de Malkallam em seu próprio benefício.
— Keren?
— Tudo indica que sim. A pergunta é: o que ele espera conseguir com isso tudo?
— Assim que eu descobrir — Will disse tristemente — eu vou ter a certeza de que você saiba.

3 comentários:

  1. Dai o ditado "Nunca julgue um livro pela capa!"
    Ass: Bina.

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  2. Comecei a desconfiar vários capítulos atrás, pq já tinha cometido o mesmo erro de confiar no personagem só pq era legal e depois me decepcionei. ><

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  3. Nem tudo é o que aparenta. :/
    Malcolm, tu é um personagem incrivel. :)

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