24 de julho de 2016

Capítulo 3

Will empurrou a porta e entrou na cabana. Era praticamente idêntica a que tinha sido sua casa durante a maior parte dos últimos anos. O aposento ocupava quase metade do espaço interno e era uma combinação de sala de estar e de jantar. Em frente à janela, havia uma mesa de pinho com quatro cadeiras comuns à sua esquerda,  e duas confortáveis poltronas de madeira e um banco de dois lugares de espaldar alto estabelecidos na extremidade oposta, agrupados ao redor do fogo alegre e crepitante na lareira. Ele olhou ao redor da sala, perguntando-se quem teria acendido o fogo, pois não havia sinal da presença de mais ninguém.
A cozinha era uma pequena sala contígua à sala ade jantar. Potes de cobre e panelas, obviamente recém-lavados e polidos, estavam pendurados na parede ao lado do pequeno fogão à lenha. Havia flores silvestres frescas em um pequeno vaso na janela. “As últimas da temporada”, ele pensou. O toque caseiro lembrou mais uma vez de Halt, e o pensamento trouxe um caroço na garganta de Will provocado pela solidão. O sombrio arqueiro gostava de ter flores em sua cabana sempre que possível.
Moveu-se para inspecionar os dois pequenos quartos de dormir mobilhados de forma simples e abrindo fora da sala de estar. Como esperava, não havia ninguém em qualquer um dos quartos. Ele tinha esgotado todas as possibilidades na pequena cabana a menos que a pessoa que tinha acendido a lareira e arrumado as flores estivesse escondida na parte de trás, nos estábulos, o que ele duvidou.
A cabana tinha sido limpa recentemente, ele percebeu. Bartell tinha ido embora havia cerca de um mês, mas quando ele passou o dedo ao longo da parte superior da lareira, não sentiu um grão de poeira. E a laje em frente ao fogo tinha sido varrida recentemente também. Não havia nenhum sinal de cinzas ou restos de fogo.
 Parece que temos um espírito  amistoso morando aqui perto  murmurou para si mesmo.
Então, lembrando-se que os animais estavam esperando pacientemente do lado de fora, ele foi até a porta novamente. Olhou a posição do sol e estimou que ainda havia mais uma hora de luz do dia. Era o momento para desfazer as malas antes de fazer se apresentar no castelo.
A cadela estava acordada quando Will olhou para ela, seus olhos de cores diferentes mostrando grande interesse no mundo à sua volta. Isso era um bom sinal, percebeu. Era uma indicação de uma forte vontade de viver, o que lhe seria útil  em sua atual condição enfraquecida. Ele gentilmente levantou-a de seu ninho na sela e levou-a para dentro da casa. Ela deitou-se relativamente satisfeita nas lajes perto do fogo, deixando que seus pelos negros absorvessem o calor. Voltando à sela do cavalo de carga, Will procurou um cobertor velho e o levou para dentro para arrumar uma cama macia para a cadela. Quando ele o estendeu no chão, ela levantou-se penosamente e mancando a pequena distância que a separava do leito, estabelecendo-se com um suspiro agradecido.  O arqueiro encheu uma tigela com a água da bomba que tinha sido construída na bancada da cozinha, ali não teria a necessidade de ir buscar água em um poço do lado de fora, e deixou-a ao lado da cadela. A cauda espessa bateu suavemente no chão uma ou duas vezes em reconhecimento ao seu cuidado.
Satisfeito, Will voltou para os cavalos. Ele afrouxou as fivelas da sela de Puxão. Não havia nenhum sentido tirá-la, já que ainda precisaria fazer a visita oficial ao castelo, e começou a descarregar a pequena pilha de pertences pessoais que tinha trazido com ele.
Feito isso, ele tirou os arreios da sela do cavalo de carga e levou-o para o estábulo, onde ele esfregou-o e colocou-o em uma das duas baias. Ele notou que a manjedoura na outra baia tinha feno fresco e que o balde de água estava cheio também. Inspecionou a água. Nenhum sinal de poeira na superfície. Nenhum vestígio de limo no balde. Ele levou o balde para a outra baia e levou Puxão para fora, permitindo que o cavalo bebesse à vontade. Puxão sacudiu a crina em gratidão.
Will começou a organizar seus pertences na cabana. Lá estavam pendurados pinos ao lado da porta para seu arco e aljava. Ele pôs o seu saco de dormir na cama do quarto maior e pendurou suas roupas de reserva no cortinado do armário. Sua bandola e uma pequena pilha de livros foram colocadas sobre um armário na sala de estar.
Will olhou ao redor. Na verdade, trouxe muito pouco com ele, mas pelo menos, agora a cabana tinha um traço de sua personalidade, como se pertencesse a alguém. Seus pensamentos foram interrompidos por um relinchar de aviso de Puxão, do lado de fora.
Simultaneamente, a cadela perto do fogo levantou a cabeça, voltando-se dolorosamente o olhar para a porta. Will falou alguma coisa para acalmá-la. O chamado de Puxão não tinha sido um alerta de perigo, apenas uma notificação de que alguém estava se aproximando. Alguns segundos mais tarde, Will ouviu passos na varanda e a figura de uma mulher apareceu no vão da porta aberta. Ela hesitou e bateu na porta.
— Entre  Will convidou e ela entrou no quarto, sorrindo hesitante, como se querendo ter certeza de que era bem-vinda.
Quando ela se afastou da sombra, ele pode vê-la mais claramente. Ela tinha cerca de quarenta anos, obviamente uma das mulheres da aldeia por sua vestimenta – um simples vestido de lã, sem qualquer adorno comum às mulheres mais ricas que viviam no Castelo, sobreposto por um avental branco. Ela era alta e robusta, com certo ar maternal. O cabelo escuro estava cortado curto e começava a mostrar traços de cinza. Seu sorriso era quente e genuíno. Havia alguma coisa sobre ela que estava familiarizado, pensava Will, mas ele não sabia o que era.
Pois não?  falou Will.
Ela fez uma reverência superficial.
Meu nome é Edwina, senhor, e vim lhe trazer isso.
“Isso” era um pequeno pote coberto, e quando ela removeu a tampa Will sentiu o delicioso aroma enchendo a sala, um ensopado de carne e legumes. Sua boca encheu de água. No entanto, ciente das advertências de Halt, ele investiu para manter o rosto severo e desinteressado.
— Entendo  respondeu evasivamente.
Edwina colocou o pote em cima da mesa e estendeu a mão para seu avental para pegar um envelope, que ela estendeu a ele.
— Esse cozido ficará bom se for aquecido para o jantar, senhor — disse ela. — Embora eu suponha que você vai precisar ver o Barão Ergell primeiro?
— Possivelmente — respondeu Will, não tinha certeza se ele devia discutir seus planos com esta mulher.
Ele percebeu que o envelope continuava na mão dela e então o pegou. Ele ficou surpreso ao ver que o selo era uma folha de carvalho, acompanhado por caracteres do sistema de código numérico que correspondia 26, o número de Bartell na Ordem, lembrou.
— O arqueiro Bartell deixou para quem fosse enviado para substituí-lo  disse ela, fazendo um gesto para ele abrir a carta. — Eu cuidei da casa e cozinhei  para ele enquanto esteve aqui.
Will compreendeu o que tinha acontecido quando abriu a carta. No momento em que a escreveu, Bartell não tinha ideia de quem iria substituí-lo, por isso estava endereçada apenas a “arqueiro”. Brevemente, ele examinou a mensagem.

Edwina Temple é uma mulher completamente confiável e competente que tem trabalhado para mim nos últimos oito anos. Eu posso recomendá-la muito a quem me substituir. Ela é discreta, séria e uma excelente cozinheira e governanta. Edwina e seu marido, Clive, mantém a Taverna do Povoado em Seacliff. Você faria um favor a mim e a si mesmo ao manter os serviços dela quando assumir.
Bartell, arqueiro 26.

Will olhou por cima da carta e sorriu para a mulher. A perspectiva de ter a comida e a limpeza feita por ela era bem-vinda. Então, hesitou. Havia a questão do pagamento, e ele não tinha ideia de quanto isso podia ser.
— Bem, Edwina  começou ele — Bartell fala muito bem de você.
A mulher fez uma reverência novamente.
— Nós nos demos bem, senhor. O arqueiro Bartell foi um verdadeiro cavalheiro. Eu o servi por oito anos.
Sim... Bem...
A mulher, vendo que era jovem e adivinhando que este era o seu primeiro posto, acrescentou com cuidado:
— Quanto ao pagamento, senhor, não há nenhuma necessidade para você se preocupar. O pagamento é feito pelo castelo.
Will franziu a testa. Ele não tinha certeza de que devia permitir que o castelo pagasse as suas despesas, já que tinha o salário pago pelo Corpo de Arqueiros. Edwina percebeu a razão de sua incerteza e continuou rapidamente.
— Está tudo bem, senhor. O arqueiro Bartell disse-me que o castelo tem a responsabilidade de assegurar o alojamento e as disposições para o arqueiro de plantão. Meus serviços são abrangidos por esse regime.
Era verdade, percebeu. O castelo em um feudo possuía os serviços dos arqueiros como uma das suas despesas e os custos foram deduzidos a partir da avaliação fiscal feita pela coroa de cada ano. Ele sorriu, finalmente, chegar a uma decisão.
— Nesse caso, fico feliz de aproveitar os seus serviços, Edwina  disse ele. — Eu suponho que você quem mantinha a casa limpa e acendeu o fogo antes?
Ela concordou.
— Nós estivemos esperando a sua chegada para esta semana, senhor disse ela. — Eu vim a cada dia para manter as coisas arrumadas e acender fogo para impedir as coisas de ficarem úmidas nesta época do ano.
Will assentiu sua apreciação.
— Bem, eu sou grato. Meu nome é Will, em todo caso.
— Bem vindo à Seacliff, arqueiro Will  disse ela, sorrindo para ele. Minha filha Delia viu você andar pela cidade. Você olhou de forma muito séria, disse ela. Sério como um arqueiro.
Will fez a ligação naquele momento. Ele sentiu que a mulher era de alguma forma familiar. Agora ele viu os olhos verdes como sua filha, e o sorriso, tão amplo e acolhedor.
— Acho que a vi  disse ele.
Edwina, com a questão da permanência em seu emprego resolvida, estava olhando com interesse em os poucos pertences de Will. Seus olhos se fixaram na bandola em cima do armário.
— Então o senhor toca o alaúde?  perguntou ela.
Will balançou a cabeça.
— Um alaúde tem dez cordas  explicou. Esta é uma bandola, uma espécie de bandolim grande com oito cordas, agrupadas em pares.
Ele viu o olhar vazio que surgia nas pessoas quando ele tentava explicar a diferença entre um alaúde e uma bandola e desistiu.
— Eu toco um pouco  completou.
O cão, ainda dormindo, escolheu esse momento para deixar sair um suspiro longo. Edwina percebeu-a pela primeira vez e se aproximou para olhar melhor.
E vejo que também tem um cachorro.
Ela está ferida Will disse a ela. — Encontrei-a na estrada.
Edwina abaixou e colocou uma mão suave na cabeça do cão. O cachorro abriu os olhos e olhou para ela. A cauda agitava ligeiramente.
— Bons cães, esses pastores — disse ela, e Will assentiu.
— Alguns dizem que são os mais inteligentes dos cãesdisse ele.
— Você vai precisar de um bom nome para um cão muito bom como ela  disse a mulher, e Will franziu a testa, pensativo.
— O comandante da balsa me disse que ela poderia ter pertencido a um homem chamado Buttle. Sabe alguma coisa sobre ele?
O rosto da mulher escureceu imediatamente em reação ao nome.
— Sei, sim — declarou ela. Quase todo mundo daqui o conhece, mas preferia não conhecer. Se esta cachorra for dele, não me apressaria em devolver.
Will sorriu para ela.
— Não vou devolver  garantiu ele. Mas eu estou começando a achar que eu devo conhecer este homem.
Antes que ela pudesse se calar, Edwina respondeu:
— Seria melhor você ficar longe dele, senhor.
Então, ela cobriu a boca em consternação. Foi a juventude do rapaz que a levou a dizê-lo, despertando seu instinto maternal. Mas ela percebeu que estava falando com um arqueiro e eles eram uma raça que não precisava de conselhos de donas de casa sobre do que ficar longe. Will,compreendendo o raciocínio, sorriu para ela.
— Eu vou ter cuidado  disse a ela.— Mas parece que é hora de alguém falar sério com esse indivíduo. Agora, há pessoas com quem eu deveria estar falando primeiro, Barão Ergell e o chefe estão entre eles.
Ele conduziu Edwina para fora, olhando uma vez para a cadela para ter certeza que ela ficaria bem na sua ausência. Depois de apanhar o arco e aljava de suas estacas, ele fechou a porta suavemente. Edwina assistiu como ele apertou a barriga antes de por a sela em Puxão. Mas acostumada a estar em torno de arqueiros do que a maioria das pessoas, ela gostou do que viu naquele rapaz. Então, quando ele colocou o casaco cinza e verde em torno de seus ombros e puxou o capuz sobre sua cabeça, ela o viu mudar de um alegre e jovem homem em uma figura sinistra e anônima. Ela observou que o arco maciço era sustentado facilmente em sua mão esquerda quando ele subiu na sela, viu as pontas de suas flechas de penas salientes na aljava. “Um arqueiro carrega a vida de duas dúzias de homens em suas costas”, dizia o velho ditado. Edwina pensou então que John Buttle deveria tomar cuidado com aquele em especial.

5 comentários:

  1. Quero q esse tal de Buttle morra... Acho q vai dar problema

    ResponderExcluir
  2. O Will pode ter conhecido a futura sogra dele!! rsrs

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!