24 de julho de 2016

Capítulo 24

Will deu um show no quartel dos soldados naquela noite. Era uma prática normal para um bardo espalhar-se ao redor. Afinal, se ele viesse a se apresentar no salão principal, todas as noites, o público não iria crescer, mas rapidamente se entediar com seu repertório.
E os soldados, em um castelo remoto como Macindaw podem frequentemente provarem ser mais generosos. Eles tinham pouca coisa em que gastar o seu dinheiro em uma comarca pequena e remota como aquela. Como resultado, ele poderia esperar fazer sua bolsa ficar consideravelmente mais pesada se eles gostarem do seu trabalho.
Além disso, como um artista visitante ele poderia esperar um pequeno bônus em dinheiro do senhor do castelo no final de sua passagem, mas seu principal pagamento vinha na forma de abrigo, comida e alojamento. Um artista à procura de bastante dinheiro normalmente iria ser encontrado entre os soldados, ou na taberna local, se houvesse uma.
Além de todas essas excelentes razões, Will tinha outro motivo para estar no quartel naquela noite. Ele queria que os homens falassem, ouvir as fofocas locais e rumores sobre a proibição da Floresta Grimsdell e do pântano negro. E nada afrouxava as línguas dos homens como uma noite de música e vinho, pensou ironicamente.
Até agora, ele se tornou uma parte aceita da vida de Macindaw e as pessoas estavam mais propensas a se abrir para ele. Além disso, os soldados se sentiriam mais seguros que os camponeses que iam para casa depois de cada noite no Cracked Flagon às suas isoladas e desprotegidas casas e fazendas. Os homens aqui estavam bem armados e relativamente seguros atrás das paredes sólidas de um castelo. Isso, se nada mais, ajudaria a tornar a língua um pouco mais solta.
Ele foi saudado com alegria quando chegou, tanto mais quando produziu um grande garrafão de conhaque de maçã para ajudar toda a noite. Seu repertório padrão de músicas country, peças e cantigas era exatamente o que esse público queria. E acrescentou alguns dos números que haviam sido ensinados por Berrigan, bem como: A filha do velho Scully e uma paródia grosseira de Os Cavaleiros de Má Reputação intitulada Os Cavaleiros que Perderam o Calção, entre outros. A noite foi um sucesso e as moedas apareciam em sua bandola com o passar das horas.
Finalmente, ele e meia dúzia do grupo ficaram rindo ao redor do fogo moribundo, com canecas de aguardente em suas mãos. Ele havia colocado a bandola de lado. O canto estava acabado por essa noite e os homens estavam satisfeitos com isso. Ele teve uma boa relação com eles e agora novamente experimentou o estranho fenômeno que, tendo se apresentado para um público por uma hora ou assim, foi aceito em seu meio, como se o tivessem conhecido por toda a vida.
A conversa era a habitual dos soldados entediados. No que dizia respeito à falta de mulheres disponíveis na área e o tédio da vida de um castelo remoto, cercado pelas neves de inverno. Era um tédio tingido de medo, no entanto. Não havia como dizer quando as tribos escocesas poderiam lançar um ataque através da fronteira e, claro, havia o mistério inquietante que cercava a doença do lorde Syron. Como os homens falavam mais livremente, Will sondava sutilmente e descobriu que eles tinham pouco respeito por seu filho, Orman.
— Ele não é um guerreiro — disse um deles em tom desgostoso. — Duvido que possa segurar uma espada, e muito menos balançar ela.
Houve um burburinho de concordância dos demais.
— Keren é o cara para nós — disse outro. — Ele é um homem real, não como Orman, um devorador de livros com o nariz sempre preso em um pergaminho.
— Isso é quando ele não está olhando para isso como nós — um terceiro colocou, e novamente houve um rosnado furioso de parecer favorável. — Mas, como ele é herdeiro de Syron, estamos presos a ele — o homem acrescentou.
— Que tipo de homem é Syron? — Will se aventurou a perguntar.
Todos os olhos se voltaram para ele e eles esperaram o mais alto, o sargento, responder.
— Um homem bom. Um bom lorde e um combatente corajoso. Um líder justo também. Mas está em sua cama agora e há poucas chances de que ele vá se recuperar, se você me perguntar.
— E nós precisamos dele agora mais do que nunca, com Malkallam à solta novamente — disse um dos soldados.
Will olhou para ele e reconheceu a sentinela que tinha falado com ele quando tinha deixado o castelo várias noites antes.
— Malkallam? — disse ele. — Ele é o feiticeiro que você falou, não é?
Houve um momento de silêncio e vários dos homens deram uma olhada sobre seus ombros nas sombras além da luz bruxuleante do fogo. Então a sentinela respondeu.
— Sim. Ele colocou uma maldição sobre nosso lorde Syron. Ele se esconde em sua floresta, rodeado por suas criaturas... — ele hesitou, não tendo certeza se houvera falado demais.
— Passei por lá na noite passada — Will admitiu. — Você me deixou curioso com seus avisos. Digo-te, o que eu vi e ouvi lá foi o suficiente para me manter fora da Floresta Grimsdell para sempre.
— Pensei que você iria — disse a sentinela. — Vocês jovens acham que sabem sempre mais do que aqueles que tentam aconselhá-los. Você é sortudo, pois conseguiu escapar. Outros não são — acrescentou ele sombriamente.
— Mas de onde esse Malkallam veio? — Will perguntou.
Desta vez, outro homem entrou na conversa, um soldado cuja barba e cabelo grisalhos anunciavam o seu longo tempo de serviço no castelo.
— Ele estava entre nós há anos — disse ele. — Nós todos pensávamos que era inofensivo, apenas um herbolário simples e curandeiro. Mas ele estava aguardando seu tempo, deixando-nos tornar despreocupados. Então coisas estranhas começaram a acontecer. Houve uma criança que morreu, quando todos sabiam que estava dentro do poder de Malkallam para curá-lo. Malkallam o deixou morrer, disseram. E outros dizem que ele usou o espírito dela para seus propósitos malignos. Havia aqueles que queriam fazê-lo pagar por seus pecados, mas antes que pudéssemos fazer algo sobre isso, ele fugiu para a floresta.
— E esse foi o fim dele? — Will perguntou.
O soldado balançou a cabeça.
— Havia histórias de contos-escuros que ele cercou-se de monstros. Disformes, seres feios, eles eram. Criaturas com o mau-olhado e com a marca do diabo sobre eles. Ocasionalmente, são vistos na margem da floresta. Sabíamos que estava fazendo o trabalho do diabo e quando o senhor Syron caiu sob um feitiço, sabíamos quem tinha lançado.
— Não há coincidências — disse a sentinela.
Os outros acenaram favoráveis.
— E o que Orman faz? — continuou o velho soldado. — Ele lê seus pergaminhos estranhos até tarde da noite, enquanto as pessoas decentes estão em suas camas. Entretanto o que nós precisamos é liderança e alguém com coragem para enfrentar Malkallam, e levá-lo para fora de Grimsdell de uma vez por todas.
— Precisamos de mais homens se estamos indo fazer isso — disse o sargento — nós não poderíamos enfrentar seus monstros com apenas uma dúzia de nós. Orman deve estar recrutando. Pelo menos Keren vem fazendo algo sobre isso.
O homem mais velho balançou a cabeça.
— Não tenho certeza se gosto do que ele esteja fazendo lá — disse ele. — Alguns desses homens que ele está recrutando são pouco mais que bandidos, se você me perguntar.
— Quando você precisa de homens de combate, Aldous Almsley, pega o que pode conseguir — disse o sargento. — Eu vou lhe garantir que eles não são nenhum grupo de coristas, mas acho que Keren pode controlá-los bem.
Will apurou os ouvidos para as palavras. Isso era algo novo, ele pensou. No entanto, teve o cuidado de manter a sua expressão desinteressada. Ele ainda conseguiu um bocejo antes de perguntar, tão casualmente quanto ele conseguisse:
— Os homens que Keren recrutou?
O sargento balançou a cabeça.
— Como diz Aldous, você não iria querer olhar muito de perto em seus passados. Mas eu digo que virá o tempo que precisaremos de homens duros e não vamos discutir muito sobre eles, então.
Will olhou ao redor do quartel.
— Eles não estão aquartelados aqui? — ele perguntou.
Desta vez foi Aldous que respondeu.
— Ele está os mantendo separados. Eles têm quartos na torre de vigia. Disse que era um arranjo melhor para evitar qualquer possibilidade de atrito.
Era evidente que os membros da guarnição normal tinham aceitado este raciocínio, sem qualquer questão. Will estalou a caneca contra os dentes, pensativo. Talvez fizesse sentido, ele pensou. Colocar dois grupos separados de homens juntos na luta contra as condições básicas no quartel poderia muito bem ser uma receita para problema. Ainda assim, havia algo sobre o arranjo que estava um pouco inquietante.
— Talvez — disse o sargento — quando se considera a situação entre Sir Keren e lorde Orman, Sir Keren pensa que é sábio ter um grupo de homens leais a ele, não que ele teria algum problema de nós.
— Embora — disse Aldous — estamos sob juramento de obedecer às ordens do senhor legítimo do castelo. E com o senhor Syron fora de ação, esse é Orman, quer queiramos ou não.
— Com juramento ou não — lascou em um terceiro soldado — duvido que ele fosse encontrar qualquer um de nós disposto a agir contra Keren.
Os outros todos favoráveis murmuraram. Mas foi um resmungo baixo e um ou dois olhares de relance sobre os seus ombros, mais uma vez, consciente da natureza perigosa dos sentimentos que estavam expressando. Um silêncio caiu sobre o grupo e Will achou melhor seguir em frente. Ele não queria que ninguém registrasse o fato de que ele estava bombeando-os para obter informações.
— Ah, bem — disse ele — uma coisa é certa. Com os homens de Sir Keren na torre, há menos com quem partilhar o resto do conhaque. E sobrou bem pouco... — Ouçam, ouçam! — os soldados concordaram.
E enquanto a garrafa era passada ao redor, a mente de Will estava correndo. A noite tinha-lhe dado muito que pensar e ele começou a desejar que tivesse esperado mais um dia antes de enviar um relatório para Halt e Crowley.


Mais ao sul, dois arqueiros seniores estavam estudando o relatório que o pombo cansado tinha entregado meia hora antes. Houve tempestades e ventos fortes no sul em seu caminho, mas o pequeno pássaro tinha voado resistente no meio do tempo, chegando ao Castelo Araluen molhado e quase esgotado. Um manipulador delicadamente destacou a mensagem de seu pé e colocou o pequeno pássaro fiel em uma gaiola quente em uma das torres crescentes do Castelo Araluen. Agora, com as penas eriçadas e a cabeça debaixo do sua asa, ele dormia, a sua tarefa havia sido concluída.
Nem tanto para Halt e Crowley. O comandante do Corpo de Arqueiros passeou para frente e para trás em seu quarto enquanto Halt lia as frases truncadas de Will mais uma vez.
Finalmente, o arqueiro de barba cinzenta olhou para seu chefe com uma carranca.
— Eu queria que você parasse de andar de um lado para o outro — disse ele suavemente.
Crowley fez um gesto de irritação.
— Estou preocupado, droga — disse ele, e Halt levantou uma sobrancelha.
— Não me diga — afirmou com ironia suave. — Bem, agora que nós estabelecemos esse fato e eu admito que sim, você está preocupado, talvez você possa parar o seu passeio interminável.
— Se eu pará-lo, dificilmente poderá ser interminável, poderá? — Crowley o desafiou.
Halt apontou para uma cadeira no outro lado da mesa.
— Vamos, me faça um favor: sente-se — disse ele.
Crowley deu de ombros e fez como lhe foi pedido. Ele sentou-se por completos cinco segundos, em seguida, levantou e passeou novamente. Halt murmurou algo em sua respiração. Crowley supôs, corretamente, que era pouco lisonjeira, e optou por ignorá-lo.
— O problema é — ele disse — o relatório de Will levanta mais perguntas do que respostas.
Halt assentiu. Ele estava prestes a vir em defesa de seu antigo aprendiz, mas percebeu que Crowley não estava criticando o relatório de Will. Ele estava apenas afirmando um fato. Havia um monte de perguntas não respondidas na breve mensagem: vistas e sons estranhos na Floresta, causadas aparentemente por uma pessoa ou pessoas desconhecidas; atrito no castelo entre Orman e seu primo; aparente incapacidade de Orman no comando, e o fato de que alguém, presumivelmente Orman, tinha arranjado para Alyss ser seguida enquanto ela cavalgava em seu passeio matinal. Na maioria dos castelos, teria sido um interessante conjunto de ocorrências. Em um sitio vulnerável estrategicamente como Macindaw, perto de uma fronteira hostil, isso era perigoso.
— É cedo ainda — disse ele finalmente, e Crowley se deixou cair na cadeira novamente, alastrando para os lados, uma perna sobre o braço armado. Ele suspirou profundamente, sabendo que Halt estava certo.
— Eu sei — disse ele. — Só quero saber se pode haver mais do que Will e Alyss podem segurar até lá.
Halt considerou o ponto.
— Eu confio em Will — disse ele, e Crowley fez um gesto de acordo.
Apesar da sua juventude, Will era altamente considerado entre os arqueiros – mais do que ele imaginava.
— E Pauline diz que Alyss é uma de suas melhores agentes.
Lady Pauline era um importante membro do Serviço Diplomático. Ela tinha inicialmente recrutado Alyss e realizado a sua formação inicial. Alyss era tão protegida dela quanto Will era de Halt.
— Sim. Eles são as escolhas certas para a tarefa, eu sei. E se nós enviarmos muitas pessoas, corremos o risco de expor o nosso lado e fazer mais mal do que bem. É só que tenho uma sensação engraçada sobre isso. Como se alguém estivesse atrás de mim e eu possa senti-lo, mas não posso vê-lo. Você entende?
Halt assentiu.
— Eu tenho o mesmo sentimento. Mas, como você diz, se exagerar as coisas, nós vamos estragar o jogo.
Houve um longo silêncio entre eles. Ambos estavam de acordo. Mas ambos também tiveram a mesma sensação desconfortável.
— Claro que podemos sempre enviar talvez mais uma pessoa para ajudar, se precisar — Halt sugeriu.
Crowley olhou rapidamente, então disse:
— Só mais uma pessoa não seria exagerar.
— Alguém que possa proporcionar um pouco de músculo, se precisarem — Halt continuou. — Para guardar a retaguarda.
— Eu acho que me sentiria um pouco melhor sabendo que eles teriam até um pouco mais de ajuda — disse Crowley.
— E, claro — Halt acrescentou — se nós enviarmos a pessoa certa, ele pode fornecer mais do que apenas um pouco.
Os olhos dos dois homens encontraram-se sobre a mesa. Eles eram os antigos companheiros e amigos. Eles se conheciam há décadas serviram juntos em campanhas mais do que qualquer um poderia se lembrar. Cada um sabia exatamente o que o outro estava pensando e cada um foi totalmente de acordo com o outro.
— Você está pensando em Horace? — Crowley perguntou, e Halt assentiu.
— Estou pensando em Horace — disse ele.

7 comentários:

  1. Não estrague o clima Horace, você já ganhou demais na vida.

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  2. Uhu Horace vai entrar em ação!!!!!!!

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  3. Nãoooooooo! Agora que as coisas estavam esquentando entre Alyss e Will o Horace ira atrapalhar!
    Ass: Bina.

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  4. Horace, plizis!! Não empata!! Will e Alyss, 600 metros de distancia, Horace. Okaey? Okaey.

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  5. Não consigo gostar do Horace

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  6. Eeeeee, até que enfim o Horace vai aparecer*-* Tb não quero que ele estrague o clima, mas já estava com saudades dele

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  7. Eu amo o Horace é um dos meus preferidos !!!

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