1 de julho de 2016

Capítulo 24 - Pelo nome de Annabel Lee

— Não estou entendendo — disse Dru outra vez. — O que está acontecendo?
Livvy puxou Dru para si e abraçou a irmã mais nova. Eram mais ou menos da mesma altura – não dava para saber que Livvy era mais velha, a não ser quem conhecia – mas Dru continuou abraçando, agradecida.
Diego e Cristina ficaram em silêncio. Ty, na cadeira, tinha pegado um dos brinquedos do bolso e praticamente o atacava com mãos trêmulas, embaralhando e desembaralhando. A cabeça estava abaixada, o cabelo, caindo no rosto.
Julian... Julian parecia que seu mundo tinha caído.
— Mas por quê? — sussurrou Dru. — Por que Malcolm ficou com Tavvy? E por que vocês todos estão tão chateados?
— Dru, Malcolm é a pessoa por quem estamos procurando. — Foi Emma que falou, a voz engasgada. — Ele é o Guardião. É o assassino. E levou Tavvy...
— Para ter sangue Blackthorn — disse Julian. — O último sacrifício. Sangue Blackthorn para trazer de volta um Blackthorn.
Dru caiu no ombro da irmã, chorando. Mark estava tremendo; Cristina, de repente, se afastou de Diego e foi até ele. Ela pegou a mão dele e a segurou.
Emma agarrou a beira da mesa. Ela não estava mais sentindo a dor nas costas. Não estava mais sentindo nada.
Tudo que conseguia ver era Tavvy, o pequeno Tavvy, o menor dos Blackthorn. Tavvy tendo pesadelos, Tavvy em seus braços enquanto ela o carregava pelo Instituto destruído pela guerra há cinco anos. Tavvy coberto com as tintas de Jules no estúdio. Tavvy, o único deles com pele que não suportava nenhum símbolo de proteção. Tavvy, que não entenderia o que estava acontecendo com ele mesmo, nem por quê.
— Espere — falou Dru. — Malcolm me deu um bilhete. Ele disse para entregar a você, Jules. — Ela se afastou de Livvy e remexeu no bolso, retirando um papel dobrado. — Ele me pediu para não ler, que era privado.
Livvy, que tinha ido para perto de Ty, emitiu um ruído enojado. O rosto de Julian estava pálido, os olhos ardendo.
— Privado? Ele quer que a privacidade dele seja respeitada? — Julian pegou o papel da mão de Dru e quase o rasgou. Emma viu um grande bloco de letras impressas no papel. A expressão de Julian passou a exibir confusão.
— O que está escrito, Jules? — perguntou Mark.
Julian leu as palavras em voz alta.
— VOU RESSUSCITÁ-LA ANNABEL LEE.


A sala explodiu.
Um raio preto explodiu da carta na mão de Julian. Voou para o telhado, atravessando a claraboia com a força de uma bola de demolição. Emma cobriu a cabeça quando gesso e pedacinhos de vidro choveram sobre eles. Ty, que estava diretamente abaixo do buraco no teto, se jogou para cima da irmã, derrubando-a no chão e cobrindo-a com seu próprio corpo. A sala pareceu balançar de um lado para o outro; uma estante cambaleou e caiu na direção de Diego. Afastando-se de Mark, Cristina empurrou o móvel para longe; este caiu para o lado, errando Diego por poucos centímetros. Dru gritou, e Julian a puxou para si, abraçando-a.
A luz preta estava brilhando acima. Com a mão livre, Julian jogou o bilhete no chão e pisou em cima.
Instantaneamente ele virou pó. A luz preta desapareceu como se tivesse sido desligada.
Fez-se silêncio. Livvy saiu de baixo do irmão gêmeo e se levantou, esticando o braço para ajudá-lo em seguida. Livvy parecia meio surpresa, meio preocupada.
— Ty, você não precisava fazer isso.
— Você queria ter alguém que a protegesse contra os perigos. Foi o que disse.
— Eu sei — falou Livvy. — Mas…
Ty se levantou... e gritou. Um caco de vidro estava espetado na sua panturrilha. Sangue já tinha começado a ensopar o tecido em torno do corte.
Ty se abaixou e, antes que qualquer pessoa pudesse se mover, puxou o vidro da perna. Ele o jogou no chão, onde estilhaçou em pedaços claros, manchados de vermelho.
— Ty! — Julian começou a avançar, mas Ty balançou a cabeça. Ele estava se sentando em uma cadeira, o rosto contorcido de dor. O sangue tinha começado a formar uma piscina em volta do seu tênis.
— Deixe que Livvy faça isso — falou. — Seria melhor...
Livvy já estava pulando em cima do irmão gêmeo e fazendo um iratze. Um pedaço de vidro tinha cortado sua bochecha esquerda, e sangue era visível contra a pele pálida. Ela o limpou com a manga ao terminar o símbolo de cura.
— Deixe-me ver o corte — disse Julian, ajoelhando.
Lentamente, Livvy dobrou a calça de Ty. O corte era na panturrilha, em carne viva e vermelho, mas não estava mais aberto; parecia um rasgo que já tinha sido costurado. Mesmo assim, do corte para baixo a perna estava manchada de sangue.
— Outro iratze deve resolver — disse Diego. — E um símbolo de reposição de sangue.
Julian cerrou os dentes. Ele nunca parecera incomodado com Diego do jeito que Mark ficava, mas Emma percebeu naquele instante que ele mal estava se segurando.
— Sim — disse ele. — Nós sabemos. Obrigado, Diego.
Ty olhou para o irmão.
— Não sei o que aconteceu. — Ele parecia espantado. — Eu não estava esperando... devia ter esperado.
— Ty, ninguém podia ter esperado aquilo — falou Emma. — Quero dizer, Julian disse umas palavras, e boom, luz do Inferno.
— Mais alguém se machucou? — Julian tinha cortado eficientemente a calça de Ty, e Livvy, com o rosto da cor de jornal velho, estava aplicando símbolos de cura e de reposição de sangue no irmão gêmeo. Julian olhou em volta, e Emma pôde vê-lo fazendo um inventário mental de sua família: Mark, tudo bem, Livvy, tudo bem, Dru, tudo bem... Ela viu o momento em que ele olhou para onde Tavvy deveria estar e empalideceu. A mandíbula enrijeceu. — Malcolm deve ter enfeitiçado o papel para liberar aquele sinal assim que fosse lido.
— É um sinal — disse Mark. A expressão no rosto dele era de perturbação. — Eu já senti isso antes, na Corte Unseelie, quando feitiços negros eram preparados. Foi magia negra.
— Temos que ir direto para a Clave. — O rosto de Julian estava exangue. — Sigilo não importa, punições não importam, não quando a vida de Tavvy corre risco. Eu assumo toda a culpa.
— Você não vai assumir nenhuma culpa — disse Mark — que eu não assuma também.
Julian não respondeu, apenas estendeu a mão.
— Emma, meu telefone.
Ela tinha se esquecido de que ainda estava com ele. Retirou o telefone lentamente do bolso... e piscou os olhos.
A tela estava apagada.
— Seu telefone. Está sem bateria.
— Estranho — disse Julian. — Eu recarreguei hoje de manhã.
— Pode usar o meu — ofereceu Cristina, e alcançou o próprio bolso. — Aqui... — Ela piscou. — Também está sem bateria.
Ty saltou da cadeira. Deu um passo à frente e franziu o rosto, mas só de leve.
— Nós vamos checar o computador e a linha fixa.
Ele e Livvy correram da biblioteca. A sala parecia quieta agora, exceto pelo ruído de escombros se assentando. O chão estava coberto de vidro quebrado e pedaços de madeira estilhaçada. Parecia que a luz preta tinha explodido o óculo no topo do recinto.
Drusilla engasgou.
— Vejam... tem alguém na claraboia.
Emma levantou o olhar. O óculo tinha se tornado um anel de cacos de vidro, aberto ao céu noturno. Ela viu o lampejo de um rosto pálido no círculo.
Mark a ultrapassou e correu pela rampa em curva. Ele se lançou no óculo (onde se via o borrão de algo se movendo) e voltou a cair sobre a rampa, a mão agarrando o colarinho de uma figura esguia com cabelos escuros. Mark estava gritando: havia vidro quebrado em volta deles enquanto lutavam. Rolaram juntos pela rampa, batendo um no outro até acabarem no chão da biblioteca.
A figura de cabelos escuros era um rapaz esguio, com roupas rasgadas e ensanguentadas; ele ficara flácido. Mark se ajoelhou sobre ele, e, enquanto alcançava uma adaga que brilhou dourada, Emma percebeu que o intruso era Kieran.
Mark colocou a faca contra a garganta de Kieran, que ficou rijo.
— Eu deveria matá-lo aqui mesmo — falou Mark entre dentes. — Eu deveria cortar sua garganta.
Dru emitiu um ruído baixinho. Para surpresa de Emma, foi Diego que estendeu o braço e colocou uma das mãos de forma reconfortante no ombro dela. Uma pequena onda de apreciação por ele a varreu.
Kieran exibiu os dentes – e depois a garganta, inclinando a cabeça para trás.
— Vá em frente — disse ele. — Me mate.
— Por que está aqui? — Mark perdeu o fôlego.
Julian deu um passo para eles, com a mão no quadril, sobre o cabo de uma faca de arremesso. Emma sabia que ele podia atacar Kieran àquela distância. E o faria se Mark parecesse em perigo.
Mark segurava a faca; a mão estava firme, mas o rosto, angustiado.
— Por que está aqui? — perguntou outra vez. — Por que viria a esse lugar, onde sabe que é odiado? Por que ia querer me fazer matá-lo?
— Mark — disse Kieran. Ele esticou o braço, fechou a mão na manga de Mark. Seu rosto estava cheio de saudade; o cabelo que caiu sobre sua testa parecia manchado de azul-escuro. — Mark, por favor.
Mark balançou o braço para soltá-lo da mão de Kieran.
— Eu poderia perdoar se as chicotadas tivessem sido em mim — falou ele. — Mas você tocou os que eu amo; isso eu não posso perdoar. Você deveria sangrar como Emma sangrou.
— Não... Mark... — Emma estava alarmada, não por Kieran, parte dela teria gostado de vê-lo sangrar, mas por Mark. Pelo que machucar, ou até mesmo matar Kieran, faria com ele.
— Eu vim para ajudar — disse Kieran.
Mark soltou uma gargalhada.
— Sua ajuda não é bem-vinda aqui.
— Eu sei sobre Malcolm Fade. — Kieran engasgou. — Sei que ele levou seu irmão.
Julian emitiu um ruído gutural. A mão de Mark, na faca, embranqueceu.
— Solte-o, Mark — ordenou Emma. — Se ele sabe alguma coisa sobre Tavvy... temos que descobrir o que é. Solte-o.
Mark hesitou.
— Mark — pediu Cristina suavemente, e, com um gesto violento, Mark soltou Kieran e se levantou, recuando até estar quase ao lado de Julian, cuja mão parecia agarrar a faca com muita uma força agonizante.
Lenta, dolorosamente, Kieran se levantou e encarou a sala.
Ele estava longe de parecer o príncipe elegante que Emma viu no Santuário. Sua camisa e a calça larga estavam sujas de sangue e rasgadas, o rosto, ferido. Ele não se acovardou nem se assustou, mas isso parecia menos um ato de bravura do que de desespero: tudo nele, da aparência à postura e ao jeito como olhava para Mark, dizia que ele era uma pessoa que não se importava com o que lhe aconteceria.
A porta da biblioteca se abriu subitamente, e Ty e Livvy entraram.
— Está tudo desligado! — exclamou Livvy. — Todos os telefones, o computador, até os rádios...
Ela se interrompeu, observando, ao assimilar a cena diante de seus olhos: Kieran encarando os outros ocupantes da sala.
Ele fez uma pequena reverência.
— Sou Kieran da Caçada Selvagem.
— Do comitê das fadas? — Livvy olhou de Mark para Julian. — Um dos que bateram em Emma?
Julian fez que sim com a cabeça.
Ty olhou para Mark, depois para os outros. Seu rosto estava pálido e frio.
— Por que ele ainda está vivo?
— Ele sabe sobre Tavvy — respondeu Drusilla. — Julian, faça com que ele nos conte.
Julian arremessou a adaga, que voou sobre a cabeça de Kieran, próxima o bastante para raspar o cabelo, e enterrou-se na moldura da janela atrás dele.
— Vai nos contar agora — falou Julian com uma voz mortalmente calma — tudo que sabe sobre a localização de Octavius, o que está acontecendo e como podemos recuperá-lo. Ou vou derramar seu sangue no chão dessa biblioteca. Já derramei sangue de fadas antes. Não pense que não o farei outra vez.
Kieran não abaixou os olhos.
— Não precisa me ameaçar — garantiu o príncipe fada —, mas, se o agrada, faça isso; não faz a menor diferença para mim. Eu vim para contar o que sei. É para isso que estou aqui. A luz preta que acabaram de ver é magia de fada. O objetivo era derrubar todas as comunicações, para que não pudessem pedir ajuda da Clave ou do Conclave. Para que não pudessem buscar ajuda ou salvar seu irmão.
— Precisamos tentar achar um orelhão — falou Livvy, incerta — ou um telefone de restaurante, na estrada...
— Vão descobrir que todas as linhas telefônicas foram derrubadas por vários quilômetros — disse Kieran. Havia urgência em sua voz. — Eu imploro que não percam tempo. Fade já levou o seu irmão para a convergência da Linha Ley. É o local onde ele faz os sacrifícios. O local onde pretende matá-lo. Se quiserem resgatar o menino, precisam se armar e ir agora.


Julian abriu a porta da sala de armas com força.
— Pessoal, armem-se, todos vocês. Se não estiverem de uniforme de combate, vistam-se. Diego, Cristina, há uniformes pendurados na parede leste. Peguem, vai ser mais rápido do que passarem no quarto. Usem as armas que quiserem. Kieran, fique bem ali. — Ele apontou para a mesa no meio da sala. — Onde posso vê-lo. Não se mexa ou a próxima lâmina não vai errar o alvo.
Kieran o encarou. Um pouco do desespero visível pareceu diminuir, e deu para ver arrogância em sua rápida olhada.
— Eu acredito — falou, e foi para a mesa onde todos estavam se armando e vestindo uniforme sobre as roupas. Não era uniforme de patrulha, que era mais leve, mas o uniforme escuro e pesado que vestiam quando iam para a luta.
Quando sabiam que iam para a luta.
Houve discussão sobre se iriam todos para a convergência ou se, pelo menos, Dru deveria ficar no Instituto. Dru protestou violentamente, e Julian não discutiu – o Instituto não parecia seguro no momento, com a claraboia quebrada. Kieran tinha entrado, e quem sabe quem mais poderia entrar? Ele queria a família onde pudesse vê-la. E não havia muito que pudesse dizer a Dru sobre sua idade: ele e Emma lutaram e mataram durante a Guerra Maligna, e eram então mais novos do que ela.
Ele tinha puxado Ty para o lado, separadamente, e dito a ele que, se ele quisesse ficar para trás por estar ferido, não havia vergonha nisso. Ele podia se trancar no carro enquanto eles entravam na convergência.
— Você acha que não tenho nenhuma contribuição a oferecer na batalha? — perguntou o irmão.
— Não — disse Julian, e era verdade. — Mas você está machucado e eu...
— É uma luta. Todo mundo pode se machucar. — Ty olhou diretamente nos olhos de Julian. Dava para saber que o menino estava fazendo isso por ele, porque se lembrava de que Julian tinha lhe dito que as pessoas frequentemente olhavam nos olhos das outras quando queriam demonstrar que falavam a verdade. — Eu quero ir. Quero estar lá para ajudar Tavvy, e quero que você deixe. É o que eu quero, e isso deveria importar.
Ty estava na sala de armas com eles agora. Era um espaço cavernoso sem janelas. Cada centímetro das paredes tinha espadas, machados e maças pendurados. Uniformes, cintos e botas encontravam-se empilhados. Havia uma vasilha de cerâmica cheia de estelas e uma mesa coberta com um longo tecido cheio de lâminas serafim.
Julian sentia todos à sua volta, os amigos e a família. Mark estava ao seu lado, tirando os sapatos e calçando botas. Ele sabia que Emma estava na bancada, alinhando lâminas serafim que já tinham sido nomeadas e preparadas, colocando algumas no próprio cinto e distribuindo o resto. Sua consciência dela se moveu como a agulha de uma bússola.
Acima de tudo, no entanto, ele estava ciente de Tavvy, em algum lugar, precisando dele. Sentia um terror frio que ameaçava extrair a determinação de seus ossos e afetar sua concentração. Deixar isso de lado para se concentrar no que estava acontecendo no momento foi uma das coisas mais difíceis que ele já tivera que fazer. Desejou amargamente que as coisas fossem diferentes, que tivessem o auxílio da Clave, que pudessem ter pedido a Magnus um Portal.
Mas não adiantava nada desejar.
— Fale — disparou ele para Kieran, puxando um cinto de armas de uma prateleira. — A luz preta, você disse que era “magia de fada”. Estava querendo dizer magia negra?
Agora que Mark não mais olhava diretamente para ele, Kieran parecia entediado e irritado. Ele se apoiou contra a mesa central, com cuidado para não entrar em contato com nenhuma das armas – não, e sua expressão deixava isso claro, por serem afiadas ou assustadoras, mas porque eram armas Nephilim, e portanto repelentes.
— A questão é se vai aparecer no mapa da Clave — disse Ty, colocando luvas protetoras. Ele já estava de uniforme, e o leve contorno do curativo na panturrilha era quase imperceptível sob o tecido espesso. — Como Magnus rastreia o uso de magia negra? Ou isso foi bloqueado como os celulares?
— Foi magia Unseelie, mas não de natureza negra — disse Kieran. — Não vai aparecer no mapa. Eles se certificaram bem disso.
Julian franziu o rosto.
— Quem são eles? Aliás, como sabe tanto sobre Malcolm?
— Por causa de Iarlath — revelou Kieran.
Mark virou para olhar para ele.
— Iarlath? O que ele tem a ver com isso?
— Achei que soubesse pelo menos disso — murmurou Kieran. — Iarlath e Malcolm estão juntos nisso desde o ataque ao Instituto, há cinco anos.
— Eles são aliados? — Mark quis saber. — Há quanto tempo você sabe disso?
— Pouco — respondeu Kieran. — Desconfiei quando Iarlath recusou tão enfaticamente a deixá-lo voltar para o Reino das Fadas. Ele queria que você ficasse aqui, tanto que encenou aquela punição com o chicote para que não voltasse conosco. Depois disso, percebi que o plano de deixá-lo no Instituto era mais do que descobrir o assassino que havia tomado vidas de fadas. Era para impedir que qualquer integrante da sua família procurasse a Clave até que fosse tarde demais.
Emma tinha uma lâmina serafim em cada mão e Cortana nas costas; ela parou, com o rosto rijo de choque.
— Iarlath me disse alguma coisa quando estava... quando estava me chicoteando — lembrou ela. — Que Caçadores de Sombras não sabem em quem confiar. Ele estava falando de Malcolm, não estava?
— Provavelmente — respondeu Kieran. — Malcolm é a mão invisível que guiou os Seguidores, e Malcolm matou os seus pais há cinco anos.
— Por quê? — Emma estava imóvel. Julian queria tanto correr para ela que chegava a doer. — Por que ele matou meus pais?
— Até onde sei? — falou Kieran, e havia uma pontada de compaixão em sua voz. — Foi uma experiência. Para ver se o feitiço funcionava.
Emma ficou sem fala. Julian perguntou por ela, a pergunta que ela não conseguia fazer.
— Como assim, uma experiência?
— Há anos, Iarlath foi um do Povo das Fadas que se aliou a Sebastian Morgenstern — disse Kieran. — Ele também era amigo de Malcolm. Conforme provavelmente sabem, existem certos livros que feiticeiros são proibidos deter, mas que podem ser encontrados em algumas bibliotecas de Caçadores de Sombras. Volumes sobre necromancia e afins. Um destes é o Volume Negro dos Mortos.
— O que o poema mencionou — disse Dru. Apesar do rosto ainda estar manchado de lágrimas, ela havia vestido o uniforme e estava trançando o cabelo cuidadosamente para tirá-lo do rosto. Machucou o coração de Julian, vê-la assim. — A qualquer custo encontre o livro preto referido.
— Existem muitos livros pretos — explicou Kieran. — Mas esse era um que Malcolm queria especificamente. Uma vez que o Instituto foi liberado de Caçadores de Sombras e Sebastian partiu, Malcolm aproveitou a oportunidade para roubar o livro da biblioteca. Afinal, em que outro momento o Instituto ficaria sem proteção e com a porta aberta? Ele pegou, achou o feitiço que queria e viu que exigia o sacrifício da vida de um Caçador de Sombras. Foi então que seus pais voltaram para o Instituto, Emma.
— Então ele os matou — concluiu Emma. — Por um feitiço. — Ela soltou uma risada curta e amarga. — Pelo menos funcionou?
— Não — disse Kieran. — O feitiço falhou, então ele deixou os corpos no mar, sabendo que Sebastian seria responsabilizado.
— Iarlath contou tudo isso? — Havia desconfiança no rosto de Mark.
— Eu segui Iarlath até a Corte Unseelie e lá ouvi o que ele disse. — Kieran tentou encontrar o olhar de Mark, que desviou. — O resto eu exigi que me contasse, ameaçando com uma faca. Malcolm tinha que confundi-los e enrolá-los para que não percebessem o que ele estava fazendo; ele usou Johnny Rook para isso, em parte. Ele queria que investissem em uma investigação que não desse resultado. A presença de Mark ia impedi-los de pedir ajuda à Clave ou aos Irmãos do Silêncio, protegendo assim o trabalho de Malcolm com os Seguidores, suas tentativas de despertar seu antigo amor dos mortos. Quando Malcolm tivesse feito o que precisava, ele pegaria um Blackthorn, pois a morte de um Blackthorn é a última chave para o encanto.
— Mas Iarlath não tem poder para autorizar uma escolta de fadas a fazer algo dessa magnitude — disse Mark. — Ele é apenas um bajulador, não alguém que pode dar ordens a Gwyn. Quem permitiu que isso acontecesse?
Kieran balançou a cabeça negra.
— Eu não sei. Iarlath não disse. Pode ter sido o Rei, meu pai, ou pode ter sido Gwyn...
— Gwyn não faria isso — disse Mark. — Gwyn tem honra, ele não é cruel.
— E Malcolm? — Quis saber Livvy. — Pensei que ele tivesse honra. Pensei que fosse nosso amigo! Ele ama Tavvy, passava horas brincando com ele, trazia brinquedo de presente. Ele não poderia matá-lo. Não poderia.
— Ele é responsável pela morte de mais de doze pessoas, Livvy — disse Julian. — Talvez mais.
— Pessoas são mais do que uma coisa — argumentou Mark, e seus olhos passaram por Kieran ao falar. — Feiticeiros também.
Emma continuava com as lâminas serafim na mão. Julian sentia o que ela sentia, como sempre, como se o próprio coração espelhasse o dela – a onda quente da raiva ultrapassando o senso debilitante de desespero e perda. Mais do que tudo, ele queria consolá-la, mas não confiava em si mesmo para fazer isso na frente dos outros.
Conseguiriam enxergar através dele assim que ele a tocasse, enxergariam seus verdadeiros sentimentos. E ele não podia correr esse risco naquele momento, não quando seu coração estava sendo devorado de medo pelo seu irmão caçula, medo que não podia demonstrar para não desmoralizar os outros irmãos.
— Todo mundo é mais do que uma coisa — disse Kieran. — Somos mais do que as ações individuais que cometemos, sejam elas boas ou ruins.
Os olhos dele brilharam, prata e preto, quando ele olhou para Mark. Mesmo naquela sala cheia de objetos de Caçadores de Sombras, a selvageria da Caça e do Reino das Fadas se prendia a Kieran como o cheiro da chuva ou das folhas. Era a mesma que Julian, às vezes, sentia em Mark, que tinha desbotado desde que ele voltou para eles, mas ainda se apresentava em breves brilhos como um tiro visto de longe. Por um instante, pareciam duas coisas selvagens e incongruentes ao seu redor.
— O poema que foi escrito nos corpos — disse Cristina. — O que mencionava o livro preto. A história dizia que tinha sido dado a Malcolm na Corte Unseelie.
— É como conta a história das fadas também — emendou Kieran. — Primeiro, disseram a Malcolm que seu amor tinha se tornado uma Irmã de Ferro. Mais tarde, ele descobriu que ela havia sido assassinada pela família. Enterrada viva em um túmulo. Essa informação o fez procurar o Rei da Corte Unseelie e perguntar a ele se havia algum jeito de trazer de volta os mortos. O Rei deu a ele essa rima. Eram instruções; só que ele levou quase um século para aprender como segui-las, e para encontrar o livro preto.
— Por isso a biblioteca foi destruída no ataque — concluiu Emma. — Para que ninguém notasse que o livro tinha sumido se algum dia procurassem por ele. Tantos livros se perderam.
— Mas por que Iarlath disse a Malcolm que os Seguidores poderiam matar fadas tanto quanto humanos? — disse Emma. — Se ele realmente estava em parceria com Malcolm...
— Era algo que Iarlath queria. Ele tem muitos inimigos nas Cortes. Era uma forma eficiente de se livrar de alguns deles; Malcolm fazia seus Seguidores os matarem, e os assassinatos não podiam ser associados a Iarlath. Uma fada matar outra da nobreza, isso é de fato um crime sombrio.
— Onde está o corpo de Annabel? — perguntou Livvy. — Ela não estaria enterrada na Cornualha? Não teria sido enterrada lá... em um “túmulo próximo ao sonoro mar”?
— Convergências são locais fora de espaço e tempo — disse Kieran. — A convergência em si não é aqui, nem na Cornualha, nem em nenhum espaço real. É em um lugar entre lugares, como o próprio Reino das Fadas.
— Provavelmente também pode ser alcançada pela Cornualha; por isso, aquelas plantas crescem na entrada — argumentou Mark.
— E qual é a conexão com o poema “Annabel Lee”? — perguntou Ty. — O nome Annabel, as semelhanças entre as histórias... parece mais do que coincidência.
O príncipe fada de cabelos escuros apenas balançou a cabeça.
— Só sei o que Iarlath me contou, e o que é parte da história fada. Eu sequer conhecia o nome Annabel ou o poema mundano.
Mark se virou para Kieran.
— Onde está Iarlath agora?
Os olhos de Kieran pareceram brilhar quando ele olhou para trás.
— Estamos perdendo tempo aqui. Deveríamos ir para a convergência.
— Ele não está errado. — Diego estava completamente vestido: uniforme, várias espadas, um machado, facas de arremesso no cinto. Usava uma capa preta sobre o uniforme, presa pelo ombro, com o broche dos Centuriões; tinha a estampa de um graveto sem folhas e as palavras Primi Ordines. Ele fazia Julian se sentir malvestido. — Temos que ir para a convergência das Linhas Ley e impedir Fade...
Julian olhou em volta, para Emma e Mark, depois para Ty e Livvy, e finalmente para Dru.
— Sei que conhecemos Malcolm há muito tempo. Mas ele é um assassino e um mentiroso. Feiticeiros são imortais, mas não invulneráveis. Quando o virem, enfiem suas lâminas no coração dele.
Fez-se silêncio. Emma o interrompeu.
— Ele matou meus pais — disse ela. — Cabe a mim arrancar seu coração.
Kieran ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada.
— Jules. — Foi Mark quem falou e foi para o lado do irmão. Seus cabelos, que Cristina havia cortado, estavam emaranhados; tinha sombra sob os olhos. Mas tinha força na mão que colocou no ombro de Julian. — Pode fazer os símbolos em mim, irmão? Temo que, sem eles, eu fique em desvantagem na batalha.
A mão de Julian foi automaticamente para a estela. Em seguida, ele fez uma pausa.
— Tem certeza?
Mark concordou com a cabeça.
— É hora de deixar os pesadelos de lado. — Ele puxou o colarinho da camisa para o lado e para baixo, exibindo o ombro. — Coragem — falou, nomeando o símbolo. — E Agilidade.
Os outros discutiam a maneira mais rápida de chegar à convergência, mas Julian estava ciente dos olhos de Emma e Kieran enquanto colocava uma das mãos nas costas de Mark e usava a outra para desenhar dois símbolos cautelosos. No primeiro toque da estela, Mark ficou tenso, mas imediatamente relaxou, soltando o ar suavemente.
Quando Julian terminou, ele abaixou as mãos. Mark se ajeitou e se virou para ele. Apesar de não ter derramado lágrimas, seus olhos bicolores brilhavam. Por um instante, não havia ninguém além de Julian e seu irmão no mundo.
— Por quê? — perguntou Julian.
— Por Tavvy — disse Mark, e de repente, em sua boca, na curva da linha determinada do queixo, Julian enxergou a si mesmo. — E — acrescentou Mark — porque sou um Caçador de Sombras. — Ele olhou para Kieran, que os encarava como se a estela tivesse queimado a própria pele. Amor e ódio tinham suas próprias línguas secretas, Julian pensou, e Mark e Kieran estavam se comunicando através dela agora. — Porque sou um Caçador de Sombras — repetiu ele, se esticando e puxando a camisa para baixo, os olhos cheios de um desafio privado. — Porque eu sou um Caçador de Sombras.
Kieran se levantou da mesa quase violentamente.
— Eu já contei tudo que sei — falou. — Não há mais segredos.
— Então suponho que já esteja indo — disse Mark. — Obrigado pela ajuda, Kieran. Se for voltar à Caçada, diga a Gwyn que não retornarei. Nunca, não importam as regras que decretem. Juro que eu...
— Não jure — disse Kieran. — Você não sabe como as coisas vão mudar.
— Chega. — Mark começou a se virar.
— Eu trouxe meu alazão comigo — disse Kieran. Falava com Mark, mas todos estavam ouvindo. — Um cavalo da Caçada pode voar. As estradas não atrasam nossa locomoção. Vou na frente e atrasarei o que estiver acontecendo na convergência até vocês chegarem.
— Eu vou com ele — falou Mark rispidamente.
Todos olharam surpresos para ele.
— Hum — disse Emma. — Você não pode esfaqueá-lo no caminho, Mark. Podemos precisar dele.
— Por mais agradável que isso me pareça, não era o que eu estava planejando — disse Mark. — Dois guerreiros são melhores do que um.
— Bem pensado — disse Cristina. Ela deslizou seus dois canivetes borboleta no cinto. Emma tinha acabado de guardar suas últimas lâminas serafim.
Julian sentiu o frio familiar da expectativa da batalha subindo em suas veias.
— Vamos.
Ao descerem, Julian foi para o lado de Kieran. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram. Kieran representava estranheza, magia selvagem, o abandono assassino da Caçada. Ele não conseguia imaginar o que Mark tinha encontrado nele para amar.
— Seu irmão estava enganado em relação a você — disse Kieran ao descerem os degraus para a entrada do Instituto.
Julian olhou em volta, mas ninguém parecia escutá-los. Emma estava ao lado de Cristina, os gêmeos juntos, e Dru conversava timidamente com Diego.
— O que quer dizer com isso? — perguntou ele com reservas. Ele tinha aprendido muito bem no passado a ser cauteloso com o Povo das Fadas, com suas armadilhas verbais e falsas implicações.
— Ele disse que você era gentil — falou Kieran. — A pessoa mais delicada que ele conhecia. — Ele sorriu, e havia uma beleza fria em seu rosto quando o fazia, como a superfície cristalina do gelo. — Você não é gentil. Tem um coração implacável.
Por vários longos momentos Julian ficou em silêncio, ouvindo apenas os sons dos passos na escada. No último degrau, ele se virou.
— Lembre-se disso — aconselhou e se afastou.


Porque eu sou um Caçador de Sombras.
Mark estava ao lado de Kieran no trecho de grama que levava até a falésia e, depois, ao mar. O Instituto se erguia atrás dele, escuro e sem luz, apesar de dali, pelo menos, o buraco no telhado ser invisível.
Kieran colocou os dedos na boca e assobiou, um som dolorosamente familiar para Mark. A visão do outro ainda era o suficiente para fazê-lo sentir uma pontada no coração, desde a postura, que traduzia seu treinamento desde cedo na Corte, à forma como seu cabelo tinha crescido demais desde que Mark não estava mais presente para cortá-lo, e as mechas azul-escuras caiam em seus olhos e se misturavam aos cílios longos. Mark se lembrava do encantamento que nutria pela curva desses cílios. Ele se lembrava da sensação deles tocando sua pele.
— Por quê? — perguntou Kieran. Ele estava olhando um pouco para longe de Mark, sua postura rígida, como se esperasse ser estapeado. — Por que vir comigo?
— Porque é preciso ficar de olho em você — respondeu Mark. — Já pude confiar em você um dia. Não mais.
— Isso não é verdade — disse Kieran. — Eu o conheço, Mark. Sei quando mente.
Mark se virou para ele. Sempre teve um pouco de medo de Kieran, percebeu: do poder de sua posição, da segurança inabalável sobre si mesmo. Esse medo não estava mais presente, e ele não sabia se era por causa do símbolo de Coragem no ombro ou porque ele não precisava mais desesperadamente de Kieran para viver. Queria, amava – eram questões diferentes. Mas ele poderia sobreviver de qualquer jeito. Ele era um Caçador de Sombras.
— Certo — disse Mark, e ele sabia que deveria ter dito “muito bem”, mas essa língua não estava mais nele, não pulsava em seu sangue, a retórica do Reino das Fadas. — Digo porque quis vir com você...
Um clarão branco surgiu. Lança do Vento subiu um pequeno aclive e se aproximou deles, respondendo ao chamado de seu mestre. A égua relinchou quando viu Mark, e afocinhou seu ombro.
Ele afagou o pescoço dela. Cem vezes Lança do Vento o carregou com Kieran na Caçada, cem vezes compartilharam a montaria, cavalgaram juntos, lutaram juntos, e, quando Kieran subiu nas costas do animal, a familiaridade mordeu como anzóis sob a pele de Mark.
Kieran baixou os olhos para ele; era um príncipe, apesar das roupas manchadas de sangue. Seus olhos semicerrados eram duas luas crescentes, prata e preta.
— Então me diga — pediu Kieran.
Mark sentiu o símbolo de Agilidade arder em suas costas ao montar atrás de Kieran. Seus braços o envolveram automaticamente, as mãos repousando onde sempre repousavam, na cintura do príncipe fada. Ele o sentiu respirar. Ele queria colocar a cabeça no ombro de Kieran. Queria pôr as mãos sobre as dele e entrelaçar os dedos. Queria sentir o que sentia quando vivia com a Caçada, que estava seguro com Kieran, que com Kieran encontrava alguém que nunca o deixaria.
Mas havia coisas piores do que ser deixado.
— Porque eu queria andar com você na Caçada uma última vez — confessou ele, e sentiu a tensão em Kieran.
Então o menino fada se inclinou para a frente e Mark o ouviu falar algumas palavras para Lança do Vento na Língua das Fadas.
Quando o cavalo começou a correr, Mark esticou o braço para tocar o ponto onde Julian havia colocado os símbolos. Ele sentiu uma onda de pânico quando a estela tocou sua pele, e em seguida uma calma que fluiu por ele, surpreendendo-o. Talvez os símbolos do Céu pertencessem à sua pele. Talvez ele tivesse nascido para usá-los, afinal.
Ele se segurou firme em Kieran quando Lança do Vento levantou para o céu, cascos cortando o ar, e o Instituto girou abaixo deles.


Quando Emma e os outros chegaram à convergência, Mark e Kieran já estavam lá. Eles saíram das sombras em uma bela montaria branca que fez Emma pensar em todos os momentos da infância em que quis um cavalo.
O Toyota parou. Não havia nuvens no céu, e a luz da lua era afiada e prateada como uma faca. O luar delineava Mark e Kieran, transformando-os em contornos iluminados de cavaleiros fada. Nenhum deles parecia humano.
O campo que se estendia até a falésia parecia enganosamente pacífico sob a luz da lua. A grama ampla e os arbustos de artemísia se moviam com o vento suave.
A colina de granito se erguia acima de tudo; o espaço escuro na parede parecia chamá-los para mais perto.
— Matamos muitos Mantis — disse Mark. Seus olhos encontraram os de Emma. — Abrimos o caminho.
Kieran ficou sentado olhando, o rosto semicoberto pelos cabelos escuros.
Mark estava com as mãos no cinto de Kieran, se ajeitando. Como se, de repente, tivesse se lembrado disso, Mark soltou e deslizou para o chão.
— É melhor entrarmos — falou ele, inclinando a cabeça para Kieran. — Você e Lança do Vento ficam de guarda.
— Mas eu... — começou Kieran.
— Este é um assunto da família Blackthorn — cortou Mark em um tom que não deixava espaço para discussão.
Kieran olhou para Cristina e Diego, abriu a boca como se fosse protestar, e depois a fechou de novo.
— Verificação das armas, pessoal — disse Julian. — Depois entramos.
Todos, inclusive Diego, obedeceram e checaram cintos e uniformes. Ty pegou uma lâmina serafim extra da mala do carro. Mark examinou o uniforme de Dru e a lembrou mais uma vez que a função dela era ficar na retaguarda e perto dos outros.
Emma soltou a braçadeira e levantou a manga. Ela estendeu o braço para Julian. Ele olhou para a pele nua, depois para o rosto, e fez um sinal afirmativo com a cabeça.
— Qual?
— Resistência — pediu ela. Já estava marcada com símbolos de coragem e rigor, precisão e cura. Mas o Anjo nunca deu aos Caçadores de Sombras símbolos para dor emocional; não havia símbolos que curassem o luto ou um coração partido.
A ideia de que a morte de seus pais tinha sido uma experiência fracassada, um desperdício despropositado, doía mais do que Emma poderia imaginar.
Durante todos esses anos ela achou que eles tivessem morrido por algum motivo, mas não havia motivo algum. Simplesmente eram os únicos Caçadores de Sombras disponíveis.
Julian pegou gentilmente o braço dela, e ela sentiu a pressão familiar e bem-vinda da estela em sua pele. A Marca surgia e parecia fluir em sua corrente sanguínea, como água gelada.
Resistência. Ela teria que suportar isso, essa informação, lutar e superá-la. Por Tavvy, ela pensou. Por Julian. Por todos eles. E talvez, no fim das contas, ela teria sua vingança.
Julian abaixou a mão. Estava com os olhos arregalados. A Marca brilhou na pele dela, com um brilho que ela nunca vira, como se as bordas estivessem queimando. Ela abaixou a manga rapidamente, não querendo que mais ninguém notasse.
Na beira da falésia, a montaria branca de Kieran empinou contra a lua. O mar batia ao longe. Emma se virou e marchou para a abertura na pedra.

3 comentários:

  1. EU QUERO QUE ELES MATEM AQUELE FEITICEIRO... COMO ELE PODE PEGAR UMA CRIANÇA ASSIM.
    Não querendo ser chata, sei que não é uma boa hora para contar, mas diante da família sofrer por tantos segredos acho que o Julian e a Emma deveriam se abrir pelo menos para a família...

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  2. Acho que é lei que impede Parabatai de se apaixonarem é pq isso intensifica tanto a ligação que pode levar a coisas desastrosas...

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  3. Geeeenteeee, para tudo!!!
    Acho que o Malcon não vai sacrificar Tavvy, acredito eu que ele usou o Kieran para que o tio Arthur ficasse sozinho no instituto... Só acho neh!?
    E sim, Gabriela Thomazotti, também acredito que a Lei sobre o Amor Eros entre PARABATAI é para que não sejam tão fortes, ao ponto de a Clave, Conclave ou até mesmo os Irmãos do Silêncio não poderem conter quando isso viesse á acontecer!!! E mais uma vez eu digo... Eu acho!!!

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