1 de julho de 2016

Capítulo 21 - Um vento soprou

O céu do lado de fora do Instituto estava da cor que indicava ser muito tarde da noite, ou muito cedo na manhã, dependendo do ponto de vista. Sempre fazia Julian se lembrar de celofane azul ou aquarela: o azul intenso da noite se tornando translúcido pela iminente chegada do sol.
Os moradores do Instituto – todos exceto Arthur, que dormia a sono solto no sótão – estavam reunidos na sala do computador. Ty havia levado papéis e livros da biblioteca, e os outros analisavam o material. Tavvy estava encolhido, dormindo no canto. Havia caixas vazias de pizza da Nightshade empilhadas sobre a mesa. Emma sequer se lembrava de terem sido entregues, mas a maior parte tinha sido consumida. Mark estava ocupado observando Cristina e Diego, apesar de Diego não parecer notar. Também não pareceu notar Drusilla olhando para ele com olhos arregalados. Ele não era muito esperto, Julian pensou maldosamente. Talvez ser ridiculamente bonito consumisse mais tempo do que parecia.
Emma tinha acabado de contar a história de como ela e Cristina tinham seguido Sterling e as coisas que ele revelou no caminho para casa. Ty estava fazendo anotações com um lápis, e mantinha um segundo atrás da orelha. Seus cabelos negros estavam bagunçados como pelo de gato. Julian se lembrou de quando Ty era pequeno o suficiente para que ele conseguisse esticar o braço e ajeitar o cabelo do irmão quando parecia muito bagunçado. Alguma coisa nele doeu com a lembrança.
— Então — disse Ty, virando-se para Diego e Cristina, sentados lado a lado. Ela estava descalça, com uma das pernas da calça dobrada e a panturrilha cheia de curativos. De vez em quando ela olhava para Diego de esguelha, de um jeito que parecia parte desconfiança, parte alívio... por ele tê-la ajudado? Por ele estar lá? Julian não sabia ao certo. — Você é um Centurião?
— Estudei na Scholomance — disse Diego. — Fui o mais jovem aspirante a me tornar Centurião.
Todos pareceram impressionados, exceto Mark. Até Ty.
— É como ser um detetive, não é? — perguntou ele. — Você investiga para a Clave?
— Essa é uma das nossas funções — respondeu Diego. — Ficamos de fora da Lei que proíbe Caçadores de Sombras de se envolverem com assuntos relativos a fadas.
— A Clave pode abrir essa exceção para qualquer Caçador de Sombras, no entanto, em casos extremos — disse Julian. — Por que disseram a Diana que não podíamos investigar? Por que o enviaram?
— Julgaram que sua família, pela ligação com o Povo das Fadas, não conseguiria investigar com objetividade uma série de assassinatos envolvendo fadas como vítimas.
— Isso não é nada razoável — falou Mark, com os olhos brilhando.
— Não? — Diego olhou em volta. — Por tudo que ouvi e vi, vocês parecem ter montado uma investigação secreta sobre o assunto, e não contaram para a Clave. Vocês reuniram evidências que não compartilharam. Descobriram um culto assassino operando em segredo...
— Você faz parecer tudo tão escuso — falou Emma. — Mas até agora tudo que você fez foi aparecer em Los Angeles e atirar em um Caçador de Sombras.
Diego olhou para Julian.
— Está praticamente curado — retrucou Julian. — Praticamente.
— Aposto que não relatou isso para a Scholomance — falou Emma. — Relatou, Diego Perfeito?
— Não relatei nada à Scholomance — respondeu Diego. — Não desde que descobri que Cristina também estava envolvida. Eu jamais faria algo para machucá-la.
Cristina enrubesceu notavelmente.
— Você é um Centurião — disse Ty. — Fez votos...
— Votos de amizade e amor são mais fortes — argumentou Diego.
Drusilla olhou para ele com corações de desenho animado nos olhos.
— Que lindo.
Mark revirou os olhos. Ele claramente não era integrante da Sociedade Admiradora de Diego Perfeito.
— Isso é muito tocante — cortou Emma. — Agora fale. O que você sabe?
Julian olhou para ela. Ela parecia Emma, a Emma comum, forte, encorajadora, valente normal. Ela até sorriu rapidamente para ele antes de voltar a atenção novamente para Diego. Julian ouviu, metade do seu cérebro registrando a história de Diego. A outra metade estava em caos.
Pelos últimos cinco anos, ele andava em uma ponte de pedra acima do oceano e, se caísse para qualquer um dos lados, cairia em um caldeirão fervilhante. Mantinha o equilíbrio através da manutenção de segredos.
Mark o perdoou. Mas não foi só para Mark que mentiu. Mentiu para sua parabatai. Não era proibido, mas a maioria dos parabatai não fazia isso. Não precisavam e não queriam esconder coisas. O fato de que ele escondeu tanto de Emma provavelmente a chocou. Ele ficou olhando disfarçadamente, tentando encontrar sinais de abalo ou raiva. Mas não conseguia descobrir nada; o rosto dela ficou enlouquecedoramente ilegível enquanto Diego contava a sua história.
Quando Diego explicou que veio até o Instituto ao chegar em Los Angeles, e que o tio Arthur o expulsou, alegando que não queria estranhos à família Blackthorn interferindo com questões Blackthorn, Livvy levantou a mão para fazer uma pergunta.
— Por que ele faria isso? — perguntou. — O tio Arthur não gosta de estranhos, mas ele não é mentiroso.
Emma desviou o olhar dela. Julian sentiu o estômago apertar. Seus segredos continuavam sendo um fardo.
— Muitos Caçadores de Sombras da velha geração não confiam em Centuriões — explicou ele. — A Scholomance fechou em 1872, e Centuriões deixaram de treinar. Sabe como são os adultos em relação a coisas que não existiam quanto eles eram jovens.
Livvy deu de ombros, parecendo levemente mais calma. Ty estava anotando no caderno.
— Para onde você foi depois disso, Diego?
— Ele encontrou Johnny Rook — respondeu Cristina. — E Rook deu a dica do Sepulcro, assim como fez com Emma.
— Fui até lá imediatamente — falou Diego. — Passei dias esperando nos becos atrás do bar. — Seus olhos desviaram para Cristina. Julian ficou imaginando, com uma espécie de cinismo distante, se era tão óbvio para todo mundo quanto para ele que Diego tinha feito todas essas coisas por Cristina, que se ele não estivesse morrendo de preocupação com ela, ele provavelmente não teria corrido para o Sepulcro e passado dias vigiando o local para ver o que ia acontecer. — Então ouvi uma garota gritando.
Emma se sentou.
— Isso nós não escutamos.
— Acho que foi antes de vocês chegarem — disse Diego. — Segui o som e vi um grupo de Seguidores, inclusive Belinda, apesar de eu não saber quem eram naquele momento, atacando uma menina. Estapeando, cuspindo nela. Havia círculos protetores desenhados com giz no chão. Eu vi aquele símbolo, as linhas de água sob o sinal de fogo. Tinha visto no Mercado. Um sinal velho, muito velho de ressurgimento.
— Ressurgimento — ecoou Ty. — Necromancia?
Diego fez que sim com a cabeça.
— Lutei contra os Seguidores, mas a menina escapou. Correu para o carro.
— Ava? — Emma supôs.
— Sim. Ela me viu e correu. Eu a segui até sua casa, consegui convencê-la a me contar tudo que sabia sobre o Teatro da Meia-Noite, os Seguidores, a Loteria. Não foi muita coisa, mas aprendi que ela havia sido sorteada. Que foi ela quem matou Stanley Wells, sabendo que, se não o fizesse, ela mesma seria torturada e morta.
— Ela contou tudo? — perguntou Livvy, impressionada. — Mas eles juram segredo.
Ele deu de ombros.
— Não sei por que confiou em mim...
— Sério, cara? — disse Emma. — Você não tem espelho em casa?
— Emma! — Cristina sibilou.
— Ela o tinha matado alguns dias antes. Já estava dilacerada de culpa. Tinha aparecido no beco porque queria ver o corpo dele. Falou alguma coisa estranha sobre os círculos de giz, que eram inúteis, feitos para despistar. — Ele franziu o rosto. — Falei que a protegeria. Dormi na varanda da casa dela. No dia seguinte, ela exigiu que eu fosse embora. Disse que queria estar com o Guardião e os outros Seguidores. Que o lugar dela era com eles. Ava insistiu para que eu saísse, então eu saí. Voltei ao Mercado, comprei armas de Johnny Rook. Quando retornei naquela noite, ela estava morta. Tinha engasgado e se afogado na piscina, e haviam cortado sua mão.
— Não entendo o que está rolando com as mãos — comentou Emma. — Ava estava sem uma das mãos e estava morta; Belinda estava sem uma das mãos, mas a deixaram viva, e ela cortou as mãos de Sterling depois que ele morreu.
— Talvez sejam provas para o Guardião, de que a pessoa morreu — ponderou Livvy. — Como o caçador levando o coração da Branca de Neve em uma caixa.
— Ou talvez seja parte do feitiço — disse Diego, com o cenho franzido. — Ava e Belinda sem suas mãos dominantes; talvez Belinda não soubesse qual era a de Sterling, então cortou as duas.
— Um pedaço do assassino para ser entregue com o sacrifício? —perguntou Julian. — Vamos ter que pesquisar um pouco mais profundamente a seção de necromancia da biblioteca.
— Sim — disse Diego. — Queria ter tido acesso à biblioteca depois que encontrei Ava Leigh morta. Fracassei na minha missão de proteger uma mundana que precisava da minha ajuda. Jurei que descobriria quem tinha sido o responsável. Esperei no telhado dela.
— É, nós sabemos o que aconteceu — disse Julian. — Lembrarei toda vez que sentir uma pontada na lateral quando o tempo virar.
Diego inclinou a cabeça.
— Sinto muito por isso.
— Quero saber o que aconteceu depois — pediu Ty, ainda anotando com sua letra elegante e ilegível. Julian sempre achou parecida com pegadas de gato dançando sobre uma página. Seus dedos longos e esguios já estavam sujos de grafite. — Você descobriu que Sterling foi o escolhido da vez e o seguiu?
— Isso — respondeu Diego. — E vi que vocês estavam tentando protegê-lo. Não entendi por quê. Sinto muito, mas depois do que Arthur me disse, eu desconfiei de todos vocês. Eu sabia que deveria entregá-los à Clave, mas não consegui. — Ele olhou para Cristina e então desviou o olhar. — Eu estava do lado de fora do bar na esperança de conter Sterling, mas admito que também queria ouvir o seu lado da história. Agora já sei. Fico feliz que tenha me enganado em relação ao seu envolvimento.
— Deve ficar mesmo — murmurou Mark.
Diego se recostou.
— Então talvez agora possam me contar o que sabem. Seria o mais justo.
Julian ficou aliviado quando Mark fez o resumo. Ele foi cuidadoso em relação aos detalhes, até mesmo a barganha com as fadas quanto ao seu próprio destino, e o resultado da sua presença no Instituto.
— Sangue Blackthorn — repetiu Diego pensativamente quando Mark concluiu. — Isso é interessante. Eu imaginaria que os Carstairs tinham mais relevância nesses feitiços, considerando as mortes de cinco anos atrás.
— Os pais de Emma, você quer dizer — disse Julian. Lembrou-se deles, os olhos risonhos e o amor por Emma. Jamais seriam “as mortes” para ele.
Com o canto dos olhos, ele viu Tavvy sair da poltrona onde estava encolhido. Em silêncio, ele foi até a porta e saiu. Devia estar exausto; provavelmente estava esperando por Julian, para colocá-lo na cama. Julian sentiu uma pontada de dor por seu irmão mais novo, frequentemente preso em salas com pessoas mais velhas conversando sobre sangue e morte.
— Sim — concordou Diego. — Uma das minhas dúvidas se refere ao fato de que eles foram mortos há cinco anos, e depois não aconteceram mais mortes até este último ano. Por que um intervalo tão grande?
— Achamos que talvez o feitiço exigisse isso — falou Livvy e bocejou. Ela parecia exausta; sombras escuras sob os olhos. Todos estavam.
— Esse é outro ponto: no carro, Sterling disse que não importava que tipo de criatura matassem, humanos ou fadas, até mesmo Nephilim se contarmos os assassinatos dos Carstairs.
Cristina falou:
— Ele mencionou que não podiam matar licantropes ou feiticeiros...
— Suponho que estejam se mantendo longe das criaturas protegidas pelos Acordos — falou Julian. — Isso chamaria atenção. Nossa atenção.
— Sim — disse Diego. — Mas, fora isso, não ter importância o tipo de vítima que escolhem? Humanos ou fadas, homens ou mulheres, velhos ou jovens? Toda magia tem temas se quiser enxergar assim. Magia de sacrifício requer aspectos comuns a todas as vítimas, todos com Visão, todos virgens, todos com um certo tipo sanguíneo. Aqui parece aleatório.
Ty olhava Diego com uma admiração aberta.
— A Scholomance parece tão legal — disse ele. — Eu não fazia ideia de que deixavam a pessoa aprender tanto sobre magia e feitiços.
Diego sorriu. Drusilla parecia a ponto de cair. Livvy estava com cara de que estaria impressionada se não estivesse tão cansada. E Mark parece ainda mais aborrecido.
— Posso ver as fotos da convergência? — pediu Diego. — Parece muito significante. Estou impressionado que a tenham encontrado.
— Estava cercada por demônios Mantis quando fomos, então temos fotos da parte de dentro, mas não da de fora — falou Mark, quanto Ty foi pegar as fotos. — Quanto aos demônios, eu e Emma cuidamos deles.
Ele deu uma piscadela para Emma. Ela sorriu, e Julian sentiu aquela pontada aguda de ciúme que sentia cada vez que Mark flertava daquele jeito que as fadas faziam, com uma espécie de humor cortês sem qualquer peso real por trás. Seria sortudo se seu irmão e sua parabatai se apaixonassem? As pessoas não sonhavam que aqueles que amavam também se amassem?
Diego ergueu uma sobrancelha para Mark, mas não falou nada enquanto Tiberius espalhava as fotos sobre a mesa de centro.
— É energia mágica — disse Ty. — Até aí sabemos.
— Sim — concordou Diego. — Energia pode ser armazenada, principalmente energia da morte, e depois utilizada em necromancia. Mas não sabemos para que alguém precisaria de toda essa energia.
— Para um feitiço de invocação — concluiu Livvy, e bocejou outra vez. — É isso que Malcolm disse, pelo menos.
Uma pequena linha apareceu entre as sobrancelhas de Diego.
— É improvável que seja um feitiço de invocação — falou ele. — A energia da morte permite que você execute magia da morte. Esse mágico está tentando ressuscitar alguém.
— Mas quem? — perguntou Ty, após uma pausa. — Alguém poderoso?
— Não — respondeu Drusilla. — Ele está tentando ressuscitar Annabel Lee.
Todos pareceram surpresos por Dru ter falado – tão surpresos que ela pareceu se encolher um pouco. Diego, no entanto, ofereceu a ela um sorriso encorajador.
— O... o poema está escrito no interior da caverna da convergência, certo? — continuou ela, olhando em volta, preocupada. — E todo mundo estava tentando desvendar se era um código ou um feitiço, mas... e se for só um lembrete? Essa pessoa... o mágico... perdeu alguém que amava, e está tentando ressuscitá-lo.
— Alguém tão desesperado para recuperar seu amor perdido que fundou um culto, matou mais de uma dúzia de pessoas, criou aquela caverna na convergência, marcou esse poema na parede, criou um Portal para o mar...? — Livvy soou desconfiada.
— Eu faria — disse Dru — se fosse alguém que eu realmente amasse. Talvez nem seja uma namorada... talvez uma mãe, ou irmã, ou o que quer que seja. Quero dizer, você faria isso por Emma, não faria, Jules? Se ela morresse?
O horror negro que era a ideia de Emma morrer surgiu por trás dos olhos de Julian. Ele respondeu:
— Não seja mórbida, Dru. — E sua voz soou muito distante aos próprios ouvidos.
— Julian? — chamou Emma. — Você está bem?
Por sorte ele não precisou responder. Uma voz solene falou da entrada.
— Dru está certa — disse Tavvy.
Ele não tinha ido dormir, afinal. Estava na porta, com os olhos arregalados, e os cabelos castanhos emaranhados. Ele sempre foi pequeno para a idade, e seus olhos eram grandes discos azul-esverdeados no rosto pálido. Ele estava segurando algo nas costas.
— Tavvy — chamou Julian. — Tavs, o que você tem aí?
Tavvy tirou a mão das costas. Estava com um livro – era infantil, muito grande, com uma capa ilustrada. O título era impresso em dourado. Um tesouro de contos para os Nephilim.
Um livro infantil para Caçadores de Sombras. Existiam, mas poucos. As gráficas em Idris eram pequenas.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou Emma, verdadeiramente curiosa. Ela tinha algo parecido quando era criança, mas havia se perdido com muitas das coisas de seus pais.
— A tia Marjorie me deu — respondeu Tavvy. — Gosto da maioria das histórias. A que fala sobre os primeiros parabatai é legal, mas algumas são tristes e assustadoras, como a de Tobias Herondale. E a da Dama da Meia-Noite é a mais triste.
— Dama do quê? — repetiu Cristina, se inclinando para a frente.
— Da Meia-Noite — disse Tavvy. — Como o teatro que vocês foram. Ouvi Mark falar a rima e me lembrei que já tinha lido antes.
— Você já tinha lido antes? — repetiu Mark, incrédulo. — Quando você viu aquele verso das fadas, Octavius?
Tavvy abriu o livro.
— Tinha uma dama Caçadora de Sombras — disse ele. — Ela se apaixonou por alguém que não devia. Seus pais a prenderam em um castelo de ferro, e ele não conseguia entrar. Ela morreu de tristeza, então o homem que a amava procurou o Rei das Fadas e perguntou como poderia trazê-la de volta. Ele disse que havia um verso:

Primeiro, a chama, depois, a tempestade
No fim, é sangue Blackthorn de verdade
Buscai esquecer o que é passado
Primeiros treze, e mais um, finalizado.
Não procure o livro dos anjos cinzento
Vermelho ou branco o levarão mais longe do que o vento.
Para recuperar o que foi perdido
A qualquer custo encontre o livro preto requerido.

— Então o que aconteceu? — perguntou Emma. — Com o homem que foi até o Reino das Fadas?
— Ele comeu e bebeu o que as fadas comem e bebem — disse Tavvy. — Ficou preso lá. Reza a lenda que o som das ondas quebrando na praia são os gritos dele pedindo que ela volte.
Julian suspirou.
— Como não encontramos isso?
— Porque é um livro de criança — disse Emma. — Não acharíamos na biblioteca.
— Isso é uma tolice — declarou Tavvy serenamente. — É um bom livro.
— Mas por quê? — insistiu Julian. — Por que sangue Blackthorn?
— Porque ela era Blackthorn — disse Tavvy. — A Dama da Meia-Noite. Ela era chamada assim porque tinha longos cabelos negros, mas os olhos era iguais os nossos. Vejam.
Ele virou o livro para mostrar uma ilustração assustadora. Uma mulher cujos cabelos negros caíam sobre os ombros se esticava para alcançar a figura de um homem, seus olhos arregalados – e azul-esverdeados como o mar.
Livvy exclamou, alcançando o livro. Hesitante, Tavvy deixou que ela o pegasse.
— Não rasgue as páginas! — Ele alertou.
— Então esse é o verso completo — disse ela. — Isso que está escrito nos corpos.
— São instruções — falou Mark. — Se o verso é um verdadeiro verso das fadas, é uma clara lista de instruções. Como ressuscitar os mortos; não qualquer morto, mas ela. Essa mulher Blackthorn.
— Treze — disse Emma. Apesar da exaustão, seu coração estava acelerado e agitado. Ela encontrou os olhos de Cristina do outro lado da sala.
— Sim. — Cristina suspirou. — O que Sterling disse... depois que o pegamos, depois que ele matou a garota. Ele falou que ela era a número treze.
Emma disse:
— “Primeiros treze, e mais um, finalizado”. Ele matou treze. Falta uma e então acaba. Ele terá magia suficiente para trazer de volta a Dama da Meia-Noite.
— Ainda matarão mais um — acrescentou Julian. — Um que pode ser diferente da última.
— Deve haver mais instruções — disse Ty. — Ninguém poderia descobrir exatamente como completar esse feitiço só com esse verso. — Ele olhou em volta, com uma ponta de incerteza nos olhos cinzentos. O olhar que ele raramente exibia, quando achava que havia algo no mundo que todo mundo entendia, menos ele. — Poderia?
— Não — falou Mark com firmeza. — Mas o verso ensina onde procurar o restante das instruções. “Não procure no livro dos anjos cinzento”... A resposta não está no Livro Gray. Nem no Livro Branco ou nos Textos Vermelhos.
— Está no Volume Negro dos Mortos — disse Diego. — Já ouvi falar nesse livro, na Scholomance.
— O que é? — perguntou Emma. — Existem cópias? É algo que podemos obter?
Diego balançou a cabeça.
— É um livro de magia muito negra. Quase lendário. Nem feiticeiros podem possuí-lo. Se existem cópias, não sei onde estão. Mas devemos nos propor a encontrá-lo amanhã.
— Sim — disse Livvy, com a voz embolada de sono. — Amanhã.
— Precisa dormir, Livvy? — perguntou Julian. Foi uma pergunta retórica: Livvy estava caindo como um dente de leão soprado. Mas, com as palavras dele, ela se esticou.
— Não, estou bem, posso ficar acordada...
O rosto de Ty mudou sutilmente quando olhou para sua irmã gêmea.
— Estou exausto — disse ele. — Acho melhor todos irmos dormir. De manhã conseguiremos nos concentrar melhor.
Julian duvidava de que Ty estivesse realmente cansado: quando estava concentrado em um quebra-cabeça, podia passar dias acordado. Mas Livvy acenou grata quando ele acabou de falar.
— Tem razão — disse ela. Então deslizou da cadeira onde estava sentada e pegou Tavvy no colo, entregando o livro a ele. — Vamos — falou. — Você definitivamente já devia estar na cama.
— Mas eu ajudei, não ajudei? — perguntou Tavvy enquanto a irmã o carregava para a porta.
Ele estava olhando para Julian ao perguntar, e Julian lembrou de si mesmo quando criança, olhando daquele jeito para Andrew Blackthorn. Um menino olhando para o pai, procurando aprovação.
— Você não ajudou — disse Julian. — Acho que você pode ter resolvido, Tavs.
— Oba! — exclamou Tavvy, sonolento, e apoiou a cabeça no ombro de Livvy.


Os outros logo seguiram Ty e Livvy para a cama, mas Emma constatou que não conseguia dormir. Em vez disso, se pegou sentada na escada da entrada do Instituto antes do sol nascer.
Estava de chinelo, camiseta e calça de pijama. O ar que vinha do oceano era frio, mas ela não sentiu. Estava olhando para a água.
De todos os ângulos dos degraus, dava para ver o mar: azul e preto na manhã nascente, como tinta, marcado por listras de espuma branca onde as ondas se quebravam no mar. A luz tinha encolhido e projetava uma sombra angular na água. Uma manhã azul e prata.
Ela se lembrou do frio daquele mar azul sobre ela. O gosto de água salgada e sangue demoníaco. A sensação de que a água a puxava para baixo, esmagando seus ossos.
E a pior parte, o medo de que um dia seus pais tenham sentido a mesma dor, o mesmo pânico.
Então ela pensou em Julian. Em como ele estava na sala de jantar. O esforço em sua voz enquanto ele contava para ela e para Mark tudo que tinha feito nos últimos cinco anos.
— Emma?
Emma virou e viu Diego Perfeito descendo pelos degraus. Ele parecia imaculado, apesar da noite que tivera; até suas botas estavam lustradas. Os fios dos cabelos castanhos eram espessos e caíam charmosamente sobre um de seus olhos. Parecia um pouco um príncipe em um livro de contos de fadas.
Ela pensou em Julian outra vez. Nos cabelos desalinhados, nas unhas roídas, nas botas sujas e na tinta nas mãos dele.
— Oi, Diego Perfeito — cumprimentou ela.
— Preferia que não me chamasse assim.
— Prefere em vão — disse Emma. — Aonde você vai? Cristina está bem?
— Ela está dormindo. — Diego Perfeito olhou para o mar. — É muito bonito aqui. Você deve achar tranquilo.
— E você deve estar brincando.
Ele sorriu um sorriso relativamente perfeito.
— Você sabe, quando não há assassinatos acontecendo e pequenos exércitos cercando o local.
— Aonde vai? — repetiu Emma. — Está quase amanhecendo.
— Sei que a caverna não vai estar aberta, mas vou até o local da convergência para examiná-lo pessoalmente. Os demônios já devem ter saído a essa hora. Quero dar mais uma olhada na área, ver se vocês deixaram alguma coisa escapar.
— Você é cheio de tato, não? — perguntou Emma. — Tudo bem. Vá em frente. Veja o que deixamos escapar enquanto estávamos quase sendo cortados em pedacinhos pelos enormes grilos demoníacos.
— Mantis não são exatamente grilos...
Emma ficou encarando. Diego deu de ombros e correu para a base da escada. Ele parou ali e olhou por cima do ombro para ela.
— Mais alguém na Clave sabe sobre a investigação? — perguntou. — Alguém além da sua família?
— Só Diana — disse Emma.
— Diana é sua tutora? — Quando Emma fez que sim com a cabeça, ele franziu o rosto. — Jace Herondale e os Lightwood não foram traídos pelo próprio tutor?
— Ela jamais nos trairia — respondeu Emma, indignada. — Nem a Clave, nem ninguém. Hodge Starkweather era diferente.
— Diferente como?
— Starkweather não era Diana. Ele era um capacho de Valentim. Diana é uma boa pessoa.
— Então onde ela está agora? — perguntou Diego. — Eu gostaria de conhecê-la.
Emma hesitou.
— Ela...
— Ela está na Tailândia — disse uma voz atrás deles. Era Julian. Ele tinha vestido um casaco de capuz com o jeans e a camiseta. — Ela queria interrogar uma bruxa sobre feitiços de energia. Alguém que conheceu quando mais nova. — Ele fez uma pausa. — Ela é confiável.
Diego inclinou a cabeça.
— Não tive a intenção de sugerir o contrário.
Julian se apoiou em um dos pilares, e ele e Emma observaram enquanto Diego marchava pela grama pisoteada e seguia para a estrada. A lua já tinha desaparecido completamente, e o céu já estava ficando rosa a leste.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Julian, finalmente com a voz baixa.
— Não consegui dormir — explicou Emma.
Julian trazia a cabeça inclinada para trás, como se estivesse se banhando com a luz do alvorecer. A estranha luz o transformava em outra coisa, feita de mármore e prata, alguém cujos cachos escuros grudavam nas têmporas e no pescoço, como as folhas de acanto da arte grega.
Ele não era perfeito, como Diego, mas para Emma, jamais existiu ninguém mais lindo.
— Vamos ter que conversar sobre isso eventualmente — disse ela.
— Eu sei. — Ele olhou para as próprias pernas longas, as bainhas rasgadas da calça jeans, as botas. — Eu torcia... eu acho que eu torcia para que nunca acontecesse, ou, pelo menos, para que fôssemos adultos quando acontecesse.
— Então vamos tratar disso como adultos. Por que não me contou antes?
— Acha que gosto de guardar segredos de você? Acha que eu não queria contar?
— Se quisesse, poderia ter contado.
— Não, não poderia — respondeu ele com um desespero silencioso.
— Não confiava em mim? Achou que eu fosse te dedurar?
Julian balançou a cabeça.
— Não foi isso.
Já havia luz o suficiente espalhada pela paisagem para que a cor dos olhe dele fosse visível, apesar da escuridão. Pareciam artificialmente iluminado pela água. Emma pensou na noite em que a mãe de Julian morreu. Ela estava doente, sendo cuidada pelos Irmãos do Silêncio no fim. Havia algumas doenças que nem a magia Nephilim podia curar: ela teve câncer nos ossos, e isso a matou.
Andrew Blackthorn, recém-viúvo, estava arrasado demais para cuidar do bebê Tavvy quando ele chorava à noite. Helen foi eficiente: esquentava as mamadeiras de Tavvy, trocava fraldas e o vestia. Mas era Julian que ficava com ele durante o dia. Enquanto Mark e Helen treinavam, Julian sentava no quarto de Tavvy e desenhava ou pintava. Emma sentava com ele às vezes, e eles brincavam como normalmente faziam, com o bebê balbuciando no berço a alguns metros de distância.
Na época Emma não pensava muito no assunto. Ela, assim como Julian, só tinha 10 anos. Mas agora ela se lembrava.
— Eu me lembro de quando sua mãe morreu — falou Emma. — E você cuidava de Tavvy, durante o dia. Eu perguntei por que, e me lembro do que você respondeu. Você lembra?
— Eu disse que era porque ninguém mais podia — respondeu Julian, olhando confuso para ela. — Mark e Helen tinham que treinar... Meu pai estava... Bem, você sabe como ele estava.
— Tudo que você fazia era porque mais ninguém iria ou podia fazer. Se você não tivesse dado cobertura a Arthur, ninguém nem teria pensado nisso. Se não tivesse tido tanta determinação para manter as coisas, ninguém mais teria feito. Talvez tenha começado desde aquele momento, quando você tomou conta de Tavvy. Talvez isso tenha dado a ideia.
— Talvez. Eu mesmo não sei.
— Mesmo assim eu gostaria que tivesse me contado. Sei que você achou que estava sendo altruísta...
— Não achei — disse ele.
Ela olhou surpresa para ele.
— Fiz por razões inteiramente egoístas — explicou Julian. — Você era minha fuga, Emma. Era meu caminho de saída de tudo de ruim. Com você, eu ficava feliz.
Emma levantou.
— Mas esses não podiam ser seus únicos momentos de felicidade...
— Claro, sou feliz com minha família — continuou ele. — Mas sou responsável por eles, nunca fui responsável por você, nós somos responsáveis um pelo outro; é isso que significa ser parabatai. Não vê, Emma, você é a única, a única que podia cuidar de mim.
— Então eu falhei com você — disse ela, sentindo uma decepção profunda consigo mesma. — Eu deveria saber o que você estava passando, e não sabia...
— Nunca mais diga isso! — Ele se afastou do pilar, o sol nascendo atrás dele, transformando as bordas do seu cabelo em bronze. Emma não conseguiu ver sua expressão, mas sabia que ele estava furioso.
Emma ficou de pé.
— O quê, que eu deveria ter sabido? Eu deveria...
— Que falhou comigo — disse ele calorosamente. — Se você soubesse... você me manteve firme, por semanas, às vezes, meses. Mesmo quando eu estava na Inglaterra, pensar em você me mantinha firme. Por isso eu precisava ser seu parabatai, fui completamente egoísta, queria amarrá-la, a mim, independentemente de tudo, apesar de saber que era má ideia, apesar de saber que...
Ele se interrompeu, uma expressão de horror passando por seu rosto.
— Apesar de quê? — Emma quis saber. O coração dela estava acelerado. — Apesar de que, Julian?
Ele balançou a cabeça. O cabelo de Emma tinha escapado do rabo de cavalo, e o vento o soprava sobre o rosto, fios claros brilhantes ao vento. Ele esticou o braço para colocar uma mecha atrás da orelha dela: parecia capturado em um sonho, tentando acordar.
— Não importa — falou.
— Você me ama? — A voz dela saiu num sussurro.
Ele enrolou um pedaço do cabelo dela em seu dedo, um anel dourado.
— Que diferença faz? — perguntou ele. — Não vai mudar nada.
— Muda sim — sussurrou ela. — Muda tudo para mim.
— Emma — disse Julian. — É melhor voltar para dentro. Vá dormir. Nós dois deveríamos...
Ela cerrou os dentes.
— Se você vai se afastar de mim agora, vai ter que fazer isso sozinho.
Ele hesitou. Ela viu a tensão nele, em seu corpo, subir como uma onda prestes a romper.
— Fique longe de mim — disse ela rispidamente. —- Vá.
A tensão nele cresceu e caiu; alguma coisa nele pareceu colidir, água batendo nas pedras.
— Não posso — admitiu Julian, com a voz baixa e ofegante. — Meu Deus, eu não posso. — E semicerrou os olhos, levantando a outra mão para o rosto dela.
Deslizou as mãos até o cabelo dela e a puxou para perto. Ela inalou um ar frio e então a boca de Julian estava na dela, e seus sentidos explodiram.
Ela havia se perguntado, no fundo da mente, se o que tinha acontecido entre eles na praia fora um impulso nascido da adrenalina compartilhada. Certamente beijos não deveriam ser assim, tão envolventes que lhe rasgavam como um raio, sugando toda a sua força, de modo que tudo que você podia fazer era se apoiar na outra pessoa.
Aparentemente não.
Suas mãos agarraram o tecido do casaco de Julian, arrastando-o para perto. Tinha açúcar e cafeína nos lábios de Julian. Ele tinha gosto de energia. As mãos de Emma deslizaram por baixo da camisa, tocando a pele nua de suas costas, e ele se afastou para respirar fundo. Os olhos dele estavam fechado, a boca aberta.
— Emma. — Suspirou, e o desejo em sua voz abriu um caminho ardente nela.
Quando a alcançou, ela quase caiu em cima dele. Julian girou o corpo dela, empurrando-a contra o pilar, seu corpo uma linha forte e quente contra o dela.
Um som interrompeu a névoa na mente de Emma Emma e Julian se separaram, olhando.
Ambos estavam no Salão dos Acordos em Idris quando a Caçada Selvagem veio, uivando pelas paredes, rasgando o teto. Emma se lembrava do som da corneta de Gwyn, explodindo pelo ar. Vibrando cada nervo de seu corpo. Um barulho agudo, oco e solitário.
Veio de novo agora, ecoando pela manhã.
O sol tinha nascido enquanto Emma permanecia enrolada em Julian, e a estrada que levava até a rodovia estava iluminada pelo sol. Três figuras se aproximavam, montadas a cavalo: um cavalo preto, um branco, um cinza.
Emma reconheceu dois dos cavaleiros imediatamente: Kieran, sentado no cavalo como um dançarino, os cabelos quase negros à luz do sol, e ao lado dele, Iarlath, com vestes escuras.
O terceiro cavaleiro era familiar a Emma, por causa de centenas de ilustrações em livros. Era um homem grande, largo, barbado, com uma armadura preta que parecia o tronco de uma árvore. Ele estava com a corneta de caça embaixo do braço: era um chifre enorme, todo marcado com desenhos de cervos.
Gwyn, o Caçador, líder da Caçada Selvagem, viera ao Instituto. E não parecia contente.

7 comentários:

  1. Ai meu Deus! Essa parte do Tavvy com o Julian �������� chorei. Da um aperto no meu coração.

    ResponderExcluir
  2. Filha da Atena Harondale21 de julho de 2016 21:09

    "— Não sei por que confiou em mim...
    — Sério, cara? — disse Emma. — Você não tem espelho em casa?"
    "— Oi, Diego Perfeito — cumprimentou ela.
    — Preferia que não me chamasse assim.
    — Prefere em vão "
    Gente amando isso
    JEMMA IS BACK !!!! Ataque cardíaco de leve aqui com esse livro gente a Cassandra não para de me surpreender com cada coisa mas sério a menção do Hodge me fez pensar se vai ter algum traidor no meio deles se bem que não consigo imaginar alguém capaz porque tipo a Diana tem seus segredos, some mas parece que realmente se importa com eles e eu gosto dela... Define que shippo Mark e Cristina ele com ciúmes do Diego foi tão fofo mds nem notou

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. eu desconfio do feiticeiro.... ele deu informação errada do tipo de feitiço --- CASSANDRA, TRAGA DE VOLTA O MAGNUS PRA AJUDAR ESSE POVO!!!!

      Excluir
  3. Achei q Gwyn fosse uma mulher. Triste kkkkk

    ResponderExcluir
  4. Sei nao, mais essa Diana tutora deles, nunca aparece, tem essas ligações esquisitas pra ela. Tô achando que ela é o guardião.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não, isso seria obvio demais.

      Excluir
  5. O Julian tem 17, certo? Mais um ano e ele pode dirigir o instituto, né? No caso, ele já dirige. Só q ninguém sabe. Ai n vão precisar mais se preocupar em descobrirem o problema do Arthur.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!