24 de julho de 2016

Capítulo 20

Will dormiu mal todo o resto da noite, como era de se esperar. Seu sono era irregular e desigual, povoado por sonhos com o Guerreiro da Noite. Foi somente durante a madrugada que ele conseguiu cair em um sono profundo e, inevitavelmente, pouco depois ele foi acordado pelos sons da manhã subindo no castelo.
Ele ficou deitado por um momento na cama, pensando se realmente tinha visto e ouvido a figura terrível na noite anterior. Por um minuto ou dois, o seu cérebro confuso pelo sono, pensou que poderia ter sido um pesadelo. Levantou-se, esticando os membros rígidos e os músculos, percebendo que todo o seu corpo tinha ficado tenso enquanto ele dormia.
O cão, com o queixo nas patas e barriga para baixo sobre as lajes quentes da brasa do fogo, inclinou seus ouvidos para ele e bateu sua cauda duas vezes em saudação.
— Está tudo certo para você — disse ele melancolicamente. — Você não tem ideia de quão aterrorizador foi ontem à noite.
Will abriu as venezianas e olhou para o novo dia. O dia estava brilhante e ensolarado, a luz da manhã cintilando fora do campo coberto de neve envolvente de Macindaw.
O treinamento e a disciplina exigiam que ele tirasse um tempo para analisar os acontecimentos da noite anterior enquanto eles estavam frescos em sua mente, tentando encontrar alguma explicação lógica para eles. Após a análise de dez minutos, chegou à relutante conclusão de que tinha visto a figura. Ele tinha ouvido sua voz. E tinha sido aterrorizado como nunca antes. A luz do dia não trouxe nenhuma explicação lógica, nenhuma solução física. Havia algo terrível na Floresta Grimsdell.
Ele soltou um longo suspiro. Pensou novamente nas instruções de Halt, e sua opinião de que, em noventa e nove casos em cada cem, havia uma explicação para tais fenômenos.
— Acho que vou ter que voltar lá e descobrir o que é — Will disse calmamente.
Não surpreendentemente, ele tinha pouco apetite quando foi para o café da manhã no refeitório. Mas conseguiu comer um par de pães quentes, recheando-os com uma conserva feita de framboesas, e pelo tempo que ele estava no meio do seu segundo copo de café seus nervos abalados foram quase de volta no lugar. Não procurando companhia, ele se sentou sozinho em uma das longas mesas no salão, ficando longe dos pequenos grupos que agrupavam juntos, conversando calmamente sobre o café da manhã.
Foi lá que o garoto de recados o encontrou.
— Bardo? — ele disse friamente.
Era velho para um garoto de recado. Ele deve ter seus quarenta anos, o que significava que tinha encontrado nenhum favor a todos nos olhos de seus superiores. A maioria dos rapazes empregados como meninos de recado em um castelo moviam-se para posições como escudeiros ou assistentes para os mestres. Aqueles que não eram geralmente preguiçosos, truculentos ou estúpidos. Ou todos os três.
Sua próxima instrução decidiu Will que a quarta opção era a correta. Quando olhou para cima de sua xícara de café, o menino de recado continuou.
— Encontre o senhor Orman às 10 horas em ponto.
Ele se virou e se afastou. Por um momento, Will estava tentado a chamar o menino de recado novamente e dar-lhe um sarrafo pela sua falta de boas maneiras. Como um arqueiro, estava acostumado a ser tratado com respeito. Então percebeu que não era um arqueiro no momento. Era um bardo.
Tristemente, decidiu que o desprezo indisfarçável de Orman para menestréis deve ter passado para alguns de seus funcionários.
Havia um relógio de água na sala de jantar e ele viu que ele tinha mais uma hora antes de sua entrevista com Orman. Perguntou-se brevemente por que o senhor do castelo queria vê-lo. Seu pensamento imediato foi que tinha algo a ver com os acontecimentos na Floresta Grimsdell, mas depois percebeu que isso era provavelmente a sua imaginação trabalhando todo o tempo, então Grimsdell era sempre o primeiro pensamento em sua mente.
Mais provavelmente, ele pensou, Orman queria vê-lo por causa da cena da noite anterior com seu primo Keren. Quanto mais considerava isso, mais sentia que era o caso. Orman foi constrangido na frente de todo o povo. As chances eram que ele estaria pronto para descontar a sua raiva em Will, e ele enfrentava a perspectiva filosoficamente. Não havia nada que pudesse fazer sobre isso, então não valia a pena se preocupar. Mas percebeu que teria de trilhar um caminho de cuidado no futuro. Não havia nenhum ponto em alienar o senhor do castelo, não importando o quão desagradável ele pode ser.
Passou o tempo em uma pequena biblioteca do castelo, situada em uma das torres dos cantos, caçando através das prateleiras empoeiradas de livros e pergaminhos para ver se havia qualquer referência nas histórias locais sobre o Guerreiro da Noite, e olhando de forma aleatória para os volumes de feitiçaria e feitiços. Em ambos os casos, ficou de mãos vazias.
Havia apenas um pequeno volume de feitiçaria, apesar de ter notado vários espaços vazios nas prateleiras ao lado dele. E os poucos relatos fragmentados de história local que ele encontrou não mencionava nenhum Guerreiro da Noite. Frustrado e distraído com a memória de sua reação no bosque na noite anterior, ele fez o seu caminho para a suíte do senhor Orman, no quarto andar da torre de vigia.
O secretário de Orman, um homem pequeno e careca exceto por tufos de cabelos brancos acima de ambos os ouvidos, olhou para cima quando ele entrou na antessala. Ele lembrava Will de um esquilo careca, a cabeça se movendo rapidamente de um lado para outro, como se fosse para ver melhor.
— O senhor Orman queria me ver — disse ele brevemente.
Ele não viu nenhuma razão para se apresentar ao secretário.
— Aaah sim, sim, o bardo, não é? Por aqui então. Senhor Orman está livre no momento.
Ele levantou-se atrás de uma mesa que estava carregada de papelada, pergaminhos meio-enrolados e livros grossos, e bateu na porta maciça que levava a câmara de Orman. Do outro lado, Will ouviu a fina resposta de voz nasal.
— Venha.
Gesticulando para Will seguir, o secretário abriu a porta e entrou. Orman estava perto da janela, olhando a vista do jardim do castelo abaixo. Era uma sala grande, mesmo de dia iluminada por velas e lanternas de óleo colocadas em pontos estratégicos. Uma lareira em um canto da sala aquecida a sala que era forrada por estantes de livros e pesados armários de madeira. Um deles estava aberto e havia uma exposição de pergaminhos dentro. Orman tinha uma reputação de estudioso. Seu quarto certamente parecia refletir isso.
— O bardo, meu senhor — disse o secretário, indicando Will.
Orman afastou-se da janela e estudou Will por vários segundos sem falar.
— Isso é tudo, Xander — disse ele, e o secretário inclinou-se e saiu calmamente, fechando a porta atrás dele.
Orman, ainda estava estudando Will com os olhos arregalados, sentado em uma mesa ao lado da janela. Havia duas outras cadeiras da mesa, mas ele não fez nenhum sinal para Will pegar uma, então ele ficou de pé.
Podia sentir seu pescoço ficando vermelho em resposta ao tratamento arrogante do senhor do castelo. Esforçando-se para olhar casual, Will desviou o olhar de Orman, permitindo que o seu olhar vagasse pela sala, vendo as pilhas de livros abertos e papéis sobre a mesa enorme contra uma parede interna.
— Meu primo Keren é uma influência perturbadora — Orman disse finalmente. — Você faria bem em lembrar isso no futuro.
Will disse nada, mas curvou-se em aquiescência. Portanto, sua previsão estava certa. Orman não parecia esperar qualquer resposta e prosseguiu.
— É fácil ser popular quando você não tem responsabilidades, é claro. E há aqueles neste castelo que gostariam de ver Keren no comando... — Ele hesitou e Will teve a estranha sensação de que o outro homem quase esperava que ele comentasse. Ainda assim, ele calou-se.
— Mas ele não está — continuou Orman. — Eu sou a autoridade aqui. Ninguém mais. Entendido?
As últimas palavras foram quase cuspidas, com uma intensidade que surpreendeu Will. Um pouco surpreso, ele conheceu o olhar quente com raiva do outro homem e se inclinou.
— Claro, meu senhor — respondeu ele.
Orman assentiu com a cabeça uma ou duas vezes, em seguida, se levantou da cadeira e começou a andar pela sala.
— Então, pense suas maneiras no futuro, bardo. Vou ser tratado com o respeito que exige a minha posição. Eu posso ser só o senhor temporário deste castelo, mas não serei prejudicado por você ou por Keren. Entendido?
— Sim, senhor Orman — Will disse uniformemente.
Ele estava intrigado. Tinha a estranha sensação de que, apesar da sua ira, Orman parecia ser quase implorando respeito e reconhecimento. Orman deu pausa no seu ritmo e tomou uma respiração profunda.
— Muito bem. Dito isso, percebo que não é sua culpa que você falhou em viver de acordo com as normas que eu considero serem as normas para um bardo. As canções antigas e canções populares estão todos muito bem, mas elas não são substitutas para os clássicos. O tipo de simplista de interior você canta apenas neutraliza a mente do povo comum. Eu acredito que é papel de um intérprete exaltar as pessoas. Elevar as suas percepções. Expô-las a uma grandeza além de seus próprios horizontes limitados.
Ele parou, olhou para Will e balançou a cabeça ligeiramente. Will não tinha dúvidas de que Orman encontrou o seu potencial para a elevação faltando. Ele inclinou-se novamente.
— Eu lamento que eu seja um artista simples, meu senhor — disse ele.
Orman assentiu com amargura.
— Com a ênfase no simples, infelizmente — disse ele.
Com a cabeça baixa, Will sentiu suas bochechas começando a ficar vermelhas. Ignore isso, disse a si mesmo. Se você pretende ser um bardo, tem que desenvolver uma pele grossa para a crítica. Ele respirou profundamente algumas vezes, recuperando o controle de si mesmo. Orman o observava com curiosidade. A farpa tinha sido intencional, Will percebeu. O senhor do castelo queria ver como ele iria responder.
— E ainda — disse Orman, em reconhecimento em uma quase má vontade — o instrumento que você toca é bem incomum. Não é um Gilperon, por acaso, é?
— É uma bandola — Will começou sua resposta habitual. — Tem oito cordas, divididas em... — Ele não continuou.
— Eu sei que é uma bandola, por piedade! — Orman interrompeu. — Eu estava perguntando se foi feito por Axel Gilperon, provavelmente o lutiê mais famoso do reino. Eu teria pensado que qualquer músico profissional teria ouvido falar dele. Mesmo você.
Foi um deslize ruim, Will percebeu. Ele tentou encobrir o melhor que pôde.
— Minhas desculpas, meu senhor. Eu o entendi mal. Meu instrumento foi feito para mim por um artesão local, no sul, mas ele é bem conhecido por copiar o estilo do mestre. Naturalmente, um músico pobre como eu nunca poderia pagar um real Gilperon.
Ele riu de uma forma autodepreciativa, mas Orman continuou a olhar para ele, a suspeita evidente em seu olhar. Houve um silêncio constrangedor, finalmente quebrado por uma batida na porta.
— O quê? — Orman exigiu furiosamente, e a porta se abriu apenas o suficiente para o seu secretário olhar nervosamente para a sala.
— Seu perdão, senhor Orman — disse ele — mas a Senhorita Gwendolyn de Amarle chegou e insiste em ver você.
Orman se irritou.
— Você não vê que estou ocupado?
Xander abriu a porta uma fração maior, fazendo gestos para a antessala secreta por trás dele.
— Ela está aqui, meu senhor — disse ele, mantendo a sua voz tão baixo quanto possível.
Orman fez um gesto mal-humorado, ao perceber que a nobre visita já estava em sua antessala.
— Muito bem, peça para ela entrar — disse ele. Ele olhou para Will, que havia se movido para a porta. — Você espera. Eu não terminei com você ainda.
Xander assentiu com gratidão e retirou-se. Poucos segundos depois, ele abriu a porta e entrou, parou em um lado enquanto ele convocava a nova chegada.
— Senhor Orman, gostaria de apresentar Senhorita Gwendolyn de Amarle.
Ele curvou-se quando a senhorita entrou na sala. Loira, alta e bonita, ela estava vestida com um requintado vestido de seda verde e movia-se com a dignidade inconsciente e graça de uma nascida nobre. Will suprimiu uma exclamação de surpresa.
A Senhorita Gwendolyn de Amarle era Alyss.

6 comentários:

  1. Suspeitei desde o princípio. Meio óbvio que era ela, diplomata, alguém que ele conhece bem... To até gostando desse Orman, os q parecem fdp as vezes são legais, e os que se fazem de legais são fdp.

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  2. Eu tinha uma suspeita Alyss iria entra de cara nessa historia!
    Ass: Bina.

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  3. Kkkkk Alyss não era minha primeira opção para, hmm, "espiã", admito. Mais, ponguinha, tou feliz que seja ela!! Sobre Orman, ele tá meio que no papel de Cordeiro na pele de Lobo, na minha opnião. Tou dsconfiada do primo dele, e seus seguidores.. Veremos.

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  4. Quando falou q uma tal garota tava aí eu suspeitei... Quero ver no q vai dar isso

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  5. Fala sério. Alguém ficou realmente surpreso com isso? Eu não, era meio óbvio.

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