1 de julho de 2016

Capítulo 19 - Relaxando e matando

— Cristina. — Diego suspirou, olhando além de Emma. — Pensé que eras tú, pero no estaba seguro. ¿Qué haces aqui? ¿Por qué estabas tratando de proteger a este hombre?
— Diego? — Sem entender uma palavra do que ele dissera, Emma examinou o menino outra vez, notando as Marcas que decoravam seu pescoço, desaparecendo pelo colarinho da camisa. Ele era um Caçador de Sombras, sim. — Esse é Diego Perfeito?
— Emma — disse Cristina, com as bochechas ruborizando. — Solte-o.
— Não vou soltar. — Emma olhou fixamente para Diego Perfeito, que a encarou de volta com os olhos brilhando. — Ele atirou em Julian.
— Eu não sabia que eram Nephilim — disparou Diego Perfeito. — Estavam usando mangas compridas e agasalhos. Não deu para ver os símbolos. — O inglês dele era perfeito, o que talvez não fosse uma surpresa, considerando o seu apelido.
— Não estavam de uniforme? — Cristina quis saber. Ela continuava olhando para Diego Perfeito, incrédula.
— Só os casacos. — Emma empurrou Diego Perfeito contra a parede; ele fez uma careta. — Suponho que pareçam casacos normais de longe. Não que não seja uma desculpa.
— Vocês estavam de jeans. Eu nunca os tinha visto antes. Estavam revirando a bolsa da morta. Por que eu não acharia que eram dois assassinos?
Emma, sem querer reconhecer que ele tinha um bom argumento, o empurrou com força contra a parede de novo.
— Agora sabe quem sou?
O canto da boca dele se ergueu.
— Ah, de fato, Emma Carstairs.
— Então sabe que eu poderia arrancar todos os seus órgãos internos de uma vez, amarrar uma cordinha e transformá-los em enfeites de Natal em um piscar de olhos?
Os olhos dele brilharam.
— Você poderia tentar.
— Parem com isso, os dois — disse Cristina. — Não temos tempo para isso. Precisamos encontrar Sterling.
— Ela tem razão — concordou Diego. — Agora me solte ou me mate, porque estamos perdendo tempo. Sei para onde Sterling vai. Ele tem uma reunião com uma bruxa do Mercado das Sombras. Temos que ir depressa, ele é rápido, como todos que são parte lobo.
— A bruxa vai matá-lo? — Emma soltou Diego, que foi pegar a besta. O canivete borboleta de Cristina tinha atingido a lateral da arma. Diego deu uma risadinha e o soltou. Entregou-o de volta a ela, e ela o pegou silenciosamente.
Diego virou e começou a marchar pelo beco.
— Se foi uma piada, não teve graça.
— Não foi uma piada — disse Cristina. — Estamos tentando protegê-lo.
— Quê? — Diego virou a esquina para um beco, onde uma cerca de arame fechava a rua além deles. Ele escalou a cerca com habilidade, aterrissando levemente no chão do outro lado. Emma foi atrás, e Cristina em seguida. Diego parecia estar mexendo no cinto de armas, mas Emma viu que ele olhava para Cristina com o canto do olho, certificando-se de que ela tinha saltado em segurança. — Por que você protegeria um assassino?
— Ele não é um assassino — explicou Cristina. — Ele é uma vítima, muito desagradável, mas é o nosso dever.
Viraram em uma rua sem saída ladeada por casas. Capim e cactos crescia na grama não cortada. Diego caminhou com objetividade para o final da rua.
— Não entenderam? — Diego balançou a cabeça, os cabelos escuros voando. — Por que todo mundo tem que ficar longe dele? Não acredito nisso, acredito... tudo que fizeram... vocês o viram pegar o número? Na Loteria? Vocês viram quando ele foi escolhido?
— Vimos — disse Emma, com um frio começando a se espalhar por suas veias. — Sim, assim descobrimos que tínhamos que protegê-lo...
Um brilho súbito e cegante de luz como fogos de artifício veio do fim da rua. Um redemoinho de fogo verde e azul, cercado por vermelho. Os olhos de Cristina se arregalaram, as faíscas tingindo seus cabelos de vermelho.
Diego praguejou e saiu correndo. Após uma fração de segundo, Emma e Cristina o seguiram.
Emma jamais havia conhecido um Caçador de Sombras que não conseguia acompanhar, mas Diego era veloz. Muito veloz. Ela estava arfando quando pararam no final da rua.
O beco sem saída culminava em uma fileira de casas abandonadas. O carro de Sterling tinha batido em um poste de luz apagado; o capô estava amassado, a porta do motorista, aberta. Um dos air bags tinha sido acionado, mas Sterling parecia intacto.
Estava no meio da rua, lutando com alguém, a menina de cabelo verde que Emma tinha visto mais cedo, na rua em frente ao bar. Ela fazia força para escapar dele; ele a segurava pelas costas do casaco, e a expressão em seu rosto era quase maníaca.
— Solte-a! — gritou Diego.
Os três começaram a correr, Emma alcançando Cortana. Sterling, ao vê-los, começou a arrastar a garota para o outro lado do carro. Emma, correndo para o jipe, saltou no capô, subiu no telhado e pulou do outro lado.
E se deparou com uma parede de fogo azul-esverdeado. Sterling estava atrás dela, ainda agarrado à menina de cabelo verde. Os olhos dela encontraram os de Emma. Ela tinha um rosto ligeiramente élfico, uma lembrança de tê-la visto no Teatro da Meia-Noite tocou a memória de Emma.
Emma deu um salto para a frente. O fogo azul-esverdeado subiu e a fez recuar alguns passos. Sterling levantou a mão. Alguma coisa brilhou nela, uma faca.
— Pare-o! — gritou Diego. Ele e Cristina apareceram do outro lado da parede de fogo azul. Emma avançou, apesar de ser como andar contra um tufão, no momento em que Sterling desceu a faca, enfiando-a no peito da Menina.
Cristina gritou.
Não, pensou Emma, chocada através do horror. Não, não, não. Era o dever dos Caçadores de Sombras salvar pessoas, protegê-las. Sterling não podia ferir a menina, não podia...
Por um momento ela viu uma escuridão no fogo – viu o interior da caverna da convergência, toda marcada por poesia e símbolos – e então mãos emergiram da escuridão e pegaram a garota das garras de Sterling. Emma só as viu brevemente, entre a chama e a confusão, mas pareciam mãos compridas e brancas; estranhamente angulosas, como se tivessem sido descascadas até os ossos...
Engasgando sangue, mancando e moribunda, a menina foi arrastada para a escuridão. Sterling virou e sorriu para Emma. A camisa dele estava marcada por marcas sangrentas de mão, e a lâmina de sua faca, escarlate.
— Você chegou tarde demais! — gritou ele. — Tarde demais, Nephilim! Ela era a décima terceira... a última!
Diego praguejou e se lançou para a frente, mas a parede de fogo subiu, então ele cambaleou para trás e caiu sobre os próprios joelhos. Cerrando os dentes, se levantou e avançou.
Sterling tinha parado de girar. Medo brilhou em seus olhos pálidos. Ele esticou um braço, e a mão esquelética emergiu do fogo e o alcançou, arrastando-o atrás da menina.
— Não! — Emma pulou e rolou sob a onda de fogo, como se estivesse mergulhando numa onda na praia. Ela pegou a perna de Sterling, enterrando as mãos na panturrilha dele.
— Solte-me! — gritou ele. — Solte-me, solte-me. Guardiãome leve, me leve para longe daqui...
A mão esquelética puxou a de Sterling. Emma sentiu que perdia a firmeza do aperto. Ela olhou para cima, com os olhos ardendo e queimando, a tempo de ver Cristina manejando o canivete borboleta. Ela atingiu a mão que parecia uma garra; os ossos estalaram, e a mão se recolheu apressadamente, soltando Sterling, que caiu pesadamente no chão.
— Não! — Sterling se ajoelhou, com os braços estendidos, enquanto o fogo diminuía e desaparecia. — Por favor! Leve-me com você...
Os três Caçadores de Sombras foram para cima dele; Diego agarrou Sterling sem cerimônia e o pôs de pé. Sterling riu dolorosamente.
— Não conseguiram me conter — anunciou o homem. — Garotas tolas, me seguindo, me protegendo...
Diego o empurrou, mas Emma estava balançando a cabeça.
— Quando foi escolhido na Loteria — disse ela para Sterling com a garganta seca, fazendo a pergunta cuja resposta já sabia —, você não estava sendo escolhido para morrer. Mas sim para matar?
— Oh, Raziel — murmurou Cristina. Estava com a mão na garganta agarrando o pingente; parecia confusa.
Sterling cuspiu no chão.
— Isso mesmo — respondeu ele. — Quando seu número é escolhido, você mata ou morre. Assim como vocês, Wren não sabia como funcionava. Ela concordou em me encontrar aqui. Vaca burra. — Os olhos dele pareciam selvagens. — Eu a matei, o Guardião a levou, e agora vou viver para sempre. Assim que o Guardião me encontrar novamente, terei riquezas, imortalidade, tudo que eu quiser.
— Você matou por isso? — Cristina quis saber. — Você se tornou um assassino?
— Eu me tornei um assassino no instante em que sortearam meu nome na Loteria — revelou Sterling. — Não tinha escolha.
O barulho de sirenes policiais começou a soar ao longe.
— Temos que sair daqui — avisou Cristina, olhando para o carro destruído de Sterling e para o sangue na rua. Emma ergueu Cortana e foi recompensada com um olhar trêmulo de pânico no rosto do licantrope.
— Não — choramingou ele. — Não...
— Não podemos matá-lo — protestou Diego. — Precisamos dele. Jamais consegui um deles vivo antes. Temos que interrogá-lo.
— Relaxe, Diego Perfeito — disse Emma, e bateu com o cabo de Cortana na têmpora de Sterling. Ele caiu como uma pedra, desmaiado.


Foi estranho carregar Sterling até o carro, considerando que ele não estava escondido por feitiço; passaram um de seus braços sobre o ombro de Diego, e ele fez o melhor que pôde para parecer que estava ajudando um amigo bêbado a voltar para casa. Quando chegaram ao Toyota, amarraram os pulsos e os calcanhares de Sterling com electrum, antes de o colocaram no banco de trás, a cabeça caindo, o corpo flácido.
Discutiram se deveriam correr direto para a convergência, mas decidiram voltar para o Instituto primeiro, para buscar mais armas e consultar os outros.
Emma estava particularmente ansiosa para falar com Julian, tinha ligado várias vezes, mas ele não atendeu. Ela disse a si mesma que ele provavelmente estava ocupado com as crianças, mas trazia uma leve preocupação no fundo da mente ao sentar no banco do motorista, com Cristina ao seu lado. Diego Perfeito foi para o lado de Sterling, com a adaga esticada, pressionada contra a garganta do outro.
Emma partiu, cantando pneu violentamente. Estava cheia de raiva, pelo menos, metade dela direcionada a si mesma. Como pôde não perceber que Sterling não era uma vítima, mas um assassino? Como nenhum deles soube?
— Não é culpa sua — tranquilizou Diego Perfeito do banco de trás, como se tivesse lido seus pensamentos. — Fazia sentido presumir que a Loteria estava escolhendo vítimas, e não assassinos.
— E Johnny Rook mentiu para nós. — Emma rosnou. — Ou pelo menos... ele nos deixou acreditar. Que estávamos protegendo alguém.
— Estávamos protegendo um assassino — disse Cristina. Ela parecia arrasada, com a mão fechada no pingente.
— Não se culpem — disse Diego Perfeito, sendo perfeito. — Vocês estavam investigando sem informações. Sem ajuda dos Irmãos do Silêncio ou... de ninguém.
Cristina olhou por cima do ombro para ele e o encarou.
— Como você sabe disso tudo?
— O que o faz pensar que estávamos investigando? — perguntou Emma. — Só porque me viu com Julian na casa de Wells?
— Essa foi a minha primeira pista — respondeu Diego Perfeito. — Depois disso fui perguntando. Conversei com um sujeito no Mercado das Sombras...
— Johnny Rook outra vez — falou Emma com nojo. — Tem alguém para quem esse cara não dê com a língua nos dentes?
— Ele me contou tudo — disse Diego Perfeito. — Que estavam procurando assassinos sem o conhecimento da Clave. Que era segredo. Tive medo por você, Cristina.
Cristina riu sem se virar.
— Tina — disse Diego Perfeito, com a voz cheia de desejo. — Tina, por favor.
Emma olhou desconfortável pelo para-brisa. Estavam quase vendo o oceano. Ela tentou se concentrar naquilo, e não na tensão entre os outros dois ocupantes conscientes do veículo.
Cristina apertou o medalhão com mais força, mas não disse nada.
— Rook falou que vocês estavam investigando porque acreditam que os assassinatos tenham ligação com a morte dos seus pais — disse Diego Perfeito a Emma. — Se vale de alguma coisa, sinto muito por sua perda.
— Isso foi há muito tempo. — Emma podia ver Diego Perfeito pelo retrovisor.
Ele tinha um cordão delicado de símbolos no pescoço, como um colar torcido. Cabelos cacheados, não como as ondas de Julian, mas anéis que caíam sobre suas orelhas.
Ele era gato. E parecia gentil. E tinha muito charme. Realmente era Diego Perfeito, ela pensou teimosamente. Não foi à toa que Cristina se machucou tanto.
— O que você está fazendo aqui? — Cristina quis saber. — Emma tem motivo para investigar os assassinatos, mas você?
— Você sabe que eu estava na Scholomance — disse Diego Perfeito. — E sabe que Centuriões frequentemente são mandados para investigar assuntos que não se enquadram exatamente na jurisdição dos Caçadores de Sombras...
Ouviu-se um grito rouco. Sterling tinha acordado e se agitava no banco de trás. A faca de Diego Perfeito brilhou na escuridão. Carros buzinaram quando Emma virou para a direita e entrou na Ocean Avenue.
— Solte-me! — Sterling se balançou e forçou contra os fios que o amarravam. — Solte-me!
Ele gritou de dor quando Diego Perfeito o empurrou violentamente no banco de trás, pressionando a faca em sua jugular.
— Saia de cima de mim! — berrou Sterling. — Maldição, saia de cima de mim...
Sterling soltou um gemido quando Diego Perfeito enterrou o joelho em sua coxa.
— Acalme-se — falou Diego, com a voz seca e mortal. — Agora!
Continuavam seguindo pela Ocean. Palmeiras cercavam os dois lados da rua como cílios. Emma cortou violentamente para a esquerda e foi para a Pacific Coast Highway entre um coro furioso de buzinas.
— Jesus Cristo! — gritou Sterling. — Onde aprendeu a dirigir?
— Ninguém solicitou seus comentários! — gritou Emma para ele quando voltaram para o trânsito. Por sorte, era tarde e as pistas estavam praticamente vazias.
— Não quero morrer na Pacific Coast Highway! — gritou Sterling.
— Ah, me desculpe. —— A voz de Emma destilava ácido. — Existe alguma rodovia diferente onde você queira morrer? PORQUE PODEMOS PROVIDENCIAR ISSO.
— Vaca! — sibilou Sterling.
Cristina se virou no assento. Ouviu-se um estalo como um tiro; um segundo depois, ao passarem por um grupo de surfistas andando pela beira da estrada, Emma percebeu que ela esbofeteara Sterling.
— Não chame a minha amiga de vaca — disse Cristina. — Entendeu?
Sterling esfregou a mandíbula. Fechou os olhos.
— Você não tem o direito de me tocar. — A voz dele era um resmungo. — Os Nephilim só podem cuidar de assuntos que transgridam os Acordos.
— Errado — disse Diego Perfeito. — Lidamos com os assuntos que bem entendermos.
— Mas Belinda nos disse...
— É, quanto a isso — disse Cristina. — Como você foi parar naquele culto, ou seja lá o que for, no Teatro da Meia-Noite?
Sterling suspirou, trêmulo.
— Juramos segredo — falou afinal. — Se eu contar tudo que sei, vão me proteger?
— Talvez — concedeu Emma. — Mas você está amarrado e estamos todos muito armados. Você realmente prefere não contar?
Sterling olhou para Diego Perfeito, que segurava uma adaga tranquilamente, como se fosse uma caneta. Mesmo assim havia um senso de poder contido nele, como se ele pudesse agir em menos de um segundo. Se Sterling tivesse um pingo de inteligência, estaria apavorado.
— Entrei através de um produtor amigo. Ele disse que havia encontrado uma forma de garantir que tudo que você tocasse virasse ouro. Não literalmente. — Sterling se apressou em acrescentar.
— Ninguém achou que estivesse falando literalmente, idiota — rebateu Emma.
Sterling emitiu um ruído furioso e rapidamente foi contido por Diego, que apertou a faca com mais força em sua garganta.
— Quem é o Guardião? — Cristina exigiu saber. — Quem lidera os Seguidores no teatro?
— Não faço ideia — falou Sterling sombriamente. — Ninguém sabe. Nem mesmo Belinda.
— Vi Belinda no Mercado das Sombras, fazendo propaganda do seu cultinho — falou Emma. — Suponho que tenham prometido sorte e dinheiro se frequentassem as reuniões. Bastava se arriscarem nas loterias. Estou certa?
— Não pareciam um risco tão grande — comentou Sterling. — Eram só de vez em quando. Se você fosse escolhido, ninguém poderia tocá-lo. Ninguém poderia interferir até você tirar uma vida.
O rosto de Cristina se contorceu em desgosto.
— E os que tiram vidas? O que acontecia com eles?
— Conseguiam o que quisessem — comentou Sterling. — Riqueza. Beleza. Depois de um sacrifício, todo mundo se torna mais forte, mas aquele que executa o sacrifício fica mais forte do que todos os outros.
— Como você sabe? — perguntou Cristina. — Alguém no teatro já tinha sido escolhido na Loteria?
— Belinda — respondeu Sterling prontamente. — Ela foi a primeira, maioria dos outros não ficou. Provavelmente estão em algum lugar, curtir a vida. Bem, exceto Ava.
— Ava Leigh foi ganhadora na Loteria? — perguntou Emma. — A que morava com Stanley Wells?
Diego Perfeito apertou a faca com mais força na garganta de Sterling.
— O que você sabia sobre Ava?
Sterling se encolheu diante da faca.
— Sim, ela foi ganhadora da Loteria. Olhem, não importa quem os ganhadores escolhem para matar; nenhum membro do Submundo, exceto fadas, essa era a única regra. Alguns dos vencedores da Loteria escolhiam pessoas que conheciam. Ava decidiu matar seu namorado mais velho. Estava cansada dele. Mas ficou mal. Acabou se matando depois. Se afogou na piscina dele. Foi burrice. Poderia ter tido qualquer coisa que quisesse.
— Ela não se matou — disse Emma. — Foi assassinada.
Ele deu de ombros.
— Não, ela se matou. Foi o que todos disseram.
Cristina parecia lutar para manter a calma.
— Você a conhecia — disse ela. — Não se importa? Sente alguma coisa? E a culpa com relação à garota que você matou?
— Uma garota do Mercado das Sombras — retrucou Sterling, dando de ombros. — Vendia joias lá. Eu disse a ela que podia levar seu trabalho para uma loja de departamento. Torná-la rica se ela me encontrasse. — Ele riu. — Todo mundo é ganancioso.
Passaram pelo trânsito inicial da rodovia e chegaram a um pedaço da praia, cheio de torres azuis de salva-vidas.
— Aquele fogo azul — disse Emma, pensando alto. — O Guardião estava ali. Levou o corpo para a convergência. Você a esfaqueou, mas o Guardião a levou antes de morrer. Assim as mortes acontecem na convergência, e todo o resto também, o fogo, a imersão do corpo na água do mar, a marcação dos símbolos, todo o ritual?
— É. E eu também devia ter sido levado para a convergência — queixou-se Sterling, com ressentimento na voz. — É onde o Guardião teria me agradecido, teria me dado qualquer coisa que eu quisesse. Eu poderia ter visto o ritual. Uma morte fortalece todos nós.
Emma e Cristina trocaram olhares. Sterling não estava esclarecendo as coisas; apenas confundindo ainda mais.
— Você falou que ela era a última — disse Diego. — O que acontece depois disso? Qual é o pagamento final?
Sterling resmungou.
— Não faço ideia. Não cheguei aonde cheguei na vida perguntando coisas que não preciso saber.
— Aonde chegou na vida? — Emma riu. — Você quer dizer: amarrado no banco de trás de um carro?
Emma viu as luzes do Píer Malibu à frente. Brilhavam contra a água escura.
— Nada disso importa. O Guardião vai me encontrar — garantiu Sterling.
— Não contaria com isso — falou Diego Perfeito com a voz baixa.
Emma saiu da rodovia para a rua conhecida. Viu as luzes do Instituto ao longe, iluminando a pista sob as rodas.
— E quando ele encontrar? — perguntou a garota. — O Guardião? O que você acha que ele vai fazer, recebê-lo bem depois de tudo que nos contou? Não acha que ele vai fazê-lo pagar?
— Tem mais uma coisa que preciso dar a ele — disse Sterling. — Belinda deu. E até Ava deu. Uma última, última coisa. E depois...
Sterling se interrompeu com um grito de pavor. O Instituto apareceu diante deles.
Diego Perfeito xingou.
— Emma! — Cristina engasgou. — Emma, pare!
Emma viu a forma familiar do Instituto, a entrada à frente, o penhasco e as colinas atrás. Havia sombras por todos os lados, um anel delas em torno do Instituto, mas só quando o carro subiu o último trecho e os faróis passaram pela construção foi que ela sentiu o choque do que via.
O Instituto estava cercado.
Vultos – escuros e com formas humanas – rodeavam o Instituto, formando um quadrado. Estavam ombro a ombro, absolutamente calados e imóveis, como os velhos desenhos que Emma havia visto de guerreiros gregos.
Sterling gritou algo incompreensível. Emma pisou no freio quando o farol passou pela moita pisoteada na frente do prédio. Os vultos estavam iluminados, acesos como a luz do dia. Alguns eram familiares. Ela reconheceu o menino de cabelos cacheados da banda no Teatro da Meia-Noite, o rosto fixo em uma careta dura. Ao lado dele estava uma mulher – cabelos escuros, lábios vermelhos – que ergueu uma das mãos com uma arma...
— Belinda! — Sterling soou absurdamente apavorado. — Ela...
A mão de Belinda balançou para trás com o recuo da arma. Uma explosão agrediu os ouvidos de Emma quando a roda dianteira do pneu explodiu, rasgado pela bala. O carro foi violentamente para o lado e deslizou para uma vala.
Escuridão e barulho de vidro estilhaçando. O volante bateu no peito de Emma, arrancando o ar de seus pulmões; os faróis se apagaram. Ela ouviu Cristina gritar, e também ruídos arranhados do banco de trás. Puxou o cinto, se soltando, virando para alcançar Cristina.
Mas Cristina não estava lá. O banco de trás também estava vazio. Emma abriu a porta e caiu com metade do corpo no chão de terra. Ela lutou para se levantar e girou.
A parte da frente do carro caíra em uma vala, fumaça se erguia do pneu explodido. Diego estava vindo do lado do passageiro, com as botas esmagando a terra seca. Carregava Cristina, o braço esquerdo por baixo dos joelhos dela; uma das pernas da garota estava pendurada em um ângulo estranho. Ela estava com a mão no ombro dele, os dedos encolhidos na manga do moletom.
Ele parecia muito heroico ao luar. Um pouco como o Super-Homem. Diego Perfeito. Emma meio que queria jogar alguma coisa nele, mas temia acertar Cristina. Ele apontou seu queixo másculo para o Instituto.
— Emma!
Emma girou. Os vultos que cercavam o Instituto tinham se virado – estavam de frente para ela agora; ela, Diego e os restos do carro.
Ao luar, pareciam assustadores. Figuras fortes de preto e cinza, um borrão de faces. Licantropes, parte fadas, vampiros e ifrits: os Seguidores.
— Emma! — chamou Diego Perfeito novamente. Estava com a estela na mão, desenhando um símbolo de cura no braço de Cristina. — Sterling fugiu... ele está com a sua espada...
Emma se virou, e Sterling passou correndo por ela, se movendo a uma velocidade sobre-humana. Ele tinha soltado os pulsos e calcanhares, mas sangue manchava a bainha da calça.
— Belinda! — gritou ele. — Estou aqui! Ajude-me! — Ele segurava algo enquanto corria, algo que brilhava dourado na escuridão.
Cortana.
Raiva explodiu no peito de Emma... correu por suas veias como pólvora acesa, e então ela disparou, atravessando a grama e a terra atrás de Sterling. Ela pulou sobre pedras, passou por figuras borradas. Sterling era veloz, mas Emma era tanto quanto. E o alcançou quase nos degraus do Instituto. Ele já tinha quase chegado a Belinda.
Emma colidiu contra ele, agarrou-o pelo casaco e o girou. O rosto dele estava sujo, manchado de sangue, pálido de pavor. Ela pegou o punho que segurava Cortana. A espada dela. A espada de seu pai. Sua única ligação com uma família que parecia ter se dissolvido no passado, como pó na chuva.
Ela ouviu uma rachadura. Sterling gritou e caiu de joelhos, derrubando Cortana no chão. Emma esticou o braço para pegá-la; quando se ajeitou estava cercada por um pequeno grupo de Seguidores, liderados por Belinda.
— O que você contou a ela, Sterling? — Belinda quis saber, mostrando pequenos dentes brancos por trás dos lábios vermelhos.
— N-nada. — Sterling estava segurando o próprio punho. Parecia quebrado de um jeito horrível. — Peguei a espada para lhe entregar, como prova de boa vontade...
— O que eu quereria com uma espada? Idiota. — Ela se virou para Emma. — Estamos aqui para pegá-lo — disse ela, apontando para Sterling. — Deixe-nos levá-lo e vamos embora. — Ela sorriu para Emma. — Se está se perguntando como soubemos que deveríamos vir para cá, o Guardião tem olhos por todos os lados.
— Emma! — Era a voz de Cristina; Emma girou e viu Cristina fora do círculo, com Diego Perfeito ao seu lado. Para alívio de Emma, ela só estava mancando um pouco.
— Deixem-os passar — disse Belinda, e a multidão se abriu de modo que Diego Perfeito e Cristina assumiram posições um de cada lado de Emma. O círculo se fechou novamente em torno deles.
— O que está acontecendo? — Diego Perfeito quis saber. Seu olhar se fixou em Belinda; seus olhos cerraram. — Você é a Guardiã?
Ela gargalhou. Após um instante, vários dos outros Seguidores, inclusive o menino de cabelos cacheados, começaram a acompanhá-lo.
— Eu? Você é muito engraçado, bonitão. — Ela deu uma piscadela para Diego Perfeito, como se estivesse reconhecendo sua perfeição. — Não sou a Guardiã, mas sei o que o Guardião quer. Sei o que é necessário. Neste momento, o Guardião precisa de Sterling. Os Seguidores precisam dele.
Sterling gemeu, seu grito quase perdido nos risos da multidão. Emma olhava em volta, medindo a distância até a entrada do Instituto; se conseguissem entrar, os Seguidores não poderiam segui-los. Mas aí ficariam presos – e não poderiam chamar o Conclave para pedir ajuda.
Sterling fechou a mão no calcanhar de Diego Perfeito. Aparentemente ele tinha decidido que o garoto era a aposta mais segura para obter clemência nessas circunstâncias.
— Não deixe que me levem — implorou o homem. — Vão me matar. Eu fiz besteira. Vão me matar.
— Não podemos entregá-lo a vocês — disse Diego Perfeito. Emma tinha quase certeza de estar ouvindo arrependimento em sua voz. — Nosso dever é proteger mundanos a não ser que eles representem um perigo para nossas vidas.
— Não sei — disse Emma, pensando na menina de cabelo verde sangrando até a morte. — Esse aí me parece matável.
Belinda sorriu com seus lábios vermelhos.
— Ele não é um mundano. Nenhum de nós é.
— Nosso dever é proteger, mesmo assim — disse Diego Perfeito.
Emma trocou um olhar com Cristina, mas percebeu que ela concordava com Diego Perfeito. Clemência era uma característica que o Anjo esperava que os Caçadores de Sombras tivessem. Clemência é a Lei. Às vezes, Emma temia que sua capacidade de clemência tivesse sido destruída com a Guerra Maligna.
— Precisamos de informações dele — falou Cristina baixinho, mas Belinda ouviu, e seus lábios enrijeceram.
— Precisamos mais — retrucou ela. — Agora entregue-o e iremos embora. Há três de vocês e trezentos de nós. Pense bem.
Emma arremessou Cortana.
A espada voou de sua mão com tanta velocidade que Belinda não teve oportunidade de reagir; girou pelo círculo de Seguidores como uma agulha em uma bússola, brilhante e dourada. Ela ouviu berros, gritos, em parte de dor, em parte de espanto, e então Cortana voltou para sua mão, batendo sólida em sua palma.
Belinda olhou em volta com verdadeiro espanto. A ponta de Cortana tinha acabado de rasgar a frente das camisas do círculo de Seguidores; alguns sangravam, outros só tinham rasgos nas roupas. Todos estavam se segurando, parecendo espantados e assustados.
Cristina parecia maravilhada; Diego, parecia apenas contemplativo.
— Menor número não necessariamente significa inferior — disse Emma.
— Mate-a — ordenou Belinda, então ergueu a arma e puxou o gatilho.
Emma mal teve tempo de se preparar antes de uma coisa voar pelo seu campo de visão – algo brilhante e prateado – e ela ouvir um crack alto. Uma adaga caiu no chão na frente dos seus pés, com uma bala enterrada no cabo.
Diego Perfeito olhava para ela, a mão ainda aberta. Ele tinha lançado a adaga, desviado a bala. Talvez não tivesse salvado a sua vida – o uniforme repelia balas – mas definitivamente evitou que ela fosse derrubada e, talvez, morta com um segundo tiro na cabeça.
Ela não teve tempo de agradecer. Os outros Seguidores vieram para cima dela, e, dessa vez, o frio da batalha pulsou por suas veias. O mundo desacelerou à sua volta. O menino parte fada, com cabelos cacheados, se lançou ao ar, vindo em direção a ela. Emma o espetou antes que ele caísse no chão, sua lâmina cortando o peito. Sangue esguichou em volta dela ao puxar de volta a espada, uma chuva lenta e quente de pingos vermelhos.
O menino de cabelos cacheados caiu agachado no chão. Havia sangue na lâmina de Cortana quando Emma a empunhou novamente e outra vez, e a espada se tornou um borrão dourado ao seu redor. Ela ouviu gritos. Sterling estava encolhido acovardado no chão, com os braços na cabeça.
Ela cortou pernas e braços; cortou armas de várias mãos. Diego e Cristina faziam a mesma coisa, fatiando com suas armas. Cristina arremessou seu canivete borboleta; ele se enterrou no ombro de Belinda, derrubando-a. Ela xingou e arrancou a faca, jogando-a de lado. Apesar de haver um buraco em seu casaco branco, não havia sangue.
Emma recuou até parar na frente de Sterling.
— Vá para o Instituto! — gritou para Cristina. — Chame os outros!
Cristina fez que sim com a cabeça e correu para a escada. Ela estava no meio do caminho quando um vampiro de pele cinza e olhos vermelhos pulou para cima dela, enterrando os dentes na perna já machucada.
Cristina gritou. Emma e Diego viraram para ela enquanto Cristina esfaqueava com uma adaga, e a criatura caía para trás, engasgando com sangue.
Havia um rasgo na perna do uniforme de Cristina.
Diego cruzou a grama correndo até ela. O momento custou a concentração de Emma; ela viu um lampejo de movimento com o canto do olho e notou Belinda correndo para cima dela. A mão esquerda estava esticada e se fechou na garganta de Emma.
Ela engasgou, agarrando o outro braço de Belinda. Puxou forte, e, enquanto a outra cambaleava para longe da Nephilim, sua luva saiu.
O braço direito acabava em um cotoco. O rosto de Belinda se contorceu, e Emma ouviu Cristina exclamar. Ela estava com a adaga na mão, apesar da perna do uniforme estar ensopada de sangue. Diego estava ao seu lado, uma enorme sombra contra o Instituto.
— Você não tem a mão. — Emma engasgou, erguendo Cortana entre ela e Belinda. — Exatamente como Ava...
As portas do Instituto se abriram. Uma luz tão brilhante que quase cegava ardeu e Emma congelou, com a espada ensanguentada na mão. Ela olhou e viu Julian na entrada.
Ele empunhava uma lâmina serafim sobre a cabeça, e ela brilhava como uma estrela. Clareou o céu, a lua. Os Seguidores caíram para trás com ela, como se fosse a luz de um avião em queda.
Naquele momento suspenso, Emma olhou diretamente para Jules e o viu olhar de volta para ela. Um orgulho voraz inflou dentro dela. Aquele era o seu Julian. Um menino dócil de alma bondosa, mas toda alma tem seu próprio oposto, e o oposto dessa amabilidade era a crueldade – os belos destroços da misericórdia.
Ela podia ver no rosto dele. Para salvá-la, ele mataria todos ali. Não pensaria duas vezes até terminar, quando lavasse o sangue pelo ralo, como tinta vermelha.
E não se arrependeria.
— Pare — disse Julian, e apesar de não ter gritado, não ter berrado, os Seguidores que continuavam se movendo congelaram onde estavam, como se conseguissem ler sua expressão, exatamente como Emma. Como se estivessem com medo.
Emma agarrou Sterling pelas costas da camisa, puxando-o para que se levantasse.
— Vamos — disse ela, e começou a atravessar a multidão, arrastando-o para o Instituto. Se conseguisse levá-lo para dentro...
Mas Belinda, de repente, estava avançando, empurrando os outros Seguidores para se aproximar da escada do Instituto. Ainda não havia sangue em torno do rasgo no casaco. A luva calçava novamente a mão. Os cabelos escuros se soltavam de seus elaborados cachos, e ela parecia furiosa.
Ela foi para a frente, se colocando entre Emma e a escada. Cristina e Diego estavam logo atrás delas; Cristina fazia uma careta, o rosto pálido.
— Julian Blackthorn! — berrou Belinda. — Exijo que nos deixe levar este homem... — Ela apontou para Sterling. — daqui! E que pare de interferir em nossos assuntos! Os Seguidores do Guardião não têm nada a ver com vocês ou suas Leis!
Julian desceu um único degrau. O brilho da lâmina serafim acendeu seus olhos a um tom sombrio de verde-marinho.
— Como ousa vir aqui? — anunciou ele secamente. — Como ousa invadir o espaço dos Nephilim; como ousa fazer exigências? Seu culto idiota não era assunto nosso, não, até começarem a assassinar. Agora é nossa missão fazê-los parar. E nós iremos.
Belinda soltou uma risada rouca.
— Somos trezentos, e vocês não têm quase ninguém, e são crianças...
— Nem todos somos crianças — disse outra voz, e Malcolm Fade apareceu na escada ao lado de Julian.
Os Seguidores ficaram boquiabertos. Claramente, a maioria deles não fazia ideia de quem ele era. Mas o fato de estar cercado por uma auréola de fogo violeta obviamente deixou muitos deles nervosos.
— Sou Malcolm Fade — se apresentou. — Alto Feiticeiro de Los Angeles. Você sabe o que são os feiticeiros, não?
Emma não conseguiu conter um risinho. Diego Perfeito estava encarando. Sterling parecia pálido de pavor.
— Um de nós — disse Malcolm — vale quinhentos de vocês. Posso incinerá-los em seis segundos e usar suas cinzas para encher um ursinho de pelúcia para a minha namorada. Não que eu tenha uma namorada no momento — acrescentou — mas a esperança é a última que morre.
— Você é um feiticeiro e serve aos Nephilim? — perguntou Belinda. — Depois de tudo que eles fizeram com os integrantes do Submundo?
— Não tente usar seus conhecimentos pobres sobre milhares de anos de política comigo, criança. Não vai funcionar. — Malcolm olhou para o relógio. — Vou lhes dar um minuto — falou. — Quem continuar aqui depois de um minuto vai queimar.
Ninguém se moveu.
Com um suspiro, Malcolm apontou para um arbusto na base da escada. Pegou fogo. Um cheiro sufocante de fumaça emergiu. Chamas dançaram por seus dedos.
Os Seguidores se viraram e correram para a rua. Emma ficou parada enquanto passavam em volta dela, como se ela fosse uma planta no meio de uma avalanche. Em um instante todos se foram, menos Belinda.
Havia uma raiva terrível em seu rosto, e um desespero ainda maior. Um olhar que deixou todos congelados onde estavam.
Ela ergueu seus olhos escuros para Julian.
— Você — falou a mulher. — Pode pensar que nos derrotou agora, com seu feiticeiro de estimação, mas as coisas que sabemos a seu respeito... ah, as coisas que podemos contar à Clave. A verdade sobre seu tio. A verdade sobre quem dirige o Instituto. A verdade...
Julian empalideceu, mas antes que pudesse falar ou se mexer, um grito de agonia rasgou o ar. Era Sterling. Ele agarrou o próprio peito e, quando todos eles, inclusive Belinda, se viraram para olhar, ele caiu na grama. Uma gota de sangue escorreu de sua boca, manchando o chão. Seus olhos se arregalaram de medo quando os joelhos cederam; ele agarrou o chão, seu anel rosa brilhando no dedo, e parou.
— Ele está morto — falou Cristina, incrédula. E se virou para Belinda: — O que você fez?
Por um instante Belinda pareceu confusa, como se estivesse tão chocada quanto todos os outros. Depois disse:
— Bem que você gostaria de saber.
Ela foi até o corpo. Abaixou como se quisesse examiná-lo.
Um instante mais tarde uma faca brilhou entre os dedos de sua mão esquerda. Ouviram dois ruídos grotescos cortantes, e as mãos de Steriling foram arrancadas pulsos. Belinda as pegou, rindo.
— Obrigada — disse ela. — O Guardião ficará feliz em saber que ele está morto.
Por um momento Emma se lembrou de Ava na piscina, a pele rasgada por causa da mão arrancada. O Guardião insistia nesse tipo específico de evidência de que aqueles a quem queria mortos assim estavam? Mas e quanto a Belinda? Ela continuava viva. Será que era para ser um tributo?
Belinda sorriu, interrompendo os pensamentos de Emma.
— Até mais tarde, pequenos Caçadores de Sombras — despediu-se ela. E foi em direção à rua, com os troféus sangrentos erguidos.
Emma deu um passo à frente, com a intenção de subir os degraus do Instituto, mas Malcolm estendeu a mão para contê-la.
— Emma, fique onde está — pediu. — Cristina, afaste-se do corpo.
Cristina fez o que o feiticeiro ordenou; a mão na garganta, tocando o medalhão.
O corpo de Sterling estava encolhido aos pés dela, virado em si mesmo. Sangue não pulsava mais de seus pulsos cortados, mas o chão ao redor estava molhado.
Enquanto Cristina se afastava com rapidez, ela esbarrou em Diego Perfeito. Ele levantou as mãos como se fosse equilibrá-la e, para surpresa de Emma, ela permitiu. Ela franzia o rosto, claramente com dor. Havia sangue salpicado em seu sapato.
Malcolm abaixou a mão, curvando os dedos. O corpo de Sterling pegou fogo. Fogo de mago, queimando de forma dura, rápida e limpa. O licantrope pareceu brilhar intensamente por um instante antes de se desfazer em cinzas.
O fogo desapareceu e só o que restou foi um pedaço do chão queimado e sujo de sangue.
Emma percebeu que ela ainda segurava Cortana. Ela se ajoelhou, mecanicamente limpou a lâmina na grama seca e guardou a espada na bainha.
Ao se levantar, o olhar procurou Julian. Ele estava apoiado em um dos pilares da porta da frente, a lâmina serafim, agora escura, pendurada em sua mão. Ele encontrou o olhar dela por apenas um instante; o dele parecia vazio.
E então desviou quando a porta do Instituto se abriu e Mark apareceu.
— Acabou? — perguntou Mark.
— Acabou — respondeu Julian, cansado. — Pelo menos, por enquanto.
O olhar de Mark passou pelos outros – Emma, depois Cristina – e se iluminou em Diego. Diego pareceu confuso com a intensidade do olhar.
— Quem é esse?
— Diego — respondeu Emma. — Diego Rocio Rosales.
— Diego Perfeito? — disse Mark, parecendo incrédulo.
Diego pareceu ainda mais confuso. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Cristina caiu no chão, segurando a perna.
— Eu preciso — afirmou ela, um pouco sem fôlego — de outro iratze. — Diego a levantou nos braços e correu pelas escadas, ignorando os protestos de Cristina, que dizia ser capaz de andar.
— Preciso levá-la para dentro — falou Diego, passando por Julian, e depois Mark. — Tem uma enfermaria?
— Claro — afirmou Julian. — Segundo andar...
— Cristina! — gritou Emma, correndo pelas escadas atrás deles, mas já tinham desaparecido lá dentro.
— Ela vai ficar bem — assegurou Malcolm. — É melhor não correr atrás deles e assustar as crianças.
— Como estão as crianças? — perguntou Emma, ansiosa. — Ty, Dru...
— Estão todos bem — disse Mark. — Eu estava cuidando deles.
— E Arthur?
— Nem pareceu notar o que estava acontecendo — respondeu Mark com um olhar confuso. — Foi estranho...
Emma voltou-se para Julian.
— É estranho — concordou ela. — Julian, o que Belinda quis dizer? Quando falou que sabia quem realmente dirigia o Instituto?
Julian balançou a cabeça.
— Eu não sei.
Malcolm suspirou, exasperado.
— Jules — disse ele. — Conte a ela.
Julian parecia exausto, mais do que exausto. Emma tinha lido em algum lugar que pessoas se afogavam quando ficavam cansadas demais para se manter boiando. Elas desistiam e permitiam que o mar as levasse. Julian parecia nesse grau de exaustão.
— Malcolm, não — sussurrou ele.
— Você sequer consegue se lembrar de todas as mentiras que contou? — perguntou Malcolm, e não havia a preocupação habitual em seu olhar. Seus olhos estavam duros feito ametista. — Você não me contou sobre a volta do seu irmão...
— Ah... Mark! — exclamou Emma, de repente, percebendo que Malcolm evidentemente não sabia que ele estava no Instituto. Rapidamente, ela colocou a mão na boca. Mark ergueu uma sobrancelha para ela. Parecia notavelmente calmo.
— Você escondeu — prosseguiu Malcolm —, sabendo que eu perceberia que isso significaria envolvimento de fadas nos assassinatos e que eu saberia que estava violando a Paz Fria se o ajudasse.
— Não violaria se não soubesse — disse Julian. — Estava o protegendo também.
— Talvez — disse Malcolm. — Mas para mim, basta. Conte a eles a verdade. Ou este será o fim da minha ajuda.
Julian fez que sim com a cabeça.
— Contarei a Emma e a Mark — decidiu ele. — Não seria justo com os outros.
— Seu tio provavelmente saberia dizer quem disse isso — falou Malcolm. — “Não faça nada em segredo; pois o Tempo vê e ouve todas as coisas, e revela tudo”.
— Eu posso dizer quem disse. — Os olhos de Julian ardiam com um fogo baixo. — Sófocles.
— Garoto esperto — elogiou Malcolm. Tinha afeto em sua voz, mas cansaço também.
Ele se virou e marchou pelos degraus. Parou quando chegou à base da escada, olhando além de Emma, com os olhos escuros demais para que ela pudesse interpretar. Ele parecia ver alguma coisa ao longe que ela não via, ou algo em um futuro muito distante para se imaginar, ou em um passado distante demais para lembrar.
— Vai continuar nos ajudando? — chamou Julian. — Malcolm, você não vai... — Ele parou de falar; Malcolm já tinha desaparecido nas sombras da noite. — Nos abandonar? — disse, falando como se soubesse que ninguém estava ouvindo.
Julian ainda estava apoiado no pilar, como se fosse a única coisa que o sustentava, e Emma não conseguia evitar que a mente se lembrasse dos pilares no Salão dos Acordos, de Julian aos 12 anos, agachado contra um deles e chorando nas mãos.
Ele chorara desde então, mas não com frequência. Não havia muita coisa, ela supunha, que se comparasse a matar o próprio pai. A lâmina serafim na mão dele tinha apagado. Ele a jogou de lado quando Emma se aproximou. Ela deslizou a mão para a mão dele, que agora estava vazia. Não havia paixão do gesto, nada que lembrasse a noite na praia. Apenas a solidez absoluta de uma amizade compartilhada por mais de uma década. Ele então olhou para ela, e Emma viu gratidão em seus olhos. Por um instante não existia nada além dos dois no mundo, respirando, as pontas dos dedos dele dançando sobre seu pulso nu. O-B-R-I-G-A-D-O.
— Malcolm disse que tinha uma coisa que precisava nos contar — disse Mark. — Você pareceu concordar. O que é? Se mantivermos as crianças esperando por muito mais tempo, elas vão se rebelar.
Julian fez que sim com a cabeça, se esticando, afastando-se do pilar. Ele voltou a ser o calmo irmão mais velho outra vez, o bom soldado, o menino que tinha um plano.
— Eu vou falar para eles o que está acontecendo. Vocês dois, esperem por mim na sala de jantar — disse Julian. — Malcolm tem razão. Precisamos conversar.


Los Angeles, 2008
Julian sempre se lembraria do dia em que seu tio Arthur chegou ao Instituto de Los Angeles.
Era apenas a terceira vez que ele ia ali, apesar de seu irmão, Andrew, o pai de Julian, ter dirigido o maior Instituto da Costa Oeste por quase quinze anos. As relações eram tensas entre Andrew e o restante dos Blackthorn desde que uma fada chegou à sua porta carregando duas crianças pequenas e adormecidas, declarou que eram o filho e a filha de Andrew com Lady Nerissa da Corte Seelie e as deixou lá para que ele cuidasse.
Nem o fato de que a mulher dele rapidamente adotou as crianças, as amava e as tratava exatamente como fazia com seus outros filhos com Andrew reparou completamente o problema. Julian sempre achou que a questão era mais profunda do que seu pai admitia. Arthur parecia achar o mesmo, mas nenhum dos dois falava do que sabia, e, agora que Andrew estava morto, Julian suspeitava que a história tivesse morrido também.
Julian estava no topo da escada do Instituto, vendo o tio saltar do carro no qual Diana o buscou do aeroporto. Arthur poderia ter vindo por Portal, mas optou por viajar como um mundano. Ele estava amarrotado e cansado da viagem ao subir os degraus, com Diana logo atrás. Julian viu que sua boca estava rija em uma linha, e ficou imaginando se Arthur teria feito alguma coisa para irritá-la. Torcia para que não; Diana só estava no Instituto de Los Angeles há um mês, e Julian já gostava enormemente dela. Seria melhor para todo mundo se ela e Arthur se dessem bem.
Arthur entrou na antessala do Instituto, piscando enquanto seus olhos atingidos pelo sol se ajustavam ao interior escuro. Os outros Blackthorn estavam lá, vestidos com suas melhores roupas – Dru, de veludo, e Tiberius, com uma gravata amarrada no pescoço. Livvy trazia Tavvy no colo, sorrindo esperançosa. Emma parecia cansada, no pé da escada, claramente ciente de seu status como parte da família, mas mesmo assim não sendo uma deles. Usava as tranças presas, cachos de cabelos claros balançando como corda enrolada em ambos os lados da cabeça. Julian ainda se lembrava disso.
Diana fez as apresentações. Julian apertou a mão do tio que, mesmo de perto, ainda não se parecia muito com o pai de Julian. Talvez isso fosse uma boa coisa. A última lembrança que tinha do pai não era agradável.
Julian ficou encarando o tio, enquanto Arthur apertava sua mão com firmeza.
Arthur tinha os cabelos castanhos dos Blackthorn, apesar de ser quase totalmente grisalho, e olhos azul-esverdeados por trás dos óculos. Suas feições eram largas e ásperas, e ele ainda mancava singelamente pelos machucados que sofrera durante a Guerra Maligna.
Arthur se virou para cumprimentar as outras crianças, e Julian sentiu alguma coisa pulsar por suas veias. Ele viu o rosto esperançoso de Dru se virar para cima, o olhar lateral tímido de Ty, e pensou: ame-os. Ame-os. Pelo Anjo, ame-os.
Não importava se alguém o amasse. Ele estava com 12 anos. Tinha idade o bastante. Tinha Marcas, era um Caçador de Sombras. Tinha Emma. Mas os outros ainda precisavam de alguém que desse beijos de boa-noite, os protegesse dos pesadelos, fizesse curativos em joelhos ralados e acalentasse sentimentos feridos. Alguém que os ensinasse a crescer.
Arthur foi até Drusilla e apertou sua mão, desconfortavelmente. O sorriso desbotou de seu rosto quando ele foi para Livvy em seguida, ignorando Tavvy, e depois se inclinou para Tiberius, com a mão esticada.
Ty não retribuiu.
— Olhe para mim, Tiberius — pediu Arthur, com a voz ligeiramente rouca. Ele limpou a garganta. — Tiberius! — Ele se ajeitou e virou para Julian. — Por que ele não olha para mim?
— Ele nem sempre gosta de fazer contato visual — explicou Julian.
— Por quê? — perguntou Arthur. — Qual é o problema dele?
Julian viu Livvy dar sua mão livre para Ty. Foi a única coisa que o impediu de empurrar o tio para chegar até o irmão mais novo.
— Nada. É o jeito dele.
— Estranho — disse Arthur, e deu as costas para Ty, descartando-o para sempre. Ele olhou para Diana. — Onde é meu escritório?
Os lábios de Diana afinaram ainda mais. Julian se sentiu como se estivesse engasgado.
— Diana não mora aqui, nem trabalha para nós — explicou Julian. — Ela é tutora; trabalha para a Clave. Posso ajudá-lo a achar seu escritório.
— Ótimo. — Tio Arthur pegou a mala. — Tenho muito trabalho a fazer. — Julian subiu as escadas, sentindo como se sua cabeça estivesse cheia de pequenas explosões, afogando o discurso do tio Arthur sobre a importante monografia que ele estava fazendo sobre a Ilíada. Aparentemente a Guerra Maligna tinha interrompido seu trabalho, parte do qual foi destruída no ataque ao Instituto de Londres.
— Muito inconveniente, a guerra — disse Arthur, entrando no escritório que fora do pai de Julian. As paredes eram de madeira clara; dezenas de janelas se abriam para o mar e para o céu.
Particularmente para as pessoas que morreram nela, Julian pensou, mas seu tio estava balançando a cabeça, os nós dos dedos embranquecendo em torno do cabo da mala.
— Ah, não, não — disse Arthur. — Isso não vai funcionar de jeito nenhum.
Quando deu as costas para as janelas, Julian viu que ele estava branco e suando.
— Muito vidro — falou, com a voz diminuindo a um murmúrio. — A luz é muito clara. Demais. — Ele tossiu. — Tem algum sótão?
Julian não ia ao sótão do Instituto fazia anos, mas se lembrava de onde ficava, subindo por uma escada estreita a partir do quarto andar. Ele acompanhou o tio, tossindo por causa da poeira. O cômodo tinha piso de madeira escurecido por mofo, pilhas de velhos baús e uma enorme mesa, com uma perna quebrada, apoiada em um canto.
Tio Arthur pousou a mala.
— Perfeito — falou.
Julian não o viu novamente até a noite seguinte, quando a fome deve tê-lo feito descer. Arthur sentou em silêncio à mesa de jantar, comendo discretamente. Emma tentou conversar com ele naquela noite, e depois na seguinte. Eventualmente, até ela desistiu.
— Não gosto dele — confessou Drusilla um dia, franzindo o rosto enquanto ele voltava pelo corredor. — A Clave não pode nos mandar outro tio?
Julian colocou os braços em volta dela.
— Temo que não. Ele é o que temos.
Arthur se tornou mais isolado. Às vezes, ele falava em fragmentos de poesia ou com algumas palavras em latim; uma vez ele pediu para Julian passar o sal em grego arcaico. Uma noite Diana ficou para o jantar; depois que Arthur se recolheu, ela puxou Julian de lado.
— Talvez fosse melhor se ele não comesse com a família — falou ela, baixinho. — Você poderia levar uma bandeja para ele à noite.
Julian assentiu. A raiva e o medo que pareciam explosões disparando na cabeça dele se aquietaram, se tornando uma fraca pulsação de decepção. O tio não ia amar seus irmãos e irmãs. Não ia colocá-los para dormir, nem beijar seus joelhos ralados. Ele não ia ajudar em nada.
Julian determinou que os amaria duas vezes mais do que qualquer adulto poderia. Faria tudo por eles, pensou, ao levar o jantar do tio Arthur – macarrão frio, torrada e chá, em uma bandeja, numa noite, quando o homem já morava no Instituto havia alguns meses. Ele se certificaria de que eles tivessem tudo que queriam. Se certificaria de que eles jamais sentissem falta do que não tinham; eles os amaria o suficiente para compensar tudo o que perderam.
Ele abriu a porta do sótão com o ombro. Por um instante, piscando desorientado, achou que a sala estivesse vazia. Que seu tio tivesse saído, ou estivesse lá embaixo, dormindo, como às vezes fazia em horários estranhos.
— Andrew? — A voz veio do chão. Lá estava o tio Arthur, encolhido, com as costas apoiadas na enorme mesa. Parecia que estava sentado em uma piscina de escuridão. Julian levou um tempo para perceber que era sangue – preto, à pouco luz, poças grudentas por todo os lados, secando no chão, grudando folhas de papel umas nas outras. As mangas de Arthur estavam enroladas, a camisa, manchada de sangue. Ele segurava uma faca na mão direita. — Andrew — falou com a voz arrastada, virando a cabeça para Julian. — Perdão. Tive que fazer isso. Eu tinha... muitos pensamentos. Sonhos. As vozes deles vêm a mim pelo sangue, entende. Quando derramo o sangue, paro de escutá-los.
De algum jeito, Julian encontrou a voz.
— Vozes de quem?
— Dos anjos do Céu — disse Arthur. — E dos demônios sob o mar.
Ele pressionou o dedo na ponta da faca e viu o sangue brotar ali.
Mas Julian mal o ouviu. Ele continuava segurando a bandeja, olhando para o fardo dos anos por vir, e a Clave, e a Lei.
“Loucura” era como chamavam quando um Caçador de Sombras ouvia vozes que mais ninguém escutava, e quanto via coisas que mais ninguém podia ver. Havia outras palavras, mais feias, porém não havia compreensão, solidariedade, nem tolerância. Loucura era uma mancha um sinal de que seu cérebro tinha rejeitado a perfeição do sangue do Anjo. Aqueles que eram considerados lunáticos ficavam trancados no Basilias e nunca mais tinham autorização para sair. Certamente não tinham autorização para dirigir Institutos.
Parecia que a questão de não serem amados o suficiente não era a pior que as crianças Blackthorn poderiam ter que enfrentar, afinal.

4 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira1 de julho de 2016 16:48

    VOLTEI PESSOAL. PULEI TUDO PQ TO COM PREGUIÇA DE LER DE NOVO. SÓ VENHO PRA COMENTAR E ESTORVAR.
    Cara, sinto dó do Julian, que teve cuidar dessa super-família sozinho e o Instituto também, bem triste isso. Eu não consigo nem cuidar do meu cachorro, imagina eu dirigindo um Instituto, meu deus, morria geral lá dentro.

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    1. eu tambem ,so pelo fato dos meus irmãos estarem vivos até hoje é um milagre!!!

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  2. Caçadora de sombras18 de julho de 2016 23:41

    — Um de nós — disse Malcolm — vale quinhentos de vocês. Posso incinerá-los em seis segundos e usar suas cinzas para encher um ursinho de pelúcia para a minha namorada. Não que eu tenha uma namorada no momento — acrescentou — mas a esperança é a última que morre.
    Nem ri nessa parte, imagina...

    Diego Perfeito deve estar tipo: todo mundo me conhece como Diego Perfeito?

    Eita gnt, esse negócio do Arthur é sério hein...

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  3. Pobre Jules <3
    Eu meio q odeio o Arthur u_u

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