1 de julho de 2016

Capítulo 16 - Ao lado

— Então, basicamente, vocês meio que resolveram a investigação — disse Livvy.
Ela se deitara no tapete no quarto de Julian. Estavam todos espalhados pelo quarto: Cristina em uma cadeira, Ty sentado, apoiado contra uma parede com os fones de ouvido, Julian de pernas cruzadas na cama. Ele tinha tirado o paletó e dobrado as mangas. As abotoaduras que Emma deu brilhavam na mesinha de cabeceira. Mark, de bruços, ocupava o pé da cama, em frente a Church, que tinha decidido fazer uma visita, provavelmente por causa do tempo.
— Quero dizer, agora sabemos quem foi. Os assassinatos.
— Não exatamente — disse Emma. Ela estava sentada no chão, apoiada na cabeceira. — Quero dizer, o que sabemos é o seguinte: esse grupo, os Seguidores, ou seja lá como se chamam, são responsáveis pelo assassinato de Stanley Wells. Os Seguidores basicamente são pessoas que tiveram algum contato com o sobrenatural. Eles têm a Visão, são parte fada, Sterling é parte licantrope. Todo mês tem uma Loteria. Alguém é escolhido, e essa pessoa se torna um sacrifício.
— Wells foi um sacrifício — explicou Julian. — Então não é loucura presumir que os outros onze assassinatos também tenham ocorrido por causa desse culto.
— E também explica os corpos das fadas — emendou Cristina. — Considerando que muitos deles são parte fada, faz sentido que tenham sido escolhidos para os sacrifícios.
Julian olhou para Mark.
— Acha que as Cortes sabem se os corpos são parte ou totalmente fada?
— É difícil dizer — respondeu Mark, ainda olhando para o gato. — Nem sempre é possível determinar se alguns dos Seguidores são fadas de puro sangue apenas olhando.
— Eu imaginaria que fadas de puro sangue teriam coisas melhores a fazer. — Foi Ty, que tinha tirado os fones. Emma pôde ouvir de longe a música clássica que vazava deles. — Por que se juntariam a um grupo desses?
— É um lugar para almas perdidas — disse Mark. — E, desde a Paz Fria, muitos integrantes do Povo das Fadas estão perdidos. Faz sentido.
— Vi a propaganda no Mercado das Sombras — disse Emma. — E vi Belinda lá, também. Pareciam procurar especificamente por qualquer pessoa com a Visão, qualquer um que parecesse assustado ou sozinho. Ter um grupo ao qual pertencer, receber promessas de sorte e riqueza, receber força com os sacrifícios... dá para ver o apelo disso.
— Eles realmente parecem confiantes — concordou Cristina. — Quanto sabem sobre a existência dos Nephilim, imagino?
— Sterling pareceu com medo da gente — disse Emma. — É estranho. Ele foi escolhido, então isso significa que eles vão sacrificá-lo. É de se pensar que ele aceitaria qualquer ajuda que pudesse receber, mesmo de Caçadores de Sombras.
— Mas receber ajuda é proibido, certo? — argumentou Livvy. — Se ele for flagrado aceitando, podem torturá-lo. Fazer coisa pior do que matá-lo.
Cristina estremeceu.
— Ou ele pode realmente acreditar nisso tudo. Talvez ele ache que é um pecado aceitar ajuda.
— Homens morreram por menos — disse Mark.
— Quantos vocês acham que tinham? Os Seguidores?
— Uns trezentos — disse Julian.
— Bem, se não podemos procurar as fadas ainda, temos duas opções — começou Emma. — Primeira: vamos atrás de cada um desses trezentos e os espancamos até que nos revelem quem é o assassino.
— Isso não parece nada prático — disse Ty— E vai demorar muito.
— Ou podemos tentar descobrir diretamente quem é o líder — falou Emma. — Se alguém sabe quem é, é aquela menina Belinda.
Julian passou a mão no cabelo.
— Belinda não é o seu nome verdadeiro...
— Estou falando, Johnny Rook a conhece — disse Emma. — Aliás, ele provavelmente sabe muita coisa, considerando que o seu negócio se baseia em informações sobre o Mundo das Sombras. Vamos perguntar a ele.
— Sim, você concordou com isso no carro — disse Mark, e franziu o rosto. — O gato está olhando para mim e me julgando.
— Não está — discordou Jules. — A cara dele é assim mesmo.
— Você me olha do mesmo jeito — disse Mark, olhando para Julian. — Com cara de que está me julgando.
— Ainda assim é um progresso — falou Livvy, teimosa. Ela olhou de lado para Mark, e Emma viu ansiedade em seu olhar. Era tão raro Livvy demonstrar preocupação que Emma se sentou ereta. — Deveríamos ir atrás das fadas e avisar que os Seguidores são os responsáveis...
— Não podemos — avisou Diana, aparecendo na entrada. — As fadas foram bem específicas. “Aquele com sangue nas mãos”. Podem achar que eles querem relatórios de progresso, mas não acho que seja isso. Eles querem resultados, e isso é tudo.
— Há quanto tempo está ouvindo a conversa? — perguntou Julian, apesar de não haver hostilidade no seu tom. Ele olhou para o relógio. — Está muito tarde para você estar aqui.
Diana suspirou. Ela parecia exausta. Os cabelos estavam desalinhados, e ela parecia estranhamente informal com um casaco de moletom e calça jeans.
Tinha um longo arranhão nas bochechas.
— Passei na convergência na volta de Ojai — disse ela. — Entrei e saí rápido. Só tive que matar um Mantis. — Ela suspirou outra vez. — Não parece que ninguém esteve lá desde a noite em que vocês o fizeram. Temo que nosso necromante tenha encontrado outro lugar para ir.
— Bem, se ele não usar uma convergência, na próxima vez que usar magia negra, vai aparecer no mapa de Magnus — disse Ty.
— Encontrou algo de útil em Ojai? — perguntou Emma. — Que feiticeiro mora lá? Não é ninguém que conheçamos, é?
— Não. — Diana se apoiou na maçaneta da porta, claramente não planejando falar mais nada. — Eu já tinha ouvido falar nos Seguidores; suponho que não seja surpresa que vocês estivessem tentando encontrá-los aqui. Queria que tivessem me contado, mas...
— Você já tinha saído — disse Jules, e se apoiou nas próprias mãos. Ele estava sem o casaco, e a camisa social estava esticada no peito. Saber como era o corpo dele por baixo do algodão não ajudava Emma a se concentrar. Ela desviou o olhar, detestando seus pensamentos descontrolados. — Mas posso oferecer um resumo.
Quando ele começou a falar, Emma virou, em silêncio, e se retirou. Ela pôde ouvir a voz de Julian atrás dela, recontando os eventos transcorrida na noite. Ela sabia que ele contaria a história com precisão; sabia que não precisava se preocupar. Mas agora precisava falar com duas pessoas, e tinha que fazer isso sozinha.


— Mãe — sussurrou Emma. — Pai. Preciso da ajuda de vocês.
Ela havia tirado o vestido e as botas, e as colocava em um canto com as armas.
O tempo tinha piorado: lufadas sopravam pelo Instituto, balançando as calhas de metal, manchando os vidros com estampas prateadas. Ao longe, raios brilhavam sobre a água, iluminando-a como uma folha de vidro. De pijama, Emma sentou de pernas cruzadas, encarando o armário aberto.
Para um estranho, o armário poderia parecer uma bagunça de fotos, barbantes e anotações, mas para ela era uma carta de amor. Uma carta de amor para seus pais cuja foto ficava no centro da compilação. Uma foto deles sorrindo um para o outro, o pai no meio de uma risada, os cabelos louros brilhando ao sol.
— Estou perdida — disse ela. — Comecei isso porque achei que tivesse alguma ligação entre esses assassinatos e o que aconteceu com vocês. Mas, se é o caso, acho que a estou perdendo. Nada se liga ao ataque ao Instituto. Eu me sinto como se estivesse caminhando pela bruma e não consigo enxergar nada com clareza.
Parecia que tinha algo preso na garganta dela, algo duro e doloroso. Parte de Emma não queria nada mais do que correr para a chuva e sentir a água cair. Andar ou correr pela praia, onde o mar e o céu se fundiam, e ter seus gritos sufocados por trovões.
— Tem mais — sussurrou ela. — Acho que estou estragando tudo. Como... como Caçadora de Sombras. Desde que Jules se machucou, quando eu o curei, desde então, quando olho para ele, eu sinto... coisas que não deveria sentir. Penso nele de um jeito que não se deve pensar quando se é parabatai. Tenho certeza de que ele não sente o mesmo, mas hoje, por alguns minutos, quando estávamos dançando, eu me senti... feliz — Ela fechou os olhos. — Amor é feito para deixar as pessoas felizes, não é? Não é para machucar?
Bateram na porta.
Jules, ela pensou. Ela se levantou quando a porta abriu.
Era Mark.
Ele continuava com as roupas formais. Eram muito escuras em contraste com seus cabelos louros. Qualquer outra pessoa teria parecido desconfortável, ela pensou quando ele entrou no quarto e olhou para o armário dela, depois para ela. Qualquer outra pessoa teria perguntado se estava interrompendo ou se intrometendo, considerando que ela estava de pijama. Mas Mark se comportava como se estivesse chegando para um compromisso marcado.
— Fui levado — falou o garoto — no mesmo dia em que seus pais foram mortos.
Ela fez que sim com a cabeça, olhando para o armário. Estar com ele aberto fazia com que ela se sentisse estranhamente exposta.
— Eu disse a você que sentia muito pelo que tinha acontecido com eles — continuou. — Mas isso não é suficiente. Eu não percebi que essa investigação se tornaria sobre mim. Sobre minha família tentando me manter aqui. Que a minha presença roubaria de você o significado do que você está fazendo aqui.
Emma sentou no pé da cama.
— Mark... não é assim.
— É assim — disse ele. Seus olhos eram luminosos à estranha luz; a janela estava aberta, e a luminosidade que entrava era tocada pelo brilho de nuvens carregadas de raios. — Eles não deveriam estar fazendo isso para me manter, quando eu talvez nem fique.
— Você não voltaria para o Reino das Fadas. Não voltaria.
— Tudo que foi prometido é que eu escolheria — disse ele. — Eu não... eu não posso... — Ele cerrou as mãos em punhos nas laterais do corpo, a frustração em seu rosto era clara. — Pensei que você fosse entender. Você não é uma Blackthorn.
— Sou parabatai de Julian — disse ela. — E Julian precisa que você fique.
— Julian é forte — insistiu Mark.
— Julian é forte — concordou ela. — Mas você é irmão dele. E se você for... Eu não sei se consigo juntar esses cacos.
Os olhos dele se voltaram novamente para o armário.
— Sobrevivemos a perdas — sussurrou ele.
— Sobrevivemos — concordou Emma. — Mas meus pais não se foram de propósito. Não sei o que teria acontecido se fosse esse o caso.
Um raio estalou, iluminando o quarto. A mão de Mark voou para a garganta.
— Quando ouço trovões, vejo raios, penso que deveria estar cavalgando através deles — disse o garoto. — Meu sangue chama o céu.
— Quem lhe deu esse pingente? — perguntou ela. — É uma flecha de elfo, não é?
— Na Caçada, eu era habilidoso com elas — disse Mark. — Eu conseguia acertar um inimigo enquanto cavalgava, e acertava nove de dez tiros. Ele me chamava de tiro de elfo, porque... — Mark se interrompeu, virando-se para olhar Emma, que estava na cama. — Somos parecidos, eu e você — garantiu ele. — A tempestade lhe chama, assim como a mim, não é mesmo? Vi nos seus olhos mais cedo... Você queria estar lá fora. Correr na praia, talvez, enquanto os raios caem.
Emma respirou trêmula.
— Mark, eu não...
— O que está acontecendo? — Foi Julian que perguntou. Ele havia tirado o terno e estava parado na entrada. Emma não conseguia descrever a expressão em seu rosto ao olhar de Mark para ela. Jamais vira Jules assim. — Se os dois estão ocupados — falou, e a voz parecia a ponta de uma faca — posso voltar outra hora.
Mark pareceu confuso. Emma ficou encarando.
— Eu e Mark estamos conversando — explicou Emma. — Só isso.
— Já acabamos. — Mark se levantou, com uma das mãos na flecha de elfo.
Julian olhou nos olhos de ambos.
— Amanhã à tarde Diana vai levar Cristina até a casa de Malcolm — disse ele. — Qualquer coisa sobre Cristina precisar entrevistar o Alto Feiticeiro para saber como fazemos as coisas por aqui e as diferenças quanto a Cidade do México. Provavelmente Diana só quer ver como está ficando a tradução de Malcolm e precisa de uma desculpa.
— Tudo bem, então podemos ir atrás de Rook — disse Emma. — Ou eu posso ir sozinha se você preferir, ele está acostumado comigo. Não que nossa última interação tenha sido amigável. — Ela franziu o rosto.
— Não, eu vou com você — avisou Julian. — Rook precisa entender que é sério.
— E eu? — perguntou Mark. — Devo fazer parte da expedição?
— Não — respondeu Julian. — Johnny Rook não pode saber que você voltou. A Clave não sabe, e Rook não guarda segredos, ele os vende.
Mark olhou para o irmão através dos cabelos; seus olhos estranhos e de cores diferentes brilhando.
— Então acho que vou dormir até mais tarde — falou. Deu uma última olhada no armário de Emma, havia alguma coisa em sua expressão, algo incomodado, e saiu, fechando a porta.
— Jules — chamou Emma —, o que houve com você? O que foi isso “se vocês dois estão ocupados”? Acha que eu e Mark estávamos nos agarrando no chão antes de você entrar?
— Não seria da minha conta se estivessem — disse Julian. — Eu estava dando privacidade.
— Estava sendo um babaca. — Emma saiu da cama e foi até a penteadeira tirar os brincos, olhando para Julian pelo espelho ao fazê-lo. — E eu sei por quê.
Ela viu a expressão dele mudar e enrijecer, a surpresa deu lugar a incompreensão.
— Por quê?
— Porque você está preocupado — respondeu ela. — Você não gosta de transgredir as regras e acha que confrontar Rook não é uma boa ideia.
Ele se moveu inquieto pelo quarto e sentou na cama dela.
— É assim que me enxerga? — disse ele. — Emma, se precisamos ir até o Rook, eu faço parte do plano. Estou nele, cem por cento.
Ela se olhou no espelho. Cabelos compridos não escondiam as Marcas dos ombros; os braços tinham músculos, e os pulsos eram fortes e largos. Ela era um mapa de cicatrizes: as antigas cicatrizes brancas de símbolos gastos, registros de cortes, e manchas de queimaduras provocadas por sangue ácido de demônio.
De repente, ela se sentiu velha, não era só 17 em vez de 12, mas velha. Velha no coração, como se fosse tarde demais. Certamente se fosse encontrar o assassino de seus pais, já o teria feito a essa altura.
— Sinto muito — disse ela.
Julian se reclinou no encosto da cama dela. Estava com uma velha camiseta e calça de pijama.
— Por quê?
Pela maneira como me sinto. Ela conteve as palavras. Se estava tendo sentimentos estranhos por Jules, não era justo contar para ele. Ela é que estava errada.
E ele estava sofrendo. Dava para ver pela rigidez da boca, pela escuridão por trás de olhos claros.
— Por duvidar de você — disse ela.
— O mesmo aqui. — Ele deitou nos travesseiros. A camisa dele, para fora, subiu, dando a Emma uma clara visão de sua barriga, a dobra dos músculos, as sardas douradas no quadril...
— Acho que nunca vou descobrir o que aconteceu com os meus pais — disse ela.
Com isso, ele se sentou, o que foi um alívio.
— Emma — falou, e então parou. Ele não disse por que falaria uma coisa dessas? Ou, como assim? Nem nenhuma das outras coisas que as pessoas diriam para preencher esse espaço. Em vez disso, ele emendou: — Vai. Você é a pessoa mais determinada que já conheci.
— Me sinto mais longe do que nunca agora. Apesar de termos uma conexão, apesar de estarmos investigando. Não vejo como as mortes deles podem ter tido qualquer relação com o Teatro da Meia-Noite ou com a Loteria. Não vejo...
— Você tem medo — disse Jules.
Emma se apoiou na cômoda.
— Medo de quê?
— Medo de descobrirmos alguma coisa sobre eles que você não quer saber — argumentou ele. — Na sua cabeça, seus pais são perfeitos. Agora que estamos nos aproximando de algumas respostas, você teme descobrir que eles...
— Não eram perfeitos? — Emma lutou para conter a tensão da voz. — Más pessoas?
— Eram humanos — completou ele. — Todos nós descobrimos que as pessoas que cuidam da gente são humanas, eventualmente. Que cometem erros. — Julian tirou o cabelo dos olhos. — Vivo com medo do dia em que as crianças descobrirão isso de mim.
— Julian — disse Emma — detesto dizer isso a você, mas acho que eles já descobriram.
Ele sorriu e saiu da cama.
— Ofensas — falou o garoto. — Acho que isso significa que você está bem. — E foi para a porta.
— Não podemos revelar a Diana que vamos atrás de Rook — emendou ela. — Ela acha que ele é sujo.
— Ela não está errada. — A luz fraca do quarto brilhou na pulseira de Julian. — Emma, você quer que eu...
Ele hesitou, mas Emma ouviu as palavras não pronunciadas. Fique com você?
Fique comigo, ela queria dizer. Fique comigo e me faça esquecer os pesadelos. Fique e durma ao meu lado. Fique e espante os sonhos ruinsas lembranças de sangue.
Mas ela só forçou um sorriso.
— É melhor eu dormir, Jules.
Ela não conseguiu ver a expressão de Julian quando ele virou para sair do quarto.
— Boa noite, Emma.


Emma acordou tarde no dia seguinte: em algum momento da noite, a tempestade tinha limpado o céu, e o sol da tarde estava claro. Com a cabeça doendo, ela saiu da cama, tomou banho, vestiu jeans e um casaco de uniforme, e quase deu um esbarrão em Cristina na porta do seu quarto.
— Você dormiu muito, eu estava preocupada. — Cristina olhou para ela, com cara feia. — Está tudo bem?
— Vai ficar depois que eu tomar café da manhã. Talvez alguma coisa com chocolate.
— Está tarde demais para café da manhã. Já passou da hora do almoço. Julian me mandou vir buscá-la, ele disse que tem bebidas e sanduíches no carro, mas vocês precisam ir.
— Acha que são sanduíches de chocolate? — perguntou Emma, entrando no ritmo de Cristina enquanto ambas iam para as escadas.
— O que é um sanduíche de chocolate?
— Você sabe: pão, uma barra de chocolate, manteiga.
— Que nojo. — Cristina balançou a cabeça; as pérolas nos lóbulos da orelha brilharam.
— Não tão nojento quanto café. Você está indo para a casa de Malcolm?
Cristina sorriu.
— Farei um milhão de perguntas ao seu feiticeiro de olhos roxos para que Diana não pense em você e Julian, ou se vocês estão na casa do Sr. Rook.
— Não sei bem se ele é um senhor — disse Emma, contendo um bocejo. — Nunca vi ninguém chamá-lo de nada além de “ei, Rook”, ou às vezes “aquele babaca”.
— Isso é muito grosseiro — disse Cristina. Havia algo de brincalhão em seus olhos escuros. — Acho que Mark está nervoso por ficar sozinho com os mais novos. Isso vai ser muito divertido. — Ela puxou uma das tranças molhadas de Emma. — Julian está esperando por você lá embaixo.
— Boa sorte tentando distrair Malcolm — disse Emma quando Cristina seguiu pelo corredor até a cozinha, onde Diana, supostamente, esperava.
Cristina deu uma piscadela.
— Boa sorte tentando conseguir informações, cuata.
Balançando a cabeça, Emma foi para o estacionamento, onde encontrou Julian ao lado do Toyota, examinando o conteúdo da mala. Ao lado dele estava Mark.
— Achei que Cristina fosse estar aqui — dizia Mark quando Emma se aproximou. — Não sabia que ela ia para a casa de Malcolm. Não achei que fosse ficar sozinho com as crianças.
— Não são crianças — disse Julian, acenando com a cabeça para cumprimentar Emma. — Ty e Livvy têm 15 anos; eles já cuidaram dos outros antes.
— Tiberius está bravo por você não deixá-lo te acompanhar até a casa de Rook — disse Mark. — Ele disse que ia se trancar no quarto.
— Ótimo — respondeu Julian. Estava com a voz rouca; parecia não ter dormido. Emma ficou imaginando o que o teria mantido acordado. Pesquisa?
— Acho que você vai saber onde ele está. Olha, só quem precisa de cuidado é Tavvy.
Mark pareceu doente de medo.
— Eu sei.
— Ele é uma criança, e não uma bomba — garantiu Emma, vestindo o cinto de armas. Havia diversas lâminas serafim e uma estela nele. Ela não estava de uniforme, só de calça jeans e um casaco que esconderia a espada nas costas. Não que esperasse confusão, mas detestava sair sem Cortana, que, no momento, descansava na mala. — Vai ficar tudo bem. Dru e Livvy podem ajudar.
— Talvez essa sua missão seja perigosa demais — disse Mark, quando Julian fechou a mala. — Uma fada diria que rook, na verdade, é um corvo preto, um pássaro de mau presságio.
— Eu sei — rebateu Julian, guardando uma última adaga fina no cinto. — Também significa enganar ou lograr. Foi minha palavra do dia com Diana ano passado.
— Johnny Rook é um enganador, é verdade — concordou Emma. — Ele engana mundanos. Nós vamos ficar bem.
— As crianças podem atear fogo nelas mesmas — disse Mark. Não pareceu estar brincando.
— Ty e Livvy têm 15 anos — disse Emma. — Eles têm quase a mesma idade que você tinha quando se juntou à Caçada. E você ficou...
— O quê? — Mark virou os estranhos olhos para ela. — Eu fiquei bem?
Emma se sentiu ruborizar.
— Uma tarde na própria casa não é exatamente o mesmo que ser sequestrado por fadas canibais predadoras.
— Nós não comemos pessoas — falou Mark, indignado. — Pelo menos, não até onde sei.
Julian destrancou a porta do motorista e entrou no carro. Emma sentou no banco do carona enquanto ele se inclinava para fora da janela e olhava, solidário, para o irmão.
— Mark, temos que ir. Se alguma coisa acontecer, peça para Livvy mandar mensagem, mas nesse momento nossa melhor chance é Rook. Tudo bem?
Mark se esticou, como se estivesse se preparando para a batalha.
— Tudo bem.
— E se eles conseguirem atear fogo neles mesmos?
— Sim?
— É bom que arranje um jeito de apagar.


Johnny Rook morava em um pequeno bangalô artesanal com janelas empoeiradas, entre dois ranchos, em Victor Heights. Tinha uma atmosfera de desuso que Emma presumiu ser cuidadosamente cultivada. Parecia o tipo de lugar que crianças da vizinhança pulariam quando estivessem atrás de doces no dia das bruxas.
Fora isso, era uma boa rua. Crianças brincavam de amarelinha a algumas casas de distância, e um senhor lia um jornal em seu terraço, cercado por anões de jardim. Quando Julian imaginava a vida mundana, o cenário era bem parecido com esse. Às vezes, ele achava que não era tão ruim assim.
Emma ajeitava Cortana. Já estavam disfarçados com feitiços, então, não havia preocupação quanto as crianças da rua a verem apertando a alça da espada, uma pequena ruga aparecendo entre as sobrancelhas enquanto a ajeitava. Seus cabelos brilhavam ao sol californiano, mais cintilantes do que o cabo de Cortana. As cicatrizes brancas em suas mãos também brilhavam, difusas, como uma costura de retalhos.
Não. A vida mundana não era uma opção.
Emma levantou a cabeça e sorriu para ele. Um sorriso simples, familiar. Era como se ontem à noite – a dança e a música que ainda lhe pareciam um sonho febril – não tivesse acontecido.
— Pronto? — perguntou Emma.
O caminho pavimentado que levava à entrada da casa era rachado onde as raízes das árvores cresceram, sua força inexorável abrindo o chão. A persistência das que crescem, Julian pensou, e desejou ter uma tela e tintas. Ele estava pegando o telefone para tirar uma foto quando recebeu um toque que indicava mensagem de texto.
Ele olhou para a tela. Era uma mensagem de Mark.

NÃO ESTOU ENCONTRANDO TY.

Julian franziu o rosto e escreveu uma resposta enquanto subia os degraus atrás de Emma.

PROCUROU NO QUARTO DELE?

Havia uma aldrava ornada na porta da frente, em forma de um homem verde com cabelos e olhos selvagens. Emma a levantou e deixou cair quando o telefone de Julian apitou novamente.

ACHA QUE SOU UM PALHAÇO? CLARO QUE PROCUREI.

— Jules? — disse Emma. — Está tudo bem?
— Palhaço? — murmurou ele, os dedos voando sobre o teclado.

O QUE LIVVY DISSE?

— Você acabou de murmurar “palhaço”? — perguntou Emma. Julian ouviu os passos se aproximando do outro lado da porta. — Julian, tente não agir estranhamente, tudo bem?
A porta se abriu. O homem do outro lado, alto e esguio, usava jeans e uma jaqueta de couro. Os cabelos estavam tão curtos que era difícil dizer a cor; óculos escuros escondiam seus olhos.
Ele caiu contra a maçaneta assim que viu Emma.
— Carstairs — cumprimentou. Foi um som entre uma oração e um rosnado.
O telefone de Julian apitou.

LIVVY DISSE QUE NÃO SABE.

O homem ergueu uma sobrancelha.
— Ocupado? — perguntou ele sarcasticamente. E se virou para Emma. — Seu outro namorado era mais educado.
Emma enrubesceu.
— Esse não é meu namorado. É Jules.
— Claro. Eu devia ter reconhecido os olhos Blackthorn. — A voz de Rook ficou sedosa. — Você é muito parecido com seu pai, Julian.
Julian não gostou muito do sorriso do sujeito. Mas, para ser sincero, jamais gostou de nada no relacionamento de Emma e Rook. Mundanos que mexiam com magia, mesmo os que possuíam a Visão, eram um assunto indefinido na Clave – não havia uma Lei, mas as pessoas não deveriam se relacionar com eles. Quem precisasse de magia deveria contratar um bom feiticeiro, aprovado pela Clave.
Não que Emma ligasse para a aprovação da Clave.

LIVVY ESTÁ MENTINDO. ELA SEMPRE SABE ONDE TY ESTÁ. FAÇA ELA TE CONTAR.

Jules guardou o telefone no bolso. Não era incomum que Ty desaparecesse em cantos da biblioteca ou lugares na colina onde pudesse atrair lagartos para fora de suas pedras. E ele estava irritado, o que aumentava a probabilidade de se esconder.
O homem abriu a porta.
— Entrem — falou, em tom resignado. — Conhecem as regras. Nada de sacar armas, Carstairs. E nada de respostas petulantes.
— Defina “respostas petulantes” — pediu Emma, entrando. Julian foi atrás dela.
Uma onda de magia como fumaça espessa em um prédio pegando fogo o atingiu. Pairava no ar da pequena sala, quase visível à pouca luz que penetrava as cortinas amareladas. Prateleiras altas continham livros e manuais de poções, cópias de Martelo das feiticeirasPseudomonarchia Daemonum, A chave menor de Salomão e um volume vermelho-sangue com as palavras Dragon rouge na lombada. Um tapete amarelado que combinava com as cortinas repousava torto no chão; Rook o chutou de lado com um sorriso desagradável.
Embaixo dele havia um círculo de feitiço de giz, desenhado nos tacos de madeira. Era o tipo de círculo onde feiticeiros entravam quando invocavam demônios; o círculo criava uma parede protetora. Na verdade eram dois círculos, um dentro do outro, formando uma espécie de moldura, e dentro da moldura estavam os símbolos dos setenta Lordes do Inferno. Julian fez uma careta quando Rook entrou no círculo e cruzou os braços.
— Um círculo de proteção — disse ele desnecessariamente. — Você não pode entrar.
— E não pode sair — observou Julian. — Não com facilidade, pelo menos.
Rook deu de ombros.
— Por que eu quereria?
— Porque está brincando com magia muito poderosa.
— Não julgue — disse Rook. — Nós que não podemos manipular a magia do Céu, temos que usar o que conseguimos.
— Os símbolos do Inferno? — censurou Julian. — Existe algo no meio do caminho entre Inferno e Céu, certamente.
Rook sorriu.
— Tem o mundo inteiro — disse ele. — É um lugar bagunçado, Caçador de Sombras, e nem todos nós conseguimos manter as mãos limpas.
— Existe uma diferença entre sujeira e sangue — apontou Julian.
Emma lançou um olhar reprovador a ele, que dizia: estamos aqui porque precisamos de algo. Ela nem sempre precisava escrever na pele de Julian para ele saber o que ela estava pensando.
As cortinas balançaram, apesar de não haver nenhuma brisa.
— Olha só, não estamos aqui para incomodar — disse Emma. — Só queremos uma informação e vamos embora.
— Informação não sai de graça — afirmou Rook.
— Tenho uma coisa boa para você dessa vez. Melhor do que dinheiro — disse Emma. Evitando o olhar de Julian, ela pegou um pedaço claro de pedra comprida branco e prata do bolso do casaco. Ruborizou de leve, ciente do olhar de Julian quando ele percebeu o que ela segurava: uma lâmina serafim sem nome.
— O que ele vai fazer com adamas? — Julian quis saber.
— Adamas tratado pelas Irmãs de Ferro custa caro no Mercado das Sombras — respondeu Rook, sem tirar os olhos do prêmio de Emma. — Mas ainda depende do que queira saber.
— O Teatro da Meia-Noite e os Seguidores — propôs Emma. — Queremos saber sobre eles.
Rook cerrou os olhos.
— O que querem saber?
Emma deu um breve resumo dos eventos da noite anterior, deixando Mark de fora e não contando como descobriram sobre a Loteria. Quando terminou, Rook assobiou.
— Casper Sterling — comentou ele. — Sempre achei esse sujeito um idiota. Tagarelando sobre como ele era melhor do que lobisomens, e melhor do que humanos também. Não posso dizer que lamento por ter chegado a vez dele.
— Johnny — falou Emma com seriedade. — Vão matá-lo.
Uma expressão estranha passou pelo rosto de Rook, mas desapareceu rapidamente.
— E o que você quer que eu faça a respeito? É toda uma organização, Carstairs.
— Precisamos saber quem é o líder — explicou Julian. — Belinda se referiu a ele como o Guardião. É ele que temos que encontrar.
— Eu não sei — disse Rook. — Não sei se irritar os Seguidores é válido, nem em troca de adamas. — Mas manteve os olhos no objeto branco e prata.
Emma forçou a vantagem.
— Nunca vão saber que você teve qualquer relação com isso — garantiu ela. — Mas eu o vi flertando com Belinda no Mercado das Sombras. Ela tem que saber.
Rook balançou a cabeça.
— Ela não sabe.
— Hum — disse Emma. — Tudo bem, quem sabe?
— Ninguém. A identidade do líder é totalmente secreta. Não sei nem se é homem ou mulher. Pode ser Guardião ou Guardiã, entende?
— Se eu descobrir que você está me escondendo alguma coisa, Johnny — começou Emma com frieza —, haverá consequências. Diana sabe que estou aqui. Você não poderá me encrencar com a Clave. Mas eu posso encrencá-lo. Seriamente.
— Emma, esqueça — pediu Julian num tom entediado. — Ele não sabe de nada. Vamos pegar o adamas e sair daqui.
— Eles têm dois dias — retrucou Rook com a voz fina e irada. — Quando são sorteados. Têm dois dias antes da morte acontecer. — Ele encarou os dois, como se de algum jeito eles fossem culpados. — É magia solidária. A energia da morte de uma criatura sobrenatural incrementa o feitiço que fortalece a todos eles. E o líder... ele aparece para a morte. Disso eu sei. Se estiverem presentes no momento da morte, vão vê-lo. Ou vê-la. Quem quer que seja.
— O Guardião comparece aos assassinatos? — insistiu Emma. — Para coletar a energia?
— Então se seguirmos Sterling, se esperarmos até que alguém o ataque, veremos o Guardião? — Julian quis saber.
— Sim. Isso deve funcionar. Quero dizer, vocês são loucos se querem estar presentes em uma grande festa da magia negra, mas suponho que seja um problema de vocês.
— Suponho que sim — admitiu Julian. O telefone vibrou novamente.

LIVVY NÃO ME CONTA NADA. ELA SE TRANCOU NO QUARTO. ME AJUDA.

Um fio de preocupação se desenrolou no estômago de Julian, e ele disse a si mesmo que estava sendo tolo. Sabia que se preocupava demais com os irmãos. Ty provavelmente tinha ido atrás de algum bicho, estava brincando com um esquilo ou com um gato de rua. Ou poderia ter se isolado com um livro, sem vontade de socializar.
Julian respondeu:

VÁ LÁ FORA E PROCURE POR ELE NO JARDIM DOS FUNDOS.

— Continua mandando mensagem? — perguntou Rook, com o tom de voz zombeteiro. — Suponho que você tenha uma vida social intensa.
— Eu não me preocuparia — disse Julian. — Meu telefone está quase sem bateria.
O telefone vibrou de novo. ESTOU INDO PARA FORA, dizia, e então a tela ficou preta. Ele o guardou no bolso quando um grande estalo veio de baixo e, depois dele, um grito.
— Que diabos?! — exclamou Rook.
O choque na voz dele foi real; Emma também deve ter ouvido, porque ela já estava correndo para a escada que levava para baixo. Rook gritou atrás deles, mas Julian sabia que levaria um instante para que ele se livrasse do círculo de proteção. Sem mais uma olhada para Rook, ele correu atrás de Emma.


Kit Rook se escondeu nas sombras da escada. Vozes desciam de cima, junto à fraca luz do sol. Seu pai sempre o mandava para baixo, para a adega, quando recebia visitas. Principalmente o tipo de visita que o fazia correr atrás de giz para desenhar um círculo de proteção.
Kit só conseguia ver as sombras se movendo no andar de cima, mas ouviu duas vozes. Vozes jovens, para sua surpresa. Um menino e uma menina.
Ele tinha uma boa ideia de quem seriam, e não eram membros do Submundo. Ele viu a cara do pai quando bateram à porta. Rook não disse nada, mas só usava aquela expressão por um motivo: Caçadores de Sombras.
Nephilim. Kit sentiu o lento ardor da raiva em seu estômago. Ele estava sentado no sofá, vendo TV, e então estava encolhido no porão como um ladrão na própria casa porque Caçadores de Sombras achavam que tinham o direito de legislar sobre a magia. De dizer a todos o que devem fazer. De...
Uma figura avançou para ele nas sombras. Ela o atingiu forte no peito, e ele cambaleou para trás e bateu em uma parede atrás de si, perdendo o fôlego. Ele engasgou quando foi cercado por luz – uma luz clara, trazida por mão humana.
Algo afiado tocou a base da garganta de Kit. Ele respirou fundo e levantou os olhos.
Ele estava olhando diretamente para um menino da sua idade. Cabelos negros e olhos da cor da ponta de uma faca, olhos que desviaram dos seus quando o menino franziu o rosto. Ele tinha um corpo longo, magro e vestido de preto, e pele clara Marcada com os símbolos dos Nephilim.
Kit nunca chegara tão perto de um Caçador de Sombras. O menino estava com uma das mãos na luz brilhante – não era uma lanterna, nem nada eletrônico; Kit reconhecia magia quando via – e a outra segurava uma adaga cuja ponta tocava a sua garganta.
Kit já tinha imaginado antes o que faria se um Nephilim o pegasse. Pisaria no pé dele, quebraria os seus ossos, cuspiria na sua cara. Não fez nada disso, não pensou nenhuma dessas coisas. Ele olhou para o menino com a faca em sua garganta, o menino cujos cílios pretos tocavam as maçãs do rosto ao desviar o olhar de Kit, e sentiu algo como o choque do reconhecimento passar por si.
Ele pensou, que lindo.
Kit piscou os olhos. Apesar de o outro menino não estar olhando diretamente para ele, pareceu notar o movimento. Em um sussurro áspero, ele indagou:
— Quem é você? O que está fazendo aqui? Você é jovem demais para ser Johnny Rook.
Ele tinha uma voz adorável. Clara e baixa, com uma aspereza que o fazia soar mais velho do que era. A voz de um menino rico.
— Não — disse Kit. Ele se sentiu tonto e confuso, como se um flash brilhante tivesse acendido em seus olhos. — Não sou. — O menino continuava não olhando diretamente para Kit. Como se Kit não fosse digno do seu olhar. A sensação de choque estava começando a desaparecer, a ser substituída por raiva. — Vá em frente — disse Kit, desafiando. — Descubra.
A expressão do menino escureceu, depois, clareou.
— Você é filho dele — declarou. — Filho de Johnny Rook.
E então o lábio dele se curvou, uma curva singela de desprezo, e Kit sentiu a raiva ferver dentro de si. Ele chegou rápido para o lado, para longe da adaga, e deu um chute. O outro menino girou, mas Kit o pegou com um golpe. Ele ouviu um grito de dor. A luz caiu da mão do menino, se apagando, e então Kit estava sendo empurrado para a parede outra vez, um punho fechando na camisa dele, a adaga novamente em sua garganta, e o menino sussurrava:
— Quieto, quieto, quieto. — E então o recinto se encheu de luz.
O outro menino congelou. Kit olhou para cima para ver outros dois Caçadores de Sombras nos degraus da adega: um menino com olhos azul-esverdeados brilhantes, e a menina loura que ele vira no Mercado das Sombras na semana anterior. Os dois olhavam para baixo – não para ele, mas para o menino que o segurava pela camisa.
O menino fez uma careta, mas se segurou, a provocação espalhando alarme por seu rosto. A-ha, pensou Kit, percebendo as coisas. Você não deveria estar aquinão é mesmo?
— Tiberius Blackthorn — chamou o menino de olhos azul-esverdeados. — O que você está fazendo?


Emma ficou parada olhando para Ty, completamente surpresa. Foi como se o Instituto de repente tivesse aparecido no meio da adega de Johnny Rook: a visão de Ty era familiar e ao mesmo tempo totalmente incongruente.
Ty parecia mais amarrotado e esfarrapado do que ela via há anos, apesar de segurar a adaga com firmeza. Diana teria ficado feliz. Provavelmente não ficaria satisfeita com o fato de que ele estava apontando a arma para a garganta de um mundano – ele parecia ter cerca de 15 anos, e era estranhamente familiar. Ela já o tinha visto antes, percebeu, no Mercado das Sombras. Seu cabelo era uma massa emaranhada loura; a camisa estava limpa, porém, rasgada, os jeans desbotados para uma cor mais clara. E ele parecia pronto a dar um soco em Ty, o que era incomum para um mundano na posição dele. A maioria se desconcentrava mais quando tinha um faca na garganta.
Ty chamou Julian de novo. Ele parecia furioso, fúria com uma pontada de pânico.
— Ty, solte o filho de Johnny.
Os olhos do menino louro se arregalaram.
— Como você... como você sabe quem eu sou? — Ele quis saber.
Julian deu de ombros.
— Quem mais você poderia ser? — Ele inclinou a cabeça para o lado. — Talvez você saiba alguma coisa sobre a Loteria no Teatro da Meia-Noite?
— Jules — disse Emma. — Ele é só uma criança.
— Não sou criança! — O menino protestou. — E meu nome é Kit.
— Estamos tentando ajudar — avisou Julian. O menino louro, Kit, franziu o rosto. Julian suavizou a voz. — Estamos tentando salvar vidas.
— Meu pai me disse que isso é o que os Caçadores de Sombras sempre dizem.
— Você acredita em tudo que ele diz?
— Ele tinha razão nessa, não tinha? — observou Kit. Seu olhar desviou para Emma; ela se lembrou de ter notado que ele tinha a Visão. Achou que ele fosse assistente de Rook, contudo, e não seu filho. Eles não se pareciam em nada. — Você disse isso.
— Quis dizer... — começou Julian.
— Não sei nada sobre nenhuma loteria — disparou Kit, e ele olhou para Tiberius.
O mais estranho, talvez, era o fato de que Ty o encarava. Emma se lembrou de Ty, há alguns anos, dizendo, por que as pessoas dizem "olha para mim” quando querem dizer “olha nos meus olhos"? Você pode olhar para qualquer parte da pessoa que vai estar olhando para ela. Mas ele estava olhando curioso para os olhos de Kit, como se eles lembrassem alguma coisa.
— Kit! — A voz foi um rugido. Emma ouviu tropeços na escada, e Johnny Rook apareceu. Uma das mangas estava queimada. Emma jamais o tinha visto tão furioso. — Deixe meu filho em paz!
Ty ajeitou o punho na faca, endireitando a coluna. E olhou para Johnny Rook sem qualquer sombra de medo.
— Conte-nos sobre a Loteria — ordenou.
Kit fez uma careta. Emma viu, mesmo no escuro. Ty não parecia assustador para ela, mas, pensando bem, ela o pegou no colo quando ele tinha 3 anos de idade. O medo, porém, estava evidente no rosto de Johnny Rook: até onde ele sabia, os Nephilim tinham trazido um Caçador de Sombras para o porão para matar seu filho.
— Darei o endereço de Casper Sterling — propôs ele quando Kit o encarou, espantado. Claramente ele não costumava ver seu pai tão abalado. — Eu tenho, tudo bem? Ele tem várias identidades, não é fácil encontrá-lo, mas sei onde mora. Tudo bem? É o suficiente? Solte o meu filho!
Ty abaixou a faca e deu um passo para trás. Ele continuou segurando-a; os olhos em Kit enquanto o menino esfregava a garganta.
— Pai, eu... — começou Kit.
— Quieto, Kit. — Johnny se irritou. — Eu já disse. Não diga nada na frente dos Nephilim.
— Estamos do mesmo lado — falou Julian com a mais calma das vozes.
Johnny Rook virou para ele. O rosto dele estava rubro, a garganta se mexendo.
— Não ouse me dizer de que lado estou, você não sabe de nada, nada...
— Chega! — gritou Emma. — Pelo Anjo, do que é que você tem tanto medo?
Johnny fechou a boca.
— Não tenho medo — disse entre dentes. — Saiam daqui. Saiam e nunca mais voltem. Vou mandar o endereço por mensagem, mas, depois disso, não liguem, não me peçam favores. Acabou, Nephilim — decretou ele.
— Tudo bem — disse Emma, gesticulando para Ty vir para perto dela e de Julian. — Nós vamos. Ty...
Ty guardou a faca no cinto e subiu as escadas. Julian se virou e foi atrás dele.
O menino na base da escada não os viu indo embora; estava com os olhos fixos no pai.
Ele não era muito mais novo do que Emma – talvez um ou dois anos – mas ela, de repente, sentiu uma onda protetora inexplicável em relação ao filho de Johnny Rook. Se ele tinha a Visão, então, todo o Submundo era aberto para ele: apavorante e inexplicável. De certa forma, ele era como Tiberius, vivendo em um mundo diferente do que todos à sua volta enxergavam.
— Tudo bem, Johnny — disse Emma outra vez, mais alto. — Mas se mudar de ideia, você tem meu telefone. Carstairs.
Johnny Rook olhou para ela.
— Me liga — disse Emma novamente, e dessa vez olhou para Kit. — Se precisar de alguma coisa.
— Saia daqui. — Rook parecia prestes a explodir, ou a ter um enfarto, então, com uma última olhada por cima do ombro, Emma se foi.


Emma encontrou Ty perto do carro. Nuvens tinham se acumulado, voando com sopros de vento no céu. Ty estava apoiado na mala, a brisa soprando seus cabelos pretos.
— Onde está Jules? — perguntou ela ao se aproximar.
— Ali. — Ele apontou. — Eu entrei na casa com um símbolo de Abertura. Quebrei a tranca do porão. Ele está consertando.
Emma olhou para a casa de Johhny Rook e viu a figura comprida e esguia de Jules contornada pela parede. Ela abriu a mala do carro, soltando o cinto de armas.
— Como foi que você chegou aqui?
— Eu me escondi no banco de trás. Embaixo do cobertor. — Ty apontou. Emma viu a ponta de um par de fones de ouvido aparecendo por baixo da coberta. — Acha que Julian está bravo comigo? — Sem a faca, ele parecia tão novinho, os olhos cinzentos claros e abertos fixos nas nuvens do céu.
— Ty. — Emma suspirou. — Ele vai te “assassitar”.
Julian estava voltando para a direção deles. Ty disse:
— Isso é um neologismo.
Emma piscou os olhos.
— O quê?
— Uma palavra que você inventou. Shakespeare inventava palavras o tempo todo.
Emma sorriu para ele, estranhamente tocada.
— Bem, “assassitar” não é exatamente Shakespeare.
Ty se preparou quando Julian veio diretamente para ele, sem interromper o ritmo, a mandíbula firme, os olhos azul-esverdeados tão escuros quanto o fundo do oceano.
Ele alcançou o irmãozinho e o pegou, puxando-o em um abraço apertado. E apertou o rosto contra o cabelo escuro de Ty enquanto ele ficou parado, espantado pela ausência de raiva em Julian.
— Jules? — disse ele. — Você está bem?
Os ombros de Julian sacudiram. Ele segurou o irmão com mais força, como se pudesse esmagar Ty contra si, para um lugar onde ele sempre estaria seguro.
Ele apoiou a bochecha nos cachos do menino, fechando os olhos, com a voz abafada.
— Achei que tinha acontecido alguma coisa com você — disse ele. — Pensei que Johnny Rook pudesse...
Ele não concluiu a frase. Ty abraçou Julian cautelosamente. Afagou as costas dele, gentil; as mãos esguias. Foi a primeira vez que Emma viu Ty consolar o irmão mais velho, praticamente a primeira vez que ela viu Julian permitir que alguém cuidasse dele.


Ficaram em silêncio pelo caminho de volta ao Instituto; silenciosos enquanto as nuvens clareavam, sopradas pelo vento do mar. O sol estava baixo no horizonte enquanto seguiam pela Pacific Coast Highway. Continuaram em silêncio enquanto saltavam do carro, e Julian finalmente falou.
— Você não devia ter feito aquilo — disse, olhando para Tiberius. Tinha parado de tremer, ainda bem, já que estava dirigindo; a voz era firme e suave. — Era muito perigoso levá-lo conosco.
Ty colocou as mãos nos bolsos.
— Sei o que você pensa. Mas essa investigação também é minha.
— Mark me mandou uma mensagem para avisar que você estava sumido — contou Julian, e Emma se assustou; ela devia ter adivinhado que era isso que Jules estava fazendo ao telefone. — Eu quase saí da casa de Rook. Acho que ele não teria nos deixado entrar de novo.
— Sinto muito que tenha se preocupado — desculpou-se Ty. — Por isso, eu o abracei na saída da casa de Rook, porque me senti mal por você ter se preocupado. Mas eu não sou Tavvy. Não sou criança. Não preciso estar sempre no lugar para você ou Mark me encontrarem.
— E também não devia ter entrado na casa de Rook. — A voz de Julian se elevou. — Não era seguro.
— Eu não estava planejando entrar. Só queria ver a casa. Observar. — A boca suave de Ty enrijeceu. — Então vi quando vocês entraram, e vi alguém lá embaixo. Achei que ele fosse subir e atacar quando vocês não estivessem esperando. Eu sabia que vocês não tinham ideia que havia alguém ali.
— Jules — disse Emma. — Você teria feito a mesma coisa.
Jules a olhou exasperado.
— Ty só tem 15 anos.
— Não diga que é perigoso porque tenho 15 anos — disse Ty. — Você fez coisas tão perigosas quanto quando tinha 15 anos. E Rook não teria dado o endereço de Sterling se eu não estivesse com uma faca na garganta do filho dele.
— É verdade — disse Emma. — Ele entrou muito rápido naquele círculo de proteção.
— Você não tinha como saber que o filho dele estava escondido lá embaixo — censurou Julian. — Você não podia ter previsto o que ia acontecer, Ty. Foi sorte.
— Previsão é magia — disse Ty. — Não foi isso. E também não foi sorte. Eu já ouvi Emma falar sobre Rook. E Diana. Ele pareceu o tipo de pessoa que esconderia coisas. Em quem não se pode confiar. E eu acertei. — Ele olhou fixamente para Jules; não estava olhando nos olhos dele, mas o olhar era direto. — Você sempre quer me proteger — falou. — Mas nunca me diz quando tenho razão. Se me deixasse tomar minhas próprias decisões, talvez não se preocupasse tanto.
Julian ficou chocado.
— Pode ajudar, sabemos que Rook tem um filho — disse Ty, soando confiante. — Não tem como saber que não. Eu consegui o endereço de Sterling. Eu ajudei, mesmo você não me querendo lá.
À pouca luz que vazava do Instituto, Julian parecia mais vulnerável do que Emma jamais havia visto.
— Desculpe — falou, quase formalmente. — Não tive a intenção de fazer parecer que você não tinha ajudado.
— Eu conheço a Lei — disse Ty. — Sei que 15 anos não é adulto. Sei que precisamos do tio Arthur e de você. — Ele franziu o rosto. — Quero dizer, não sei cozinhar nada, Livvy também não. E eu não saberia colocar Tavvy para dormir. Não estou falando que você precisa me encarregar das coisas, ou me deixar fazer o que eu quiser. Sei que existem regras. Mas algumas coisas... Talvez Mark pudesse fazer?
— Mas Mark... — Julian começou, e Emma sabia qual era o medo dele.
Talvez Mark não fique. Pode não querer ficar.
— Mark está apenas voltando a conhecer a todos nós e saber como é estar aqui — avaliou Julian. — Não sei se podemos pedir isso para ele.
— Ele não se importaria — disse Ty. — Ele gosta de mim. Gosta da gente.
— Ele te ama — afirmou Julian. — E eu também te amo. Mas, Ty, Mark pode não... Se não encontrarmos o assassino, Mark pode não ficar aqui.
— Por isso que quero ajudar a resolver o mistério — falou Ty. — Para ele poder ficar. Ele poderia cuidar da gente, e você poderia descansar. — Ele fechou o casaco, tremendo; o vento do mar estava muito frio. — Eu vou entrar e achar Livvy. Mark também. Ele deve estar preocupado.
Julian ficou olhando para Ty enquanto ele voltava para casa. O olhar no rosto dele... era como se Emma estivesse olhando para uma das pinturas dele, amassada e rasgada, as cores e linhas confusas.
— Todos eles pensam isso, não pensam? — disse ele lentamente. — Todos acham que Mark vai ficar.
Emma hesitou. Há alguns dias, ela teria dito a Julian para não ser ridículo. Que Mark ficaria com a família, de qualquer jeito. Mas ela vira o céu noturno nos olhos de Mark quando ele falou sobre a Caçada, ouviu a liberdade fria em sua voz. Existiam dois Marks, ela, às vezes, pensava. O Mark fada era imprevisível.
— Como poderia não achar?! — exclamou Emma. — Se de algum jeito eu conseguisse algum dos meus pais de volta... e depois achasse que eles iriam embora outra vez, voluntariamente...
Julian estava pálido.
— Vivemos em um mundo de demônios e monstros, e a coisa que me assusta é a ideia de Mark resolver que o lugar dele é com a Caçada Selvagem, que ele nos deixe outra vez. Mesmo que a gente resolva o mistério e satisfaça o Povo das Fadas. Mesmo assim ele pode ir. E vai destruir os corações de todos eles. Eles nunca mais vão se recuperar.
Emma chegou mais perto de Julian e colocou a mão no ombro dele.
— Você não pode protegê-los de tudo — disse ela. — Eles precisam viver no mundo e lidar com o que acontece nele. E isso às vezes significa sofrer perdas. Se Mark escolher partir, vai ser horrível. Mas eles são fortes. Vão sobreviver.
Fez-se um longo silêncio. Finalmente Julian falou, com a voz seca e tensa:
— Às vezes, eu quase queria que Mark não tivesse voltado. O que isso faz de mim?
H-U-M-A-N-O, escreveu Emma nas costas dele, e por um instante ele se apoiou nela, parecendo extrair conforto da garota, como parabatai deveriam fazer. Os ruídos do deserto se reduziram em volta deles – era algo que os parabatai conseguiam fazer, criar um espaço calmo onde não havia nada além deles e a conexão viva da magia que os ligava.
Uma batida alta interrompeu o silêncio. Julian se afastou de Emma com um susto. Outra batida, claramente de dentro do Instituto. Julian girou; um instante mais tarde ele corria pelos degraus, de volta para casa.
Emma foi atrás. Mais barulho: ela ouviu mesmo na escadaria, louças batendo, vozes rindo. Eles correram para cima, lado a lado. Emma chegou primeiro na cozinha e abriu a porta.
Ficou boquiaberta.

9 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira1 de julho de 2016 17:21

    MARK NA COZINHA HAHAHHAHAHAHHAHA

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    1. Mds Ja To Imaginando kkkkkk

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  2. Caçadora de sombras11 de julho de 2016 15:35

    Kit já tinha imaginado antes o que faria se um Nephilim o pegasse. Pisaria no pé dele, quebraria os seus ossos, cuspiria na sua cara. Não fez nada disso, não pensou nenhuma dessas coisas. Ele olhou para o menino com a faca em sua garganta, o menino cujos cílios pretos tocavam as maçãs do rosto ao desviar o olhar de Kit, e sentiu algo como o choque do reconhecimento passar por si.
    Ele pensou: que lindo.
    Kit me representando <3 Agr descobri o que é Kitty, e já shippo <3

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  3. ''Kit já tinha imaginado antes o que faria se um Nephilim o pegasse. Pisaria no pé dele, quebraria os seus ossos, cuspiria na sua cara. Não fez nada disso, não pensou nenhuma dessas coisas. Ele olhou para o menino com a faca em sua garganta, o menino cujos cílios pretos tocavam as maçãs do rosto ao desviar o olhar de Kit, e sentiu algo como o choque do reconhecimento passar por si.''
    Pq ele reconheceu o Ty?

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    1. Porque eles estão destinados a ficar juntos, imagino

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    2. Esse é um pensamento bonitinho, mas n tenho certeza se é só isso u_u

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  4. — O que está acontecendo? — Foi Julian que perguntou. Ele havia tirado o terno e estava parado na entrada. Emma não conseguia descrever a expressão em seu rosto ao olhar de Mark para ela. Jamais vira Jules assim. — Se os dois estão ocupados — falou, e a voz parecia a ponta de uma faca — posso voltar outra hora. Kkkkkk na hora pensei: Que bonito hein, será que eu estou atrapalhando o casalzinho ai? Ahauabau Julian ciumento.

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  5. ''Ele pensou, que lindo.''
    Que lindo é esses dois. Vou botar num potinho e proteger <3
    Botar o Jules e a Emma num outro.
    E a Cristina e o Mark em outro.
    E o Tavvy em outro.
    Ah, quer saber? Bota todos os Blackthorn e cia num potinho pq todos são adoráveis e precisam ser protegidos a todo custo.

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