24 de julho de 2016

Capítulo 14

Will e Horace estavam várias centenas de metros atrás do grupo scotti quando eles o seguiram pela floresta. Se Will estivesse sozinho, poderia ter mantido contato muito mais próximo, mas junto com Horace, sentiu que seria mais prudente manter a distância. O guerreiro alto não era desajeitado de qualquer maneira. De fato, na medida normal dos cavaleiros, ele era muito gracioso. Mas isso não significava nada em comparação com a capacidade de um arqueiro mover-se silenciosamente através da floresta. Enquanto ele seguia Will ao longo da trilha estreita, Horace sentia-se como se tivesse patas de urso.
— Eu não sei como você faz isso — disse ele depois de um tempo.
Will olhou para ele, suas sobrancelhas levantadas com a questão, de modo que Horace sentiu-se compelido a elaborar.
— Como vocês arqueiros se movem tão silenciosamente — explicou.
Will franziu ligeiramente, em seguida, voltou para seu lado.
— Bem, para começar — disse ele em voz baixa — nós arqueiros não andamos gritando “eu não sei como você faz isso”.
Horace estava um pouco cabisbaixo. Ele baixou a voz para um sussurro.
— Ah... certo. Desculpa.
Will balançou a cabeça e afastou-se novamente. Horace o seguia cerca de cinco metros atrás, vendo onde ele colocava seus pés e pisava com cuidado exagerado. A grossa camada de neve na estrada ajudava de fato, ele pensou. E a neve caindo poderia ocultá-los de vista. Na verdade, Will, em seu manto preto-e-branco manchado, continuava desaparecendo da vista de Horace mesmo em uma distância de cinco metros.
Liderando o caminho, Will rangia os dentes a cada galho que estalava sob os pés de Horace. O guerreiro parecia ter pés excepcionalmente grandes, ele pensou. Eles certamente pareciam encontrar um monte de galhos para quebrar. Ainda assim, sabia que estavam longe o suficiente dos scottis para que os ruídos provocados por Horace passassem despercebidos enquanto seguia as pegadas do bando na neve recém-caída. Felizmente, não estava caindo rápido o suficiente para cobri-las completamente.
Eles estavam indo para Macindaw obviamente, esta faixa levava para o castelo e nenhum outro lugar. As árvores estavam em crescimento e eram relativamente novas, nada como as espessas, emaranhadas e impenetráveis plantas que marcavam a Floresta Grimsdell, que ficava a leste.
Em Grimsdell, se você encontrasse um caminho a seguir, seria a metade da largura deste caminho relativamente claro. E ele iria torcer e andar em círculo e sentir vento como uma serpente que, após alguns minutos, você não tinha noção de para onde estava indo.
Eles estavam se aproximando do final das árvores agora, e Will moveu-se mais lentamente, fazendo sinal para Horace permanecer onde estava por alguns minutos, enquanto Will espiava a frente.
Como as árvores diminuindo, ele poderia ver o pequeno grupo de guerreiros scottis mais claramente. Eles ainda estavam se movendo nessa corrida lenta, cruzando o campo aberto, onde o tojo e samambaia cresciam apenas abaixo do joelho. Eles estavam quase no castelo, cuja porta principal estava no lado sul. Enquanto observava, os scottis desviavam em direção à entrada principal.
Mesmo a esta distância, Will podia ver a enxurrada de movimentação nas muralhas do castelo enquanto o grupo se aproximava. Mas não havia sons de alarme. Sem gongos, sem gritos. Os scottis, obviamente, não eram considerados uma ameaça.
Virando-se, ele trotou de volta através da floresta até o local onde ele havia deixado Horace.
— Eles estão indo para Macindaw, tudo certo — disse ele. — E são esperados. Vamos.
Ele abriu o caminho para o sudeste, se infiltrando através da floresta até o local onde se progressivamente incorporava a parte maior que era Grimsdell. Não havia maneira de ele e Horace se moverem no terreno aberto para seguir os scottis. Eles teriam de ficar ao abrigo da linha de árvores. Isso significava que os rapazes cobririam dois lados compridos de um triângulo, enquanto os scottis foram para o mais curto, a rota mais direta.
No momento em que eles chegaram a um ponto onde poderiam manter a muralha sul à vista, as portas do castelo abriram, admitindo o general scotti e seus homens, e fecharam novamente.
Os dois amigos estavam de barriga para baixo, à sombra das árvores, olhando para o castelo.
— O que você acha que eles estão fazendo? — Horace perguntou.
Will deu de ombros.
— MacHaddish é um general, e os generais geralmente comandam mais do que um punhado de homens. Meu palpite é que ele tem uma força maior a espera na fronteira e está fazendo os acordos finais com Keren para trazê-los ao Sul... discutindo números de homens, quanto eles vão pagar a Keren... esse tipo de coisa.
— Então, é um grupo de ataque? — Horace perguntou, e Will assentiu, pensativo.
— Pelo menos. Talvez algo maior. Seja o que for, não gosto do que isso está parecendo.
Horace esticou incomodado. Ao contrário de Will, ele nunca poderia se manter imóvel em um só lugar por muito tempo.
— Precisamos saber o que estão fazendo — disse ele.
Will sorriu para ele.
— Tenho certeza de que Malcolm será capaz de descobrir por nós quando capturarmos o nosso amigo MacHaddish.
Horace assentiu pensativo.
— Temos de fazer isso em primeiro lugar — ressaltou.
— É verdade. Quantos homens você contou? — Will perguntou.
Ele achava que sabia, mas não fazia mal ter certeza.
— Contando o general? Nove.
— Isso é o que eu pensava. Então acho que você, eu e dez dos escandinavos devemos ser capazes de fazer o trabalho.
Horace parecia cético.
— Doze de nós? Nós realmente precisamos de tantos? Afinal, estaremos pegando-os de surpresa.
— Eu sei — Will disse. — Mas nós queremos levá-lo vivo, lembra?
— Isso é verdade. Quando você acha que vamos fazer isso?
Will deu de ombros.
— Não acredito que eles vão gastar mais do que um dia aqui. Os guardas do castelo estavam esperando. Eu diria que eles estão planejando isso há algum tempo e agora estão resolvendo os detalhes de última hora. É melhor estar na posição antes de escurecer. De volta ao local onde acampamos.
— É um lugar tão bom quanto qualquer outro — Horace concordou. — Então você quer que eu vá e recolha Gundar e alguns de seus homens, enquanto você mantém um olho nas coisas aqui?
Will rolou do lado dele para estudá-lo.
— Você tem certeza que pode encontrar o caminho de volta para a clareira de Malcolm? — Ele perguntou, e Horace sorriu para ele.
— Eu acho que mesmo sendo um velho desajeitado ruidoso eu posso fazer isso. Will, vamos encontrá-lo aqui ou no nosso acampamento?
Will pensou por alguns segundos. Por conta própria, ele seria capaz de atravessar como um fantasma todo o terreno aberto, uma vez que estava escuro. Dessa forma, ele poderia esperar até ter certeza de que os scottis estavam a caminho e ainda chegar antes deles ao local da emboscada.
— Leve-os para onde acampamos — disse ele. — Deixe um vigia na linha de árvores para avisá-lo quando eles estiverem vindo, só no caso de eu perde-los de vista.
Por um momento, ele foi tentado a entrar em detalhes sobre como configurar a emboscada em si, mas percebeu que Horace poderia organizar esse tipo de coisa tão bem quanto ele poderia. Horace bateu a mão no ombro de Will e levantou do chão, tendo o cuidado de se manter na sombra sob as árvores.
— Nos vemos lá — disse ele.


Pelo meio da tarde, mesmo a paciência Will estava sendo testada. Ele estava desejando que tivesse pedido para Horace enviar alguém de volta da clareira para espiar com ele. Pelo menos, seria capaz de fazer uma pausa e até mesmo dormir por uma hora ou assim.
Estranhamente, depois de um tempo, simplesmente deitar na linha da árvore olhando para o castelo tornou-se extremamente cansativo. Em um ponto, Will encontrou-se na iminência de cochilar. Sacudiu-se, tomou algumas respirações profundas e retomou sua vigília. Dentro de alguns minutos, sentiu seu foco à deriva e seu queixo cair sobre o peito novamente.
— Isso não é bom — disse ele, irritado.
Levantando-se ele começou a andar para trás e para frente.
Permanecer ativo parecia era a melhor maneira de ficar acordado. A neve continuava a cair de forma intermitente durante todo o dia, e o campo estava envolto em uma capa grossa agora. A luz começou a desaparecer, e Will percebeu que poderia ser melhor se ele voltasse para as árvores do norte do castelo. Se os scottis surgissem agora, havia uma chance de que Will pudesse os perder de vista até que fosse tarde demais.
Claro, pensou, ele estava apenas imaginando que eles iriam sair esta noite. Talvez Keren fosse entretê-los no castelo com um banquete. Eles podem muito bem ficar mais um ou dois dias para descansar antes da viagem para casa. Mas de alguma forma, ele duvidou. Ele tinha visto de perto o rosto fechado do general scotti, e ele não parecia ser o tipo de homem que iria perder seu tempo em banquetes ou relaxando.
Ele passou poucos minutos na habitual preparação, observação os ritmos naturais da terra em torno dele, o movimento de queda de neve, a forma como o vento suave agitava os arbustos e as árvores. Então, quando se sentiu em sintonia com tudo isso, ele se abaixou e deslizou através do terreno aberto, à luz incerta.
Visto a uma distância de dez metros, ele pareceu desaparecer no fundo. A partir das muralhas do castelo a várias centenas de metros de distância, não havia nenhuma chance de que um observador tivesse notado o arqueiro.


De volta a Clareira do Curandeiro, como já era do conhecimento geral, Orman e Malcolm assistiam Horace liderar o grupo de escandinavos na direção das árvores. Era notável, Orman pensou como alguém tão jovem podia exercer autoridade sobre esse contingente de batalha escandinavo. Malcolm parecia ter chegado à mesma conclusão.
— Você tem sorte de ter os dois ao seu lado — disse ele, e Orman sabia que ele estava se referindo à Will e Horace. — Eles são jovens muito talentosos.
Orman assentiu.
— Eles fazem uma excelente equipe também. — Então ele olhou para o pequeno curandeiro com um olhar de soslaio. — Ocorre-me que eu tenho sorte com todos os meus novos aliados.
Malcolm encolheu timidamente. Contudo Orman sentiu que era hora de ele continuar com o assunto.
— Afinal — ele disse — você me deve nada. Você escolheu anos atrás isolar-se na floresta aqui e cortar o contato com o mundo exterior. — Ele suspirou pesadamente. — Eu não posso culpá-lo por isso.
— Eu estive razoavelmente satisfeito, suponho — Malcolm respondeu.
— E agora você está arriscando tudo isso — disse Orman.
Malcolm fez uma careta.
— Eu estou? — O pensamento parece estar ocorrendo a ele pela primeira vez. — Eu suponho que estou, realmente — ele concordou.
— Todos os dispositivos de proteção e ilusões foram expostos como truques.
— Você estava pensando em dizer ao mundo? — Malcolm perguntou com um pequeno sorriso.
Orman balançou a cabeça.
— Claro que não. Mas uma vez que o segredo está quebrado, tem um jeito de sair. Toda a sua gente aqui vai estar em risco de novo.
Malcolm sorriso desvaneceu-se com isso.
— Eu sei — disse ele por último. — Considerei isso, mas realmente, o que eu podia fazer? Will e seu homem Xander chegaram aqui com você na porta da morte. Que escolha eu tinha?
— Você poderia ter nos afastado — respondeu Orman, mas Malcolm estava sacudindo a cabeça antes que ele tivesse terminado a frase.
— Eu sou um curandeiro — disse simplesmente. — Eu jurei dedicar a minha vida à essa arte. Se mandasse vocês embora, eu seria um quebrador de juramento. Você vê? — Acrescentou, com um traço de sorriso triste rastejando de volta para seu rosto. — Você me colocou em uma posição impossível.
Orman assentiu. Ele aceitou o fato, que era o motivo de ter levantado a questão com Malcolm.
— Eu entendo isso. Mas quero que você saiba, as coisas serão diferentes no futuro. Você estará sob a proteção do Castelo de Macindaw.
Malcolm pensou por alguns segundos.
— Eu agradeço a oferta — disse ele. — Mas você não se importa se eu permanecer na floresta? Estou habituado as coisas aqui. E eu não poderia deixar o meu povo.
— Eu não esperaria que você fizesse isso — Orman disse ele. — Só quero que você saiba que não vai precisar se esconder mais aqui. Vou lhe dar toda a proteção que precisa. E quaisquer outras práticas de ajuda que você possa pedir.
Os dois homens apertaram as mãos solenemente. Malcolm abriu a boca para dizer alguma coisa, então hesitou.
— O quê? — Orman solicitou.
— Bem — o curandeiro disse relutantemente — eu odeio ter de falar, mas estes escandinavos estão comendo toda minha comida... e em casa, os nossos dois jovens estão a acabando com o meu estoque de grãos de café como uma praga de gafanhotos.
Orman sorriu.
— Eu vou cuidar disso — disse ele. — Vou pedir para Xander comprar alguns suprimentos na vila da Ruína da Enseada. Ele pode pôr a mão no meu bolso para pagar por eles. Embora — acrescentou ele, e o sorriso aumentou consideravelmente — provavelmente vai quebrar seu coração fazer isso.

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