24 de julho de 2016

Capítulo 12

Estava nevando novamente. A nuvem pesada mascarava a chegada do amanhecer, especialmente na floresta, onde Will e Horace estavam acampados. Consequentemente, não houve momento em que Will sabia que o sol se tinha levantado apenas um gradual brilho à luz acinzentada que cobria o campo. Sem perceber a transição da escuridão para a luz, Will percebeu que podia ver claramente a mão quando ele a ergueu, onde poucos minutos antes havia sido consciente apenas de uma mancha escura.
Seu pequeno acampamento, composto por uma tenda baixa de dois homens e um abrigo de lona esticada entre duas árvores, estava em uma clareira que eles tinham feito vinte metros ao lado da estrada que levava em direção à fronteira com Picta. Eles estavam longe o suficiente da trilha para permanecerem despercebidos por quem passava, mas perto o suficiente para ouvir, se alguém o fizesse.
Dois dias haviam se passado desde que Will tinha lido a mensagem de Alyss. Os dois companheiros decidiram vigiar a estrada, a fim de interceptar e observar o misterioso general scotti quando ele chegasse. Uma vez que eles soubessem o tamanho do seu grupo, poderiam organizar uma emboscada para sua viagem de retorno.
Além do seu posto de observação, Malcolm tinha colocado uma rede de observadores na floresta, vigiando as trilhas e caminhos que desciam das montanhas que barravam o caminho para Picta. Seu povo estava acostumado a ver sem ser visto, ele lhes disse. Sua segurança tinha dependido durante anos de sua capacidade de permanecerem ocultos.
Na tenda, Will ouviu Horace se agitar. Então o rosto do guerreiro, um emaranhado de cabelos e olhos turvos, apareceu na pequena entrada triangular. Will estava sentado sobre os calcanhares sob o abrigo de lona.
— Bom dia — disse Horace rabugento.
Will assentiu sem dizer nada. Horace rastejou para fora, através da entrada da barraca. Ele pensou que era impossível sair de uma barraca pequena como esta sem terminar com duas manchas molhadas sobre os joelhos. Ele saiu com firmeza, se esticando e gemendo levemente.
— Algum sinal deles? — perguntou.
Will olhou para ele.
— Sim — disse ele. — Um grupo de cinquenta scottis passou apenas vinte minutos atrás.
— Sério? — Horace olhou assustado.
Ele não estava completamente acordado ainda.
Will revirou os olhos para o céu.
— Ah, minha palavra, sim — disse ele. — Eles estavam andando sobre bois e tocando gaita de foles e tambores. Claro que não — continuou. — Se eles tivessem passado, eu teria te acordado, apenas para parar seu ronco.
— Eu não ronco — disse Horace, com dignidade.
Will ergueu as sobrancelhas.
— É isso mesmo? — disse. — Então, nesse caso, é melhor você perseguir a colônia de leões-marinhos que está na tenda com você.
Horace pegou o cantil pendurado em uma árvore próxima e tomou um gole longo de água gelada. Depois remexeu em uma embalagem de um pedaço de pão duro e algumas frutas secas. Ele franziu para elas.
— Café da manhã — disse ele com desgosto.
Will encolheu antipaticamente.
— Já tive piores.
Horace mordeu um pedaço de pão e agachou-se ao lado do arqueiro sob o toldo de lona. Já havia neve em seu cabelo e ele espanou os ombros dos poucos minutos que ele havia passado ao ar livre.
— Assim como eu — disse ele. — Mas não tenho que gostar disso.
Eles sentaram em silêncio por alguns minutos. Horace deslocou-se incansavelmente diversas vezes. Will, treinado para permanecer em silêncio e imóvel por horas, considerava o seu velho amigo com simpatia. Guerreiros eram, por definição, homens de ação. Isso ia contra todo o seu treinamento, simplesmente sentar e esperar os eventos tomarem seus lugares. Mais para diminuir o tédio de Horace da espera do que por qualquer outra razão, ele perguntou:
— Você vê muito a Evanlyn estes dias?
Horace olhou para ele rapidamente. Evanlyn era a princesa Cassandra de Araluen. Quando Will e Horace a tinham conhecido, ela tinha viajado com o nome Evanlyn. Horace sabia que havia uma ligação especial entre Will e a princesa quando ambos tinham sido prisioneiros dos escandinavos.
Ele questionou o quão forte esse vínculo era nestes dias. Foi a primeira vez que Will havia mencionado ela desde que Horace tinha chegado. Não é de estranhar, realmente, ele pensou. Eles tiveram pouca oportunidade para discutir questões pessoais desde que chegou ao feudo. O recrutamento dos escandinavos, os sinais de Alyss e agora a iminente chegada do general scotti tinha tomado a maior parte da sua atenção.
— Eu a vejo de vez em quando — disse ele brevemente.
Will assentiu, dando nada de graça.
— Inevitável, eu suponho — disse ele. — Afinal, você está baseado no castelo. Eu suponho que você topa com ela, ocasionalmente, não é?
— Bem... um pouco mais do que ocasionalmente — disse Horace cuidadosamente.
Na verdade, ele e a princesa eram próximos um do outro socialmente, mas não tinha certeza de que queria falar isso para Will. No passado, sentiu uma leve tensão entre ele e seu amigo quando veio para Evanlyn, e ele não quis recriá-la agora. Ele percebeu que Will estava olhando para ele e sentiu a necessidade de adicionar mais.
— Quero dizer, há bailes e danças e tal — disse ele.
Ele não acrescentou que normalmente era convidado por Cassandra como seu parceiro para estas ocasiões.
— E os piqueniques, é claro — acrescentou, imediatamente desejando que não tivesse.
Will ergueu uma sobrancelha.
— Piqueniques? — Disse. — Que admirável. Soa como se a vida fosse um grande piquenique no castelo estes dias.
Horace respirou fundo, então decidiu que seria melhor se não respondesse. Ele se levantou e estalou suas costas, onde os músculos ainda estavam duros.
— Estou ficando muito velho para este campinismo disfarçado — disse ele.
Will notou a mudança deliberada do assunto e teve a graça de se sentir constrangido com a forma que estava agindo. Afinal, não era culpa de Horace que ele estivesse baseado no castelo Araluen. E como um velho amigo de Evanlyn-Cassandra, ao contrário, era lógico que ele deveria passar tempo com ela.
— Desculpe, Horace — disse — eu falei demais agora a pouco. Acho que estou um pouco nervoso. Eu odeio toda esta espera sem fazer nada.
Por uma questão de fato, ele estava completamente habituado a isso, e ele não se incomodava. Horace olhou para ele, reconhecendo o lance como um gesto de paz. Seu rosto se iluminou com seu sorriso fácil, e Will sabia que o momento de constrangimento passou.
E, claro, foi nesse instante que o homem de Malcolm Ambrósio escorregou na clareira, chamando-lhes em um sussurro rouco:
— Arqueiro! Sir Horace! Os scottis estão chegando!
Havia nove deles: General MacHaddish e oito guerreiros que formavam sua escolta. MacHaddish marchava à frente da coluna de pequeno porte. Ele era um homem musculoso, mas bastante corpulento – poucos scottis eram altos. Tinha a cabeça raspada, além de uma longa trança bem trançada que pendia para baixo no lado esquerdo de sua coroa. Ele estava envolto em uma lã grossa xadrez na parte superior do corpo que era nada além de um cobertor alongado. Estava enrolado ao redor de seus ombros e do tronco, deixando os braços nus, mesmo nesse congelante tempo frio.
Ele vestia um saiote scotti longo do mesmo material e botas de pele de carneiro. A espada de duas mãos estava pendurada nas costas, o seu punhal enorme saliente acima de sua cabeça. O lado esquerdo de seu rosto estava pintado com listras grossas de cor azul, marcando-o como um general de segunda ou menor classificação. Na bochecha direita e seus braços nus, tatuagens em tons mais escuros estavam gravadas permanentemente em sua pele.
Em sua mão esquerda, carregava um pequeno escudo cravejado de ferro, um pouco maior que um prato de jantar.
Seus homens estavam vestidos de mesmo modo, no mesmo vermelho e azul xadrez marcado. Mas a pintura em suas faces se estendia apenas em torno dos olhos, formando uma máscara azul em cada um deles e marcando-os como soldados comuns. Um ou dois usavam espadas, embora nenhuma tão grande quanto a espada do general. A maioria deles carregava clavas pesadas cravejado com pontas e os mesmo pequenos escudos redondos. Em cada bota, Will poderia ver o cabo de um punhal longo, para o combate de perto.
O arqueiro ficou de pé, imóvel e envolto em seu manto, a menos de dois metros da borda da pista, quando os nove homens passaram por ele em um movimento constante. Horace estava a cerca de cinco metros mais para trás nas árvores, maravilhado com a maneira que seu amigo poderia mesclar tão bem no fundo que se tornava praticamente invisível. Mesmo Horace, que sabia exatamente onde Will estava de pé, achava difícil enxergá-lo. A capacidade de chegar tão perto de um inimigo em potencial era um benefício real, Horace pensou. Pode-se observar muito mais detalhes a esta distância.
O barulho das botas escocesas triturando a neve espessa desapareceu quando a pequena fila passou pela curva na pista. Horace assistiu o último vestígio do xadrez vermelho maçante desaparecer entre as árvores, em seguida, avançou para onde Will estava esperando.
— E agora? — perguntou ele.
O arqueiro olhou para ele.
— Nós vamos seguir a distância, certificando-se de que tenham ido para Macindaw. Então vamos organizar uma recepção para eles quando eles estiverem indo para casa.
Horace expressou uma dúvida que tinha o chateado por algum tempo.
— E se forem para casa por uma rota diferente?
Will ficou em silêncio por alguns segundos.
— Então nós vamos ter que improvisar alguma coisa — disse ele, em seguida, acrescentou, com um lampejo de irritação: — Pelo amor de Deus! Pare de tentar me preocupar!

3 comentários:

  1. Serio, eu imaginava que eles teriam essa conversa de outro jeito. Mais tipo:
    _Voce ainda fala com a Evanlyn- perguntou Will
    Dai o Horace respondia.
    _Na verdade, estou pensando em pedi-la em casamento.
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    -Sinead

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    Respostas
    1. Cara, do jeito que as coisas estão, acho mais fácil ela pedir. Esses caras planejam guerras e tals, são treinados em tanta coisa, mas ainda não aprenderam a se entender com garotas, típico.

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    2. pior que foi ela mesmo kkkk.
      -Aron

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