24 de julho de 2016

Capítulo 12

 Eu?  ele repetiu.  Um bardo?!
Halt olhou para ele sob suas sobrancelhas escuras.
 Você. Um bardo  ele disse.
Will fez um gesto desajeitado com as mãos e por um momento perdeu as palavras.
 É um disfarce perfeito para você  Crowley disse.  Bardos estão constantemente viajando. São bem vindos em todos lugares, desde castelos até as tavernas. E em um lugar esquecido por Deus como Norgate, você seria duplamente bem vindo. E o melhor de tudo, o povo fala com bardos. E falam na frente deles  acrescentou significativamente.
Will finalmente achou as palavras que estava procurando.
 Não estamos esquecendo um pequenino detalhe?  ele disse.  Eu não sou um bardo. Eu não sei contar piadas. Não sei fazer truques de mágicas, e nem sei fazer malabarismos. Provavelmente quebraria o pescoço se tentasse.
Halt concordou, reconhecendo o ponto.
 Você não está esquecendo que há diferentes tipos de bardos?  ele disse.  Alguns são apenas menestréis
 E segundo Halt, você toca aquele seu alaúde bem  Crowley acrescentou.
Will olhou para ele, cada vez mais confuso.
 É uma bandola  ele disse.  Ele tem oito cordas, colocadas em pares. Um alaúde tem dez cordas...
Ele hesitou. E depois sentiu uma pequena onda de prazer ao registrar o que Crowley tinha dito.
 Você realmente acha que toco bem?  perguntou a Halt.
O arqueiro mais velho sempre assumia uma expressão de sofrimento sempre que Will ia tocar sua bandola. Will não podia evitar um imenso sentimento de satisfação ao perceber que na verdade Halt admirava seu trabalho. Esse sentimento de satisfação, entretanto durou pouco.
 E o que entendo disso?  Halt replicou.  O som de um gato afiando as unhas se parece demais com o som que esse instrumento emite para que eu possa discernir entre os dois.
 Oh  disse Will, um pouco desapontado — bom, talvez as outras pessoas também não gostem. Não podemos achar outro disfarce para mim?
 Como o quê?
Will demorou um tempo vasculhando na memória por algum outro disfarce.
 Um bobo da corte  ele sugeriu.  Afinal, nas histórias e lendas que Murdal, o trovador oficial do Barão Arald, costuma recitar no Castelo Redmount, os heróis sempre se disfarçam de bobo da corte.
Halt bufou desdenhosamente.
 Um bobo da corte?  Crowley perguntou.
 Sim  Will respondeu — eles viajam de lugares a lugares. As pessoas conversam com eles e...
 E eles têm a fama de serem ladrões  Crowley completou para ele.  Você acha que seria uma boa ideia assumir um disfarce em que as pessoas ao te conhecerem, imediatamente passem a desconfiar de você? Iriam vigiar você como falcões, a espera que roube as carteiras delas.
 Ladrões?  Will perguntou — eles são mesmos?
 São famosos por isso  Halt disse  nunca entendi porque aquele idiota do Murdar costumava usar esse disfarce para seus personagens, não consigo pensar em uma ideia pior.
 Oh  disse Will, que não possuía nenhuma outra ideia.
Ele hesitou, e então perguntou de novo.
 Você realmente acha que eu toco bem o suficiente para levar isso adiante?
 Há um jeito de descobrir isso  Crowley disse.  Você trouxe seu alaúde, vamos ouvir uma nota, ou duas.
 Ele não é um...  Will começou, e então desistindo, pegou sua bandola, que estava na sela.  Esquece...  ele murmurou.
Ele tirou o instrumento de dentro da caixa e pegou a palheta de casca de tartaruga, que estava entre as duas cordas superiores. Ele dedilhou, experimentando o som. Como era o esperado, a combinação de ficar sacolejando em uma sela e o ar frio da noite afetou a afinação. Ele fez o ajuste nas cordas e então tentou novamente, e assentiu satisfeito. Tentou um acorde novamente, e percebeu que a corda superior estava um pouco tensa e afrouxou um pouco. Melhor agora, ele pensou.
 Quando estiver pronto  disse Crowley, fazendo um gesto de encorajamento.
Will tocou um acorde A, e hesitou. Tudo ficou em branco. Ele não conseguia pensar em uma única peça para tocar. Ele tentou um acorde B, depois um E menor e um B sustenido, esperando que os sons dessem a ele algum tipo de inspiração.
 Há alguma letra nessa balada?  Halt perguntou, um tanto quanto polido.
Will se dirigiu a ele.
 Eu não consigo pensar em uma música. Minha mente ficou um vazio.
 Seria embaraçoso se isso ocorresse em uma taverna lotada  Halt lembrou.
Will tentou desesperadamente se recordar de alguma canção, qualquer uma.
 E que tal Velho Joe Fumaça?  Crowley sugeriu alegremente, e Halt olhou para ele com certa suspeita.
 Velho Joe Fumaça?  Will perguntou.
Essa era a música que Will tinha feito uma paródia sobre Halt, e Will estava se perguntado se Crowley sabia disso. Entretanto, o rosto do arqueiro mais velho era uma máscara de inocência. Ele assentiu e deu um sorriso de encorajamento, ignorando o olhar penetrante de seu velho amigo.
— Sempre foi um sucesso — Crowley respondeu. — Eu costumava dançar uma animada quadrilha com essa música quando jovem. — Ele fez o mesmo gesto de continue.
Will, incapaz de pensar em alguma outra alternativa, começou a fazer a introdução com a bandola. A velocidade e a fluência gradualmente aumentando de acordo com a confiança que ia adquirindo. Tudo que tinha que fazer, dizia a si mesmo, era se lembrar da letra original, não da paródia. Jogando a precaução pelos ares, começou a cantar:

O Velho Joe Fumaça é meu amigo
Ele vive em Bleaker’s Hill
O Velho Joe nunca tomou banho
Gosta das cabras e é muito estranho
O Velho Joe é um ótimo sujeito
O Velho Joe é um ótimo sujeito, eu garanto
O Velho Joe é um ótimo sujeito
Um dia vou vê-lo por aí

Crowley estava batendo com as mãos no joelho, segundo o ritmo, balançando a cabeça entusiasmado.
— O garoto é bom — disse a Halt, e Will continuou, empolgado com o elogio.
Ele tocou a intrincada composição de dezesseis notas que faziam parte do coro e cantou o próximo verso.

O Velho Joe Fumaça perdeu uma aposta
Ficou sem o casaco e o inverno não vai ser como ele gosta
Ele vai dormir dentro de um vagão
Só com as cabras e nenhum fogão
O Velho Joe é um ótimo sujeito
O Velho Joe é um ótimo sujeito, tenha certeza
Um dia vou vê-lo por aí e vai ser uma beleza

Ele estava imerso na música agora, e tocou novamente o coro, dessa vez tentando uma combinação de notas mais ambiciosa ainda. Ele se atrapalhou um pouco na terceira nota, mas conseguiu disfarçar o erro rapidamente e iniciou o terceiro verso.

Me contaram que o Velho Halt de barba grisalha
Mora com as cabras e não troca as meias
Mas as cabras não ligam para o cheiro
Pois estão acostumadas a viver no chiqueiro
O Velho Halt Barba grisalha é um ótimo sujeito
O Velho Halt Barba Grisalha é...

E parou subitamente, ao se dar conta do que tinha cantado. Devido a força do hábito e distraído pela sua própria performance na bandola, ele começou a cantar a versão parodiada. Crowley ergueu a cabeça, e com um debochado interesse falou:
— Uma letra fascinante, não tenho certeza de já ter ouvido essa versão antes — ele cobriu a boca com as mãos e seus ombros começaram a sacudir.
— Muito engraçado, Crowley — Halt replicou num tom de voz tão exasperado que o Comandante dos Arqueiros começou a fazer estranhos sons de engasgo por detrás de suas mãos. Sua cabeça abaixando e seus ombros tremendo mais ainda.
Will olhava para Halt com absoluto terror.
— Halt... me perdoe... eu não tinha a intenção...
Crowley finalmente conseguiu controlar os tremores e a explosão de risada incontrolável. Will fez um gesto desajeitado para Halt. O arqueiro deu de ombros, resignado, enquanto encarava Crowley. Ele se inclinou e cutucou dolorosamente as costelas do comandante com seu arco.
— Não é tão engraçado assim — Crowley massageou suas costelas doloridas e replicou.
— É sim, é sim. Você devia ter visto a sua cara — e virando-se para Will perguntou: — Vamos, há mais versos desses?
Will hesitou. Halt estava encarando Crowley, e Will, apesar de ser um arqueiro formado, um portador da insígnia da Folha de Carvalho Prata, e tecnicamente, um igual em relação a Halt, sabia que seria tolice continuar. Muita tolice.
— Acho que escutamos o suficiente para dar o julgamento — Halt falou.
Ele se virou para as três pequenas tendas que haviam montado mais cedo, e falou em voz alta:
— O que você acha, Berrigan?
Ouve um discreto movimento por detrás das tendas onde uma figura alta levantou-se vagarosamente e veio coxeando até a fogueira. Antes mesmo de perceber a guitarra de seis cordas que o homem segurava em uma das mãos, Will reconheceu o andar coxeante.
Ele já havia visto Berrigan várias vezes antes durante o Encontro anual, quando ele entretia a assembleia dos arqueiros. Um arqueiro formado, portador da insígnia de ouro, Berrigan teve que se aposentar quando perdeu uma perna, em uma luta contra guerreiros escandinavos. Desde então, vinha ganhando a vida como cantor e músico. E Will também suspeitava que, de tempos em tempos, era usado para conseguir alguma informação para os arqueiros.
E Will percebeu que o arqueiro estivera o escutando com o propósito de julgá-lo. Berringan sorriu para Will enquanto se sentava vagarosamente ao lado da fogueira, a perna artificial fazendo um movimento um pouco desajeitado.
— Boa noite, Will — ele disse.
Ele notou a bandola, que agora estava caída ao lado do jovem.
— Nada mal, nada mal mesmo.
Ele tinha um rosto magro, com maçãs do rosto grandes e um nariz grande e curvo, parecido com um falcão. Mas o que chamava a atenção mesmo, eram os olhos azuis e o grande e aberto sorriso. Ele tinha um cabelo longo, castanho, como requeria a profissão, e suas roupas eram típicas de bardo – um padrão aleatório de cores que brilhavam a medida que ele se movia. Apesar de que, ele notou, o padrão das cores de suas roupas era bem parecido com as das capas dos arqueiros, só que com cores bem mais alegres e vivas.
— Berrigan, bom te ver — ele disse.
E então um pensamento cruzou sua mente, e virando-se para Crowley disse:
— Crowley, não faria mais sentido mandar Berrigan nesta missão? Afinal ele é um bardo profissional e é de conhecimento geral que ainda trabalha para os arqueiros de tempos em tempos.
Os três trocaram olhares entre si.
— Oh, todos nós sabemos disso, não é? — Crowley perguntou.
— Bom, nós não sabemos disso exatamente, mas ele trabalha, não trabalha?
Um silêncio pesado e esquisito pairou no ar por alguns segundos, e então Berrigan quebrou o silêncio falando num tom despreocupado:
— Você está certo, Will. Eu faço um ou outro serviço para os arqueiros quando necessário, mas para esse trabalho, eu sou pequeno demais, me falta algo.
— Mas você é maior que eu... — Will começou a responder, e então percebeu que Berrigan estava olhando significativamente para a perna de madeira. Ele parou embaraçado. — Oh, você se referia a... — E ele não conseguiu continuar e dizer as palavras, mas Berrigan sorriu mais abertamente ainda.
— Minha perna de madeira, Will, pode falar, sem problemas. Eu já estou acostumado com isso. E pelo que Crowley me falou sobre este trabalho, ele requer alguém que seja ágil e rápido, e receio que isto não se refira a mim, não mais.
Crowley pigarreou um pouco, feliz que aquela atmosfera estranha já houvesse passado.
— Bom, o que você pode fazer Berrigan, é nos dizer se Will se passa como um bardo. Qual a sua opinião?
Berrigan pensou por um momento e então falou:
— Ele é bom o suficiente. Tem uma voz agradável, e toca bem. Ou pelo menos bem o suficiente para as terras longínquas e hospedarias remotas na qual irá se apresentar. Entretanto não sei se está pronto para tocar na corte de Araluen — e sorriu para Will, para que ele não se descontentasse com o comentário.
Will assentiu de volta. Ele estava feliz com o elogio. Berrigan continuou a falar.
— O único obstáculo é o despreparo dele, e isso normalmente é o que desmascara os amadores.
Crowley perguntou:
— Como assim? Você acabou de dizer que ele canta e toca bem...
Berrigan não respondeu diretamente, mas virou-se para Will.
— Vamos ouvir outra música, Will. Qualquer uma que você goste. Vamos, rápido.
Will pegou novamente a bandola, e, de novo deu um branco.
— É isso, um amador sempre dá para trás quando é solicitado a tocar alguma coisa de surpresa — disse Berringan, e virando-se novamente para Will. — Você conhece Jenny das terras baixas? O carretel da fiandeiral? Moinho Cabbington ou Nos riachos do Sul?
 Ele falou os títulos das música rapidamente e Will assentiu, pois conhecia cada uma delas. Berringan sorriu e assentiu.
— Qualquer uma delas teria servido, então. O truque não é apenas conhecer as canções. E sim lembrar que as conhece. Mas nós poderemos trabalhar nisso.
Will olhou para Halt, e o seu antigo professor acrescentou.
— Berrigan irá acompanhá-lo durante parte do trajeto, para poder treiná-lo — Will sorriu para o arqueiro alto, e se começou a sentir confortável com a ideia – era melhor do que entrar de cabeça em águas profundas, sem saber como nadar primeiro.
— E vocês podem começar agora — Crowley disse, enchendo novamente a caneca de café e se recostando confortavelmente em um tronco. — Vamos ouvir uma canção de vocês dois.
Berringan olhou interrogativamente para Will.
— As florestas distantes — disse Will sem nenhuma hesitação.
Berrigan assentiu e acrescentou sorrindo:
— Ele aprende rápido.
E os dois começaram a tocar a doce canção sobre o regresso ao lar. Berrigan parou e olhou para a bandola de Will.
— A corda do dó está um pouco desafinada.
— Eu sabia — Halt acrescentou em um tom superior.

5 comentários:

  1. Halt e suas palhaçadas, imagina se ele n fosse um arqueiro sério.

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  2. kkkkk. Amei esse capitulo. Sabe, a musica do Halt agora não sai da minha cabeça!
    Ass: Bina.

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  3. O velho Halt barba grisalha.... Kkkkkkk muy bueno o capitulo kkk Halt, sempre certo kkk

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  4. Tive uma sensação de deja-vú agora, de quando Erak foi eleito o novo Oberjarl.

    -Siqueira

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