1 de julho de 2016

Capítulo 12 - Muito mais forte

Emma fez uma curva, cantando pneu para sair de Fairfax e parando em um estacionamento perto da Delicatessen Canter. Pertencia à loja de tintas fechada agora. Ela foi até os fundos, onde o estacionamento estava completamente vazio, e parou o carro de repente fazendo Julian praguejar.
Ela olhou para ele, soltando o cinto de segurança. Ele estava pálido, segurando a lateral do corpo. Emma não conseguia enxergar muita coisa, por causa da escuridão no carro e roupas pretas que ele vestia, mas o sangue escorria entre os dedos em um ritmo lento. O estômago de Emma gelou.
Quando ele caiu na casa de Wells, a primeira coisa que ela fez foi lhe desenhar um símbolo de cura na pele. A segunda foi levantá-lo e praticamente arrastá-lo, com as armas e a bolsa de Ava, para o banco de trás do carro.
Só depois que dirigiram por alguns quarteirões foi que ele gemeu e ela olhou para trás, e reparou que ele ainda estava sangrando. Ela encostou o carro e aplicou mais um símbolo, e depois outro. Ia dar certo. Tinha que dar.
Havia pouquíssimos tipos de ferimentos que símbolos de cura não ajudassem a melhorar. Aqueles provocados por veneno de demônio e aqueles sérios o suficiente para matá-lo. Ela sentiu o próprio cérebro frear e congelar ao pensar nessas possibilidades, e imediatamente pegou o telefone. Mandou uma mensagem para Livvy com a localização do primeiro lugar familiar que conseguiu identificar – todos eles conheciam e amavam a Canter – e correu para lá, o mais depressa possível.
Ela desligou o carro com uma virada de pulso e foi para o banco de trás, para perto de Jules. Ele estava encolhido no canto, pálido e suando de dor.
— Tudo bem — falou Emma, com voz trêmula. — Você tem que me deixar olhar.
Ele estava mordendo o lábio. Os postes de Fairfax iluminavam o banco de trás, mas não o suficiente para Emma enxergá-lo bem. Ele esticou o braço para a bainha da camisa – e hesitou.
Ela pegou a pedra de luz enfeitiçada no bolso e a acendeu, preenchendo o carro com luz clara. A camisa de Jules estava ensopada de sangue, e, pior, os símbolos de cura que ela havia desenhado tinham desaparecido da pele.
— Jules — disse ela. — Tenho que chamar os Irmãos do Silêncio. Eles podem ajudar. Eu preciso.
Ele fechou os olhos de dor.
— Não pode — falou o garoto. — Você sabe que não podemos chamar os Irmãos do Silêncio. Eles respondem diretamente à Clave.
— Então a gente mente para eles. Podemos dizer que foi uma patrulha de rotina. Eu vou ligar — disse ela, e se esticou para pegar o telefone.
— Não! — gritou Julian, com força bastante para contê-la. — Irmãos do Silêncio sabem quando a pessoa mente! Eles têm a Espada Mortal, Emma. Vão descobrir sobre a investigação. Sobre Mark...
— Você não vai sangrar até morrer no carro por causa de Mark!
— Não — disse ele, encarando-a. Seus olhos eram assustadoramente azul-esverdeados, a única cor profunda no interior iluminado do carro. — Você vai dar um jeito em mim.
Emma conseguia sentir quando Jules estava machucado, como uma farpa em sua pele. A dor física não a incomodava – era o pavor, o único medo maior do que o seu medo do oceano. O medo de Jules ferido, morrendo. Ela abriria mão de tudo, sofreria qualquer ferimento para impedir que isso acontecesse.
— Tudo bem — concordou ela. Sua voz soou seca e fraca aos próprios ouvidos. — Tudo bem. — Ela respirou fundo. — Espere.
Ela abriu o casaco e jogou de lado. Se inclinou sobre o apoio entre os assentos para repousar a pedra de luz enfeitiçada. E então se esticou para Jules. Os segundos seguintes foram um borrão do sangue de Jules em suas mãos e da respiração áspera enquanto ela o puxava para cima, apoiando-o na porta. Ele não emitiu ruído enquanto Emma o movia, mas ela o viu mordendo o lábio, viu o sangue na boca e no queixo, e sentiu como se seus ossos estivesse estalando dentro da pele.
— Seu casaco — disse ela entre dentes. — Tenho que cortá-lo.
Ele fez que sim, deixando a cabeça cair para trás. Ela alcançou Cortana.
Apesar da resistência do material, a lâmina cortou a manga como papel – caiu em pedaços. Emma cortou a frente da camiseta e a arrancou como se estivesse descascando uma fruta.
Emma já tinha visto sangue antes, com frequência, mas isso era diferente. Era o sangue de Julian, e parecia haver uma grande quantidade dele. Estava espalhado em manchas pelo peito e sobre as costelas; ela viu onde a flecha entrou, e onde a pele rasgou quando ele a arrancou.
— Por que você puxou a flecha? — perguntou ela, tirando o próprio suéter por cima da cabeça. Ela estava com uma blusa de alcinha por baixo. Limpou o peito dele com o tecido, absorvendo o máximo possível de sangue.
A respiração de Jules veio em arfadas.
— Porque quando alguém atira em você com uma flecha... — Ele engasgou. — Sua reação imediata não é “obrigado pela flecha, acho que vou ficar com ela por um tempo”.
— Bom saber que seu senso de humor permanece intacto.
— Como eu disse, estava queimando — falou Julian. — Não como um machucado normal. Era como se tivesse alguma coisa na ponta da flecha, ácido, ou coisa do tipo.
Emma limpou o máximo de sangue possível. Continuava escorrendo da ferida, descendo em pequenas trilhas pela barriga e se juntando nas linhas entre os músculos abdominais. Ele tinha depressões sobre os ossos dos quadris, e as laterais do corpo eram rígidas e macias ao toque.
Ela respirou fundo.
— Você é magro demais — disse ela o mais animadamente que pôde. — Muito café, poucas panquecas.
— Espero que escrevam isso na minha lápide. — Ele engasgou enquanto Emma chegava para a frente, e ela então percebeu subitamente que estava no colo de Julian, com os joelhos em torno dos quadris dele. Era uma posição bizarramente íntima.
— Eu... estou te machucando? — perguntou ela.
Ele engoliu em seco, visivelmente.
— Tente o iratze outra vez.
— Tudo bem — disse ela. — Segure o pega-mão.
— O quê? — Ele abriu os olhos e a encarou.
— A alça de plástico! Ali, em cima da janela! — Ela apontou. — É para segurar quando o carro faz curvas.
— Tem certeza? Sempre achei que fosse para pendurar coisas — disse ele. — Tipo roupa limpa.
— Julian, esse não é o momento de ser pedante. Pegue a alça ou eu juro...
— Tá bom! — Ele esticou o braço, segurou a alça e fez uma careta. — Estou pronto.
Ela acenou coma cabeça e colocou Cortana de lado, alcançando a estela. Talvez os iratzes anteriores tivessem sido rápidos demais, descuidados demais. Como Caçadora de Sombras, ela sempre se concentrou nos aspectos físicos e não nos mais artísticos e mentais: enxergar através de feitiços, desenhar símbolos.
Ela colocou a ponta no ombro dele e desenhou, cuidadosa e lentamente. Teve que se apoiar com a mão no corpo de Julian. Ela tentou tocar o mais levemente possível, mas pôde senti-lo tenso sob seus dedos. A pele no ombro era suave ao toque, e ela queria chegar mais perto, colocar a mão no machucado e curá-lo coma força de sua vontade...
Pare. Ela concluiu a iratze. Então se afastou, a mão fechada em torno da estela. Julian se ajeitou, os trapos restantes da camisa pendurados nos ombros. Ele respirou fundo, olhando para si mesmo – e o iratze desbotou na pele, como gelo preto derretendo, se espalhando, sendo absorvido pelo mar.
Ele olhou para Emma. Ela viu o próprio reflexo nos olhos dele: ela estava arrasada, em pânico, com sangue no pescoço e na camiseta branca.
— Está doendo menos — sussurrou ele.
O ferimento pulsou novamente; sangue correu pela lateral das costelas, manchando o cinto de couro e o cós da calça jeans. Ela colocou a mão na pele dele, o pânico florescendo dentro de si. A pele dele estava quente, muito quente. Febril.
— É mentira — disse ela. — Jules. Chega. Vou pedir ajuda...
Ela começou a sair de cima dele, mas Julian levantou a mão e a pegou pelo pulso.
— Em — falou o garoto. — Emma, olhe para mim.
Ela olhou. Ele tinha sangue na bochecha, e os cabelos caíam em cachos molhados de suor, mas, tirando isso, parecia Jules, como ele sempre fora. A mão esquerda pressionava a lateral do corpo, mas a direita levantou, os dedos se curvando na nuca de Emma.
— Em — disse ele outra vez, com os olhos arregalados e azul-escuro sob a pouca luz. — Você beijou Mark naquela noite?
— Quê? — Emma o encarou. — Tudo bem, você definitivamente já perdeu sangue demais.
Ele se mexeu minimamente embaixo dela, mantendo a mão onde estava, suave, tocando os cabelos finos de sua nuca.
— Eu vi como olhou para ele — continuou ele. — Do lado de fora do Poseidon.
— Se você está preocupado como bem-estar de Mark, não deveria. Ele está completamente perturbado. Eu sei disso. Acho que ele não precisa ficar ainda mais confuso.
— Não é isso. Não estou preocupado com Mark. — Ele fechou os olhos, como se estivesse contando silenciosamente na cabeça. Quando os abriu de novo, as pupilas estavam completamente dilatadas em grandes círculos desenhados nas íris. — Talvez devesse ter sido isso. Mas não foi.
Será que ele estava mesmo alucinando?, Emma pensou, em pânico. Não era do feito dele tagarelar daquele jeito, dizer coisas sem o menor sentido.
— Tenho que chamar os Irmãos do Silêncio — disse ela. — Não me importo se você me odiar para sempre ou se a investigação for cancelada...
— Por favor — pediu ele, com a voz claramente desesperada. — Só... só mais uma tentativa.
— Mais uma? — Ela ecoou.
— Você vai ajeitar isso. Você vai me ajeitar, porque somos parabatai. Somos para sempre. Eu já te disse isso uma vez, você se lembra?
Ela fez que sim com a cabeça devagar, a mão no telefone.
— E a força de um símbolo aplicado pelo parabatai, é especial. Não importa o que tivesse na ponta daquela flecha para impedir cura mágica, Emma, você consegue. Você pode me curar. Somos parabatai, e isso significa que as coisas que fazemos juntos são... extraordinárias.
Havia sangue na calça dela agora, sangue nas mãos, na camiseta, e ele continuava sangrando, a ferida continuava aberta, um rasgo absurdo na pele macia.
— Tente — disse Jules, com um sussurro rouco. — Por mim, tente?
A voz dele se elevou na pergunta, e nela Emma ouviu a voz do menino que ele outrora havia sido; ela se lembrou dele mais baixo, mais magro, mais jovem, parado diante dos irmãos no Grande Salão em Alicante enquanto o pai vinha para cima dele com a lâmina desembainhada.
E ela se lembrou do que Julian fez naquele momento. O que fez para protegê-la, proteger a todos eles, porque ele sempre faria tudo para protegê-los.
Ela largou o telefone e pegou a estela com tanta força que a sentiu enterrar na palma molhada da mão.
— Olhe para mim, Jules — falou, encontrando o olhar dele. Colocou a estela na pele de Julian, e, por um instante, ela ficou parada, apenas respirando, respirando e se lembrando.
Julian. Uma presença em sua vida desde sempre, jogando água um no outro no mar, cavando juntos na areia, ele colocando a mão sobre a dela, e os dois maravilhados com a diferença de forma e comprimento dos dedos. Julian cantando, mal e desafinado, enquanto dirigia, os dedos no cabelo dela cuidadosamente tirando uma folha presa, as mãos dele a segurando na sala de treinamento quando ela caía, caía e caía. A primeira vez depois da cerimônia parabatai dos dois quando ela bateu na parede em um acesso de raiva por não conseguir acertar a manobra na espada, e ele veio até ela, pegou seu corpo ainda trêmulo nos braços e disse:
— Emma, Emma. Não se machuque. Quando você se machuca, eu também sinto.
Alguma coisa em seu peito pareceu rachar e se dividir; ela se surpreendeu por não ter sido audível. Energia correu por suas veias, e a estela se moveu em sua mão, traçando um contorno gracioso de um símbolo cura no peito de Julian. Ela o ouviu engasgar e abrir os olhos. A mão dele deslizou pelas costas dela; Julian a pressionou contra o seu corpo, os dentes cerrados.
— Não pare — disse ele.
Emma não poderia ter parado nem que quisesse. A estela parecia se mover por vontade própria; e ela estava cega pelas memórias, um caleidoscópio delas, todas de Julian. Sol em seus olhos e Julian dormindo na praia com uma velha camiseta, e ela não querendo acordá-lo; mas ele acordou assim mesmo quando o sol se pôs e procurou por ela, imediatamente, e não sorriu até encontrá-la e ter a certeza de que ela estava ali. Cair no sono conversando e acordar com as mãos dadas; outrora foram crianças no escuro, mas agora eram outra coisa, algo íntimo e poderoso, algo que Emma tinha a sensação de só estar tocando apenas a pontinha quando terminou o símbolo e a estela caiu de sua mão.
— Ah — disse ela suavemente. O símbolo parecia aceso por dentro com um brilho suave. Julian estava arfando, os músculos da barriga subindo e descendo aceleradamente, mas o sangramento tinha parado. O ferimento estava se fechando, se colando como um envelope. — Está... está doendo?
Um sorriso se espalhava no rosto de Julian. A mão dele ainda estava no quadril de Emma, agarrando com força; ele devia ter se esquecido.
— Não — respondeu ele. A voz era sussurrada, baixinha, como se estivesse falando dentro de uma igreja. — Você conseguiu; você ajeitou. — Ele a encarava, como se ela fosse um milagre raro. — Emma, meu Deus, Emma.
Emma caiu contra o ombro dele quando a tensão deixou seu corpo. Ela permitiu que sua cabeça descansasse ali enquanto ele a abraçava.
— Tudo bem. — Julian deslizou as mãos pelas costas dela, claramente percebendo que ela tremia. — Está tudo bem, eu estou bem.
— Jules — sussurrou ela. Seu rosto estava próximo do dela; Emma podia ver as sardas leves nas maçãs do rosto, sob as manchas de sangue.
Conseguia sentir o corpo dele no seu, vivo, como se ardesse em chamas com o poder do iratze. O próprio coração batia forte quando colocou as mãos nos ombros dele...
A porta do carro se abriu. Luz invadiu o veículo, e Emma se afastou de Julian quando Livvy entrou no banco da frente.
Livvy segurava uma pedra de luz enfeitiçada na mão direita, e os raios de luz irregulares iluminaram a estranha cena no banco de trás do Toyota: Emma com as roupas ensanguentadas; Julian, sem camisa, espremido contra a porta de trás. As mãos dele soltaram Emma.
— Está tudo bem? — perguntou Livvy. Ela agarrava o telefone com uma das mãos; devia estar esperando mais mensagens, pensou Emma, culpada. — Você falou que era uma emergência...
— Tudo bem. — Emma deslizou pelo assento, para longe de Jules.
Ele lutou para conseguir se esticar, olhando para baixo, desconfiado, para a camisa rasgada.
— Alguém atirou em mim com uma besta. Os iratze não estavam funcionando.
— Bem, você parece bem agora. — Livvy olhou para ele. — Ensanguentado, mas...
— Um pouquinho de magia parabatai — respondeu Jules. — Não estavam funcionando, depois funcionaram. Desculpe pelo susto.
— Parece o laboratório de um cientista louco aqui. — Havia alívio no rosto da menina. — Quem atirou em você?
— É uma longa história — disse Jules. — Como vocês chegaram aqui? Você não dirigiu, dirigiu?
Outra cabeça apareceu subitamente ao lado da de Livvy. Mark, os cabelos louros angelicais iluminados pela luz enfeitiçada.
— Eu dirigi — comunicou o garoto. — Em um alazão das fadas.
— Quê? Mas... mas seu alazão foi destruído por demônios!
— Existem tantos cavalos quanto cavaleiros fada — disse Mark, parecendo feliz em ser misterioso. — Eu não disse que era o meu alazão fada. Só que é um alazão fada.
Mark desapareceu da lateral do carro. Antes que Emma pudesse determinar onde ele tinha ido, a porta atrás de Julian se abriu. Mark se inclinou para dentro, pegou o irmão mais novo e o levantou para fora do veículo.
— O quê...? — Emma pegou a estela e saiu atrás deles.
Havia mais duas figuras no estacionamento: Cristina e Ty, iluminados pelas luzes de uma moto. Aliás, a moto estava brilhando. Não era a de Mark: era preta, com um design de chifres pintados no chassi.
— Jules? — Ty ficou pálido e assustado quando Julian se soltou da mão de Mark, puxando os trapos da camisa.
Cristina se apressou até Emma enquanto Julian virava para o irmão mais novo.
— Ty, está tudo bem — assegurou ele. — Eu estou bem.
— Mas está coberto de sangue — argumentou Ty. Ele não estava olhando diretamente para Julian, mas Emma não pôde deixar de imaginar se ele estaria se lembrando, se lembrando da Guerra Maligna, do sangue e dos mortos ao seu redor. — As pessoas só podem perder uma certa quantidade de sangue antes de...
— Vou colocar alguns símbolos de reposição do sangue — disse Julian. — Lembre-se, Ty, somos Caçadores de Sombras. Aguentamos muita coisa.
— Você também está coberta de sangue — murmurou Cristina para Emma, tirando o próprio casaco. Ela o colocou sobre os ombros de Emma e fechou o zíper, cobrindo a blusa ensanguentada. Passou as mãos nos cabelos de Emma, olhando preocupada para ela. — Tem certeza de que não está machucada?
— O sangue é de Julian — sussurrou Emma, e Cristina emitiu um murmúrio ao puxar Emma para um abraço. Ela afagou as costas da amiga, e Emma a apertou com força; naquele instante decidiu que, se alguma coisa ou alguém tentasse machucar Cristina, ela os esmagaria e faria castelos de areia lindos com os restos.
Livvy tinha ido para perto de Ty e segurava a mão dele, murmurando que o sangue era só sangue, que Julian não estava machucado, estava tudo bem. Ty respirava rapidamente, abrindo e fechando a mão sobre a de Livvy.
— Tome. — Mark tirou a camiseta azul. Estava com outra camiseta por baixo, uma cinza. Julian piscou para ele. — Roupas adequadas. — E a ofereceu ao irmão.
— Por que estava com uma camisa por cima da outra? — perguntou Livvy, momentaneamente distraída.
— Caso uma delas seja roubada — disse Mark, como se isso fosse uma coisa totalmente normal.
Todos pausaram para olhar para ele, inclusive Julian, que tinha tirado os próprios trapos e vestido a camisa de Mark.
— Obrigado — disse Julian, puxando a roupa para cima do cinto. Jogou os restos da camiseta rasgada no lixo.
Mark parecia contente, e, Emma percebeu com atraso, estava diferente. Os cabelos não caíam mais nos ombros, pareciam curtos, ou, pelo menos, mais curtos, formando cachos em volta das orelhas. Isso o deixava ao mesmo tempo mais jovem e mais moderno, menos incongruente com o jeans e as botas.
Mais como um Caçador de Sombras.
Mark retribuiu o olhar. Ela ainda via o vento em seus olhos, e as estrelas, os vastos campos de nuvens vazias. Selvagem e livre. Ela ficou imaginando o quão profunda seria essa transformação de volta a Caçador de Sombras. Quão profunda poderia ser.
Emma colocou a mão na cabeça.
— Estou tonta.
— Você precisa comer. — Foi Livvy que disse, pegando-a pela mão. — Todos nós precisamos. Ninguém comeu hoje, e, Jules, você está proibido de cozinhar. Vamos para a Canter, comprar jantar e pensar no que fazer em seguida.


Tudo no interior da Canter era amarelo. As paredes eram amarelas, as mesas, amarelas, e quase toda a comida tinha tons de amarelo. Não que Emma se importasse com isso; ela frequentava a Canter desde os 4 anos com seus pais, para comer panquecas de chocolate e rabanada.
Eles se amontoaram em uma mesa no canto, e, por alguns minutos, tudo foi absolutamente comum: a garçonete, uma mulher alta e de cabelos grisalhos, veio deixar uma pilha de cardápios na mesa; Livvy e Ty dividiram um, e Cristina perguntou a Emma num sussurro o que era matzo brei. Estavam apertados na mesa, Emma se viu pressionada contra a lateral de Julian. Ele ainda parecia quente, como se o iratze ainda não tivesse saído do corpo.
A pele dela também estava muito sensível, como se fosse pular ou gritar assim que alguém a tocasse. Ela quase berrou quando a garçonete voltou para anotar os pedidos. E simplesmente encarou enquanto Julian pediu waffles e chocolate quente para ela e devolvia o cardápio apressadamente, olhando-a preocupado.
V-O-C-Ê-E-S-T-Á-B-E-M?, ele escreveu nas costas dela.
Ela fez que sim com a cabeça, alcançando o copo d’água, enquanto Mark sorria para a garçonete e pedia um prato de morangos.
A garçonete, com um crachá que dizia JEAN, piscou.
— Não temos esse prato no cardápio.
— Mas tem morango no cardápio — disse Mark. — E já vi pratos passando por aqui. Então é lógico pensar que morangos possam ser colocados em um prato e trazidos para mim.
Jean ficou encarando.
— Ele tem um bom argumento — disse Ty. — Morango é uma das opções de complemento de vários pratos. Certamente pode pegar só os morangos.
— Um prato de morangos — repetiu Jean.
— Gostaria que viessem em uma tigela — disse Mark, com olhar de vencedor. — Já faz tempo que não como por vontade própria, bela dama, e um prato de morangos é tudo o que almejo.
Jean pareceu espantada.
— Certo — disse ela, e desapareceu com os cardápios.
— Mark — chamou Julian. — Isso realmente era necessário?
— O que era necessário?
— Você não precisa falar como se estivesse recitando um poema medieval das fadas — censurou Julian. — Parece totalmente normal em metade do tempo. Talvez devêssemos conversar sobre discrição.
— Não consigo evitar — explicou Mark com um pequeno sorriso. — Alguma coisa nos mundanos...
— Você precisa agir mais como um ser humano normal — disse Jules. — Quando estamos em público.
— Ele não precisa parecer normal — falou Ty rispidamente.
— Ele esbarrou em um orelhão e disse “me perdoe, senhorita” quando estávamos entrando — disse Julian
— É educado pedir desculpas — disse Mark, com o mesmo sorriso discreto.
— Não para objetos inanimados.
— Certo, chega — disse Emma. Ela contou rapidamente sobre os eventos que se passaram na casa de Stanley Wells, inclusive o corpo de Ava e a figura misteriosa no telhado.
— Então ela foi encontrada morta, mas não de forma parecida com os outros assassinatos? — perguntou Livvy com o rosto franzido. — Não parece relacionado... nenhuma marca, o corpo descartado na piscina de casa, e não em uma Linha Ley...
— E a figura no telhado? — perguntou Cristina. — Você acha que é o assassino?
— Duvido — disse Emma. — A pessoa tinha uma besta, e ninguém foi morto com bestas. Mas machucou Jules, então quando o encontrarmos, vou cortá-lo em pedacinhos e dar para os meus peixes comerem.
— Você não tem peixes — lembrou Julian.
— Bem, vou comprar alguns — disse Emma. — Vou comprar um peixinho dourado e alimentá-lo com sangue até que ele passe a gostar de carne humana.
— Que nojo — disse Livvy. — Isso significa que ainda temos que voltar à casa de Wells para investigar?
— Contanto que a gente verifique o telhado em primeiro lugar — respondeu Emma.
— Não podemos — avisou Ty. Ele levantou o telefone. — Eu estava olhando as notícias. Alguém informou sobre o corpo. A polícia mundana está presente em peso. Não vamos conseguir nem chegar perto por uns dias.
Emma suspirou exasperada.
— Bem — disse ela —, pelo menos, temos isso. — E ela alcançou atrás de si para pegar a bolsa de Ava. Emma a virou sobre a mesa e o conteúdo se espalhou: carteira, maquiagem, protetor labial, espelho, escova e uma coisa lisa, dourada e brilhante.
— Não tem telefone — observou Ty, com um vinco de irritação entre as sobrancelhas. Emma não o culpou. Ele poderia ter descoberto muita coisa com o telefone. Uma pena; estava no fundo da piscina de Wells.
— O que é isso? — Livvy segurou o quadradinho brilhante. Estava vazio.
— Não tenho certeza. — Emma pegou a carteira e a analisou. Cartões de crédito, carteira de motorista, onze dólares que a deixaram desconfortável. Roubar provas era uma coisa, roubar dinheiro, outra. Não que eles pudessem devolvê-lo a Ava.
— Não tem nenhuma foto, nem nada? — perguntou Julian, olhando por cima do ombro dela.
— Acho que ninguém guarda fotos na carteira, só no cinema — disse Emma. — Não desde que inventaram o iPhone.
— Por falar em cinema... — Livvy franziu o cenho, parecendo bruta, como às vezes acontecia, com Ty. — Isso aqui parece o bilhete dourado. Vocês sabem, da Fantástica Fábrica de Chocolates. — Ela acenou o pedacinho plastificado de papel brilhante.
— Deixe-me ver. — Cristina estendeu a mão.
Livvy o entregou para ela quando a garçonete voltou com a comida. Queijo quente para Ty, sanduíche de peru para Cristina, um de bacon, tomate e alface para Julian, waffles para Emma e Livvy, e o prato de morangos de Mark.
Cristina pegou a estela e começou a escrever, murmurando, no canto do papel dourado. Mark, parecendo um santo, pegou o xarope de bordo da mesa e o despejou sobre os morangos. Pegou um e colocou na boca, com a folha e tudo.
Julian ficou olhando para ele.
— O que foi? — disse Mark. — É uma escolha alimentícia perfeitamente normal.
— Certamente — disse Julian. — Se você for um passarinho.
Mark ergueu uma sobrancelha.
— Vejam — disse Cristina, e empurrou o papel dourado para o meio da mesa.
Não estava mais vazio. Em vez disso, tinha uma foto brilhante de um prédio, e, ao lado, palavras em maiúscula.

OS SEGUIDORES DO GUARDIÃO
CONVIDAM PARA A LOTERIA DO MÊS:
DIA 11 DE AGOSTO, 7 DA NOITE.
TEATRO DA MEIA-NOITE
Esse convite admite um grupo. Traje semiformal.

Loteria? — perguntou Julian. — Esse é o nome de uma famosa história de terror. Transformaram em peça ou coisa do tipo?
— Não parece peça — disse Livvy. — Parece algo aterrorizante.
— Pode ser uma peça aterrorizante — observou Ty.
— Era uma história aterrorizante. — Julian pegou o ingresso. Tinha tinta sob as unhas, pequenas luas crescentes brilhando em azul. — E o mais assustador nisso tudo é o fato de que esse teatro está fechado. Conheço o lugar, é depois de Highland Parle Está fechado há anos.
— Dezesseis anos — disse Ty. Ele já tinha dominado a arte de usar o telefone com uma das mãos apenas e estava cerrando os olhos para a tela. — Foi fechado depois de um incêndio e jamais foi reconstruído.
— Eu já passei por ele — falou Emma. — É todo tampado com tábuas, não?
Julian fez que sim com a cabeça.
— Já pintei o teatro uma vez. Eu estava pintando locais abandonados, lugares como Murphy Ranch, negócios fechados. Eu me lembro desse. Tinha uma energia fantasmagórica.
— Interessante — disse Mark. — Mas tem alguma coisa a ver com a investigação? Os assassinatos?
Todos pareceram ligeiramente surpresos por Mark ter feito uma pergunta tão prática.
— Acho que pode ter — arriscou Emma. — Eu estive no Mercado das Sombras na semana passada...
— Queria que você parasse de ir ao Mercado das Sombras — murmurou Julian. — É perigoso...
— Ah, não — disse Emma. — Perigo, não, senhor Quase-morri-de-hemorragia-no-carro.
Julian suspirou e pegou o refrigerante.
— Não posso acreditar que já reclamei do apelido “Jules".
— Talvez devêssemos conversar sobre o Mercado das Sombras — disse Cristina apressadamente. — Foi lá que Emma ficou sabendo dos assassinatos.
— Bem, você pode imaginar como os Mercadores ficaram felizes em me ver com Cameron...
— Você foi com Cameron? — perguntou Julian.
Livvy estendeu a mão.
— Em defesa de Emma, Cameron é irritante, mas é gato. — Julian lançou um olhar para ela. — Quero dizer, se você curtir caras que parecem um Capitão América ruivo, coisa que eu... não curto?
— O Capitão América definitivamente é o Vingador mais bonito — endossou Cristina. — Mas prefiro o Hulk. Queria poder curar seu coração partido.
— Somos Nephilim — disse Julian. — Não podemos nem saber sobre os Vingadores. Além disso — acrescentou ele —, o Homem de Ferro obviamente é o mais bonito.
— Posso terminar de falar? — Quis saber Emma. — Eu estava no Mercado com Cameron e, agora me lembro, vi uma barraca que tinha uma placa que dizia algo como “Inscrições para Loteria”. Então acho que é algo sobrenatural, e não teatro experimental ou coisa do tipo.
— Não faço ideia de quem sejam os Vingadores — observou Mark, que já tinha acabado com os morangos e estava comendo açúcar direto do sachê. Ty pareceu satisfeito; ele não tinha tempo para super-heróis. — Mas concordo com você. É uma pista. Alguém matou Stanley Wells, e agora a namorada dele está morta também. Mesmo que a morte tenha sido completamente diferente.
— Acho que todos concordamos que não pode ser coincidência — disse Emma — o fato de que os dois estão mortos.
— Não acho que seja — admitiu Mark. — Mas ela pode ter sido morta por queima de arquivo, não por ser um sacrifício como ele, ou parte do mesmo ritual. Afinal, morte semeia morte. — Ele parecia pensativo. — Ela foi convidada para essa performance de Loteria. Ela considerava importante o suficiente para carregar o ingresso na bolsa. Acho que é uma teoria a ser seguida.
— Ou pode não ser nada — disse Jules.
— Não temos muito o que investigar — observou Emma.
— Temos sim, na verdade — rebateu Jules. — Ainda temos as suas fotos do interior da caverna na convergência. E agora temos quem quer que estivesse na casa de Wells que atirou em mim, ainda temos o casaco do meio uniforme com o veneno que ele usou. Talvez Malcolm possa investigar, descobrir se tem alguma associação com algum demônio específico ou algum feiticeiro que talvez o venda.
— Ótimo — disse Emma. — Podemos fazer as duas coisas. Onze de agosto é amanhã. — Ela franziu o rosto para o ingresso. — Meu Deus, semiformal. Chique. Acho que não tenho nenhum vestido chique assim, e Mark vai precisar de um terno...
— Mark não precisa ir — falou Julian rapidamente. — Ele pode ficar no Instituto.
— Não — retrucou Mark. A voz era calma, mas os olhos faiscavam. — Não vou ficar. Vim aqui para ajudar na investigação desses assassinatos, e é isso que farei.
Julian se sentou para trás.
— Não se não pudermos Marcá-lo. Não é seguro.
— Eu me protegi sem símbolos por muitos anos. Se eu não for junto, então aqueles do Reino das Fadas que me enviaram para cá vão ficar sabendo e não ficarão satisfeitos. O castigo será severo.
— Ah, deixe ele ir — disse Livvy, parecendo ansiosa. — Jules...
Julian tocou a borda da camisa, o gesto era semiconsciente.
— Como eles vão saber que merece ser castigado se você não contar nada? — perguntou ele.
— Acha que é fácil mentir quando você cresceu com pessoas que não mentem? — respondeu Mark, com as bochechas ruborizando de raiva. — E você acha que eles não sabem identificar mentiras quando os humanos contam alguma?
— Você é humano — disse Julian vigorosamente. — Você não é um deles, não age como eles...
Mark se levantou e atravessou o recinto.
— O que ele está fazendo? — Emma o encarou. Mark foi até uma mesa próxima de meninas mundanas tatuadas e cheias de piercings, que pareciam ter acabado de sair de uma boate e soltavam risinhos descontrolados enquanto falava com eles.
— Pelo Anjo. — Julian colocou dinheiro na mesa e se levantou, se afastando da mesa. Emma guardou tudo de volta na bolsa de Ava e se apressou em segui-lo, assim como os outros.
— Posso ter liberdade com o seu alface, milady? — dizia Mark para uma menina de cabelos cor-de-rosa e uma pilha de salada no prato. Ela empurrou o prato para ele, sorrindo.
— Você é lindo — disse ela. — Mesmo com as orelhas falsas de elfo. Esqueça o alface. Você pode ter liberdade com...
— Tudo bem, você provou seu argumento. Chega. — Julian pegou Mark, que estava comendo uma cenourinha alegremente, pelo pulso e tentou puxá-lo para a porta. — Perdoem-me, senhoritas — falou, quando um coro de protesto se elevou.
A menina de cabelo rosa levantou.
— Se ele quiser ficar, ele pode ficar — falou. — E quem é você, aliás?
— Sou irmão dele — disse Julian.
— Nossa, vocês não se parecem em nada — retrucou ela, de um jeito que irritou Emma. Ela tinha chamado Mark de lindo; Julian era tão lindo quanto, só que de um jeito mais discreto e menos exibido. Ele não tinha as maçãs do rosto definidas de Mark, nem o charme de fada, mas tinha olhos luminosos, uma boca linda e...
Ela se espantou consigo mesma. O que havia de errado com ela? O que havia de errado com seus pensamentos?
Livvy emitiu um ruído exasperado, deu um passo à frente e pegou Mark pela parte de trás da camisa.
— Você não quer nada com ele — falou ela para a garota de cabelo rosa. — Ele tem sífilis.
A menina ficou encarando.
— Sífilis?
— Cinco por cento da população desse país têm — disse Ty, ajudando.
— Não tenho sífilis — retrucou Mark, irritado. — Não existem doenças sexualmente transmissíveis no Reino das Fadas!
As garotas mundanas imediatamente se calaram.
— Desculpe — disse Jules. — Vocês sabem como é sífilis. Ataca o cérebro.
As meninas ficaram boquiabertas enquanto Livvy puxava Mark pela camisa por todo o restaurante e até o estacionamento, com o restante do grupo atrás.
Assim que saíram e a porta se fechou, Emma soltou uma gargalhada. Ela se apoiou em Cristina, que também estava rindo, enquanto Livvy soltava Mark e ajeitava a própria saia, que parecia amassada.
— Desculpe — disse Emma. — É que... sífilis?
— Ty estava lendo sobre isso hoje — respondeu Livvy.
Julian, que tentava disfarçar o sorriso, olhou para Ty.
— Por que estava lendo sobre sífilis?
Ty deu de ombros.
— Pesquisa.
— Isso realmente era necessário? — perguntou Mark. — Eu só estava batendo um papo. Achei que devesse praticar meu nobre discurso nelas.
— Você estava bancando o ridículo de propósito — afirmou Emma. — Estou começando a ter a impressão de que você acha que as fadas soam ridículas.
— Eu achava, no começo — respondeu Mark honestamente. — Depois você se acostuma. Agora... Agora não sei o que pensar. — Ele pareceu um pouco perdido.
— Não devemos falar com mundanos — disse Julian, o sorriso desaparecendo. — É... é o básico, Mark. Uma das primeiras coisas que aprendemos. Principalmente sobre assuntos como o Reino das Fadas.
— Eu falei com aquelas mundanas, e ninguém explodiu ou pegou fogo — disse Mark. — Nenhuma maldição nos assolou. Elas acharam que eu estava fantasiado. — Ele virou a cabeça e olhou para Julian. — Você tem razão, eu posso me destacar, mas as pessoas veem o que querem ver.
— Talvez as regras sobre não ir para a batalha sem Marcas seja bobagem — disse Ty, e Emma pensou em como Mark havia falado com Ty na sala de treinamento. Agora nós dois estamos com as mãos machucadas.
— Talvez muitas regras sejam tolas — disse Julian, e havia uma ponta de amargura em sua voz que surpreendeu Emma. — Talvez a gente tenha que obedecer assim mesmo. Talvez isso nos faça Caçadores de Sombras.
Livvy pareceu confusa.
— Ter que seguir regras tolas é o que nos faz Caçadores de Sombras?
— Não as regras — disse Julian. — A penalidade por violá-las.
— A penalidade por violar as regras do Reino das Fadas são tão severas quanto, se não forem mais — argumentou Mark. — Você tem que acreditar em mim quanto a isso, Julian. Se eles acharem que não estou participando das investigações, não punirão apenas a mim, mas a vocês também. Não precisam que eu diga nada. Saberão. — Seus olhos ardiam. — Está entendendo, Jules?
Julian falou baixinho:
— Entendo, Mark. E confio em você. — Ele sorriu para o irmão, e, então, inesperadamente, o sorriso se tornou ainda mais luminoso pela imprevisibilidade. — Enfim, todos para o carro, tudo bem? Vamos voltar.
— Tenho que voltar com o cavalo — disse Mark. — Não posso deixar... ele... aqui. Se ele se perder, a Caçada Selvagem não vai gostar.
— Tudo bem — disse Julian. — Volte com ele sozinho. Ty e Livvy não vão montá-lo de novo, entendido? É muito perigoso.
Livvy pareceu decepcionada, e Ty, aliviado. Mark fez que sim com a cabeça quase imperceptivelmente.
— Eu vou com Mark — declarou Cristina de repente. Emma viu o rosto de Mark se iluminar de um jeito que a surpreendeu.
— Vou buscar o alazão — disse Mark. — Almejo voar.
— E obedeçam ao limite de velocidade! — gritou Julian quando Mark desapareceu em volta do prédio.
— É o céu, Julian — disse Emma. — Não tem limite de velocidade.
— Eu sei — disse ele, e sorriu. Era o sorriso que Emma amava, o que dá tinha a impressão de ser só para ela, o que dizia que, apesar de a vida frequentemente forçá-lo a ser sério, Julian não era de fato sério por natureza.
De repente, ela quis abraçá-lo e tocá-lo no ombro, tanto que teve que segurar as mãos para elas não levantarem. Ela olhou para os próprios dedos; por algum motivo, ela os tinha entrelaçado, como se formassem uma jaula que pudesse conter seus sentimentos.


A lua cheia estava alta no céu quando Mark parou a moto suavemente na areia atrás do Instituto.
A viagem para a cidade foi preenchida por pânico, Livvy agarrando o cinto de Cristina com as mãos pequenas e preocupadas, Ty pedindo para Mark ir mais devagar, a estrada desaparecendo sob seus pés. Quase bateram no lixão do estacionamento.
O caminho de volta foi quieto, Cristina segurando a cintura de Mark suavemente, pensando no quão próximos das nuvens eles voavam. A cidade abaixo deles formava uma estampa entrelaçada de luzes coloridas. Cristina sempre detestou parques de diversão e viagens de avião, mas isso era diferente de tudo: ela se sentia parte do ar, boiando como se estivesse em uma pequena embarcação sobre a água.
Mark saltou da moto e estendeu a mão para ajudá-la a descer. Ela aceitou, os olhos ainda preenchidos pela vista do Pier Santa Monica abaixo deles. Às luzes brilhantes da roda gigante. Ela nunca se sentiu tão longe da mãe, do Instituto na Cidade do México, dos Rosales. E gostou disso.
— Milady — disse ele, quando os pés dela tocaram o chão.
Ela sentiu os próprios lábios se curvarem para cima.
— Isso parece tão formal.
— As Cortes não são nada se não formais — concordou ele. — Obrigado por ter voltado comigo. Não precisava.
— Você não parecia querer voltar sozinho — disse Cristina. O vento suave soprava no deserto, movendo a areia e soprando os cabelos recém-cortados de Mark do rosto. Agora curtos, pareciam uma auréola, tão louros que eram quase prateados.
— Você enxerga muitas coisas. — Os olhos de Mark examinaram o rosto dela.
Ela ficou imaginando como ele era quando tinha os dois olhos Blackthorn. Azul esverdeados como o mar. Ela ficou imaginando se a estranheza dos olhos agora incrementava a beleza.
— Quando ninguém que conhece diz a verdade, você aprende a enxergar sob a superfície — disse ela, e pensou na mãe e nas pétalas de rosa amarelas.
— Sim — retrucou Mark. — Contudo, eu venho de um lugar onde todos dizem a verdade, por pior que seja.
— Isso é uma das coisas do Reino das Fadas de que sente falta? — perguntou Cristina. — O fato de que lá não convivia com mentiras?
— Como você sabe que sinto falta do Reino das Fadas?
— Seu coração não está tranquilo aqui — disse Cristina. — E acho que é mais do que apenas familiaridade que o atrai para lá. Você falou que se sentia livre, mas também disse que talharam símbolos nas suas costas. Estou tentando entender como você pode sentir falta disso.
— Isso foi a Corte Unseelie, não a Caçada — respondeu Mark. — E não posso falar do que me faz falta. Não posso falar sobre a Caçada, não verdadeiramente. É proibido.
— Isso é terrível. Como pode escolher se não pode falar sobre a sua escolha?
— O mundo é terrível — disse Mark secamente. — E alguns são atraídos por ele e se afogam, e outros se elevam e carregam outros consigo. Mas não muitos. Nem todo mundo pode ser Julian.
— Julian? — Cristina se espantou. — Eu achei que você talvez nem gostasse dele. Pensei...
— Pensou? — Ele arqueou as sobrancelhas prateadas.
— Achei que não gostasse de nenhum de nós — falou ela timidamente.
Parecia uma tolice a se dizer, mas o rosto dele suavizou. Ele se esticou para pegar a mão dela, passando os próprios dedos na palma. Um tremor correu pelo braço de Cristina, o toque da mão dele era como uma corrente elétrica.
— Eu gosto de você — disse ele. — Cristina Mendoza Rosales. Gosto muito de você.
Ele se inclinou para ela. Os olhos dele preencheram a visão de Cristina, azul e dourado...
— Mark Blackthorn. — A voz que disse o nome era aguda e breve. Mark e Cristina se viraram.
O alto guerreiro fada que havia trazido Mark ao Instituto estava diante deles, como se tivesse simplesmente sido conjurado da areia preta e branca e do céu.
Ele próprio parecia preto e branco, os cabelos cor de tinta em cachos escuros contra as têmporas. Seu olho prateado brilhava ao luar; o olho preto parecia sem pupila. Ele vestia túnica e calças cinza, e tinha adagas no cinto. Era tão desumanamente adorável quanto uma estátua.
— Kieran — disse Mark, e ofegou um pouco, parecendo chocado. — Mas eu...
— Deveria ter me esperado. — Kieran deu um passo para a frente. — Você pediu meu alazão emprestado; eu emprestei. Quanto mais tempo eu passar sem ele, mais desconfiado Gwyn ficará. Você queria levantar suspeitas?
— Eu pretendia devolver — disse Mark, com a voz baixa.
— Pretendia? — Kieran cruzou os braços.
— Cristina, entre — pediu Mark. Ele tinha abaixado a mão e estava olhando para Kieran, não para ela, com uma expressão constante.
— Mark...
— Por favor — disse ele. — Isso... Se respeita a minha privacidade, por favor, entre.
Cristina hesitou. Mas a expressão dele era clara. Ele sabia o que estava pedindo.
Ela se virou e atravessou a porta dos fundos do Instituto, permitindo que batesse ruidosamente atrás de si.
As escadas se elevaram diante dela, mas não conseguiu subir. Ela mal conhecia Mark Blackthorn. No entanto, ao colocar o pé no primeiro degrau, pensou nas cicatrizes nas costas dele. Na forma como ele tinha se encolhido feito uma bola no quarto, no primeiro dia, em como acusou Julian de ser um sonho ou um pesadelo enviado pelas Caçada Selvagem para atormentá-lo.
Ela não acreditava na Paz Fria, nunca acreditou, mas a dor de Mark havia transformado suas crenças. Talvez as fadas realmente fossem cruéis assim. Talvez não houvesse bondade nelas, nem honra. E, se fosse esse o caso, como ela poderia deixar Mark lá, sozinho, com um deles?
Ela se virou e abriu a porta, e congelou.
Levou um instante para seu olhar encontrá-los, mas, quando o fez, Mark e Kieran pareceram saltar para ela como imagens de uma tela iluminada: parados em um facho de luz na beira do estacionamento, as costas de Mark contra um dos carvalhos. Kieran estava inclinado contra ele, prendendo-o na árvore, e eles se beijavam.
Cristina hesitou por um instante, sangue subindo até o rosto, mas parecia claro que Mark não estava sendo tocado contra a vontade. As mãos de Mark afagavam os cabelos de Kieran, e ele o beijava vorazmente, como se estivesse com fome.
Os corpos se pressionavam totalmente; mesmo assim, Kieran agarrava a cintura de Mark, movendo as mãos incansavelmente, desesperadamente, como se pudesse puxar Mark ainda mais para perto. Elas subiram, tirando o casaco de Mark, acariciando a pele da clavícula. Ele emitiu um ruído baixo, como um grito de pesar, fundo na garganta, e se afastou.
Ele olhava fixamente para Mark, seu olhar tão faminto quanto desamparado. Nunca uma fada tinha parecido tão humana aos olhos de Cristina quanto Kieran naquele instante. Mark olhava de volta para ele, os olhos arregalados, brilhando ao luar. Um olhar compartilhado de amor, desejo e terrível tristeza.
Era muito. Já tinha sido muito: Cristina sabia que não devia tê-los espionado, mas não conseguiu se conter, a mistura de choque e fascínio a prendeu no lugar. E desejo. Havia desejo, também. Se por Mark, ou pelos dois, ou apenas pela ideia de querer tanto alguém, não tinha certeza. Cristina recuou, o coração acelerando, prestes a fechar a porta atrás dela...
E o estacionamento todo se acendeu como um estádio quando um carro dobrou a esquina. Música irradiava das janelas; Cristina ouviu as vozes de Emma e Julian.
O olhar dela voltou para Mark e Kieran, mas Kieran tinha desaparecido, uma sombra nas sombras. Mark estava abaixado, pegando o casaco, quando Emma e os outros saltaram do carro.
Cristina fechou a porta. Através dela ouviu Emma perguntar a Mark onde ela estava, e Mark responder que ela havia entrado. Ele soou calmo, casual, como se nada tivesse acontecido.
Mas tudo tinha acontecido.
Ela ficou imaginando, quando ele olhou nos olhos dela e disse que teria que se virar sem espelhos na Caçada Selvagem, em que olhos ele tinha olhado por todos aqueles anos.
Agora sabia.


A Caçada Selvagem, Alguns anos antes
Mark Blackthorn veio para a Caçada
Selvagem quando tinha 16 anos, e não por vontade própria.
Ele se lembrava apenas de escuridão depois que foi levado do Instituto que era sua casa, antes de acordar em cavernas subterrâneas, entre líquen e lodo pingando. Um homem enorme com olhos de duas cores estava sobre ele, carregando um capacete chifrudo.
Mark o reconheceu, é claro. Não existia Caçador de Sombras que não soubesse sobre a Caçada Selvagem. Não dava para ser meio fada e não ler sobre Gwyn, o Caçador, que liderava a caçada havia séculos. Ele usava uma longa lâmina de metal na cintura, escurecida e torcida, como se tivesse passado por muitos incêndios.
— Mark Blackthorn — falou Gwyn —, você está com a Caçada, pois sua família está morta. Somos seus parentes de sangue agora. — E sacando a espada, ele cortou a palma até sair sangue, e a mergulhou em água para Mark beber.
Nos anos seguintes, Mark viu outros chegando à Caçada, e Gwyn dizia a mesma coisa para eles, e os via beber seu sangue. E ele via os olhos mudarem, se dividindo em duas cores, como se isso simbolizasse a divisão das almas.
Gwyn acreditava que um novo recruta tinha que ser destruído para ser reconstruído como um Caçador, alguém que pudesse cavalgar pela noite sem dormir, alguém que pudesse sentir fome até quase morrer, e suportar dores que destruiriam um mundano. E ele achava que a lealdade devia ser inabalável. Não podiam colocar ninguém acima da Caçada.
Mark deu sua lealdade a Gwyn, e seus serviços, mas não fez amigos na Caçada Selvagem. Eles não eram Caçadores de Sombras, ele era. Os outros eram todos das Cortes das Fadas, condenados a servir a Caçada por castigo. Eles não gostavam do fato de que ele era Nephilim, e ele sentia o desprezo e desprezava em retribuição.
Ele cavalgava sozinho à noite, em um cavalo prateado que lhe fora dado por Gwyn. O Caçador parecia, perversamente, gostar dele, talvez para provocar os outros integrantes da Caçada. Ele ensinou Mark a navegar pelas estrelas e a ouvir os sons de uma batalha que poderia ecoar por centenas, talvez até milhares de quilômetros: gritos de raiva e berros de moribundos. Eles cavalgavam para os campos de batalha e, invisíveis aos olhos mundanos, despiam os corpos de coisas preciosas. A maioria delas era oferecida às Cortes Seelie e Unseelie em tributo, mas Gwyn guardava alguns para si.
Mark dormia sozinho, toda noite, no chão frio, envolvido em um cobertor, com uma pedra como travesseiro. Quando estava frio, ele tremia e sonhava com símbolos que o aqueceriam, com o brilho quente das lâminas serafim. No bolso, ele guardava a pedra marcada de luz enfeitiçada que Jace Herondale lhe deu de presente, apesar de ele não ousar acendê-la a não ser que estivesse sozinho.
Toda noite, enquanto dormia, ele recitava os nomes das irmãs e irmãos, em ordem de idade. Cada palavra tinha o peso de uma âncora, puxando-o para a terra. Mantendo-o vivo.
Helen. Julian. Tiberius. Olivia. Drusilla. Octavius.
Os dias se transformaram em meses. O tempo não era como no mundo mundano. Mark já tinha desistido de contar dias – não havia como assinalá-los, e Gwyn detestava essas coisas. Portanto, ele não fazia ideia de quanto tempo já tinha passado com a Caçada quando Kieran chegou.
Ele sabia que teriam um novo Caçador; a fofoca se espalhou rapidamente, e, além disso, Gwyn sempre Transformava os mais novos no mesmo lugar, uma caverna perto da entrada da Corte Unseelie, onde as paredes tinham pesados tapetes verdes de líquen e uma pequena piscina natural se formava entre as pedras.
Eles o encontraram quando chegaram, deixado ali para ser descoberto por Gwyn. Inicialmente tudo que Mark pôde ver foi o contorno de um menino com um emaranhado de cabelos negros e um corpo esguio, as correntes o prendendo pelos pulsos e calcanhares, puxando-o em uma estranha torção. Ele parecia todo feito de ossos e ângulos.
— Príncipe Kieran — disse Gwyn ao se aproximar do menino, e um murmúrio percorreu a Caçada. Se o novato era um príncipe, ele era mais exaltado do que a nobreza das fadas. E o que um príncipe poderia ter feito para ser exilado da Corte, separado da família, do nome, do título, dos parentes?
O menino levantou a cabeça quando Gwyn veio até ele, revelando o rosto.
Ele certamente era nobre. Tinha as feições estranhas, luminosas e quase desumanas de tão bonitas – maçãs do rosto altas e olhos negros. Seus cabelos tinham um brilho azul e verde entre o preto, a cor do mar à noite. Ele virou o rosto quando Gwyn tentou fazê-lo beber água misturada a sangue, mas Gwyn o forçou.
Mark assistiu fascinado enquanto o olho direito de Kieran mudava de preto a prata, e as correntes caíam dos pulsos e calcanhares feridos.
— Você agora é da Caçada — disse Gwyn, com um estranho tom sombrio. — Levante-se e junte-se a nós.
Kieran era uma estranha adição ao grupo. Apesar de sua categoria de príncipe lhe ter sido retirada quando ele foi exilado para a Caçada, ele ainda exibia um ar de arrogância e realeza em si, que não agradava aos outros. Eles zombavam dele, o chamavam de “principezinho”, e teriam feito pior se Gwyn não os controlasse.
Aparentemente alguém nas Cortes procurava por Kieran, apesar do exílio. Mark não conseguia deixar de olhar para ele. Alguma coisa em Kieran o fascinava. Ele logo descobriu que a cor do cabelo do príncipe mudava de acordo com seu humor, de negro (quando estava em desespero) a azul-claro (quando ria, coisa que quase nunca acontecia) – sempre cores do mar. Era espesso e ondulado, e, às vezes, Mark tinha vontade de tocá-lo para ver se parecia cabelo ao toque, ou se era diferente, seda, um tecido que mudava de cor conforme a luz.
Kieran montava o seu cavalo – que lhe fora dado por Gwyn; era o mais feroz que Mark já tinha visto, preto e magro, uma montaria dos mortos – como se tivesse nascido para isso. Como Mark, ele parecia determinado a cavalgar até curar a dor do exílio e da falta de amigos sozinho, raramente falando com os outros da Caçada, raramente olhando para eles sequer.
Só ele olhava para Mark, às vezes, quando os outros o chamavam de Nephilim ou de filho das Sombras e menino anjo, ou outros nomes piores.
Chegou um dia em que se espalhou a notícia de que a Clave havia enforcado algumas fadas em Idris por traição. As fadas tinham amigos na Caçada, e num ataque de raiva, os companheiros de Mark o fizeram ajoelhar e dizer "eu não sou Caçador de Sombras”.
Quando ele se recusou, arrancaram sua camisa e o chicotearam até sangrar. Eles o deixaram encolhido sob uma árvore em um campo nevado, transformando em vermelho os flocos brancos.
Quando Mark acordou havia uma fogueira e calor, e ele estava deitado no colo de alguém. Ainda grogue, ele recuperou a consciência o bastante para perceber que era no de Kieran. O príncipe o levantou nos braços, lhe deu água e o envolveu com um cobertor. Seu toque era suave e leve.
— Acredito que entre os seus — disse ele —, existam símbolos de cura.
— Sim — respondeu Mark, com voz rouca, se mexendo muito singelamente. A dor da pele cortada correu por todo o corpo. — Se chamam iratzes. Um deles repararia esses machucados. Mas não podem ser feitos sem uma estela, e quebraram a minha há anos.
— É uma pena — disse Kieran. — Acho que sua pele ficará com cicatrizes para sempre.
— O que me importa? — disse Mark, resignado. — Não é como se fizesse alguma diferença, aqui na Caçada, se sou bonito ou não.
Kieran sorriu um meio sorriso secreto e tocou gentilmente o cabelo de Mark.
Mark fechou os olhos. Fazia anos que ninguém o tocava, e a sensação causou calafrios em seu corpo apesar da dor dos cortes.
Depois disso, quando cavalgaram, cavalgaram juntos. Kieran fez da Caçada uma aventura para os dois. Ele mostrou a Mark maravilhas que só o Povo das Fadas conhecia: lençóis de gelo silenciosos e prateados ao luar, e jardins escondidos, cheios de flores noturnas. Eles cavalgavam entre cachoeiras e torres de nuvens. E Mark, se não estava feliz, estava, pelo menos, curado da tortura da solidão.
À noite, eles dormiam juntos sob o cobertor de Kieran, feito de um material espesso que era sempre quente. Uma noite, eles pararam no topo de uma colina, em um lugar verde ao norte. Havia um monte de pedras coroando a colina, algo construído por mundanos há mil anos. Mark se apoiou na lateral e olhou para os campos verdes, prateados no escuro, o distante mar. O mar, em todos os lugares, ele pensou, era o mesmo, o mesmo mar que quebrava nas costas e no lugar que ele ainda considerava sua casa.
— Suas cicatrizes curaram — disse Kieran, tocando um corte na camisa de Mark com um dedo leve e esguio.
— Mas continuam feias — falou Mark. Ele estava esperando pelas primeiras estrelas, para que pudesse nomeá-las com os nomes de seus familiares. Não viu Kieran se aproximar até que o menino estivesse diante dele, com o rosto elegantemente sombreado pelo crepúsculo.
— Nada em você é feio — disse Kieran. Ele se inclinou para beijar Mark, e Mark, apôs um instante de surpresa virou o rosto, deixando que os lábios de Kieran encontrassem com os seus.
Era o seu primeiro beijo, e ele nunca achou que seu primeiro beijo viria de um menino, mas ficou feliz por ser Kieran. Ele nunca imaginou que um beijo pudesse ser tão agonizante e prazeroso ao mesmo tempo. Há meses que queria tocar os cabelos de Kieran, então o fez, enterrando os dedos nos fios, que passavam de pretos a azul, com as pontas douradas. Pareciam chamas em sua pele.
Eles se deitaram sob o cobertor juntos naquela noite, mas dormiram pouco, e Mark se esqueceu de dar as estrelas os nomes de seus familiares – naquela noite e em várias outras noites depois. Logo Mark se acostumou a acordar com o braço sobre o corpo de Kieran, ou com as mãos entre cachos azuis-embranquecidos.
Ele aprendeu que beijos, toques e juras de amor ajudavam a esquecer, e que, quanto mais ficava com Kieran, mais queria ficar só com ele e mais ninguém. Ele vivia pelos momentos em que ficava a sós com ele, normalmente à noite, sussurrando para que mais ninguém pudesse escutá-los.
— Fale sobre a Corte Unseelie — pedia Mark, e Kieran sussurrava contos sobre a Corte escura e o Rei claro, seu pai, que governava tudo.
— Conte-me sobre os Nephilim — dizia Kieran, e Mark falava sobre o Anjo, sobre a Guerra Maligna e o que tinha acontecido com ele, e sobre seus irmãos e irmãs.
— Você não me odeia? — disse Mark, deitado nos braços de Kieran, em algum lugar em um alto pasto alpino. Seus cabelos louros desgrenhados tocaram o ombro de Kieran ao virar a cabeça. — Por ser Nephilim? Os outros odeiam.
— Você não precisa mais ser Nephilim. Pode escolher ser da Caçada Selvagem. Acatar sua natureza de fada.
Mark balançou a cabeça.
— Quando me espancaram por dizer que era Caçador de Sombras, só tive mais certeza. Eu sei o que sou, mesmo que não possa falar.
— Pode falar apenas para mim — disse Kieran, passando os longos dedos na bochecha de Mark. — Aqui nesse espaço entre nós dois. É seguro.
Então Mark se aproximou de seu amante e único amigo e sussurrou no espaço entre eles, onde seu corpo frio tocava o quente de Kieran.
— Eu sou um Caçador de Sombras. Eu sou um Caçador de Sombras. Eu sou um Caçador de Sombras.

16 comentários:

  1. Morri com esse capítulo kkkk. Sífilis eu não sei, varíola demoníaca talvez. Até Caçadores de Sombra conhecem os Vingadores e aposto que Julian é time Homem de Ferro, como eu sempre fui mesmo antes do filme, tamo junto! Mark, quem teria imaginado. Confesso que fiquei meio WTF?!?! Mas depois fiquei pensando se isso é verdadeiro, nunca se sabe, fadas são cruéis, e o Mark não precisa ter o coração quebrado mais uma vez. Foi só eu começar a shippar ele com a Cris e dá nisso, dedo podre esse meu.

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    1. Acho que nao, as fadas amam pra sempre e nao mentem.

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  2. Aquele momento em que você tem seu shipp estilhaçado um capítulo depois de ter feito ele. Mas ama esse novo casal e então fica na dúvida: não desistir de Cristina+Mark ou começar a torcer por esse? Af Cassandra.

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  3. Cara eu to em choque... por essa eu não esperava, estava achando tão fofo o Mark com Cris, e vem isso, meu eu não tinha pensado nessa possibilidade, mas ate que eles são fofos juntos (o Mark com o Kieran)

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  4. Caçadora de Sombras10 de julho de 2016 17:45

    — O sangue é de Julian — sussurrou Emma, e Cristina emitiu um murmúrio ao puxar Emma para um abraço. Ela afagou as costas da amiga, e Emma a apertou com força; naquele instante decidiu que, se alguma coisa ou alguém tentasse machucar Cristina, ela os esmagaria e faria castelos de areia lindos com os restos.
    Amo essas duas <3
    — Bem, você pode imaginar como os Mercadores ficaram felizes em me ver com Cameron...

    — Você foi com Cameron? — perguntou Julian.
    Livvy estendeu a mão.
    — Em defesa de Emma, Cameron é irritante, mas é gato. — Julian lançou um olhar para ela. — Quero dizer, se você curtir caras que parecem um Capitão América ruivo, coisa que eu... não curto?
    — O Capitão América definitivamente é o Vingador mais bonito — endossou Cristina. — Mas prefiro o Hulk. Queria poder curar seu coração partido.
    — Somos Nephilim — disse Julian. — Não podemos nem saber sobre os Vingadores. Além disso — acrescentou ele —, o Homem de Ferro obviamente é o mais bonito.
    kkkk amei esse diálogo

    PARA TUDO! KIERAN E MARK?
    AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA(SORRY)
    OK, SABE QDO VC N SABE COM QUEM SHIPPAR O PERSONEGEM? ENTÃO, NÉ... KIERARK OU MARK E CRIS (N SEI COMO SHIPPAR)?
    MINHA ÚNICA CERTEZA É JEMMA...

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  5. CHO-CA-DA! nunca imaginaria,mas achei bonitinho :3

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  6. SEGURA ESSA MARIMBA MONAMU
    To em choque meu Zeus

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  7. Filha da Atena Harondale21 de julho de 2016 14:13

    Ok... Isso me pegou de surpresa não sei se gosto ou não por que shipava ele com a Cris mas menos uma ameaça a Jemma (não me levem a mal me levem a Idris)

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  8. Oi? Quê? Essa foi minha reação sobre Mark e Kieran,poxa meu shipp foi por água abaixo, tva tao lindo ele e a Cris. Eu acho que o Mark vai ficar mais indeciso, se fica com a família ou se escolhe ficar com a pessoa que ama. E tbem acho que eles vão conseguir mudar essa nova lei, para ficar tudo certo.
    Obs:morri de rir sobre a parte dos vingadores.😂

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  9. CHOCADA
    Mark nunca tinha beijado 0.0
    Ema e Julian Apaixonada
    Mas continuo CHOCADA

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  10. Meu primeiro comentário aqui ❤ Menina tu é diva,obrigada por postar❤
    Sobre esse capítulo, oh god. Já tinha visto spoiler, mas confesso que não imaginei que iria shippar esse casal O.o. Não sei se gosto mais do Mark cm a Cris ou o Kieran 😂.
    Jemma tem que terminar juntos, se não vou odiar uma tal de Cassandra Clare 😂.
    Ly, Ty, Dru e Tavvy❤

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  11. Hallen e Mark, o que tiramos desses dois? Sangue nephilim mais fada é igual a LGBT

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    1. Né! Hauehauehaue o sangue não mente 🌚

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  12. To chocada até agora

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  13. Como assim ;-; Queria o Mark com a Cristina i.i

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