1 de julho de 2016

Capítulo 11 - Uma donzela ali vivia

— Acho que Ty está exagerando em suas leituras de detetive — disse Julian com um sorriso. Estava com a janela aberta, e o ar que soprava no carro levantava seu cabelo da testa. — Ele me perguntou se eu achava que os assassinatos eram um trabalho interno.
— Interno de onde? — Emma sorriu.
Ela estava acomodada no banco do passageiro, os pés calçados, apoiados no painel. As janelas se abriram para a noite, e Emma podia ouvir os ruídos da cidade se elevando ao redor deles enquanto esperavam um sinal vermelho.
Entraram na Sunset saindo da Coast Highway. Inicialmente, quando passaram pelos cânions e entraram em Beverly Hills e Bel Air, o subúrbio estava quieto, mas eles agora estavam no coração de Hollywood, a Sunset Strip, cheia de restaurantes caros e enormes outdoors de 30 metros de altura, cheios de propagandas de filmes e programas de TV. As ruas eram lotadas e barulhentas: turistas posando para fotos com covers de celebridades, músicos de rua recolhendo trocados, pedestres correndo de um lado para o outro, saindo do trabalho.
Julian parecia mais tranquilo do que nos últimos dias, inclinando-se no assento, segurando casualmente o volante. Emma sabia exatamente como ele se sentia. Ali, de casaco de uniforme e calça jeans, com Julian ao seu lado e Cortana na mala do carro, ela se sentia em seu devido lugar.
Emma tinha tentado puxar o assunto Mark, brevemente, quando entraram no carro. Julian apenas balançou a cabeça e disse:
— Ele está se ajustando.
E isso foi tudo. Ela sentiu que ele não queria falar sobre Mark, e tudo bem: ela não sabia que tinha soluções a oferecer. E foi fácil, tão fácil voltar para as brincadeiras normais. Pela primeira vez em muito tempo Emma se sentiu no lugar certo.
— Acho que ele estava perguntando se eu acho que o assassino é um Caçador de Sombras. — O trânsito se intensificava quando chegaram à interseção entre Sunset e Vine, e o carro foi passando lentamente sob as palmeiras e o néon. — Eu disse não, obviamente é alguém que conhece magia, e que eu não achava que um Caçador de Sombras contrataria um feiticeiro para matar em seu lugar. Costumamos cometer nossos próprios assassinatos.
Emma riu.
— Você disse a ele que Caçadores de Sombras são do time do “Faça Você Mesmo” em relação a assassinatos?
— Somo do time do “faça Você Mesmo” em relação a tudo!
O trânsito andou de novo; Emma olhou para baixo, observando o jogo de músculo e tendão na mão de Jules enquanto ele mudava a marcha. O carro seguiu adiante, e Emma olhou pela janela as pessoas enfileiradas para o Teatro Chinês. Ela ficou imaginando o que elas pensariam se soubessem que os dois adolescentes no Toyota eram, de fato, caçadores de demônios com uma mala cheia de arcos, lanças, adagas, katanas e facas de arremesso.
— Tudo bem com Diana? — perguntou Emma.
— Ela queria conversar sobre Ty. — A voz de Julian estava firme, mas Emma o viu engolir em seco. — Ele quer muito estudar na Scholomance. Eles têm acesso às bibliotecas do Labirinto Espiral, aos arquivos dos Irmãos do Silêncio... Quero dizer, tudo que não sabemos sobre símbolos e rituais, os mistérios e quebra-cabeças que ele poderia resolver. Mas, ao mesmo tempo...
— Ele seria a pessoa mais jovem de lá — falou Emma. — Isso seria difícil para qualquer um. Ty sempre viveu conosco. — Ela tocou o pulso de Julian, de leve. — Eu fico feliz por nunca ter ido para a Academia. E a Scholomance é ainda mais difícil. E solitária. Alguns dos alunos acabaram entrando em... bem, Clary chama de colapso nervoso. Acho que é um termo mundano.
Julian olhou para o GPS e dobrou à esquerda, indo em direção às colinas.
— Com que frequência você fala com Clary atualmente?
— Mais ou menos uma vez ao mês. — Clary ligava para saber dela desde que se conheceram em Idris, quando Emma tinha 12 anos de idade. Era uma das poucas coisas sobre as quais ela não conversava com Jules: os papos com Clary pareciam coisas que pertenciam somente a ela.
— Ela ainda está com Jace?
Emma riu, sentindo a tensão sumir. Clary e Jace eram uma instituição, uma lenda. Pertenciam um ao outro.
— Quem terminaria com ele?
— Eu talvez terminasse se ele não atendesse às minhas necessidades.
— Bem, ela não comenta a vida amorosa comigo. Mas, sim, continuam juntos. Se terminassem, eu talvez parasse de acreditar no amor como um todo.
— Eu não sabia que você acreditava no amor de fato — disse Jules, e parou, como se tivesse acabado de perceber o que tinha dito. — Isso soou errado.
Emma estava indignada.
— Só porque não me apaixonei por Cameron...
— Não? — O trânsito fluiu; o carro avançou. Julian bateu com a palma da mão no volante. — Olha, nada disso me diz respeito. Esqueça. Esqueça o que eu perguntei sobre Jace e Clary, ou Simon e Isabelle...
— Você não perguntou sobre Simon e Isabelle.
— Não? — O lado da boca dele se levantou. — Isabelle foi minha primeira paixonite, você sabe.
— Claro que sei. — Ela jogou a tampa da garrafa de água nele. — Era tão óbvio! Você não parou de olhar para ela durante toda a festa do casamento de Aline e Helen.
Ele se desviou da tampa.
— Não fiz nada disso.
— Fez sim — teimou ela. — Precisamos conversar sobre o que estamos procurando na casa de Wells?
— Acho melhor improvisarmos.
— “A qualidade das decisões é como o mergulho bem calculado de um falcão, o que o permite atacar e destruir sua vítima” — citou Emma.
Julian olhou incrédulo para ela.
— Isso foi uma citação de A arte da guerra?
— Talvez. — Emma sentiu uma alegria tão intensa que foi quase uma tristeza: ela estava com Jules, eles estavam brincando, tudo como deveria ser entre parabatai. Viraram para uma série de ruas residenciais: grandes mansões cobertas de flores se elevavam sobre altas cercas vivas, aninhadas atrás de belas entradas.
— Está sendo evasiva? Sabe como me sinto a respeito desse tipo de comportamento no meu carro — disse Julian.
— O carro não é seu.
— Seja como for, estamos aqui — disse Jules, encostando perto do meio-fio e desligando o motor. Já era crepúsculo, não estava exatamente escuro, e Emma conseguia ver a casa de Wells, igual às fotos de satélite no computador: as cumeeiras se erguiam sobre o imenso muro que a cercava, coberto por treliças de buganvílias.
Julian apertou o botão que subia os vidros. Emma olhou para ele.
— Já está quase escuro. Estamos preocupados com atividades demoníacas?
— Talvez. — Ele checou o porta-luvas. — Nada no Sensor, mas só para ter certeza, vamos nos Marcar.
— Tudo bem. — Emma levantou as mangas, estendendo os braços enquanto Julian sacava a estela branca do bolso.
No escuro do carro, ele se inclinou, colocou a ponta da estela na pele dela, e começou a desenhar. Emma sentiu o cabelo dele roçar sua bochecha e pescoço, e o cheiro fraco de cravos que o cercava.
Ela olhou para baixo, e, à medida que as linhas pretas dos símbolos se espalhavam pó sua pele, Emma se lembrou do que Cristina havia dito sobre Jules: ele tem mãos bonitas. Ficou imaginando se já tinha reparado nelas alguma vez. Eram bonitas? Eram as mãos de Julian. Mãos que pintavam e lutavam; jamais decepcionavam. Por este ponto de vista eram lindas.
— Certo. — Jules recuou no assento, admirando seu trabalho manual. Símbolos bem-feitos de Precisão e Discrição, Silêncio e Equilíbrio decoravam seus antebraços. Emma puxou as mangas e alcançou a própria estela.
Ele estremeceu quando a estela o tocou na pele. Devia estar fria.
— Desculpe — sussurrou Emma, apoiando a mão no ombro dele. Ela sentiu a beira da clavícula com o polegar, o algodão da camiseta macio sob seu toque; apertou com mais força, as pontas dos dedos deslizando sobre a pele exposta da borda do colarinho. Ele respirou fundo.
Ela parou.
— Machucou?
Ele balançou a cabeça. Ela não conseguiu ver o rosto de Julian.
— Estou bem. — Ele alcançou atrás de si e destrancou a porta do motorista; um segundo depois, estava fora do carro e vestia o casaco.
Emma o seguiu.
— Mas eu não terminei o símbolo do Golpe-Certeiro...
Ele tinha circulado e aberto a mala do carro. Pegou a besta Marcada e entregou Cortana e a bainha a Emma.
— Não tem problema. — E fechou a mala. Não parecia incomodado: o mesmo Julian, o mesmo sorriso calmo. — Além disso, não preciso.
Ele ergueu a besta casualmente e disparou. A flecha voou pelo ar e acertou a câmera de segurança sobre o portão. Ela se estilhaçou com o ruído de metal quebrado e uma trilha de fumaça.
— Exibido — disse Emma, guardando a espada na capa.
— Sou seu parabatai. Tenho que me exibir ocasionalmente. Do contrário, as pessoas não vão entender por que você fica comigo. — Um casal mais velho apareceu de uma entrada perto deles, passeando com um pastor-alemão. Emma teve que lutar contra o impulso de esconder Cortana, apesar de imaginar que a arma tinha um feitiço de disfarce. Para os mundanos passeando, ela e Julian pareciam adolescentes comuns, com mangas longas escondendo seus símbolos. Atravessaram a esquina da rua e desapareceram de vista.
— Eu fico com você porque preciso de plateia para as minhas observações inteligentes — ela disse ao alcançarem os portões, e Julian pegou a estela para desenhar um símbolo de Abertura.
O portão se abriu. Julian virou de lado e deslizou pela abertura.
— Que observações inteligentes?
— Ah, você vai pagar pó isso — murmurou Emma, seguindo-o. — Eu sou incrivelmente inteligente.
Julian riu. Tinham chegado a uma entrada alinhada que levava a uma casa grande de estuque com uma imensa porta arqueada na frente, dois enormes painéis de vidro em cada lado. As luzes que ladeavam o caminho estavam acesas, mas a casa parecia escura e silenciosa.
Emma subiu pelos degraus e espiou por uma das janelas; não enxergou nada além de formas escuras e indistintas.
— Ninguém em casa... ah! — Ela se jogou para trás quando algo se lançou contra a janela: uma bola coberta de calombos e cabelos. Uma secreção escorreu pelo vidro. Emma já estava agachada, prestes a pegar um estilete da bota. — O que é isso? — Ela se endireitou. — Um demônio Raum? Um...
— Acho que é um poodle toy — disse Julian, o canto da boca tremendo. — E não acredito que esteja armado — acrescentou ao olhar para baixo com ares de acusação para ver que era, sim, definitivamente um cachorro pequeno, com o focinho pressionado contra o vidro. — Estou quase certo, aliás.
Emma bateu no ombro dele, em seguida, desenhou um símbolo de Abertura na porta. Ouviram o clique estalado da tranca, e a porta se abriu.
O cachorro parou de lamber a janela e correu, latindo. Rodou em volta deles, depois se jogou contra uma área cercada na ponta do jardim. Julian correu atrás do cão.
Emma o seguiu através do gramado que batia no calcanhar. Era um belo jardim, mas ninguém tinha cuidado de verdade dele. As plantas cresciam por toda parte; as cercas vivas cheias de flores não eram aparadas. A piscina era cercada por uma grade de fero que batia na cintura, e seu portão estava aberto. Ao se aproximar, viu que Julian parara ao seu lado, imóvel. Era o tipo de piscina com luzes de LED, girando em um arco-íris de cores berrantes. Fileiras de espreguiçadeiras, feitas de metal branco com almofadas brancas, cobertas por espinhos de pinhas e flores caídas de jacarandá a circundavam.
Emma desacelerou ao chegar à água; depois percebeu que se tratava de um corpo. Uma mulher morta, de biquíni branco, flutuando na superfície da piscina. Ela estava com o rosto para baixo, cabelos longos e negros boiando ao redor, braços pendurados nas laterais. O brilho roxo das luzes da piscina dava a impressão de que estava com hematomas.
— Pelo Anjo, Jules... — Emma suspirou.
Não que Emma jamais tivesse visto cadáveres antes. Vira muitos. Mundanos, Caçadores de Sombras, crianças assassinadas no Salão dos Acordos. Ainda assim, havia algo de tristonho nesse corpo: a mulher era minúscula, tão magra que dava para enxergar sua coluna vertebral.
Havia uma mancha vermelha em uma das cadeiras da piscina. Emma foi até ela, achando que era sangue, e então percebeu que era uma bolsa Valentino feita de couro vermelho, ligeiramente aberta. Uma carteira dourada e um telefone rosa se esticavam para fora dela.
Ela olhou para o telefone, depois pegou a carteira e a examinou.
— O nome dela é Ava Leigh — falou Emma. — Ela tem... tinha... 22. O endereço dela é esse. Devia ser a namorada dele.
O cachorro gemeu novamente e deitou, com as patas perto da beira da piscina.
— Ele acha que ela está se afogando — disse Julian. — Ele quer que a gente salve a moça.
— Não poderíamos — disse Emma suavemente. — Veja o telefone dela. Nenhuma das ligações foi atendida nos últimos dois dias. Acho que está morta há pelo menos esse tempo. Não poderíamos ter feito nada, Jules.
Ela guardou a carteira de volta na bolsa. Estava alcançando as alças quando ouviu: o clique de uma besta sendo carregada com uma flecha.
Sem olhar ou pensar, ela se jogou para Jules, derrubando-o. Eles caíram violentamente no azulejo espanhol quando uma flecha chiou perto deles e desapareceu na cerca viva.
Julian chutou o chão e girou sobre eles, rolando entre as duas cadeiras. O telefone que Emma estava segurando voou da sua mão; ela o ouviu cair na piscina com um splash e praguejou baixinho. Julian se ajeitou, segurando-a pelos ombros; os olhos dele brilhavam selvagens, o corpo pressionava o dela no chão.
— Você está bem? Foi atingida?
— Eu não... Estou bem... — Ela engasgou. O cachorro estava perto da cerca, uivando, quando outra flecha apareceu e atingiu o corpo na piscina. O corpo de Ava virou, mostrando seu rosto inchado e escurecido pelo afogamento. Um dos braços flutuou para cima, como se levantando para se proteger. Com um breve lampejo de horror, Emma viu que a mão direita dela estava faltando, mas parecia ter sido arrancada, a pele em volta do pulso rasgada e exangue na água cheia de cloro.
Emma rolou de baixo de Julian e se levantou. Havia uma figura no telhado da casa; dava para ver apenas a silhueta. Alta, provavelmente masculina, toda de preto, besta na mão. Ele levantou e mirou. Outra flecha voou.
Emma sentiu raiva; fria e severa. Como ele ousa atirar neles, como ousa atirar em Jules? Ela correu e saltou por cima da piscina. Pulou o portão e correu para a casa, saltando e agarrando as barras de ferro que cobriam as janelas mais baixas. Ela foi subindo, ciente de que Julian gritava para ela descer, ignorando as feridas que o metal causava em sua palma. Ela subiu e subiu, escalando a parede até o telhado.
As telhas sob seus pés racharam quando ela aterrissou, agachada. Emma levantou os olhos e deu uma rápida olhada na figura vestida de preto no telhado; estava se afastando dela. Seu rosto coberto por uma máscara.
Emma tirou Cortana da bainha. A lâmina brilhou, longa e sinistra, à luz crepuscular.
— O que você é? — Ela quis saber. — Um vampiro? Membro do Submundo? Você matou Ava Leigh?
Emma deu um passo para a frente; a estranha figura recuou. Movia-se sem alarde, muito deliberadamente, o que apenas irritou Emma ainda mais. Havia uma garota morta na piscina abaixo deles, e Emma tinha chegado tarde demais para salvá-la. Seu corpo pulsava com o desejo de fazer alguma coisa para reparar a situação.
Emma cerrou os olhos.
— Ouça. Eu sou uma Caçadora de Sombras. Você pode se render à autoridade da Clave ou vou enterrar essa lâmina no seu coração. A escolha é sua.
A figura deu um passo em direção a ela, e, por um instante, Emma achou que tinha dado certo; ela estava de fato desistindo. E então mergulhou de repente para o lado. Emma se adiantou ao mesmo tempo que a figura caía de costas do telhado. Silenciosa como uma estrela.
Emma xingou e correu para a beira do telhado. Não havia nada. Silêncio, escuridão; nenhum sinal de nada nem ninguém. Dava para ver o brilho da piscina. Ela circulou a lateral e viu Julian abaixado, com uma das mãos na cabeça do cachorro.
Típico de Jules tentar confortar um cãozinho em um momento daqueles. Ela se preparou e saltou – a imagem da sala de treinamento surgiu por trás de suas pálpebras – aterrissando sobre a grama com apenas um singelo desconforto.
— Jules? — chamou, se aproximando. Com um gemido o cachorro correu para longe, para as sombras. — A figura escapou.
— É? — Ele se ajeitou, falando em tom preocupado. — O que você acha que estava fazendo aqui?
— Não sei; acho que era um vampiro, mas Nightshade os controla bem e... Jules? — Ela ouviu a própria voz se elevar, e chegou perto o suficiente para ver que ele estava com uma das mãos na lateral do corpo. O casaco preto de uniforme parecia rasgado. — Jules? Você está bem?
Ele tirou a mão. A palma estava imunda de sangue, preta sob a luz azul de LED da piscina.
— Estou bem — respondeu. Ele se levantou, deu um passo em direção a ela, e tropeçou. — Está tudo bem.
O coração dela se revirou. Ele estava segurando alguma coisa na mão ensanguentada, e as entranhas de Emma se congelaram quando ela viu o que era. Uma flecha curta de metal, com uma cabeça larga triangular, molhada de sangue. Ele provavelmente a retirou do corpo.
Ninguém nunca, jamais, deve retirar uma flecha da própria pele: causava mais estragos saindo do que entrando. Julian sabia disso.
— O que você fez? — sussurrou Emma. Estava coma boca completamente seca.
Sangue vazava uniformemente do rasgo no casaco.
— Estava queimando — disse ele. — Diferente de uma flecha normal. Emma...
Ele caiu de joelhos. A expressão de Julian era confusa, apesar de ele estar claramente combatendo aquilo.
— Temos que sair daqui — falou ele com voz rouca. — O atirador pode voltar, sozinho ou com mais...
Julian engasgou e foi caindo para trás, ia espatifar na grama. Emma se moveu mais depressa do que jamais havia feito na vida, saltando sobre a piscina, mas mesmo assim não chegou a tempo de impedir que ele caísse no chão.

* * *

Nuvens se reuniam sobre o mar. O vento no telhado era frio, o mar atuava como um grande ar-condicionado. Cristina ouvia o rugido e as ondas quebrando ao longe enquanto se movia cuidadosamente sobre as telhas. O que acontecia com os Blackthorn e Emma que fazia com que ela tivesse passado metade do tempo em telhados desde sua chegada a Los Angeles?
Mark estava sentado em uma das calhas de cobre, com as pernas penduradas na lateral. O vento soprava seus cabelos claros em volta do rosto. As mãos eram longas, brancas e expostas, apoiando-o contra as telhas atrás dele.
Ele segurava um celular, um dos aparelhos sobressalentes do Distrito. Parecia absurdo – era absurdo, o menino fada com cabelos longos e emaranhados, a tapeçaria de estrelas atrás dele e o telefone na mão.
— Sinto muito, Helen. — Ela o ouviu dizer, e as palavras ecoaram com um amor tão profundo e tanta solidão que ela quase se afastou.
Sair em silêncio não aprecia uma opção, no entanto. Mark ouviu sua aproximação: ele virou singelamente e gesticulou para que Cristina ficasse.
Ela o fez, incerta. Foi Dru que disse que encontraria Mark no telhado, então os outros insistiram para que ela subisse para ver se ele estava bem. Ela se questionou se seria apropriado, mas Ty e Livvy estavam ocupados coma tradução e ela ficou coma impressão de que Dru temia as palavras severas de Mark. E Tavvy não podia subir para buscar o irmão. Assim, com alguma relutância, Cristina se dirigiu à escada do telhado.
Agora que ela estava ali, no entanto, sentiu uma solidariedade dolorosa pelo menino empoleirado no parapeito. O olhar no rosto dele enquanto falava com Helen – ela não conseguia imaginar como deveria ser aquilo para ele, saber que só existia uma pessoa como ele na família, que tinha seu sangue e sua herança, e saber que tinha sido separado dela por uma Lei cruel e intransponível.
— E eu, a sua, minha irmã — disse Mark, e abaixou o telefone. Era um aparelho antigo, com uma tela que piscava e escurecia quando a ligação encerrava.
Ele guardou o aparelho no bolso e olhou para Cristina, o vento soprando os cabelos claros.
— Se estiver aqui para dizer que me comportei mal, eu já sei — falou Mark.
— Não vim por isso — disse ela, chegando mais perto, mas sem sentar.
— Mas você concorda — retrucou ele. — Eu me comportei mal. Não deveria ter falado daquele jeito com Julian, principalmente na frente dos pequenos.
Cristina falou cuidadosamente.
— Não o conheço bem. Mas acredito que ele estivesse preocupado com você, e por isso não quis que o acompanhasse.
— Eu sei — falou Mark, surpreendendo-a. — Sabe como é isso, seu irmão mais novo preocupado com você, como se você fosse a criança? — Ele passou os dedos nos cabelos. — Eu pensei, enquanto estive fora, que eles estavam sendo criados por Helen — explicou. — Nunca imaginei que fosse cair tudo nas costas de Julian. Não sei dizer se é por isso que parece ser um desconhecido para mim.
Cristina pensou em Julian, em sua competência silenciosa e sorrisos cuidadosos. Ela se lembrava de ter dito a Emma, brincando, que talvez fosse se apaixonar por Julian quando o conhecesse. E ele era mais bonito do que ela imaginava, do que as fotos borradas e as descrições vagas de Emma. Mas, apesar de ter gostado dele, duvidava que pudesse amá-lo. Ele escondia muito de si próprio para isso.
— Boa parte dele, eu acho, está trancada — falou ela. — Você já viu o mural na parede do quarto dele? O do conto de fadas? Ele é como aquele castelo, eu acho, cercado por espinhos que cultivou para se proteger. Mas, com o tempo, você pode cortá-los. Acredito que você vá voltar a conhecer seu irmão.
— Não sei quanto tempo tenho — retrucou Mark. — Se não resolvermos o quebra-cabeça, a Caçada Selvagem vai me reivindicar de volta.
— Você quer isso? — perguntou Cristina suavemente.
Ele não disse nada, apenas olhou para o céu.
— É por isso que vem para o telhado? Porque daqui pode ver se a Caçada passar?
Mark ficou em silêncio por um longo tempo. E então disse:
— Às vezes imagino que posso ouvi-los. Que escuto o som dos cascos contras as nuvens.
Ela sorriu.
— Gosto do jeito como você fala — confessou ela. — Sempre parece poesia.
— Falo do jeito que aprendi comas fadas. Muitos anos sob tutela delas. — Ele virou as mãos e as colocou nos joelhos. As partes internas dos pulsos eram marcadas por cicatrizes longas e estranhas.
— Quantos anos? Você sabe?
Ele deu de ombros.
— O tempo lá não é medido como aqui. Não sei dizer.
— Os anos não aparecem no seu rosto — observou ela baixinho. — Às vezes, você parece tão jovem quanto Julian, e, às vezes, parece as fadas: sem idade.
Agora ele olhou de lado para ela.
— Você não acha que pareço um Caçador de Sombras?
— Você quer parecer um?
— Quero parecer minha família — disse ele. — Posso não ter as cores dos Blackthorn, mas sou capaz de parecer o máximo possível com os Nephilim. Julian estava certo, se eu quiser fazer parte da investigação, não posso me destacar.
Cristina se conteve e não disse a ele que não existia um mundo em que ele não se destacasse.
— Posso deixá-lo parecido com um Caçador de Sombras. Se descer comigo.
Ele se moveu tão silenciosamente no telhado quanto se tivesse patas felinas ou se estivesse comum símbolo do Silêncio Marcado em si. Chegou para o lado e permitiu que ela o guiasse para baixo. Mesmo isso foi feito em silêncio, e, quando ela esbarrou nele, ele estava com a pele fria como o ar noturno.
Ela o conduziu até o quarto dele; Mark tinha deixado as luzes apagadas, então ela acendeu sua luz enfeitiçada e a pousou ao lado da cama.
— Aquela cadeira — disse ela, apontando. — Traga-a para o meio do quarto e sente-se. Eu já volto.
Ele olhou confuso para Cristina enquanto ela se retirava. Quando voltou, trazia um pente, uma toalha e um par de tesouras; ele estava sentado na cadeira, com o mesmo olhar confuso. Mark não sentava como outros meninos adolescentes o faziam, com braços e pernas abertos. Ele se sentava como reis em pinturas, ereto, porém, circunspecto, como se a coroa estivesse desconfortável na cabeça.
— Você vai cortar minha garganta? — perguntou o garoto quando ela veio em sua direção com a tesoura afiada brilhando.
— Vou cortar o seu cabelo.  Ela colocou a toalha no pescoço de Mark e foi para trás dele, que reclinou a cabeça para acompanhar os movimentos dela enquanto segurava o seu cabelo, passando os dedos por ele. Era o tipo de cabelo que deveria ser cacheado, mas que se esticava com o próprio comprimento.
— Fique parado — disse ela.
— Como a dama desejar.
Ela passou o pente e começou a cortar, com cuidado para não ficar desigual. Enquanto aparava o peso da crina loura e prateada, o cabelo se libertava em adoráveis cachos, como os de Julian. Eles se curvaram na nuca de Mark, como se quisessem ficar perto dele.
Cristina se lembrou de tocar o cabelo de Diego; era espesso sob seus dedos, escuro e cheio de textura. O de Mark era fino como seda. Caía como palha brilhante, iluminado pela luz enfeitiçada.
— Fale sobre a Corte das Fadas — pediu ela. — Sempre ouvi histórias. Minha mãe me contou algumas, além do meu tio.
— Não víamos muito — falou ele, parecendo muito normal para o momento. — Gwyn e os Caçadores não fazem parte de nenhuma corte. Ele não interage. Só socializávamos comas Cortes e a nobreza em noites de festa. Mas essas eram...
Ele ficou tanto tempo quieto que ela ficou imaginando se ele teria caído no sono, ou se simplesmente estava mortalmente entediado.
— Se você já tivesse participado de alguma, não se esqueceria — assegurou ele. — Grandes cavernas cintilantes ou pequenos bosques desertos em florestas cheias de luzes de dia das bruxas. Ainda existem partes desse mundo que não foram descobertas por ninguém além do Povo das Fadas. Danças que esgotavam os pés, belos rapazes e moças, beijos mais baratos que vinhos, mas o vinho era doce e a fruta ainda mais. E de manhã você acordava e tudo tinha desaparecido, mas a música continuava tocando na sua cabeça.
— Talvez eu achasse isso muito assustador. — Ela o circulou para se colocar na sua frente. Ele a encarou com aqueles curiosos olhos bicolores, e ela sentiu um tremor na mão, que jamais exibia quando cortava o cabelo de Diego, ou do irmão dele, Jaime, ou o dos primos. Claro, eles tinham 12 anos quando ela cortava seus cabelos, aplicando o que a mãe havia lhe ensinado, então, talvez fosse diferente quando a pessoa era mais velha. — Tudo tão glamouroso e lindo. Como um humano pode comparar?
Ele pareceu surpreso.
— Mas você seria adorável na Corte — disse ele. — Eles transformariam folhas e flores em coroas de joias e sandálias para você. Brilharia e seria admirada. As fadas adoram beleza mortal mais do que tudo.
— Porque ela se esvai — falou Cristina.
— Sim. — Ele admitiu. — É verdade que eventualmente se tornará cinza, corcunda e envelhecida, e é possível que nasçam cabelos no seu queixo. E também tem a questão das verrugas. — Ele capturou o olhar dela. — Mas ainda falta muito para isso — acrescentou rapidamente.
Cristina riu.
— Pensei que fadas deveriam ser charmosas. — Ela passou a mão sob o queixo dele para ajeitar a cabeça enquanto cortava os últimos cachos rebeldes. Isso também era diferente; sua pele era tão suave quanto a dela, nenhum sinal de barba ou aspereza. Os olhos dele se fecharam, a cor desaparecendo num brilho enquanto ela repousava a tesoura e limpava seu pescoço.
— Pronto — falou. — Quer ver?
Ele se ajeitou na cadeira. Cristina estava se curvando para baixo; as cabeças dos dois estavam no mesmo nível.
— Chegue mais perto — disse ele. — Durante anos não tive espelho; tive que aprender a me virar. Os olhos de outra pessoa são espelhos mais eficientes do que água. Se olhar para mim, posso ver meu reflexo nos seus.
Tive que me virar. Em que olhos ele esteve olhando, por todo esse tempo? Cristina se pegou imaginando enquanto se inclinava mais para perto. Ela não sabia por que pensava nessas coisas, exatamente; talvez fosse o jeito como seus olhos ficaram fixos nos dela, como se ele não conseguisse imaginar nada mais fascinante do que observá-la. O olhar dele também não se mexeu, nem para o V do decote dela, nem para as pernas nuas ou as mãos enquanto ela arregalava os olhos e devolvia o olhar dele.
  — Lindo — falou Mark afinal.
— Está falando do corte de cabelo? — perguntou ela, tentando uma voz provocante, mas tremeu no meio. Talvez não devesse ter se oferecido para tocar tão intimamente um estranho, mesmo que ele parecesse inofensivo, mesmo que ela não tivesse nenhuma intenção oculta com o gesto, será que tinha?
— Não — falou Mark, expirando suavemente. Ela sentiu o hálito quente em seu pescoço, e a mão deslizou sobre a dela. A dele era áspera e calejada, com cicatrizes na palma. O coração deu um salto desigual em seu peito no instante em que a porta do quarto se abriu.
Ela quase pulou para longe quando Ty e Livvy apareceram na entrada. Livvy estava segurando o telefone, com os olhos arregalados e preocupados.
— É Emma — disse a menina, levantando o telefone. — Ela mandou uma mensagem dizendo que é urgente. Temos que encontrá-los imediatamente.

11 comentários:

  1. Mark e Cristina...shippei. Estava demorando para alguém se dar mal, coitado do Julian. É tão estrangi ver a Emma falando da Clary como alguém importante, eu sempre lembro da garota que presenciou um "assassinato" sem explicação no Pandemonio. Imagino ela parecendo uma mini executiva agora. As vezes também esqueço que os outros cresceram e me pego imaginando uma Emma e um Julian de 12 anos.

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  2. Shippando Mark e Cristina! Karina,esse capitulo tá com uma letrinha bem miúdinha, tem como você tentar ajeitar? Obrigada.

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  3. Caçadora de sombras10 de julho de 2016 13:14

    Karina, a letra tá minúscula, é muito ruim pra ler, n to enxergando nada, please, ajuda por favor!!!

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    1. Prontinho, erro corrigido. Obrigada por avisar :)

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  4. Caçadora de Sombras10 de julho de 2016 16:24

    Consegui ler dando zoom,eeee!
    Ninguém em casa... ah! — Ela se jogou para trás quando algo se lançou contra a janela: uma bola coberta de calombos e cabelos. Uma secreção escorreu pelo vidro. Emma já estava agachada, prestes a pegar um estilete da bota. — O que é isso? — Ela se endireitou. — Um demônio Raum? Um...
    — Acho que é um poodle toy — disse Julian, o canto da boca tremendo.
    kkkkkkkk

    JULIAN!!!QUEM FOI O FDP Q ATIROU NELE?

    Devo shippar Mark e Cristina? Pq eu já shippo...

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  5. Filha da Atena Harondale21 de julho de 2016 13:20

    "Mas, apesar de ter gostado dele, duvidava que pudesse amá-lo. Ele escondia muito de si próprio para isso." Até que enfim Cristina te shippo com o Mark

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  6. Cristina e Mark adoro oohh. ..😍😍😛😘

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  7. O que é Scholomance?

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    1. Não se sabe direito, apenas que é uma Academia para Caçadores de Sombras especiais. Temos que esperar pra ver o que mais aprendemos sobre eles!

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    2. Caçadora de sombras9 de novembro de 2016 20:33

      Uma nova academia de Shadowhunters. Nessa escola especial eles são treinados para virar Centuriões = Shadowhunters de Elite que são mandados em missões especiais, ou Líderes de Institutos.
      - Foi o que eu achei na internet

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