1 de julho de 2016

Capítulo 10 - E ela era uma criança

— Pronto — disse Diana, colocando a bolsa de lona na bancada da cozinha com um estalo.
Emma levantou o olhar. Ela estava perto da janela com Cristina, testando as ataduras da mão. Os símbolos de cura de Julian tinham resolvido quase todos os ferimentos, mas havia algumas queimaduras de icor ainda doloridas.
Livvy, Dru e Tavvy estavam reunidos em volta da mesa da cozinha, brigando pelo leite achocolatado. Ty usava o fone, lendo, calmo em seu próprio mundo. Julian preparava, no fogão, bacon, torradas e ovos – com pedacinhos queimados, como Dru gostava.
Diana foi até a pia e lavou as mãos. Ela vestia calça jeans e camiseta, com as roupas sujas e marcas no rosto. Os cabelos estavam presos em um coque bem apertado.
— Configurou? — perguntou Emma. — O monitor na convergência?
Diana fez que sim com a cabeça, alcançando um pano de prato com as mãos.
— Julian me mandou uma mensagem sobre o assunto. Acharam que eu fosse deixar vocês escaparem do teste da Clave?
Houve resmungos.
— Achar, não — disse Emma. — Torcer, talvez.
— Enfim, eu mesma fiz — disse Diana. — Se alguém entrar ou sair da caverna, recebemos uma ligação no telefone do Instituto.
— E se não estivermos em casa? — perguntou Julian.
— Mensagem de texto — respondeu Diana, virando de modo que ficou de costas para a pia. — Mensagens vão para Julian, Emma e para mim.
— Por que não para Arthur? — perguntou Cristina. — Ele não tem celular?
Não tinha, até onde Emma sabia, mas Diana não respondeu.
— E agora tem a outra questão — continuou a tutora. — Demônios Mantis guardam a convergência à noite, mas, como sabem, demônios são inativos no meio externo durante o dia. Não suportam a luz do sol.
— Pensei nisso — disse Emma. — Não faz sentido que quem quer que esteja fazendo isso fosse deixar a convergência desprotegida durante metade do dia.
— Estava certa em pensar sobre isso — falou Diana. Sua voz soou neutra; Emma investigou seu rosto em vão, à procura de alguma pista que informasse se ela ainda estava irritada. — Durante o dia a porta da caverna se fecha. Vi quando a entrada desapareceu com o nascer do sol. Não interferiu na aplicação dos símbolos de monitoramento e nas barreiras de proteção; fiz isso fora da caverna, mas ninguém entra naquela convergência enquanto há sol.
— Todos os assassinatos, a desova de corpos, tudo isso aconteceu à noite — disse Livvy. — Talvez haja algum demônio por trás disso, afinal?
Diana suspirou.
— Não sabemos. Pelo Anjo, preciso de café.
Cristina se apressou para pegar uma caneca para ela, enquanto Diana tirava a sujeira das roupas, franzindo o rosto.
— Malcolm ajudou a armar? — perguntou Julian.
Diana pegou o café e, agradecida, sorriu para Cristina.
— Tudo que precisam já foi resolvido — disse ela. — Vocês têm teste hoje, então nos vemos na sala de aula depois do café da manhã.
Ela saiu, levando consigo a sacola e o café. Dru parecia chateada.
— Não acredito que temos aula — falou. Ela estava de jeans e camiseta estampada com um rosto gritando e as palavras CASA DOS HORRORES DO DR. TERROR.
— Estamos no meio de uma investigação — disse Livvy. — Não deveríamos ter que fazer testes.
— É uma afronta — disse Ty. — Me sinto afrontado.
Ele tinha tirado o fone, mas estava com a mão embaixo da mesa. Emma conseguia ouvi-lo clicando uma caneta, algo que ele fazia muito antes de Julian desenvolver ferramentas para ajudá-lo a manter o foco, mas ainda era algo que ele fazia quando estava ansioso.
Contra o ruído de resmungos de todos ali, o telefone de Emma tocou. Ela olhou para a tela. CAMERON ASHDOWN.
Julian olhou por um instante, em seguida voltou energicamente a preparar os ovos. Ele estava com uma combinação de uniforme de combate, avental e uma camiseta rasgada que, em outra situação, teria feito Emma tirar um sarro dele. Mas agora ela simplesmente se esticou para fora da janela para atender o telefone.
— Cam? — atendeu. — Aconteceu alguma coisa?
Livvy olhou para ela e revirou os olhos, depois levantou e começou a levar os pratos do fogão para a mesa. O restante das crianças continuou discutindo, apesar de Tavvy ter ficado com o leite achocolatado.
— Não liguei para pedir para voltar se é isso que está pensando — falou Cameron. Ela o visualizou enquanto a voz cruzava a linha: franzindo o rosto, os cabelos ruivos bagunçados e rebeldes como costumavam ficar pela manhã.
— Uau — respondeu Emma. — Bom dia para você também.
— Ladrão de leite — disse Dru para Tavvy, e colocou um pedaço de torrada na cabeça dele.
Emma conteve um sorriso.
— Fui ao Mercado das Sombras — disse Cam. — Ontem.
— Ui! Ai, ai,ai.
— Ouvi uma fofoca na mesa do Johnny Rook — falou. — Sobre você. Ele disse que vocês tiveram uma discussão há alguns dias. — Ele abaixou o tom. — Você não deveria encontrá-lo fora do Mercado, Em.
Emma se apoiou contra a parede. Cristina a olhou fixamente, depois se sentou com os outros; logo todos se ocupavam passando manteiga nas torradas e espetando ovos com o garfo.
— Eu sei, eu sei. Johnny Rook é um criminoso que comete crimes. Já ouvi esse sermão.
Cam soou irritado.
— Alguém disse que você estava metendo o nariz onde não foi chamada. E que, se insistisse nisso, iam machucá-la. Não o cara que falou isso, dei uma prensa nele, e ele disse que estava falando de outra pessoa. Disse que tinha ouvido coisas. O que você anda fazendo, Emma?
Julian continuava no fogão; Emma viu pelos seus ombros que ele estava escutando.
— Pode ser tanta coisa.
Cameron suspirou.
— Tudo bem, seja evasiva. Fiquei preocupado com você. Cuidado.
— Sempre tenho cuidado — garantiu ela, e desligou.
Silenciosamente, Julian entregou um prato de ovos a ela. Emma aceitou, consciente de que todos a observavam. Ela repousou o prato na bancada da cozinha e sentou em um dos bancos, cutucando o café da manhã com uma colher.
— Tudo bem — disse Livvy. — Se ninguém vai perguntar, eu pergunto. O que foi isso?
Emma levantou o olhar, prestes a responder irritada, quando as palavras morreram em sua boca.
Mark estava na entrada. A tensão da briga na biblioteca na noite anterior pareceu ressurgir, provocando um silêncio pesado na cozinha. Os Blackthorn olharam para o irmão, com olhos arregalados; Cristina ficou encarando o próprio café.
Mark parecia... normal. Vestia uma camisa azul e jeans escuros do próprio tamanho, com um cinto de armas, apesar de não haver armas nele. Mesmo assim, não havia dúvidas de que se tratava de um cinto de Caçador de Sombras, os símbolos de poder angelical e precisão marcados no couro. Tinha manoplas nos pulsos.
Todos o encararam, Julian com uma espátula no ar. Mark esticou os ombros, e, por um instante, Emma achou que ele fosse fazer outra reverência, como tinha feito na noite anterior. Em vez disso, ele falou:
— Peço desculpas por ontem à noite — falou. — Eu não deveria tê-los culpado, minha família. A política da Clave é complexa e frequentemente sombria, e vocês não têm culpa. Gostaria de, com sua permissão, recomeçar e me apresentar a vocês.
— Mas nós sabemos quem você é — disse Ty.
Livvy se inclinou e sussurrou ao ouvido dele, esfregando o ombro do menino com a mão. Ty olhou para Mark, claramente ainda confuso, mas também cheio de expectativa.
Mark deu um passo para a frente.
— Sou Mark Antony Blackthorn — apresentou-se. — Venho de uma longa linhagem de Caçadores de Sombras. Servi com a Caçada Selvagem por mais tempo do que sou capaz de contar. Cavalguei pelo ar em um cavalo branco de fumaça, recolhi os corpos dos mortos e os levei para o Reino das Fadas, onde seus ossos e pele alimentaram a terra selvagem. Nunca me senti culpado, mas talvez devesse. — Ele deixou as mãos, que estavam presas nas costas, se soltarem e caírem para os lados. — Não sei qual é o meu lugar — falou. — Mas, se me permitirem, tentarei pertencer a esse lugar.
Houve um momento de silêncio. As crianças à mesa ficaram encarando; Emma sentou com a colher na mão, prendendo a respiração. Mark olhou para Jules.
Julian esticou o braço para esfregar a nuca.
— Por que você não se senta, Mark? — disse ele, um pouco rouco. — Vou preparar uns ovos para você.


Mark ficou quieto durante todo o café da manhã enquanto Julian, Emma e Cristina contavam aos outros o que tinham descoberto na noite anterior. Emma não deu muitos detalhes sobre o ataque dos Mantis; não queria que Tavvy tivesse pesadelos.
A carteira de Stanley Wells foi passada para Ty, que pareceu muito animado por lidar com uma prova. Ele prometeu uma investigação completa sobre o pobre Stanley depois dos testes. Como Mark não precisava participar dos testes, Julian perguntou se ele podia cuidar de Tavvy na biblioteca.
— Não vou dá-lo como alimento para uma árvore, como fazem com crianças desobedientes na Corte Unseelie — prometeu Mark.
— Fico aliviado — respondeu Julian secamente.
Mark se curvou em direção a Tavvy cujos olhos brilhavam.
— Venha comigo, pequeno — disse Mark. — Há livros na biblioteca, lembro-me bem, que eu adorava quando criança. Posso mostrá-los a você.
Tavvy fez que sim com a cabeça e deu a mão para Mark com total confiança. Alguma coisa então passou pelos olhos de Mark, um brilho de emoção. Ele saiu dali com Tavvy sem dizer mais nada.
O aviso de Cameron ficou na cabeça de Emma por todo o restante da refeição enquanto limpavam as coisas e depois que foram para a sala de aula encontrar Diana, com uma pilha de papéis na mão. Ela não conseguia esquecer as palavras dele e, por isso, fez uma péssima prova de língua e de memorização de diversos demônios e membros do Submundo. Ela confundiu Azael com Asmodeus, Purgatic com Cthonian, e nixies com pixies. Diana ficou encarando enquanto ela avaliava o papel com o nome de Emma com uma caneta vermelha.
Todos se saíram bem, e as poucas perguntas que Julian errou, Emma desconfiava que ele tivesse feito para fazê-la se sentir melhor.
Emma ficou feliz quando terminaram as partes escrita e oral do teste. Tiveram um intervalo para o almoço antes de ir para a sala de treinamento. Diana já tinha preparado o espaço. Havia alvos para arremesso de facas, espadas de vários tamanhos e, no meio da sala, um grande boneco de treino. Tinha um tronco de madeira, vários braços que podiam ser posicionados e reposicionados, e uma cabeça de pano estofada como um espantalho.
Um círculo de pó preto e branco cercava o boneco – pedra de sal misturada a cinzas.
— Ataque a distância, com cuidado e precisão — disse Diana. — Baguncem o círculo de cinzas e falharão.
Ela foi até a caixa preta no chão e ligou um interruptor. Era um rádio. Barulho explodiu na sala, severo e dissonante. Foi como se alguém tivesse gravado um motim, gritos e berros e vidros quebrados.
Livvy ficou aterrorizada. Ty fez uma careta e alcançou os fones, colocando-os nos ouvidos.
— Distração — disse Diana em voz alta. — Vocês precisam se esforçar para superar...
Antes que ela conseguisse concluir, bateram à porta: era Mark, parecendo desconfiado.
— Tavvy está distraído com os livros — falou para Diana, que tinha esticado o braço para diminuir o volume do som — e você tinha perguntado se eu podia vir para essa parte do teste. Achei melhor atender.
— Mas Mark não precisa ser testado — protestou Julian. — A Clave não pode ser informada sobre os resultados dele.
— Cristina também não pode ter os resultados informados à Clave — disse Diana. — Mas ela vai participar. Quero ver como todos vocês se saem. Se vão trabalhar juntos, é melhor que conheçam os níveis de habilidade uns dos outros.
— Sei lutar — disse Mark. Ele não falou nada sobre a noite anterior, sobre ter se defendido sozinho contra demônios Mantis, sem novos símbolos. — Os que integram a Caçada Selvagem são guerreiros.
— Sim, mas eles lutam diferente dos Caçadores de Sombras — argumentou Diana, gesticulando pela sala, para as lâminas Marcadas, as espadas de adamas. — Essas são as armas do seu povo. — Ela se voltou para os outros. — Todos devem escolher uma.
Com isso a expressão de Mark ficou monótona, mas ele não disse nada. Nem se moveu enquanto os outros se espalhavam. Emma foi direto para Cortana, Cristina para suas facas borboleta, Livvy para o sabre, e Dru para uma longa e fina adaga misericórdia. Julian escolher um par de chakhrans, estrelas cortantes circulares.
Ty ficou para trás. Emma não pôde deixar de imaginar se Diana teria notado que foi Livvy que pegou uma adaga para Ty e a pressionou na mão do garoto. Emma já tinha visto Ty lançando facas antes: ele era bom, às vezes, excelente, mas só quando estava com vontade. Quando não estava, não havia quem o fizesse se mexer.
— Julian — chamou Diana, aumentando novamente o som. — Você, primeiro.
Julian chegou para trás e lançou, os chakhrams girando das mãos dele como círculos de luz. Um deles arrancou o braço direito do boneco de treinamento, o outro, o esquerdo, antes de se enterrarem na parede.
— Seu alvo não está morto — observou Diana. — Só sem braços.
— Exatamente — disse Julian. — Assim posso interrogar o sujeito. Ou a coisa, você sabe, se for um demônio.
— Muito estratégico. — Diana tentou esconder um sorriso enquanto fazia uma anotação no caderno. Ela pegou os braços do boneco e os colocou de volta no lugar. — Livvy?
Livvy despachou o boneco com um golpe de sabre, sem ultrapassar a barreira de cinzas. Dru se entrosou bem com a misericórdia lançada, e Cristina abriu seus canivetes e os arremessou de modo que uma ponta de cada lâmina se enfiasse exatamente onde ficariam os olhos do boneco.
— Que nojo — disse Livvy em um tom de admiração. — Curti.
Cristina pegou de volta as facas e deu uma piscadela para Emma, que tinha subido um pouco na escada de corda, com Cortana em sua mão livre.
— Emma? — chamou ela, esticando o pescoço. — O que está fazendo?
Emma se lançou da escada. Não era a fúria fria da batalha, mas teve um momento de liberdade em queda livre que foi de puro prazer, que bloqueou a irritação do alerta de Cameron de sua mente. Ela aterrissou no boneco, com os pés no ombro dele, e atacou, enfiando Cortana até o cabo no tronco. Então ela se jogou para trás, aterrissando fora do círculo.
— Isso é exibicionismo — censurou Diana, mas estava sorrindo ao fazer uma nova anotação. Levantou o olhar. — Tiberius? É a sua vez.
Ty deu um passo em direção ao círculo. A parte branca dos fones de ouvido de destacava contra os cabelos negros. Ele era da altura do boneco, Emma percebeu com um susto. Ela frequentemente pensava em Ty como a criança que outrora havia sido. Mas ele não era – ele tinha 15 anos, mais velho do que ela quando ela e Julian passaram pela cerimônia parabatai. Ele não tinha mais o rosto de um menininho. A suavidade já tinha sido substituída por linhas mais nítidas.
Ty gostava de sua faca.
— Tiberius — disse uma voz da entrada. — Tire os fones de ouvido.
Tio Arthur. Todos olharam em surpresa: Arthur raramente frequentava o andar de baixo e, quando o fazia, evitava conversas, refeições – qualquer contato. Era estranho vê-lo na entrada, como um fantasma cinzento: túnica cinza, barbicha cinza, calça velha cinza.
— A poluição tecnológica mundana está por todos os lados — disse Arthur. — Nesses telefones que vocês carregam. Carros: no Instituto de Londres, não os tínhamos. Aquele computador sobre o qual pensam que eu não sei. — Uma fúria estranha passou pelo rosto dele. — Não vai poder lutar com fones de ouvido;
Ele disse isso como se fossem palavras venenosas.
Diana fechou os olhos.
— Ty — disse ela. — Tire os fones.
Ty tirou e os deixou pendurados no pescoço. Ele fez uma careta quando o barulho de conversa e vozes do rádio atingiu seus ouvidos.
— Então não vou conseguir fazer.
— Nesse caso vai falhar — disse Arthur. — Isso tem que ser justo.
— Se não deixá-lo usar, não será justo — disse Emma.
— Esse é o teste. Todo mundo tem que fazer — falou Diana. — A batalha nem sempre acontece em condições ideais. Tem barulho, sangue, distrações...
— Não participarei de batalhas — disse Ty. — Não quero ser esse tipo de Caçador de Sombras.
Tiberius — falou Arthur rispidamente. — Faça como lhe foi pedido.
O rosto de Ty enrijeceu. Ele levantou a faca e a lançou, com um desconforto proposital, mas com muita força. Atingiu o rádio preto de plástico, que se estilhaçou em centenas de pedaços.
Fez-se silêncio.
Ty olhou para a mão direita; estava sangrando. Um pedaço do rádio estilhaçado tinha voado longe e cortado sua pele. Fazendo uma careta, ele foi para perto de um dos pilares. Livvy o observou com uma expressão arrasada; Julian parecia ter a intenção de segui-lo, quando Emma o pegou pelo pulso.
— Não — falou. — Dê um minuto a ele.
— Minha vez — disse Mark. Diana virou surpresa para ele. Ele estava indo em direção ao boneco de treinamento. Foi direto para lá espalhando as cinzas e o sal no chão.
— Mark — disse Diana — você não pode...
Ele pegou o boneco e o puxou para si, arrancando a cabeça do corpo. Choveu palha em volta dele. Ele jogou a cabeça para o lado, pegou os braços presos e os dobrou até quebrarem. Deu um passo para trás, deu um chute no meio do tronco e o empurrou. O boneco caiu com um barulho.
Quase teria sido engraçado, Emma pensou, se não fosse o olhar no rosto dele.
— Essas são as armas do meu povo — disse ele, estendendo as mãos. Havia aberto um corte na direita, que sangrava.
— Você não pode tocar o círculo — disse Diana. — São as regras, e não sou eu que determino. A Clave...
Lex malla, lex nulla — falou Mark friamente, se afastando do boneco.
Emma ouviu Arthur respirar fundo ao ouvir as palavras do lema da família Blackthorn. Ele se virou sem dizer uma única palavra e saiu da sala.
Os olhos de Julian seguiram o irmão enquanto Mark ia até Ty e se apoiava no pilar ao lado dele.
Ty, que segurava a mão direita com a esquerda, queiro travado, olhou surpreso para ele.
— Mark?
Mark tocou a mão do irmão mais novo, suavemente, e Ty não recuou. Ambos tinham dedos caracteristicamente Blackthorn, longos e delicados, com ossos definidos e articulados.
Lentamente, o olhar furioso desapareceu do rosto de Ty. Em vez disso, ele olhou de lado para o irmão, como se a resposta para uma pergunta, que Emma não sabia adivinhar qual seria, pudesse ser encontrada no rosto de Mark.
Ela se lembrou do que Ty havia dito sobre seu irmão na biblioteca.
Não é culpa dele se não entende tudo. Ou se as coisas são demais para ele. Não é culpa dele.
— Agora nós dois estamos com as mãos machucadas — observou Mark.


— Julian — disse Diana. — Precisamos conversar sobre Ty.
Julian estava parado diante da mesa dela. Dava para enxergar através de Diana, através das enormes janelas de vidro atrás dela até a rodovia e a praia abaixo, e o oceano mais além.
Ele guardava uma lembrança clara na mente, apesar de não se recordar mais de quantos anos tinha quando aconteceu. Ele, na praia, desenhando o sol se pondo e os surfistas na água. Um desenho solto, mais focado na alegria do movimento que em acertar a figura de fato. Ty também estava ali, brincando: construía uma fileira de perfeitos quadrados de areia molhada, todos exatamente do mesmo tamanho e forma.
Julian olhou para o próprio trabalho inexato, e para as fileiras metódicas de Ty e pensou: nós dois vemos o mesmo mundo, mas de um jeito diferente. Ty sente a mesma alegria que eu, a alegria da criação. Sentimos as mesmas coisas, só que as formas dos nossos sentimentos são diferentes.
— Isso foi culpa de Arthur — disse Julian. — Não sei por que ele fez isso. — Ele sabia que soava agitado. Não podia evitar. Normalmente, nos dias ruins de Arthur, sua raiva e irritação se voltavam para dentro, para dentro dele mesmo. Ele não teria pensado que o tio saberia dos fones de ouvido de Ty: ele não achava que Arthur prestava atenção em nenhum deles o suficiente para perceber essas coisas; em Ty menos ainda. — Não sei por que ele tratou Ty assim.
— Podemos ser cruéis com os que nos fazem lembrar de nós mesmos.
— Ty não se parece com Arthur. — A voz de Julian era afiada. — E ele não deve pagar pelo que Arthur faz. Você deveria deixá-lo fazer o teste novamente, usando os fones de ouvido.
— Não é necessário — respondeu Diana. — Sei o que Ty pode fazer; vou emendar os resultados dos testes para que reflitam isso. Você não precisa se preocupar com a Clave.
Julian olhou para ela e pareceu intrigado.
— Se não é sobre os resultados dele, o que houve então? Por que queria me ver?
— Você ouviu o que Ty disse lá dentro — falou Diana. — Ele não quer ser esse tipo de Caçador de Sombras. Ele quer ir para a Scholomance. É por isso que se recusa a ser parabatai de Livvy. E você sabe que ele faria quase tudo por ela.
Ty e Livvy estavam na sala do computador naquele momento, procurando o que pudessem encontrar sobre Stanley Wells. Ty parecia ter deixado a irritação com o teste de lado e até sorriu depois que Mark foi falar com ele.
Julian ficou imaginando se era errado sentir ciúmes irracionais de Mark, que tinha reaparecido na vida deles apenas na véspera, e tinha conseguido falar com seu irmão mais novo enquanto ele não. Julian amava Ty mais do que a si e, mesmo assim, não tinha conseguido pensar em nada tão elegantemente simples quanto agora nós dois estamos com as mãos machucadas para falar para o irmão.
— Ele não pode ir — disse Julian. — Só tem 15 anos. Os outros alunos têm no mínimo 18. É para formados pela Academia.
— Ele é tão inteligente quanto qualquer formado pela Academia — disse Diana. — Ele sabe tanto quanto.
Ela se inclinou para a frente, com os cotovelos apoiados na mesa de vidro. Atrás dela o oceano se estendia até o horizonte. Já era quase fim de tarde, e a água tinha uma cor azul-prateado escura. Julian pensou no que aconteceria se desse um soco na mesa; será que tinha força para destruir o vidro?
— Não é uma questão do que ele sabe — falou Julian, e se conteve. Estava perigosamente perto exatamente daquilo que eles nunca falavam: o jeito como Ty era diferente.
Julian frequentemente pensava na Clave como uma sombra escura sobre sua vida. Tinham roubado seus irmãos mais velhos tanto quanto as fadas o fizeram. Ao longo de séculos, a forma exata como Caçadores de Sombras deveriam se comportar era severamente arregimentada. Se falar a um mundano sobre o Mundo das Sombras, será castigado, até mesmo exilado. Caso se apaixone por um mundano ou por seu parabatai, terá suas Marcas arrancadas – um processo agonizante ao qual nem todos sobreviviam.
A arte de Julian, o interesse de seu pai pelos clássicos: tudo era encarado com grande desconfiança. Caçadores de Sombras não deveriam ter outros interesses. Caçadores de Sombras não eram artistas. Eram guerreiros, nascidos e criados assim, como espartanos. E a individualidade não era algo que valorizavam.
Os pensamentos de Ty, sua mente linda e curiosa, não eram como os de todo mundo. Julian já tinha ouvido histórias – sussurros, na verdade – de outras crianças Caçadores de Sombras que pensavam ou sentiam diferente. Que tinham dificuldade de concentração. Que alegavam que letras se reorganizavam na página quando tentavam lê-las. Que caíram em profunda e indistinta tristeza ou ataques que não conseguiam controlar.
Mas eram apenas fofocas, porque a Clave detestava admitir que existiam Nephilim assim. Eram colocados na parte da “escória” da Academia e treinados para não perturbar os outros Caçadores de Sombras. Enviados aos cantos mais distantes do globo como segredos vergonhosos que deviam ser escondidos. Não havia palavras para descrever quaisquer diferenças.
Porque se houvesse palavras, Julian pensou, teria que haver admissão. E havia coisas que a Clave se recusava a admitir.
— Vão fazer com que ele sinta como se houvesse algo de errado com ele — disse Julian. — Não há nada de errado com ele.
— Eu sei disso. — Diana soou triste. Cansada. Julian ficou imaginando onde ela teria ido na véspera, quando eles estavam na casa de Malcolm. Quem a ajudou a proteger a convergência.
— Vão tentar forçá-lo a se adaptar aos modelos do que consideram um Caçador de Sombras. Ele não sabe o que farão...
— Porque você não disse a ele — lembrou Diana. — Se ele tem uma visão idealizada do que será a Scholomance, é porque você nunca o corrigiu. Sim, é difícil lá. É brutal. Diga isso a ele.
— Você quer que eu diga que ele é diferente — disse Julian friamente. — Ele não é burro, Diana. Ele sabe disso.
— Não — discordou Diana, levantando-se. — Quero que você diga como a Clave se sente em relação a pessoas diferentes. Como ele pode se decidir se não dispõe de todas as informações?
— Ele é meu irmãozinho. — Julian se irritou. O dia lá fora era um borrão; partes da janela pareciam espelhadas, e ele conseguia ver pedacinhos de si mesmo; a ponta de uma maçã do rosto, um queixo firme, cabelos emaranhados. Ele próprio se assustou com o seu olhar. — Faltam três anos para se formar...
Os olhos castanhos de Diana eram ferozes.
— Sei que você basicamente o criou desde que ele tinha 10 anos, Julian. Sei que se sente como se todos eles fossem seus filhos. E são seus, mas, pelo menos, Livvy e Ty não são mais crianças. Você vai ter que cortar o cordão...
Você está me dizendo para me preparar para o futuro? — perguntou Julian. — Sério?
O queixo dela travou.
— Você está no fio da navalha, Julian, com tudo que esconde. Estive no seu lugar por quase metade da vida. Você se acostuma, se acostuma tanto que, às vezes, se esquece de que está sangrando.
— Não suponho que queira ser mais específica em relação a isso?
— Você tem os seus segredos. Eu tenho os meus.
— Não acredito nisso. — Julian queria gritar, socar uma parede. — Guardar segredos é tudo que você faz. Lembra quando perguntei se você queria coordenar o Instituto? Lembra quando você disse não e me mandou não perguntar por quê?
Diana suspirou e passou um dedo no espaldar da cadeira.
— Se irritar comigo não vai ajudar em nada, Jules.
— Você pode ter razão — disse ele. — Mas essa é a única coisa que você poderia ter feito que provavelmente teria me ajudado de fato. E você não fez. Então me perdoe se eu me sinto totalmente sozinho nessa. Eu amo Ty, meu Deus, acredite em mim, quero que ele tenha tudo que quiser. Mas suponha que eu diga a Ty quanto é difícil a Scholomance, mas ainda assim ele escolha ir. Você poderia me prometer que ele ficaria bem lá? Poderia jurar que ele e Livvy ficariam bem, separados, se jamais se separaram por nem um dia na vida? Pode garantir?
Ela balançou a cabeça. Parecia derrotada, e Julian não teve nenhum senso de triunfo.
— Eu poderia dizer que não existem garantias na vida, Julian Blackthorn, mas dá para perceber que você não quer ouvir nada do que tenho a dizer sobre Ty — falou. — Então direi outra coisa. Você talvez seja a pessoa mais determinada que já conheci. Por cinco anos manteve todos unidos nessa casa de um jeito que eu não imaginava ser possível. — Ela olhou diretamente para ele. — Mas essa situação não se sustenta. É como uma falha sísmica. Vai romper sob pressão, e aí? O que você vai perder, o que nós vamos perder, quando isso acontecer?


— O que é isso? — perguntou Mark, pegando o lêmure de pelúcia de Tavvy, o Sr. Limpet, e segurando-o cuidadosamente por uma pata. Mark estava sentado no chão da sala do computador com Emma, Dru e Tavvy. Dru estava com um livro chamado Dança macabra em uma das mãos e ignorava a todos eles. Tavvy estava tentando convencer Mark, de cabelos molhados e descalço, a brincar com ele.
Cristina ainda não tinha voltado desde que fora trocar de roupa. Ty e Livvy, enquanto isso, dominavam a mesa – Ty digitava, e Livvy estava sentada ao lado do teclado, dando ordens e sugestões. Stanley Wells não tinha endereço registrado, e Emma desconfiava de que o que quer que estivessem tentando fazer, fosse ilegal.
— Aqui — disse Emma, esticando o braço para Mark. — Me dê o Sr. Limpet.
Ela estava se sentindo ansiosa e desestabilizada. Diana tinha concluído os testes pouco depois que Arthur se retirou, e chamou Julian para o escritório. A forma como ele jogou seu uniforme de lado para o canto da sala de treinamento antes de segui-la fez Emma concluir que não se tratava de uma entrevista aguardada por ele.
Cristina entrou no quarto, passando os dedos por seus longos e negros cabelos molhados. Mark estendeu o Sr. Limpet para Emma, levantou o olhar e ouviu-se um ruído de rasgo. A perna do lêmure soltou, e o corpo caiu no chão, espalhando o miolo.
Mark disse algo em uma língua irreconhecível.
— Você matou o Sr. Limpet — disse Tavvy.
— Acho que ele morreu de velhice, Tavs — falou Emma, pegando o corpo do boneco. — Você o tinha desde que nasceu.
— Ou gangrena — emendou Drusilla, levantando os olhos do livro — Pode ter sido gangrena.
— Oh, não! — Cristina estava com os olhos arregalados. — Espere aqui, eu já volto.
— Não... — começou Mark, mas Cristina já tinha se apressado para fora do quarto. — Eu sou um desastrado — falou pesarosamente. Esticou o braço para afagar o cabelo de Tavvy. — Me desculpe, pequeno.
— Conseguiram algum endereço para Wells? — Era Julian, marchando para a sala.
Livvy estendeu os braços em triunfo.
— Sim, em Hollywood Hills.
— Não me surpreendo — disse Emma.
Pessoas ricas costumavam morar em Hills. Ela mesma admirava a região, apesar de ser um local muito caro. Ela gostava das estradas curvas, dos enormes canteiros de flores subindo pelos muros e descendo pelas casas, e da vista elétrica e luminosa da cidade. À noite o ar que soprava por Hills cheirava a flores brancas: oleandro e madressilva, e uma promessa seca de deserto, a quilômetros de distância.
— Há dezesseis Stanley Wells em Los Angeles — enumerou Ty, girando a cadeira. — Peneiramos as possibilidades.
— Bom trabalho — observou Julian, enquanto Tavvy corria para o colo dele.
— O Sr. Limpet morreu — disse Tavvy, puxando a calça de Julian.
Jules esticou o braço e o pegou.
— Sinto muito, garotinho — disse Julian, apoiando o queixo na cabeça de Tavvy. — Arrumamos outra coisa para você.
— Eu sou um assassino — declarou Mark, sombrio.
— Não seja dramático — sussurrou Emma, chutando o calcanhar dele.
Mark pareceu contrariado.
— Fadas são dramáticas. É o que fazemos.
— Eu amava o Sr. Limpet — disse Tavvy. — Ele era um bom lêmure.
— Há muitos outros bons animais — falou Tiberius seriamente; animais eram um de seus assuntos favoritos, além de detetives e crimes. Tavvy sorriu para ele, com o rosto cheio de confiança e amor. — Raposas são mais espertas do que cachorros. Dá para ouvir leões rugindo a 40 quilômetros. Pinguins...
— E ursos — disse Cristina reaparecendo sem fôlego na entrada. Ela entregou a Tavvy um urso cinza de pelúcia. Ele olhou desconfiado. — Era meu quando eu era pequena — explicou a garota.
— Como ele se chama? — perguntou Tavvy.
— Oso — disse Cristina, dando de ombros. — Quer dizer urso em espanhol. Não foi muito criativo.
— Oso. — Tavvy pegou o urso e deu um sorriso banguela.
Julian olhou para Cristina como se ela tivesse lhe trazido água no deserto. Emma pensou no que Livvy havia dito sobre Julian e Cristina na sala de treinamento, e sentiu uma pequena pontada inexplicável no coração.
Livvy estava conversando com Jules, balançando as pernas animadamente.
— Então todos nós devemos ir — falou ela. — Eu e Ty vamos no carro com Emma e Mark. Você pode ir com Cristina, e Diana pode ficar aqui...
Julian colocou o irmão caçula no chão.
— Bela tentativa — comentou ele. — Mas esse é um trabalho para duas pessoas. Eu e Emma iremos rapidamente e veremos se tem alguma coisa estranha na casa. Só.
— A gente nunca pode fazer nada divertido — protestou Livvy.
— Eu deveria poder examinar a casa — disse Ty. — Vocês vão deixar todas as coisas importantes passarem. Todas as pistas.
— Obrigado pelo voto de confiança — respondeu Julian secamente. — Ouçam, Livs, Ty-Ty, precisamos que examinem as fotos da caverna da convergência. Vejam se conseguem identificar as línguas, traduzir...
— Mais tradução — disse Livvy. — Parece ótimo.
— Vai ser divertido — assegurou Cristina. — Podemos fazer chocolate quente e trabalhar na biblioteca. — Ela sorriu, e Julian lançou-lhe um segundo olhar de gratidão;
— Não é um trabalho à toa — prometeu Julian. — É porque vocês realmente conseguem fazer coisas que nós não conseguimos. — Ele acenou para o computador. Livvy ruborizou, e Ty pareceu satisfeito.
Mark, no entanto, não gostou.
— Eu devia acompanhá-los — disse ele a Jules. — As Cortes querem que eu participe da investigação. E vá com vocês.
Julian balançou a cabeça.
— Hoje não. Precisamos descobrir o que fazer em relação a não poder Marcar você.
— Não preciso... — começou Mark.
— Precisa. — Havia aço na voz de Julian. — Você precisa de símbolos de feitiço se quiser se misturar. E ainda está machucado de ontem à noite. Mesmo que se cure depressa, eu vi sua ferida reaberta na sala de treinamento, você estava sangrando...
— Meu sangue não é assunto seu — retrucou Mark.
— É sim — disse Julian. — Família é isso.
Família — começou Mark, amargo, e então pareceu se dar conta de que os irmãos mais novos estavam presentes e olhando para ele. Cristina também, quieta, observando Emma, do outro lado da sala, com o olhar preocupado e sombrio.
Mark pareceu engolir o que quer que estivesse prestes a dizer.
— Se eu quisesse receber ordens, teria ficado com a Caçada. — Foi o que acabou dizendo, com a voz baixa, e se retirou.

8 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira1 de julho de 2016 16:42

    Ok. Voltei. Pq tá zuada a letra? Tipo, bem pequenininha assim. Acho que meu computador é bugado mesmo

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    1. Ahn, não era pra estar assim. Mas vou corrigir, obrigada por avisar

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  2. Muito estranho ler o capítulo com essa letra. São todos assim?! Espero que não.

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  3. Continua com a letra pequenina fica muito ruim de ler no celular se puder arrumar por favor! Obrigada!

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    1. Puxa vida, pensei que tivesse arrumado... Vou tentar corrigir novamente

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  4. Caçadora de sombras10 de julho de 2016 12:27

    Julian olhou para Cristina como se ela tivesse lhe trazido água no deserto. Emma pensou no que Livvy havia dito sobre Julian e Cristina na sala de treinamento, e sentiu uma pequena pontada inexplicável no coração.
    C
    I
    Ú
    M
    E
    S

    Mark, dear, não acabe com o meu coraçãozinho ok? obrigada, de nada.
    R.I.P Sr. Limpet

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