24 de julho de 2016

Capítulo 1

Ele sabia que no norte os primeiros ventos de inverno, conduzindo a chuva à sua frente, faziam o mar explodir na praia, borrifando grandes nuvens brancas de água no ar.
Mas na extremidade sudoeste do reino, onde Will se encontrava, o único sinal da aproximação do inverno era o vapor quente que saía suavemente das narinas de seus dois cavalos. O céu estava tão azul e límpido que chegava quase a doer, e o sol aquecia os ombros do rapaz. Ele poderia até ter cochilado na sela, deixando Puxão escolher o caminho ao longo da estrada, mas anos de treinamento e condicionamento em uma disciplina árdua e implacável nunca permitiriam que se entregasse a tal luxo.
Os olhos de Will se moviam constantemente atentos ao que havia dos lados, nas proximidades e mais à frente, ao longe. Um observador talvez nunca notasse esse movimento constante, visto que a cabeça de Will permanecia imóvel. Mais uma vez, era o treinamento que o fazia agir assim: ver sem ser visto; notar sem ser notado. Ele sabia que esta parte do reino era relativamente tranquila. Esse era o motivo pelo qual tinha sido designado para o feudo de Seacliff. Afinal, um arqueiro novo em folha e recém-formado dificilmente iria receber uma das regiões problemáticas do reino. O pensamento fez surgir um leve sorriso no rosto de Will. A perspectiva de assumir seu primeiro posto sem supervisão já era assustadora o bastante sem ter que se preocupar com invasões e insurreições. Ele ficaria satisfeito em fincar os pés nesse local pacífico e isolado.
O sorriso de Will desapareceu dos lábios de Will quando seus olhos aguçados notaram algo a meia distância, quase escondido pelo capim alto ao lado da estrada. A expressão no rosto de Will não deu sinais de que tinha visto alguma coisa fora do comum. Ele não enrijeceu o corpo na sela, tampouco se ergueu nos estribos para observar a paisagem mais atentamente, como a maioria das pessoas teria feito. Ao contrário, ele pareceu relaxar ainda mais em sua sela enquanto cavalgava, aparentemente desinteressado do mundo ao seu redor. Porém, seus olhos, escondidos nas sombras profundas do capuz da capa, observavam tudo com atenção. Ele tinha certeza de que alguma coisa havia se movido. E agora,  capim alto na beira da estrada,  pensou  ver traços de preto e branco: cores totalmente deslocadas em meio aos verdes desbotados e os novos castanhos avermelhados do outono.
E não foi só Will a perceber que algo fora do lugar. As orelhas de Puxão se agitaram uma vez e ele jogou a cabeça para trás, balançando a crina e soltando um relincho que Will ouviu e sentiu no peito arredondado.
Já vi falou baixinho, para que o cavalo soubesse que o aviso fora registrado.
Tranquilizado pela voz baixa de Will, Puxão ficou quieto, embora mantivesse as orelhas eretas e alertas. O cavalo de carga, acompanhando-os satisfeito um pouco atrás, não mostrou nenhum interesse. Mas ele era um animal de transporte, pura e simplesmente, não um cavalo de arqueiro treinado como Puxão.
O capim alto estremeceu mais uma vez. Era só um movimento leve, mas não havia vento algum para provocá-lo, como as nuvens de vapor saídas das narinas dos cavalos mostravam com clareza. Will deu de ombros levemente, assegurando que sua aljava estava livre. O arco longo estava pousado sobre os joelhos, já preparado. arqueiros não viajavam com os arcos pendurados nos ombros. Eles os levavam sempre prontos para uso imediato. Sempre.
Seu coração batia um pouco mais rápido do que o normal. O movimento no capim estava a 30 metros de distância. Ele se lembrou de uma das lições de Halt: “Não se concentre no óbvio. Eles querem que você veja isso para perder algo mais...”
Will se deu conta de que toda a sua atenção estava focada no capim ao  lado da estrada. Rapidamente, seu olhar examinou a direita e a esquerda outra vez, estendendo-se para a fileira de árvores a cerca de 40 metros de cada lado da estrada. Talvez houvesse homens ocultos nas sombras, prontos para atacar enquanto ele estivesse distraído pelo que se escondia no capim. Ladrões, homens fora da lei, mercenários, quem sabe?
Ele não viu nada nas árvores e, ao se virar casualmente para ajustar a rédea do cavalo de carga, também não viu nada atrás dele. Ainda mais tranquilizador era o fato de que Puxão não estava enviando outros sinais. Se houvesse homens nas árvores, o pequeno cavalo estaria lhe dando avisos constantes.
Will tocou Puxão com o joelho e o cavalo parou, sendo imitado pelo cavalo de carga depois de mais alguns passos. A mão direita de Will procurou a aljava sem errar, selecionou uma flecha e a colocou no arco em menos de um segundo. Ele sacudiu a cabeça para tirar o capuz. Sabia que o arco longo, o pequeno cavalo desgrenhado e a característica capa manchada de verde e cinza o identificariam como um arqueiro para qualquer observador.
— Quem está aí? — indagou, levantando ligeiramente o arco com a flecha encaixada e pronta, mas sem puxá-la ainda.
Se houvesse alguém escondido no capim, saberia que um arqueiro poderia preparar o arco, atirar e atingir o alvo antes que tivesse dado dois passos.
Não houve resposta. Puxão estava imóvel, pois fora treinado para ficar parado como uma estátua no caso de seu dono precisar atirar.
— Apareça! — avisou Will. —Você está de preto e branco. Mostre-se.
Ele lembrou que momentos antes estivera devaneando sobre estar em um lugar isolado e pacífico. Agora, enfrentava uma possível emboscada vinda de um inimigo desconhecido.
— Última chance — avisou. — Mostre-se ou vou atirar uma flecha em sua direção.
E então ele escutou, possivelmente em resposta à sua voz, um som baixo e choroso. O som de um cão ferido. Puxão também ouviu. Suas orelhas se agitaram para frente e para trás e ele resfolegou hesitante.
“Um cachorro?”, pensou Will. Talvez um cão selvagem deitado, esperando para atacar? Ele descartou a ideia quase no mesmo instante em que se formou em sua mente. Um cão selvagem não teria feito nenhum som para alertá-lo. Além disso, o som que ouvira tinha sido de dor, não um rosnado ou um aviso de raiva. Tinha sido um ganido. Tomou uma decisão.
Em um movimento rápido, tirou o pé esquerdo do estribo, cruzou a perna direita sobre a sela e pulou para o chão com leveza. Ao desmontar dessa forma, ficou voltado na direção do possível perigo o tempo todo, com as duas mãos livres para atirar. Se a necessidade tivesse surgido, ele poderia ter disparado a primeira flecha assim que os pés tocaram o chão.
Puxão resfolegou outra vez. Em momentos de incerteza como aqueles, Puxão preferia ter Will na sela, em segurança, onde os seus reflexos rápidos e patas ágeis poderiam afastá-lo rapidamente do perigo.
— Está tudo bem — disse Will para o cavalo e andou para a frente em silêncio, com o arco preparado.
Dez metros. Oito. Cinco... Ele já podia ver a mancha preta e branca com clareza entre o capim seco. E agora que estava mais perto via algo mais entre o branco e preto: as manchas escuras de sangue coagulado e o vermelho vivo de sangue fresco. Will ouviu o ganido mais uma veze, enfim, viu claramente o que tinha interrompido seu trajeto.
Ele se virou e deu o sinal de “seguro” para Puxão. O cavalo respondeu trotando em sua direção para se juntar a ele. Então, deixando o arco de lado, Will se ajoelhou ao lado do cão ferido deitado na grama.
— O que foi, garoto? — perguntou com suavidade.
O cão virou a cabeça ao som da voz e ganiu outra vez. Will o tocou com delicadeza, deixando o olhar percorrer a mancha comprida e ensanguentada, que ia do ombro direito até o quadril, em todo o lado do cão. Quando o animal se moveu, mais sangue fresco correu do ferimento. Will observou um dos olhos do cachorro enquanto o animal continuava deitado de lado, aparentemente exausto. Ele estava sofrendo muito.
Constatou que era um border shepherd, uma das raças criadas para pastorear ovelhas na região da fronteira norte e conhecida por sua inteligência e lealdade. O corpo era preto, tinha uma coleira branca no pescoço e uma cauda peluda com a ponta também branca. As pernas eram brancas, e os pelos pretos apareciam novamente na cabeça do animal, como se um capuz tivesse sido colocado sobre ela, de modo que as orelhas eram pretas, enquanto uma faixa branca ia do focinho até o meio dos olhos.
O talho na lateral do corpo do cão não parecia muito profundo e provavelmente as costelas tinham protegido os órgãos vitais, mas era assustadoramente comprido e as beiradas abertas eram regulares como se tivessem sido cortados com uma lâmina. O animal tinha sangrado muito e Will se deu conta de que esse seria o maior problema. O cão estava fraco, tinha perdido muito sangue, talvez demais.
Will se levantou, foi até as sacolas e desamarrou o estojo de primeiros socorros que todos os Arquieros levavam. Puxão o fitava com curiosidade, satisfeito por notar que o cão não representava ameaça. Will deu de ombros e fez um gesto na direção do estojo.
— Funciona com pessoas — disse. — Deve funcionar com um cão.
Ele voltou ao animal ferido e tocou a cabeça dele com delicadeza, murmurando palavras de encorajamento enquanto abria o estojo com a mão livre.
— Agora vamos cuidar de você, garoto — disse.
Os pelos ao redor do ferimento estavam manchados de sangue e Will os limpou o melhor que pôde com água do cantil. Em seguida, abriu um pequeno frasco de pasta e a espalhou na beirada do ferimento com cuidado. O unguento era um analgésico que amorteceria a ferida para que pudesse limpá-la e cobri-la com uma atadura sem causar mais dor ao cão.
Will esperou alguns minutos até que o unguento fizesse efeito e começou a limpar o ferimento com um preparado à base de ervas que evitaria infecções e ajudaria na cicatrização. O analgésico agia conforme o esperado e os remédios pareciam não estar causando problemas para o animal, de modo que continuou usando-os à vontade. Enquanto trabalhava, viu que tinha se enganado ao chamar o cão de “garoto”. Tratava-se de uma fêmea.
Ela, sentindo que estava sendo ajudada, ficou deitada imóvel. Ocasionalmente, gania, mas não de dor. Era mais um som de agradecimento. Will ficou de cócoras, com a cabeça inclinada, enquanto examinava a ferida limpa. Sangue fresco ainda gotejava do corte e o arqueiro sabia que teria que fechá-lo. Colocar uma atadura não era uma solução prática, principalmente por causa da pelagem espessa e da posição estranha do ferimento. Will deu de ombros ao concluir que teria que dar uns pontos no talho.
— É melhor começar enquanto a pomada ainda está agindo — ele disse para a cadela.
Ela estava deitada com a cabeça apoiada no chão, mas um dos olhos se movimentava de um lado para o outro para observá-lo enquanto trabalhava.
  O animal sentiu a agulha quando Will deu  rapidamente uns dez pontos com um fino fio de seda, juntando as bordas do ferimento. Mas parecia que a cadela não havia sentido dor e, após um estremecimento inicial, ela ficou deitada, imóvel, e permitiu que Will continuasse.
Ao terminar, o arqueiro pousou uma das mãos na cabeça preta e branca com delicadeza, sentindo a maciez dos pelos espessos. O ferimento parecia estar bem fechado, porém era óbvio que o animal não conseguiria andar.
— Fique aqui — disse ele baixinho. — Fique.
Obediente, a cadela permaneceu deitada enquanto Will ia até o cavalo de carga e começava a arrumar suas coisas.
As sacolas com livros e objetos pessoais penduradas de cada lado da sela do cavalo formavam uma depressão entre elas. Will encontrou uma capa extra e vários cobertores para forrar este espaço, criando um ninho confortável para a cadela, com lugar suficiente para ela se mover um pouco, mas que a manteria no lugar, em segurança.
Voltando para onde a cadela se encontrava, Will escorregou os braços sob o corpo quente e a levantou com delicadeza, falando com ela o tempo todo em um tom sussurrante. O unguento era eficaz, mas o efeito não durava muito, e ele sabia que o ferimento voltaria a doer em breve. O animal ganiu uma vez, porém logo se acalmou quando Will a colocou no espaço que havia preparado. O arqueiro acariciou a cabeça da cadela mais uma vez e coçou-lhe as orelhas delicadamente. Ela mexeu um pouco a cabeça para lamber a mão do rapaz. O pequeno movimento pareceu deixá-la exausta. Will observou com interesse que os olhos dela tinham cores diferentes. Até aquele momento, tinha visto apenas o olho esquerdo, o castanho, enquanto ela estava deitada de lado. Agora, ao movê-la, viu que o olho direito era azul, o que lhe dava uma aparência incomum e travessa, mesmo naquelas circunstâncias infelizes.
— Boa menina — disse Will.
Então, ao se irar para Puxão, percebeu que o cavalinho o olhava com curiosidade.
— Temos um cachorro — contou.
Puxão sacudiu a cabeça e resfolegou.
“Por quê?”, ele parecia perguntar.

9 comentários:

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Alyss, Marlon? pq não cassandra?

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  2. Mais um para a família :V

    'Brendhom

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  3. Nossa, desse jeito o Will vai montar um áren! kkkkkkkkkkkk.
    Ass: Bina.

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  4. Venha você também para o Arén do Will!! Procura-se jovens moças, bonitas, inteligentes, e eteceteras. Envie ja seu curriculo!!! Aguardamos ansiosamente sua ficha de inscrição! ;)
    Kkkkkkkkk
    Sério agora, cadê a Alyss? E os outros aprendizes? Horace? Ou talvez eles nem apareçam nesse livro... E o Halt? Kkkk

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    1. o Horace se tornou um cavaleiro e está no castelo de Araluen como guarda-costas da Cassandra. A Aliss é uma diplomata no castelo de Redmont, o Halt ainda é o arqueiro de lá, o George é o escriba e a outra menina virou uma cozinheira em redmont tb.

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  5. Alguem por favor me diz um romance nesses livros. Nem que seja um pequeno ciuminho, pq eu to ficando cansado de ve ele sozinho. Olha se ninguem quer ele, podem deixar pra mim. <3 Will
    -Sinead

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    1. Garanto 4 casais, mas não posso dar spoiler, use sua imaginação, não vai se decepcionar. Will é muito fofo pra ficar sozinho <3

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  6. A Cassandra, dois que ela gosta do will,não viu no livro 4

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