28 de junho de 2016

Prólogo

Halt e Will estavam seguindo os Wargals por três dias.
As quatro criaturas grandes e selvagens, soldados do rebelde comandante Morgarath tinham sido vistas passando pelo Feudo Redmont em direção ao norte. Assim que a informação chegou aos ouvidos do arqueiro, ele saiu para interceptá-los, acompanhado de seu jovem aprendiz.
— De onde será que eles vieram, Halt? — Will perguntou durante uma de suas curtas paradas para descanso. — O Desfiladeiro dos Três Passos já não está bem vigiado?
O Desfiladeiro dos Três Passos era o único acesso existente entre o reino de Araluen e as Montanhas da Chuva e da Noite, onde Morgarath mantinha seu quartel-general. Agora que o reino estava se preparando para a guerra com Morgarath, a companhia de infantaria e os arqueiros tinham sido enviados para reforçar a pequena guarnição permanente na estreita passagem até que o exército principal pudesse se reunir.
— Esse é o único lugar de onde eles podem vir em grande número — Halt concordou. — Mas um pequeno grupo como esse poderia entrar no Reino pela barreira de penhascos.
O domínio de Morgarath era um inóspito planalto que se erguia nas montanhas sobre as fronteiras no sul do reino. Do Desfiladeiro dos Três Passos, no leste, saía uma linha de penhascos íngremes e escarpados, em direção ao oeste, formando a fronteira entre o planalto e Araluen. À medida que avançavam para o sudoeste, os penhascos mergulhavam em outro obstáculo chamado fenda: uma abertura na terra que corria para o mar e separava o território de Morgarath do reino dos celtas. Foram essas fortificações naturais que mantiveram Araluen e sua vizinha Céltica a salvo dos exércitos de Morgarath nos últimos dezesseis anos. Por outro lado, elas também protegeram o rebelde comandante das forças de Araluen.
— Pensei que fosse impossível passar por esses penhascos — Will comentou.
— Nenhum lugar é realmente impossível de atravessar — Halt retrucou com um sorriso sombrio. — Principalmente se você não der importância a quantas vidas vai perder tentando provar esse fato. Na minha opinião, eles usaram cordas e ganchos e esperaram uma noite sem luar e de mau tempo para conseguirem passar pelas patrulhas da fronteira.
Ele se levantou, mostrando que o descanso tinha chegado ao fim. Will também se ergueu, e os dois foram até os cavalos. Halt grunhiu levemente quando montou na sela. O ferimento que tinha sofrido na batalha com os dois Kalkaras ainda o incomodava um pouco.
— Minha principal preocupação não é saber de onde eles vieram — ele continuou. — É saber para onde estão indo e o que pretendem.
Halt mal tinha acabado de falar quando ele e Will ouviram um grito vindo de algum ponto adiante deles, seguido por uma confusão de grunhidos e, finalmente, pelo choque de armas.
— E talvez a gente descubra isso bem depressa! — concluiu.
Ele fez Abelard galopar, controlando-o com os joelhos enquanto as mãos, sem esforço, escolhiam uma flecha e a ajustavam à corda de seu enorme arco. Will subiu na sela de Puxão com a ajuda das mãos e galopou atrás do mestre. Ele não conseguia imitar a habilidade de Halt para montar sem usar as mãos, pois precisava da mão direita para segurar as rédeas enquanto segurava o arco com a esquerda.
Eles estavam atravessando um bosque com poucas árvores, deixando que os espertos cavalos escolhessem o melhor caminho. De repente, saíram do meio das árvores para uma ampla campina. Abelard, obedecendo a um comando de seu cavaleiro, parou, seguido imediatamente por Puxão. Will deixou cair as rédeas no pescoço do animal e sua mão instintivamente procurou uma flecha na aljava e a posicionou no arco.
Uma grande figueira crescia no meio do terreno com pouca vegetação. Um pequeno acampamento tinha sido montado junto do tronco. Um fio de fumaça ainda subia da fogueira, e uma mochila e um cobertor enrolado estavam no chão ao lado dela. Os quatro Wargals cercavam um homem que estava de costas para a árvore. Sua espada ainda os mantinha longe dele, mas os Wargals faziam leves movimentos em sua direção, tentando encontrar uma brecha para atacá-lo. Eles estavam armados com espadas curtas e machados, e um deles carregava uma pesada lança de ferro.
Will respirou fundo ao ver as criaturas. Depois de seguir suas pegadas por tanto tempo, era um choque vê-los claramente tão de repente. Seus corpos eram parecidos com os de ursos; eles tinham focinhos longos e fortes e presas amarelas de cachorro, agora expostas ao rosnarem para sua vítima. Eram cobertos por pelos desgrenhados e usavam armaduras pretas de couro. O homem estava vestido de modo parecido, e sua voz tremia de medo ao repelir as tentativas de ataque.
— Para trás! Estou cumprindo uma missão para lorde Morgarath. Para trás, eu ordeno! Eu ordeno em nome de lorde Morgarath!
Halt fez que Abelard se virasse, de modo a ter espaço para puxar a flecha que já estava preparada no arco.
— Larguem as armas! Todos vocês! — ele gritou.
Cinco pares de olhos se voltaram para ele quando os quatro Wargals e sua presa se viraram surpresos. O Wargal que segurava a lança se recuperou primeiro. Percebendo que o espadachim estava distraído, disparou para a frente e perfurou seu corpo com a lança. Um segundo depois, a flecha de Halt se enterrou no coração do Wargal e ele caiu morto ao lado da presa ferida. Quando o espadachim caiu de joelhos, os outros Wargals investiram contra os dois arqueiros. Mesmo desajeitadas e enormes, as três criaturas moveram-se numa velocidade incrível.
O segundo tiro de Halt atingiu o Wargal da esquerda. Will atirou em outro à direita e percebeu no mesmo instante que tinha julgado mal a velocidade da criatura abrutalhada: a flecha passou sibilando no espaço onde o Wargal tinha estado um segundo antes. Sua mão voou para a aljava à procura de outra flecha, e ele ouviu um gemido rouco de dor quando o terceiro tiro de Halt atingiu o peito da criatura que estava no centro. Então Will soltou a segunda flecha na direção do Wargal sobrevivente, agora assustadoramente perto.
Apavorado diante dos olhos selvagens e das presas amarelas da criatura, o garoto atirou, sentindo que a flecha iria passar longe do alvo. O Wargal estava quase sobre ele. Quando a criatura rosnou triunfante, Puxão veio em ajuda de seu dono. O pequeno cavalo empinou e atacou o monstro terrível com as patas dianteiras, avançando em seguida alguns passos em sua direção. Will, tomado de surpresa, agarrou-se ao alto da sela.
O Wargal ficou igualmente surpreso. Como todos de sua espécie, ele tinha um profundo medo instintivo de cavalos, um medo nascido na Batalha de Hackman Heath, dezesseis anos antes, na qual o primeiro exército de Wargals de Morgarath foi dizimado pela cavalaria de Araluen.
O monstro hesitou por um segundo fatal, recuando diante dos cascos impiedosos do cavalo.
A quarta flecha de Halt atingiu a criatura na garganta e, devido à curta distância, a atravessou. Com um último grito agudo, o Wargal caiu morto na grama.
Pálido, Will escorregou para o chão, pois não conseguia se manter em pé. Teve que se segurar em Puxão para se levantar. Halt saltou da sela depressa, foi até o garoto e o abraçou.
— Está tudo bem, Will — a voz grave atravessou o medo que enchia a mente do rapaz. — Já passou.
Mas Will sacudiu a cabeça negativamente horrorizado com a rápida série de acontecimentos.
— Halt, eu errei... duas vezes! Entrei em pânico e errei!
Ele foi tomado por uma profunda sensação de vergonha por ter causado tamanha decepção ao seu mestre. O braço de Halt apertou ainda mais o ombro do garoto, que olhou para o rosto barbado e os olhos escuros e profundos do mestre.
— Há uma grande diferença entre atirar num alvo e num Wargal que está pronto para atacar. Geralmente o alvo não quer matar você.
Halt acrescentou as últimas palavras num tom mais suave. Ele percebeu que Will estava em choque. “E não é para menos”, ele pensou sombriamente.
— Mas... eu errei...
— E aprendeu uma lição. Da próxima vez, não vai errar. Agora você sabe que é melhor atirar uma flecha com atenção do que duas com pressa — Halt disse com firmeza.
Então, pegou o braço de Will e fez o garoto se virar para o local do acampamento debaixo da figueira.
— Vamos ver o que achamos ali — ele sugeriu pondo um fim na conversa.
O homem vestido de preto e o Wargal estavam mortos, caídos lado a lado. Halt se ajoelhou ao lado do homem e o virou, assobiando surpreso.
— É Dirk Reacher — ele informou meio para si mesmo. — Ele é a última pessoa que eu esperaria ver aqui.
— Você conhece ele? — Will perguntou.
Sua insaciável curiosidade já o estava ajudando a esquecer os terríveis minutos anteriores, como Halt sabia que iria acontecer.
— Eu persegui ele até que saísse do reino, há uns cinco ou seis anos — o arqueiro contou. — Era um covarde e assassino. Desertou do exército e encontrou seu lugar, junto de Morgarath — ele fez uma pausa. — Parece que Morgarath está se especializando em recrutar pessoas como ele. Mas o que esse homem estava fazendo aqui...?
— Ele disse que estava numa missão para Morgarath.
— Duvido. Os Wargals estavam o caçando, e somente Morgarath poderia ter dado essa ordem. Dificilmente os Wargals perseguiriam alguém que estivesse trabalhando para o chefe deles. Acho que estava desertando outra vez. Ele fugiu de Morgarath, e os Wargals foram mandados atrás dele.
— Por quê? — Will perguntou. — Por que desertar?
— A guerra está para começar — Halt disse dando de ombros. — Pessoas como Dirk tentam evitar esse tipo de aborrecimento.
Ele pegou a mochila que estava perto da fogueira do acampamento e começou a remexer dentro dela.
— Você está procurando alguma coisa em especial? — Will perguntou.
Halt franziu a testa e, cansado de olhar dentro da mochila, derramou o conteúdo no chão.
— Bom, me ocorreu que, se ele tivesse desertado e quisesse voltar para Araluen, teria que levar alguma coisa para trocar por sua liberdade. Assim...
Sua voz desapareceu aos poucos quando ele apanhou um pedaço de pergaminho cuidadosamente dobrado entre as poucas roupas e utensílios de cozinha. Ele o examinou rapidamente e ergueu uma das sobrancelhas levemente. Depois de quase um ano convivendo com o arqueiro grisalho, Will sabia que aquilo era o equivalente a um grito de espanto. Ele também sabia que, se interrompesse Halt antes que terminasse de ler, seu mentor simplesmente o ignoraria. Will esperou até que Halt dobrasse o papel, levantasse devagar e olhasse para o aprendiz, enxergando a pergunta no olhar do garoto.
— É importante?
— Ah, acho que posso dizer que sim — Halt respondeu. — Parece que tropeçamos nos planos de batalha de Morgarath para a próxima guerra. Acho melhor voltarmos para Redmont.
Ele assobiou baixinho, e Abelard e Puxão trotaram para junto de seus donos.
Das árvores, a várias centenas de metros de distância, cuidadosamente a favor do vento para que os cavalos dos arqueiros não sentissem o cheiro do intruso, olhos não-amistosos os observavam. Seu dono observou os dois arqueiros se afastarem da cena da pequena batalha e então se virou para o sul, na direção dos penhascos. Era hora de informar Morgarath que seu plano tinha dado certo.

9 comentários:

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    1. Foi exatamente o q falei...

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  2. Que coisa não?
    Ass: Bina.

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  3. No momento que eu li aquilo eu sabia que era uma armadilha, aliás, muito bem feita, conhecer o inimigo, botar meros peões para atrailo assim sacrificando peças insignificantes, dar falsas ideias do inimigo sobre sua estratéja, o homem que armou esse plano devia se dar muito bem jogando xadres 👏 😉 palmas pra esse cara

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    1. Eu faria isso, se ele não tivesse enganado o Halt, talvez isso o fizesse merecer mais ainda, mas não pra mim. Me chamem de infantil, mas me sinto na obrigação de defender os personagens que gosto.

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    2. É, foi uma jogada digna de palmas. E Halt, inteligente como é deveria ter previsto. Eu já teria parado para pensar no momento em que ouvi os gritos, sou mais planejamento e menos ação. Para contra atacar, provavelmente, eu pegaria os que estavam fazendo a enrascada por trás, os matava, e depois salvava os outros. Pode parecer frio, mas é assim que tem de ser.

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  4. Nossa , tenho que me lembrar dessa

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