12 de junho de 2016

Introdução

Os problemas com que depara alguém que recebe a responsabilidade pelas obras de um autor falecido são difíceis de resolver. Algumas pessoas, nessa posição, podem decidir que não tornarão disponível para publicação nenhum material, exceto talvez as obras que à época da morte do autor se encontravam em estado praticamente acabado. No caso dos escritos inéditos de J. R. R. Tolkien, esse poderia a primeira vista parecer o caminho adequado, uma vez que ele mesmo, peculiarmente crítico e exigente com sua própria obra, não sonharia permitir que fossem publicadas nem mesmo as narrativas mais completas deste livro sem uma elaboração muito maior.
Por outro lado, a natureza e a amplitude de sua invenção, ao que me parece, colocam até mesmo suas historias abandonadas em posição singular. Para mim estava  de seu estado desordenado, e a despeito das intenções, conhecidas porém em sua maioria irrealizadas, que meu pai tinha de transformá-lo; e nesse caso ousei, após longa hesitação, apresentar a obra não em forma de estudo histórico, um complexo de textos divergentes interligados por comentários, mas sim como entidade completa e coesa. As narrativas deste livro repousam, de fato, sobre uma base totalmente diferente: juntas, não constituem uma unidade, e o livro nada mais é que uma coletânea de escritos, díspares na forma, na intenção, no acabamento e na data de composição (e no tratamento que eu próprio lhes dei), que tratam de Númenor e da Terra Média. Mas o argumento a favor de sua publicação não é de natureza diversa daquele com que justifiquei a publicação do Silmarillion, embora sejam menos fortes. Aqueles que não renunciariam às imagens de Melkor e Ungoliant olhando, do cimo de Hyarmentir, — os campos e as pastagens de Yavanna, dourados abaixo do alto trigo dos deuses; das sombras das hostes de Fingolfin, lançadas pelo primeiro nascer da lua no Ocidente; de Beren, esgueirando-se em forma de lobo sob o trono de Morgoth; ou da luz do Silmaril subitamente revelada na escuridão) da Floresta de Neldoreth — esses descobrirão, creio, que as imperfeições da forma destes contos são de longe compensadas pela voz (agora ouvida pela ultima vez) de Gandalf, provocando o altivo Saruman na reunião do Conselho Branco no ano de 2851, ou descrevendo em Minas Tirith, após o término da Guerra do Anel, como havia enviado os anões a célebre festa no Bolsão; pelo surgimento de Ulmo, Senhor das Águas, do oceano em Vinyamar; por Mablung de Doriath escondendo-se “como um rato silvestre” sob as ruínas da ponte em Nargothrond; ou pela morte de lsildur ao sair chapinhando da lama do Anduin.
Muitos textos desta coleção são elaborações de assuntos tratados com maior brevidade, ou pelo menos mencionados, em outros lugares; e deve-se dizer logo que muito do que existe neste livro não será considerado gratificante por leitores do Senhor dos Anéis que, afirmando que a estrutura histórica da Terra Média é um meio e não um fim, e o modo da narrativa e não o seu propósito, pouco desejam continuar explorando pela exploração em si, não querem saber como se organizavam os Cavaleiros da Terra de Rohan, e deixariam os Homens Selvagens da Floresta de Druadan exatamente onde os encontraram. Meu pai certamente não lhes tiraria a razão. Ele disse em uma carta escrita em maio de 1955, antes da publicação do volume 3 do Senhor dos Anéis:

Desejaria agora que não tivesse sido prometido nenhum apêndice! Pois acho que sua publicação em forma truncada e comprimida não satisfará a ninguém: sem dúvida não a mim; certamente, a julgar pelas cartas (em quantidade estarrecedora) que recebo não àquelas pessoas — espantosamente numerosas — que gostam desse tipo de coisa; enquanto aqueles que apreciam o livro apenas como “romance heroico”, e consideram os “panoramas inexplicados” parte do efeito literário, desprezando os apêndices, e farão muito bem.
Agora não tenho muita certeza de que seja realmente boa a tendência de tratar tudo isso como uma espécie de vasto jogo — certamente não para mim, que considero esse tipo de coisa de uma sedução fatal. O fato de tantos clamarem por simples “informações”, ou “tradições”, é, suponho, um tributo ao curioso efeito que tem as histórias, quando se baseiam em elaborações muito detalhadas de geografia, cronologia e língua.

Em uma carta no ano seguinte, ele escreveu:

... enquanto muitos como você pedem mapas, outros desejam indicações geológicas e não lugares; muitos querem gramáticas, fonologia e espécimes élficos; alguns querem métricas e prosódicos... Os músicos querem melodias, e notação musical; os arqueólogos querem cerâmicas e metalurgias; os botânicos querem uma descrição mais precisa do mallom, de elanor, niphredil, alfirin, mallos e symbelmynê, os historiadores querem mais detalhes sobre a estrutura social e política de Gondor; pesquisadores em geral querem informações sobre os Carroceiros, o Harad, as origens dos anões, os Homens Mortos, os Beomings, e os dois magos faltantes (de um total de cinco).

Mas, qualquer que seja a visão que tenhamos desta questão, para alguns, como eu mesmo, existe um valor maior que a mera descoberta de detalhes curiosos em saber que Veantur, o Numenoriano, conduziu sua nau Entulesse, o “Retorno”, até os Portos Cinzentos com os ventos primaveris do sexingentésimo ano da Segunda Era, que o túmulo de Elendil, o Alto, foi construido por seu filho Isildur no topo da colina do farol de Halifirien, que o Cavaleiro Negro que os hobbits viram na escuridão nevoenta do outro lado da Balsa de Buqueburgo era Khamul, chefe dos Espectros do Anel de Dol Guldur — ou até mesmo que o fato de Tarannon, décimo segundo Rei de Gondor, não ter filhos (fato registrado em um apêndice do Senhor dos Anéis) estava associado aos gatos, até agora totalmente misteriosos, da Rainha Berúthiel.
A construção do livro foi dificil, e resultou um tanto complexa. Todas as narrativas estão “inacabadas”, porém em maior ou menor grau, e em diferentes sentidos da palavra, e exigiram tratamentos diferentes; mais abaixo direi algo sobre cada uma delas, e aqui apenas destacarei algumas características gerais. A mais importante é a questão da “consistência”, mais bem ilustrada pelo trecho intitulado “A história de Galadriel e Celeborn”. Esse é um Conto inacabado no sentido mais amplo: não uma narrativa que se interrompe abruptamente, como “De Tuor e sua chegada a Gondolin”, nem uma série de fragmentos, como “Cirion e Eorl”, mas sim um fio fundamental na história da Terra Média que nunca recebeu definição conclusiva, muito menos uma forma escrita final. A inclusão das narrativas e dos esboços de narrativa inéditos sobre este tema, portanto, implica imediatamente a aceitação da história não como realidade fixa, como existência independente, que o autor “relata” (em sua persona como tradutor e redator), e sim como uma concepção crescente e cambiante em sua mente. Quando o autor não mais o publica mesmo as suas obras, tendo-as sujeitado a sua própria crítica e comparação detalhadas, o conhecimento adicional sobre a Terra média que se pode encontrar em seus textos inéditos muitas vezes conflitará com o que já se “sabe”; e, em tais casos, novos elementos encaixados na estrutura existente tenderão a contribuir menos para a história do mundo inventado em si do que para a história de sua invenção. Neste livro aceitei desde o inicio que assim devia ser; e, exceto detalhes insignificantes, como mudanças de nomenclatura (onde a retenção da forma dos originais geraria despropositada confusão ou um despropositado espaço ocupado pelas explicações), não fiz alterações em prol da consistência com obras publicadas; mas, sim, chamei sempre a atenção para conflitos e variações. Portanto, sob este ponto de vista, os Contos inacabados diferem essencialmente do Silmarillion, onde um objetivo primordial, porém não exclusivo, da edição era obter coesão tanto interna quanta externa; e, a exceção de alguns casos especificados, de fato tratei a forma publicada do Silmarillion como ponto fixo de referência da mesma ordem que as obras publicadas por meu pai, ele próprio, sem considerar as inúmeras decisões “não autorizadas” entre variantes e versões rivais que influenciaram sua produção.
Em termos de conteúdo o livro é inteiramente narrativo (ou descritivo): exclui todos os escritos sobre a Terra Média e Aman que fossem de natureza essencialmente filosófica ou especulativa, e nos trechos em que tais assuntos surgem, de tanto em tanto, não lhes dediquei mais atenção. Impus uma estrutura simples e conveniente ao dividir os textos em partes que correspondem as primeiras Três Eras do Mundo, o que inevitavelmente gerou alguma sobreposição, como no caso da lenda de Amroth e sua discussão em “A história de Galadriel e Celeborn”. A quarta parte é um apêndice, e pode exigir alguma explicação em um livro chamado Contos inacabados, pois os textos que contém são ensaios generalizados e discursivos com poucos elementos de “história” ou nenhum. A seção sobre os Drúedain, de fato, deve sua inclusão original a história de “A pedra fiel”, que constitui pequena parte dela; e essa seção levou-me a incluir as que tratam dos Istari e dos Palantíri, pois esses (em especial os primeiros) são temas sobre os quais muitas pessoas expressaram curiosidade, e este livro pareceu um lugar adequado para expor o que há para ser contado.
As notas poderão parecer um tanto excessivas, em alguns trechos, mas   verse-a que, lá onde estão mais aglomeradas, são devidas menos ao editor que ao autor, que nas suas obras tardias tendia a compor dessa maneira, avançando vários assuntos por meio de notas entrelaçadas. Em toda parte procurei deixar claro o que é editorial e o que não é. E, por causa dessa abundancia de materiais originais que constam em notas e apêndices, preferi não limitar as referências de páginas do Glossário aos textos propriamente ditos, mas sim abranger todas as partes do livro, exceto a Introdução.
Em toda parte, supus que o leitor tivesse um razoável conhecimento de obras publicadas de meu pai (mais especialmente O Senhor dos Anéis), pois agir de outro modo teria ampliado excessivamente o elemento editorial, que com certeza já seria considerado bem suficiente. No entanto, incluí em quase todos os verbetes principais do Glossário definições curtas, esperando poupar ao leitor as constantes referências a outras obras. Se minhas explicações forem insuficientes ou se tiver sido involuntariamente obscuro, o Complete Guide to Middle-earth de Robert Foster representa, como descobri pelo uso frequente, uma admirável obra de referência. As referências em O Silmarillion são feitas em geral apenas às páginas; em O Senhor dos Anéis, ao título do volume, livro e capítulo.
Seguem-se notas essencialmente bibliográficas sobre cada um dos textos.

* * *

PRIMEIRA PARTE

I
De Tuor e sua chegada a Gondolin

Meu pai disse mais de uma vez que “A queda de Gondolin” foi o primeiro conto da Primeira Era a ser composto, e não há evidências que contradigam sua lembrança. Em uma carta de 1964, declarou que o escreveu — “da minha cabeça” durante uma licença por enfermidade no exército, em 1917, e em outras ocasiões indicou a data como 1916 ou 1916-17. Em uma carta que me escreveu em 1944, disse: “Comecei a escrever O Silmarillion em barracas de campanha do exército, apinhadas, cheias do barulho dos gramofones”: e de fato alguns versos onde constam os Sete Nomes de Gondolin foram rabiscados atrás de uma folha de papel que estipula “a cadeia de responsabilidades em um batalhão”. O manuscrito mais antigo ainda existe, e ocupa dois pequenos cadernos de exercícios escolares; foi escrito rapidamente, a lápis, e depois, em grande parte de sua extensão, foi recoberto com escrita a tinta, e intensamente revisado. Com base nesse texto minha mãe, ao que parece em 1917, fez uma cópia a limpo; mas essa, por sua vez, continuou a ser substancialmente revisada, em época que não consigo determinar, mas provavelmente em 1919-20, quando meu pai estava em Oxford na equipe do Dicionário, então ainda incompleto. Na primavera de 1920, foi convidado a ler um trabalho perante o Essay Club do seu college (Exeter); e leu “A queda de Gondolin”. Ainda sobrevivem as anotações do que pretendia dizer à guisa de introdução no “ensaio”. Nelas, desculpava-se por não ter conseguido produzir um trabalho crítico, e prosseguia: “Portanto tenho de ler algo que já está escrito, e em meu desespero recorri a este Conto. Naturalmente nunca antes viu a luz do dia (...) Um ciclo completo de eventos num Mundo Élfico que eu próprio imaginei vem crescendo (melhor, sendo construído) há algum tempo em minha mente. Alguns dos episódios foram rascunhados (...). Este conto não é o melhor deles, mas é o único que até agora chegou a ser revisado, e que, por insuficiente que seja essa revisão, ouso ler em voz alta.”
A história de Tuor e dos Exilados de Gondolin (como “A queda de Gondolin” está intitulada nos primeiros manuscritos) permaneceu intocada por muitos anos, apesar de meu pai em certa etapa, provavelmente entre 1926 e 1930, ter escrito uma versão curta, comprimida da história, para que fizesse parte do Silmarillion (um título que, aliás, apareceu pela primeira vez em sua carta a The Observer em 20 de fevereiro de 1938); e essa versão foi em seguida alterada para que se harmonizasse com conceitos modificados em outras partes do livro. Muito mais tarde, ele começou a trabalhar em um relato totalmente remodelado, intitulado “De Tuor e da queda de Gondolin”. Parece muito provável que este tenha sido escrito em 1951, quando O Senhor dos Anéis estava acabado, mas sua publicação era duvidosa. Profundamente alterada em estilo e perspectivas, e, no entanto mantendo muitos dos pontos essenciais da história escrita em sua juventude, “De Tuor e da queda de Gondolin” teria contado com detalhes precisos toda a lenda que constitui o breve capítulo XXIII do Silmarillion publicado; mas desafortunadamente ele não foi além da chegada de Tuor e Voronwe ao último portão, e da visão que Tuor teve de Gondolin do outro lado da planície de Tumladen. Não há pista sobre as razões que o fizeram abandoná-la nesse ponto.
Esse é o texto que consta aqui. Para evitar confusão renomeei-o “De Tuor e sua Chegada a Gondolin”, pois nada conta sobre a queda da cidade. Como sempre acontece nos escritos de meu pai, há leituras variantes, e em uma curta seção (a aproximação de Tuor e Voronwe ao rio Sirion, e sua passagem por ele) há várias formas concorrentes; portanto foi necessário algum trabalho editorial de pequena monta.
Assim, persiste o fato notável de que o único relato completo que meu pai jamais chegou a escrever sobre a história da estada de Tuor em Gondolin, sua união com Idril Celebrindal, o nascimento de Earendil, a traição de Maeglin, o saque da cidade e a escapada dos fugitivos — uma história que era um elemento central na sua imaginação da Primeira Era — foi a narrativa composta na juventude. Não se discute, no entanto, que essa narrativa (deveras notável) não é adequada para ser incluída neste livro. Está escrita no estilo extremamente arcaico que meu pai usava na época, e inevitavelmente incorpora conceitos desalinhados com o mundo do Senhor dos Anéis e do Silmarillion como foi publicado. Pertence ao restante da fase mais primitiva da mitologia, “O Livro dos cantos perdidos”: obra em si muito substancial, do máximo interesse para quem se ocupa das origens da Terra Média, mas que precisa ser apresentada, se é que pode sê-la, em um estudo longo e complexo.


II
O canto dos filhos de Húrin

A evolução da lenda de Turin Turambar é, sob alguns aspectos, a mais emaranhada e complexa dentre todos os elementos narrativos da história da Primeira Era. Como a história de Tuor e da queda de Gondolin, remonta aos verdadeiros primórdios, e existe como uma primitiva narração em prosa (um dos “Contos perdidos”) e como um longo poema inacabado em versos alterativos. No entanto, embora a “versão longa” posterior de Tuor jamais tenha ido muito longe, meu pai chegou muito mais perto de completar a “versão longa” posterior de Turin. Foi chamada Narn i Hín Húrin; e essa é a narrativa apresentada neste livro.
Há, porém, grandes diferenças no decurso do Narn longo, referentes ao grau em que a narrativa se aproxima de uma forma aperfeiçoada ao final. A última seção (desde O Retorno de Turin a Dor-lómin ate A Morte de Turin) sofreu alterações editoriais tão somente marginais; porém a primeira seção (até o fim de Turin em Doriath) exigiu grande esforço de revisão e seleção e, em alguns pontos, uma leve condensação, pois os textos originais eram fragmentários e desconexos. Mas a seção central da narrativa (Turin entre os proscritos, Mim, o anão-pequeno, a terra de Dor-Cúarthol, a morte de Beleg pelas mãos de Turin e a vida de Turin em Nargothrond) constituiu um problema editorial muito mais difícil. Aqui o Narn está menos acabado e, em alguns trechos, reduz-se a esboços de possíveis evoluções da história. Meu pai ainda estava elaborando essa parte quando parou de trabalhar nela; e a versão mais curta para O Silmarillion devia esperar pelo desenvolvimento final do Narn. Ao preparar o texto do Silmarillion para ser publicado, necessariamente tive de derivar boa parte dessa seção da história de Turin a partir desses mesmos materiais, que são de complexidade extraordinária em sua variedade e seus inter-relacionamentos.
Para a primeira parte dessa seção central, até o início da estada de Turin na habitação de Mim em Amon Rúdh, construí uma narrativa, de escala comensurável com outras partes do Narn, a partir dos materiais existentes (com uma lacuna); mas desse ponto em diante, até a chegada de Turin a Ivrin após a queda de Nargothrond, não considerei vantajoso tentar o mesmo procedimento. Aí as lacunas do Narn são grandes demais, e só puderam ser preenchidas com o texto publicado do Silmarillion; mas em um Apêndice citei fragmentos isolados dessa parte da narrativa projetada, mais ampla. Na terceira seção do Narn (começando em O Retorno de Túrin a Dor-lómin), uma comparação com O Silmarillion mostrara muitas correspondências próximas, e até mesmo identidades de expressão; embora na primeira seção haja dois extensos trechos que exclui do presente texto, vista que são variantes próximas de trechos que aparecem em outros lugares e foram incluídos no Silmarillion publicado. Essa sobreposição e inter-relação entre uma e outra obra podem ser explicadas de diversos modos, a partir de diversos pontos de vista. Meu pai deleitava-se em recontar em escalas diferentes; mas alguns trechos não exigiam tratamento mais extenso em uma versão mais ampla, e não havia necessidade de reformulá-los por essa razão. Por outro lado, quando tudo ainda estava indefinido, e a organização final das diferentes narrativas ainda estava muito longe, o mesmo trecho podia ser experimentalmente colocado em qualquer delas. Pode-se, porém, encontrar uma explicação em outro nível. Lendas como a de Turin Turambar haviam recebido uma determinada forma poética muito tempo atrás — nesse cubo, o Narn i Hîn Húrin do poeta Dírhavel — e frases, ou mesmo trechos inteiros, dessa obra (especialmente em  momentos de grande intensidade retórica, como a fala de Turin a sua espada, antes de morrer) seriam preservadas intatas por aqueles que mais tarde fizeram condensações da historia dos Dias Antigos (como me concebe que O Silmarillion seja).


SEGUNDA PARTE

I
Uma descrição de ilha de Númenor

Apesar de serem descritivas, e não narrativas, incluí seleções do relato que meu pai fez sobre Númenor, muito especialmente no que concerne a natureza fisica da ilha, pois esse relato esclarece e acompanha naturalmente a história de Aldarion e Erendis. Certamente esse relato existia por volta de 1965, e provavelmente não foi escrito muito antes dessa época. Redesenhei o mapa a partir de um pequeno esboço rápido, só que parece o único que meu pai jamais fez de Númenor. Apenas os nomes ou traços que se encontram no original foram registrados no redesenho. Adicionalmente, o original mostra outro porto na baía de Andúnie, um pouco a oeste da própria Andúnie. O nome é difícil de ler, mas é quase certo que seja Almaida. Ao que eu saiba, esse nome não ocorre em outra parte.


II
Aldarion e Erendis

Essa história foi abandonada no estado menos desenvolvido de todos os textos desta coletânea, e em alguns lugares exigiu um grau de remontagem editorial que me fez duvidar se seria adequado incluí-la. No entanto, seu enorme interesse, por ser a única história (ao contrário dos registros e anais) que sobreviveu das longas eras da Númenor antes da narrativa do seu fim (o Akallabêth), e o fato de ser uma história de conteúdo singular entre os escritos de meu pai persuadiram-me de que seria errado omiti-la desta coletânea de Contos inacabados.
Para se dar o devido valor a essa necessidade de tratamento editorial, é necessário explicar que meu pai usou frequentemente, ao compor as narratives, de “esboços de enredo”, atentando meticulosamente à datação dos eventos, de modo que esses esboços se parecem um pouco com registros de anais em uma crônica. No caso em questão há não menos de cinco esquemas desse tipo, que variam constantemente na sua plenitude relativa em diferentes pontos, e com frequência estão em desacordo entre si, em geral e nos detalhes. No entanto, tais esquemas sempre tinham a tendência a transformar-se em pura narrativa, especialmente através da introdução de curtos trechos de diálogo; e, no quinto e último esboço para a história de Aldarion e Erendis, o elemento narrativo é tão pronunciado que o texto se estende por cerca de sessenta páginas manuscritas. Esse movimento, que se afasta de um estilo staccato no tempo presente característico de anais até uma narrativa plena, era, no entanto muito gradativo, a medida que progredia a composição do esboço; e nos trechos iniciais da história reescrevi grande parte do material, tentando conferir-lhe um certo grau de homogeneidade estilística em toda sua extensão. Essa reescrita é sempre uma questão de fraseado, e jamais altera o significado nem introduz elementos não autênticos. O mais recente “esquema”, o texto que segui essencialmente, intitula-se A sombra da sombra: o Conto da esposa do marinheiro; e o Conto da rainha pastora. O manuscrito termina abruptamente, e não consigo dar uma explicação certa do motivo pelo qual meu pai o abandonou. Um texto datilografado, que chegava até esse ponto, foi completado em janeiro de 1965. Existe também um texto datilografado de duas páginas que julgo ser o último de todos esses materiais; trata-se evidentemente do início de algo que deveria se tornar a versão acabada de toda a história, e deriva daí o texto deste livro (onde os esboços de enredo são mais escassos). Chama-se Indis i Kiryamo “A esposa do marinheiro”: um conto da antiga Númenór e, que relata o primeiro rumor da Sombra. Ao final dessa narrativa expus as escassas indicações que são possíveis dar sobre o urso subsequente da história


III
A linhagem de Elros: Reis de Númenor

Apesar de ser na forma um registro puramente dinástico, incluí esse texto porque é um documento importante para a história da Segunda Era, e grande parte do material existente acerca dessa Era encontra seu lugar entre os textos e comentários deste livro. É um belo manuscrito no qual as datas dos Reis e das Rainhas de Númenor, e dos seus reinados, foram revisadas extensamente e as vezes de modo obscuro: esforcei-me por dar a formulação mais recente. O texto apresenta alguns enigmas cronológicos de pequena monta, mas também permite esclarecer alguns aparentes erros dos Apêndices do Senhor dos Anéis.
A tabela genealógica das primeiras gerações da Linhagem de Elros provém de diversas tabelas, estreitamente relacionadas entre si, que derivam do mesmo período que a discussão sobre as leis de sucessão em Númenor. Há algumas pequenas variações em nomes de menor importância: assim, Vardilme também aparece como Vardilye, e Yavien como Yavie. As formas dadas em minha tabela são as que creio serem mais tardias.


IV
A história de Galadriel e Celeborn

Essa seção do livro difere dos demais (exceto as da Quarta Parte) pelo fato de que aqui não há um texto único, e sim um ensaio que incorpora citações. Esse tratamento tornou-se necessário pela natureza dos materiais. Como se esclarece no decorrer do ensaio, uma história de Galadriel só pode ser uma história dos conceitos cambiantes de meu pai, e a natureza “inacabada” do conto não é, nesse caso, a de um determinado texto escrito. Limitei-me a apresentar seus escritos inéditos sobre o assunto, e me abstive de qualquer discussão das questões mais amplas subjacentes ao desenvolvimento; pois isso implicaria levar em consideração todo o relacionamento entre os valores e os élfos, desde a decisão inicial (descrita no Silmarillion) de convocar os elfos a Valinor, e muitos outros assuntos além desse, acerca dos quais meu pai escreveu muito que escapa ao âmbito deste livro.
A história de Galadriel e Celeborn está tão entretecida com outras lendas e histórias — de Lothlórien e dos élfos silvestres, de Amroth e Nimrodel, de Celebrimbor e da fabricação dos Anéis do Poder, da guerra contra Sauron e da intervenção númenoriana — que não pode ser tratada isoladamente, e portanto essa seção do livro, junto com meus cinco Apêndices, reúne praticamente todos os materiais inéditos sobre a história da Segunda Era na Terra Média (e em alguns lugares a discussão inevitavelmente me estende à Terceira). Está dito no Conto dos Anos que consta do Apêndice B do Senhor dos Anéis:
“Estes foram os tempos sombrios para os homens da Terra Média, mas os anos de glória de Númenor. Sobre eventos na Terra Média os registros são raros e breves, e as datas são frequentemente duvidosas.”
Mas mesmo o pouco que sobreviveu dos “tempos sombrios” mudou a medida que crescia e mudava a contemplação de meu pai a esse respeito; e não tentei disfarçar a inconsistência, mas sim exibi-la e chamar a atenção para ela. Versões divergentes, de fato, nem sempre precisam ser tratadas apenas com o fim de estabelecer a prioridade da composição; e meu pai, como “autor” ou “inventor”, nesses casos nem sempre pode ser diferenciado do “registrador” de antigas tradições transmitidas em diversas formas entre diversos povos por longas eras (quando Frodo encontrou Galadriel em Lórien, mais de sessenta séculos se haviam passado desde que ela viera para o leste, atravessando as Montanhas Azuis, vinda da destruição de Beleriand). “A respeito dela contam-se duas histórias, embora somente aqueles Sábios, que agora se foram, pudessem dizer qual é a verdadeira.”
Em seus últimos anos meu pai muito escreveu acerca da etimologia dos nomes na Terra Média. Nesses ensaios altamente discursivos estão incluídas muitas histórias e lendas; mas estas, como são subsidiárias ao propósito filológico principal, e por assim dizer apresentadas de passagem, tiveram de ser extraídas. É por esse motivo que essa parte do livro se compõe em larga medida de citações curtas, com mais material da mesma espécie colocado nos Apêndices.


TERCEIRA PARTE

I
O desastre dos Campos de Lís

Essa é uma narrativa “tardia” — com isso nada mais quero dizer, na ausência de alguma indicação de data precisa, senão que pertence ao período final dos escritos de meu pai sobre a Terra Média, juntamente com “Cirion e Eorl”, “As batalhas dos Vaus do Isen”, “os Drúedain” e os ensaios filológicos cujos excertos aparecem em “A história de Galadriel e Celeborn”, e não à época da publicação do Senhor dos Anéis ou aos anos seguintes. Há duas versões: um rascunho datilografado de todo o texto (claramente a primeira etapa da composição) e um texto datilografado cuidadosamente que incorpora muitas alterações e se interrompe no ponto em que Elendur instou com Isildur para que fugisse. Aqui houve pouco a fazer em termos editoriais.


II
Cirion e Eorl e a amizade entre Gondor e Rohan

Julgo que estes fragmentos pertencem ao mesmo período de “O desastre dos campos de Lis”, quando meu pai estava vivamente interessado na história antiga de Gondor e Rohan. Sem dúvida estava previsto que fizessem parte de uma história substancial, que desenvolveria com detalhes os relatos sumários apresentados no Apêndice A do Senhor dos Anéis. O material está em estágio primitivo de composição, muito desordenado, cheio de variantes, deteriorando-se em rabiscos apresentados que são em parte ilegíveis.


III
A busca de Erebor

Em uma carta escrita em 1964 meu pai disse: Há, é claro, muitos vínculos entre O Hobbit e O Senhor dos Anéis que não estão claramente expostos. Foram em sua maior parte escritos ou esboçados, mas foram cortados para aliviar o barco: como, por exemplo, as viagens exploratórias de Gandalf, suas relações com Aragorn e Gondor; todos os movimentos de Gollum até ele se refugiar em Moria, e assim por diante. De fato, escrevi um relato completo do que realmente aconteceu antes da visita de Gandalf a Bilbo e da subsequente “Festa Inesperada”, tal como o próprio Gandalf a viu. Ele deveria ter sido incluído numa conversa retrospectiva em Minas Tirith; mas teve de ser eliminado, e só está representado brevemente, apesar de estarem omitidas as dificuldades que Gandalf teve com Thorin.
Esse relato de Gandalf é apresentado aqui. A complexa situação textual é descrita no Apêndice da narrativa, onde forneci excertos substanciais de uma versão mais antiga.


IV
 A caçada ao Anel

Há muitos escritos sobre os eventos do ano 3018 da Terceira Era, que de outro modo são conhecidos através do Conto dos Anos e dos relatos de Gandalf e outros ao Conselho de Elrond; e esses escritos são evidentemente aqueles mencionados como “esboçados” na carta que acabo de citar. Dei-lhes o título de “A Caçada ao Anel”. Os manuscritos propriamente ditos, em confusão grande, mas nem por isso excepcional, estão suficientemente descritos; mas a questão da sua data (pois creio que todos, e também os de “Acerca de Gandalf, de Saruman e do Condado”, dado como terceiro elemento desta seção deriva da mesma época) pode ser mencionada aqui. Foram escritos após a publicação do Senhor dos Anéis, pois há referências à paginação do texto impresso; mas diferem, nas datas que dão a certos eventos, daquelas do Conto dos Anos no Apêndice 13. É clara a explicação de que foram escritos após a publicação do primeiro volume, mas antes da do terceiro, que contém os Apêndices.


V
As batalhas dos Vaus do Isen

Esse trecho, juntamente com o relato da organização militar dos Rohirrim e a história de Isengard que são apresentados em um Apêndice do texto, pertence a um grupo de outros escritos tardios de severa análise histórica; apresentou relativamente poucas dificuldades de natureza textual, e está inacabado apenas no sentido mais óbvio.


QUARTA PARTE

I
Os Drúedain

Ao final de sua vida, meu pai revelou muito mais acerca dos Homens Selvagens da Floresta de Drúadan em Anórien e as estátuas dos Homens-Púkel na estrada que subia para o Templo da Colina. O relato aqui apresentado, falando sobre os Drúedain em Beleriand na Primeira Era e contendo a historia de “A Pedra Fiel”, foi extraído de um longo ensaio, discursivo e inacabado, que se ocupa principalmente das inter-relações das línguas da Terra Média. Como se verá, os Drúedain deveriam ser incluídos na história das primeiras Eras; mas não há necessariamente vestígio disso no Silmarillion publicado.


II
Os Istari

Logo depois que O Senhor dos Anéis foi aceito para publicação, propôs-se que deveria haver um índice no fim do terceiro volume, e meu pai parece ter começado a trabalhar nele no verão de 1954, após os dois primeiros volumes terem ido ao prelo. Escreveu sobre o assunto em uma carta de 1956: “Um índice de nomes tinha de ser criado, que por interpretação etimológica também forneceria um vocabulário élfico bastante grande... Trabalhei nisso durante meses e indexei os dois primeiros volumes (foi a principal causa do atraso do Volume 3), até que se tornou claro que o tamanho e o custo eram exorbitantes.”
Acabou não havendo índice do Senhor dos Anéis até a segunda edição, de 1966, mas conservou-se o rascunho original de meu pai. Dele derivei o plano de meu glossário para O Silmarillion, com tradição dos nomes, breves textos explicativos e, tanto lá quanto no Glossário deste livro, algumas das traduções bem como o fraseado de algumas das definições. Daí vem também o ensaio sobre os Istari com o qual se inicia essa seção de livro — um verbete atípico do Glossário original em termos de comprimento, apesar de característico do modo como meu pai costumava trabalhar.
Para as outras citações dessa seção, forneci no próprio texto as indicações de data que foi possível dar.


III
Os Palantíri

Para a segunda edição do Senhor dos Anéis (1966) meu pai realizou substanciais revisões em um trecho de As Duas Torres, III, XI, “O palantír”, e em alguns outros, relacionados ao mesmo tema, em O Retorno do Rei, V, VII, “A Pira de Denethor”, embora essas revisões somente tenham sido incorporadas ao texto na segunda impressão da edição revisada (1967). Essa seção deste livro deriva-se de escritos sobre os palantíri associados a essa revisão; nada mais fiz que montá-los em um ensaio contínuo.

* * *

O mapa da Terra Média

Minha primeira intenção era incluir neste livro o mapa que acompanha O Senhor dos Anéis, acrescentando nomes adicionais; mas pareceu-me, após reflexão, que seria melhor copiar meu mapa original e aproveitar a oportunidade para corrigir alguns dos seus defeitos menores (corrigir os maiores estaria além da minha capacidade). Portanto, redesenhei-o com bastante exatidão em uma escala cinquenta por cento maiores (isso quer dizer que o novo mapa, tal como foi desenhado, tem dimensões cinquenta por cento maiores que as do mapa antigo em suas dimensões publicadas). A área mostrada é menor, mas os únicos acidentes que se perderam foram Portos de Umbar e o Cabo de Forochel*
Assim foi possível empregar letras diferentes, com grande ganho de clareza.
Estão incluídos todos os topônimos mais importantes que ocorrem neste livro, mas não no Senhor dos Anéis, tais como Lond Daer, Drúwaith Iaur, Edhellond, os Meandros, Cinzalin; e alguns outros que poderiam, ou deveriam, ter sido mostrados no mapa original, tais como os rios Harnen e Carnen, Annúminas, Folde Oriental, Folde Ocidental, as Montanhas de Angmar. A inclusão errônea de Rhudaur (apenas) foi corrigida pela adição de Cardolan e Arthedain, e mostrei a pequena ilha de Himling, ao largo da costa extrema noroeste, que aparece em um dos mapas esboçados por meu pai e em meu próprio primeiro rascunho. Himling era a forma primitiva de Himring (a grande colina sobre a qual Maedhros, filho de Feanor, tinha sua fortaleza em O Silmarillion), e apesar de o fato não estar referido em nenhum lugar fica claro que o topo de Himring erguia-se por sobre as águas que cobriam a Beleriand afundada. A alguma distância a oeste dali havia uma ilha maior chamada Tol Fuin, que deve ser a parte mais alta de Taur-nu-Fuin.
Em geral, mas não em todos os casos, preferi o nome em sindarin (caso fosse conhecido), mas usualmente indiquei também o nome traduzido quando esse é usado com frequência. Note-se que “Ermos do Norte”, escrito na parte superior do meu mapa original, parece, de fato, ser um equivalente de Forodwaith**.
Julguei desejável desenhar toda a extensão da Grande Estrada que liga Amor a Gondor, embora seu traçado entre Edoras e os Vaus do Isen seja conjetural (assim como a localização precisa de Lond Daer e Edhellond).
Por fim, gostaria de salientar que a conservação exata do estilo e dos detalhes (além da nomenclatura e das letras) do mapa que fiz às pressas 25 anos atrás não representa a crença na excelência de sua concepção ou execução. Há muito tempo lamento que meu pai nunca o tenha substituído por outro de seu próprio punho. No entanto, as coisas acabaram acontecendo de tal maneira que ele, apesar de todos os defeitos e excentricidades, se tornou “o Mapa”, e meu próprio pai passou a usá-lo sempre como base (sem deixar de frequentemente reparar em suas insuficiências). Os vários mapas que esboçou, e dos quais se derivou o meu, fazem agora parte da história da redação do Senhor dos Anéis. Portanto, julguei melhor manter meu desenho original, na medida em que eu próprio contribuí com estes assuntos, pois ao menos representa a estrutura dos conceitos de meu pai com tolerável fidelidade.
C. T.
* Agora tenho poucas dúvidas de que o corpo de água denominado em meu mapa original como “baía de Gelo de Forochel” era de fato apenas uma pequena parte da baía (mencionada no Senhor dos Anéis, Apêndice A, I, iii como “imensa”) que se estendia muito além para o nordeste; suas costas norte e oeste eram formadas pelo grande Cabo de Forochel, cuja ponte, sem nome, aparece em meu mapa original. Em um dos esboços de mapas do meu pai o litoral norte da Terra Média é mostrado a estender-se numa grande curva a és-nordeste do Cabo, ficando o seu ponto mais setentrional a cerca de 700 milhas ao norte de Cam Dûm.

**Forodwaith ocorre apenas uma vez em O Senhor dos Anéis (Apêndice A, I, iii), e lá refere-se a antigos habitantes das Terras do Norte, dos quais os Homens das Neves de Forochel eram um remanescente; mas a palavra sindarin (g)waith usava-se tanto para regiões como para os povos que as habitavam (ct.Eneduwaith). Em um dos mapas esboçados por meu pai, Forodwaith parece ser o equivalente explícito de “Ermos do Norte”, e em outro está traduzido por “Terra do Norte”.

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