28 de junho de 2016

Capítulo 28

De sua posição de comando no centro de seu exército, Morgarath observava a aparente confusão nas forças do rei. Cavalos galopavam de um lado para outro, homens giravam no lugar em que estavam, berros e gritos pairavam pela planície e chegaram até o exército da Chuva e da Noite.
Morgarath estava de pé nos estribos. De longe, ele via movimento no morro ao norte do exército do reino. Homens entravam em formação e avançavam. Ele se esforçou para enxergar melhor. Aquela era a direção de onde esperava que Horth aparecesse, mas a poeira levantada por toda a movimentação dificultava ver os detalhes.
Embora grande parte das forças de Morgarath consistisse em Wargals, cujos corpos e mentes tinham sido escravizados de acordo com sua vontade, o Senhor da Chuva e da Noite estava cercado por uma pequena roda seleta de homens que tinham tido a permissão de conservar seus poderes de pensamento e decisão. Renegados, criminosos e párias, eles vinham de todos os lados do país.
O mal sempre atrai o mal, e o círculo interno de Morgarath era, de todas as formas, impiedoso, perverso e depravado. Todos eram guerreiros capazes e quase todos eram assassinos frios.
Naquele momento, um deles cavalgou para junto de Morgarath.
— Meu senhor! — ele gritou com um sorriso largo no rosto. — Os bárbaros estão atrás das forças de Duncan! E estão atacando agora!
Morgarath devolveu o sorriso para o jovem rapaz. Seus olhos eram conhecidos pela perspicácia.
— Tem certeza? — ele perguntou com a voz fina e monótona. O tenente vestido de preto fez que sim com segurança.
— Vejo seus ridículos capacetes com chifres e os escudos redondos, senhor. Nenhum outro guerreiro os usa.
Isso era verdade. Embora algumas das forças do reino usassem escudos redondos, os dos escandinavos era imensos e feitos de madeira reforçada com metal. Eles tinham mais de um metro de diâmetro e apenas os enormes escandinavos, com músculos fortes de tanto remar seus navios nos mares gelados, poderiam carregar escudos tão pesados numa batalha por tempo indeterminado.
— Olhe, meu senhor! — continuou o jovem oficial. — O inimigo está se virando para enfrenta-los.
E assim parecia ser. As fileiras da frente do exército voltadas para eles agora estavam se movimentando confusas e se virando. Os gritos e o barulho ficavam cada vez mais altos. Morgarath olhou para a direita e viu a pequena colina onde o estandarte do rei marcava o posto de comando do inimigo. Vultos montados e virados para o norte e surgiam no alto.
Ele sorriu mais uma vez. Mesmo sem as forças que cruzariam a ponte que atravessaria a fenda, seu plano seria bem-sucedido. Ele tinha encurralado as forças de Duncan entre o martelo dos escandinavos e a bigorna dos Wargals.
— Avance — ele disse em voz baixa.
Então, como o mensageiro a seu lado não ouviu as palavras, ele se virou com o rosto inexpressivo e chicoteou o homem no rosto com o cabo do chicote de montaria de aço coberto de couro.
— Dê ordem para avançar — ele repetiu no mesmo tom de voz anterior.
O Wargal, ignorando a dor do corte feito pelo chicote e o sangue que escorria da testa para o olho, levou a corneta para os lábios e tocou uma escala ascendente de quatro notas.
Ao longo das linhas do exército de Wargals, comandantes de companhia deram um passo à frente, um a cada 100 metros. Eles ergueram as espadas curvas e entoaram os primeiros sons da cadência dos Wargals. Como uma máquina irracional, todo o exército começou imediatamente a cantoria, desta vez num ritmo bem lento, e avançou para a frente.
Morgarath deixou que as primeiras dezenas de fileiras passassem por ele e então, com seus ajudantes, impeliu os cavalos para a frente e acompanhou o exército. O Senhor da Chuva e da Noite sentiu a respiração acelerar e o coração bater mais rápido. Esse era o momento que tinha planejado e esperado nos últimos quinze anos. No alto de suas montanhas varridas pelo vento e pela chuva, ele tinha aumentado sua força de Wargals até que formassem um exército que nenhuma infantaria poderia derrotar. Como não eram donos de suas mentes, quase não sentiam medo. Eles eram inexoráveis. Sofreriam perdas que nenhuma outra tropa suportaria e continuariam a avançar.
Eles tinham apenas um ponto fraco: enfrentar a cavalaria. As montanhas altas não eram lugar para cavalos, e ele tinha sido incapaz de condicionar suas mentes a enfrentar soldados montados. Morgarath sabia que perderia muitas tropas para a cavalaria de Duncan, mas não se importava com isso. Num confronto normal, a cavalaria do rei seria um fator decisivo em sua batalha. Agora, porém, divididos entre os Wargals e os escandinavos, seus homens seriam insuficientes para pará-lo. Ele aceitava sem escrúpulos o fato de que a cavalaria de Duncan iria causar grandes perdas entre suas tropas. Não dava a mínima importância ao seu exército, somente aos próprios desejos e planos.
A poeira se levantava dos milhares de pés que corriam de um lado para outro. A cantoria o cercava, um ritmo primitivo de ódio e maldade implacável. Ele começou a rir. Suavemente no início, depois cada vez mais alto e descontroladamente. Aquele era o seu dia. Aquele era o seu momento. Aquele era o seu destino.
Cruel, perverso e totalmente implacável, ele era o Senhor da Chuva e da Noite. Também era, sem dúvida alguma, insano.
— Mais depressa! — ele gritou, desembainhando a enorme espada de folha larga e agitando-a em largos círculos sobre a cabeça.
Os Wargals não precisavam ouvir nenhuma palavra. Eles estavam ligados a ele num elo mental inquebrável. A cadência do canto aumentou e o exército negro começou a se mover cada vez mais depressa.
Mais à frente, tudo era confusão. O inimigo, que primeiro se virara para enfrentar os escandinavos, agora via a nova ameaça se aproximando na retaguarda. O exército do rei hesitou e, por algum motivo inexplicável, reagiu aos três toques de corneta se afastando para os lados, abrindo um espaço no coração de suas linhas. Morgarath gritou triunfante. Ele levaria seu exército para esse espaço, separando as alas da direita e da esquerda. Quando a linha de frente de um exército era quebrada, ela perdia toda a coesão e o controle, e o caminho para a derrota já estava parcialmente percorrido. Agora, em pânico, o inimigo o estava presenteando com a oportunidade perfeita para golpeá-lo no fundo de seu coração. Até tinha deixado o caminho aberto para o centro de comando: o pequeno grupo de cavaleiros parados debaixo do estandarte real na colina.
— Para a direita! — Morgarath berrou e apontou a espada na direção da águia que enfeitava o estandarte do rei Duncan.
Como antes, os Wargals ouviram suas palavras e seu pensamento. O exército virou ligeiramente, dirigindo-se para o espaço. E agora, acima da cantoria, Morgarath ouviu um som retumbante e monótono. Um som inesperado.
O bater de cascos de cavalo.
A dúvida repentina em sua mente imediatamente se comunicou com as mentes dos integrantes de seu exército. Houve uma vacilação momentânea no avanço e então, amaldiçoando os Wargals, ele os impeliu para a frente novamente. Mas o barulho dos cascos de cavalo continuava , e examinando as nuvens de poeira levantadas pelo exército do inimigo, ele viu a movimentação e sentiu uma repentina e incontrolável onda de medo. Então o exército de Wargals hesitou novamente.
E, desta vez, antes que pudesse mentalmente mandá-los avançar, a cortina de poeira pareceu se dissipar, e ele viu a cavalaria investindo a menos de 100 metros da linha de frente de seu exército.
Não havia tempo para formar o tipo de quadrado defensivo que seria a única esperança contra um ataque da cavalaria. Os soldados vestidos de armaduras invadiram com violência a extensa linha de frente dos Wargals, destruíram a formação e entraram no centro do exército de Morgarath. E, quanto mais penetravam, maior ficava o espaço, pois a cavalaria se espalhava e separava os Wargals, exatamente como Morgarath tinha planejado fazer com o inimigo.
Morgarath ouviu um longo toque de corneta ao longe. De pé nos estribos, ele olhou para a direita e para a esquerda e viu, vindo de cada ala do exército de Duncan, mais elementos da cavalaria se aproximando por seus flancos e derrubando suas formações. Vagamente, ele se deu conta de que tinha exposto seu exército à pior situação possível que poderia ter imaginado: ser apanhado em terreno aberto com a força total da cavalaria de Duncan.
Os Wargals enfrentavam a única força que poderia provocar medo em seus corações. Morgarath sentiu a faísca da derrota nas suas sombrias ondas mentais. Com o pensamento, ele tentou obrigá-los a continuar, mas a barreira do medo estava por demais arraigada neles. Gritando furioso, ele os fez recuar. Então, virou seu cavalo e, com os ajudantes que restavam, galopou de volta entre seu exército, abrindo caminho com a espada.
No Desfiladeiro dos Três Passos, formou-se um grande emaranhado quando milhares de soldados da retaguarda tentaram forçar passagem pela estreita abertura entre as rochas. Não haveria escapatória para ele ali, mas fugir era o último pensamento em sua mente. Seu único desejo era se vingar das pessoas que fizeram seus planos caírem por terra. Ele reuniu as tropas restantes num semicírculo defensivo, com as costas voltadas para as rochas lisas que barravam o caminho para o alto do planalto.
Frustrado e furioso, ele tentou entender o que tinha acabado de acontecer. O ataque dos escandinavos tinha dado em nada, como se nunca tivesse acontecido. Os soldados que avançaram morro abaixo usavam capacetes e escudos escandinavos, mas tinha sido um estratagema para fazê-lo avançar. O fato de eles estarem usando capacetes e escudos significava que, em algum lugar, as forças de Horth tinham sido derrotadas. Isso só poderia ter sido conseguido se alguém tivesse guiado uma força para interceptá-las através do impenetrável labirinto da Floresta Thorntree. Alguém?
No fundo de sua mente, Morgarath sabia quem era essa pessoa. Não sabia como nem por quê. Mas sabia que tinha de ser um arqueiro... e somente um deles poderia ter feito isso.
Halt.
Um ódio amargo e sombrio nasceu em seu coração. Por causa de Halt, seu sonho estava se desmanchando na frente de seus olhos. Por causa de Halt, metade de seus soldados Wargals estava caída na poeira do campo de batalha.
Sabia que o dia estava perdido. Mas ele se vingaria de Halt. E estava começando a ver como conseguiria atingir seu objetivo. Ele se virou para um de seus capitães.
— Prepare uma bandeira de trégua — ele disse.

Um comentário:

  1. Ai meu Zeus! Imagina se ele soubesse que tem o aprendiz do Halt com refém...gosto nem de imaginar a treta que ia dar.

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