28 de junho de 2016

Capítulo 24

O mestre de guerra David torcia as pontas do bigode ao olhar para o plano desenhado na mesa de areia.
— Não sei, Halt — ele disse em tom de dúvida. — É muito arriscado. Um dos princípios da luta armada é nunca dividir as forças.
Halt concordou. Ele sabia que as críticas do cavaleiro tinham intenção de ser construtivas, não eram simplesmente pensamentos negativos. Sir David tinha a função de encontrar falhas no plano e compará-las a possíveis vantagens.
— Isso é verdade — o arqueiro respondeu. — Mas também é verdade que a surpresa é uma arma poderosa.
O barão Tyler andou ao redor da mesa, analisando o plano sob outro ponto de vista. Ele apontou a massa verde que representava a Floresta Thorntree com a adaga.
— Você tem certeza de que Gilan consegue guiar uma grande força de cavalaria através de Thorntree? Pensei que ninguém fosse capaz de atravessar essa floresta — ele perguntou hesitante, e Halt concordou.
— Os arqueiros mapearam e estudaram cada centímetro do reino durante anos, meu senhor — ele disse ao barão. — Especialmente as partes que as pessoas acham que são intransponíveis. Podemos surpreender essa força no norte. E então Morgarath vai ser apanhado também, quando nenhum escandinavo surgir atrás de nós.
Tyler continuou a andar em volta da mesa, olhando atentamente para os desenhos feitos ali e para os marcadores colocados no mapa de areia.
— Mesmo assim, vamos estar numa grande enrascada se os escandinavos derrotarem Halt e a cavalaria aqui, no norte. Afinal, vocês vão ter quase a metade de homens.
— Isso é verdade — Halt concordou. — Mas nós vamos pegá-los em terreno aberto, e isso é uma vantagem. E não esqueça que vamos levar 200 unidades de arqueiros. Elas devem equilibrar um pouco esse número.
Uma unidade de arqueiro consistia em dois homens: um arqueiro e um lanceiro, apoiando-se mutuamente. Contra uma infantaria levemente armada, eles eram uma combinação mortal. Os arqueiros podiam reduzir um grande número de inimigos a distância. Quando a batalha se transformava num combate corpo a corpo, o lanceiro assumia a luta e permitindo que os arqueiros se retirassem em segurança.
Mas o barão Tyler insistiu.
— Vamos supor que os escandinavos consigam vencer e atravessar. Então a mesa vai ser virada. Nós vamos enfrentar um inimigo real no noroeste com a retaguarda exposta para os Wargals de Morgarath vindos do desfiladeiro.
Arald conseguiu reprimir um suspiro. Como estrategista, Tyler era conhecidamente cauteloso.
— Por outro lado — ele disse tentando ao máximo manter a impaciência fora da voz — se Halt tiver êxito, vai ser o grupo dele que Morgarath avistará vindo do noroeste. Vai supor que são os escandinavos nos atacando daquela direção e vai levar suas forças para as planícies para nos atacar por trás. E então nós o pegaremos. De uma vez por todas.
A possibilidade pareceu agradar a ele.
— Ainda é um risco — Tyler retrucou teimoso.
Halt e Arald trocaram um olhar, e o barão deu de ombros levemente.
— Toda luta armada é arriscada, senhor. Do contrário, seria fácil.
O barão Tyler olhou para ele com uma expressão zangada, mas Halt o encarou com tranquilidade. Quando o barão abriu a boca para responder, sir David o impediu batendo uma luva na palma da mão num gesto decisivo.
— Tudo bem, Halt — ele disse. — Vou apresentar seu plano ao rei.
Ao ouvir a menção ao rei, a expressão de Halt se suavizou um pouco.
— Como sua majestade está encarando as novidades? — ele perguntou, e sir David deu de ombros infeliz.
— É claro que pessoalmente ele está arrasado. Foi um golpe muito cruel ver as esperanças renascerem para logo depois serem derrubadas novamente. Mas ele encontra um jeito de deixar a vida pessoal de lado e continuar a desempenhar suas funções de rei. Diz que vai se lamentar mais tarde, quando tudo isso acabar.
— Talvez não haja motivos para lamentações — Arald ajuntou, e David sorriu para ele tristemente.
— Eu falei isso para ele, mas ele disse que prefere não alimentar falsas esperanças outra vez.
Houve um silêncio esquisito na barraca. Tyler, Fergus e sir David sentiam muita tristeza pelo rei. Duncan era um monarca popular e justo. Halt e o barão Arald, por sua vez, sentiam muito a perda de Will. Num tempo incrivelmente curto, o garoto tinha se tornado parte integrante do Castelo Redmont. Finalmente, foi sir David quem quebrou o silêncio.
— Senhores, talvez vocês queiram começar a preparar suas ordens. Vou levar este plano ao rei.
E, quando ele entrou nas seções internas do pavilhão, os barões e Halt deixaram a grande barraca. Arald, Fergus e Tyler se afastaram rapidamente para preparar ordens de movimento para o exército. Halt viu um vulto desanimado com a capa verde e cinzenta esperando no posto da sentinela e desceu a pequena colina para falar com seu antigo aprendiz.
— Quero partir e atravessar a fenda atrás deles — Gilan disse.
Halt sabia como o rapaz sofria com a perda de Will. Gilan se recriminava por tê-lo deixado sozinho nas colinas de Céltica. Não importava quantas vezes Halt e os outros arqueiros lhe tivessem dito que aquela tinha sido a medida acertada, ele se recusava a acreditar nisso.
Agora, Halt sabia que iria doer mais se seu pedido fosse recusado. No entanto, como arqueiros, seu primeiro dever era para com o reino. Ele fez que não e respondeu rispidamente.
— Recusado. Precisamos de você aqui. Vamos levar uma força através de Thorntree para impedir a passagem dos homens de Horth. Vá até a barraca de Crowley e pegue os mapas que mostram as trilhas secretas para aquela parte do país.
— Mas... — Gilan começou depois de hesitar um pouco.
Seu rosto estava tenso, mas algo no olhar de Halt o fez parar quando o arqueiro mais velho se inclinou para a frente.
— Gilan, será que passou pela sua cabeça que não quero arrancar pedra atrás de pedra daquele planalto até encontrar Will? Você e eu fizemos um juramento quando aceitamos estas folhas de carvalho de prata, e agora temos que cumprir o que prometemos.
Gilan baixou o olhar e concordou. Seu ombros ficaram caídos quando ele cedeu.
— Tudo bem — ele disse em voz baixa, e Halt pensou ter visto um brilho de lágrima s em seus olhos.
Ele se virou depressa antes que Gilan percebesse que os dele também estavam úmidos.
— Pegue os mapas — ele disse rapidamente.

2 comentários:

  1. Mds halt e gilan chorando "olhos úmidos" eu to aqui cm uma cachoeira T-T
    Ass:lana

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