28 de junho de 2016

Capítulo 15

Andando com cuidado, Will e Horace avançaram pela prancha estreita que cobria os últimos 15 metros da fenda. Will, com seu excelente preparo para enfrentar alturas, poderia ter corrido com facilidade sobre ela, sem problemas, mas caminhou devagar em consideração ao seu amigo, maior e menos ágil.
Quando eles finalmente chegaram à estrada acabada, Horace soltou um suspiro de alívio. Em seguida, os dois examinaram a estrutura por alguns momentos. Ela tinha sido construída com a perfeição pela qual os celtas eram conhecidos. Como nação, tinham desenvolvido a arte de abrir túneis e pontes ao longo dos séculos, e aquela era uma típica estrutura resistente.
O cheiro das tábuas de pinho recém-serradas enchia o ar frio da noite e, além disso, havia outro cheiro doce e aromático. Por um instante, eles olharam um para o outro confusos, mas logo Horace reconheceu o aroma.
— Piche — afirmou.
Eles olharam ao redor e constataram que os grossos cabos de corda e as cordas de apoio estavam cobertos com uma grossa camada da substância. Will tocou um deles e ficou com a mão grudenta.
— Acho que o piche não deixa as cordas apodrecerem e arrebentarem — ele deduziu com cautela, percebendo que os cabos principais tinham sido construídos com três cordas grossas trançadas generosamente cobertas com piche. Além disso, à medida que o piche endurecia, ele unia as três cordas permanentemente.
— Nenhum guarda? — Horace indagou olhando ao redor. Havia uma nota de desapontamento em sua voz.
— Ou eles estão muito confiantes, ou são muito descuidados — Will concordou.
A noite já estava adiantada, mas a Lua ainda não tinha surgido. Will foi até a margem direita da fenda. Horace abriu o estojo da espada e o seguiu.
O vulto da entrada do túnel estava deitado do mesmo jeito que Will o tinha visto pela última vez. Não houve mais nenhum sinal de movimento. Os dois garotos se aproximaram dele com cuidado e se ajoelharam ao seu lado. Agora viam que se tratava de um mineiro celta. Seu peito subia e descia, mas mal se movia.
— Ele ainda está vivo — Will sussurrou.
— Está por um fio — Horace retrucou.
Ele colocou o dedo indicador no pescoço do celta para sentir o pulso. Ao toque, o homem abriu os olhos devagar e olhou para os dois sem entender o que estava acontecendo.
— Quem... vocês? — ele conseguiu gemer.
Will tirou o cantil do ombro e umedeceu os lábios do homem com um pouco de água. A língua se moveu avidamente na superfície úmida, e o homem gemeu outra vez, tentando se apoiar num cotovelo.
— Mais.
Delicadamente, Will fez que ele parasse de se mexer e lhe deu um pouco mais de água.
— Descanse tranquilo, amigo — ele disse baixinho. — Não vamos machucar você.
Era óbvio que alguém o tinha machucado, e muito. O rosto dele estava manchado de sangue seco que tinha escorrido de dezenas de cortes de chicote. Sua jaqueta de couro estava cortada e rasgada, e o peito nu mostrava sinais de outras chicotadas, recentes e antigas.
— Quem é você? — Will perguntou com suavidade.
— Glendyss — o homem suspirou parecendo se surpreender com o som do próprio nome.
Ele então tossiu. Uma tosse rouca e áspera que fez seu peito estremecer. Will e Horace trocaram olhares tristes. Perceberam que Glendyss não ia viver muito.
— Quando você veio para cá? — Will perguntou ao homem e deixou que mais água escorresse entre seus lábios secos e ressecados.
— Meses... — Glendyss respondeu numa voz que eles mal podiam ouvir. — Estou aqui há muitos meses... trabalhando no túnel.
Novamente, os dois garotos se entreolharam. Talvez o homem estivesse dizendo coisas sem sentido.
— Meses? — Will repetiu. — Mas os ataques dos Wargals só começaram há um mês, não é mesmo?
Mas Glendyss estava balançando a cabeça. Ele tentou falar, tossiu e se acalmou, juntando as forças que começavam a sumir. Então falou tão baixinho que Will e Horace tiveram que se aproximar mais para ouvir.
— Eles nos capturaram há quase um ano... de todos os lugares. Secretamente... um homem aqui, dois ali... 50 no total. Hoje... a maioria está morta. Eu vou morrer logo.
Ele parou, respirando com dificuldade. O esforço para falar era quase insuportável para ele. Will e Horace olharam um para o outro atordoados com a nova informação.
— Como ninguém percebeu que isso estava acontecendo? — Horace perguntou ao amigo. — Quer dizer, 50 pessoas desaparecem e ninguém fala nada?
— Ele disse que foram sequestradas de várias vilas em Céltica — Will retrucou. — Assim, quando se trata do desaparecimento de um ou dois homens... as pessoas podem ficar sabendo nas próprias vilas, mas ninguém sabe de tudo o que acontece nas outras.
— Mesmo assim — Horace continuou — por que fazer isso? E por que agora estão fazendo tudo abertamente?
— Talvez a gente tenha uma ideia se dermos uma olhada por aí — Will respondeu encolhendo ombros.
Eles hesitaram indecisos, sem saber o que fazer com o vulto encolhido e ferido. Enquanto esperavam, a Lua nasceu e se elevou sobre as colinas, enchendo a ponte e a rampa com uma luz pálida e suave. Ela tocou o rosto de Glendyss e ele abriu os olhos. Fraco, tentou levantar o braço para evitar a luz e, gentilmente, Will se inclinou sobre ele para protegê-lo.
— Estou morrendo — o mineiro disse com repentina clareza e um sentimento de paz.
Will hesitou e então concordou com simplicidade.
— Sim.
Não adiantaria mentir para ele, tentar alegrá-lo afirmando que tudo ficaria bem. Ele estava morrendo, e todos sabiam disso. Seria melhor deixá-lo se preparar, deixá-lo enfrentar a morte com calma e dignidade. A mão se agarrou debilmente na manga de Will, e ele a segurou, apertando-a com delicadeza, deixando que o celta sentisse o contato com outra pessoa.
— Garotos — ele disse fracamente. — Não me deixem morrer aqui... na luz.
Novamente, Horace e Will trocaram olhares.
— Quero a paz fora da luz — ele continuou baixinho e, de repente, Will compreendeu.
— Acho que os celtas gostam da escuridão. Afinal, eles passam a maior parte da vida em túneis e minas. Talvez seja isso o que ele quer.
— Glendyss? — Horace chamou e se inclinou para a frente. — Você quer que a gente leve você para dentro do túnel?
O mineiro virou a cabeça na direção de Horace e assentiu levemente. Só o suficiente para que eles entendessem o gesto.
— Por favor — ele sussurrou — me levem para fora da luz.
Horace concordou com um gesto de cabeça e escorregou os braços sob os ombros e joelhos do celta para levantá-lo. Glendyss era pequeno, e as semanas que tinha passado em cativeiro obviamente tinham sido uma época de fome. Ele era uma carga leve para Horace.
Quando o aprendiz de guerreiro ergueu o corpo do celta nos braços, Will fez sinal para que parasse. Ele percebeu que, assim que o homem estivesse na paz do túnel escuro, soltaria o tênue fio que o prendia à vida. E havia mais uma pergunta que Will precisava fazer.
— Glendyss — ele disse baixinho. — Quanto tempo nós temos?
Sem compreender, o mineiro olhou para ele cansado. Will tentou outra vez.
— Quanto tempo temos antes que terminem a ponte?
Desta vez, ele viu um brilho de compreensão no olhar de Glendyss, e o celta pensou por alguns segundos.
— Cinco dias — ele respondeu. — Talvez quatro. Mais trabalhadores chegaram hoje... então, talvez quatro.
Em seguida, ele fechou os olhos como se o esforço tivesse sido excessivo. Por um segundo, parecia que o homem tinha morrido. Mas então o peito dele subiu num tremor intenso e ele continuou a respirar.
— Vamos levar ele para o túnel — Will disse.
Eles passaram com dificuldade pela abertura estreita. Nos primeiros 10 metros, as paredes do túnel estavam próximas o suficiente para serem tocadas. Então começaram a se abrir, à medida que os resultados do trabalho dos celtas se tornavam evidentes. O lugar era escuro e apertado, iluminado apenas pelas fracas chamas das tochas instaladas em suportes a cada 10 ou 12 metros. Algumas proporcionavam apenas uma luz intermitente e inconstante. Horace olhou ao redor inquieto. Ele não gostava de altura e, definitivamente, não gostava de lugares fechados.
— Aqui está a resposta — Will disse. — Morgarath precisava daqueles primeiros 50 mineiros para fazer este trabalho. Agora que o túnel está quase terminado, precisa de mais homens para construir a ponte o mais rápido possível.
— Você tem razão — Horace concordou. — A abertura do túnel levaria meses, mas ninguém poderia ver o que estava acontecendo. Depois de começar a construir a ponte, o risco de ser descoberto seria muito maior.
No fundo do túnel, eles encontraram uma pequena área arenosa, quase uma gruta num dos lados, e deitaram Glendyss nela. Will percebeu que aquilo devia ter sido o que os dois celtas estavam tentando fazer pelo colega quando a corneta soou anunciando o fim do dia de trabalho.
— Eu me pergunto o que os Wargals vão pensar quando encontrarem ele aqui, amanhã — ele hesitou.
— Talvez pensem que se arrastou até aqui sozinho — Horace sugeriu dando de ombros.
Will pensou nisso. Estava indeciso. Mas então observou a expressão tranquila no rosto do mineiro que agonizava na luz fraca e não conseguiu tornar a levar o homem de volta para fora.
— Só coloque ele um pouco mais para dentro, o mais fora da vista possível — ele pediu.
Havia um pequeno cotovelo na rocha, e Horace colocou o mineiro atrás dele com delicadeza. Agora, só podia ser visto se alguém olhasse com atenção, e Will decidiu que estava bom demais. Horace voltou para o túnel principal, e Will percebeu que, agitado, o amigo ainda olhava em volta.
— O que vamos fazer agora? — Horace perguntou.
— Você pode esperar por mim aqui — Will respondeu, tomando uma decisão. — Eu vou ver até onde vai este túnel.
Horace não discutiu. O pensamento de entrar no fundo do túnel escuro e sinuoso não lhe agradava nem um pouco. Ele encontrou um lugar para se sentar, perto de uma das tochas mais brilhantes.
— Só prometa que vai voltar — ele pediu. — Não quero ter que ir procurar você.

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