12 de junho de 2016

Capítulo V - As batalhas dos Vaus do Isen

Os principais obstáculos a uma conquista fácil de Rohan por Saruman eram Théodred e Éomer: homens vigorosos, devotados ao Rei e detentores de seu alto afeto, como seu filho único e filho de sua irmã. Fizeram tudo o que puderam para frustrar a influência que Gríma obteve sobre o Rei quando a saúde deste começou a se deteriorar.
Isso ocorreu no início do ano de 3014, quando Théoden estava com 66 anos de idade. Seu mal pode portanto ter decorrido de causas naturais, embora os rohirrim normalmente vivessem até perto dos oitenta anos ou ainda mais. Mas pode muito bem ter sido induzido ou agravado por venenos sutis administrados por Gríma. Seja como for, o sentido que Théoden tinha de debilidade e dependência de Gríma derivava mormente da esperteza e habilidade das sugestões desse conselheiro malévolo. Era sua política desacreditar seus principais oponentes diante de Théoden, e livrar-se deles, se possível. Demonstrou ser impossível criar rivalidade entre eles: Théoden, antes de sua “doença”, fora muito amado por toda a sua família e seu povo, e a lealdade de Théodred e Éomer permaneceu firme, mesmo na sua aparente senilidade. Tampouco era Éomer um homem ambicioso, e seu amor e respeito por Théodred (treze anos mais velho que ele) só ficava atrás de seu amor pelo pai de criação. Portanto, Gríma tentou jogá-los um contra o outro na mente de Théoden, mostrando Éomer como sempre ávido por aumentar sua própria autoridade e por agir sem consultar o Rei nem seu Herdeiro. Nisso teve algum sucesso, que deu frutos quando Saruman finalmente conseguiu obter a morte de Théodred.
Foi visto claramente em Rohan, quando ficaram conhecidos os relatos verdadeiros das batalhas nos Vaus, que Saruman dera ordens especiais para que Théodred fosse morto a qualquer custo. Na primeira batalha, todos os seus guerreiros mais ferozes foram engajados em ataques implacáveis a Théodred e sua guarda, sem dar atenção aos demais acontecimentos da batalha, que de outra forma poderia ter resultado em uma derrota muito mais danosa para os rohirrim. Quando Théodred foi morto afinal, o comandante de Saruman (sem dúvida obedecendo a ordens) pareceu satisfeito por ora, e Saruman cometeu o erro, que demonstrou ser fatal, de não introduzir imediatamente novas forças e não empreender de pronto uma invasão maciça do Folde Ocidental; embora o valor de Grimbold e Elfhelm contribuísse para o atraso. Se a invasão do Folde Ocidental tivesse começado cinco dias antes, há pouca dúvida de que os reforços de Edoras jamais teriam se aproximado do Abismo de Helm, mas teriam sido cercados e derrotados na planície aberta; isso, se na verdade a própria Edoras não fosse atacada e capturada antes da chegada de Gandalf.
Foi dito que o valor de Grimbold e Elfhelm contribuiu para o atraso de Saruman, que demonstrou ser desastroso para ele. O relato acima talvez subestime sua importância. O Isen descia veloz desde sua nascente acima de Isengard, mas na região plana do desfiladeiro tornava-se lento até voltar-se para o oeste; então prosseguia através de terras que desciam em longas encostas até as baixadas costeiras da Gondor mais distante e de Enedwaith, e tornava-se fundo e rápido. Logo acima dessa curva para o oeste ficavam os Vaus do Isen. Ali o rio era largo e raso, passando em dois ramos à volta de uma ampla ilhota, sobre uma plataforma rochosa coberta de pedras e seixos arrastados do norte.
Somente aqui, ao sul de Isengard, era possível que grandes tropas atravessassem o rio, especialmente se portassem armas pesadas ou estivessem montadas. Assim, Saruman tinha esta vantagem: podia mandar suas tropas descer por qualquer margem do Isen e atacar os Vaus, caso fossem guarnecidos contra ele, por ambos os lados. Qualquer força sua a oeste do Isen podia, se necessário, recuar até Isengard. Por outro lado, Théodred podia mandar homens atravessar os Vaus, quer com força suficiente para enfrentar as tropas de Saruman, quer para defender a cabeça de ponte ocidental; mas se fossem derrotados não teriam como recuar, a não ser voltando pelos Vaus com o inimigo nos calcanhares, e possivelmente também esperando por eles na margem leste. Ao sul e a oeste, ao longo do Isen, não tinham como voltar para casa, salvo se estivessem aprovisionados para uma longa viagem através de Gondor Ocidental.
O ataque de Saruman não foi imprevisto, mas chegou antes do que se esperava. Os batedores de Théodred o haviam avisado de uma concentração de tropas diante dos Portões de Isengard, principalmente (conforme parecia) na margem oeste do Isen. Portanto, ele guarneceu os acessos aos Vaus, do leste e do oeste, com robustos homens a pé recrutados no Folde Ocidental. Deixando três companhias de Cavaleiros, com manadas de cavalos e montarias de reserva, na margem leste, ele próprio atravessou com a força principal de sua cavalaria: oito companhias e uma companhia de arqueiros, com a intenção de aniquilar o exército de Saruman antes que este estivesse plenamente preparado.
Mas Saruman não tinha revelado suas intenções, nem a plena força de suas tropas. Já estavam em marcha quando Théodred partiu. A cerca de vinte milhas ao norte dos Vaus, Théodred encontrou a vanguarda deles e a dispersou com perdas. Mas, quando seguiu cavalgando para atacar a hoste principal, a resistência recrudesceu. O inimigo estava de fato em posições preparadas para o evento, atrás de trincheiras guarnecidas com lanceiros, e Théodred, no éored dianteiro, foi detido e quase cercado, pois novas forças vindas às pressas de Isengard agora o flanqueavam pelo oeste.
Desvencilhou-se com a chegada das companhias que vinham por trás dele; mas, quando olhou em direção ao leste, ficou consternado. A manhã havia sido turva e nevoenta, mas as brumas se afastavam através do desfiladeiro, levadas por uma brisa do oeste, e longe, a leste do rio. ele divisou outras forças que agora se apressavam na direção dos vaus, se bem que não se podia adivinhar sua grandeza. Ordenou uma retirada imediata. Esta foi realizada em boa ordem e com poucas perdas adicionais pelos Cavaleiros, bem treinados na manobra: mas não se livraram do inimigo nem se afastaram muito dele, pois a retirada sofreu muitos atrasos, quando a retaguarda sob o comando de Grimbold foi obrigada a encarar os perseguidores e rechaçar os mais agressivos.
Quando Théodred alcançou os Vaus, o dia estava terminando. Pôs Grimbold no comando da guarnição da margem oeste, reforçada com cinquenta Cavaleiros a pé. O resto de seus Cavaleiros e todos os cavalos foram imediatamente mandados ao lado oposto do rio, exceto sua própria companhia: com estes, a pé, guarneceu a ilhota para cobrir a retirada de Grimbold, caso fosse rechaçado. Isso mal estava feito quando o desastre ocorreu. A tropa oriental de Saruman atacou com velocidade insuspeitada. Era muito menor que a tropa ocidental, porém mais perigosa. Na vanguarda estavam alguns cavaleiros terrapardenses e uma grande matilha dos terríveis orcs montados em lobos, temidos pelos cavalos. Atrás deles vinham dois batalhões dos ferozes uruks, com armamento pesado e treinados para se movimentarem a grande velocidade por muitas milhas. Os cavaleiros e os orcs montados em lobos acometeram as manadas de cavalos e cercaram os animais para matá-los ou dispersá-los. A guarnição da margem leste, surpreendida pelo súbito ataque dos uruks em massa, foi aniquilada, e os Cavaleiros que tinham acabado de atravessar do oeste foram apanhados ainda desorganizados. Embora lutassem desesperadamente, foram expulsos dos Vaus ao longo da linha do Isen, com os uruks a persegui-los.
Assim que o inimigo se apossou da extremidade leste dos Vaus, surgiu uma companhia de homens ou homens-orcs (evidentemente despachados com esse fim), ferozes, trajando cotas de malha e armados com machados. Correram até a ilhota e a atacaram por ambos os lados. Ao mesmo tempo Grimbold, na margem oeste, foi atacado pelas forças de Saruman daquele lado do Isen. Olhando para o leste, aturdido com os ruídos da batalha e os hediondos gritos de vitória dos orcs, Grimbold viu os homens com machados expulsando os de Théodred das margens da ilhota em direção ao pequeno outeiro em seu centro, e ouviu a forte voz de Théodred gritando A mim, Eorlingas! Imediatamente Grimbold, tomando alguns homens que estavam próximos, voltou correndo à ilhota. Foi tão feroz sua investida por trás dos atacantes que Grimbold, homem de grande força e estatura, abriu caminho a golpes de espada, até que com dois outros alcançou Théodred, acuado no outeiro. Tarde demais. Quando chegou a seu lado, Théodred tombou, golpeado por um grande homem-orc. Grimbold matou-o e ficou de pé sobre o corpo de Théodred, crendo-o morto; e lá ele mesmo logo teria morrido, não fosse a vinda de Elfhelm.
Em obediência à convocação de Théodred, Elfhelm vinha apressado de Edoras pela estrada dos cavalos, liderando quatro companhias. E esperava uma batalha, porém só após alguns dias. Mas, perto da junção daquela estrada com outra que descia do Abismo, seus batedores do flanco direito relataram que haviam visto dois orcs montados em lobos à solta nos campos. Pressentindo que algo estava errado, não se desviou para o Abismo de Helm por aquela noite, como pretendia, mas cavalgou a toda velocidade a para os Vaus.
A estrada dos cavalos voltava-se para o noroeste depois de se encontrar com a estrada do Abismo, mas fazia outra curva fechada para o oeste quando atingia o nível dos Vaus, dos quais se aproximava em um trecho reto de cerca de duas milhas. Assim, Elfhelm nada ouviu nem viu das lutas entre a guarnição em retirada e os uruks ao sul dos Vaus. O sol havia descido e a luz era escassa quando se aproximou da última curva da estrada, e ali encontrou alguns cavalos correndo soltos e uns poucos fugitivos que lhe falaram do desastre. Apesar de ter agora homens e cavalos exaustos, cavalgou pela reta com a máxima velocidade possível e, ao chegar à vista da margem leste, ordenou a suas companhias que atacassem.
Foi a vez de as tropas de Isengard ficarem atônitas. Ouviram o trovejar dos cascos e viram, chegando como sombras negras diante do leste que escurecia, uma grande hoste (assim parecia) com Elfhelm à cabeça, e a seu lado um estandarte branco levado para guiar os que vinham atrás. Poucos aguentaram firmes. A maioria fugiu rumo ao norte, perseguida por duas das companhias de Elfhelm. As demais ele fez desmontar para guardarem a margem leste, mas imediatamente, com os homens de sua própria companhia, correu para a ilhota. Os homens armados com machados estavam agora apanhados entre os defensores sobreviventes e a investida de Elfhelm, com ambas as margens ainda mantidas pelos rohirrim. Continuaram lutando, mas antes do fim foram todos mortos. O próprio Elfhelm, no entanto, saltou sobre o outeiro; e lá encontrou Grimbold combatendo contra dois grandes homens com machados pela posse do corpo de Théodred. Um foi morto imediatamente por Elfhelm, e o outro tombou diante de Grimbold.
Pararam então para erguer o corpo, e descobriram que Théodred ainda respirava; mas só viveu o bastante para pronunciar suas últimas palavras: Deixem-me deitado aqui... para manter os Vaus até Éomer chegar! Caiu a noite. Soou uma trompa estridente, e depois tudo ficou em silêncio. O ataque na margem oeste cessou, e ali o inimigo dissolveu-se na escuridão. Os rohirrim dominavam os Vaus do Isen; mas suas perdas eram pesadas, mesmo as de cavalos. O filho do Rei estava morto, eles não tinham líder e não sabiam o que ainda poderia acontecer.
Quando, após uma noite fria e sem sono, voltou a luz cinzenta, não havia vestígio das tropas de Isengard, a não ser os muitos que haviam sido deixados mortos no campo. Lobos uivavam ao longe, esperando que os homens vivos partissem. Muitos homens dispersos pelo súbito ataque de Isengard começaram a voltar, alguns ainda montados, alguns conduzindo cavalos recapturados. Mais tarde naquela manhã, a maior parte dos Cavaleiros de Théodred que havia sido expulsa rumo ao sul, ao longo do rio, por um batalhão de uruks negros, voltou desgastada pelo combate, mas em boa ordem. Tinham uma história semelhante para contar. Haviam parado em uma colina baixa e se prepararam para defendê-la. Apesar de terem atraído para longe parte da força de ataque de Isengard, a retirada para o sul sem provisões era finalmente sem esperança. Os uruks haviam resistido a todas as tentativas de fuga para o leste, e os impeliam em direção da região, agora hostil, do “marco ocidental” da Terra Parda. Mas, quando os cavaleiros se preparavam para resistir a seu ataque, apesar de já ser noite alta, soou uma trompa; e logo descobriram que o inimigo se fora. Tinham muito poucos cavalos para tentar uma perseguição, ou mesmo para atuar como batedores, na medida em que isso lhes teria adiantado de noite. Após algum tempo começaram cautelosos a avançar outra vez rumo ao norte, mas não encontraram oposição. Pensavam que os uruks haviam voltado para reforçar a dominação dos Vaus, e lá esperavam travar combate outra vez. Grande foi seu espanto ao encontrar os rohirrim no comando. Foi só mais tarde que descobriram aonde haviam ido os uruks.
Assim terminou a Primeira Batalha dos Vaus do Isen. Da Segunda Batalha jamais foram feitos relatos tão claros, em virtude dos eventos muito mais importantes que se seguiram imediatamente. Erkenbrand do Folde Ocidental assumiu o comando da Fronteira Ocidental quando as notícias da morte de Théodred lhe chegaram no Forte da Trombeta no dia seguinte. Enviou mensageiros a Edoras para anunciar isso e para levar a Théoden as últimas palavras de seu filho, acrescentando seu próprio pedido de que Éomer fosse enviado de pronto com todo o auxílio de que pudesse dispor.
— Que a defesa de Edoras seja feita aqui no oeste — disse — e que não se espere até que ela mesma esteja sitiada.
— Mas Gríma usou o tom abrupto desse conselho para reforçar sua política de tardança. Foi só quando ele foi derrotado por Gandalf que se empreendeu qualquer ação. Os reforços, com Éomer e o próprio Rei, partiram na tarde de 2 de março, mas naquela noite a Segunda Batalha dos Vaus foi travada e perdida, e a invasão de Rohan começou.
Erkenbrand não seguiu ele mesmo de imediato para o campo de batalha. Tudo estava em confusão. Não sabia que tropas podia recrutar às pressas; nem podia ainda estimar as perdas que as tropas de Théodred efetivamente tinham sofrido. Julgou, com acerto, que a invasão era iminente, mas que Saruman não usaria passar para o leste para atacar Edoras enquanto o Forte Ha Trombeta permanecesse invicto, caso estivesse guarnecido e bem abastecido. Com esse assunto e a reunião do maior contingente possível de homens do Folde Ocidental, ocupou-se por três dias. Deu o comando em campo a Grimbold, até que ele mesmo pudesse ir; mas não assumiu comando sobre Elfhelm e seus Cavaleiros, que pertenciam à Tropa de Edoras. Os dois comandantes eram amigos, porém, e ambos homens leais sábios, não havendo dissensão entre eles. A organização de suas tropas era um acordo conciliatório entre suas opiniões divergentes. Elfhelm afirmava que os Vaus não eram mais importantes, mas sim uma armadilha para prender homens que em outro lugar estariam mais bem empregados, visto que Saruman evidentemente podia mandar tropas descerem por qualquer margem do Isen, conforme lhe conviesse; e seu propósito imediato seria sem dúvida devastar o Folde Ocidental e investir contra o Forte da Trombeta, antes que qualquer ajuda efetiva pudesse chegar de Edoras. Seu exército, ou a maior parte dele, desceria portanto pela margem leste do Isen; pois, embora daquele lado, por terreno mais acidentado e sem estradas, sua aproximação fosse mais lenta, não teriam de forçar a travessia dos Vaus. Elfhelm recomendou, portanto, que os Vaus fossem abandonados; que todos os homens de infantaria disponíveis fossem reunidos na margem leste e dispostos em posição adequada para deter o avanço do inimigo: uma longa linha de terreno em aclive que corria do oeste para o leste algumas milhas ao norte dos Vaus; mas que a cavalaria se retirasse rumo ao leste, até um ponto de onde, quando o inimigo em avanço estivesse em combate com a defesa, uma investida com o maior impacto pudesse ser efetuada contra seu flanco e os impelisse para dentro do rio.
— Que o Isen seja a armadilha para eles e não para nós! Grimbold, por outro lado, não desejava abandonar os Vaus. Isso se devia em parte à tradição do Folde Ocidental, na qual ele e Erkenbrand haviam sido criados; mas não era totalmente sem razão.
 — Não sabemos — disse — que tropa Saruman ainda tem sob seu comando. Mas se de fato seu propósito for assolar o Folde Ocidental, expulsar seus defensores para o Abismo de Helm e contê-los lá, então ela deve ser muito grande. É improvável que ele a exiba toda de uma vez. Assim que adivinhe ou descubra como dispusemos nossa defesa, certamente enviará grande força a toda a pressa pela estrada de Isengard e, atravessando os Vaus indefesos, nos atacará pelas costas, se estivermos todos reunidos no norte.
Por fim, Grimbold guarneceu a extremidade oeste dos Vaus com a maior parte de seus soldados de infantaria; ali estavam em posição vantajosa nos fortes de terra que guardavam os acessos. Ele permaneceu com o restante de seus homens, incluindo o que lhe restava da cavalaria de Théodred, na margem leste. Deixou a ilhota desguarnecida.
Elfhelm, porém, retirou seus Cavaleiros e assumiu posição na linha onde desejara dispor a defesa principal; seu propósito era divisar o mais depressa possível qualquer ataque que descesse ao leste do rio, e dispersá-lo antes que pudesse alcançar os Vaus. Tudo transcorreu mal, como era muito provável que tivesse transcorrido de qualquer maneira: a força de Saruman era demasiadamente grande. Iniciou seu ataque durante o dia, e antes do meio-dia de 2 de março uma forte tropa de seus melhores combatentes, descendo a Estrada de Isengard, atacou os fortes a oeste dos Vaus. Essa tropa era na verdade apenas uma pequena parte daquilo de que dispunha, não mais do que julgava suficiente para dar cabo da defesa debilitada. Mas a guarnição dos Vaus, embora em número muito menor, resistiu com obstinação. Por fim, porém, quando ambos os fortes estavam em franco combate, uma tropa de uruks forçou passagem entre eles e começou a atravessar os Vaus. Grimbold, confiando em que Elfhelm deteria o ataque do lado leste, cruzou com todos os homens que lhe restavam e os rechaçou — por algum tempo. Mas então o comandante inimigo lançou mão de um batalhão que não estivera comprometido e rompeu as defesas. Grimbold foi obrigado a se retirar para o lado oposto do Isen. Já era quase a hora do pôr-do-sol. Ele sofrera grandes perdas, mas infligira perdas muito mais pesadas ao inimigo (principalmente orcs), e ainda dominava a margem leste. O inimigo não tentou atravessar os Vaus e subir combatendo as encostas íngremes para deslocá-lo; ainda não.
Elfhelm não conseguira participar nessa ação. No crepúsculo retirou suas companhias e retrocedeu até o acampamento de Grimbold, dispondo seus homens em grupos a alguma distância, para agirem como anteparo contra ataques do norte e do leste. Pelo sul não temiam mal nenhum, e esperavam por auxílio. Depois da retirada pelos Vaus, imediatamente haviam sido despachados mensageiros para Erkenbrand e para Edoras, com notícias de seus apuros. Temendo, em verdade sabendo, que um mal maior os acometeria dentro em breve, a não ser que logo os alcançasse um auxílio do que já não tinham esperança, os defensores prepararam-se para fazer o possível para deter o avanço de Saruman antes de serem esmagados. A maior parte ficou de prontidão, e apenas alguns de cada vez tentavam repousar brevemente e dormir o quanto pudessem. Grimbold e Elfhelm estavam insones, aguardando a aurora e temendo o que ela haveria de trazer. Não tiveram de esperar tanto. Ainda não era meia-noite quando pontos de luz vermelha foram vistos, chegando do norte e já se aproximando pelo oeste do rio. Era a vanguarda de todas as tropas restantes de Saruman, que ele agora lançava na batalha para a conquista do Folde Ocidental. Vinham a grande velocidade, e de repente pareceu que toda a hoste irrompeu em chamas. Centenas de tochas foram acesas com aquelas levadas pelos líderes das tropas, e, reunindo ao seu fluxo as forças que já guarneciam a margem oeste, precipitaram-se por sobre os Vaus como um rio de fogo, com grande clamor de ódio. Uma grande companhia de arqueiros poderia tê-los feito arrepender-se da luz de suas tochas, mas Grimbold tinha apenas um punhado de arqueiros. Não conseguiria manter a margem leste, e retirou-se dela, formando uma grande muralha de escudos em torno de seu acampamento. Logo este estava cercado, e os atacantes jogavam tochas entre eles, e lançavam algumas por sobre o topo da muralha de escudos, esperando atear fogo entre as provisões e aterrorizar os cavalos que Grimbold ainda possuía. Mas a muralha de escudos aguentava. Então, visto que os orcs eram de menor valia em tais combates por causa de sua estatura, ferozes companhias dos homens terrapardenses das colinas foram arremessadas contra ela. No entanto, apesar de todo o seu ódio os terrapardenses ainda temiam os rohirrim quando os encontravam face a face, além de serem menos hábeis no combate e menos bem armados. A muralha de escudos ainda aguentava.
Grimbold em vão esperou que viesse auxílio de Elfhelm. Não veio nenhum. Então por fim resolveu realizar, se pudesse, o plano que já fizera para o caso de se encontrar em tal situação desesperadora. Finalmente reconhecera a sabedoria de Elfhelm, e compreendeu que, por muito que seus homens lutassem até estarem todos mortos, e isso fariam se ele ordenasse, um tal valor não ajudaria Erkenbrand: cada homem que conseguisse escapar e fugir para o sul seria mais útil, embora pudesse parecer inglório.
A noite fora encoberta e escura, mas agora a lua crescente começava a luzir através das nuvens em movimento. Vinha um vento do leste: o precursor da grande tempestade que, chegado o dia, passaria por cima de Rohan e romperia sobre o Abismo de Helm na noite seguinte. Grimbold deu-se conta de repente de que a maioria das tochas havia sido apagada e a fúria do ataque se extinguira. Portanto fez montar imediatamente os cavaleiros para os quais havia montarias disponíveis, não muito mais que meio éored, e os pôs sob o comando de Dúnhere. A muralha de escudos foi aberta do lado leste e os Cavaleiros passaram, rechaçando seus atacantes daquele lado; depois, dividindo-se e dando a volta, investiram contra o inimigo ao norte e ao sul do acampamento. A súbita manobra teve êxito durante algum tempo. O inimigo ficou confuso e atônito; muitos pensaram inicialmente que viera uma grande tropa de Cavaleiros do leste. O próprio Grimbold permaneceu a pé, com uma retaguarda de homens seletos, já escolhidos, e, cobertos naquele momento por eles e pelos Cavaleiros sob o comando de Dúnhere, os remanescentes recuaram o mais depressa que puderam. Mas o comandante de Saruman logo percebeu que a muralha de escudos estava rompida e os defensores estavam em fuga.
Felizmente a lua foi encoberta por nuvens, deixando tudo escuro mais uma vez, e ele se apressou. Não permitiu que suas tropas prolongassem a perseguição dos fugitivos muito longe na escuridão, agora que os Vaus haviam sido capturados. Reuniu suas forças da melhor maneira que pôde e se dirigiu à estrada rumo ao sul. Foi assim que sobreviveu a maior parte dos homens de Grimbold. Foram dispersos na noite, mas, conforme ele ordenara, seguiram seus caminhos longe da Estrada, a leste da grande curva onde ela se voltava para o oeste, em direção ao Isen. Ficaram aliviados, mas espantados, de não encontrar inimigos, sem saber que um grande exército já havia algumas horas passara rumo ao sul, e que Isengard estava agora protegida por pouco mais do que seus próprios reforços de muralha e portão.
Foi por essa razão que não viera ajuda de Elfhelm. Mais da metade das tropas de Saruman fora na verdade enviada para o leste do Isen. Chegaram mais devagar que a divisão ocidental, pois o terreno era mais acidentado e desprovido de estradas; e não levavam luzes. Mas diante deles, velozes e silenciosos, iam vários grupos dos temidos orcs montados em lobos. Antes que Elfhelm tivesse qualquer aviso da aproximação dos inimigos pelo seu lado do rio, os orcs montados em lobos estavam entre ele e o acampamento de Grimbold; e também tentavam cercar cada um dos seus pequenos grupos de cavaleiros. Estava escuro, e toda a sua tropa estava desorganizada. Reuniu todos os que pôde em um grupo compacto de cavaleiros, mas foi obrigado a recuar para o leste. Não podia alcançar Grimbold, apesar de saber que este estava em apuros e estivera prestes a vir em sua ajuda quando fora atacado pelos orcs montados em lobos. Mas também teve a impressão correta de que os orcs montados em lobos eram apenas os precursores de uma força numerosa demais para ser enfrentada, que se dirigiria para a estrada rumo ao sul. A noite estava terminando; só lhe restava aguardar a aurora. O que se seguiu está menos claro, pois apenas Gandalf tinha pleno conhecimento a esse respeito. Recebeu notícias do desastre somente no final da tarde de 3 de março. O Rei estava então em um ponto não longe a leste do entroncamento da Estrada com o ramal que ia para o Forte da Trombeta. De lá, eram cerca de noventa milhas em linha reta até Isengard; e Gandalf deve ter cavalgado até lá à maior velocidade de que Scadufax era capaz. Alcançou Isengard quando começava a escurecer, e partiu de novo não mais de vinte minutos depois. Tanto na viagem de ida, quando sua rota direta o faria passar perto dos Vaus, quanto na volta para o sul ao encontro de Erkenbrand, deve ter encontrado Grimbold e Elfhelm. Estavam convencidos de que ele agia em nome do Rei, não somente pela sua aparição montado em Scadufax, mas também porque conhecia o nome do mensageiro, Ceorl, e a mensagem que ele levara; e aceitaram como ordens o conselho que deu. Mandou os homens de Grimbold para o sul para se unirem a Erkenbrand [...]

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