12 de junho de 2016

Capítulo IV - A história de Galadriel e Celeborn e de Amroth, Rei de Lórien

Não há nenhuma parte da história da Terra Média mais repleta de problemas que a história de Galadriel e Celeborn, e deve-se admitir que há graves inconsistências “embutidas nas tradições”; ou, olhando o assunto de outro ponto de vista, que o papel e a importância de Galadriel emergiram apenas lentamente, e que sua história sofreu contínuas readaptações.
Assim, de início, é certo que a concepção mais antiga era que Galadriel atravessou sozinha as montanhas desde Beleriand para o leste, antes do fim da Primeira Era, e encontrou Celeborn em sua própria terra de Lórien. Isso está explicitamente afirmado em escritos inéditos, e a mesma ideia forma a base das palavras de Galadriel a Frodo, em A Sociedade do Anel. II, VII, onde ela diz de Celeborn que “Ele mora no Oeste desde os dias da aurora, e eu moro com ele há anos sem conta; pois, antes da queda de Nargothrond ou Gondolin, atravessei as montanhas, e juntos, através de eras do mundo, combatemos a longa derrota”. É muito provável que Celeborn nessa concepção fosse um elfo nan-dorin (isto é, um dos teleri que se recusaram a atravessar as Montanhas da Névoa na Grande Viagem a partir de Cuiviénen).
Por outro lado, no Apêndice B do Senhor dos Anéis, aparece uma versão posterior da história; pois lá se afirma que no início da Segunda Era “Em Lindon, ao sul de Lûn, Morou or um tempo Celeborn, parente de Thingol; sua mulher era Galadriel, a maior das mulheres élficas”. E nas notas de The Road Goes Ever On (1968, p. 60) está dito que Galadriel “passou sobre as Montanhas de Eredluin com seu esposo Celeborn (um dos sindar) e foi para Eregion”.
No Silmarillion há uma menção do encontro de Galadriel e Celeborn em Doriath, e do parentesco dele com Thingol; bem como do fato de que pertenciam àqueles eldar que permaneceram na Terra Média após o fim da Primeira Era.
As razões e os motivos dados para Galadriel permanecer na Terra Média são vários. O trecho que foi acabado de citar, de The Road Goes Ever On, diz explicitamente: “Após a derrota de Morgoth ao fim da Primeira Era, uma interdição fora imposta ao retorno dela, e ela replicara altivamente que não desejava retornar”. Não há afirmativa tão explícita no Senhor dos Anéis; mas em uma carta escrita em 1967 meu pai declarou:

Aos Exilados foi permitido retornar, à exceção de alguns protagonistas da rebelião, dos quais apenas Galadriel restava ao tempo do Senhor dos Anéis. À época do seu Lamento em Lórien, ela acreditava que isso seria perene, enquanto durasse a Terra. Por isso, conclui seu lamento com o desejo, ou súplica, de que a Frodo possa ser concedida, por graça especial, uma permanência purgatorial (mas não penal) em Eressea, a ilha solitária à vista de Aman, embora o caminho esteja fechado para ela. Sua súplica foi atendida — mas também foi anulada sua interdição pessoal, como recompensa por seus serviços contra Sauron, e acima de tudo por ela ter rejeitado a tentação de tomar o Anel quando este lhe foi oferecido. Assim, ao final, vemo-la embarcar.

Esta afirmativa, no entanto, muito positiva em si mesma, não demonstra que a concepção de uma interdição ao retorno de Galadriel para o Oeste estivesse presente quando o capítulo “Adeus a Lórien” foi composto, muitos anos antes, e inclino-me a pensar que não estava.
Em um ensaio muito tardio e essencialmente filológico, escrito sem dúvida depois da publicação de The Road Goes Ever On, a história é distintamente diversa:

Galadriel e seu irmão Finrod eram filhos de Finarfin, segundo filho de Indis. Finarfin era semelhante à sua mãe em mente e corpo e possuía o cabelo dourado dos vanyar, seu temperamento nobre e gentil e seu amor pelos Valar. Mantinha-se tanto quanto podia afastado da contenda de seus irmãos e de sua alienação dos Valar, e muitas vezes buscou a paz entre os teleri, cuja língua aprendera. Casou-se com Earwen, filha do Rei Olwe de Alqualonde, e assim seus filhos eram aparentados com o Rei Elu Thingol de Doriath em Beleriand, pois este era irmão de Olwe, E esse parentesco influenciou sua decisão de participarem do Exílio, e mais tarde em Beleriand demonstrou ser de grande importância.
Finrod saíra ao pai no belo rosto e cabelos dourados, bem como no coração nobre e generoso, apesar de apresentar a extrema coragem dos noldor e, na juventude, sua impaciência e inquietação; e de sua mãe telerin herdara também o amor pelo mar e sonhos com terras longínquas que jamais vira. Galadriel era a maior dos noldor, a não ser talvez por Fêanor, se bem que fosse mais sábia que ele, e sua sabedoria aumentava com os longos anos.
Seu nome materno era Nerwen (“donzela-homem”), e ela atingiu uma altura além da medida até mesmo das mulheres dos noldor; era forte de corpo, mente e vontade, rivalizando tanto com os sábios quanto com os atletas dos eldar nos dias da juventude destes. Era considerada bela mesmo entre os eldar, e seu cabelo era tido como maravilha sem par. Era dourado como o cabelo de seu pai e de sua ancestral Indis, porém mais rico e mais radiante, pois seu ouro continha alguma lembrança da prata estelar de sua mãe; e os eldar diziam que a luz das Duas Árvores, Laurelin e Telperion, havia sido apanhada em seus cachos. Muitos pensavam que foi essa expressão que deu primeiro a Fêanor a ideia de aprisionar e misturar a luz das Árvores que mais tarde tomou forma em suas mãos como as Silmarils. Pois Fêanor contemplava o cabelo de Galadriel com maravilha e deleite.
Três vezes implorou por um cacho, mas Galadriel não lhe deu nem mesmo um fio de cabelo. Esses dois parentes, os maiores dentre os eldar de Valinor, ficaram sendo inimigos para sempre. Galadriel nasceu na bem-aventurança de Valinor, mas não passou muito tempo, pela contagem do Reino Abençoado, até que esta minguasse; e daquele ponto em diante ela não teve paz interior. Pois naqueles tempos difíceis, em meio à contenda dos noldor, ela era arrastada de um lado para o outro. Era orgulhosa, forte e voluntariosa, assim como todos os descendentes de Finwe, salvo Finarfin; e como seu irmão Finrod, o mais próximo ao seu coração de toda a família, tinha sonhos de terras longínquas e domínios que poderiam lhe pertencer, para governá-los como quisesse, sem tutela. Porém ainda mais fundo habitava nela o nobre e generoso espírito dos vanyar, bem como uma reverência pelos Valar que não podia esquecer. Desde os primeiros anos, tinha um maravilhoso dom de penetrar na mente alheia, mas julgava os outros com compaixão e compreensão, e a ninguém negava sua boa vontade, à única exceção de Fêanor. Nele, ela percebia uma escuridão que odiava e temia, embora não desse conta de que a sombra do mesmo mal recaíra sobre a mente de todos os noldor, e sobre a sua própria. Assim aconteceu que, quando se desvaneceu a luz de Valinor, para sempre, como pensavam os noldor, ela se uniu à rebelião contra os Valar que os mandavam ficar. E, uma vez que pôs os pés nesse caminho, não quis voltar atrás e rejeitou a última mensagem dos Valar, incorrendo, assim, na Condenação de Mandos. Mesmo após o implacável ataque aos teleri e o rapto de seus navios, apesar de ter lutado ferozmente contra Fêanor em defesa da família de sua mãe, ela não recuou. Seu orgulho recusava-se a permitir que retornasse derrotada, suplicante por perdão. Agora, porém, ela ardia com o desejo de seguir Fêanor, irada, a quaisquer terras às quais ele chegasse e de frustrá-lo de todas as maneiras que pudesse. O orgulho ainda a movia quando, ao final dos Dias Antigos, após a derrocada final de Morgoth, ela recusou o perdão dos Valar para todos os que o haviam combatido, e permaneceu na Terra Média. Somente depois de se passarem mais duas longas eras, quando finalmente tudo o que desejara na juventude lhe chegou às mãos, o Anel do Poder e o domínio da Terra Média com o qual sonhara, foi que sua sabedoria se tornou plena e ela tudo rejeitou. E, ao passar por esse último teste, partiu para sempre da Terra Média.

Esta última frase está intimamente relacionada com a cena em Lothlórien em que Frodo ofereceu o Um Anel a Galadriel (A Sociedade do Anel, II, VII): “E agora finalmente ele chega. Você me oferece o Anel livremente! No lugar do Senhor do Escuro, você coloca uma Rainha”.
No Silmarillion conta-se que, à época da rebelião dos noldor em Valinor, Galadriel

estava ansiosa por partir. Não fez nenhum juramento, mas as palavras de Fêanor acerca da Terra Média haviam reverberado em seu coração, pois ela ansiava por ver os vastos territórios desprotegidos e estabelecer ali um reino a seu gosto.

Existem, porém, no presente relato, vários traços dos quais não há vestígio no Silmarillion: o parentesco dos filhos de Finarfin com Thingol como fator que influenciou sua decisão de se unirem à rebelião de Fêanor; a peculiar ojeriza e desconfiança de Galadriel por Fêanor desde o começo, e o efeito que Galadriel exercia sobre ele; e a luta em Alqualonde entre os próprios noldor. Angrod garantiu a Thingol em Menegroth apenas que a família de Finarfin era inocente da matança dos teleri (O Silmarillion, p. 158). No entanto, o que é mais notável no trecho recém-citado é a afirmativa explícita de que Galadriel recusou o perdão dos Valar ao final da Primeira Era.
Mais adiante nesse ensaio diz-se que, embora fosse chamada Nerwen pela mãe e Artanis (“mulher nobre”) pelo pai, o nome que escolheu como seu próprio nome em sindarin foi Galadriel, “pois era o mais belo de seus nomes, e lhe fora dado pelo seu amor, Teleporno dos teleri, com quem mais tarde se casou em Beleriand”. Teleporno é Celeborn, que aqui recebe uma história diferente, conforme se discute abaixo; sobre o nome propriamente dito, vide o Apêndice E.

Uma história totalmente diferente, esboçada mas nunca desenvolvida, sobre a conduta de Galadriel à época da rebelião dos noldor aparece em uma nota muito tardia e parcialmente ilegível: o último escrito de meu pai sobre o tema de Galadriel e Celeborn, e provavelmente o último sobre a Terra Média e Valinor, redigido no seu último mês de vida. Ali ele salientava a estatura imponente que Galadriel já tinha em Valinor, equivalente à de Feanor, se bem que diversa em dons; e ali está dito que, longe de se unir à revolta de Fêanor, ela se opôs a ele de todas as maneiras. Na verdade desejava partir de Valinor e ir ao amplo mundo da Terra Média para exercer seus talentos, pois “como era brilhante na mente e veloz na ação. cedo absorvera tudo o que fora capaz dos ensinamentos que os Valar julgavam conveniente transmitir aos eldar”, e sentia-se confinada na tutela de Aman. Esse desejo de Galadriel era, ao que parece, do conhecimento de Manwe, e ele não lhe proibira nada, mas ela também não recebera permissão formal para partir. Ponderando o que poderia fazer, os pensamentos de Galadriel voltaram-se para os navios dos teleri, e por algum tempo ela foi morar com a família de sua mãe em Alqualonde. Lá encontrou Celeborn, que aqui é novamente um príncipe telerin, neto de Olwe de Alqualonde e portanto parente próximo dela. Juntos planejaram construir um navio e nele navegar até a Terra Média. Estavam a ponto de pedir permissão aos Valar para sua aventura quando Melkor fugiu de Valmar e, voltando com Ungoliant. destruiu a luz das Árvores. Na revolta de Fêanor, que se seguiu ao Ocaso de Valinor, Galadriel não tomou parte: na realidade ela e Celeborn lutaram heroicamente em defesa de Alqualonde contra o ataque dos noldor, e o navio de Celeborn foi salvo deles. Galadriel, agora desesperançada de Valinor e horrorizada com a violência e a crueldade de Fêanor, velejou pelas trevas sem esperar pela permissão de Manwe, que naquela hora sem dúvida lhe teria sido negada, por muito que seu desejo fosse legítimo em si. Dessa forma foi incluída na interdição de todas as partidas, e Valinor fechou-se ao seu retorno. Mas, na companhia de Celeborn, ela chegou à Terra Média um pouco antes que Fêanor e navegou para o porto cujo senhor era Círdan. Lá foram recebidos com alegria, visto que eram da família de Elwe (Thingol). Nos anos seguintes, não se juntaram à guerra contra Angband, que julgavam sem esperanças sob a interdição dos Valar e sem auxílio deles. E seu conselho era retirar-se de Beleriand e construir um poderio a leste (de onde temiam que Morgoth buscaria reforços), amparando e ensinando os elfos escuros e os homens daquelas regiões. Mas, como tal política não tinha chance de ser aceita pelos elfos de Beleriand, Galadriel e Celeborn partiram para transpor Ered Lindon antes do fim da Primeira Era. E, quando receberam a permissão dos Valar para retornar ao Oeste, eles a rejeitaram.
Essa história, que exclui Galadriel de qualquer associação com a rebelião de Feanor, mesmo a ponto de lhe conceder uma partida em separado (com Celeborn) de Aman, diverge profundamente de tudo o que se diz em outros lugares. Ela decorreu de considerações “filosóficas” (e não “históricas”), por um lado acerca da precisa natureza da desobediência de Galadriel em Valinor, e por outro acerca de sua condição e seu poder na Terra Média. É evidente que isso teria implicado inúmeras alterações na narrativa do Silmarillion, mas meu pai sem dúvida pretendia realizá-las. Pode-se notar aqui que Galadriel não aparecia na história original da rebelião e fuga dos noldor, que existia muito antes dela; e também, naturalmente, que após sua aparição nas histórias da Primeira Era seus atos ainda poderiam sofrer transformações radicais, visto que O Silmarillion não fora publicado. O livro tal como se publicou foi, no entanto, formado a partir de narrativas terminadas, e eu não podia levar em conta revisões meramente projetadas.
Por outro lado, a transformação de Celeborn em um elfo telerin de Aman contradiz não apenas afirmativas feitas no Silmarillion, mas também aquelas já mencionadas de The Road Goes Ever On e do Apêndice B do Senhor dos Anéis, pelos quais Celeborn é um elfo sindarin de Beleriand. Quanto à pergunta sobre o motivo pelo qual deveria ser feita essa alteração fundamental na história de Celeborn, poder-se-ia responder que ela resultou do novo elemento narrativo da partida de Galadriel de Aman separadamente das hostes dos noldor rebeldes; mas Celeborn já está transformado em elfo telerin no texto, em que Galadriel tomou parte na revolta de Fêanor e em sua marcha desde Valinor, e onde não há indicação de como Celeborn chegou ã Terra Média.
A história anterior (à parte da questão da interdição e do perdão), à qual se referem as afirmativas no Silmarillion, em The Road Goes Ever On e no Apêndice B do Senhor dos Anéis, é bastante clara: Galadriel, chegando à Terra Média como um dos líderes da segunda hoste dos noldor, encontrou Celeborn em Doriath, e mais tarde casou-se com ele. Ele era neto de Elmo, irmão de Thingol — uma figura obscura sobre a qual nada se diz, exceto que era o irmão mais novo de Elwe (Thingol) e Olwe, e era “amado por Elwe, com quem permaneceu. (O filho de Elmo chamava-se Galadhon, e seus filhos eram Celeborn e Galathil. Galathil era pai de Nimloth, que se casou com Dior, Herdeiro de Thingol, e era mãe de Elwing. De acordo com essa genealogia, Celeborn era parente de Galadriel, neta de Olwê de Alqualonde, porém não tão próximo quanto na genealogia em que se tornou neto de Olwê.) É uma presunção natural que Celeborn e Galadriel estivessem presentes na ruína de Doriath (diz-se em um lugar que Celeborn “escapou do saque de Doriath”), e talvez tenham ajudado Elwing a escapar para os Portos do Sirion com a Silmaril — mas em nenhum lugar isso está afirmado. Celeborn é mencionado no Apêndice B do Senhor dos Anéis como tendo habitado por algum tempo em Lindon ao sul do Lûn; mas no início da Segunda Era eles transpuseram as montanhas para entrar em Eriador. Sua história subsequente, na mesma fase (por assim dizer) da escrita de meu pai, está contada na breve narrativa que se segue.


Acerca de Galadriel e Celeborn

O texto que leva esse título é um esboço curto e apressado, composto de forma muito tosca, mas que ainda assim é praticamente a única fonte narrativa para os eventos no oeste da Terra Média até a derrota e expulsão de Sauron de Eriador, no ano de 1701 da Segunda Era. Afora esse texto, pouco existe além dos registros, breves e infrequentes, no Conto dos Anos, e do relato muito mais generalizado e seletivo em Dos Anéis de Poder e da Terceira Era (publicado no Silmarillion). É certo que o texto presente foi composto após a publicação do Senhor dos Anéis, tanto por existir uma referência ao livro quanto pelo fato de Galadriel ser chamada de filha de Finarfin e irmã de Finrod Felagund (pois esses são os nomes posteriores desses príncipes, introduzidos na edição revisada). O texto está muito emendado, e nem sempre é possível ver o que pertence à época da composição do manuscrito e o que é indefinidamente posterior. É esse o caso daquelas referências a Amroth que fazem dele o filho de Galadriel e Celeborn. No entanto, não importa quando essas referências tenham sido inseridas, creio ser praticamente certo que essa era uma criação nova, posterior à redação do Senhor dos Anéis. Se ele tivesse constado como filho deles quando esse livro foi escrito, com certeza o fato teria sido mencionado. É extremamente notável que não somente esse texto deixa de mencionar uma interdição sobre o retorno de Galadriel ao Oeste, mas um trecho no início do relato até mesmo faz crer que nenhuma ideia semelhante estava presente; ao passo que, mais adiante na narrativa, o fato de Galadriel permanecer na Terra Média após a derrota de Sauron em Eriador é atribuído ao seu julgamento de ser seu dever não partir enquanto ele ainda não estivesse derrotado de forma definitiva. Este é um importante sustentáculo da (hesitante) opinião expressa acima de que a história da interdição era posterior à redação do Senhor dos Anéis; cf. também um trecho da história da Elessar.
O que se segue aqui é recontado a partir desse texto, com alguns comentários intercalados indicados por colchetes. Galadriel era a filha de Finarfin e irmã de Finrod Felagund. Era bem-vinda em Doriath porque sua mãe Earwen, filha de Olwe, era telerin e sobrinha de Thingol, e porque o povo de Finarfin não participara do Fratricídio de Alqualonde; e ela tornou-se amiga de Melian. Em Doriath conheceu Celeborn, neto de Elmo irmão de Thingol. Por amor a Celeborn, que não desejava abandonar a Terra Média (e provavelmente com algum orgulho próprio seu, pois ela estivera entre os que ansiavam por viver aventuras lá), ela não foi para o Oeste por ocasião da Queda de Melkor, mas atravessou Ered Lindon com Celeborn e chegou a Eriador. Quando entraram naquela região, havia muitos noldor em seu séquito, além de elfos cinzentos e elfos verdes; e por algum tempo habitaram na região em volta do Lago Nenuial (Vesperturvo. ao norte do Condado).
Celeborn e Galadriel chegaram a ser considerados Senhor e Senhora dos Eldar em Eriador, aí incluídos os grupos errantes de origem nandorin que nunca haviam passado para o oeste por sobre Ered Lindon para chegar a Ossiriand [vide O Silmarillion, p. 110]. Durante o tempo em que moraram perto de Nenuial, em algum momento entre os anos de 350 e 400, nasceu seu filho Amroth. [A época e o lugar do nascimento de Celebrían, seja ali, mais tarde em Eregion, seja ainda mais tarde em Lórien, não são definidos.]
Mas com o tempo Galadriel deu-se conta de que Sauron fora outra vez deixado para trás, tal como nos antigos dias do cativeiro de Melkor [vide O Silmarillion, p. 51]. Ou melhor, visto que Sauron ainda não tinha um nome único, e não se percebera que suas operações procediam de um único espírito malévolo, servo principal de Melkor, ela notou que havia um maligno propósito controlador à solta no mundo, e que parecia provir de uma fonte mais a leste, além de Eriador e das Montanhas da Névoa.
Portanto Celeborn e Galadriel foram para o leste, cerca do ano de 700 da Segunda Era, e estabeleceram o reino de Eregion de natureza primordialmente mas não exclusivamente noldorin. Pode ser que Galadriel o tenha escolhido por ter conhecimento dos anões de Khazad-dûm (Moria). Havia, e sempre ali permaneceram, alguns anões do lado oriental de Ered Lindon, onde outrora se encontravam as antiquíssimas mansões de Nogrod e Belegost — não longe de Nenuial; mas eles haviam transferido a maior parte de suas forças para Khazad-dúm. Celeborn não tinha simpatia pelos anões de qualquer raça (como mostrou a Gimli em Lothlórien), e nunca lhes perdoou seu papel na destruição de Doriath; mas foi apenas a hoste de Nogrod que tomou parte naquele ataque, e ela foi destruída na batalha de Sam Athrad [O Silmarillion, pp. 299-300]. Os anões de Belegost encheram-se de consternação com a calamidade e temor por seu desfecho, e isso apressou sua partida para o leste, para Khazad-dûm. Assim pode-se presumir que os anões de Moria fossem inocentes da ruína de Doriath e não hostis aos elfos. De qualquer maneira. Galadriel tinha nesse ponto mais perspicácia que Celeborn; e ela percebeu desde logo que a Terra Média não podia ser salva do “resíduo do mal” que Morgoth deixara para trás, a não ser por uma união de todos os povos que à sua maneira e em sua medida se opunham a ele. Também enxergava os anões com olhos de comandante, vendo neles os melhores guerreiros para serem enviados contra os orcs. Ademais, Galadriel era uma noldo, e tinha uma natural afinidade com suas mentes e seu amor apaixonado pelos trabalhos das mãos, afinidade muito maior que a encontrada entre muitos eldar: os anões eram “os Filhos de Aule”, e Galadriel, como outros dentre os noldor, fora pupila de Aule e Yavanna em Valinor. Galadriel e Celeborn tinham em sua companhia um artesão noldorin chamado Celebrimbor. [Aqui se diz que ele era um dos sobreviventes de Gondolin, que estivera entre os maiores artífices de Turgon; mas o texto foi emendado para adequar-se à história posterior que fazia dele um descendente de Fêanor, como está mencionado no Apêndice B do Senhor dos Anéis (somente na edição revisada), e detalhado mais plenamente no Silmarillion (pp. 222. 365), onde se diz que ele era o filho de Curufin, quinto filho de Fêanor, que se apartou do pai e permaneceu em Nargothrond quando Celegorm e Curufin foram expulsos.] Celebrimbor tinha “uma obsessão quase 'de anão' pelos ofícios”, e logo tornou-se artífice-mor de Eregion, passando a relacionar-se de perto com os anões de Khazad-dûm, entre os quais seu maior amigo era Narvi. [Na inscrição da Porta Oeste de Moria, Gandalf leu as palavras: Im Narvi hain echant: Celebrimbor o Eregion teihant i thiw him “Eu, Narvi, as fiz. Celebrimbor de Azevim desenhou estes sinais”. A Sociedade do Anel, II, IV.] Tanto os elfos quanto os anões ganharam muito com essa associação: dessa forma Eregion tornou-se muito mais forte, e Khazad-dûm, muito mais bela do que qualquer das duas teria sido sozinha. [Este relato sobre a origem de Eregion concorda com o que se conta em Dos Anéis de Poder (O Silmarillion, pp. 364-5), mas nem aí, nem nas breves referências no Apêndice B do Senhor dos Anéis, há nenhuma menção da presença de Galadriel e Celeborn. De fato, nesta última obra (novamente, apenas na edição revisada) Celebrimbor é chamado de Senhor de Eregion.] A construção da principal cidade de Eregion, Ost-in-Edhil, foi iniciada por volta do ano de 750 da Segunda Era [a data indicada no Conto dos Anos para a fundação de Eregion pelos noldor]. Notícias desses fatos chegaram aos ouvidos de Sauron e aumentaram seu temor acerca da chegada dos númenorianos a Lindon e às costas mais ao sul, bem como de sua amizade com Gil-galad. E ele também ouviu falar de Aldarion, filho de Tar-Meneldur, Rei de Númenor, que agora se tornara um grande armador e aportava suas embarcações bem longe no Harad. Portanto Sauron deixou Eriador em paz por algum tempo, e escolheu a terra de Mordor, como mais tarde se chamou, como fortaleza para se opor à ameaça dos desembarques númenorianos [isso está datado c. 1000 no Conto dos Anos]. Quando se sentiu seguro, enviou emissários a Eriador, e finalmente, por volta do ano de 1200 da Segunda Era, foi para lá ele mesmo, envergando a forma mais bela que pôde inventar.
Nesse meio tempo, entretanto, o poder de Galadriel e Celeborn havia crescido, e Galadriel, auxiliada nisso por sua amizade com os anões de Moria, entrara em contato com o reino nandorin de Lórinand, do outro lado das Montanhas da Névoa'. Ele era povoado por aqueles elfos que renunciaram à Grande Viagem dos eldar desde Cuiviénen e se estabeleceram nas florestas do Vale do Anduin [O Silmarillion, p. 109]; e se estendia às florestas de ambos os lados do Grande Rio, incluindo a região onde mais tarde foi Dol Guldur. Esses elfos não tinham príncipes ou governantes, e levavam suas vidas livres de preocupação, enquanto todo o poder de Morgoth se concentrava no noroeste de Terramédia; “mas muitos sindar e noldor vieram morar com eles, e começou sua 'sindarinizaçâo' sob o impacto da cultura beleriândica”. [Não fica claro quando ocorreu este movimento para Lórinand; pode ser que viessem de Eregion através de Khazad-dûm e sob os auspícios de Galadriel.] Galadriel, nos esforços para neutralizar as maquinações de Sauron, teve sucesso em Lórinand; enquanto isso, em Lindon, Gil-galad expulsou os emissários de Sauron e até mesmo o próprio Sauron [como se relata mais plenamente em Dos Anéis de Poderio Silmarillion, p. 365)]. Mas Sauron teve mais sorte com os noldor de Eregion, em especial com Celebrimbor, que em seu coração desejava se equiparar à habilidade e à fama de Fêanor. [A forma pela qual Sauron logrou os artífices de Eregion, e o nome de Annatar, Senhor dos Presentes, que assumiu, estão relatados em Dos Anéis de Poder, mas lá não há menção a Galadriel.]
Em Eregion, Sauron fez-se passar por emissário dos Valar, enviado por eles à Terra Média (“adiantando-se assim aos Istari”) ou mandado por eles para lá permanecer e auxiliar os elfos. Percebeu imediatamente que Galadriel seria sua principal adversária e obstáculo e, portanto, esforçou-se por aplacá-la, suportando o desprezo dela com aparente paciência e cortesia. [Neste rápido esboço não se dá explicação do motivo por que Galadriel desprezava Sauron, a não ser que conseguisse enxergar por trás de seu disfarce, ou por que, caso percebesse sua verdadeira natureza, lhe permitia ficar em Eregion7] Sauron usou todas as suas artes em Celebrimbor e seus co-artífices, que haviam formado uma sociedade ou irmandade muito poderosa em Eregion, a Gwaith-i-Mírdain; mas trabalhava em segredo, oculto de Galadriel e Celeborn. Em pouco tempo, Sauron tinha a Gwaith-i-Mírdain sob sua influência, pois de início muito lucraram com sua instrução em assuntos secretos de seu ofício. Tornou-se tão grande sua dominação dos Mírdain que finalmente os persuadiu a se revoltarem contra Galadriel e Celeborn e tomarem o poder em Eregion. Isso ocorreu em alguma época entre 1350 e 1400 da Segunda Era. Diante disso, Galadriel deixou Eregion e passou por Khazad-dûm para chegar a Lórinand, levando consigo Amroth e Celebrían; mas Celeborn não quis entrar nas mansões dos anões, e ficou para trás em Eregion, desconsiderado por Celebrimbor. Em Lórinand, Galadriel assumiu o poder e a defesa contra Sauron.
O próprio Sauron partiu de Eregion por volta do ano de 1500, depois que os Mírdain haviam iniciado o fabrico dos Anéis de Poder. Agora, Celebrimbor não estava corrompido no coração nem na fé. mas aceitara Sauron como aquilo que este fingia ser. Quando, por fim, descobriu a existência do Um Anel, revoltou-se contra Sauron, e foi a Lórinand para se aconselhar mais uma vez com Galadriel. Deveriam ter destruído todos os Anéis de Poder nessa ocasião, “mas não conseguiram reunir as forças”. Galadriel aconselhou-o a esconder os Três Anéis dos Elfos, a jamais usá-los e a dispersá-los, longe de Eregion, onde Sauron cria que estivessem. Foi então que de Celebrimbor ela recebeu Nenya, o Anel Branco, e pelo seu poder o reino de Lórinand foi fortificado e embelezado; mas o poder que exercia sobre ela era também grande e imprevisto, pois aumentou seu desejo latente do Mar e de voltar para o Oeste, de modo que diminuiu sua alegria na Terra Média. Celebrimbor seguiu seu conselho para enviar o Anel do Ar e o Anel do Fogo para fora de Eregion; e confiou-os a Gil-galad em Lindon. (Aqui se diz que nessa época Gil-galad deu Narya, o Anel Vermelho, a Círdan, Senhor dos Portos, porém mais adiante na narrativa há uma nota marginal dizendo que ele mesmo o guardou até partir para a Guerra da Última Aliança.)
Quando Sauron ouviu falar do arrependimento e da revolta de Celebrimbor, seu disfarce caiu e sua ira se revelou. E. reunindo um grande exército, avançou sobre Calenardhon (Rohan) para invadir Eriador no ano de 1695. Quando Gil-galad recebeu notícias disso, enviou um exército comandado por Elrond Meio-Elfo; mas Elrond tinha um longo caminho a percorrer, e Sauron voltou-se para o norte prosseguindo imediatamente para Eregion. Os batedores e a vanguarda da hoste de Sauron já se aproximavam quando Celeborn fez uma investida e os rechaçou; mas, embora conseguisse reunir suas forças ás de Elrond, não puderam voltar a Eregion, pois a hoste de Sauron era muito maior que a deles, grande o suficiente para mantê-los à distância e ao mesmo tempo atacar Eregion com vigor. Finalmente os atacantes irromperam em Eregion com ruína e devastação e capturaram o principal objeto do ataque de Sauron, a Casa dos Mírdain, onde estavam suas forjas e seus tesouros. Celebrimbor. desesperado, enfrentou Sauron ele mesmo na escadaria da grande porta dos Mírdain; mas foi agarrado e feito prisioneiro, e a Casa foi saqueada. Lá Sauron apossou-se dos Nove Anéis e de outras obras menores dos Mírdain; mas não conseguiu encontrar os Sete e os Três. Então Celebrimbor foi torturado, e Sauron descobriu por ele a quem haviam sido confiados os Sete. Isso foi revelado por Celebrimbor porque nem os Sete nem os Nove tinham tanto valor para ele quanto os Três. Os Sete e os Nove foram feitos com o auxílio de Sauron, ao passo que os Três foram feitos por Celebrimbor sozinho, com poder e propósito diversos. [Aqui não se diz efetivamente que Sauron nessa época tenha tomado posse dos Sete Anéis, embora esteja claramente implícito que o fez. No Apêndice A (III) do Senhor dos Anéis diz-se que havia uma crença entre os anões do Povo de Durin de que o anel de Durin III, Rei de Khazad-dûm, lhe fora dado pelos próprios artífices élficos, e não por Sauron; mas no presente texto nada é dito sobre a forma pela qual os Sete Anéis chegaram à posse dos anões.] Acerca dos Três Anéis. Sauron nada pôde saber por Celebrimbor; e mandou matá-lo. Mas adivinhava a verdade, de que os Três haviam sido confiados a guardiães élficos: e isso devia significar a Galadriel e Gil-galad.
Numa fúria sinistra voltou à batalha; e, levando como estandarte o corpo de Celebrimbor suspenso num mastro, trespassado de flechas de orcs, investiu contra o exército de Elrond. Elrond reunira os poucos elfos de Eregion que haviam escapado, mas não tinha forças para fazer frente ao ataque. Com efeito teria sido derrotado não tivesse a hoste de Sauron sido atacada pela retaguarda; pois Durin enviou um exército de anões de Khazad-dûm, e com eles vieram elfos de Lórinand liderados por Amroth. Elrond conseguiu desenredar-se, mas foi forçado a fugir para o norte, e foi nessa época [no ano de 1697, de acordo com o Conto dos Anos] que estabeleceu um refúgio e uma fortaleza em Imladris (Valfenda). Sauron abandonou a perseguição a Elrond e voltou-se contra os anões e os elfos de Lórinand, que rechaçou; mas os Portões de Moria foram fechados, e ele não conseguiu entrar. Daí em diante, Moria passou a ter o ódio eterno de Sauron, e todos os orcs recebiam ordens de molestar os anões sempre que pudessem.
Agora, porém. Sauron tentava obter o domínio sobre Eriador: Lórinand podia esperar. Mas, enquanto assolava as terras, matando ou expulsando todos os pequenos grupos de homens e caçando os elfos remanescentes, muitos fugiram para engrossar a hoste de Elrond ao norte. Ora, o objetivo imediato de Sauron era capturar Lindon, onde cria ter a maior chance de se apoderar de um ou mais dos Três Anéis. Chamou, portanto, para junto de si suas forças dispersas e marchou para o oeste em direção à terra de Gilgalad, devastando tudo pelo caminho. Mas seu exército foi enfraquecido pela necessidade de deixar para trás um forte destacamento, destinado a reter Elrond e evitar que ele se abatesse sobre sua retaguarda.
Já havia muitos anos os númenorianos vinham trazendo seus navios aos Portos Cinzentos, e lá eram bem-vindos. Assim que Gil-galad começou a temer que Sauron invadisse Eriador em guerra aberta, enviou mensagens a Númenor; e no litoral de Lindon os númenorianos começaram a reunir um exército e suprimentos de guerra. Em 1695, quando Sauron invadiu Eriador, Gil-galad pediu auxílio a Númenor. Então o Rei Tar-Minastir enviou uma grande armada; mas esta atrasou-se e só chegou às costas da Terramédia no ano de 1700. Àquela altura Sauron dominara Eriador inteira, à única exceção da sitiada Imladris, e alcançara a linha do Rio Lun. Havia convocado muitos exércitos, que se aproximavam pelo sudeste, e estavam na verdade em Enedwaith, na Travessia de Tharbad, cuja defesa era fraca. Gil-galad e os númenorianos mantinham o Lûn em defesa desesperada dos Portos Cinzentos, quando na última hora chegou o grande armamento de Tar-Minastir; e a hoste de Sauron sofreu pesada derrota e foi repelida. O almirante númenoriano Ciryatur enviou parte de seus navios para um desembarque mais ao sul.
Sauron foi expulso para o sudeste após uma grande carnificina no Vau Sarn (a travessia do Baranduin); e, embora reforçado por seu exército de Tharbad, de repente voltou a encontrar uma hoste númenoriana na sua retaguarda, pois Ciryatur fizera desembarcar um grande exército na foz do Gwathló (Rio Cinzento), “onde havia um pequeno porto númenoriano”. [Este era Vinyalonde de Tar-Aldarion, mais tarde chamad de Lond Daer; vide Apêndice D]. Na Batalha do Gwathló, Sauron foi totalmente derrotado, e ele próprio só escapou por bem pouco. Seu pequeno exército remanescente foi atacado no leste de Calenardhon, e ele, sem mais que uma guarda pessoal, fugiu para a região mais tarde chamada de Dagorlad (Planície da Batalha), de onde retornou, quebrado e humilhado, a Mordor, e jurou vingança contra Númenor. O exército que sitiava Imladris foi apanhado entre Elrond e Gil-galad, sendo totalmente destruído. Eriador estava livre do inimigo, mas estava em grande parte destroçada.
Nessa época realizou-se o primeiro Conselho, e lá foi determinado que uma fortaleza élfica no leste de Eriador deveria ser mantida em Imladris, e não em Eregion. Também nessa época Gil-galad deu Vilya, o Anel Azul, a Elrond, e o nomeou seu viceregente em Eriador; mas reteve o Anel Vermelho, até que o deu a Círdan quando partiu de Lindon nos dias da Última Aliança. Por muitos anos as Terras Ocidentais tiveram paz e tempo para cicatrizar as feridas; mas os númenorianos haviam provado o poder na Terramédia, e dessa época em diante começaram a construir povoados permanentes nas costas ocidentais [datado de “c. 1800” no Conto dos Anos], tornando-se demasiado poderosos para que Sauron tentasse sair de Mordor para o oeste durante muito tempo.
No seu trecho final, a narrativa retorna a Galadriel, contando que o anseio do mar tanto aumentou em seu íntimo que (apesar de ela considerar seu dever permanecer na Terramédia enquanto Sauron ainda não estivesse subjugado) ela se dispôs a deixar Lórinand e a morar perto do mar. Confiou Lórinand a Amroth; e, atravessando Moria outra vez com Celebrían, chegou a Imladris, em busca de Celeborn. Lá (ao que consta) encontrou-o, e lá moraram juntos por muito tempo; e foi então que Elrond viu Celebrían pela primeira vez, e a amou, apesar de nada dizer a respeito. Foi enquanto Galadriel estava em Imladris que ocorreu o Conselho mencionado acima. Mas em algum momento posterior [não há indicação da data] Galadriel e Celeborn, na companhia de Celebrían, partiram de Imladris e foram para as terras esparsamente habitadas entre a foz do Gwathló e Ethir Anduin. Ali moraram em Belfalas, no lugar que mais tarde se chamou Dol Amroth. Ali seu filho Amroth às vezes os visitava, e sua companhia era aumentada por elfos nandorin de Lórinand. Foi somente quando a Terceira Era estava bem avançada, quando Amroth se perdeu e Lórinand estava em perigo, que Galadriel retornou para lá, no ano de 1981. Aqui termina o texto “Acerca de Galadriel e Celeborn”.

* * *

Pode-se notar aqui que a ausência de qualquer indicação em contrário no Senhor dos Anéis conduziu os comentaristas à presunção natural de que Galadriel e Celeborn teriam passado a segunda metade da Segunda Era e toda a Terceira em Lothlórien; mas não foi assim, apesar de sua história, como esboçada em “Acerca de Galadriel e Celeborn”, ter sido muito modificada depois, como será mostrado abaixo.


Amroth e Nimrodel

Já disse antes que, se Amroth realmente fosse tido como filho de Galadriel e Celeborn quando O Senhor dos Anéis foi escrito, uma conexão tão importante dificilmente teria deixado de ser mencionada. Mas, fosse ou não, essa visão sobre seus genitores foi rejeitada mais tarde. Apresento em seguida um pequeno conto (datado de 1969 ou mais tarde) intitulado “Parte da lenda de Amroth e Nimrodel brevemente relatada”.

Amroth foi Rei de Lórien depois que seu pai, Amdír, foi morto na Batalha de Dagorlad [no ano de 3434 da Segunda Era]. Sua terra teve paz por muitos anos após a derrota de Sauron. Apesar de ser de ascendência sindarin, vivia à maneira dos elfos silvestres e se alojava nas altas árvores de uma grande colina verde, que depois sempre se chamou Cerin Amroth. Fazia isso por causa de seu amor por Nimrodel. Durante longos anos ele a amara, e não tomara esposa, visto que ela não queria se casar com ele. Ela o amava de fato, pois ele era belo mesmo para um dos eldar, além de valoroso e sábio; mas ela pertencia aos elfos silvestres, e se ressentia da chegada dos elfos do oeste, que (como dizia) traziam guerras e destruíam a paz de antigamente. Falava apenas o idioma silvestre, mesmo após este ter caído em desuso entre o povo de Lórien; e morava sozinha ao lado da cascata do rio Nimrodel, ao qual deu seu nome. Mas, quando o terror veio de Moria e os anões foram expulsos, e no lugar deles os orcs entraram sorrateiros, ela fugiu sozinha para o sul, atormentada. para as terras vazias [no ano de 1981 da Terceira Era]. Amroth seguiu-a e por fim a encontrou à beira de Fangorn, que naquela época ficava muito mais próximo de Lórien. Ela não ousou entrar na floresta, pois as árvores, dizia, a ameaçavam, e algumas se moviam para lhe impedir o caminho.
Lá Amroth e Nimrodel tiveram uma longa conversa; e finalmente comprometeram-se a se casar.
— Cumprirei minha palavra — disse ela —. e havemos de nos casar quando você me levar a uma terra de paz. — Amroth prometeu por amor a ela deixar seu povo, mesmo em tempo de necessidade, e buscar com ela uma terra assim.
— Mas agora não há nenhuma na Terra Média — disse ele — e não haverá nunca mais para o povo élfico. Precisamos buscar uma passagem sobre o Grande Mar. até o antigo Oeste. — Então, contou-lhe sobre o porto no sul, aonde muitos da sua própria gente haviam chegado tempos atrás. — Minguaram agora, pois a maioria velejou para o Oeste; mas o remanescente deles ainda constrói navios e oferece passagem para qualquer um da sua espécie que venha a eles, cansado da Terra Média. Dizem que a graça que os Valar nos deram, de passar sobre o Mar, agora também é concedida a quem quer que tenha feito a Grande Viagem, mesmo que em eras passadas não tenha chegado às praias e não tenha ainda contemplado a Terra Abençoada.
Não há espaço aqui para contar sobre sua viagem à terra de Gondor. Eram os dias do Rei Earnil Segundo, o penúltimo dos Reis do Reino do Sul, e suas terras estavam inquietas. [Earnil II reinou em Gondor de 1945 a 2043.] Em outro lugar está contado [mas não em nenhum escrito existente] como se separaram, e como Amroth, após buscá-la em vão, foi ao porto élfico e descobriu que apenas uns poucos ainda restavam lá. Menos que a capacidade de um navio; e tinham somente um navio em condições de navegar. Nele agora, preparavam-se para partir e abandonar a Terra Média. Deram as boas-vindas a Amroth, contentes em reforçar seu pequeno grupo, mas relutavam em esperar por Nimrodel, cuja vinda agora lhes parecia sem esperança.
— Se ela viesse através das terras povoadas de Gondor — disseram —, não seria molestada e poderia receber ajuda, pois os homens de Gondor são bondosos, e são governados pelos descendentes dos amigos-dos-elfos de outrora, que ainda sabem falar nossa língua de certa maneira; mas nas montanhas há muitos homens hostis e criaturas malignas.
O ano perdia-se no outono, e grandes ventos eram esperados para logo, hostis e perigosos, mesmo para os navios élficos, enquanto ainda estivessem próximos à Terramédia. Mas o pesar de Amroth era tão grande que ainda assim retardaram a partida por muitas semanas; e viviam a bordo do navio, pois suas casas na costa estavam desmontadas e vazias. Então, no outono, veio uma grande noite de tempestade, uma das mais ferozes nos anais de Gondor. Chegou dos frios Ermos do Norte, e desceu rugindo através de Eriador até as terras de Gondor, produzindo grande destruição; as Montanhas Brancas não serviam de escudo contra ela, e muitos dos navios dos homens foram arrastados à Baía de Belfalas e se perderam. O leve navio élfico foi arrancado de suas amarras e impelido para as águas bravias em direção à costa de Umbar. Nunca mais se ouviram notícias dele na Terra Média; mas os navios élficos feitos para essa viagem não afundavam, e sem dúvida ele deixou os Círculos do Mundo e chegou por fim a Eressea. Mas não levou Amroth até lá. A tempestade abateu-se sobre as costas de Gondor no momento em que a aurora espiava através das nuvens em voo; mas, quando Amroth despertou, o navio já estava longe da terra. Gritando em alta voz, desesperado, NimrodeU, Amroth saltou no mar e nadou em direção ao litoral que desaparecia. Por muito tempo os marinheiros, com sua visão élfica, conseguiram vê-lo lutando contra as ondas, até que o sol nascente brilhou através das nuvens e bem longe iluminou seus cabelos brilhantes como uma centelha de ouro. Nenhum olho de elfo ou homem voltou a vê-lo na Terra Média. Do que aconteceu a Nimrodel nada se diz aqui, apesar de haver muitas lendas acerca de seu destino.

A narrativa acima foi na verdade composta como uma ramificação de uma discussão etimológica dos nomes de certos rios da Terra Média, neste caso o Gilrain, um rio de Lebennin em Gondor, que desaguava na Baía de Belfalas a oeste de Ethir Anduin, e outra faceta da lenda de Nimrodel emerge da discussão do elemento rain. Este provavelmente derivava da raiz ran— “vagar, errar, tomar curso incerto” (como em Mithrandir, e no nome Rána da Lua).

Isso não pareceria adequado a nenhum dos rios de Gondor; mas com frequência os nomes dos rios podem aplicar-se apenas a parte de seu curso, à sua nascente, ao seu trecho inferior ou a outras características que chamaram a atenção dos exploradores que lhes deram o nome. Nesse caso, no entanto, os fragmentos da lenda de Amroth e Nimrodel fornecem uma explicação. O Gilrain descia veloz das montanhas, assim como os demais rios daquela região; mas, ao alcançar a extremidade dos contrafortes de Ered Nimrais que o separavam do Celos [vide o mapa que acompanha o Volume 3 do Senhor dos Anéis], ele entrava numa ampla depressão rasa. Vagava nela por algum tempo, e formava uma pequena lagoa na extremidade sul, antes de atravessar uma crista e voltar a prosseguir veloz até se encontrar com o Serni. Quando Nimrodel fugiu de Lórien, diz-se que, procurando pelo mar, perdeu-se nas Montanhas Brancas, até que finalmente (não está dito por qual estrada ou passagem) chegou a um rio que lhe recordava seu próprio regato em Lórien. Seu coração aliviou-se, e ela se sentou à margem de uma lagoa, vendo as estrelas refletidas nas águas sombrias, e ouvindo as cascatas pelas quais o rio prosseguia em sua descida para o mar. Ali caiu em profundo sono de exaustão, e dormiu tanto tempo que não desceu a Belfalas antes que o navio de Amroth fosse soprado para alto-mar, e ele se perdesse tentando voltar para Belfalas a nado. Esta lenda era bem conhecida no Doren-Ernil (a Terra do Príncipe), e sem dúvida o nome foi dado como lembrança disso.

O ensaio continua com uma breve explicação de como Amroth, como Rei de Lórien, estava relacionado com o reinado de Celeborn e Galadriel naquela terra:

O povo de Lórien era mesmo naquela época [isto é, ao tempo da perda de Amroth] muito semelhante ao que era no fim da Terceira Era: elfos silvestres na origem, mas governados por príncipes de ascendência sindarin (assim como o reino de Thran-duil nas regiões setentrionais da Floresta das Trevas; se bem que agora não se saiba se Thranduil e Amroth eram parentes). No entanto, haviam se misturado muito aos noldor (de fala sindarin) que passaram por Moria após a destruição de Eregion por Sauron no ano de 1697 da Segunda Era. Naquela época Elrond foi para o oeste [sic: provavelmente significa apenas que ele não atravessou as Montanhas da Névoa] e estabeleceu o refúgio de Imladris: mas Celeborn foi primeiro a Lórien e a fortificou contra quaisquer outras tentativas de Sauron de atravessar o Anduin. Quando, no entanto. Sauron se retirou para Mordor e (como se relata) se ocupou exclusivamente de conquistas no leste, Celeborn reuniu-se a Galadriel em Lindon.
Lórien teve então longos anos de paz e obscuridade sob o domínio de seu próprio rei Amdír, até a Queda de Númenor e a súbita volta de Sauron à Terra Média. Amdír obedeceu à convocação de Gil-galad e levou à Última Aliança um exército tão grande quanto conseguiu reunir, mas foi morto na Batalha de Dagorlad. e com ele a maior parte de sua companhia. Amroth, seu filho, tornou-se rei.

Esse relato, naturalmente, diverge muito daquele contido em “Acerca de Galadriel e Celeborn”. Amroth não é mais filho de Galadriel e Celeborn, e sim de Amdír, um príncipe de origem sindarin. A história mais antiga, das relações de Galadriel e Celeborn com Eregion e Lórien, parece ter sido modificada sob muitos aspectos importantes, mas não se pode dizer quanto dela teria sido mantido em qualquer narrativa plenamente redigida. A associação de Celeborn com Lórien está agora situada muito mais longe no passado (pois em “Acerca de Galadriel e Celeborn” ele nunca chegou a ir a Lórien durante a Segunda Era); e aqui ficamos sabendo que muitos elfos noldorin passaram por Moria a caminho de Lórien após a destruição de Eregion. No relato anterior não há sugestão disso, e o movimento de elfos “beleriândicos” para Lórien ocorreu em condições pacíficas muitos anos antes. A implicação do excerto recém-mencionado é que, após a queda de Eregion, Celeborn liderou essa migração para Lórien, enquanto Galadriel se uniu a Gil-galad em Lindon; mas em outra parte, num escrito contemporâneo a esse, diz-se explicitamente que ambos naquela época “passaram através de Moria com um considerável séquito de exilados noldorin. e moraram por muitos anos em Lórien”. Não está nem afirmado nem negado nesses escritos tardios que Galadriel (ou Celeborn) tivesse relações com Lórien antes de 1697, e não há outras referências fora de “Acerca de Galadriel e Celeborn” à revolta de Celebrimbor (em alguma época entre 1350 e 1400) contra seu reinado em Eregion, nem à partida de Galadriel para Lórien naquela época, ou ao fato de ela assumir O poder ali. enquanto Celeborn ficava para trás em Eregion.
Nos relatos tardios não fica claro onde Galadriel e Celeborn passaram os longos anos da Segunda Era após a derrota de Sauron em Eriador; seja como for, não há outras menções à sua estada secular em Belfalas.
A discussão sobre Amroth continua:

Mas, durante a Terceira Era, Galadriel encheu-se de presságios e com Celeborn viajou a Lórien, lá permanecendo com Amroth por muito tempo, especialmente interessada em saber de todas as notícias e rumores da crescente sombra na Floresta das Trevas e da escura fortaleza em Dol Guldur. Mas o povo de Amroth estava contente com ele; ele era valoroso e sábio, e seu pequeno reino ainda era próspero e belo. Portanto, após longas viagens de investigação em Rhovanion, de Gondor e dos limites de Mordor até Thranduil no norte, Celeborn e Galadriel passaram sobre as montanhas para Imladris, e lá moraram por muitos anos; pois Elrond era seu parente, visto que se casara com sua filha Celebrían no começo da Terceira Era [no ano de 109, de acordo com o Conto dos Anos].
Após o desastre em Moria [no ano de 1980] e os pesares de Lórien, que estava agora sem monarca (pois Amroth morrera afogado no mar na Baía de Belfalas sem deixar herdeiro), Celeborn e Galadriel voltaram a Lórien, e receberam as boas-vindas do povo.
Lá habitaram enquanto durou a Terceira Era, mas não assumiram títulos de Rei nem Rainha, pois diziam que eram apenas guardiães daquele reino pequeno mas belo, o último posto avançado dos elfos a leste.

Em outro lugar existe mais uma referência a seus movimentos durante aqueles anos:

A Lórien, Celeborn e Galadriel retornaram duas vezes antes da Última Aliança e do fim da Segunda Era. E, na Terceira Era, quando a sombra da recuperação de Sauron se ergueu, lá moraram novamente por muito tempo. Em sua sabedoria Galadriel viu que Lórien seria uma fortaleza e um reduto de poder para evitar que a Sombra atravessasse o Anduin na guerra que inevitavelmente teria de vir, antes que fosse derrotada outra vez (caso isso fosse possível); mas que necessitava de um governo de maior força e discernimento do que o povo silvestre possuía. Não obstante, foi só após o desastre em Moria, quando o poder de Sauron, por meios além da capacidade de previsão de Galadriel, realmente atravessou o Anduin e Lórien se encontrou em grande perigo, com o rei perdido, o povo em fuga e arriscando deixar a terra deserta para ser ocupada pelos orcs, foi somente então que Galadriel e Celeborn assumiram sua morada permanente em Lórien, e seu governo. Mas não assumiram títulos de Rei nem Rainha, e foram os guardiões que por fim a conduziram inviolada por toda a Guerra do Anel.

Em outra discussão etimológica do mesmo período, há uma explicação de que o nome Amroth é um apelido derivado do fato de que morava em um alto talan ou flet, plataformas de madeira, construídas no alto das árvores de Lothlórien, nas quais moravam os galadhrim (vide A Sociedade do Anel, II, VI): significava “escalador, escalador do alto”. Diz-se aqui que o costume de morar em árvores não era hábito dos elfos silvestres em geral, mas se desenvolvera em Lórien em virtude da natureza e situação da região: uma terra plana sem boas pedras, exceto as que podiam ser extraídas nas montanhas a oeste e trazidas com dificuldade descendo pelo Veio de Prata abaixo. Sua principal riqueza eram suas árvores, um remanescente das grandes florestas dos Dias Antigos. Mas habitar nas árvores não era universal mesmo em Lórien, e os telain ou flets eram originariamente refúgios para serem usados em caso de ataque, ou então, com maior frequência (em especial aqueles que ficavam bem alto nas grandes árvores) postos de vigia de onde a terra e seus limites podiam ser inspecionados por olhos élficos: pois Lórien, após o fim do primeiro milênio da Terceira Era, tornou-se uma terra de vigilância e desassossego; e Amroth deve ter vivido em crescente inquietação a partir do momento em que Dol Guldur foi construído na Floresta das Trevas.

Um desses postos de vigia, usado pelos guardiões das fronteiras do norte, era o flet onde Frodo passou a noite. A morada de Celeborn em Caras Galadhon também tinha a mesma origem: seu flet superior, que a Sociedade do Anel não viu, era o ponto mais alto da região. Anteriormente o flet de Amroth, no topo do grande morro ou colina de Cerin Amroth, erguido pelo trabalho de muitas mãos, fora o mais alto, e destinava-se principalmente à observação de Dol Guldur do outro lado do Anduin. A conversão desses telain em habitações permanentes foi um desenvolvimento posterior, e somente em Caras Galadhon tais habitações eram numerosas. Mas a própria Caras Galadhon era uma fortaleza, e apenas uma pequena parte dos galadhrim morava entre seus muros. Sem dúvida viver em casas tão elevadas foi inicialmente considerado extraordinário, e Amroth provavelmente foi o primeiro a fazê-lo. Assim, é muito provável que seu nome — o único que mais tarde foi lembrado na lenda — tenha se derivado do fato de sua morada ser em um alto talan.

Uma nota sobre as palavras “Amroth provavelmente foi o primeiro a fazê-lo” afirma:
A não ser que fosse Nimrodel. Seus motivos eram diferentes. Ela amava as águas e as cascatas de Nimrodel, das quais não gostava de se afastar por muito tempo; mas com o entenebreci-mento dos tempos, viu-se que o rio era demasiado próximo da fronteira do norte, e em uma região onde moravam então poucos galadhrim. Talvez tenha sido dela que Amroth tomou a ideia de morar num alto flet.

Retornando à lenda de Amroth e Nimrodel apresentada acima, qual era o “porto no sul” onde Amroth aguardou Nimrodel, e aonde (como ele lhe contou) “muitos da sua própria gente haviam chegado tempos atrás”? Dois trechos do Senhor dos Anéis tratam desta questão. Um deles está em A Sociedade do Anel, II, VI, no qual Legolas, após cantar a canção de Amroth e Nimrodel, fala da “Baía de Belfalas, de onde os elfos de Lórien partiram em suas embarcações”. O outro está em O Retorno do Rei, V, IX, no qual Legolas, olhando para o Príncipe Imrahil de Dol Amroth, viu que ele “tinha nas veias o sangue dos elfos”, e lhe disse: “Já faz muito tempo que o povo de Nimrodel deixou as florestas de Lórien, e mesmo assim ainda se pode ver que nem todos partiram do porto de Amroth, navegando para o oeste”. Ao que o Príncipe Imrahil respondeu: “Assim conta a tradição de minha terra”.
Notas tardias e fragmentárias dão alguma contribuição para explicar essas referências. Assim, em um estudo das inter-relações linguísticas e políticas da Terramédia (datado de 1969 ou mais tarde), há uma referência de passagem ao fato de que, nos dias das primeiras povoações de Númenor, as costas da Baía de Belfalas ainda estavam em grande medida desertas, “à exceção de um porto e uma pequena povoação de elfos ao sul da confluência do Morthond e do Ringló” (isto é, logo ao norte de Dol Amroth).

Este, de acordo com as tradições de Dol Amroth, fora estabelecido por navegantes sindar dos portos ocidentais de Beleriand, que fugiram em três pequenos navios quando o poderio de Morgoth sobrepujou os eldar e os atani; mas foi depois aumentado por aventureiros dos elfos silvestres, que vieram descendo o Anduin em busca do mar.

Os elfos silvestres (observa-se aqui) “nunca se livraram totalmente de uma inquietação e de um anseio pelo Mar que às vezes impelia alguns deles a vagar longe de suas casas”. Para relacionarmos esta história dos “três pequenos navios” com as tradições registradas no Silmarillion, provavelmente teríamos de presumir que escaparam de Brithombar ou Eglarest (os Portos do Falas na costa oeste de Beleriand) quando estes foram destruídos no ano posterior às Nirnaeth Arnoediad (O Silmarillion, p. 247), mas que, enquanto Círdan e Gil-galad se refugiaram na Ilha de Balar, as companhias desses três navios navegaram muito mais para o sul. descendo a costa, até Belfalas. Mas um relato bastante diverso, que situa em época mais tardia o estabelecimento do porto élfico, aparece em um fragmento inacabado sobre a origem do nome Belfalas.
Aqui se diz que, enquanto o elemento Bel— certamente deriva de um nome pré-númenoriano, sua fonte era na verdade sindarin. A nota se acaba antes que seja dada qualquer informação adicional sobre Bel-, mas a razão dada para sua origem sindarin é que “havia em Gondor um elemento pequeno, mas importante, de natureza totalmente extraordinária: uma povoação eldarin”. Após a destruição de Thangorodrim, os elfos de Beleriand, caso não zarpassem pelo Grande Mar afora ou permanecessem em Lindon, vagaram para o leste por sobre as Montanhas Azuis, chegando a Eriador. No entanto, ainda assim parece ter havido um grupo de sindar que foi para o sul no início da Segunda Era. Era um remanescente do povo de Doriath que ainda guardava rancor contra os noldor; e, tendo permanecido por algum tempo nos Portos Cinzentos, onde aprenderam o ofício da construção de navios, “foram ao longo de anos buscando um lugar para levar sua própria vida, e por fim estabeleceram-se na foz do Morthond. Lá já havia um primitivo porto de pescadores, mas estes, temendo os eldar, fugiram para as montanhas”.
Em nota escrita em dezembro de 1972 ou mais tarde, e entre os últimos escritos de meu pai sobre o tema da Terra Média, há um exame do traço élfico entre os homens, com relação ao fato de que é observável por serem imberbes aqueles de tal ascendência (ser imberbe era característica de todos os elfos); e aqui se observa, em relação à casa principesca de Dol Amroth, que “essa linhagem tinha um traço élfico especial, de acordo com suas próprias lendas” (com uma referência ao diálogo entre Legolas e Imrahil em O Retorno do Rei, V, IX, citado acima).

Como mostra a menção a Nimrodel feita por Legolas. havia um antigo porto élfico perto de Dol Amroth, e lá existia uma pequena povoação de elfos silvestres de Lórien. A lenda da linhagem do príncipe era que um dos seus ancestrais mais remotos se casara com uma donzela élfica: em algumas versões dizia-se de fato (evidentemente com pouca probabilidade) que fora a própria Nimrodel.
Em outros contos, e com maior probabilidade, era uma das companheiras de Nimrodel que se perdeu nas ravinas no alto das montanhas.

Esta última versão da lenda aparece em forma mais detalhada numa nota anexa a uma genealogia inédita da linhagem de Dol Amroth, desde Angelimar, o vigésimo príncipe, pai de Adrahil, pai de Imrahil, príncipe de Dol Amroth à época da Guerra do Anel:
Na tradição de sua casa, Angelimar era o vigésimo na descendência direta de Galador, primeiro Senhor de Dol Amroth (c. 2004-2129 Terceira Era). De acordo com as mesmas tradições, Galador era filho de Imrazôr, o Númenoriano, que morava em Belfalas, e da senhora élfica Mithrellas. Ela era uma das companheiras de Nimrodel, entre muitos dos elfos que fugiram para a costa por volta do ano de 1980 da Terceira Era, quando o mal se ergueu em Moria; e Nimrodel e suas donzelas desgarraram-se nas colinas cobertas de florestas, e se perderam. Nesse conto, porém, diz-se que Imrazôr acolheu Mithrellas, e a desposou. Mas, quando lhe dera um filho, Galador, e uma filha, Gilmith, Mithrellas fugiu de noite, e ele nunca mais a viu. No entanto, embora Mithrellas pertencesse à raça menor dos silvestres (e não aos altos-elfos ou aos cinzentos), sempre se afirmou que a casa e a família dos Senhores de Dol Amroth eram tão nobres no sangue quanto eram belos de rosto e mente.


A Elessar

Em escritos inéditos pouco mais se encontra acerca da história de Celeborn e Galadriel, a não ser um manuscrito muito tosco de quatro páginas, intitulado “A Elessar”. Está na primeira etapa de composição, mas traz algumas correções a lápis; não há outras versões. Com algumas emendas editoriais muito ligeiras, o seu teor é o seguinte:

Havia em Gondolin um palheiro chamado Enerdhil. o maior desse ofício entre os noldor após a morte de Fêanor. Enerdhil amava todas as coisas verdes que cresciam, e sua maior alegria era ver a luz do sol através das folhas das árvores. Veio-lhe ao coração a ideia de fazer uma joia dentro da qual a luz límpida do sol estivesse aprisionada, mas a joia deveria ser verde como as folhas. E fez esse objeto, e até mesmo os noldor se maravilhavam com ele. Pois diz-se que aqueles que olhavam através dessa pedra viam coisas que haviam murchado ou queimado novamente sãs, ou tais como eram na graça de sua juventude, e que as mãos de quem a segurasse levavam a cura dos ferimentos a todos que tocassem. Essa gema Enerdhil deu a Idril, filha do Rei, e ela a usava sobre o peito; e assim foi salva do incêndio de Gondolin. E, antes de zarpar, Idril disse a seu filho, Earendil:
— A Elessar deixo contigo, pois há feridas atrozes na Terra Média que tu talvez hajas de curar. Mas não hás de entregá-la a ninguém mais. — E de fato no Porto do Sirion havia muitos ferimentos a curar, tanto de homens como de elfos, e de animais que lá se refugiavam do horror do norte. E, enquanto Earendil lá morou, eles foram curados e prosperaram; e todas as coisas por um tempo estiveram verdes e belas. Mas, quando Earendil começou suas grandes viagens pelo Mar, usava a Elessar sobre o peito, pois entre todas as suas buscas sempre este pensamento estava diante dele: que talvez pudesse reencontrar Idril. E sua primeira lembrança da Terra Média era a pedra verde no colo de Idril, quando ela cantava sobre seu berço enquanto Gondolin ainda estava em flor. Assim aconteceu que a Elessar se foi, quando Earendil não mais retornou à Terra Média.
Em épocas posteriores houve novamente uma Elessar, e a respeito dela contam-se duas histórias, embora somente aqueles Sábios que agora se foram pudessem dizer qual é a verdadeira. Pois alguns dizem que a segunda era de fato apenas a primeira que retornou, pela graça dos Valar; e que Olórin (que na Terra Média era conhecido como Mithrandir) a trouxe consigo do Oeste. E certa feita Olórin veio ter com Galadriel, que então habitava sob as árvores da Grande Floresta Verde; e tiveram uma longa conversa. Pois os anos de seu exílio começavam a pesar sobre a Senhora dos Noldor, e ela ansiava por notícias de sua gente e pela sua abençoada terra natal. Relutava, porém, em abandonar a Terra Média [esta frase foi alterada para a seguinte redação: mas ainda não tinha permissão de abandonara Terra Média]. E, quando Olórin lhe contou muitas novas, ela suspirou e disse:
— Aflijo-me na Terra Média, pois as folhas caem e as flores murcham; e meu coração sente saudades das árvores e da relva que não morrem. Queria tê-las em meu lar. — Então Olórin perguntou: — Gostaria então de ter a Elessar?
E Galadriel perguntou:
— Onde está agora a Pedra de Earendil? E já se foi Enerdhil, que a fez. — E Olórin disse: — Quem sabe?
— Certamente — disse Galadriel — passaram além do Mar. como quase todas as demais coisas belas. E então a Terra Média terá de minguar e perecer para sempre?
— Esse é seu destino — disse Olórin. — No entanto, por algum tempo isso poderia ser corrigido, caso a Elessar retornasse. Por algum tempo, até que cheguem os Dias dos Homens.
— Caso... e no entanto como poderia ser isso? — perguntou Galadriel. — Pois certamente os Valar agora estão afastados; a Terra Média, longe de seu pensamento, e todos que se agarram a ela estão debaixo de uma sombra.
— Não é assim — disse Olórin. — Os olhos dos Valar não se toldaram, nem seus corações estão endurecidos. Como testemunho do que digo, contemple isto! — E segurou diante dela a Elessar, e ela a contemplou com assombro. E Olórin disse: — Isto eu lhe trago de Yavanna. Use-a como puder, e por algum tempo há de transformar a região onde mora no lugar mais belo da Terra Média. Mas não é para ser de sua propriedade. Você há de passá-lo adiante quando chegar a hora. Pois antes que você fique exausta e finalmente abandone a Terra Média, virá alguém que deverá recebê-la, e seu nome há de ser o da pedra: há de ser chamado Elessar.
O outro conto diz o seguinte: que há muito tempo, antes que Sauron iludisse os artífices de Eregion, Galadriel lá chegou e disse a Celebrimbor, o principal artífice élfico:
— Aflijo-me na Terra Média, pois as folhas caem, e murcham as flores que amei, de forma que a região onde habito está plena de uma tristeza que nenhuma primavera pode aplacar.
— Como pode ser de outra maneira para os elfos, se se agarram à Terra Média? — perguntou Celebrimbor. — Então agora quer passar para além do Mar?
— Não — disse ela. — Angrod foi-se, e Aegnor foi-se, e Felagund não mais existe.
Dentre os filhos de Finarfin, eu sou a última 20, Mas meu coração ainda tem orgulho. Que mal fez a casa dourada de Finarfin para que eu tenha de pedir o perdão dos Valar, ou de me contentar com uma ilha no mar. eu. cuja terra natal foi Aman, a Abençoada? Aqui sou mais poderosa.
— Do que gostaria então? — perguntou Celebrimbor.
— Gostaria de ter ao meu redor árvores e relva que não morressem, aqui na terra que é minha — respondeu ela. — O que foi feito da habilidade dos eldar? — E Celebrimbor disse: — Onde está agora a Pedra de Earendil? E Enerdhil, que a fez. foi-se.
— Passaram para além do Mar — disse Galadriel — com quase todas as demais coisas belas. Mas a Terra Média então terá de minguar e perecer para sempre?
— Esse é seu destino, segundo julgo — disse Celebrimbor. — Mas você sabe que a (apesar de você ter-se voltado para Celeborn das Árvores), e por esse amor farei o que puder, caso seu pesar possa ser mitigado por minha arte. — Mas não disse a Galadriel que ele mesmo viera de Gondolin muito tempo atrás e que fora amigo de Enerdhil, embora seu amigo o superasse na maioria das atividades. No entanto, se Enerdhil não tivesse existido, então Celebrimbor teria tido maior renome. Meditou, portanto, e iniciou um trabalho longo e delicado, e assim fez para Galadriel a maior de suas obras (a única exceção dos Três Anéis). E diz-se que a gema verde que fez era mais sutil e mais límpida que a de Enerdhil, mas ainda assim sua luz tinha menor poder. Pois, enquanto a de Enerdhil era iluminada pelo Sol em sua juventude, já se haviam passado muitos anos quando Celebrimbor começou seu trabalho, e em nenhum lugar da Terra Média a luz era tão clara como havia sido, pois, apesar de Morgoth ter sido expulso para o Nada e não poder entrar novamente, sua sombra longínqua pairava sobre ela. Ainda assim era radiante a Elessar de Celebrimbor; e ele a montou em um grande broche de prata, à semelhança de uma águia que se erguia com asas estendidas. Com o uso da Elessar, todas as coisas tornavam-se belas em torno de Galadriel, até a Sombra chegar à Floresta. Porém mais tarde, quando Nenya, o principal dos Três, lhe foi enviado por Celebrimbor, Galadriel (conforme pensava.) não mais precisava dela, e a deu a sua filha Celebrían. Foi assim que ela chegou a Arwen e a Aragorn, que foi chamado Elessar.

Ao final está escrito:

A Elessar foi feita em Gondolin por Celebrimbor. e assim chegou a Idril e assim a Earendil. Mas essa desapareceu. Já a segunda Elessar foi também feita por Celebrimbor em Eregion, a pedido da Senhora Galadriel (a quem ele amava), e não estava sujeita ao Um, pois fora feita antes que Sauron se reerguesse.

Essa narrativa acompanha “Acerca de Galadriel e Celeborn” em certas características, e provavelmente foi escrita mais ou menos na mesma época, ou um pouco antes. Aqui Celebrimbor é de novo um palheiro de Gondolin, e não um dos fêanorianos; e menciona-se que Galadriel não queria abandonar a Terra Média — embora o texto depois tenha sido emendado, tendo sido introduzido o conceito da interdição, e em um ponto mais adiante na narrativa ela fala do perdão dos Valar.
Enerdhil não aparece em nenhum outro escrito; e as palavras finais do texto mostram que Celebrimbor deveria tomar seu lugar como fabricante da Elessar em Gondolin. Do amor de Celebrimbor por Galadriel não há vestígio em nenhuma outra parte. Em “Acerca de Galadriel e Celeborn” há a sugestão de que ele teria vindo para Eregion com eles; mas nesse texto, como no Silmarillion, Galadriel encontrou Celeborn em Doriath, e é difícil compreender as palavras de Celebrimbor “apesar de você ter-se voltado para Celeborn das Árvores”. Também é obscura a referência ao fato de Galadriel habitar “sob as árvores da Grande Floresta Verde”. Poder-se-ia interpretar isto como um emprego lato (do qual não há evidências em nenhuma outra parte) da expressão, de modo que incluísse a floresta de Lórien, do outro lado do Anduin; mas “a Sombra chegar à Floresta” sem dúvida refere-se ao surgimento de Sauron em Dol Guldur, que no Apêndice A (III) do Senhor dos Anéis é chamado de “A Sombra na Floresta”. Isso pode sugerir que o poder de Galadriel em certa época se estendia até a parte meridional da Grande Floresta Verde; e pode-se encontrar sustentação para isso em “Acerca de Galadriel e Celeborn”, onde se diz que o reino de Lórinand (Lórien) “se estendia às florestas de ambos os lados do Grande Rio, incluindo a região onde mais tarde foi Dol Guldur”. É possível também que o mesmo conceito esteja na base da afirmativa no Apêndice B do Senhor dos Anéis, na nota que encabeça o Conto dos Anos da Segunda Era, tal como constava da primeira edição: “muitos dos sindar foram para o leste e estabeleceram reinos nas florestas longínquas. Os principais destes eram Thranduil, no norte da Grande Floresta Verde, e Celeborn no sul da floresta”. Na edição revisada, essa observação sobre Celeborn foi omitida, e em seu lugar aparece uma referência ao fato de ele morar em Lindon (citada acima).
Por último, pode-se observar que o poder curativo que aqui se atribui à Elessar nos Portos do Sirion é, no Silmarillion (p. 314), atribuído à Silmaril.

2 comentários:

  1. eu pensei que tinha alguma coisa haver com os legados de lorien kkkkkkkkkkk

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    1. kkkkkkk fiquei imaginando se os autores de Legados de Lorien tiraram o nome daqui, de Senhor dos Anéis...

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