12 de junho de 2016

Capítulo IV - A caçada ao Anel

(i) Da viagem dos Cavaleiros Negros,
de acordo com o relato que
Gandalf fez a Frodo

Gollum foi capturado em Mordor no ano de 3017 e levado a Barad-dûr, tendo lá sido interrogado e torturado. Quando descobriu dele o que queria, Sauron o soltou e o mandou embora outra vez. Não confiava em Gollum, pois adivinhava nele algo indomável que não podia ser derrotado, nem pela Sombra do Medo, a não ser pela destruição. Mas Sauron percebeu a profundidade do rancor de Gollum contra os que o haviam “roubado” e, imaginando que ele iria em busca deles para se vingar, Sauron esperava que seus espiões assim fossem conduzidos ao Anel.
Gollum, no entanto, foi logo capturado por Aragorn e levado ao norte da Floresta das Trevas; e, apesar de seguido, não pôde ser resgatado antes de estar sob custódia segura. Ora, Sauron jamais havia atentado para os “pequenos”, mesmo tendo ouvido falar deles, e ainda não sabia onde ficava sua terra. De Gollum, mesmo submetido a dor, não conseguiu obter nenhum relato claro, tanto porque o próprio Gollum de fato não tinha um conhecimento certo quanto porque falsificava o que sabia.
Ele era em última análise indomável, exceto pela morte, como Sauron imaginava, tanto por sua natureza de pequeno quanto por uma causa que Sauron não compreendia plenamente, visto que ele mesmo era consumido pelo desejo do Anel. Então Gollum se encheu de um ódio por Sauron ainda maior que seu terror, pois nele via de fato seu maior inimigo e rival. Foi assim que ele ousou fingir acreditar que a terra dos Pequenos ficava próxima aos locais onde morara outrora, às margens do Rio de Lis.
Ora, Sauron, sabendo da captura de Gollum por seus principais inimigos, foi tomado de grande pressa e temor. No entanto, todos os seus espiões e emissários costumeiros não conseguiam lhe trazer notícias. E isso em grande parte decorria tanto da vigilância dos dúnedain quanto da traição de Saruman, cujos próprios servos emboscavam ou extraviavam os servos de Sauron. Sauron deu-se conta disso, mas seu braço ainda não era bastante longo para alcançar Saruman em Isengard. Portanto escondeu seu conhecimento da duplicidade de Saruman e ocultou sua ira, aguardando o tempo propício e preparando-se para a grande guerra em que planejava varrer todos os seus inimigos para o mar ocidental. Por fim, resolveu que naquele caso só lhe serviriam os seus servos mais poderosos, os Espectros do Anel, que não tinham vontade senão a dele próprio, já que cada um deles era totalmente subserviente ao anel que o escravizara, que Sauron detinha.
Ora, poucos podiam resistir até mesmo a uma só daquelas cruéis criaturas, e (como Sauron julgava) ninguém podia resistir-lhes quando estavam reunidos sob o comando de seu terrível capitão, o Senhor de Morgul. No entanto, para o propósito atual de Sauron, tinham o seguinte ponto fraco: era tão grande o terror que os acompanhava (mesmo invisíveis e despidos) que sua chegada podia logo ser pressentida, e sua missão adivinhada, pelos Sábios.
Assim foi que Sauron preparou dois golpes — nos quais mais tarde muitos viram as origens da Guerra do Anel. Foram desferidos juntos. Os orcs atacaram o reino de Thranduil com ordens de recapturar Gollum; e o Senhor de Morgul foi enviado abertamente para combater contra Gondor. Essas ações ocorreram perto do final de junho de 3018. Assim Sauron testou a força e o preparo de Denethor, e descobriu que eram maiores do que esperara. Mas isso pouco o perturbou, pois usara pouca força no ataque, e seu principal objetivo era que o surgimento dos Nazgûl parecesse apenas parte de sua política de guerra contra Gondor.
Portanto, quando Osgiliath foi tomada e a ponte foi destruída, Sauron deteve o ataque e ordenou aos Nazgûl que iniciassem a busca do Anel. Mas Sauron não subestimava os poderes e a vigilância dos Sábios, e mandou que os Nazgûl agissem com o máximo sigilo possível. Naquela época, o Líder dos Espectros do Anel habitava em Minas Morgul com seis companheiros enquanto seu segundo, Khamûl, a Sombra do Leste, habitava em Dol Guldur como lugar-tenente de Sauron, com mais um como seu mensageiro.
O Senhor de Morgul, portanto, atravessou o Anduin, conduzindo seus companheiros, despidos, desmontados e invisíveis aos olhos, e, no entanto terríveis para todos os seres vivos que passavam por perto. Era talvez o primeiro dia de julho quando partiram. Passaram devagar e furtivos, através de Anórien, sobre o Vau Ent e pelo Descampado e um rumor de trevas e um terror não se sabia de quê os precediam.
Alcançaram a margem oeste do Anduin um pouco ao norte de Sarn Gebir, como haviam combinado; e ali receberam cavalos e trajes que atravessaram o Rio secretamente numa balsa. Isso foi (pensa-se) por volta de 17 de julho. Então saíram rumo ao norte buscando o Condado, a terra dos Pequenos.
Por volta de 22 de julho, encontraram seus companheiros, os Nazgûl de Dol Guldur, no Campo de Celebrant. Lá souberam que Gollum havia escapado tanto aos orcs que o recapturaram quanto aos elfos que os perseguiam, e tinha desaparecido. Também ficaram sabendo por Khamûl que nenhuma habitação de Pequenos podia ser descoberta nos Vales do Anduin, e que as aldeias dos Grados junto ao Rio de Lis estavam desertas havia muito. Mas o senhor de Morgul, não vendo melhor alternativa, ainda insistia em buscar ao norte, talvez esperando topar com Gollum e também descobrir o Condado. Não lhe parecia improvável que este ficasse perto da odiada terra de Lórien, se é que não estava de fato no interior das cercas de Galadriel. Mas não desejava desafiar o poder do Anel Branco, nem ainda penetrar em Lórien. Portanto, passando entre Lórien e as Montanhas, os Nove cavalgaram sempre para o norte; e o terror os precedia e subsistia atrás deles; mas não encontraram o que buscavam nem souberam de nenhuma notícia que lhes fosse útil.
Por fim retornaram; mas agora havia muito que o verão acabara, e a ira e o temor de Sauron aumentavam. Quando voltaram ao Descampado, setembro chegara; e ali encontraram mensageiros de Barad-dûr que transmitiam ameaças de seu Mestre, que encheram de pavor até mesmo o Senhor de Morgul. Pois Sauron já havia ouvido falar das palavras proféticas escutadas em Gondor, da partida de Boromir, dos atos de Saruman, e da captura de Gandalf. De tudo isso concluiu de fato que nem Saruman, nem qualquer outro dos Sábios, ainda estava de posse do Anel, mas que Saruman ao menos sabia onde ele poderia estar escondido. Agora só a velocidade serviria, e o sigilo teria de ser abandonado.
Portanto, os Espectros do Anel receberam ordens de ir direto a Isengard. Atravessaram, então, Rohan às pressas, e o terror de sua passagem era tão grande que muita gente fugiu da região e partiu em debandada para o norte e o oeste, crendo que a guerra oriunda do leste seguia de perto os cavalos negros.
Dois dias depois de Gandalf ter partido de Orthanc, o Senhor de Morgul deteve-se diante do Portão de Isengard. Então Saruman, já pleno de ira e temor em decorrência da fuga de Gandalf, percebeu o risco de se interpor entre inimigos, sendo traidor conhecido de ambos. Seu pavor era enorme, pois sua esperança de enganar Sauron, ou pelo menos receber seu favor em caso de vitória, perdeu-se totalmente. Agora ele próprio teria de conquistar o Anel ou então cair na ruína e no tormento. Mas ainda era alerta e astuto, e tinha organizado Isengard exatamente para enfrentar uma tal falta de sorte. O Círculo de Isengard era forte demais até mesmo para ser atacado pelo Senhor de Morgul e sua companhia sem grande força militar. Portanto seus desafios e suas exigências foram respondidos apenas pela voz de Saruman, que por alguma arte falava como se viesse do próprio Portão.
— Não é uma terra que buscam — dizia ela. — Sei o que procuram, mesmo que vocês não lhe pronunciem o nome. Eu não o possuo, como seus servos certamente percebem sem o dizer; pois, se o tivesse, vocês se inclinariam diante de mim e me chamariam de Senhor. E, se eu soubesse onde esse objeto está oculto, eu não estaria aqui, mas teria partido muito antes de vocês para tomá-lo. Só há uma pessoa que imagino tenha esse conhecimento-. Mithrandir, inimigo de Sauron. E, já que faz apenas dois dias que ele partiu de Isengard, procurem por ele aqui perto.
O poder da voz de Saruman ainda era tamanho que nem mesmo o Senhor dos Nazgûl questionou o que ela dizia, quer suas palavras fossem falsas, quer estivessem aquém da plena verdade. Ele se afastou de imediato do Portão e começou a caçar Gandalf em Rohan. Assim foi que, na tardinha do dia seguinte, os Cavaleiros Negros toparam com Gríma Língua de Cobra, que se apressava a levar notícias a Saruman de que Gandalf chegara a Edoras, e alertara o Rei Théoden dos desígnios traiçoeiros de Isengard. Naquela hora, o Língua de Cobra quase morreu de terror; mas, habituado à traição, teria dito tudo o que sabia diante de ameaças menores.
— Sim, sim, em verdade posso dizer-lhe, Senhor — disse. — Escutei o que conversavam em Isengard. A terra dos Pequenos: era de lá que Gandalf vinha, e para onde deseja voltar. Agora ele apenas busca um cavalo.
“Poupe-me! Falo com a rapidez possível. Para o oeste atravessando o desfiladeiro de Rohan mais além, e depois rumo ao norte e um pouco a oeste, até que o próximo grande rio impeça o caminho. Chama-se Rio Cinzento. De lá, pela travessia em Tharbad, a antiga estrada os levará à fronteira. 'O Condado', é como o chamam”.
— Sim, em verdade Saruman sabe a respeito. Chegaram-lhe mercadorias dessa terra pela estrada. Poupe-me, Senhor! De fato nada direi sobre nosso encontro a qualquer vivente.
O Senhor dos Nazgûl poupou a vida do Língua de Cobra, não por compaixão, mas porque julgava que ele fora acometido de tão grande terror que jamais ousaria falar de seu encontro (como de fato ocorreu), e via que a criatura era malévola e provavelmente ainda causaria grandes danos a Saruman, caso vivesse. Por isso, deixou-o prostrado no chão e seguiu a cavalo, sem se preocupar em voltar a Isengard. A vingança de Sauron podia esperar.
Dividiu então sua companhia em quatro pares, que cavalgariam separados, mas ele próprio seguiu à frente com o par mais veloz. Assim, saíram de Rohan pelo oeste e exploraram a desolação de Enedwaith, chegando por fim a Tharbad. De lá atravessaram Minhiriath; e, apesar de ainda não estarem reunidos, um rumor de medo se espalhou ao seu redor, e as criaturas selvagens se esconderam, e os homens solitários bateram em fuga. Mas capturaram alguns fugitivos na estrada; e, para deleite do Capitão, descobriram que dois deles eram espiões e servos de Saruman. Um fora frequentemente empregado no tráfico entre Isengard e o Condado, e, apesar de ele mesmo não ter passado além da Quarta Sul, possuía mapas preparados por Saruman que claramente representavam e descreviam o Condado. Os Nazgûl apossaram-se deles e o mandaram prosseguir até Bri para continuar espionando; mas o preveniram de que estava agora a serviço de Mordor; e, se um dia tentasse voltar a Isengard, eles o matariam sob tortura.
A noite estava terminando no dia 22 de setembro quando, reunindo-se outra vez, chegaram ao Vau Sarn e aos limites mais meridionais do Condado. Encontraram-nos vigiados, pois os Guardiões lhes impediam o caminho. Mas essa era uma tarefa além do poder dos dúnedain; e talvez assim tivesse sido mesmo que seu capitão Aragorn estivesse com eles. Mas ele estava longe no norte, na Estrada Leste perto de Bri; e o coração dos próprios dúnedain os deixou apreensivos. Alguns fugiram para o norte, esperando levar notícias a Aragorn, mas foram perseguidos e mortos ou expulsos para os ermos. Alguns ainda se atreveram a fechar o vau e mantiveram posição enquanto durou o dia, mas à noite o Senhor de Morgul os arrasou, e os Cavaleiros Negros entraram no Condado. Antes que os galos cantassem na madrugada do dia 23 de setembro, alguns cavalgavam para o norte através da região, ao mesmo tempo em que Gandalf, montado em Scadufax, cavalgava por Rohan muito atrás deles.


(ii) Outras versões da história

Decidi publicar a versão apresentada acima por ser a narrativa mais bem acabada; mas há muitos outros escritos que dizem respeito a esses eventos, fazendo acréscimos ou modificando a história em detalhes importantes. Esses manuscritos são confusos e suas relações são obscuras, apesar de todos sem dúvida derivarem do mesmo período, e é suficiente notar a existência de dois outros relatos básicos além do recém-mencionado (chamado aqui, por conveniência, de (“A”). Uma segunda versão (“B”) concorda em geral com A na estrutura narrativa, mas uma terceira (“C”), em forma de esboço de enredo, com início num ponto posterior da história, introduz algumas diferenças substanciais, e inclino-me a crer que ela seja a mais recente em ordem de composição. Existe ainda algum material (“D”) que trata mais de perto do papel de Gollum nos acontecimentos, bem como várias outras notas acerca dessa parte da história.
Em D consta que o que Gollum revelou a Sauron sobre o Anel e o lugar onde foi encontrado foi suficiente para prevenir Sauron de que aquele era de fato o Um, mas que, sobre seu paradeiro atual, só conseguiu descobrir que fora roubado nas Montanhas da Névoa por uma criatura chamada Bolsem, e que Boiseiro vinha de uma terra chamada Condado. Os temores de Sauron foram bastante minorados quando percebeu, pelo relato de Gollum, que Bolseiro devia ser uma criatura da mesma espécie.
Gollum não conheceria o termo “hobbit”, que era local e não uma palavra universal em westron. Provavelmente não usaria “Pequeno”, visto que ele mesmo era um, e os hobbits não gostavam desse nome. Foi por isso que, ao que parece, os Cavaleiros só tinham duas informações principais a norteá-los: Condado Bolseiro. Por todos os relatos está claro que Gollum sabia pelo menos em que direção ficava o Condado; mas, se bem que a tortura certamente pudesse arrancar mais dele. Sauron evidentemente não fazia ideia de que Bolseiro vinha de uma região muito distante das Montanhas da Névoa, nem de que Gollum sabia onde ela ficava, e presumiu que ele seria encontrado nos Vales do Anduin, na mesma região em que o próprio Gollum vivera outrora.
Esse foi um engano muito pequeno e natural — mas possivelmente o erro mais importante que Sauron cometeu em todo o caso. Não fosse por ele, os Cavaleiros Negros teriam chegado ao Condado semanas antes.
No texto B conta-se mais sobre a viagem de Aragorn, com Gollum capturado, rumo ao norte até o reino de Thranduil, e consideram-se com maior atenção as dúvidas de Sauron acerca do uso dos Espectros do Anel na busca do Anel.
[Após sua libertação de Mordor] Gollum logo desapareceu nos Pântanos Mortos, aonde os emissários de Sauron não puderam ou não quiseram segui-lo. Nenhum outro espião de Sauron pôde trazer-lhe qualquer notícia. (Sauron provavelmente ainda tinha muito pouco poder em Eriador, e poucos agentes; e os que enviava eram frequentemente tolhidos ou enganados pelos servos de Saruman.) Assim, por fim ele resolveu usar os Espectros do Anel. Relutara em fazê-lo até saber precisamente onde estava o Anel, por várias razões. Eles eram de longe os mais poderosos dentre seus servos, e os mais adequados para uma tal missão, pois estavam inteiramente escravizados por seus Nove Anéis, que ele mesmo detinha agora; eram totalmente incapazes de agir contra sua vontade; e, se um deles, mesmo seu capitão, o Rei dos Bruxos, tivesse se apossado do Um Anel, ele o teria trazido de volta a seu Mestre. Mas apresentavam desvantagens enquanto não começasse a guerra aberta (para a qual Sauron ainda não estava preparado). Todos, exceto o Rei dos Bruxos, estavam sujeitos a se extraviar andando a sós durante o dia; e todos, mais uma vez à exceção do Rei dos Bruxos, temiam a água e relutavam, salvo na mais extrema necessidade, em entrar nela ou atravessar correntezas, a não ser que uma ponte lhes garantisse fazê-lo a seco. Ademais, sua principal arma era o terror. Este era de fato maior quando estavam despidos e invisíveis; e era também maior quando estavam todos juntos. Assim, qualquer missão na qual fossem enviados dificilmente poderia ser executada em segredo, enquanto a travessia do Anduin e de outros rios representava um obstáculo. Por essas razões, Sauron hesitou muito tempo, pois não desejava que seus principais inimigos se dessem conta do mandado de seus servos. Deve-se supor que Sauron inicialmente não sabia que alguém, além de Gollum e do “'ladrão Bolseiro”, tinha qualquer conhecimento sobre o Anel. Até Gandalf chegar e interrogá-lo, Gollum não sabia que Gandalf tinha qualquer ligação com Bilbo. Nem sabia da existência de Gandalf.
Mas, quando Sauron soube da captura de Gollum por seus inimigos, a situação sofreu uma drástica mudança. Evidentemente não se pode saber com certeza quando e como isso aconteceu. É provável que tenha sido muito tempo depois. De acordo com Aragorn, Gollum foi capturado ao cair da noite em 1 de fevereiro. Esperando evitar ser detectado por algum dos espiões de Sauron, ele levou Gollum através do extremo norte das Emyn Muil, e atravessou o Anduin logo acima de Sarn Gebir. Era frequente que ali houvesse madeira flutuante lançada sobre os baixios perto da margem leste; e, amarrando Gollum a um tronco, Aragorn atravessou a nado com ele. Continuou sua viagem rumo ao norte, pelas trilhas mais ocidentais que pôde encontrar, seguindo pelas beiradas de Fangorn, atravessando o Limclaro, depois o Nimrodel e o Veio de Prata, passando pelas bordas de Lórien, e seguindo adiante, evitando Moria e o Vale do Riacho Escuro, atravessou o Rio de Lis até se aproximar do Carrock. Lá voltou a atravessar o Anduin com a ajuda dos beornings e penetrou na Floresta. Toda a viagem, a pé, não ficou muito abaixo de novecentas milhas, e Aragorn a realizou com exaustão em cinquenta dias, alcançando Thranduil no dia 21 de março.
Assim, o mais provável é que as primeiras notícias sobre Gollum tivessem chegado aos servos de Dol Guldur depois de Aragorn entrar na Floresta; pois, embora o poder de Dol Guldur supostamente terminasse na Velha Estrada da Floresta, eram muitos seus espiões no bosque. É claro que a notícia levou algum tempo para chegar ao comandante Nazgûl de Dol Guldur, e ele provavelmente só informou Barad-dûr depois de tentar saber mais sobre o paradeiro de Gollum. Então teria sido sem dúvida no final de abril que Sauron ouviu dizer que Gollum fora visto de novo, aparentemente prisioneiro nas mãos de um homem. Isso podia significar pouca coisa. Nem Sauron nem qualquer dos seus servos ainda tinham conhecimento de Aragorn ou de quem ele era. Porém evidentemente mais tarde (visto que as terras de Thranduil estariam então sob vigilância estrita), talvez um mês mais tarde, Sauron tenha ouvido a notícia inquietante de que os Sábios sabiam de Gollum e de que Gandalf havia entrado no reino de Thranduil.
Então Sauron deve ter-se enchido de ira e apreensão. Decidiu usar os Espectros do Anel assim que fosse possível, pois agora a velocidade era mais importante que o sigilo. Esperando assustar seus inimigos e perturbar seus conselhos com o temor da guerra (que ele não pretendia deflagrar por algum tempo), atacou Thranduil e Gondor quase ao mesmo tempo. Tinha estes dois objetivos adicionais: capturar ou matar Gollum, ou pelo menos privar dele seus inimigos; e forçar a passagem da ponte de Osgiliath, de forma que os Nazgûl pudessem atravessar, enquanto testava a força de Gondor.
Gollum acabou escapando. Mas a passagem da ponte ocorreu. As forças ali empregadas foram provavelmente muito menores do que pensavam os homens de Gondor. No pânico do primeiro ataque, quando foi permitido ao Rei dos Bruxos revelar-se brevemente em seu pleno terror, os Nazgûl atravessaram a ponte à noite e se dispersaram ramo ao norte. Sem menosprezar o valor de Gondor, que Sauron de fato considerou muito maior do que esperara, está claro que Boromir e Faramir conseguiram rechaçar o inimigo e destruir a ponte, apenas porque o ataque agora alcançara seu objetivo principal.
Em nenhum lugar meu pai explicou o terror que os Espectros do Anel sentiam pela água. No relato recém-mencionado este torna-se um importante motivo para o ataque de Sauron a Osgiliath, e ele ressurge em notas detalhadas sobre os movimentos dos Cavaleiros Negros no Condado: assim, diz-se do Cavaleiro (que era de fato Khamûl de Dol Guldur, vide nota 1) visto do lado oposto da Balsa de Buqueburgo, logo depois que os hobbits atravessaram (A Sociedade do Anel, I, V), que “ele estava bem consciente de que o Anel atravessara o rio; mas o rio era uma barreira ao seu senso de movimento”, e os Nazgûl não queriam tocar as águas “élficas” do Baranduin. Mas não está claro como atravessaram outros rios que ficavam em seu caminho, tais como o Rio Cinzento, onde havia apenas “um arriscado vau formado pelas ruínas da ponte”. De fato, meu pai observou que a ideia era difícil de sustentar.
O relato, na versão B, da vã viagem dos Nazgûl pelos Vales do Anduin acima, é bem parecido com o apresentado acima na íntegra (A), mas com a diferença de que em B os povoados dos Grados não estavam inteiramente desertos naquela época; e os Grados que ali viviam foram mortos ou expulsos pelos Nazgúl'. Em todos os textos, as datas precisas divergem ligeiramente entre si e das indicadas no Conto dos Anos. Essas diferenças não são consideradas aqui.
Em D encontra-se um relato de como Gollum viveu após escapar dos orcs de Dol Guldur e antes que a Sociedade entrasse pelo Portão Oeste de Moria. Está mal-acabado e necessitou de algumas pequenas revisões editoriais.
Parece claro que, perseguido tanto pelos elfos quanto pelos orcs, Gollum atravessou o Anduin, provavelmente a nado, e assim esquivou-se da caçada de Sauron; mas, visto que era ainda caçado pelos elfos e não ousava passar perto de Lórien (somente a atração do próprio Anel fez com que mais tarde ousasse fazer isso), escondeu-se em Moria. Isso foi provavelmente no outono daquele ano; daí em diante perderam-se todos os vestígios dele.
Evidentemente não se pode saber ao certo o que aconteceu com Gollum em seguida. Gollum possuía uma aptidão peculiar para sobreviver em tais apuros, mesmo que à custa de grande aflição; mas corria enorme risco de ser descoberto pelos servos de Sauron que espreitavam em Moria, especialmente porque a pouca comida de que necessitava só podia ser obtida por meio de furtos arriscados. Sem dúvida pretendera usar Moria simplesmente como passagem secreta rumo ao oeste, tendo como propósito encontrar o “Condado” o mais depressa possível; mas perdeu-se, e passou muito tempo antes que conseguisse se orientar. Assim, parece provável que não alcançara o Portão Oeste havia muito tempo quando os Nove Andantes chegaram. Nada sabia, é claro, sobre a ação das portas. A ele deviam parecer enormes e imóveis; e, apesar de não terem fechadura nem tranca, e se abrirem para fora quando empurradas, ele não descobriu isso.
Fosse como fosse, estava agora longe de qualquer fonte de comida, pois os orcs ficavam principalmente na extremidade leste de Moria, e tornara-se fraco e desesperado, de forma que, mesmo que soubesse tudo acerca das portas, ainda assim não teria conseguido abrilas. Foi, portanto, uma sorte singular para Gollum que os Nove Andantes chegassem quando chegaram.
A história da chegada dos Cavaleiros Negros a Isengard em setembro de 3018, e da subsequente captura de Gríma Língua de Cobra, conforme contada em A e B, está muito alterada na versão C, que só retoma a narrativa quando eles voltam rumo ao sul na travessia do Limclaro. Em A e B foi dois dias após a fuga de Gandalf de Orthanc que os Nazgûl chegaram a Isengard; Saruman disse-lhes que Gandalf se fora, e negou qualquer conhecimento do Condado, mas foi traído por Gríma, que eles capturaram no dia seguinte enquanto corria para Isengard com notícias da chegada de Gandalf a Edoras. Em C, por outro lado, os Cavaleiros Negros chegaram ao Portão de Isengard enquanto Gandalf ainda estava prisioneiro na torre. Nesse relato, Saruman, temeroso e desesperado, e percebendo o pleno horror da servidão a Mordor, resolveu subitamente ceder diante de Gandalf e implorar seu perdão e sua ajuda. Contemporizando ao Portão, confessou que Gandalf estava dentro e disse que tentaria descobrir o que este sabia. Se isso de nada adiantasse, entregaria Gandalf a eles. Então Saruman foi às pressas ao topo de Orthanc – e descobriu que Gandalf se fora. Para o sul,  com a lua poente ao fundo, ele viu uma grande Águia voando em direção a Edoras.
Agora o caso de Saruman piorara. Se Gandalf tinha escapado, ainda havia uma probabilidade real de que Sauron não conseguiria o Anel e seria derrotado. Em seu coração, Saruman reconhecia o grande poder e a estranha “boa sorte” que acompanhavam Gandalf. Mas agora estava sozinho para lidar com os Nove. Sua disposição mudou, e seu orgulho reafirmou-se em ira aliada a um acesso de inveja diante da fuga de Gandalf da impenetrável Isengard. Voltou ao Portão e mentiu, dizendo que fizera Gandalf confessar.
Não admitiu que aquele era seu próprio conhecimento, pois não estava a par do quanto Sauron sabia da sua mente e do seu coração.
 — Eu mesmo relatarei isto ao Senhor de Barad-dûr — disse altivo —, a quem falo de longe sobre assuntos importantes que nos dizem respeito. Mas tudo o que precisam saber na missão que lhes confiou é onde fica “o Condado”. Isso, diz Mithrandir, é a noroeste daqui, a umas seiscentas milhas, nos limites da região élfica perto do mar.
— Para seu prazer. Saruman viu que isso não agradou nem mesmo ao Rei dos Bruxos. — Precisam atravessar o Isen pelos Vaus, e depois, contornando o fim das Montanhas, dirigir-se a Tharbad no Rio Cinzento. Vão depressa, e relatarei ao seu Mestre que assim fizeram.
Essa hábil fala convenceu até mesmo o Rei dos Bruxos, por aquele momento, de que Saruman era um aliado fiel, de extrema confiança de Sauron. Os Cavaleiros deixaram o Portão imediatamente e cavalgaram a toda para os Vaus do Isen. Atrás deles, Saruman mandou lobos e orcs em vã perseguição a Gandalf; mas nisso tinha também outros propósitos: o de impressionar os Nazgûl com seu poderio, talvez também o de evitar que se detivessem por perto; e em sua ira desejava causar algum dano a Rohan, e aumentar o medo dele que seu agente Língua de Cobra estava construindo no coração de Théoden. Língua de Cobra estivera em Isengard fazia pouco, e estava então retornando a Edoras; entre os perseguidores havia alguns que lhe levavam mensagens.
Quando se livrou dos Cavaleiros, Saruman fechou-se em Orthanc e permaneceu sentado em meditação austera e terrível. Parece que se decidiu a contemporizar ainda, e ainda a esperar obter o Anel para si. Pensava que, dirigindo os Cavaleiros para o Condado, haveria de impedi-los, não ajudá-los, pois sabia da vigia dos Guardiões, e cria também (conhecendo as palavras oraculares do sonho e a missão de Boromir) que o Anel se fora e já estava a caminho de Valfenda. Imediatamente reuniu e enviou para Eriador todos os espiões, pássaros sentinelas e agentes que pôde convocar.
Nessa versão, portanto, está ausente o elemento da captura de Gríma pelos Espectros do Anel e de sua traição contra Saruman; pois, de acordo com esse relato, está claro que não há tempo suficiente para Gandalf alcançar Edoras e tentar avisar o Rei Théoden, nem para Gríma, por sua vez, partir para Isengard para avisar Saruman, antes de os Cavaleiros Negros deixarem Rohan. Aqui a revelação de que Saruman lhes mentira acontece através do homem que capturaram e descobriram levar mapas do Condado; e diz-se mais sobre esse homem e os negócios de Saruman com o Condado.
Quando os Cavaleiros Negros haviam avançado muito Enedwaith adentro e se aproximavam por fim de Tharbad, tiveram o que foi um grande golpe de sorte para eles, porém desastroso para Saruman, e mortalmente arriscado para Frodo. Por muito tempo. Saruman sentira interesse pelo Condado — porque Gandalf se interessava, e Saruman suspeitava dele. Também porque (mais uma vez imitando Gandalf em segredo) passara a apreciar a “folha dos Pequenos”, e precisava de suprimentos, mas por orgulho (visto que certa vez zombara do uso da erva por Gandalf.) mantinha o máximo segredo a esse respeito. Em épocas mais recentes acrescentaram-se outros motivos.
Gostava de estender seu poderio, especialmente para invadir a espera de ação de Gandalf, e descobriu que o dinheiro que podia fornecer para a compra da “erva” lhe dava poder, e corrompia alguns dos hobbits, em especial os Justa-Correias, que possuíam muitas plantações, e da mesma forma os Sacola-Bolseiros. Mas também começara a ter certeza de que, de algum modo, o Condado estava ligado ao Anel na mente de Gandalf. Por que essa forte guarda em seu redor? Portanto começou a coletar informações detalhadas sobre o
Condado, suas pessoas e famílias principais, suas estradas e outros assuntos. Para tanto usava hobbits de dentro do Condado, a soldo dos Justa-Correias e dos Sacola-Bolseiros, mas seus agentes eram homens, de origem terrapardense. Quando Gandalf se recusara a negociar com ele, Saruman redobrara seus esforços. Os Guardiões tinham suspeitas, mas não chegavam a proibir a entrada aos servos de Saruman — pois Gandalf não estava disponível para avisá-los; e, quando se fora a Isengard, Saruman ainda era reconhecido como aliado.
Algum tempo antes, um dos servos mais confiáveis de Saruman (porém um indivíduo desordeiro, um proscrito da Terra Parda, onde muitos diziam que tinha sangue de orc) voltara das fronteiras do Condado, onde estivera negociando a compra de “erva” e outros suprimentos. Saruman começava a abastecer Isengard para o caso de guerra. Aquele homem estava então voltando para dar prosseguimento aos negócios e para organizar o transporte de muitas mercadorias antes que o outono acabasse. Também tinha ordens para entrar no Condado, se possível, e descobrir se houvera alguma partida recente de pessoas bem conhecidas. Estava bem suprido de mapas, listas de nomes e notas acerca do Condado.
Esse terrapardense foi alcançado por vários Cavaleiros Negros quando estes se aproximavam da travessia de Tharbad. Em extremo terror, foi arrastado até o Rei dos Bruxos e interrogado. Salvou a vida traindo Saruman. Assim, o Rei dos Bruxos descobriu que Saruman sabia muito bem, todo o tempo, onde ficava o Condado, e sabia muitas coisas a seu respeito que poderia e deveria ter contado aos servos de Sauron se fosse um aliado fiel. O Rei dos Bruxos também obteve muitas informações, incluindo algumas sobre o único nome que lhe interessava: Bolseiro. Foi por essa razão que a Vila dos Hobbits foi designada como um dos pontos para visita e interrogatório imediatos.
O Rei dos Bruxos tinha agora uma compreensão mais clara do assunto. Muito tempo atrás conhecera algo sobre a região, em suas guerras contra os dúnedain, e especialmente sobre as Tyrn Gorthad de Cardolan, agora as Colinas dos Túmulos, cujos espíritos malignos ele mesmo mandara para lá. Vendo que seu Mestre suspeitava de algum movimento entre o Condado e Valfenda, viu também que Bri (cuja posição conhecia) seria um ponto importante, ao menos para informações. Portanto lançou a Sombra do terror sobre o terrapardense e o enviou a Bri como agente. Era ele o sulista vesgo na estalagem.
Na versão B está mencionado que o Capitão Negro não sabia se o Anel ainda estava no Condado; que tinha de descobrir. O Condado era muito grande para uma investida violenta como a que fizera contra os Grados. Precisava recorrer ao máximo de segredo e ao mínimo de terror possível, e ainda assim vigiar os limites do leste. Portanto mandou alguns Cavaleiros entrar no Condado, com ordens de se dispersarem ao atravessá-lo; e entre eles Khamûl deveria encontrar a Vila dos Hobbits (vide nota 1), onde vivia “Bolseiro”, de acordo com os papéis de Saruman. Mas o Capitão Negro estabeleceu um acampamento em Andrath, onde o Caminho Verde passava por um desfiladeiro entre as Colinas dos Túmulos e as Colinas do Sul; e de lá outros foram enviados para vigiar e patrulhar os limites do leste, enquanto ele próprio visitava as Colinas dos Túmulos. Em notas sobre os movimentos dos Cavaleiros Negros naquela época está dito que o Capitão Negro permaneceu lá por alguns dias, e que as Criaturas Tumulares foram despertadas, e todas as coisas de espírito maligno, hostis aos elfos e aos homens, estavam em alerta com malevolência na Floresta Velha e nas Colinas dos Túmulos.


(iii) Acerca de Gandalf, de Saruman e do Condado

Outro conjunto de papéis do mesmo período consiste em um grande número de relatos inacabados sobre os negócios anteriores entre Saruman e o Condado. Especialmente no que diziam respeito à “'erva dos Pequenos”, assunto que com relação ao “sulista vesgo”. O texto seguinte é uma versão dentre muitas, mas é a mais bem-acabada, apesar de mais breve que outras.
Saruman logo ficou com inveja de Gandalf, e essa rivalidade por fim se transformou em ódio, mais profundo por estar oculto, e mais amargo porque Saruman sabia em seu coração que o Caminheiro Cinzento tinha maior força e maior influência sobre os habitantes da Terra Média, embora escondesse seu poder e não desejasse nem temor nem reverência. Saruman não o reverenciava, mas passou a temê-lo, pois estava sempre inseguro quanto até que ponto Gandalf percebia o íntimo de sua mente perturbando-se mais com seus silêncios que com suas palavras. Assim era que abertamente tratava Gandalf com menos respeito que outros dentre os Sábios, e estava sempre pronto a contradizê-lo ou a fazer pouco de seus conselhos. Em segredo, porém, notava e ponderava tudo o que ele dizia, mantendo guarda, o mais que podia, sobre todos os seus movimentos.
Foi dessa maneira que Saruman veio a reparar nos Pequenos e no Condado, que de outro modo teria julgado indignos de sua atenção. Inicialmente não imaginava que o interesse de seu rival por aquele povo estivesse de algum modo relacionado às grandes preocupações do Conselho, e muito menos aos Anéis de Poder. Pois de fato no começo tal relação não existia, e o interesse de Gandalf devia-se apenas ao amor que sentia pelo Povo Pequeno, a não ser que seu coração tivesse alguma premonição profunda fora do alcance de seus pensamentos despertos. Por muitos anos, visitou o Condado abertamente e falava sobre sua gente a quem quisesse ouvir; e Saruman sorria, como que ante as histórias ociosas de um velho andarilho, mas prestava atenção ainda assim.
Vendo então que Gandalf considerava o Condado digno de uma visita, o próprio Saruman o visitou, porém disfarçado e no mais absoluto sigilo, até ter explorado e observado todos os seus costumes e terras, e pensar que descobrira tudo o que havia para saber a respeito. E, mesmo quando lhe pareceu que ir até lá não era mais nem prudente nem proveitoso, ainda tinha espiões e serviçais que lá entravam ou mantinham sob vigilância suas fronteiras. Pois ainda tinha suspeitas. Ele mesmo decaíra tanto que cria que cada um dos demais membros do Conselho tinha suas políticas profundas e de longo alcance para o próprio engrandecimento, e que tudo o que faziam de algum modo se referia a elas. Assim, quando muito tempo depois descobriu algo sobre o achamento do Anel de Gollum pelo Pequeno, só conseguia acreditar que Gandalf soubera disso o tempo todo; e esse era seu maior ressentimento, pois considerava território seu tudo o que dissesse respeito aos Anéis. Sua ira não foi nem um pouco diminuída por ser merecida e justa a desconfiança que Gandalf sentia dele.
Na realidade, porém, na verdade a espionagem e o grande sigilo de Saruman não tinham no começo um propósito maligno, mas eram tão-somente uma insensatez nascida do orgulho. Assuntos pequenos, aparentemente indignos de serem relatados, podem ainda demonstrar sua grande importância antes do fim. Para dizer a verdade, ao observar a predileção de Gandalf pela erva que chamava de “erva-de-fumo” (pela qual, dizia, se não por nada mais, o Povo Pequeno deveria merecer honrarias). Saruman fingira zombar dela, mas em particular a experimentou, e logo passou a usá-la. Por esse motivo, o Condado mantinha sua importância para ele. No entanto, ele temia que isso fosse descoberto, e que sua própria zombaria se voltasse contra ele, de forma que seria ridicularizado por imitar Gandalf, e desprezado por fazê-lo em segredo. Essa era portanto a razão para seu grande sigilo em todos os seus negócios com o Condado, mesmo desde o início, antes que qualquer sombra de dúvida tivesse surgido a respeito do local, quando era pouco vigiado, livre para os que desejassem entrar. Também por esse motivo Saruman deixou de ir até lá em pessoa; pois ficou sabendo que não passara inteiramente despercebido dos Pequenos de vista aguçada, e alguns, vendo o vulto como que de um velho em traje cinzento ou castanho-avermelhado, esgueirando-se pelos bosques ou passando pela penumbra, haviam-no confundido com Gandalf.
Depois disso, Saruman não foi mais ao Condado, temendo que tais histórias se espalhassem e talvez chegassem aos ouvidos de Gandalf. Mas Gandalf sabia dessas visitas, e adivinhava seu objetivo. E ria, pensando que esse era o mais inofensivo dos segredos de Saruman; mas nada disse aos outros, pois nunca era seu desejo envergonhar qualquer pessoa. No entanto, não ficou desagradado quando as visitas de Saruman cessaram, pois já suspeitava dele; mas nem o próprio Gandalf era capaz de prever que chegaria uma época em que o conhecimento de Saruman sobre o Condado demonstraria ser perigoso e da maior utilidade para o Inimigo, trazendo a vitória até muito perto do seu alcance.
Em outra versão está descrita a ocasião em que Saruman zombou abertamente do uso da “erva-de-fumo” por Gandalf: Ora, por causa de sua aversão e seu medo, nos tempos posteriores, Saruman evitava Gandalf, e os dois raramente se encontravam, salvo nas assembleias do Conselho Branco. Foi no grande Conselho realizado em 2851 que pela primeira vez se falou na “erva dos Pequenos”, e na época o assunto foi considerado divertido, apesar de mais tarde ser relembrado a uma luz diferente. O Conselho reuniu-se em Valfenda, e Gandalf ficou sentado à parte, em silêncio, mas fumando prodigiosamente (algo que nunca fizera até então em ocasiões semelhantes), enquanto Saruman falava contra ele, e insistia em que, contrariando o conselho de Gandalf, Dol Guldur ainda não fosse molestado. Tanto o silêncio quanto a fumaça pareciam incomodar Saruman enormemente; e, antes que o Conselho se dispersasse, ele disse a Gandalf:
 — Quando assuntos de peso estão em debate, Mithrandir, espanta-me um pouco que você se divirta com seus brinquedos de fogo e fumaça, enquanto outros debatem a sério.
Mas Gandalf riu e respondeu:
— Não se espantaria se você mesmo usasse esta erva. Descobriria que a fumaça soprada limpa sua mente das sombras interiores. Seja como for, ela confere paciência, para escutar os desacertos sem se enraivecer. Mas não é um dos meus brinquedos. É uma arte do Povo Pequeno lá no oeste: gente alegre e valorosa, apesar de ter pouca importância, quem sabe, nas suas altas políticas.
Saruman ficou pouco aplacado com esta resposta (pois odiava a zombaria, por muito comedida que fosse), e disse então com frieza:
— Está brincando, Senhor Mithrandir, como costuma fazer. Sei muito bem que se tornou um curioso explorador do miúdo: plantinhas, criaturas selvagens e gente pueril. Gaste seu tempo como quiser, se não tem nada de mais valia para fazer; e pode fazer os amigos que bem entender. Mas a ocasião me parece demasiado sombria para histórias de viandantes, e não tenho tempo para as ervas dos camponeses.
Gandalf não riu outra vez e não respondeu, mas, olhando atentamente para Saruman, deu uma tragada no cachimbo e emitiu um grande anel de fumaça, com muitos anéis menores a segui-lo. Então ergueu a mão como quem quisesse agarrá-los, e eles desapareceram. Com isso, levantou-se e deixou Saruman sem mais palavra; mas Saruman permaneceu em silêncio por algum tempo, e seu rosto estava carregado de dúvida e desagrado.
Essa história aparece em meia dúzia de manuscritos diferentes, e em um deles consta que Saruman tinha suspeitas, imaginando se interpretara corretamente o significado do gesto de Gandalf com os anéis de fumaça (acima de tudo, se demonstrava alguma conexão ente os Pequenos e o importante assunto dos Anéis de Poder, por muito improvável que isso parecesse); e duvidando que alguém tão importante pudesse se ocupar de um povo como os Pequenos, apenas em consideração a eles próprios.
Em outro trecho (riscado), o propósito de Gandalf é explicitado: Foi uma estranha coincidência que, irado com sua insolência. Gandalf tivesse escolhido aquele modo de mostrar a Saruman sua suspeita de que o desejo de possuí-los houvesse começado a entrar em suas políticas e seu estudo da tradição dos Anéis; e de avisá-lo de que eles lhe escapariam. Pois não se pode duvidar de que Gandalf ainda não imaginasse que os Pequenos (e muito menos seu hábito de fumar) tivessem qualquer conexão com os Anéis. Se tivesse alguma ideia nesse sentido, certamente não teria feito o que fez então. No entanto, mais tarde, quando os Pequenos de fato foram envolvidos naquele assunto importantíssimo, Saruman só pôde acreditar que Gandalf tivera conhecimento ou premonição dele, e escondera o conhecimento dele e do Conselho — exatamente com a finalidade que Saruman conceberia: obter a posse e adiantar-se a ele.
No Conto dos Anos, o registro de 2851 refere-se à reunião do Conselho Branco naquele ano, quando Gandalf recomendou um ataque a Dol Guldur, mas seu voto foi indeferido por Saruman; e uma nota de rodapé desse registro diz: “Posteriormente ficou claro que Saruman começara então a desejar o Um Anel para si próprio, e esperava que ele pudesse se revelar, procurando seu mestre, se Sauron fosse deixado em paz por um tempo”. A história precedente demonstra que o próprio Gandalf suspeitava de que Saruman tivesse esse desejo à época do Conselho de 2851; porém meu pai mais tarde comentou que parecia, pela história contada por Gandalf ao Conselho de Elrond sobre seu encontro com Radagast, que ele não tinha sérias suspeitas de que Saruman fosse um traidor (ou desejasse o Anel para si) antes que ele, Galdalf, fosse aprisionado em Orthanc.

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