12 de junho de 2016

Capitulo III - Os palantíri

Os palantíri sem dúvida nunca foram objetos de uso comum ou conhecimento comum, mesmo em Númenor. Na Terra Média eram mantidos em salas vigiadas, no alto de torres fortificadas. Somente reis e governantes, além de seus guardiões designados, tinham acesso a eles; e jamais eram consultados, nem exibidos, em público. Mas até o desaparecimento dos Reis não eram segredos sinistros. Seu uso não envolvia risco, e nenhum rei ou outra pessoa autorizada a consultá-los teria hesitado em revelar a fonte de seu conhecimento sobre os atos ou as opiniões de governantes distantes, caso fosse obtido através das Pedras.
Depois dos dias dos Reis. e a perda de Minas Ithil, não há mais menção de seu uso aberto e oficial. Não restava no norte Pedra que respondesse após o naufrágio de Arvedui Último-Rei no ano cie 1975. Em 2002 a pedra de Ithil foi perdida. Restavam então somente a Pedra de Anor em Minas Tirith e a Pedra de Orthanc.
Dois fatores contribuíram então para as pedras serem negligenciadas e desaparecerem da memória geral do povo. O primeiro foi a ignorância do que ocorrera com a Pedra de Ithil: supunha-se razoavelmente que tivesse sido destruída pelos defensores antes que Minas Ithil fosse capturada e saqueada; mas evidentemente era possível que tivesse sido apanhada e chegado à posse de Sauron, e alguns dos mais sábios e previdentes podem ter considerado isso. Parece que assim fizeram e perceberam que a Pedra de pouco lhe valeria para causar dano a Gondor, a não ser que fizesse contato com outra Pedra que estivesse em consonância com ela. Foi por essa razão, pode-se supor, que a Pedra de Anor, acerca da qual todos os registros dos Regentes silenciam até a Guerra do Anel, foi mantida sob o mais estrito sigilo, acessível apenas aos Regentes Governantes e nunca usada por eles (ao que conste) antes de Denethor II.
A segunda razão foi a decadência de Gondor e a diminuição do interesse pela história antiga, ou conhecimento dela, entre todos, exceto alguns, mesmo entre a elite do reino, salvo no que dizia respeito às suas genealogias: sua ascendência e seus parentescos. Depois dos Reis, Gondor declinou e caiu em uma “Idade Média” de conhecimento minguante e habilidades mais simples. As comunicações dependiam de mensageiros e estafetas, ou, em tempos de urgência, de faróis. E. se as Pedras de Anor e Orthanc ainda eram guardadas como tesouros do passado, cuja existência era do conhecimento de somente alguns, as Sete Pedras de outrora estavam em geral esquecidas pelo povo, e os versos tradicionais que as mencionavam, caso lembrados, não eram mais compreendidos.
Nas lendas, suas operações foram transformadas nos poderes élficos dos antigos reis, com seus olhos penetrantes, e nos velozes espíritos semelhantes a aves que os serviam, trazendo-lhes notícias ou portando suas mensagens.
Nessa época, parece que os Regentes havia muito tempo descuravam da Pedra de Orthanc: ela não tinha mais nenhuma serventia para eles e estava segura em sua torre impenetrável. Mesmo que também ela não tivesse sido obscurecida pela dúvida acerca da Pedra de Ithil, ficava em uma região de que Gondor cada vez menos se ocupava diretamente. Calenardhon, nunca densamente povoada, havia sido devastada pela Peste Negra de 1636, e depois disso foi continuamente privada de habitantes de ascendência númenoriana pela migração a Ithilien e terras mais próximas ao Anduin. Isengard permanecia como propriedade pessoal dos Regentes, mas Orthanc propriamente dita ficara deserta, e acabou sendo fechada, tendo suas chaves sido levadas para Minas Tirith.
Se o Regente Beren teve alguma recordação da Pedra quando as entregou a Saruman, provavelmente pensou que ela não podia estar em mãos mais seguras que as do chefe do Conselho oposto a Sauron.
Saruman sem dúvida obtivera. por suas investigações, um conhecimento especial das Pedras, objetos que lhe atrairiam a atenção, e se convencera de que a Pedra de Orthanc estava ainda intacta em sua torre. Conseguiu as chaves de Orthanc em 2759, nominalmente como guardião da torre e lugar-tenente do Regente de Gondor. Naquela época, o assunto da Pedra de Orthanc dificilmente preocuparia o Conselho Branco.
Apenas Saruman, tendo conquistado o favor dos Regentes, já tinha efetuado estudos suficientes dos registros de Gondor para perceber o interesse dos palantíri e os possíveis usos dos que restavam; mas nada disse sobre isso a seus colegas. Em decorrência da inveja e do ódio que sentia por Gandalf, Saruman deixou de cooperar com o Conselho, que se reuniu pela última vez em 2953. Sem qualquer declaração formal, Saruman apossou-se então de Isengard como seu próprio domínio e não deu mais atenção a Gondor. O Conselho sem dúvida reprovou esse ato; mas Saruman era independente e tinha o direito, caso desejasse, de agir com autonomia de acordo com sua própria política na resistência contra Sauron.
O Conselho em geral deve de outro modo ter tido conhecimento das Pedras e sua antiga disposição, mas não considerava que tivessem muita importância no presente: eram objetos que pertenciam à história dos Reinos dos Dúnedain, maravilhosos e admiráveis, mas agora, em sua maioria, perdidos ou tornados de pouco uso. Deve-se recordar que as Pedras originalmente eram “inocentes” e não serviam a propósitos malignos. Foi Sauron quem as tornou sinistras, e instrumentos de dominação e fraude.
Embora o Conselho (alertado por Gandalf) possa ter começado a duvidar das intenções de Saruman a respeito dos Anéis, nem mesmo Gandalf sabia que ele se tornara um aliado, ou servo, de Sauron. Isso só foi descoberto por Gandalf em julho de 3018. Mas, apesar de Gandalf nos últimos anos ter ampliado seu conhecimento, e o do Conselho, sobre a história de Gondor pelo estudo de seus documentos, a principal preocupação de Gandalf e do Conselho ainda era o Anel: as possibilidades latentes nas Pedras não eram percebidas. É evidente que, à época da Guerra do Anel, não fazia muito tempo que o Conselho se dera conta da dúvida acerca do destino da Pedra de Ithil, e deixou (algo compreensível até em pessoas tais como Elrond, Galadriel e Gandalf, sob o peso de suas preocupações) de avaliar seu significado, de considerar o que poderia resultar casa Sauron se apossasse de uma das Pedras, e qualquer outra pessoa então fizesse uso de outra. Foi necessária a demonstração em Dol Baran dos efeitos da Pedra de Orthanc sobre Peregrin para revelar subitamente que a “ligação” entre Isengard e Barad-dûr (cuja existência foi comprovada depois que se descobriu que tropas de Isengard haviam se unido a outras dirigidas por Sauron no ataque à Sociedade em Parth Galen) era de fato a Pedra de Orthanc — e um outro palantír.
Em sua fala a Peregrin, ambos cavalgando em Scadufax a partir de Dol Baran (As Duas Torres, III, XI), o objetivo imediato de Gandalf foi dar ao hobbit alguma ideia da história dos palantíri, para que pudesse começar a perceber a antiguidade, a dignidade e o poder das coisas com que tivera a presunção de interferir. Não estava preocupado em exibir seus próprios processos de descoberta e dedução, exceto em seu último ponto: explicar como Sauron chegara a controlá-las, de forma que era perigoso para qualquer um usá-las, por muito nobre que fosse. Mas a mente de Gandalf ao mesmo tempo ocupava-se seriamente das Pedras, considerando a influência da revelação de Dol Baran sobre muitas coisas que observara e ponderara: tais como o amplo conhecimento de eventos longínquos que Denethor possuía, e sua aparência de velhice prematura, que primeiro se observou quando não tinha muito mais que sessenta anos, embora pertencesse a uma raça e a uma família que ainda tinham normalmente vida mais longa que outros homens. Sem dúvida, a pressa de Gandalf em chegar a Minas Tirith, além da urgência do tempo e da iminência da guerra, foi aumentada por seu súbito temor de que Denethor também tivesse feito uso de um palantír, a Pedra de Anor, e por seu desejo de avaliar que efeito isso tivera sobre ele: se no teste crucial da guerra desesperada não seria demonstrado que ele (como Saruman) não mais merecia confiança e poderia se render a Mordor. As conversas de Gandalf com Denethor quando chegou em Minas Tirith e nos dias seguintes, e tudo que se relata que dialogaram, devem ser vistas à luz dessa dúvida na mente de Gandalf*.
A importância do palantír de Minas Tirith em seus pensamentos começara, portanto apenas com a experiência de Peregrin em Dol Baran. Mas seu conhecimento ou suposições sobre sua existência eram naturalmente muito mais antigos. Pouco se sabe da história de Gandalf antes do fim da Paz Vigilante (2460) e da formação do Conselho Branco (2463), e seu interesse especial por Gondor parece ter-se mostrado somente depois que Bilbo encontrou o Anel (2941) e Sauron retornou abertamente a Mordor (2951). Sua atenção estava então (como a de Saruman) concentrada no Anel de Isildur; mas em suas leituras nos arquivos de Minas Tirith pode-se supor que tenha aprendido muito sobre os palantíri de Gondor, porém com apreciação menos imediata de sua possível importância do que a demonstrada por Saruman, cuja mente, em contraste com a de Gandalf, sempre fora mais atraída por artefatos e instrumentos de poder que por pessoas. Ainda assim, àquela época Gandalf provavelmente já sabia mais que Saruman sobre a natureza e origem primeira dos palantíri, pois tudo que dizia respeito ao antigo reino de Arnor e à história posterior daquelas regiões era sua província especial, e Gandalf estava em estreita aliança com Elrond.
Mas a Pedra de Anor tornara-se um segredo: nenhuma menção de seu destino após a queda de Minas Ithil aparecia em qualquer dos anais ou registros dos Regentes. A história de fato esclareceria que nem Orthanc nem a Torre Branca de Minas Tirith jamais haviam sido capturadas nem saqueadas por inimigos, e que, portanto, seria possível supor haver grande probabilidade de as Pedras estarem intactas e permanecerem em seus antigos locais; mas não se podia ter certeza de que não haviam sido removidas pelos Regentes, e talvez “enterradas” fundo em alguma câmara secreta de tesouro, até mesmo em algum último refúgio oculto nas montanhas, comparável ao Templo da Colina.
Devia ter sido relatado que Gandalf disse que não pensara que Denethor ousara usá-la, até perder sua sabedoria. Não podia afirmar isso como fato conhecido, pois quando e por que motivo Denethor se atrevera a usar a Pedra era e ainda é assunto paraconjetura. Gandalf bem podia ter a opinião que tinha sobre esse assunto, mas é provável, considerando Denethor e o que se diz dele, que este tenha começado a usar a Pedra de Anor muitos anos antes de 3019, e antes de Saruman ousar ou crer útil usar a Pedra de Orthanc. Denethor assumiu a Regência em 2984, tendo então a idade de 54 anos: um homem autoritário, ao mesmo tempo sábio e erudito além da medida daqueles tempos, e voluntarioso, confiante em seus próprios poderes, e intrépido. Aos outros seu lado “sombrio” passou a ser observável depois que sua esposa Finduilas morreu em 2988, mas parece bastante evidente que se voltara para a Pedra de imediato, assim que assumiu o poder, tendo estudado por muito tempo o assunto dos palantíri e as tradições a respeito deles e de seu uso, preservadas nos arquivos especiais dos Regentes, aos quais tinha acesso, além do Regente Governante, apenas seu herdeiro. Durante o final do governo de seu pai, Ecthelion II, ele deve ter desejado muito consultar a Pedra, à medida que aumentava a ansiedade em Gondor, enquanto sua própria posição se enfraquecia pela fama de “Thorongil” e os favores que seu pai lhe concedia. Pelo menos um dos seus motivos deve ter sido a inveja de Thorongil, bem como a hostilidade a Gandalf, ao qual seu pai dava muita atenção durante a influência de Thorongil. Denethor desejava exceder esses “usurpadores” em conhecimento e informação, e também, se possível, mantê-los sob vigilância quando estavam em outros lugares.
É preciso distinguir a tensão alquebrante de quando Denethor se defrontou com Sauron da tensão geral do uso da Pedra. Esta última Denethor acreditava poder suportar (e não sem razão). É quase certo que o confronto com Sauron não ocorreu por muitos anos, e é provável que, de início, nunca tenha sido contemplado por Denethor. Para os usos dos palantíri, e a diferença entre seu uso solitário para “ver” e seu uso para inter-comunicaçáo com outra Pedra e seu “observador”'. Depois de adquirir a técnica, Denethor pôde descobrir muito sobre eventos distantes apenas pelo uso da Pedra de Anor e, mesmo depois de Sauron se dar conta de suas operações, ainda podia fazê-lo, enquanto mantivesse a força para controlar sua Pedra para seus próprios fins, a despeito da tentativa de Sauron de “arrancar” a Pedra de Anor sempre em sua direção. Também deve ser considerado que as Pedras eram apenas um pequeno item nos vastos desígnios e operações de Sauron: um meio de dominar e iludir dois de seus oponentes, mas ele nãopretendia (e não podia) ter a Pedra de Ithil sob observação perpétua. Não era seu estilo entregar tais instrumentos ao uso de subordinados; nem tinha qualquer servo cujos poderes mentais fossem superiores aos de Saruman ou mesmo aos de Denethor. No caso de Denethor, o Regente foi fortalecido, até mesmo contra o próprio Sauron, pelo fato de serem as Pedras muito mais receptivas a usuários legítimos; principalmente aos verdadeiros “Herdeiros de Elendil” (como Aragorn), mas também a alguém com autoridade hereditária (como Denethor), em comparação com Saruman ou Sauron. Podese notar que os efeitos foram diferentes. Saruman caiu sob a dominação de Sauron e desejava sua vitória, ou não mais se opunha a ela. Denethor permaneceu firme em sua rejeição a Sauron, mas foi levado a acreditar que a vitória deste era inevitável, e assim caiu no desespero. As razões para essa diferença eram sem dúvida que, em primeiro lugar, Denethor era homem de grande força de vontade, e manteve sua personalidade íntegra até o golpe final do ferimento (aparentemente) mortal de seu único filho sobrevivente. Era orgulhoso, mas isso de modo algum tinha cunho meramente pessoal: amava Gondor e seu povo, e julgava-se indicado pelo destino para conduzi-los naquela época sem esperanças. E, em segundo lugar, a Pedra de Anor era sua de direito, e nada, a não ser a conveniência, se opunha a que ele a usasse em suas graves ansiedades. Denethor deve ter adivinhado que a Pedra de Ithil estava em mãos malévolas, e arriscou entrar em contato com ela, confiando em sua força. Sua confiança não era inteiramente injustificada. Sauron não conseguiu dominá-lo e pôde apenas influenciá-lo com enganos. É provável que no começo não tenha olhado em direção a Mordor, mas tenha se contentado com as “visões longínquas” que a Pedra oferecia. Daí vinha seu surpreendente conhecimento de acontecimentos distantes. Não está dito se alguma vez fez contato desse modo com a Pedra de Orthanc e Saruman. Provavelmente sim, e o fez com proveito para si próprio.
Sauron não podia invadir essas conferências: somente o observador que usasse a Pedra Mestra de Osgiliath podia “bisbilhotar”. Enquanto duas das outras Pedras estavam em contato, a terceira as enxergaria ambas em branco. Deve ter existido um considerável conjunto de tradições acerca dos palantíri, preservado em Gondor pelos Reis e Regentes, e repassado mesmo depois que não se fazia mais uso deles. Essas Pedras eram um presente inalienável a Elendil e seus herdeiros, somente aos quais pertenciam de direito. Mas isso não significa que podiam ser usadas com legitimidade apenas por um desses “herdeiros”. Legalmente podiam ser usadas por qualquer pessoa autorizada pelo “herdeiro de Anárion” ou pelo “herdeiro de Isildur”, isto é, um Rei legítimo de Gondor ou Arnor. Na verdade, devem ter sido usadas normalmente por tais representantes. Cada Pedra tinha seu próprio guardião, e entre seus deveres estava o de “observar a Pedra” a intervalos regulares, quando lhe fosse ordenado ou em tempos de necessidade. Outras pessoas também eram designadas para visitar as Pedras, e ministros da Coroa ocupados com “informações secretas” faziam-lhes inspeções regulares e especiais, relatando as informações assim obtidas ao Rei e ao Conselho, ou ao Rei em caráter privado, conforme o caso exigisse. Em Gondor, ultimamente, como o cargo de Regente cresceu em importância e se tornou hereditário, proporcionando por assim dizer um “suplente” permanente do Rei e um vice-rei imediato caso preciso, o comando e o uso das Pedras parece ter estado principalmente nas mãos dos Regentes, e as tradições sobre sua natureza e seu uso devem ter sido mantidas e transmitidas em sua Casa. Visto que a Regência se tornara hereditária desde 1998, a autoridade de fazer uso ou ainda de delegar o uso das Pedras foi legalmente transmitida em sua linhagem e, portanto, pertencia plenamente a Denethor.
No entanto, deve-se ressaltar com respeito à narrativa do Senhor dos Anéis que muito além de tal autoridade delegada, mesmo hereditária, qualquer “herdeiro de Elendil” (isto é, um descendente reconhecido que ocupasse um trono ou senhorio nos reinos númenorianos em virtude dessa ascendência) tinha o direito de usar qualquer um dos palantíri. Assim, Aragorn reivindicou o direito de tomar posse da Pedra de Orthanc, visto que ela na época não tinha temporariamente proprietário nem guardião; e também porque ele era de jure o legítimo Rei tanto de Gondor quanto de Arnor, e podia, se quisesse, cancelar em seu próprio favor, por justa causa, todas as concessões anteriores.
O “conjunto de tradições sobre as Pedras” está agora esquecido e só pode ser recuperado em parte por conjeturas e a partir de fatos registrados a respeito delas. Eram esferas perfeitas, que em repouso aparentavam ser feitas de vidro ou cristal sólido, de tonalidade negra profunda. As menores tinham cerca de um pé de diâmetro, mas algumas, certamente as Pedras de Osgiliath e Amon Sûl, eram muito maiores e não podiam ser erguidas por uma só pessoa. Originalmente eram colocadas em lugares adequados ao seu tamanho e aos quais se destinavam, localizando-se em mesas redondas baixas, de mármore negro, em uma concavidade ou depressão central, onde podiam, caso necessário, ser giradas à mão. Eram muito pesadas, mas perfeitamente lisas, e não sofriam dano se, por acidente ou com má intenção, fossem desalojadas e roladas de suas mesas. Eram de fato inquebráveis por qualquer violência que na época os homens tivessem sob seu controle então, apesar de alguns acreditarem que um grande calor, tal como o de Orodruin, pudesse despedaçá-las, e supunham que esse fora o destino da Pedra de Ithil na queda de Barad-dûr.
Apesar de não terem marcas externas de qualquer tipo. tinham pólos permanentes, e originariamente eram colocadas em seus lugares de tal modo que ficassem “em pé”: seu diâmetro de um pólo ao outro apontava para o centro da Terra, mas o pólo inferior permanente tinha então de estar por baixo. As faces ao longo da circunferência, nessa posição, eram as faces de visualização, que recebiam as visões do exterior, mas as transmitiam ao olho de um “observador” do lado oposto. Portanto, um observador que desejasse olhar para o oeste colocar-se-ia do lado leste da Pedra, e, se quisesse deslocar sua visão para o norte, teria de mover-se para sua esquerda, rumo ao sul. Mas as Pedras menores, as de Orthanc, Ithil e Anor, e provavelmente Annúminas, também tinham orientações fixas em sua situação original, de forma que (por exemplo) sua face oeste apenas olharia para o oeste e, voltada para outras direções, ficaria em branco. Se uma Pedra se desencaixasse ou fosse perturbada, podia ser reassentada por observação, e então era útil girá-la. Mas quando era removida e lançada ao chão, como foi a Pedra de Orthanc, não era tão fácil acertá-la. Assim, foi “por acaso”, como os homens dizem (como Gandal teria dito), que Peregrin, manuseando a Pedra desajeitadamente, deve tê-la colocado no solo mais ou menos “em pé” e, sentado a oeste dela, ter tido a face fixa com visão para o leste na posição correta. As Pedras maiores não eram fixas desse modo: sua circunferência podia ser girada e ainda assim podiam “ver” em qualquer direção. Por si sós, os palantíri podiam apenas “ver”: não transmitiam sons. Sem serem governados por uma mente diretora, eram instáveis, e suas visões eram (pelo menos aparentemente) fortuitas. De um lugar alto, sua face do oeste, por exemplo, enxergava a vastas distâncias, com a visão embaçada e distorcida de ambos os lados, e acima e abaixo, e com o primeiro plano obscurecido por objetos mais atrás, que perdiam em clareza à medida que a distância aumentava. O que “viam” era também dirigido ou impedido pelo acaso, pela escuridão, ou por “cobertura” (vide abaixo). A visão dos palantíri não era “cegada” nem “obstruída” por obstáculos físicos, mas apenas pela escuridão; de forma que podiam enxergar através de uma montanha do mesmo modo como podiam enxergar através de uma mancha de escuridão ou sombra, mas sem ver dentro nada que não recebesse alguma luz. Podiam ver através de paredes, mas nada enxergar dentro de recintos, cavernas ou locais subterrâneos fechados, a não ser que alguma luz incidisse ali; e eles próprios não podiam proporcionar nem projetar luz. Era possível evitar sua visão pelo processo chamado de “cobertura”, pelo qual certos objetos ou áreas eram vistos em uma Pedra apenas como sombras ou névoas profundas. Como isso era feito (por aqueles que estavam conscientes das Pedras e da possibilidade de serem observados por elas) é um dos mistérios perdidos dos palantíri.
Um observador podia, por sua vontade, fazer com que a visão da Pedra fosse concentrada em algum ponto, em sua linha direta ou perto dela. As “visões” sem controle eram pequenas, especialmente nas Pedras menores, apesar de serem muito maiores aos olhos de um observador que se colocasse a certa distância da superfície do palantír (idealmente cerca de três pés). Mas sob controle de um observador habilidoso e forte, objetos mais remotos podiam ser ampliados, de certa forma, trazidos mais para perto e com maior clareza, enquanto seu segundo plano era quase suprimido. Assim, um homem a distância considerável podia ser visto como uma figura minúscula, com meia polegada de altura, difícil de isolar em meio a uma paisagem ou uma multidão de outros homens; mas a concentração podia ampliar e clarificar a visão até que ele fosse visto em detalhes nítidos, embora reduzidos, como uma imagem aparentemente com um pé ou mais de altura, e seria reconhecido se o observador o conhecesse. Uma grande concentração podia até mesmo ampliar algum detalhe que interessasse ao observador, de modo que se poderia ver (por exemplo) se ele tinha um anel na mão.
Essa “concentração” era, porém, muito cansativa e podia tornar-se exaustiva. Por conseguinte, só era empreendida quando se desejavam informações urgentes, e o acaso (talvez auxiliado por outras informações) possibilitava ao observador distinguir itens (significativos para ele e de seu interesse imediato) em meio à confusão das visões da Pedra. Por exemplo, Denethor, sentado diante da Pedra de Anor, ansioso a respeito de Rohan, e decidindo se deveria ou não ordenar que os faróis fossem imediatamente acesos e que a “flecha” fosse enviada, poderia colocar-se em linha direta, olhando para o oésnoroeste através de Rohan, passando perto de Edoras e prosseguindo rumo aos Vaus do Isen. Naquela hora, poderia haver movimentos de homens (visíveis naquela linha). Caso assim fosse, ele poderia concentrar-se (digamos) em um grupo, enxergá-lo como

Cavaleiros, e finalmente descobrir algum vulto que lhe fosse conhecido: Gandalf, por exemplo, cavalgando com os reforços rumo ao Abismo de Helm, e subitamente desgarrando-se deles para correr rumo ao norte. Os palantíri não podiam por si sós observar as mentes dos homens, apanhados de surpresa ou a contragosto; pois a transferência do pensamento dependia das vontades dos usuários de ambos os lados, e o pensamento (recebido como fala) só era transmissível por uma pedra para outra em concordância.

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