12 de junho de 2016

Capítulo II - Narn i Hîn Húrin

O conto dos filhos de Húrin
A infância de Túrin


Hador Cabeça-dourada era um senhor dos edain, e muito amado pelos eldar. Viveu, enquanto duraram seus dias, sob o senhorio de Fingolfin, que lhe deu amplas terras naquela região de Hithlum que se chamava Dor-lómin. Sua filha Glóredhel casou-se com Haldir, filho de Halmir, senhor dos homens de Brethil; e na mesma festa seu filho Galdor, o Alto, casou-se com Hareth, filha de Halmir. Galdor e Hareth tiveram dois filhos, Húrin e Huor. Húrin era três anos mais velho, mas era de estatura menor que outros homens de sua família; nisso puxou ao povo de sua mãe, mas em todas as outras coisas era como seu avô Hador, belo de rosto e de cabelos dourados, de corpo forte e natureza belicosa. Mas o fogo ardia constantemente dentro dele, e sua vontade possuía enorme determinação. De todos os homens do norte era ele quem mais conhecia os desígnios dos noldor. Seu irmão Huor era alto, o mais alto de todos os edain, à única exceção de seu próprio filho Tuor, e era um corredor veloz; mas, se a corrida fosse longa e dura, Húrin era o primeiro a chegar, pois corria com tanta força no fim da carreira quanto no início. Havia grande amor entre os irmãos, e eles raramente se apartavam na juventude.
Húrin casou-se com Morwen, a filha de Baragund, filho de Bregolas da Casa de Beor; e assim ela era parenta próxima de Beren Maneta. Morwen tinha cabelos escuros e era alta; e, pela luz de seu olhar e a beleza de seu rosto, os homens a chamavam Eledhwen, bela como os elfos; mas era altiva e tinha um humor um tanto severo. Os pesares da Casa de Béor entristeciam-lhe o coração; pois chegara a Dor-lómin como exilada de Dorthonion, após a destruição da Bragollach. Túrin era o nome do filho mais velho de Húrin e Morwen, e nasceu naquele ano em que Beren chegou a Doriath e encontrou Lúthien Tinúviel, filha de Thingol. Morwen também deu a Húrin uma filha, e ela recebeu o nome de Urwen; mas era chamada de Lalaith, que é Riso, por todos que a conheceram em sua breve vida.
Huor casou-se com Rían, prima de Morwen. Rían era filha de Belegund, filho de Bregolas. Por cruel destino nasceu ela naquela época, pois era suave de coração e não gostava de caçadas nem de guerra. Seu amor era dedicado às árvores e às flores dos ermos, e era cantora e compunha canções. Só havia dois meses que estava casada com Huor quando ele foi com o irmão às Nirnaeth Arnoediad, e nunca mais ela o viu.
Nos anos posteriores à Dagor Bragollach e à queda de Fingolfin, a sombra do temor de Morgoth aumentou. Mas no quadringentésimo sexagésimo nono ano após o retorno dos noldor à Terra Média, começou a brotar a esperança entre os elfos e os homens; pois correu entre eles o rumor dos feitos de Beren e Lúthien, e de como Morgoth havia sido envergonhado sobre seu próprio trono em Angband, e alguns diziam que Beren e Lúthien viviam ainda, ou haviam ressurgido dos Mortos. Também naquele ano estavam quase concluídos os grandes conselhos de Maedhros, e, com a força renovada dos eldar e dos edain, o avanço de Morgoth foi detido, e os orcs foram rechaçados de Beleriand.
Então, alguns começaram a falar de vitórias vindouras, e da reparação da Batalha de Bragollach, quando Maedhros haveria de liderar as hostes unidas, expulsar Morgoth para baixo da terra e selar as Portas de Angband.
No entanto, os mais sábios estavam ainda apreensivos, temendo que Maedhros revelasse sua força crescente cedo demais, e que Morgoth dispusesse de tempo bastante para deliberar contra ele.
— Algum novo mal sempre será tramado em Angband, além do que podem imaginar os elfos e os homens — diziam.
E, no outono daquele ano, para confirmar suas palavras, veio um vento malévolo do norte sob os céus de chumbo. Chamavam-no Hálito Maligno, pois era pestilento; e muitos adoeceram e morreram no outono, nas terras do norte que faziam limite com Anfauglith, e eram em sua maioria crianças ou jovens que cresciam nas casas dos homens. Naquele ano Túrin, filho de Húrin, ainda tinha apenas cinco anos de idade, e sua irmã, Urwen, fez três anos no início da primavera. O cabelo de Urulen era como os lírios amarelos na grama, quando ela corria nos campos, e seu riso era como o som do alegre riacho que vinha cantando das colinas e passava pelos muros da casa de seu pai.
Chamava-se o riacho Nen Lalaith, e por esse motivo todas as pessoas da casa chamavam a criança de Lalaith, e seus corações se alegravam enquanto ela estava entre eles. Mas Túrin era menos amado que ela. Tinha os cabelos escuros de sua mãe, e prometia ser como ela também em humor; pois não era alegre e pouco falava, apesar de ter aprendido a falar cedo e sempre parecer mais velho do que era. Túrin dificilmente se esquecia de alguma injustiça ou escárnio; mas o fogo de seu pai também estava nele, e Túrin podia ser impetuoso e feroz. No entanto, rapidamente se apiedava, e os ferimentos ou tristezas dos seres viventes podiam levá-lo às lágrimas. Também nesse aspecto era como seu pai, pois Morwen era tão severa com os demais como consigo mesma. Ele amava a mãe pois as palavras que ela lhe dirigia eram diretas e claras; mas pouco via o pai pois Húrin costumava passar muito tempo longe de casa, com o exército de Fingon que vigiava os limites orientais de Hithlum; e, quando voltava, sua fala rápida, cheia de insinuações, palavras e chistes estranhos confundia Túrin e o constrangia. Naquela época, todo o afeto de seu coração ia para sua irmã Lalaith; mas raramente brincava com ela, preferindo vigiá-la sem ser visto e vê-la caminhar sobre a grama ou sob as árvores, cantando canções como as que os filhos dos edain compunham muito tempo atrás, quando a linguagem dos elfos ainda estava recente em seus lábios.
— Bela como uma criança élfica é Lalaith — dizia Húrin a Morwen —; porém mais efêmera. Que pena! E assim mais bela, talvez, ou mais cara. — E Túrin, ouvindo essas palavras, refletiu sobre elas, mas não as conseguiu compreender. Pois nunca vira crianças élficas. Nenhum dos eldar vivia naquela época nas terras de seu pai, e apenas uma vez ele os vira, quando o Rei Fingon e muitos dos seus senhores haviam atravessado Dor-lómin a cavalo e passado pela ponte de Nen Lalaith, rebrilhando em prata e branco.
Antes, porém, que o ano terminasse demonstrou-se a verdade das palavras de seu pai; pois o Hálito Maligno chegou a Dor-lómin, e Túrin adoeceu, jazendo por muito tempo em febre e sonhos obscuros. E, quando estava curado, pois tais eram seu destino e a força vital que tinha em si, perguntou por Lalaith
— Não fale mais de Lalaith, filho de Húrin — respondeu-lhe sua ama —, mas deve pedir notícias de sua irmã Urwen a sua mãe.
E, quando Morwen veio ter com ele, Túrin lhe disse:
— Não estou mais doente e desejo ver Urwen; mas por que não devo mais dizer Lalaith?
— Porque Urwen está morta, e o riso calou-se nesta casa — respondeu ela. — Mas você vive, filho de Morwen; e vive também o Inimigo que nos causou isto.
Ela não procurou consolá-lo, nem a si mesma; pois enfrentava o pesar em silêncio e com frieza de coração. Já Húrin pranteou a filha abertamente, tomou sua harpa e teria composto uma canção de lamento; mas não conseguiu, quebrou a harpa e, saindo, ergueu a mão para o norte
— Desfigurador da Terra Média — exclamou —, queria ver-te face a face, e desfigurarte como fez meu senhor Fingolfin!
Túrin, no entanto, chorou amargamente, sozinho na noite, embora diante de Morwen nunca mais pronunciasse o nome da irmã. Para um amigo apenas voltou-se naqueles dias, e a ele falou do seu pesar e do vazio da casa. Esse amigo chamava-se Sador, um criado a serviço de Húrin. Era manco e de pouca importância. Fora lenhador e, por má sorte ou manejo errado do machado, havia cortado o pé direito, fazendo com que a perna sem pé se atrofiasse; e Túrin o chamava de Labadal, que é “Manquitola”, mas o nome não desagradava a Sador, pois fora dado por pena e não por escárnio. Sador trabalhava nas construções anexas, fazendo ou consertando coisas de pouco valor que eram necessárias na casa, pois tinha algum talento para trabalhar a madeira. E Túrin lhe trazia o que lhe faltasse, para lhe poupar a perna, e às vezes se apoderava em segredo de alguma ferramenta ou pedaço de madeira que ninguém estivesse vigiando, se pensasse que seu amigo podia usá-los. Então Sador sorria, mas lhe pedia para devolver os presentes aos seus lugares.
— Seja generoso ao dar, mas dê só o que for seu — dizia. Recompensava como podia a bondade da criança, e lhe esculpia figuras de homens e animais; mas Túrin deliciava-se mais com as histórias de Sador, pois ele fora rapaz nos tempos da Bragollach, e agora gostava de se alongar sobre os curtos dias de sua plena maturidade, antes de aleijar-se.
— Dizem que essa foi uma grande batalha, filho de Húrin. Fui chamado dos meus afazeres pela floresta, na necessidade daquele ano; mas não estive na Bragollach, ou teria sido ferido com mais honra. Pois chegamos tarde demais, exceto para trazermos de volta o ataúde do velho senhor, Hador, que tombou na guarda do Rei Fingolfin. Fui soldado depois disso, e estive em Eithel Sirion, a grande fortaleza dos reis élficos, por muitos anos; ou assim agora me parece, e os anos monótonos desde então pouco têm a marcá-los.
Em Eithel Sirion eu estava quando o Rei Negro a atacou, e Galdor, pai de seu pai, lá era o capitão em lugar do Rei. Ele foi morto naquele ataque; e vi seu pai assumir seu senhorio e comando, apesar de recém-chegado à maioridade. Havia nele um fogo que tornava a espada quente em sua mão, diziam. Sob sua liderança, expulsamos os orcs para a areia; e eles não se atreveram a voltar à vista das muralhas desde aquele dia. Mas ai! Meu amor pela batalha estava saciado, pois havia visto o suficiente de sangue derramado e ferimentos; e consegui uma licença para voltar à floresta pela qual ansiava. E lá me feri; pois um homem que foge de seu medo pode descobrir que apenas pegou um atalho para encontrá-lo. Desse forma Sador falava a Túrin à medida que este ia crescendo; e Túrin começou a fazer muitas perguntas que Sador considerava difíceis de responder, pensando que outros mais próximos deveriam se encarregar de ensiná-lo.
— Lalaith era de fato semelhante a uma criança élfica, como disse meu pai? — perguntou-lhe Túrin um dia. — E o que queria dizer quando disse que ela era mais efêmera?
— Muito semelhante — disse Sador —, pois na primeira infância os filhos dos homense dos elfos são muito parecidos. Mas os filhos dos homens crescem mais depressa, e sua juventude logo passa; tal é nosso destino.
— O que é destino? — perguntou-lhe então Túrin.
— Quanto ao destino dos homens — disse Sador —, você precisa perguntar aos que são mais sábios que Labadal. Mas, como todos podem ver, logo nos cansamos e morremos; e por infortúnio muitos encontram a morte ainda mais cedo. Mas os elfos não se cansam, e não morrem exceto por grandes ferimentos. De feridas e pesares que matariam os homens eles podem se curar; e, mesmo quando seus corpos são desfigurados, eles retornam, dizem alguns. Conosco não é assim.
— Então Lalaith não voltará? — perguntou Túrin. — Aonde foi ela?
— Não voltará — disse Sador. — Mas aonde foi nenhum homem sabe; ou eu não sei.
— Sempre foi assim? Ou sofremos alguma maldição do Rei malévolo, quem sabe, como o Hálito Maligno?
— Não sei. Uma escuridão jaz atrás de nós, e dela poucas histórias nos chegaram. Os pais de nossos pais podem ter sabido de coisas para contar, mas não as contaram. Até mesmo seus nomes foram esquecidos. As Montanhas ficam entre nós e a vida da qual vieram, fugindo não se sabe do quê.
— Estavam com medo? — perguntou Túrin.
— Pode ser — disse Sador. — Pode ser que tenhamos fugido do medo das Trevas, apenas para o encontrarmos aqui à nossa frente, e sem lugar para fugirmos senão o Mar.
— Não temos mais medo — disse Túrin —, não todos nós. Meu pai não tem medo, e eu não terei; ou, pelo menos, como minha mãe, terei medo e não o demonstrarei.
Então pareceu a Sador que os olhos de Túrin não eram como os de uma criança, e pensou:
— O pesar afia as mentes duras.  — Mas em voz alta disse: — Filho de Húrin e Morwen, como será com seu coração Labadal não pode imaginar; mas raramente e a poucos você mostrará o que ele contém.
— Talvez seja melhor não dizer o que se deseja se não se pode tê-lo — disse Túrin. — Mas desejo, Labadal, que eu fosse um dos eldar. Nesse caso Lalaith poderia voltar, e eu ainda estaria aqui, mesmo que ela se fosse por muito tempo. Servirei a um rei élfico como soldado assim que for capaz, como você fez, Labadal.
— Você poderá aprender muito com eles — disse Sador, e suspirou. — São um povo belo e maravilhoso, e têm um poder sobre o coração dos homens. E no entanto às vezes penso que teria sido melhor se nunca os tivéssemos encontrado, mas tivéssemos caminhado por trilhas mais modestas. Pois eles já são antigos em saber; e são altivos e resistentes. À sua luz perdemos nosso brilho, ou queimamos com uma chama demasiado rápida, e o peso de nosso destino nos parece ainda maior.
— Mas meu pai os ama — disse Túrin — e não é feliz sem eles. Diz que aprendemos com eles quase tudo o que sabemos e nos tornamos um povo mais nobre; e diz que os homens que ultimamente atravessaram as Montanhas quase não são melhores que orcs.
— Isso é verdade — respondeu Sador —, verdade quanto a alguns de nós, pelo menos.
Mas a ascensão é dolorosa, e cie lugares altos é fácil despencar. Nessa época Túrin tinha quase oito anos de idade, no mês de Gwaeron pela contagem dos edain, no ano que não pode ser esquecido. Já havia rumores entre os anciãos de grande recrutamento e acumulação de armas, de que Túrin nada soube; e Húrin, conhecendo a coragem de Morwen e sua língua prudente. muitas vezes lhe falava dos planos dos reis élficos, e do que poderia ocorrer se dessem certo ou errado. Seu coração estava pleno de esperança, e pouco temia o resultado da batalha; pois não lhe parecia que força alguma na Terra Média pudesse sobrepujar o poderio e o esplendor dos eldar.
— Eles viram a Luz no Oeste — dizia —, e no fim as Trevas terão de fugir diante de seus rostos.
Morwen não o contradizia; pois em companhia de Húrin aquilo que se esperava sempre parecia o mais provável. Mas também em sua família havia conhecimentos da sabedoria élfica, e ela dizia para si mesma: — E no entanto não abandonaram a Luz, e agora não estão excluídos dela? Pode ser que os Senhores do Oeste os tenham afastado de seus pensamentos; e então como poderão mesmo os Filhos Mais Velhos sobrepujar um dos Poderes?
Nenhuma sombra de tal dúvida parecia pesar sobre Húrin Thalion. No entanto, certa manhã na primavera daquele ano. despertou como que de um sono inquieto, e uma nuvem se abateu sobre sua vivacidade naquele dia; e à tardinha disse de repente:
 — Quando eu for convocado, Morwen Eledhwen, hei de deixar a seu cargo o herdeiro da Casa de Hador. As vidas dos homens são curtas, e nelas há muitos infortúnios, mesmo em tempos de paz.
— Isso sempre foi assim — respondeu ela. — Mas o que há por trás de suas palavras?
— A prudência, não a dúvida — disse Húrin; e no entanto parecia perturbado. — Mas alguém que olha para diante tem de ver isto: que as coisas não permanecerão como foram.
Esta será uma grande jogada, e um dos lados terá de cair mais baixo do que está agora. Se forem os reis élficos a cair, então será péssimo para os edain; e somos os que habitam mais perto do Inimigo. Mas se as coisas forem mal, não lhe direi: Não tema! Pois você teme o que deve ser temido, e somente isso; e o temor não a desalenta. Mas digo: Não aguarde! Voltarei para você como puder, mas não aguarde! Vá para o sul o mais rápido possível; e hei de segui-la, e hei de encontrá-la, mesmo que tenha de buscar por toda a Beleriand.
— Beleriand é ampla, e inóspita para exilados — disse Morwen. — Para onde hei de fugir, com poucos ou com muitos?
Então Húrin pensou um pouco em silêncio.
— Há a família de minha mãe em Brethil — disse. — São umas trinta léguas, a voo de águia.
— Se de fato chegar um tempo tão terrível, que ajuda haverá nos homens? — perguntou Morwen. — A Casa de Béor caiu. Se cair a grande Casa de Hador, para que tocas se arrastará o pequeno Povo de Haleth?
— São poucos e ignorantes, mas não duvide de seu valor — disse Húrin. — Onde mais há esperança?
— Você não fala de Gondolin — disse Morwen.
— Não. pois esse nome nunca me passou pelos lábios — disse Húrin. — No entanto, é verdadeiro o que você ouviu: eu estive lá. Mas agora lhe digo em verdade, como não contei a ninguém mais, nem contarei: não sei onde fica.
— Mas tem uma ideia, e bem próxima, imagino — disse Morwen.
— Pode ser — disse Húrin. — Mas, a menos que o próprio Turgon me liberasse de meu juramento, eu não poderia contar, nem mesmo a você; e, portanto, sua busca seria em vão.
Mas, se eu falasse, para minha vergonha, no máximo você apenas chegaria a um portão fechado; pois a não ser que Turgon saia para a guerra (e disso não se ouviu palavra, nem disso se tem esperança) ninguém entrará.
— Então, se sua família não tem esperança e seus amigos o renegam — disse Morwen — tenho de me aconselhar comigo mesma; e agora me ocorre o pensamento de Doriath.
Creio que a última das defesas a ser rompida será o Cinturão de Melian: e a Casa de Béor não será desprezada em Doriath. Agora não sou parente do rei? Pois Beren, filho de Barahir, foi neto de Bregor, como também foi meu pai.
— Meu coração não se inclina para Thingol — disse Húrin.
— Dele não virá auxílio para o Rei Fingon; e não sei que sombra me cai sobre o espírito à menção de Doriath.
— À menção de Brethil também se obscurece meu coração — disse Morwen. Então Húrin riu de repente, e disse: — Estamos aqui sentados debatendo sobre o que está fora de nosso alcance e sombras que vêm de sonhos. As coisas não irão tão mal assim; mas, se forem, então tudo está entregue a sua coragem e julgamento. Faça, pois, o que lhe mandar o coração; mas faça-o depressa. E, se conseguirmos nossos intentos, os reis élficos estão resolvidos a restaurar todos os feudos da casa de Béor a seus herdeiros; e uma importante herança caberá a nosso filho.
Naquela noite Túrin despertou sonolento, e lhe pareceu que seu pai e sua mãe estavam de pé ao lado do seu leito, e o fitavam à luz das velas que seguravam; mas ele não conseguia lhes ver o rosto.
Na manhã do aniversário de Túrin, Húrin deu ao filho um presente, uma faca feita pelos elfos, e o cabo e a bainha eram prata e negros.
— Herdeiro da Casa de Hador, eis um presente pelo dia. Mas tome cuidado! É uma lâmina cruel, e o aço só serve aos que sabem manejá-lo. Está tão pronta a cortar sua mão quanto qualquer outra coisa. — E, colocando Túrin sobre uma mesa, beijou o filho e disse:
— Você já está mais alto que eu, filho de Morwen; logo será tão alto sobre seus próprios pés. Que nesse dia muitos temam sua lâmina.
Então Túrin saiu correndo do recinto e se afastou sozinho; e em seu coração havia um calor como o calor do sol sobre a terra fria que faz brotar a vida. Repetia para si as palavras do pai, Herdeiro da Casa de Hador; mas também lhe vinham à mente outras palavras: Seja generoso ao dar, mas dê só o que for seu. E foi ter com Sador.
— Labadal, é meu aniversário, o aniversário do herdeiro da Casa de Hador! — exclamou. — E eu lhe trouxe um presente para comemorar o dia. Eis uma faca, exatamente como você precisa; cortará tudo que quiser, fino como um fio de cabelo.
Perturbou-se então Sador, pois bem sabia que o próprio Túrin recebera a faca naquele dia; mas os homens consideravam ofensa recusar um presente dado espontaneamente por qualquer mão. Então lhe falou com gravidade.
— Você vem de uma família generosa, Túrin, filho de Húrin. Nada fiz para igualar seu presente, e nos dias que me restam não tenho esperança de fazer melhor; mas o que puder fazer farei. — E, quando Sador tirou a faca da bainha, disse: — Este é um presente de verdade: uma lâmina de aço élfico. Há muito tempo me faz falta a sensação cie tocar nesse metal.
Húrin logo reparou que Túrin não usava a faca, e lhe perguntou se sua advertência fizera com que a temesse.
— Não, mas dei a faca a Sador, o entalhador — respondeu Túrin.
— Então você despreza o presente de seu pai? — perguntou Morwen.
— Não — respondeu Túrin mais uma vez —, mas amo Sador e sinto pena dele.
— Todos os três presentes eram seus para dar, Túrin: o amor, a pena e a faca menos que tudo — disse Húrin.
— No entanto, duvido que Sador os mereça — disse Morwen. — Ele se aleijou por sua própria inabilidade e é lento em suas tarefas, pois gasta muito tempo em miudezas que não lhe foram pedidas.
— Dê-lhe a piedade ainda assim — disse Húrin. — Uma mão honesta e um coração fiel podem errar no golpe; e o dano pode ser mais difícil de suportar que a obra de um inimigo.
— Mas agora você precisará esperar por outra lâmina — disse Morwen. — Assim o presente será verdadeiro e à sua própria custa.
No entanto, Túrin viu que Sador passou a ser tratado com mais bondade daí em diante, e logo foi mandado fazer uma grande cadeira na qual o senhor se sentaria em seu salão.
Chegou uma manhã luminosa no mês de Lothron quando Túrin foi acordado por trombetas repentinas; e, correndo até as portas, viu no pátio grande multidão de homens a pé e a cavalo, e todos totalmente armados como se fossem à guerra. Também Húrin lá estava, e falava aos homens, dando comandos; e Túrin soube que naquele dia estavam partindo para Barad Eithel. Aqueles eram os guardas e os homens do domicílio de Húrin; mas todos os homens de suas terras haviam sido chamados. Alguns já haviam ido com Huor, irmão de seu pai; e muitos outros se uniriam ao Senhor de Dor-lómin na estrada, e seguiriam seu estandarte à grande convocação do Rei.
Despediu-se então Morwen de Húrin sem lágrimas.
— Guardarei o que deixa aos meus cuidados — disse ela. — Tanto o que é quanto o que será.
— Adeus, Senhora de Dor-lómin — respondeu-lhe Húrin —; agora cavalgamos com maior esperança do que jamais conhecemos antes. Vamos pensar que neste solstício de inverno a festa será mais alegre que em todos os nossos anos até agora, seguida de uma primavera sem medo! — Então levantou Túrin no ombro e exclamou para seus homens: — Que o herdeiro da Casa de Hador veja suas espadas! — E o sol reluziu em cinquenta lâminas que saltaram, e o pátio ressoou com o grito de batalha dos edain do norte: Lacho calad! Drego morn! Fulgure a Luz! Fuja a Noite!
Então por fim Húrin saltou para a sela, e seu estandarte dourado foi desenrolado, e as trombetas cantaram novamente na manhã; e assim Húrin Thalion partiu a cavalo para as Nirnaeth Arnoediad.
Mas Morwen e Túrin se quedaram em silêncio às portas, até ouvirem de muito longe o débil chamado de uma única trompa ao vento: Húrin passara sobre o topo da colina, além da qual não podia mais ver sua casa.


As palavras de Húrin e Morgoth


Muitas canções são cantadas e muitas histórias são contadas pelos elfos sobre as Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Sem Conta, onde caiu Fingon e a flor dos eldar feneceu. Se tudo fosse recontado, a vida de um homem não bastaria para escutar; mas agora contar-se-á o que ocorreu a Húrin, filho de Galdor, Senhor de Dor-lómin, quando ao lado da correnteza de Rivil acabou sendo apanhado vivo por ordem de Morgoth, e levado a Angband.
Húrin foi levado à presença de Morgoth, pois Morgoth sabia por suas artes e seus espiões que Húrin possuía a amizade do Rei de Gondolin; e procurou intimidá-lo com seus olhos.
Mas Húrin ainda não podia ser intimidado, e desafiou Morgoth. Portanto, Morgoth o fez acorrentar e torturar lentamente; mas daí a algum tempo veio a ele e lhe ofereceu a escolha de partir livre para onde quisesse, ou receber poder e graduação como o maior dos capitães de Morgoth, se apenas revelasse onde Turgon tinha sua fortaleza e qualquer outra coisa que soubesse dos desígnios do Rei. Mas Húrin, o Inabalável, escarneceu dele.
— Você é cego, Morgoth Bauglir, e cego sempre será, pois enxerga apenas as trevas. Não sabe o que governa os corações dos homens; e, se soubesse, não poderia dá-lo. Mas é tolo quem aceita o que Morgoth oferece. Você primeiro receberá o preço e depois reterá a promessa; e eu receberia apenas a morte se lhe contasse o que pede.
— Você ainda ansiará pela morte como obséquio meu — disse Morgoth, rindo. E levou Húrin ao Haudh-en-Nirnaeth, que na época estava recém-erguido, e o odor da morte pairava sobre ele; e Morgoth colocou Húrin em seu topo, e o mandou olhar para o oeste, em direção a Hithlum, e pensar em sua esposa, seu filho e seus demais parentes.
 — Pois moram agora em meu reino — disse Morgoth — e estão à minha mercê.
— Isso você não tem — respondeu Húrin. — Mas não chegará a Turgon através deles, pois não conhecem os segredos.
— No entanto posso chegar a você e a toda a sua casa amaldiçoada — disse Morgoth, dominado pela ira —, e serão quebrados por minha vontade, mesmo que sejam todos feitos de aço. — E tomou um montante que jazia lá e o quebrou diante dos olhos de Húrin, e uma lasca lhe feriu o rosto; mas Húrin não se esquivou. Então Morgoth, estendendo o longo braço para Dor-lómin, amaldiçoou Húrin, Morwen e seus descendentes: — Olhe! A sombra
de meu pensamento pesará sobre eles aonde quer que vão, e meu ódio há de persegui-los  até os confins do mundo.
— Você fala em vão — retrucou Húrin. — Pois não pode vê-los nem governá-los de longe; não enquanto mantiver essa forma e desejar ainda ser um Rei visível sobre a terra.
— Tolo, pequeno entre os homens, e eles são os menores de todos os que falam! — disse Morgoth voltando-se para Húrin.
— Você viu os Valar, ou mediu o poder de Manwe e Varda? Conhece o alcance do pensamento deles? Ou crê, quem sabe, que o pensamento deles esteja sobre você, e que podem protegê-lo de longe?
— Não sei — respondeu Húrin. — Porém assim pode ser, se quiserem. Pois o Rei Mais Velho não há de ser destronado enquanto Arda durar.
— Você o diz — afirmou Morgoth. — Eu sou o Rei Mais Velho: Melkor, primeiro e mais poderoso de todos os Valar, que era antes do mundo, e o fez. A sombra de meu propósito paira sobre Arda, e tudo que nela está se curva lenta e seguramente à minha vontade. Mas sobre todos os que você ama meu pensamento há de pesar como uma nuvem do destino, e há de afundá-los em trevas e desespero. Aonde quer que vão, o mal surgirá. Quando quer que falem, suas palavras hão de trazer mau conselho. O que quer que façam há de se voltar contra eles. Hão de morrer sem esperança, amaldiçoando tanto a vida quanto a morte.
— Esquece a quem fala? Tudo isso você disse muito tempo atrás a nossos antepassados; mas escapamos da sua sombra. E agora temos conhecimento de você, pois contemplamos os rostos que viram a Luz, e escutamos as vozes que falaram com Manwe. Antes de Arda você era, mas outros também; e você não a fez. Nem é o mais poderoso, pois exauriu sua força consigo mesmo e a gastou em seu próprio vazio. Agora não é mais que um servo fugido dos Valar, e a corrente deles ainda o aguarda.
— Aprendeu de cor as lições de seus mestres — disse Morgoth. — Mas tais histórias infantis não o ajudarão, agora que eles fugiram todos.
— Então lhe direi esta última coisa, servo Morgoth — disse Húrin —, e ela não vem das histórias dos eldar, mas foi posta em meu coração nesta hora. Você não é o Senhor dos Homens, e nem há de ser, mesmo que toda a Arda e Menel caiam sob seu domínio. Além dos Círculos do Mundo, você não há de perseguir os que o renegam.
— Além dos Círculos do Mundo não os perseguirei — disse Morgoth. — Pois, além dos Círculos do Mundo, Nada existe. Mas dentro deles não hão de me escapar, até que entrem no Nada.
— Você mente — disse Húrin.
— Você há de ver e há de confessar que não minto — disse Morgoth. E, levando Húrin de volta a Angband, colocou-o em um assento de pedra em um lugar alto de Thangorodrim, de onde podia ver ao longe a terra de Hithlum no oeste e as terras de Beleriand ao sul. Lá foi atado pelo poder de Morgoth; e Morgoth, de pé ao seu lado, o amaldiçoou novamente e pôs seu poder sobre ele, de forma que não podia se mexer daquele lugar, nem morrer, enquanto Morgoth não o libertasse.
— Agora fique aí sentado — disse Morgoth — e contemple as terras onde o mal e o desespero hão de acometer os que você me entregou. Pois ousou zombar de mim e questionou o poder de Melkor, Mestre dos destinos de Arda. Portanto, você há de ver com meus olhos e ouvir com meus ouvidos, e nada lhe será ocultado.


A partida de Túrin


Apenas três homens finalmente acharam o caminho de volta para Brethil através de Taur-nu-Fuin, uma estrada maligna; e quando Glóredhel, filha de Hador, soube da queda de Haldir, ela se desgostou e morreu.
A Dor-lómin não chegaram notícias. Rían, esposa de Huor, fugiu atormentada para os ermos; mas foi ajudada pelos elfos-cinzentos das colinas de Mithrim; e, quando nasceu seu filho Tuor, eles o criaram. Mas Rían foi ao Haudh-en-Nirnaeth, lá deitou-se e morreu. Morwen Eledhwen permaneceu em Hithlum, calada em seu sofrimento. Seu filho Túrin tinha apenas nove anos, e ela estava grávida novamente. Seus dias eram terríveis.
Os Orientais entraram na região em grandes números, trataram com crueldade o povo de Hador, roubaram tudo o que possuíam e os escravizaram. Todo o povo das terras natais de Húrin que podia trabalhar ou servir a qualquer propósito foi levado, mesmo moças e rapazes, e os velhos foram mortos ou expulsos para morrerem de fome. No entanto, ainda não ousavam pôr as mãos na Senhora de Dor-lómin, ou expulsá-la de sua casa; pois corria entre eles que era perigosa, uma bruxa que tratava com os demônios-brancos: pois assim chamavam os elfos, odiando-os, porém temendo-os mais. Por essa razão também temiam e evitavam as montanhas, onde muitos dos eldar se haviam refugiado, em especial no sul da região; e, depois de saquearem e devastarem, os Orientais se retiraram para o norte.
Pois a casa de Húrin ficava no sudeste de Dor-lómin, e as montanhas eram próximas. Nen Lalaith descia de fato de uma nascente sob a sombra de Amon Darthir, sobre cujo espinhaço havia uma passagem íngreme. Por esse caminho os intrépidos podiam cruzar Ered Wethrin e descer a Beleriand pelos poços de Glithui. Mas isso não era do conhecimento dos Orientais, nem ainda de Morgoth; pois toda aquela região, enquanto perdurava a Casa de Fingolfin, estava a salvo dele, e nenhum de seus servos jamais chegara lá. Ele confiava em ser Ered Wethrin uma muralha intransponível, tanto contra fugas do norte quanto contra ataques do sul; e de fato não havia outra passagem, para quem carecesse de asas. entre Serech e um ponto muito a oeste, onde Dor-lómin fazia limite com Nevrast.
Assim ocorreu que, após as primeiras incursões, Morwen foi deixada em paz, embora houvesse homens à espreita nos bosques em volta e fosse perigoso sair para muito longe. Sob a proteção de Morwen ainda estavam Sador, o entalhador, alguns velhos e velhas e Túrin, a quem ela mantinha confinado ao pátio. Mas a propriedade de Húrin logo se deteriorou, e Morwen era pobre, apesar de trabalhar muito, e teria passado fome não fosse pelo auxílio que em segredo lhe mandava Aerin, parenta de Húrin; pois um tal Brodda, um dos Orientais, a levara à força para ser sua esposa. Esmolas eram amargas a Morwen; mas aceitava essa ajuda pelo bem de Túrin e da criança por nascer; e porque, conforme dizia, vinha dos seus próprios bens. Pois era esse Brodda quem se apoderara das pessoas, dos bens e do gado das propriedades de Húrin, e os levara para sua própria morada. Era um homem audacioso, mas de pouca importância entre seu próprio povo antes de chegarem a Hithlum; e assim, em busca de riqueza, estava disposto a dominar terras que outros da sua espécie não desejavam. Vira Morwen uma vez, quando cavalgou até sua casa numa incursão; mas fora presa de um grande temor dela. Pensou que olhara nos olhos cruéis de um demônio-branco, e foi tomado por um medo mortal de que algum mal o acometesse; e não pilhou sua casa, nem descobriu Túrin, pois, do contrário, a vida do herdeiro do senhor legítimo teria sido breve.
Brodda escravizou os Cabeças de Palha, como chamava o povo de Hador, e os pôs a construir para ele um solar de madeira na terra ao norte da casa de Húrin; e dentro deuma paliçada seus escravos eram arrebanhados como gado num estábulo, mas mal vigiados. Alguns dentre eles ainda não estavam amedrontados e se dispunham a ajudar a
Senhora de Dor-lómin, mesmo correndo perigo; e deles chegavam a Morwen informações secretas da região, apesar de pouca esperança haver nas notícias que traziam. Mas Brodda tomou Aerin por esposa e não por escrava, pois havia poucas mulheres entre seus próprios seguidores, e nenhuma que se comparasse com as filhas dos edain. E esperava tornar-se senhor naquela região, e ter um herdeiro para mantê-la depois dele. Do que havia acontecido e do que poderia acontecer nos dias vindouros pouco Morwen dizia a Túrin; e ele temia romper seu silêncio com perguntas.
— Quando voltará meu pai, para expulsar esses feios ladrões? Por que não vem? — perguntou à mãe, quando os Orientais chegaram pela primeira vez a Dor-lómin.
— Não sei — respondeu Morwen. — Pode ser que tenha sido morto, ou que esteja  prisioneiro; ou ainda pode ser que tenha sido levado para muito longe, e ainda não possa voltar através dos inimigos que nos cercam.
— Então penso que está morto — disse Túrin, e diante da mãe controlou as lágrimas —, pois ninguém poderia impedi-lo de voltar para nos socorrer, se estivesse vivo.
— Não creio que seja verdade nem uma coisa nem outra, meu filho — disse Morwen. À medida que o tempo passava, o coração de Morwen se tornava mais sombrio de temor por seu filho Túrin, herdeiro de Dor-lómin e Ladros; pois para ele não via esperança melhor que tornar-se escravo dos homens Orientais antes que crescesse muito mais. Portanto, lembrou-se de suas palavras com Húrin, e seu pensamento se voltou outra vez para Doriath. Resolveu por fim mandar Túrin embora em segredo, caso pudesse, e implorar ao Rei Thingol que o acolhesse. E sentada, ponderando como isso poderia ser feito, ouvia claramente em pensamento a voz de Húrin que lhe dizia: Vá depressa! Não me aguarde! Mas o nascimento de seu bebê se aproximava, e a estrada seria árdua e arriscada; quanto mais pessoas fossem, menor seria a esperança de escapar. E seu coração ainda a enganava com esperança inconfessa; seu pensamento mais íntimo pressentia que Húrin não estava morto e procurava escutar suas passadas nas vigílias insones da noite, ou despertava pensando que ouvira no pátio o relinchar de seu cavalo Arroch. Ademais, apesar de querer que seu filho fosse criado nos salões de outro, como era costume naquela época, ainda não se dispunha a humilhar seu orgulho a ponto de se tornar hóspede por esmola, nem mesmo de um rei. Portanto, foi repudiada a voz de Húrin, ou a lembrança de sua voz, e se teceu a primeira meada do destino de Túrin.
O Outono do Ano da Lamentação já estava avançando antes que Morwen tomasse sua decisão, e quando o fez foi às pressas; pois o tempo para viajar era curto, mas temia que Túrin fosse apanhado caso ela esperasse até o final do inverno. Orientais rondavam o pátio e espionavam a casa.
— Seu pai não vem — disse, portanto, a Túrin de repente. — Assim você deve partir, e partir logo. É o que ele desejaria.
— Partir? — exclamou Túrin. — Aonde havemos de ir? Para o outro lado das Montanhas?
— Sim — disse Morwen —, para o outro lado das Montanhas, longe para o sul. O sul... naquela direção pode haver esperança. Mas eu não disse nós, meu filho. Você precisa ir, mas eu devo ficar.
— Não posso ir sozinho! — retrucou Túrin. — Não vou abandoná-la. Por que não haveríamos de ir juntos?
— Não posso ir — explicou Morwen. — Mas você não irá sozinho. Hei de mandar Gethron com você, e Grithnir também, quem sabe.
— Não vai mandar Labadal? — perguntou Túrin.
— Não, pois Sador é manco — disse Morwen — e será uma estrada difícil. E, já que você é meu filho e os tempos são sinistros, não falarei com brandura: você poderá morrer nessa estrada. O ano avança. Mas, se você ficar, terá pior fim: o de ser um servo. Se quiser ser um homem quando chegar à idade de um homem, fará o que peço, com coragem.
— Mas vou deixá-la apenas com Sador, com o cego Ragnir e as velhas. Meu pai não disse que sou o herdeiro de Hador? O herdeiro deve ficar na casa de Hador para defendêla. Agora queria ainda ter minha faca!
— O herdeiro deveria ficar, mas não pode — disse Morwen. — Mas poderá retornar algum dia. Agora coragem! Eu o seguirei se as coisas piorarem, se eu conseguir.
— Mas como vai encontrar-me, perdido nos ermos? — perguntou Túrin; e subitamente seu coração o traiu, e ele chorou abertamente.
— Se você gemer, outras coisas o encontrarão primeiro — avisou-o Morwen. — Mas sei aonde você vai e, se lá chegar e lá permanecer, lá o encontrarei, se puder. Pois estou mandando-o ao Rei Thingol em Doriath. Não prefere ser hóspede de um rei a ser um servo?
— Não sei — disse Túrin. — Não sei o que é um servo.
— Estou mandando-o embora para que não tenha de aprender isso — respondeu Morwen. Então pôs Túrin diante dela e olhou-o nos olhos, como se lá tentasse ler algum enigma. — É duro, Túrin, meu filho — disse por fim. — Duro não apenas para você. Para mim é um peso julgar o que é melhor fazer nos dias difíceis. Mas faço o que considero certo; pois por qual outra razão me afastaria da coisa mais preciosa que me resta? Não falaram mais sobre isso entre si, e Túrin ficou pesaroso e confuso. Pela manhã, foi encontrar Sador, que estivera cortando gravetos para fazer fogo, que eram escassos, pois não ousavam se aventurar no bosque; e então ele apoiou-se na muleta e olhou para a grande cadeira de Húrin, que fora lançada em um canto, inacabada.
— Chegou a vez dela — disse — pois apenas as necessidades básicas podem ser atendidas nestes dias.
— Não a quebre ainda — disse Túrin. — Quem sabe ele volte para casa, e então não ficará contente em ver o que você fez para ele enquanto ele estava longe?
— Falsas esperanças são mais perigosas que temores — disse Sador — e não nos manterão aquecidos neste inverno. — Passou os dedos pelo entalhe da cadeira e suspirou. — Perdi meu tempo, embora as horas tenham sido agradáveis. Mas todas essas coisas têm vida curta; e o prazer de fazer é seu único fim verdadeiro, acho. E agora eu bem que poderia lhe devolver seu presente.
Túrin estendeu a mão e a retirou depressa.
— Um homem não toma seus presentes de volta — disse.
— Mas, se me pertence, não posso dá-la conforme desejo? — perguntou Sador.
— Sim — respondeu Túrin —, a qualquer homem, exceto a mim. Mas por que desejaria dá-la?
— Não tenho esperança de usá-la para tarefas de valia — explicou Sador. — Não haverá trabalho para Labadal nos dias vindouros, a não ser trabalho de servo.
— O que é um servo? — perguntou Túrin.
— Um homem que era homem, mas é tratado como animal — respondeu Sador. —
Alimentado só para se manter vivo, mantido vivo só para labutar, labutando só por medo da dor ou da morte. E desses saqueadores poderá receber a dor ou a morte só para o prazer deles. Ouvi dizer que escolhem alguns velozes e os caçam com cães. Aprenderam mais depressa com os orcs do que nós aprendemos com o Belo Povo.
— Agora compreendo melhor as coisas — disse Túrin.
— É pena que tenha de compreender tais coisas tão cedo — disse Sador; então, vendo a estranha expressão no rosto de Túrin: — O que compreende agora?
— Por que minha mãe está me mandando embora — disse Túrin, e as lágrimas lhe encheram os olhos.
— Ah! — disse Sador, e murmurou consigo: — Mas por que tanta demora? — Então, voltando-se para Túrin, disse: — Essa não me parece notícia para tristeza. Mas você não devia falar dos desígnios de sua mãe em voz alta, nem para Labadal nem para ninguém.
Todos os muros e cercas têm ouvidos nestes dias, ouvidos que não pertencem a belas cabeças.
— Mas preciso falar com alguém! — disse Túrin. — Sempre lhe contei as coisas. Não quero deixá-lo, Labadal. Não quero deixar esta casa nem minha mãe.
— Mas se não o fizer — disse Sador —, logo a Casa de Hador se acabará para sempre, como agora você deve compreender. Labadal não quer que você vá; mas Sador, serviçal de Húrin, ficará mais feliz quando o filho de Húrin estiver fora do alcance dos Orientais. Ora, ora, não há jeito: temos de dizer adeus. Agora não quer aceitar minha faca como presente de despedida?
— Não! — disse Túrin. — Vou ter com os elfos, com o Rei de Doriath, diz minha mãe.
Lá poderei obter outras coisas semelhantes. Mas não poderei lhe mandar nenhum presente, Labadal. Estarei longe e sozinho. — Então Túrin chorou.
— Ei, vamos lá! — disse-lhe Sador. — Onde está o filho de Húrin? Pois eu o ouvi dizer, não faz muito tempo: Servirei a um rei élfico como soldado, assim que for capaz.
— Muito bem — disse Túrin, dominando as lágrimas —, se essas foram as palavras do filho de Húrin, ele deve honrá-las e partir. Mas sempre que digo que farei isso ou aquilo, parece muito diferente quando chega a hora. Agora não quero. Preciso tomar cuidado para não voltar a dizer coisas desse tipo.
— Seria o melhor, de fato — disse Sador. — É o que a maioria dos homens ensina, e poucos homens aprendem. Deixemos estar os dias que não podemos ver. Hoje é mais que suficiente.
Então Túrin foi preparado para a viagem, deu adeus à mãe e partiu em segredo com seus dois acompanhantes. Mas quando pediram a Túrin para se voltar e olhar a casa de seu pai, a angústia da partida o atingiu como uma espada, e ele exclamou:
— Morwen, Morwen, quando hei de vê-la outra vez? — Mas Morwen, de pé na soleira, escutou o eco desse grito nas colinas cheias de árvores, e agarrou-se à moldura da porta de modo que feriu os dedos. Esse foi o primeiro dos tormentos de Túrin.
No início do ano, depois da partida de Túrin, Morwen deu à luz sua filha, e chamou-a Nienor, que é Luto; mas Túrin já estava bem longe quando ela nasceu. Longo e maligno foi seu caminho, pois o poder de Morgoth se estendia a grande distância; mas tinha por guias Gethron e Grithnir, que haviam sido jovens nos dias de Hador e, apesar de agora idosos, eram valorosos e conheciam bem as terras, pois costumavam viajar por Beleriand em tempos idos. Assim, pelo destino e pela coragem, passaram sobre as Montanhas da Sombra e, descendo no Vale do Sirion, entraram na Floresta de Brethil; e por fim, exaustos e esfarrapados, alcançaram os confins de Doriath. Mas lá ficaram desnorteados e se enredaram nos labirintos da Rainha, vagando perdidos entre as árvores sem trilha, até que se acabassem todas as suas provisões. Lá chegaram perto da morte, pois o inverno veio frio do norte; mas o destino de Túrin não era tão leve. No instante em que se deitavam em desespero, ouviram o soar de uma trompa. Beleg, o Arcoforte, caçava naquela região, pois vivia sempre nos limites de Doriath, e era o mais famoso habitante da floresta naqueles dias. Ouviu seus gritos e foi até eles; e, depois de lhes dar comida e bebida, soube dos seus nomes e de onde haviam vindo, e se encheu de espanto e pena. E olhou com apreço para Túrin, pois este tinha a beleza da mãe e os olhos do pai, e era robusto e forte.
— Que favor desejam do Rei Thingol? — perguntou Beleg ao menino.
— Gostaria de ser um dos seus cavaleiros, para atacar Morgoth e vingar meu pai — disse Túrin.
— Isso bem poderá acontecer quando os anos o tiverem feito crescer — disse Beleg. — Pois, embora ainda pequeno, você tem os predicados de um homem valoroso, digno de ser filho de Húrin, o Inabalável, se isso fosse possível. — Pois o nome de Húrin era honrado em todas as terras dos elfos. Portanto, Beleg de bom grado tornou-se guia dos viandantes e os levou a uma cabana onde naquela época morava com outros caçadores, e lá foram alojados enquanto um mensageiro ia a Menegroth. E. quando voltou a mensagem de que Thingol e Melian iriam receber o filho de Húrin e seus guardiães, Beleg os conduziu por caminhos secretos para dentro do Reino Oculto.
Assim Túrin chegou à grande ponte sobre o Esgalduin, e atravessou os portões do palácio de Thingol; e em criança contemplou as maravilhas de Menegroth, que nenhum homem mortal vira antes, à única exceção de Beren. Então Gethron disse a mensagem de Morwen diante de Thingol e Melian; e Thingol os recebeu com simpatia, e colocou Túrin em seus joelhos em homenagem a Húrin, o mais poderoso dos homens, e a seu parente Beren. E assombraram-se aqueles que viram a cena, pois era um sinal de que Thingol tomara Túrin como filho de criação; e nessa época isso não era costume dos reis, nem jamais voltou a ocorrer tratamento semelhante por um senhor élfico a um homem.
— Aqui, filho de Húrin, há de ser seu lar — disse-lhe então Thingol —, e por toda a sua vida há de ser tido por meu filho, apesar de ser homem. Há de lhe ser dada sabedoria além da medida dos homens mortais, e as armas dos elfos hão de lhe ser postas nas mãos. Talvez chegue o tempo em que você recupere as terras de seu pai em Hithlum; mas agora habite aqui com amor.
Assim começou a estada de Túrin em Doriath. Permaneceram com ele durante algum tempo Gethron e Grithnir, seus guardiães, apesar de ansiarem por retornar à sua senhora em Dor-lómin. Então a idade e a doença se apossaram de Grithnir, e ele permaneceu ao lado de Túrin até morrer; mas Gethron partiu, e Thingol mandou com ele uma escolta para guiá-lo e protegê-lo, e levavam mensagens de Thingol a Morwen.
Chegaram finalmente à casa de Húrin e, quando Morwen soube que Túrin fora recebido com honras nos salões de Thingol, seu pesar se aliviou; e os elfos também traziam ricos presentes de Melian e uma mensagem com um convite para retornar a Doriath com a gente de Thingol. Pois Melian era sábia e previdente, e assim esperava desviar o mal que fora preparado na mente de Morgoth. Mas Morwen não quis deixar a casa. pois seu coração ainda estava inalterado e seu orgulho, intenso. Ademais Nienor era um bebê de colo. Dispensou, portanto, os elfos de Doriath com agradecimentos e lhes deu como presente os últimos pequenos objetos de ouro que lhe restavam, escondendo sua pobreza. Pediu-lhes ainda que levassem de volta a Thingol o Elmo de Hador. Mas Túrin aguardava sempre o retorno dos mensageiros de Thingol; e, quando retornaram sozinhos, ele fugiu para a floresta e chorou, pois sabia do convite de Melian e esperava que Morwen viesse.
Esse foi o segundo tormento de Túrin. Quando os mensageiros trouxeram a resposta de Morwen, Melian encheu-se de compaixão, percebendo o que lhe ia na mente; e viu que o destino que previa não poderia ser afastado facilmente.
O Elmo de Hador foi entregue às mãos de Thingol. Esse elmo era feito de aço cinzento adornado de ouro, e nele estavam gravadas runas de vitória. Havia nele um poder que protegia quem quer que o usasse de ferimentos ou morte, pois a espada que o golpeasse se partiria, e a flecha que o atingisse saltaria para o lado. Fora fabricado por Telchar, o ferreiro de No-grod, cujas obras eram renomadas. Tinha uma viseira (à maneira das que os anões usavam em suas forjas, para proteger os olhos), e o rosto de quem o usasse infundia temor no coração de todos que o vissem, mas esse mesmo rosto estava protegido contra flechas e fogo. Sobre sua crista estava posta, como desafio, uma imagem dourada da cabeça de Glaurung, o dragão; pois fora feito pouco depois de ele sair pela primeira vez pelos portões de Morgoth, Muitas vezes Hador e, depois dele, Galdor o haviam usado na guerra; e os corações do exército de Hithlum se exaltavam quando o viam, elevando-se alto em meio à batalha, e exclamavam: — Mais valor tem o Dragão de Dor-lómin que o lagarto dourado de Angband!
No entanto, na verdade esse elmo não fora feito para homens, e sim para Azaghâl, Senhor de Belegost, o mesmo que fora morto por Glaurung no Ano da Lamentação. Foi dado por Azaghâl a Maedhros, como galardão por este salvar sua vida e seu tesouro quando Azaghâl foi emboscado por orcs na estrada dos anões em Beleriand Oriental. Posteriormente Maedhros o enviou como presente a Fingon, com quem costumava trocar sinais de amizade, em lembranças de como Fingon rechaçara Glaurung de volta para Angband. Mas em Hithlum inteira não se encontravam cabeça nem ombros suficientemente robustos para suportar sem dificuldade o elmo dos anões, exceto os de Hador e seu filho Galdor. Fingon, portanto, deu-o a Hador quando este recebeu o domínio de Dor-lómin. Por má sorte Galdor não o usava quando defendeu Eithel Sirion, pois o ataque foi repentino; ele correu para as muralhas, de cabeça descoberta, e uma flecha de orc perfurou seu olho. Mas Húrin não aguentava sem esforço o Elmo-de-Dragão e de qualquer modo se recusava a usá-lo, pois dizia:
— Prefiro enfrentar meus inimigos com meu rosto verdadeiro. — Não obstante, considerava o elmo uma das maiores heranças de sua casa.
Ora, Thingol tinha em Menegroth fundos arsenais repletos de grande variedade de armas: metal trabalhado como escamas de peixe e brilhante como a água ao luar; espadas e machados, escudos e elmos, feitos pelo próprio Telchar, por seu mestre Gamil Zirak, o velho, ou por artesãos élficos ainda mais habilidosos. Pois recebera como presentes alguns objetos que vinham de Valinor e foram feitos por Fêanor em seu apogeu, ele que não foi superado por nenhum artesão em todos os tempos do mundo. No entanto, Thingol segurou o Elmo de Hador como se fosse escasso seu tesouro e pronunciou palavras corteses, dizendo:
— Altiva é a cabeça que usar este elmo, que foi usado pelos antepassados de Húrin.
Ocorreu-lhe então uma ideia. Mandou chamar Túrin, e lhe disse que Morwen mandara ao filho um objeto poderoso, a herança de seus pais.
— Tome agora a Cabeça de Dragão do norte — disse — e, quando chegar a hora, use-a bem. — Mas Túrin ainda era muito pequeno para erguer o elmo, e não lhe deu atenção em virtude do pesar em seu coração.


Túrin em Doriath


Nos anos de sua infância no reino de Doriath, Túrin era vigiado por Melian, embora raramente a visse. Mas havia uma jovem chamada Nellas, que vivia nos bosques; e, a pedido de Melian, ela seguia Túrin caso ele vagasse na floresta, e muitas vezes lá o encontrava como se fosse por acaso. Com Nellas Túrin muito aprendeu acerca dos costumes e dos seres da mata de Doriath. Ela o ensinou a falar o idioma sindarin à maneira do reino de outrora, mais antigo, mais cortês e mais rico em belas palavras.
Assim, por algum tempo, ele teve sua melancolia amenizada, até que mais uma vez caísse em sombras, e essa amizade se foi como uma manhã de primavera. Pois Nellas não ia a Menegroth, e sempre se esquivava de caminhar sob tetos de pedra; assim, à medida que ia passando a infância de Túrin e ele voltava seus pensamentos para os feitos dos homens, ele a via cada vez com menor frequência, e por fim não chamava mais por ela. Mas ela ainda o vigiava, apesar de agora permanecer escondida.
Por nove anos, Túrin morou nos salões de Menegroth. Seu coração e seu pensamento sempre se voltavam para sua própria família, e às vezes tinha notícias dela para seu alívio. Pois Thingol enviava mensageiros a Morwen tantas vezes quanto podia, e ela mandava de volta palavras destinadas ao filho; assim Túrin soube que sua irmã Nienor crescia cada vez mais bela, uma flor no norte cinzento, e que os apuros de Morwen estavam abrandados. E Túrin cresceu em estatura até se tornar alto entre os homens, e sua força e resistência eram renomadas no reino de Thingol. Naqueles anos aprendeu muitas tradições, escutando avidamente as histórias dos dias antigos; e se tornou pensativo e taciturno. Muitas vezes Beleg Arcoforte vinha buscá-lo em Menegroth, e o levava para longe, ensinando-lhe a sabedoria das florestas, a arte de manejar o arco e (o que mais lhe agradava) o uso da espada; mas nas artes de fazer objetos tinha menos habilidade, pois era lento em aprender sua própria força e muitas vezes estragava o que fizera com algum golpe súbito. Também em outros assuntos parecia que a sorte lhe era contraria, de forma que frequentemente o que ele planejava não dava certo, e não obtinha o que desejava.
Tampouco fazia amigos com facilidade, pois não era alegre e raramente ria, e uma sombra pairava sobre sua juventude. Não obstante, era amado e estimado pelos que o conheciam bem, e tinha honra como filho de criação do Rei. Contudo havia alguém que lhe invejava essa condição, e tanto mais quanto mais Túrin se aproximava da maioridade: Saeros, filho de Ithilbor, era seu nome. Era um dos nandor, e pertencia àqueles que se refugiaram em Doriath após a queda de seu senhor Denethor sobre Amon Ereb, na primeira batalha de Beleriand. Esses elfos habitavam mormente em Arthórien, entre o Aros e o Celon no leste de Doriath, e às vezes atravessavam o Celon para as terras selvagens além dele; e não eram amigos dos edain desde que estes haviam passado por Ossiriand e se estabelecido em Estolad. Mas Saeros vivia principalmente em Menegroth, e ganhou a estima do rei; e era orgulhoso, tratando altivamente os que considerava terem menos honra e valor que ele. Tornou-se amigo de Daeron, o menestrel, pois era também ele hábil cantor; e não tinha apreço pelos homens, e menos ainda por qualquer parente de Beren Erchamion.
— Não é estranho — dizia — que esta terra seja aberta a mais outro da infeliz raça? O outro não fez estragos bastantes em Doriath? — Portanto, encarava com maus olhos Túrin e tudo o que fazia, criticando seus feitos o quanto pudesse; mas suas palavras eram astuciosas e sua malícia, velada. Caso se encontrasse a sós com Túrin, dirigia-se a ele de modo altivo e mostrava seu desprezo claramente; e Túrin cansou-se dele, apesar de durante muito tempo responder às palavras malévolas com silêncio, pois Saeros era grande entre o povo de Doriath e conselheiro do Rei. Mas o silêncio de Túrin desagradava a Saeros tanto quanto suas palavras. No ano em que Túrin fez dezessete anos, renovou-se seu pesar; pois naquela época cessaram todas as notícias de seu lar. O poder de Morgoth crescera ano a ano, e Hithlum inteira agora estava sob sua sombra. Sem dúvida ele sabia muito sobre os feitos da família de Húrin, e não os molestara por algum tempo, para que seu plano pudesse se realizar. Agora, porém, em busca de seu propósito, colocou todas as passagens das Montanhas da Sombra sob vigilância estrita, para que ninguém pudesse sair de Hithlum nem ali entrar, exceto correndo grande risco, e os orcs fervilhavam em torno das nascentes do Narog e do Teiglin bem como do curso superior do Sirion. Assim chegou uma época em que os mensageiros de Thingol não retornaram, e ele não quis enviar outros. Sempre relutara em deixar qualquer pessoa vagar além dos limites vigiados, e em nenhum aspecto mostrara maior boa vontade com Húrin e sua família que ao enviar sua gente pelas perigosas estradas que levavam a Morwen em Dor-lómin.
Desalentou-se Túrin então, pois não sabia que novo mal estava a caminho, e temia que um destino maligno tivesse acometido Morwen e Nienor. Permaneceu em silêncio muitos dias, meditando sobre a queda da Casa de Hador e dos homens do norte. Ergueuse então e foi à procura de Thingol, encontrando-o sentado com Melian à sombra de Hírilorn, a grande faia de Menegroth.
Thingol fitou Túrin com espanto, ao ver subitamente diante de si, em lugar de seu filho de criação, um homem e um estranho, alto, de cabelos escuros, que o observava com olhos profundos em um rosto branco. Então Túrin pediu a Thingol uma cota de malha, uma espada e um escudo, e reclamou então o Elmo-de-dragão de Dor-lómin; e o rei lhe concedeu o que pedia.
— Designar-lhe-ei um lugar entre meus cavaleiros da espada, pois a espada será sempre a sua arma. Com eles poderá exercitar-se em guerra nas fronteiras, se esse for seu desejo.
— Para além dos limites de Doriath meu coração me impele — disse Túrin —, anseio mais por atacar o Inimigo que por defender os confins.
— Então terá de ir sozinho — disse Thingol. — O papel de meu povo na guerra contra Angband eu regulo de acordo com minha sabedoria, Túrin, filho de Húrin. Nenhuma força d'armas de Doriath mandarei sair neste momento nem em qualquer momento que consigo prever.
— No entanto, você é livre para partir como quiser, filho de Morwen — disse Melian.
— O Cinturão de Melian não impede a saída daqueles que entraram com nossa permissão.
— A não ser que um conselho sábio o retenha — disse Thingol.
— Qual é seu conselho, senhor? — perguntou Túrin.
— Você se assemelha a um homem em estatura — Thingol respondeu —, mas. Mesmo assim, não atingiu a plenitude da maioridade que há de ser. Quando chegar essa época, então talvez você possa se lembrar de sua família; mas há pouca esperança de que um homem sozinho possa fazer mais contra o Senhor do Escuro do que auxiliar os senhores élficos em sua defesa, por mais que ela se prolongue.
— Beren, meu parente, fez mais — retrucou Túrin.
— Beren e Lúthien — disse Melian. — Mas é muita ousadia sua falar desse modo ao pai de Lúthien. Seu destino não é tão elevado, segundo penso, Túrin, filho de Morwen, embora esteja enredado com o do povo élfico, para o bem ou para o mal. Cuide de si, para que não seja para o mal. — Então, após uma pausa, mais uma vez lhe falou. — Vá agora, filho de criação, e observe o conselho do rei. No entanto, não creio que por muito tempo habitará conosco em Doriath depois que alcançar a maioridade. Se você em dias vindouros recordar as palavras de Melian, será para seu bem: tema tanto o calor quanto o frio de seu coração.
Túrin curvou-se então diante deles e se foi. E logo depois envergou o Elmo-de-dragão, armou-se, partiu para as fronteiras do norte e se juntou aos guerreiros élficos que lá travavam combate constante contra os orcs e todos os servos e criaturas de Morgoth.
Assim, mal saído da infância, demonstrou sua força e coragem; e, lembrando as injustiças sofridas por sua família, estava sempre à frente nos feitos ousados, tendo recebido muitos ferimentos de lanças, flechas ou das lâminas recurvas dos orcs. Mas seu destino o livrava da morte; e se dizia pelas florestas, e se ouvia dizer muito longe de Doriath, que o Elmo-de-dragão de Dor-lómin estava novamente à vista. Muitos então se espantaram, dizendo:
— Pode o espírito de Hador ou de Galdor, o Alto, retornar da morte? Ou Húrin de Hithlum escapou de fato dos calabouços de Angband? Um apenas era mais valoroso em armas do que Túrin entre os guardiões dos limites de Thingol naquela época, e esse era Beleg Cúthalion; e Beleg e Túrin eram companheiros em todos os perigos, e caminhavam juntos por toda parte nas florestas bravias. Assim se passaram três anos, e nesse período Túrin raramente vinha aos salões de Thingol; e não cuidava mais de seu aspecto ou seus trajes, e seu cabelo estava sempre despentea-do, e sua malha coberta com ura manto cinzento manchado pelas intempéries. Aconteceu, porém, que no terceiro verão, quando Túrin tinha vinte anos de idade, desejoso de repouso e necessitando reparos em suas armas, chegou a Menegroth inesperadamente ao entardecer; e entrou no salão. Thingol não estava lá, pois saíra para a floresta frondosa com Melian, como se aprazia em fazer às vezes no alto verão. Túrin ocupou um assento sem se preocupar, pois estava exausto do caminho e repleto de pensamentos; e por má sorte sentou-se à mesa entre os anciãos do reino, e no próprio lugar onde Saeros costumava se sentar. Saeros, entrando atrasado, irritou-se, crendo que Túrin fizera isso por altivez, e com a intenção de afrontá-lo; e sua ira não se aplacou ao descobrir que Túrin não era censurado pelos que lá estavam, mas era bem-vindo entre eles.
Por algum tempo, portanto, Saeros fingiu concordar, e tomou outro assento, defronte de Túrin do lado oposto da mesa.
— Raramente o guardião das fronteiras nos favorece com sua companhia — disse — e de bom grado cedo meu assento de costume pela oportunidade de conversar com ele. — E muitas outras coisas disse a Túrin, questionando-o acerca das notícias dos limites, e de seus feitos nos ermos; mas, apesar de suas palavras parecerem belas, a zombaria em sua voz não podia ser ignorada. Então Túrin cansou-se, olhou em volta e conheceu o amargor do exílio; e apesar de toda a luz e do riso nos salões dos elfos, seu pensamento se voltou para Beleg e a vida que levavam na floresta, e de lá foi para muito longe, até Morwen em Dor-lómin na casa de seu pai; e franziu o cenho, por causa da escuridão de seus pensamentos, e não deu resposta a Saeros. Diante disso, crendo que a carranca lhe era dirigida, Saeros não refreou mais sua ira, sacou um pente dourado e o lançou na mesa diante de Túrin.
— Sem dúvida, homem de Hithlum, você chegou às pressas a esta mesa, e pode ser desculpado por seu manto esfarrapado; mas não precisa deixar sua cabeça desgrenhada como uma moita de sarças. E talvez, se suas orelhas estivessem descobertas, ouvisse melhor o que lhe dizem.
Túrin nada disse, mas voltou os olhos para Saeros, e havia um rebrilhar no escuro deles. Mas Saeros não atentou para o aviso, e devolveu o olhar com desprezo, dizendo para que todos ouvissem:
 — Se os homens de Hithlum são tão selvagens e cruéis, de que espécie são as mulheres daquela terra? Correm como corças, vestidas apenas com seus cabelos?
Então Túrin tomou uma taça de bebida e a lançou no rosto de Saeros, que caiu para trás com grande dor; e Túrin puxou a espada e o teria atacado, se Mablung, o Caçador, que estava sentado a seu lado, não o tivesse refreado. Então Saeros, levantando-se, cuspiu sangue na mesa, e falou com a boca quebrada:
— Por quanto tempo havemos de abrigar este wose da floresta? Quem manda aqui esta noite? A justiça do rei é pesada para os que ferem seus vassalos no salão; e para os que aqui sacam espadas o menor destino é se tornarem proscritos. Fora do salão eu poderia responder-lhe, Wose da Floresta!
Mas, quando Túrin viu o sangue sobre a mesa, seu humor se tornou gélido; e, soltando-se das mãos de Mablung, deixou o salão sem nada dizer.
— O que o incomoda hoje à noite? — perguntou Mablung a Saeros. — Por este mal eu o considero culpado; e pode ser que a justiça do Rei julgue que uma boca quebrada é uma justa retribuição por seu escárnio.
— Se o filhote tem alguma queixa, ele que a traga ao julgamento do Rei — respondeu Saeros. — Mas nenhuma causa semelhante pode servir de desculpa para sacar a espada aqui. Fora do salão, se o wose da floresta sacar contra mim, eu o matarei.
— Disso tenho menos certeza — disse Mablung —; mas se algum dos dois for morto será um feito maligno, mais apropriado a Angband que a Doriath, e maiores males virão daí. De fato, creio que alguma sombra do norte se estendeu para nos tocar hoje à noite. Tome cuidado, Saeros, filho de Ithilbor, para em seu orgulho não fazer a vontade de Morgoth, e lembre-se de que é um dos eldar.
— Isso eu não esqueço — disse Saeros; mas não reprimiu sua ira. e durante a noite sua malícia cresceu, acalentando sua afronta.
Pela manhã, quando Túrin deixou Menegroth para voltar às fronteiras do norte, Saeros o emboscou, investindo contra ele pelas costas, com a espada desembainhada e o escudo no braço. Mas Túrin, treinado em cautela nos ermos, o viu com o canto do olho e, saltando de lado, sacou veloz a espada e se voltou para seu inimigo.
— Morwen! — exclamou —, agora quem zombou de você há de pagar pelo escárnio! — E partiu o escudo de Saeros, e então lutaram com lâminas ligeiras. Mas Túrin passara muito tempo em uma dura escola e se tornara tão ágil como qualquer elfo, porém mais forte. Logo dominou a situação e, ferindo o braço da espada de Saeros, o pôs à sua mercê.
Então colocou o pé sobre a espada que Saeros largara. — Saeros — disse —, há uma longa corrida à sua frente, e as roupas serão um estorvo; o cabelo terá de bastar. — E de repente, lançando-o ao chão, ele o desnudou; e Saeros, sentindo a grande força de Túrin, teve medo. Mas Túrin deixou-o levantar-se.
 — Corra! — gritou. — Corra! E, a menos que seja tão ligeiro quanto uma corça, eu vou aguilhoá-lo por trás. — E Saeros fugiu mata adentro, gritando enlouquecido por ajuda; mas Túrin o perseguia como um cão; e, por mais que corresse ou se esquivasse, ainda assim a espada estava atrás para incitá-lo.
Os gritos de Saeros trouxeram ao lugar da perseguição muitos outros, que correram atrás deles, mas somente os mais velozes conseguiam acompanhar os corredores.
Mablung estava na dianteira deles e estava perturbado, pois, apesar de a provocação lhe ter parecido malévola, a malícia que desperta pela manhã é a diversão de Morgoth antes da noite; e ademais era considerado grave ofensa envergonhar qualquer um dos elfos, por vontade própria, sem que o assunto fosse levado a julgamento. Ninguém sabia naquele momento que Túrin fora atacado primeiro por Saeros, que o teria matado.
— Pare, pare, Túrin! — gritou. — Isto é serviço de orc na floresta!
— Serviço de orc na floresta por palavras de orc no salão! — gritou Túrin em resposta e saltou outra vez atrás de Saeros. Este, desesperançado de ajuda e crendo que a morte estava próxima em seu encalço, continuou correndo desvairado, até chegar subitamente a uma ribanceira onde um riacho que alimentava o Esgalduin corria em numa fenda profunda entre altos rochedos, e sua largura dava para um salto de corça. Lá Saeros, em seu grande pavor, tentou saltar; mas seu pé resvalou na margem oposta e ele caiu para trás com um grito, arrebentando-se numa grande pedra na água. Assim terminou sua vida em Doriath; e por muito tempo Mandos iria mantê-lo.
Túrin contemplou lá embaixo o corpo jazendo no riacho, e pensou:
 — Tolo infeliz! Daqui eu o teria deixado voltar caminhando para Menegroth. Agora ele lançou sobre mim uma culpa imerecida. — E virou-se, e encarou sinistro Mablung e seus companheiros, que agora se aproximaram e pararam perto dele na borda.
— Triste fim! — disse Mablung, após um instante de silêncio.
— Mas agora volte conosco, Túrin, pois o Rei terá de julgar estes feitos.
— Se o Rei fosse justo, julgar-me-ia inocente — disse Túrin.
— Mas não era este um dos seus conselheiros? Por que um rei justo escolheria para amigo um coração cheio de malícia? Abjuro sua lei e seu julgamento.
— Suas palavras são imprudentes — disse Mablung. embora no fundo sentisse pena de Túrin. — Você não há de se tornar um fugitivo. Peço-lhe que volte comigo como amigo. E há outras testemunhas. Quando o Rei souber da verdade, você poderá esperar seu perdão.
Mas Túrin estava cansado dos salões dos elfos. e temia ser mantido prisioneiro.
— Rejeito seu convite, Mablung. Não buscarei o perdão do Rei Thingol por nada; e agora irei aonde sua sentença não poderá me encontrar. Vocês têm apenas duas escolhas: deixar-me ir em liberdade ou matar-me, se isso convier à sua lei. Pois são muito pouco para me prenderem vivo.
Eles viram nos olhos dele que isso era verdade, e o deixaram passar.
— Uma morte é suficiente — disse Mablung.
— Não foi por minha vontade, mas não a pranteio — disse Túrin. — Que Mandos o julgue com justiça; e, se ele alguma vez voltar às terras dos vivos, que seja mais sábio. Adeus!
— Siga livre! — disse Mablung —; pois esse é seu desejo. Mas não acho que irá bem, se for desta maneira. Há uma sombra sobre seu coração. Quando nos encontrarmos outra vez, que ela não esteja mais escura.
A isso Túrin não deu resposta, mas deixou-os e se afastou veloz, ninguém soube para onde. Conta-se que, como Túrin não retornava às fronteiras do norte de Doriath e não se ouviam novas dele, o próprio Beleg Arcoforte foi a Menegroth procurá-lo; e com um peso no coração colheu notícias dos atos de Túrin e de sua fuga. Logo depois Thingol e Melian voltaram ao palácio, pois o verão estava terminando; e, quando o Rei ouviu um relato do que ocorrera, sentou-se em seu trono no grande salão em Menegroth, e estavam em torno dele todos os senhores e conselheiros de Doriath.
Tudo foi então investigado e contado, chegando até as palavras de despedida de Túrin; e por fim Thingol suspirou.
— Ai! Como essa sombra foi penetrar sorrateira em meu reino? Eu considerava Saeros fiel e sábio; mas, se estivesse vivo, sentiria minha ira, pois foi malévola sua zombaria, e o considero culpado de tudo o que ocorreu no salão. Até esse ponto, Túrin tem meu perdão. Mas envergonhar Saeros e persegui-lo até a morte foram injúrias maiores que a ofensa, e não posso deixar passar esses atos. Eles demonstram um coração duro e orgulhoso. — Então Thingol silenciou, mas finalmente voltou a falar com tristeza.
 — Esse é um filho de criação ingrato e um homem demasiado orgulhoso para sua condição. Como hei de acolher alguém que despreza a mim e a minha lei, ou perdoar alguém que não se arrepende? Portanto, banirei Túrin, filho de Húrin, do reino de Doriath. Se solicitar entrada, será trazido a julgamento diante de mim; e enquanto não pleitear perdão aos meus pés não é mais meu filho. Se alguém aqui considerar isso injusto, que fale.
Fez-se então silêncio no salão, e Thingol ergueu a mão para pronunciar seu julgamento. Mas naquele momento Beleg entrou apressado.
— Senhor, posso falar ainda?
— Chegou tarde — disse Thingol. — Não o mandaram vir com os demais?
— É verdade, senhor — respondeu Beleg —, mas fui retido; procurava alguém que eu conhecia. Agora, por fim, trago uma testemunha que deveria ser ouvida antes que seja pronunciado seu julgamento.
— Foram convocados todos que tinham algo a dizer — disse o Rei. — O que poderá ele contar agora, que pese mais do que os que escutei?
— Há de julgar quando tiver ouvido — disse Beleg. — Conceda-me isso, se alguma vez mereci sua graça.
— A você concedo-o — disse Thingol. Então Beleg saiu, e trouxe pela mão a jovem Nellas, que habitava na floresta, e nunca vinha a Menegroth; e estava temerosa, tanto pelo grande salão com colunas e teto de pedra quanto pela multidão, de muitos olhos, que a observava.
— Senhor, eu estava sentada numa árvore — disse ela quando Thingol lhe ordenou que falasse, mas então vacilou, aterrada diante do Rei, e nada mais pôde dizer. Diante disso o Rei sorriu.
— Outros também fizeram isso mas não sentiram a necessidade de me contar a respeito.
— Outros, de fato — disse ela, ganhando coragem com seu sorriso. — A própria Lúthien! E era nela que eu pensava naquela manhã, e no homem Beren.
Thingol nada respondeu a isso, e não estava mais sorrindo, mas esperou que Nellas falasse de novo.
— Pois Túrin lembrava-me Beren — disse ela afinal. — São aparentados, segundo me contaram, e seu parentesco pode ser visto por alguns: por alguns que olham de perto.
— Isso pode ser — disse Thingol, então, impacientando-se.
— Mas Túrin, filho de Húrin, partiu de mim com desdém, e você não mais o verá para ler seu parentesco. Pois agora pronunciarei meu julgamento.
— Senhor Rei! — exclamou ela então. — Tenha paciência, e deixe-me falar primeiro. Eu estava sentada numa árvore para vigiar Túrin quando ele partia; e vi Saeros sair da floresta com espada e escudo e saltar sobre Túrin sem aviso.
A essas palavras, ouviu-se um murmúrio no salão; e o Rei ergueu a mão.
— Você traz aos meus ouvidos notícias mais graves do que parecia provável. Agora atente bem para tudo que disser, pois este é um tribunal de julgamento.
— Assim Beleg me disse — respondeu ela — e só por isso ousei vir aqui. para que Túrin seja julgado com justiça. Ele é valente, mas é misericordioso. Lutaram, senhor, aqueles dois, até que Túrin despojou Saeros do escudo e da espada; mas não o matou.
Portanto, não creio que ele quisesse sua morte no fim. Se Saeros foi envergonhado, era a vergonha que ele merecia.
— O julgamento é meu — disse Thingol. — Mas o que você contou há de influenciá-lo.
Então interrogou Nellas detalhadamente; e por fim voltou-se para Mablung, dizendo:
 — É estranho para mim que Túrin nada lhe tenha falado sobre isso.
— No entanto não falou — disse Mablung. — E, se tivesse mencionado esse fato, outras teriam sido as palavras que lhe dirigi quando partiu.
— E outro há de ser agora meu julgamento — disse Thingol.
— Ouçam-me! A culpa que possa ser encontrada em Túrin eu agora perdoo, considerando-o insultado e provocado. E como foi de fato, como ele disse, um membro de meu conselho que assim o destratou, ele não há de buscar este perdão, mas eu o enviarei até ele, onde quer que possa ser encontrado; e o chamarei com honra ao palácio.
Mas quando o julgamento foi pronunciado Nellas de repente começou a chorar.
— Onde ele pode ser encontrado? — perguntou. — Túrin abandonou nossa terra, e o mundo é enorme.
— Há de ser procurado — disse Thingol. Ergueu-se então, e Beleg levou Nellas para fora de Menegroth.
— Não chore — disse-lhe Beleg — pois. se Túrin vive ou ainda caminha pelo mundo, hei de encontrá-lo, por muito que falhem todos os demais.
No dia seguinte Beleg apresentou-se diante de Thingol e Melian.
— Aconselhe-me, Beleg; pois estou aflito — disse-lhe o Rei.
— Tomei o filho de Húrin como filho meu, e assim há de permanecer, a não ser que o próprio Húrin retorne das sombras para reclamar o que lhe pertence. Não gostaria que ninguém dissesse que Túrin foi expulso injustamente para os ermos, e de bom grado lhe daria as boas-vindas caso voltasse, pois eu o amava muito.
— Buscarei Túrin até encontrá-lo — respondeu Beleg — e o trarei de volta para Menegroth, se puder; pois também o amo.
— Então partiu; e, nos quatro cantos de Beleriand, procurou em vão por notícias de Túrin, em meio a muitos perigos; e aquele inverno terminou, e a primavera depois dele.


Túrin entre os proscritos


Agora a história volta-se outra vez para Túrin. Ele, que se cria proscrito, perseguido pelo rei, não voltou a Beleg nas fronteiras do norte de Doriath, mas fugiu para o oeste e, abandonando em segredo o Reino Protegido, chegou aos bosques ao sul do Teiglin. Lá muitos homens haviam vivido, antes das Nirnaeth, em propriedades rurais esparsas: eram na maior parte do povo de Haleth, mas não possuíam senhor e viviam da caça e do cultivo, criando porcos nas terras de ceva, e lavrando clareiras na floresta que eram protegidas da mata por cercas. Mas a maioria estava agora destruída, ou os moradores haviam fugido para Brethil, e toda aquela região vivia com medo dos orcs e dos proscritos. Pois, naquele tempo de ruína, os homens sem morada e sem esperança se desencaminhavam: remanescentes de batalhas e derrotas, e de terras devastadas; e alguns eram homens expulsos para o ermo por atos nocivos. Caçavam e recolhiam a comida que conseguiam; mas no inverno, quando a fome os impelia, eram temidos como lobos, e Gaurwaith, os Homens-Lobos, era como os chamavam aqueles que ainda defendiam seus lares. Uns cinquenta desses homens juntaram-se num bando, vagando nas florestas além dos limites ocidentais de Doriath; e eram odiados pouco menos que os orcs, pois havia entre eles proscritos de coração duro, ressentidos contra sua própria gente. O mais feroz deles era um tal Andróg, caçado desde Dor-lómin pelo assassinato de uma mulher; e também outros vinham daquela terra: o velho Algund, o mais idoso da confraria, que fugira das Nirnaeth, e Forweg, como se chamava, o capitão do bando, um homem de cabelos claros e olhos instáveis e reluzentes, grande e audacioso, mas muito decaído dos modos dos edain do povo de Hador. Haviam se tornado muito cautelosos, e se cercavam de batedores ou vigias, quer se movessem quer repousassem; e assim logo se deram conta de Túrin quando este penetrou nos seus domínios. Seguiram-no e o cercaram. E de repente, ao sair para uma clareira ao lado de um riacho, Túrin viu-se dentro de um círculo de homens com arcos tendidos e espadas desembainhadas.
Então Túrin se deteve, mas não demonstrou temor.
— Quem são vocês? — perguntou. — Pensei que somente os orcs emboscavam os homens, mas vejo que estou enganado.
— Poderá se arrepender desse engano — disse Forweg —, pois estes são nossos domínios, e não permitimos que outros homens caminhem nele. Tiramo-lhes a vida como castigo, a não ser que possam resgatá-las.
— Não obterão resgate de mim — disse Túrin, rindo —, proscrito e fora-da-lei que sou. Podem revistar-me quando eu estiver morto, mas pagarão caro para testarem se minhas palavras são verdadeiras.
Ainda assim sua morte parecia próxima, pois muitas flechas estavam assentadas à corda, aguardando a palavra do capitão; e nenhum de seus inimigos estava ao alcance de um salto com a espada desembainhada. Mas Túrin, vendo algumas pedras na margem do riacho diante de seus pés, agachou-se de repente; e naquele instante um dos homens, irritado com suas palavras, disparou uma flecha. Mas ela passou sobre Túrin, e ele, de um salto, lançou uma pedra no arqueiro com grande força e mira certeira; e ele caiu ao chão com o crânio partido.
— Eu poderia servi-los melhor vivo, no lugar desse homem sem sorte — disse Túrin; e voltou-se para Forweg: — Se você é o capitão aqui, não deve permitir que seus homens atirem sem comando.
— Não o permito — disse Forweg —, mas ele foi corrigido bem depressa. Fico com você no lugar dele, se você atentar melhor para minhas palavras.
Então dois proscritos gritaram contra ele; e um era amigo do homem que tombara, Ulrad era seu nome.
— Maneira estranha de entrar para uma confraria — disse —, matando um dos melhores homens.
— Não sem ser desafiado — disse Túrin. — Mas vamos lá! Vou enfrentá-los a ambos juntos, com armas ou só com minha força; e então hão de ver se sou apto para substituir um de seus melhores homens. — Então caminhou na direção deles; mas Ulrad desistiu e não quis lutar. O outro jogou o arco por terra e mediu Túrin dos pés à cabeça; e esse homem era Andróg de Dor-lómin.
— Não sou páreo para você — disse por fim, balançando a cabeça. — Aqui não há quem seja, creio eu. Pode juntar-se a nós, no que me diz respeito. Mas você tem algo de estranho; você é um homem perigoso. Qual é seu nome?
— Neithan, o Injustiçado, é como me chamo — disse Túrin, e daí em diante foi sempre chamado Neithan pelos proscritos; mas, embora lhes contasse que havia sofrido uma injustiça (e estivesse sempre ávido por ouvir a história de qualquer um que afirmasse o mesmo), nada mais revelou acerca de sua vida ou seu lar. No entanto, era evidente que havia caído de alguma alta condição, e que, apesar de nada ter além de suas armas, essas haviam sido feitas por ferreiros élficos. Logo conquistou o louvor dos outros, pois era forte e valente, e tinha mais habilidade na floresta do que eles. E confiavam nele, pois não era ganancioso, e pouco se importava consigo mesmo; mas o temiam, por causa de suas iras súbitas, que raramente compreendiam. A Doriath, Túrin não podia retornar, ou em seu orgulho não queria fazê-lo; em Nargothrond ninguém era admitido desde a queda de Felagund. À gente menor de Haleth em Brethil, não se dignava a ir; e a Dor-lómin não ousava, pois estava cercada de perto, e naqueles dias, segundo cria, um homem sozinho não podia ter esperança de atravessar as passagens das Montanhas da Sombra. Portanto, Túrin permaneceu com os proscritos, visto que a companhia de homens tornava as agruras do ermo mais fáceis de suportar; e, como queria viver e não podia estar sempre em desavenças com eles, pouco fez para refrear seus atos criminosos. No entanto, às vezes, a compaixão e a vergonha despertavam nele, e nessas ocasiões ele se tornava perigoso em sua ira. Dessa forma viveu até o fim daquele ano, superando a necessidade e a fome do inverno, até que veio a Agitação* e depois uma bela primavera.

* A estação entre o inverno e a primavera, chamada coirê em quenya e echuir em sindarin. [X. do T.]

Havia ainda nas florestas ao sul do Teiglin, como foi dito, algumas propriedades rurais de homens, robustos e desconfiados, apesar de agora serem apenas poucos. Embora não gostassem e menos ainda sentissem pena deles, no rigor do inverno costumavam deixar alimentos dos quais pudessem dispor em lugares onde os Gaurwaith conseguissem achá-los; e assim esperavam evitar os ataques em bando dos famintos. Mas desse modo obtinham menos gratidão dos proscritos que dos animais e pássaros, e eram na verdade seus cães e suas cercas que os salvavam. Pois cada propriedade cercara as terras                        desmatadas com grandes sebes, em volta das casas havia fossos e paliçadas; trilhas ligavam uma propriedade à outra, e os homens obtinham auxílio e o que necessitassem com toques de trompa.
No entanto, chegada a primavera, era perigoso para os Gaurwaith permanecer tão perto das casas dos Homens da Floresta, que poderiam se juntar para caçá-los; e Túrin espantou-se, portanto, por Forweg não os levar dali. Havia mais comida e caça, e menos perigo, para as bandas do sul, onde não restavam homens. Certo dia, então, Túrin deu por falta de Forweg e também de seu amigo Andróg, e perguntou onde estavam, mas seus companheiros riram.
— Foram tratar de assuntos lá deles, acho — disse Ulrad. — Não tardarão em voltar, e então vamos nos deslocar. Às pressas, talvez, pois teremos sorte se não trouxerem as abelhas da colmeia em seu encalço.
O sol brilhava e as folhas jovens estavam verdes. Como o incomodava o esquálido acampamento dos proscritos, Túrin saiu vagando sozinho e se embrenhou na floresta. Contra sua vontade, lembrou-se do Reino Oculto, e parecia ouvir os nomes das flores de Doriath como ecos de um antigo idioma quase esquecido. Mas de repente ouviu gritos, e de uma moita de aveleiras saiu correndo uma jovem. Com as vestes rasgadas pelos espinhos, ela parecia estar apavorada e, tropeçando, caiu ao chão ofegante. Então Túrin, saltando na direção da moita de espada desembainhada, abateu um homem que irrompeu das aveleiras em perseguição a ela; e somente no momento do próprio golpe viu que era Forweg.
Mas enquanto fitava, atônito, o sangue sobre a relva, surgiu Andróg, e também se deteve espantado.
— Péssimo trabalho, Neithan! — exclamou, e puxou a espada, mas o humor de Túrin gelou.
— Onde estão os orcs então? Você os ultrapassou para ajudá-la? — perguntou a Andróg.
— Orcs? — disse Andróg. — Tolo! Você se diz proscrito. Os proscritos não conhecem lei senão suas necessidades. Cuide das suas, Neithan, e deixe que cuidemos nossas.
— É o que farei — disse Túrin. — Mas hoje nossos caminhos se cruzaram. Você deixará a mulher comigo, ou se unirá a Forweg.
— Se é assim que as coisas são, esteja à vontade — disse Andróg, rindo. — Sozinho não me arvoro em páreo para você; mas nossos companheiros poderão levar a mal esta morte.
Então a mulher se pôs de pé e colocou a mão no braço de Túrin. Olhou para o sangue e olhou para Túrin, e havia deleite em seus olhos.
— Mate-o, senhor! — disse. — Mate-o também! E depois venha comigo. Se trouxer as cabeças deles, Larnach, meu pai, não se desagradará. Por duas “cabeças de lobo” ele já deu boas recompensas.
— É longe daqui à casa dela? — perguntou Túrin a Andróg.
— Uma milha mais ou menos — respondeu —, em uma propriedade cercada naquela direção. Ela estava vagando do lado de fora.
— Então vá depressa — disse Túrin, voltando-se para a mulher. — Diga a seu pai para cuidar melhor de você. Mas não cortarei as cabeças de meus companheiros para comprar o favor dele, nem qualquer outra coisa. — Embainhou então a espada. — Venha! — disse a Andróg. — Vamos voltar. Mas, se quiser sepultar seu capitão, você mesmo terá de fazê-lo.
Apresse-se, pois poderá haver um alarme. Traga as armas dele!
Túrin seguiu caminho sem mais palavra, enquanto Andróg o viu partir e franziu o cenho como quem medita sobre um enigma.
Quando Túrin voltou ao acampamento dos proscritos, encontrou-os inquietos e preocupados, pois já tinham se demorado demasiado em um só lugar, perto de propriedades bem vigiadas, e murmuravam contra Forweg.
— Corre riscos à nossa custa — diziam —, e outros poderão ter de pagar pelos seus prazeres.
— Então escolham um novo capitão! — disse Túrin, de pé diante deles. — Forweg não pode mais liderá-los, pois está morto.
— Como sabe disso? — perguntou Ulrad. — Você buscou mel da mesma colmeia? As abelhas o picaram?
— Não — disse Túrin. — Uma picada bastou. Eu o matei. Mas poupei Andróg, e ele logo voltará. — Então contou tudo o que acontecera, repreendendo os que cometiam tais atos; e, enquanto ainda falava, Andróg voltou trazendo as armas de Forweg.
— Veja, Neithan! — exclamou. — Não houve alarme. Quem sabe ela espere encontrálo de novo.
— Se brincar comigo — disse Túrin —, hei de me arrepender de ter negado a ela sua cabeça. Agora conte sua história e seja breve.
Então Andróg contou com bastante fidelidade tudo o que ocorrera.
— Agora me pergunto que afazeres Neithan tinha por lá — disse. — Não os nossos, ao que parece. Pois, quando cheguei, ele já matara Forweg. A mulher se agradou disso e se ofereceu para acompanhá-lo, pedindo nossas cabeças como preço. Mas ele não a quis, e a mandou embora. Por isso, não consigo imaginar que rancor tinha ele do capitão. Deixou minha cabeça sobre os ombros, pelo que sou grato, apesar de estar muito perplexo.
— Então nego sua pretensão de descender do Povo de Hador — disse Túrin. — A Uldor, o Amaldiçoado, é que você pertence, e deveria buscar serviço em Angband. Mas ouçam-me agora! — exclamou a todos eles. — Estas opções eu lhes dou. Devem tomar-me por capitão no lugar de Forweg, ou então deixar-me ir. Comandarei esta confraria agora, ou a abandonarei. Mas, se quiserem me matar, avancem! Lutarei contra todos até morrer, ou até que vocês morram.
Nessa hora, muitos homens pegaram em armas, mas Andróg deu um grito.
— Não! A cabeça que ele poupou não é sem juízo. Se lutarmos, mais do que um morrerá sem necessidade, antes que matemos o melhor homem dentre nós. — Então riu-se. — Assim como foi quando se uniu a nós, assim é outra vez. Ele mata para criar espaço. Se antes isso demonstrou ser bom, tomara que se repita; e ele poderá conduzir-nos a melhor sorte que rondar as esterqueiras de outros homens.
— O melhor homem dentre nós — disse então o velho Algund. — Houve época em que teríamos feito o mesmo, se ousássemos, mas esquecemos muito. Ele poderá no fim conduzir-nos para casa.
A essas palavras, Túrin teve a ideia de que, a partir daquele pequeno bando, poderia chegar a fazer seu próprio senhorio livre. Mas olhou para Algund e Andróg.
— Para casa, diz você? Altas e frias erguem-se as Montanhas da Sombra no meio do caminho. Atrás delas está o povo de Uldor, e em volta delas as legiões de Angband. Se tais coisas não os assustam, sete vezes sete homens, então poderei conduzi-los para casa.
Mas até onde antes de morrermos?
Todos fizeram silêncio. Túrin voltou a falar.
— Aceitam-me como seu capitão?
Então primeiro vou conduzi-los para os ermos, longe dos lares dos homens. Lá poderemos encontrar melhor sorte, ou não; mas pelo menos havemos de merecer menos ódio da nossa própria espécie.
Então todos os que pertenciam ao Povo de Hador se juntaram a ele, e o aceitaram como capitão; e os demais concordaram com menor boa vontade. E imediatamente ele os levou para longe daquela região. Muitos mensageiros tinham sido enviados por Thingol em busca de Túrin em Doriath e nas terras próximas às suas fronteiras; mas no ano de sua fuga procuraram-no em vão, pois ninguém sabia ou podia adivinhar que ele estava com os proscritos e inimigos dos homens. Quando chegou o inverno, retornaram ao rei, à exceção de Beleg.
Depois que todos os demais tinham partido, ele ainda seguia sozinho. Em Dimbar, no entanto, e ao longo das fronteiras setentrionais de Doriath, as coisas haviam piorado. O Elmo-de-dragão não era mais visto em combate, e também sentiam falta do Arcoforte; e os servos de Morgoth se animavam e aumentavam cada vez mais em número e em ousadia. O inverno veio e passou, e na primavera seus ataques foram retomados: Dimbar foi invadida, e os homens de Brethil temiam, pois o mal agora rondava todas as suas fronteiras, salvo o sul.
Fazia já quase um ano que Túrin fugira, e ainda Beleg o buscava, com esperança cada vez menor. Passou ao norte em suas andanças até as Travessias do Teiglin, e lá, ouvindo más notícias sobre uma nova incursão de orcs vindos de Taurnu-Fuin, deu meia-volta e acabou chegando aos lares dos Homens da Floresta logo depois que Túrin deixara aquela região. Lá escutou uma estranha história que circulava entre eles. Um homem alto e soberbo, ou um guerreiro élfico, diziam alguns, surgira na floresta, e matara um dos Gaurwaith, para salvar a filha de Larnach que eles perseguiam.
— Era muito altivo — disse a filha de Larnach a Beleg —, de olhos brilhantes que mal se dignaram olhar-me. Porém chamava os Homens-Lobos de companheiros, e não quis matar outro que estava por perto, e sabia seu nome. Neithan, este o chamou.
— Consegue interpretar este enigma? — perguntou Larnach ao elfo.
— Consigo, infelizmente — disse Beleg. — O homem de quem falam é o que procuro. — Nada mais falou aos Homens da Floresta sobre Túrin; mas alertou-os contra o mal que se concentrava ao norte. — Logo os orcs virão rapinar nesta região, em bandos demasiado grandes para que vocês possam detê-los — disse. — Pelo menos este ano vocês devem desistir da sua liberdade ou das suas vidas. Vão para Brethil enquanto é tempo!
Beleg então seguiu caminho apressado para procurar os covis dos proscritos e sinais que pudessem lhe mostrar aonde haviam ido. Logo encontrou os sinais; mas Túrin estava agora vários dias à frente, e se movimentava depressa, temendo a perseguição dos Homens da Floresta. Usava todas as artes que conhecia para derrotar ou confundir quem quer que tentasse segui-los. Raramente ficavam duas noites no mesmo acampamento, e poucos vestígios deixavam por onde passavam ou permaneciam. Dessa forma, o próprio Beleg os caçou em vão. Guiado por sinais que conseguia ler, ou pelo rumor da passagem dos homens entre as criaturas selvagens com que podia falar, muitas vezes chegou perto, mas sempre o covil estava deserto quando ele lá chegava; pois mantinham vigias a postos dia e noite e, a qualquer suspeita de aproximação, depressa se levantavam e partiam.
— Ai! — lamentou-se Beleg. — Ensinei bem demais a esse filho dos homens as habilidades da floresta e do campo! Quase se poderia pensar que esse é um bando de elfos. — Mas eles, por sua vez, deram-se conta de que estavam sendo seguidos por um perseguidor incansável, a quem não podiam ver e, no entanto, não conseguiam despistar; e começaram a se sentir inseguros.
Pouco tempo depois, como Beleg temera, os orcs atravessaram o Brithiach, e, como Handir de Brethil lhes resistisse com todas as forças que conseguira recrutar, passaram ao sul sobre as Travessias do Teiglin, em busca de pilhagem. Muitos dos Homens da Floresta haviam seguido o conselho de Beleg e mandaram suas mulheres e crianças pedir refúgio em Brethil. Estas e sua escolta escaparam, passando a tempo sobre as Travessias; mas os homens armados que seguiam atrás foram atacados pelos orcs, e os homens foram derrotados. Alguns abriram caminho lutando e chegaram a Brethil. Muitos, porém, foram mortos ou capturados; e os orcs avançaram até as propriedades, saquearam-nas e as incendiaram. Voltaram-se então de imediato para o oeste, em demanda da Estrada, pois agora queriam voltar ao norte com a máxima rapidez possível, com seu saque e seus prisioneiros. Mas os batedores dos proscritos logo os perceberam; e, apesar de bem pouco se importarem com os cativos, a pilhagem dos Homens da Floresta inflamou sua cobiça. A Túrin parecia perigoso revelarem-se aos orcs, enquanto não soubessem quantos eram; mas os proscritos não lhe deram atenção, pois nos ermos necessitavam de muitas coisas, e alguns começavam já a lamentar sua liderança. Portanto, tomando por único companheiro um certo Orleg, Túrin saiu para espionar os orcs; e, dando o comando do bando a Andróg, encarregou-o de ficar quieto e bem escondido enquanto estivessem fora.
O exército de orcs era muito maior que o bando de proscritos, mas estavam em terras às quais raramente os orcs ousaram ir, e sabiam também que além da Estrada ficava a Talath Dirnen, a Planície Protegida, que era vigiada pelos batedores e espiões de Nargothrond. Temendo o perigo, estavam cautelosos, e seus batedores esgueiravam-se pelas árvores de ambos os lados das fileiras em marcha. Assim foi que Túrin e Orleg foram descobertos, pois três batedores toparam com eles, que estavam deitados escondidos; e, apesar de matarem dois, o terceiro escapou, gritando Golug! Golug! enquanto corria. Esse era um nome pelo qual os orcs se referiam aos noldor. A floresta logo se encheu de orcs, que se espalharam em silêncio, caçando por toda parte. Vendo que havia pouca esperança de escaparem, Túrin imaginou que poderia ao menos enganá-los e afastá-los do esconderijo de seus homens; e, percebendo pelo grito de Golug! que temiam os espiões de Nargothrond, fugiu com Orleg para o oeste. Os perseguidores vinham ligeiros atrás deles, até que, por mais que se voltassem e se desviassem, foram finalmente levados a sair da floresta, sendo, então, avistados; e, enquanto procuravam atravessar a Estrada, Orleg foi atingido por muitas flechas. Mas Túrin foi salvo por sua cota de malha élfica e escapou sozinho para os ermos mais além; e com velocidade e habilidade enganou seus inimigos, fugindo para longe em terras que lhe eram estranhas.
Então os orcs, temendo despertar a atenção dos elfos de Nargothrond, mataram os prisioneiros e voltaram apressados para o norte. Quando três dias haviam passado, e Túrin e Orleg não haviam retornado, alguns dos proscritos quiseram partir da caverna onde estavam escondidos; mas Andróg se opôs a isso. E, enquanto estavam no meio desse debate, de repente um vulto cinzento apareceu de pé diante deles. Beleg os encontrara finalmente. Adiantou-se sem arma nas mãos e com as palmas voltadas na direção deles; mas eles se levantaram de um salto, com medo, e Andróg, vindo por trás, jogou um laço sobre ele, e o puxou de modo a atar-lhe os braços.
— Se não querem hóspedes, deviam vigiar melhor — disse Beleg. — Por que me recebem assim? Venho como amigo, e apenas busco um amigo. Neithan é como ouvi que você o chamam.
— Não está aqui — disse Ulrad. — Mas, a não ser que venha nos espionando há muito tempo, como conhece esse nome?
— Há muito tempo ele nos vigia — disse Andróg. — Esta é a sombra que nos perseguiu. Agora talvez saibamos seu verdadeiro propósito. — Então mandou que amarrassem Beleg a uma árvore ao lado da caverna; e, quando estava firmemente amarrado de mãos e pés, interrogaram-no. Mas a todas as perguntas Beleg dava somente uma resposta.
— Sou amigo desse Neithan desde que o encontrei pela primeira vez na floresta, e na época ele era apenas uma criança. Busco-o apenas por amor e para trazer-lhe boas novas.
— Vamos matá-lo, e estaremos livres da sua espionagem — disse Andróg, irado; e olhava para o grande arco de Beleg com cobiça, pois era arqueiro. Mas alguns de melhor coração mostraram-se contrários.
— O capitão ainda poderá voltar — disse-lhe Algund — e então você se arrependerá, se ele descobrir que lhe roubaram ao mesmo tempo um amigo e boas novas.
— Não acredito na história desse elfo — disse Andróg. — É um espião do Rei de Doriath. Mas, se de fato tem notícias, ele as contará a nós; e julgaremos se nos dão motivo para deixá-lo viver.
— Hei de esperar por seu capitão — disse Beleg.
— Você há de ficar aí em pé até falar — disse Andróg.
Então, por insistência de Andróg, deixaram Beleg amarrado à árvore sem alimento nem água, e sentaram-se por perto comendo e bebendo; mas ele nada mais lhes disse. Quando dois dias e noites haviam passado dessa maneira, eles se irritaram, sentiram medo e estavam ansiosos por partir. Agora a maioria estava disposta a matar o elfo. Ao cair da noite reuniram-se todos em torno dele, e Ulrad trouxe um tição da pequena fogueira que ardia na boca da caverna. Mas naquele momento Túrin voltou. Chegando em silêncio, como era seu costume, parou na sombra fora do círculo de homens, e viu o rosto abatido de Beleg à luz do tição.
Foi como se tivesse sido atingido por uma seta; e como ao repentino derreter da geada, as lágrimas, havia muito represadas, lhe encheram os olhos. Avançou de um salto e correu até a árvore.
— Beleg! Beleg! — exclamou. — Como chegou até aqui? E por que está em pé dessa maneira? — Imediatamente cortou as cordas que atavam o amigo, e Beleg caiu para a frente em seus braços.
Quando Túrin ouviu tudo que os homens estavam dispostos a contar, sentiu raiva e consternação; mas inicialmente ocupou-se apenas de Beleg. Enquanto o tratava com as habilidades que possuía, pensava em sua vida na floresta, e sua ira se voltou contra ele mesmo. Pois muitas vezes estrangeiros haviam sido mortos quando foram apanhados perto dos covis dos proscritos, ou haviam sido alvo de emboscadas, e ele não o impedira; e muitas vezes ele próprio falara mal do Rei Thingol e dos elfos-cinzentos, de modo que tinha de compartilhar a culpa se eles eram tratados como inimigos. Então, em tom amargo, voltou-se para os homens.
— Vocês foram cruéis — disse —, e cruéis sem necessidade. Nunca até agora torturamos um prisioneiro; mas a tal serviço de orcs nos conduziu a vida que levamos. Sem lei e sem frutos têm sido todos os nossos atos, servindo apenas a nós mesmos, e alimentando o ódio em nosso coração.
— A quem havemos de servir, senão a nós mesmos? — perguntou Andróg. — A quem havemos de amar, se todos nos odeiam?
— Minhas mãos, pelo menos, não hão de se levantar de novo contra elfos ou homens — disse Túrin. — Angband tem servos bastantes. Se outros não fizerem esse juramento comigo, seguirei sozinho.
Beleg abriu, então, os olhos e ergueu a cabeça.
— Sozinho, não! — disse. — Agora finalmente posso contar-lhe minhas novas. Você não é proscrito, e Neithan é um nome inadequado. A culpa que encontraram em você está perdoada. Há um ano você é procurado, para ser reconduzido à honra e ao serviço do rei. Já sentimos falta demais do Elmo-de-dragão.
Mas Túrin não demonstrou alegria diante dessa notícia, e por muito tempo ficou sentado em silêncio; pois às palavras de Beleg uma sombra caiu outra vez sobre ele.
— Que passe esta noite — disse por fim. — Então escolherei. Seja como for, temos de abandonar este covil amanhã, pois nem todos que nos procuram nos querem bem.
— Não, nenhum — disse Andróg, e lançou um olhar malévolo a Beleg.
Pela manhã Beleg, que se curara depressa de suas dores à maneira do antigo povo élfico, falou reservadamente com Túrin.
— Esperava mais alegria diante de minhas notícias — disse — Certamente você agora voltará a Doriath? — E implorou de todas as maneiras possíveis que Túrin fizesse isso; porém quanto mais insistia, mais Túrin hesitava. Ainda assim, questionou Beleg detalhadamente acerca do julgamento de Thingol. Então Beleg lhe contou tudo o que sabia.
— Então Mablung demonstrou ser meu amigo, como parecia outrora? — disse Túrin, por fim.
— O amigo da verdade, isso sim — disse Beleg —, e isso foi melhor afinal. Mas por que, Túrin, você não lhe falou do ataque de Saeros contra você? As coisas poderiam ter saído de forma bem diversa. E — disse, olhando os homens esparramados perto da boca da caverna — você ainda poderia ter mantido seu elmo no alto, e não teria decaído assim.
— Pode ser, se você o chama de decair — disse Túrin. — Pode ser. Mas assim foi; e as palavras ficaram presas em minha garganta. Antes que me fizesse uma pergunta sequer havia censura em seus olhos por um ato que eu não cometera. Meu coração de homem era orgulhoso, como disse o rei élfico. E ainda é, Beleg Cúthalion. Ele ainda não me permite retornar a Menegroth e suportar olhares de piedade e perdão, como os dirigidos a um menino desobediente que se corrigiu. Sou eu quem deveria conceder o perdão, não recebê-lo. E não sou mais um menino, mas um homem, conforme minha espécie; e um homem duro por meu destino.
— O que fará então? — perguntou Beleg, já aflito.
— Irei livre — disse Túrin. — Esse voto Mablung me deu quando nos separamos. A graça de Thingol não se estenderá para receber estes companheiros de minha decadência, creio; mas não me afastarei deles agora, se não quiserem se afastar de mim. Gosto deles à minha maneira, até do pior deles um pouco. São da minha própria espécie, e em cada um existe algo de bom que poderia crescer. Creio que vão ficar ao meu lado.
— Você enxerga com olhos diferentes dos meus — disse Beleg. — Se tentar curá-los do mal, eles o trairão. Desconfio deles, e de um deles mais que de todos.
— Como um elfo há de julgar os homens? — perguntou Túrin.
— Assim como julga todos os atos, por quem quer que sejam praticados — respondeu Beleg, mas nada mais disse, e não falou da malícia de Andróg, à qual se devia principalmente seu mau tratamento; pois, percebendo a disposição de Túrin, temia que ele não acreditasse em suas palavras e que sua antiga amizade fosse prejudicada, impelindo Túrin de volta ao caminho do mal.
— Ir livre, você diz, meu amigo Túrin — falou. — O que isso significa?
— Prefiro liderar meus próprios homens e guerrear à minha própria maneira — Túrin respondeu. — Mas ao menos nisso meu coração mudou: arrependo-me de cada golpe, exceto os que desferi contra o Inimigo dos homens e elfos. E acima de tudo gostaria de têlo ao meu lado. Fique comigo!
— Se ficasse com você, o amor me guiaria, não a sabedoria — disse Beleg. — Meu coração me avisa que deveríamos voltar a Doriath.
— Ainda assim lá não irei — disse Túrin. Beleg então esforçou-se mais uma vez para persuadi-lo a retornar ao serviço do Rei Thingol, dizendo que havia grande necessidade de sua força e valor nas fronteiras norte de Doriath e falou das novas incursões dos orcs, que desciam até Dimbar vindos de Taurnu-Fuin pela Passagem de Anach. Mas todas as suas palavras de nada valeram.
— Você se chamou de homem duro, Túrin — disse por fim.
— Duro você é, e teimoso. Agora é minha vez. Se de fato quiser o Arcoforte ao seu lado, procure-me em Dimbar, pois para lá voltarei.
Túrin ficou sentado em silêncio, em luta com seu orgulho, que não o deixava voltar atrás, e meditou sobre os anos que tinha atrás de si. Mas, de repente, ocorreu-lhe uma ideia.
— A jovem elfa que você mencionou: muito lhe devo pelo seu testemunho a tempo; no entanto não consigo lembrar-me dela. Por que observava o que eu fazia?
— Por quê, de fato? — perguntou Beleg, contemplando-o de modo estranho. — Túrin, você sempre viveu com o coração e metade da mente muito longe? Pois caminhava com Nellas nas florestas de Doriath quando era menino.
— Isso faz muito tempo — disse Túrin. — Ou assim agora parece minha infância, e há uma névoa sobre ela, a não ser pela lembrança da casa de meu pai em Dor-lómin. Mas por que haveria de ter caminhado com uma jovem elfa?
— Para aprender o que ela pudesse ensinar, talvez — disse Beleg. — Ai. filho dos homens! Há outras desgraças na Terra Média além das suas, e ferimentos que nenhuma arma provocou. De fato, começo a pensar que os elfos e os homens não deveriam se encontrar nem interagir.
Túrin nada disse, mas por longo tempo fitou o rosto de Beleg, como se nele quisesse decifrar o enigma de suas palavras. Mas Nellas de Doriath nunca mais o viu. e a sombra de Túrin desapareceu de sua lembrança.


Do anão Mîm


Após a partida de Beleg (e isso ocorreu no segundo verão depois que Túrin fugiu de Doriath), as coisas andaram mal para os proscritos. Houve chuvas fora de estação, e orcs mais numerosos do que antes desceram do norte e ao longo da antiga Estrada do Sul, sobre o Teiglin, assolando toda a floresta na borda oeste de Doriath. Havia pouca segurança ou descanso, e era mais frequente que a companhia fosse caça que caçadores.
Certa noite, quando se escondiam deitados na escuridão sem fogueira, Túrin contemplou sua vida, e pareceu-lhe que ela bem poderia melhorar.
— Preciso achar algum refúgio seguro — pensou — e fazer provisões contra o inverno e a fome.
E no dia seguinte levou embora seus homens, mais longe do que jamais haviam se afastado do Teiglin e das fronteiras de Doriath. Após três dias de jornada, detiveram-se na borda oeste da floresta do Vale do Sirion. Lá a terra era mais seca e mais desnuda, à medida que ia subindo para as charnecas.
Logo depois aconteceu que, ao apagar-se a luz cinzenta de um dia chuvoso, Túrin e seus homens estavam abrigados em uma moita de azevinho; e mais além estava um espaço sem árvores, onde havia muitas pedras enormes, inclinadas ou amontoadas. Tudo estava quieto, à exceção da chuva gotejando das folhas. De repente um vigia deu o alerta e, pondo-se de pé com um salto, eles viram três vultos encapuzados, trajando cinza, esgueirando-se furtivos entre as pedras. Cada um deles carregava um grande saco, mas apesar disso andavam depressa.
Túrin gritou para que parassem, e os homens saíram como cães para persegui-los; mas eles não se arredaram do caminho e, apesar de Andróg disparar flechas atrás deles, dois sumiram na penumbra. Um ficou para trás, por ser mais lento ou estar mais carregado; e logo foi agarrado, lançado ao chão e seguro por muitas mãos rudes, apesar de se debater e morder como uma fera. Mas Túrin aproximou-se, e repreendeu seus homens.
— O que têm aí? — disse. — Qual a necessidade de tanta violência? É velho e pequeno. Que dano pode causar?
— Ele morde — disse Andróg, mostrando a mão que sangrava. — É um orc, ou da espécie dos orcs. Mate-o!
— Não merece outra coisa por iludir nossa esperança — disse outro, que havia tomado o saco. — Aqui não há nada senão raízes e pedrinhas.
— Não — disse Túrin —, ele tem barba. É apenas um anão, creio. Deixem que se levante e fale.
Assim foi que Mîm entrou na História dos Filhos de Húrin. Pois colocou-se de joelhos, cambaleante, diante dos pés de Túrin, e implorou por sua vida.
— Sou velho — disse — e pobre. Apenas um anão, como diz, e não um orc. Mîm é meu nome. Não permita que me matem, senhor, por nenhum motivo, como os orcs fariam.
Então Túrin apiedou-se dele em seu coração, mas disse: — Pobre você parece, Mîm, apesar de isso ser estranho para um anão — disse Túrin, embora no fundo se apiedasse dele —, mas nós somos mais pobres, creio: homens sem casa e sem amigos. Se eu dissesse que não poupamos somente por piedade, pois enfrentamos grave necessidade, o que ofereceria como resgate?
— Não sei o que deseja, senhor — disse Mîm cauteloso.
— Neste momento, bem pouco — disse Túrin, olhando em torno amargamente com a chuva nos olhos. — Um lugar seguro para dormir, longe da floresta úmida. Sem dúvida você tem um lugar assim.
— Tenho — disse Mîm —, mas não posso dá-lo como resgate. Sou velho demais para morar sob o firmamento.
— Não precisa envelhecer mais — disse Andróg, aproximando-se com uma faca na mão ilesa. — Posso poupá-lo disso.
— Senhor! — exclamou Mîm, então, muito assustado. — Se eu perder a vida, perderão a habitação; pois não a encontrarão sem Mîm. Não posso dá-la a vocês, mas vou compartilhá-la. Nela há mais espaço do que havia outrora: tantos se foram para sempre — e começou a chorar.
— Sua vida foi poupada, Mîm — disse Túrin.
— Até que cheguemos ao seu covil, pelo menos — disse Andróg. Mas Túrin voltou-se contra ele.
— Se Mîm nos levar ao seu lar sem traição, e for um bom lar, então sua vida estará resgatada; e não há de ser morto por qualquer homem que me segue. Assim juro.
— Mîm será seu amigo, senhor — disse Mim, então, abraçando os joelhos de Túrin. — Primeiro pensei que fosse um elfo, por sua fala e sua voz; mas se for um homem é melhor. Mim não gosta dos elfos.
— Onde fica essa sua casa? — perguntou Andróg. — Deve ser boa de fato se Andróg for compartilhá-la com um anão. Pois Andróg não gosta de anões. Seu povo trouxe do leste poucas histórias boas sobre essa raça.
— Julgue meu lar quando o vir — disse Mim. — Mas precisarão de luz no caminho, homens trôpegos. Voltarei logo e os conduzirei.
— Não, não! — disse Andróg. — Certamente não permitirá isso, capitão? Nunca voltaria a ver o velho trapaceiro.
— Está escurecendo — disse Túrin. — Que ele nos deixe alguma garantia. Devemos ficar com seu saco e o conteúdo, Mim?
Mas a essas palavras o anão caiu outra vez de joelhos, extremamente perturbado.
— Se Mim não pretendesse voltar, não voltaria por um velho saco de raízes — disse. — Eu voltarei. Deixe-me ir!
— Não deixarei — disse Túrin. — Se não quer se separar do seu saco, terá de ficar junto com ele. Uma noite sob as folhas talvez faça com que tenha pena de nós por sua vez. — Mas notou, e outros também, que Mîm dava mais valor à sua carga do que esta parecia ter à primeira vista.
Levaram o velho anão ao acampamento miserável; e, ao caminhar, ele murmurava numa língua estranha que parecia rude com antigo ódio; mas quando puseram amarras em suas pernas ele silenciou de repente. E os que estavam de vigia viram-no sentado durante toda a noite, silencioso e imóvel como uma pedra, exceto pelos olhos insones que reluziam enquanto percorriam a escuridão.
Antes de chegar a manhã, a chuva cessou, e o vento agitou-se nas árvores. A aurora veio mais clara que em muitos dias antes, e ares leves do sul abriram o firmamento, pálido e límpido em torno do nascer do sol. Mim continuava sentado imóvel, e parecia morto; pois agora estavam fechadas suas pesadas pálpebras, e a luz da manhã o mostrava enrugado e encolhido pela idade. Túrin, de pé, olhou para ele.
— Agora há luz suficiente — disse.
Então Mîm abriu os olhos e apontou suas amarras; e quando foi libertado falou feroz.
— Aprendam isso, tolos! — disse. — Não ponham amarras num anão! Ele não o perdoará. Não desejo morrer, mas meu coração está quente pelo que fizeram. Arrependome de minha promessa.
— Mas eu não — disse Túrin. — Vai levar-me ao seu lar. Até esse momento não falaremos de morte. Essa é minha vontade. — Olhou firme nos olhos do anão, e Mîm não conseguiu suportá-lo; poucos na verdade podiam desafiar os olhos de Túrin firmes pela vontade ou pela ira. Logo desviou a cabeça e se levantou.
— Siga-me, senhor! — disse.
— Bom! — disse Túrin. — Mas agora acrescentarei o seguinte. Compreendo seu orgulho. Você poderá morrer, mas não será amarrado outra vez.
Então Mîm levou-os de volta ao lugar onde fora capturado e apontou para o oeste.
— Lá fica meu lar! — disse. — Vocês o viram muitas vezes, imagino, pois é alto. Sharbhund nós o chamávamos, antes que os elfos mudassem todos os nomes. — Então viram que apontava para Amon Rûdh, o Morro Calvo, cuja cabeça descoberta vigiava muitas léguas do ermo.
— Nós o vimos, mas nunca de perto — disse Andróg. — Pois que covil seguro pode haver lá, ou água, ou qualquer outra coisa de que precisamos? Imaginei que houvesse algum truque. Homens escondem-se no topo de um morro?
— A visão a distância pode ser mais segura que o esconderijo — disse Túrin. — Amon Rûdh espia muito longe. Bem, Mîm, irei para ver o que você tem para mostrar. Quanto tempo levaremos nós, homens trôpegos, para chegar lá?
— Todo este dia até o anoitecer — Mîm respondeu.
A companhia partiu para o oeste, e Túrin ia à frente com Mîm a seu lado. Caminhavam cautelosos quando saíram da floresta, mas toda a terra estava vazia e quieta. Passaram sobre as pedras amontoadas e começaram a subir; pois Amon Rûdh ficava na borda oriental das altas charnecas que se erguiam entre os vales do Sirion e do Narog, e mesmo acima do urzal pedregoso em seu sopé o cimo se levantava a mais de mil pés. Do lado leste uma região acidentada subia lentamente até as altas cristas, entre capões de bétulas e sorvas, e antigas espinheiras enraizadas na rocha. Em volta das encostas inferiores de Amon Rûdh cresciam moitas de aeglos; mas sua íngreme cabeça cinzenta era pelada, exceto pelo seregon vermelho que recobria a pedra.
À medida que a tarde caía, os proscritos se aproximaram das raízes do morro. Vinham agora do norte, pois assim Mîm os conduzira; a luz do sol poente caía sobre o cimo de Amon Rûdh, e o seregon estava todo em flor.
— Vejam! Há sangue no alto do morro — disse Andróg.
— Ainda não — disse Túrin.
O sol se punha, e a luz desfalecia nas grotas. O morro agora se erguia diante e acima deles, e se perguntaram que necessidade teriam de um guia para chegar a um local tão evidente. Mas à medida que Mîm os conduzia, e eles começavam a escalar as últimas encostas íngremes, perceberam que ele seguia alguma trilha por sinais secretos ou por antigo costume. Agora seu percurso virava-se para lá e para cá e, quando desviavam os olhos, viam que de ambos os lados se abriam escuros vales e cumeadas, ou que o terreno descia em trechos desbarrancados com grandes pedras, com quedas e buracos encobertos por sarças e espinhos. Sem guia, lá teriam labutado e escalado dias a fio para achar o caminho.
Por fim, chegaram a um terreno mais íngreme, porém mais liso. Passaram sob as sombras de antigas sorvas, entrando por corredores de aeglos pernaltas: uma penumbra impregnada de um doce aroma. Então de repente surgiu uma parede de rocha diante deles, de face plana e escarpada, erguendo-se alto acima deles no lusco-fusco.
— Esta é a porta de sua casa? — perguntou Túrin. — Os anões, dizem, amam a pedra. — Aproximou-se de Mîm, para que este não lhes pregasse alguma peça no fim.
— Não é a porta da casa, mas o portão do pátio — disse Mîm. Então virou à direita, acompanhando o pé da escarpa e, após vinte passos, deteve-se de repente; e Túrin viu que por obra de mãos ou das intempéries havia uma fenda conformada de modo que duas faces do paredão se sobrepunham, e uma abertura se estendia para trás, à esquerda entre elas. Sua entrada estava encoberta por longas trepadeiras enraizadas nas fissuras no alto, mas no interior havia uma trilha íngreme e pedregosa que subia na escuridão.
A água escorria por ali, e havia muita umidade. Subiram em fila, um a um. No topo, a trilha virou-se para a direita e outra vez para o sul, e os fez sair através de uma moita de espinhos para uma área plana e verde, através da qual se estendia até penetrar nas sombras. Haviam chegado à casa de Mîm, Bar-en-Nibin-noeg, que somente as antigas histórias em Doriath e Nargothrond recordavam, e que nenhum homem vira. Mas a noite caía, e o leste estava estrelado, e eles ainda não conseguiam ver qual era a forma daquele estranho lugar.
Amon Rûdh tinha uma coroa: uma grande massa semelhante a um íngreme chapéu de pedra, com um topo pelado e plano. Do lado norte saía dele uma plataforma, horizontal e quase quadrada, que não podia ser vista de baixo; pois atrás dela erguia-se a coroa do morro como uma muralha, e a oeste e leste caíam de sua borda penhascos íngremes.
Somente do norte, do lado por onde haviam chegado, ela podia ser alcançada facilmente por quem soubesse o caminho. Da fenda vinha uma trilha, que logo passava por um pequeno capão de bétulas anãs que cresciam à margem de uma lagoa límpida em bacia escavada na rocha. Essa lagoa era alimentada por uma nascente ao pé da muralha posterior, e por uma canaleta a água se derramava como um filete branco pela borda oeste da plataforma. Por trás da parede de árvores perto da nascente, entre dois altos contrafortes de rocha, havia uma caverna. Não parecia ser mais que uma gruta rasa com um arco baixo e irregular; mas no interior tinha sido aprofundada e escavada, penetrando longe no morro, pelas lentas mãos dos anões-pequenos, nos longos anos em que lá moraram, sem serem perturbados pelos elfos-cinzentos da floresta.
Mîm os conduziu através da penumbra profunda, passando pela lagoa, onde agora as débeis estrelas se espelhavam entre as sombras dos ramos de bétula. Na boca da caverna vi-rou-se e se inclinou para Túrin.
— Entre — disse — Bar-en-Danwedh, a Casa do Resgate; pois assim há de se chamar.
— Isso pode ser — disse Túrin. — Olharei primeiro. — Então entrou com Mîm, e os demais, vendo-o destemido, seguiram atrás, até mesmo Andróg, que mais desconfiava do anão. Logo estavam em uma negra escuridão; mas Mîm bateu palmas, e uma luzinha surgiu dando a volta numa esquina: de uma passagem nos fundos da gruta externa apareceu outro anão, carregando uma pequena tocha.
— Ah! Errei o alvo, como temia! — disse Andróg. Mas Mîm falou rapidamente com o outro na sua própria língua rude e, parecendo perturbado ou irado pelo que ouvira, correu passagem adentro e desapareceu. Então Andróg insistiu em avançar.
— Ataquem primeiro! — disse. — Pode haver uma colmeia deles, mas são pequenos.
— Três apenas, creio — disse Túrin; e foi à frente, enquanto atrás dele os proscritos seguiam pela passagem às apalpade-las, tateando suas paredes ásperas. Muitas vezes ela se curvou para lá e para cá em ângulos agudos; mas finalmente surgiu à frente uma luz fraca, e eles chegaram a uma sala pequena, porém alta, tenuemente iluminada por lâmpadas suspensas das sombras do teto por correntes finas. Mîm não estava lá, mas sua voz podia ser ouvida; e, guiado por ela, Túrin alcançou a porta de um quarto que se abria nos fundos da sala. Olhando para dentro, viu Mîm de joelhos no chão. A seu lado estava em pé, silencioso, o anão com a tocha; mas sobre um leito de pedra, na parede traseira, jazia outro.
— Khîm, Khîm, Khîm! — soluçava o velho anão, puxando a barba.
— Nem todas as suas flechas foram perdidas — disse Túrin a Andróg. — Mas este tiro certeiro pode ter resultado ruim. Você atira de modo muito leviano; mas poderá não viver o bastante para ganhar sabedoria.
Então, entrando sem barulho, Túrin parou atrás de Mîm e lhe falou.
— Qual é o problema, Mîm? — perguntou. — Tenho algumas habilidades de cura. Posso auxiliá-lo?
Mîm voltou a cabeça, e havia uma luz vermelha em seus olhos.
— Não, a não ser que consiga reverter o tempo, e cortar as mãos cruéis de seus homens — respondeu. — Este é meu filho, ferido por uma flecha. Agora está além da fala.
Morreu ao pôr-do-sol. Suas amarras me impediram de curá-lo. Outra vez a compaixão por muito tempo endurecida brotou no coração de Túrin como água da rocha.
— Ai! — disse. — Eu traria de volta aquela flecha, se pudesse. Agora esta há de ser chamada Bar-en-Danwedh, Casa do Resgate, em verdade. Pois, quer moremos aqui quer não, considerar-me-ei como seu devedor; e, se algum dia conseguir riqueza, eu lhe pagarei um pesado resgate de ouro por seu filho, em sinal de luto, por muito que isso não mais alegre seu coração.
Então Mîm ergueu-se e olhou longamente para Túrin.
— Eu o ouço — disse. — Você fala como um senhor dos anões de outrora, e me espanto com isso. Agora meu coração esfriou, apesar de não estar contente. Portanto pagarei meu próprio resgate: podem morar aqui se quiserem. Mas acrescentarei o seguinte: aquele que atirou a seta há de partir seu arco e suas flechas, e depositá-los aos pés de meu filho; e jamais há de tomar uma flecha nem portar um arco de novo. Se o fizer, há de morrer por isso. Esta maldição rogo contra ele.
Andróg ficou temeroso quando ouviu falar da maldição; e. apesar de fazê-lo muito a contragosto, quebrou seu arco e suas flechas e os depositou aos pés do anão morto. Mas ao sair do quarto lançou um olhar malévolo a Mîm.
— A maldição de um anão nunca morre, ao que dizem — murmurou —, mas a de um homem também pode atingir o alvo. Que morra com uma flecha na garganta! Naquela noite deitaram-se na sala e dormiram inquietos por causa do choro de Mîm e de Ibun, seu outro filho. Não perceberam quando o choro cessou; mas, quando por fim despertaram, os anões haviam ido embora, e o quarto estava fechado com uma pedra.
O dia estava claro outra vez, e ao sol da manhã os proscritos lavaram-se na lagoa e prepararam a comida que tinham. Enquanto comiam, Mîm parou diante deles.
— Foi-se, e tudo está feito — disse, curvando-se diante de Túrin. — Ele jaz com seus antepassados. Agora voltamo-nos para a vida que nos resta, embora os dias vindouros possam ser breves. O lar de Mîm lhes agrada? O resgate está pago e aceito?
— Está — disse Túrin.
— Então tudo é seu, para arranjarem sua moradia aqui como quiserem, com a seguinte exceção: o quarto que está fechado, ninguém há de abri-lo senão eu.
— Nós o escutamos — disse Túrin. — Mas, quanto à nossa vida aqui, estamos em segurança, ou assim parece; mas ainda assim precisamos de comida e outras coisas. Como havemos de sair; ou, mais ainda, como havemos de voltar?
Para inquietação dos proscritos, Mím deu uma risada gutural.
— Temem terem seguido uma aranha até o núcleo da sua teia? — perguntou. — Mím não come homens! E uma aranha dificilmente poderia enfrentar trinta vespas de uma vez. Vejam, vocês estão armados, e eu estou aqui desprovido. Não. Nós precisamos compartilhar, vocês e eu: casa, comida e fogo, e quem sabe outros ganhos. A casa, penso, vocês a vigiarão e manterão secreta pelo seu próprio bem, mesmo quando conhecerem os caminhos de entrada e saída. Com o tempo vão aprendê-los. Mas por enquanto Mím terá de guiá-los, ou seu filho Ibun.
Com isso Túrin concordou, e agradeceu a Mîm, e a maioria dos seus homens estava contente; pois sob o sol da manhã, enquanto o verão ainda andava alto, parecia um belo lugar para morar. Somente Andróg estava descontente.
— Quanto mais cedo formos senhores de nossas idas e vindas, melhor — disse. — Nunca antes levamos para lá e para cá em nossas andanças um prisioneiro ressentido.
Nesse dia descansaram, limparam as armas e consertaram suas vestes; pois tinham ainda comida para um dia ou dois, e Mím acrescentou ao que tinham. Emprestou-lhes três grandes caldeirões e também o que queimar, além de lhes trazer um saco.
— Refugo — disse. — Nada que valha a pena roubar. Só raízes silvestres.
Mas, quando cozidas, essas raízes demonstraram ser boas de comer, um pouco como pão; e os proscritos contentaram-se com elas, pois durante muito tempo lhes faltara o pão, exceto quando conseguiam roubá-lo.
— Os elfos selvagens não as conhecem; os elfos-cinzentos não as encontraram; os altivos de além-mar são altivos demais para cavar — disse Mîm.
— Como se chamam? — perguntou Túrin.
— Não têm nome, exceto na língua dos anões, que não ensinamos — disse Mîm olhando-o de soslaio. — E não ensinamos os homens a encontrá-las, pois os homens são gananciosos e esbanjadores. E não as poupariam até que todas as plantas tivessem perecido, enquanto agora eles passam por elas quando andam às tontas nos ermos. Não saberão mais de Mîm, mas poderão receber bastante por minha generosidade, contanto que falem com justiça e não espionem nem roubem. — Então outra vez deu um riso gutural. — São de grande valia — disse. —Mais do que ouro no inverno faminto, pois podem ser armazenadas como as nozes de um esquilo, e já estávamos fazendo nosso estoque das primeiras que estão maduras. Mas vocês são tolos se pensam que eu não me apartaria de uma pequena carga, mesmo para salvar minha vida.
— Eu o ouço — disse Ulrad, que olhara no saco quando Mím fora apanhado. — No entanto, não queria apartar-se, e suas palavras só me espantam ainda mais.
Mím voltou-se e o olhou com ar sinistro.
— Você é um dos tolos que a primavera não lamentaria se perecesse no inverno — disse. — Eu tinha dado minha palavra, e portanto teria de voltar, quisesse ou não, com o saco ou sem ele, pense o que quiser um homem sem lei e sem fé! Mas não gosto de me separar do que é meu pela força dos maus, nem que seja somente uma correia de sapato. Então não recordo que suas mãos estavam entre as que me amarraram e de tal forma me seguraram que não falei mais com meu filho? Sempre que eu distribuir o pão-da-terra do meu estoque, você será excluído da contagem, e se o comer há de ser pela generosidade de seus companheiros, não pela minha.
Então Mím se foi; mas Ulrad, que se acovardara ante sua ira, falou dele pelas costas.
— Grandes palavras! No entanto o velho patife tinha outras coisas no saco, de forma semelhante, porém mais duras e pesadas. Quem sabe não haja outras coisas além do pão-da- terra nos ermos, que os elfos não encontraram e os homens não devem conhecer!
— Isso pode ser — disse Túrin. — Ainda assim o anão falou a verdade pelo menos em um ponto: quando o chamou de tolo. Por que precisa falar o que pensa? O silêncio, caso as palavras justas lhe engasguem a garganta, melhor serviria a todos os nossos propósitos.
O dia passou em paz, e nenhum dos proscritos desejou sair. Túrin caminhou muito na verde relva da plataforma, de uma beira à outra; e espiou para leste, oeste e norte, e espantou-se de perceber como se via longe no ar límpido. Para o norte olhou e divisou a Floresta de Brethil subindo verde em volta de Amon Obel no seu meio, e para lá seus olhos eram atraídos sempre, não sabia por quê; pois seu coração estava voltado mais para o noroeste, onde a léguas e léguas de distância, no sopé do firmamento, parecia que podia
entrever as Montanhas da Sombra, as muralhas de seu lar. Mas à tardinha Túrin olhou para oeste, para o ocaso, quando o sol descia nas névoas sobre as costas distantes, e o Vale do Narog jazia nas profundas sombras à sua frente.
Assim teve início a morada de Túrin, filho de Húrin, nos salões de Mím, em Baren- Danwedh, a Casa do Resgate. Para a história de Túrin desde sua chegada a Bar-en-Danwedh até a queda de Nargothrond, vide O Silmarillion, e o Apêndice do Narn i Hín Húrin.


O retorno de Túrin a Dor-lómin


Por fim, exausto pela pressa e pela longa estrada (pois quarenta léguas e mais viajará sem descanso), Túrin chegou com o primeiro gelo do inverno às Lagoas de Ivrin, onde antes fora curado. Mas eram agora apenas um charco congelado, e ele não podia mais beber ali.
De lá alcançou as passagens que levavam a Dor-lómin. A neve chegava implacável do norte, e os caminhos eram arriscados e frios. Apesar de haverem se passado 23 anos desde que pisara aquela trilha, ela estava gravada em seu coração, tão grande fora o pesar de cada passo ao separar-se de Morwen. Assim chegou por fim à terra de sua infância. Estava árida e deserta. Ali as pessoas eram escassas e rudes, e falavam o áspero idioma dos Orientais enquanto o idioma antigo se tornara a língua dos servos, ou dos inimigos. Túrin caminhava, portanto, com cautela, encapuzado em silêncio, e chegou por fim à casa que buscava. Estava vazia e às escuras, e nenhum ser vivo morava por perto; pois Morwen se fora, e Brodda, o Forasteiro (o mesmo que tomou por esposa à força Aerin, parenta de Húrin), havia saqueado sua casa, e levara tudo o que lhe restara de bens ou de criados. A casa de Brodda era a mais próxima da antiga casa de Húrin, e para lá Túrin foi, exausto da caminhada e de tristeza, implorando abrigo; e este lhe foi concedido, pois alguns dos modos mais gentis de outrora lá ainda eram mantidos por Aerin. Deram-lhe um lugar perto do fogo, entre os criados, na companhia de alguns errantes tão sinistros e esgotados quanto ele; e perguntou por notícias da terra. A essas palavras, o grupo silenciou, e alguns recuaram, olhando o estrangeiro de soslaio.
— Se precisa falar a língua antiga, rapaz — disse-lhe um velho errante —, fale-a mais baixo e não pergunte por notícias. Gostaria de ser espancado como delinquente ou enforcado como espião? Pois você pode ser ambos, a julgar por sua aparência. O que significa apenas — disse, aproximando-se e falando baixo no ouvido de Túrin — alguém da gente bondosa de antigamente, que veio com Hador nos dias de ouro, antes que as cabeças usassem pelo de lobo. Alguns daqui são dessa espécie, apesar de terem se tornado mendigos e escravos; e, não fosse pela Senhora Aerin, não ganhariam nem este fogo nem este caldo. De onde é você, e que notícias deseja?
— Havia uma senhora chamada Morwen — respondeu Túrin — e há muito tempo eu vivia em sua casa. Lá cheguei após muito vagar, para buscar as boas-vindas, mas agora não há ali nem fogo nem gente.
— Nem houve há mais de um longo ano — respondeu o velho. — Mas eram escassos o fogo e a gente naquela casa desde a guerra mortal; pois ela pertencia à antiga gente, como você sem dúvida sabe, e era viúva de nosso senhor Húrin, filho de Galdor. Não ousavam tocá-la, no entanto, pois a temiam; altiva e bela como uma rainha, antes que o pesar a desfigurasse. Chamavam-na Mulher-Bruxa, e a evitavam. Mulher-Bruxa: é somente “amiga-dos-elfos” na nova língua. Contudo, roubavam dela. Em muitas ocasiões ela e a filha teriam passado fome, não fosse pela Senhora Aerin, que as ajudava em segredo, dizem, e por isso muitas vezes foi espancada pelo canalha Brodda, seu marido por necessidade.
— E o que houve há mais de um longo ano? — perguntou Túrin. — Estão mortas ou escravizadas? Ou os orcs a atacaram? — Não se sabe ao certo — disse o velho. — Mas ela se foi com a filha; e esse Brodda a saqueou e arrancou o que restava. Não sobrou nem um cachorro, e a pouca gente dela foi escravizada por ele; à exceção de alguns que foram mendigar, assim como eu. Eu, Sador Perneta, a servi por muitos anos, e antes ao grande Senhor. Não fosse um maldito machado na floresta há muito tempo, eu estaria agora deitado no Grande Túmulo. Lembro-me bem do dia em que o menino de Húrin foi mandado embora, e de como ele chorava; e ela, quando ele se fora. Foi ao Reino Oculto, dizem.
Com essas palavras o velho calou-se, e olhou para Túrin desconfiado.
— Sou velho e tagarela — disse. — Não me dê atenção! Mas, apesar de ser agradável falar a antiga língua com alguém que a fala bela como em tempos idos, os dias são maus, e é preciso ter cautela. Nem todos que falam a bela língua são belos no coração.
— É verdade — disse Túrin. — Meu coração é sombrio. Mas se você teme que eu seja espião do norte ou do leste, então tem pouca sabedoria a mais do que tinha há muito tempo, Sador Labadal.
O velho o encarou boquiaberto; então, trêmulo, falou:
—Venha para fora! É mais frio, porém mais seguro. Você fala muito alto, e eu falo demais para uma sala de Oriental. Quando haviam chegado ao pátio, ele agarrou o manto de Túrin. — Muito tempo atrás você morou naquela casa, diz você. Senhor Túrin, filho de Húrin, por que voltou? Meus olhos estão abertos, e meus ouvidos por fim; você tem a voz de seu pai. Mas somente o jovem Túrin me chamava assim, Labadal. Não tinha má intenção: éramos amigos brincalhões naquela época. O que ele busca aqui agora? Somos poucos que restam; e somos velhos e desarmados. Mais felizes são os do Grande Túmulo.
— Não vim com intenção de guerrear — disse Túrin —, apesar de suas palavras agora terem despertado em mim esse pensamento, Labadal. Mas isso tem de esperar. Vim em busca da Senhora Morwen e de Nienor. O que pode me dizer, e depressa?
— Pouco, senhor — disse Sador. — Foram-se em segredo. Sussurrava-se entre nós que foram convocadas pelo Senhor Túrin; pois não duvidávamos de que ele crescera ao longo dos anos, rei ou senhor em algum país do sul. Mas parece que não é assim.
— Não é — respondeu Túrin. — Fui senhor em um país do sul, apesar de agora ser errante. Mas não as convoquei.
— Então não sei o que lhe dizer — disse Sador. — Mas a Senhora Aerin saberá, não duvido. Ela conhecia todos os pensamentos de sua mãe.
— Como posso chegar até ela?
— Isso não sei. Custaria a ela muita dor caso fosse apanhada cochichando à porta com um coitado vagante da gente espezinhada, mesmo que alguma mensagem pudesse trazê-la. E um mendigo como você não avança muito pelo salão, em direção à mesa principal, antes que os Orientais o agarrem e espanquem, ou pior.
— Não posso andar pelo salão de Brodda? — perguntou Túrin, irado — E vão espancar-me? Venha ver!
Com isso, entrou no salão, tirou o capuz, e, empurrando para o lado todos que estavam em seu caminho, dirigiu-se para a mesa onde estavam sentados o dono da casa e sua esposa, e outros senhores Orientais. Então alguns correram para agarrá-lo, mas ele os lançou ao chão.
— Ninguém comanda esta casa, ou é ela uma toca de orcs? — gritou — Onde está o dono?
— Eu comando esta casa — disse Brodda, erguendo-se furioso.
Mas, antes que pudesse dizer mais, Túrin falou.
— Então não aprendeu a cortesia que havia nesta terra antes de você. Agora os homens têm o costume de deixar os lacaios maltratarem os parentes das esposas? Sou um deles, e tenho um mandado para a Senhora Aerin. Devo vir em liberdade, ou devo vir como quero?
— Venha! — disse Brodda, e franziu o cenho; mas Aerin empalideceu.
Então Túrin caminhou até a mesa principal, parou diante dela e inclinou-se.
— Perdoe-me, Senhora Aerin — disse —,. por invadir assim sua casa; mas minha missão é urgente e me trouxe de longe. Busco Morwen, Senhora de Dor-lómin, e sua filha Nienor. Mas a casa dela está vazia e saqueada. O que pode contar-me?
— Nada — disse Aerin apavorada, pois Brodda a observava de perto. — Nada, exceto que se foi.
— Isso não creio — disse Túrin.
Brodda deu então um salto, e estava vermelho de raiva e embriaguez. — Basta! — gritou. — Minha esposa há de ser desmentida diante de mim por um mendigo que fala a língua dos servos? Não há Senhora de Dor-lómin. Mas quanto a Morwen, ela pertencia ao povo dos escravos, e fugiu como fogem os escravos. Faça o mesmo, e depressa, ou mandarei enforcá-lo numa árvore!
Então Túrin pulou sobre ele, sacou a espada negra e agarrou Brodda pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás. — Que ninguém se mova — disse — ou esta cabeça abandonará seus ombros! Senhora Aerin, mais uma vez eu pediria seu perdão, se eu pensasse que este canalha alguma vez lhe fez algo que não fosse o mal. Mas fale agora, e não me negue nada! Não sou Túrin, Senhor de Dor-lómin? Devo ordenar-lhe?
— Ordene-me — respondeu ela.
— Quem saqueou a casa de Morwen?
— Brodda — respondeu ela.
— Quando ela fugiu, e para onde?
— Um ano e três meses atrás — disse Aerin. — O Senhor Brodda e outros Forasteiros do leste por aqui a oprimiram cruelmente. Há muito tempo fora convidada a ir para o Reino Oculto; e por fim partiu. Pois as terras daqui até lá estavam então livres do mal, por algum tempo, graças à bravura do Espada-Negra das terras do sul, ao que dizem; mas agora isso acabou. Ela imaginava lá encontrar o filho à sua espera. Mas, se você é ele, então temo que tudo tenha dado errado.
Riu-se Túrin, então, amargamente.
— Errado, errado? — exclamou. — Sim, sempre errado: tão tortuoso como Morgoth! — E subitamente uma ira negra o sacudiu; pois seus olhos se abriram, o feitiço de Glaurung soltou suas últimas amarras e ele reconheceu as mentiras com que fora ludibriado. — Fui burlado para vir e aqui morrer desonrado, eu que poderia ao menos ter tido um fim valoroso ante as Portas de Nargothrond? — E da noite em torno do salão lhe parecia ouvir os gritos de Finduilas.
— Não serei o primeiro a morrer aqui! — gritou. E agarrou Brodda, e com a força de sua grande angústia e ira ergueu-o bem alto. sacudindo-o como se fosse um cão. — Morwen do povo dos escravos, disse você? Seu filho de covardes, ladrão, escravo de escravos! — Com isso lançou Brodda de cabeça por cima da própria mesa, bem no rosto de um Oriental que se levantou para atacar Túrin.
Nessa queda o pescoço de Brodda partiu-se; e Túrin saltou atrás de seu arremesso, matando mais três que lá estavam agachados, pois os apanhou desarmados. Houve um tumulto no salão. Os Orientais que lá estavam sentados teriam atacado Túrin, mas muitos outros dentre os anciãos de Dor-lómin estavam lá reunidos. Por muito tempo haviam sido mansos criados, mas agora se levantaram em rebelião, aos gritos. Logo começou uma luta ferrenha no salão, e, embora os servos tivessem contra adagas e espadas apenas facas de carne e objetos semelhantes de que puderam se apossar, rapidamente muitos foram mortos de ambos os lados, antes que Túrin saltasse entre eles e matasse o último dos Orientais que ali restava.
Então descansou, encostado a uma coluna, e o fogo de sua ira era como cinzas. Mas o velho Sador arrastou-se para seu lado e o agarrou pelos joelhos, pois estava mortalmente ferido.
— Três vezes sete anos e mais, foi longa a espera por esta hora — disse. — Mas agora vá, vá, senhor! Vá e não volte, senão com maior força. Levantarão a região contra você. Muitos correram do salão. Vá, ou se acabará aqui. Adeus! — Então escorregou até o chão e morreu.
— Ele fala com a verdade da morte — disse Aerin. — Você ficou sabendo o que queria.
Agora vá depressa! Mas antes vá até Morwen e a console, ou considerarei difícil perdoar toda a ruína que provocou aqui. Pois, por pior que fosse minha vida, você me trouxe a morte com sua violência. Os Forasteiros se vingarão desta noite, em todos os que estavam aqui. Temerários são seus atos, filho de Húrin, como se ainda fosse apenas a criança que conheci.
— E fraco é seu coração, Aerin, filha de Indor, como quando eu a chamava de tia, e um cachorro turbulento lhe metia medo — disse Túrin. — Você foi feita para um mundo mais amável. Mas vamos embora! Vou levá-la a Morwen.
— A neve jaz sobre a terra, porém mais funda sobre minha cabeça — respondeu ela. — Eu morreria nos ermos com você, do mesmo modo que com os brutos Orientais. Você não pode consertar o que fez. Vá! Ficar piorará tudo e despojará Morwen sem propósito. Vá, eu lhe imploro!
Túrin inclinou-se profundamente diante dela, virou-se e deixou o salão de Brodda; mas todos os rebeldes que tinham forças o seguiram. Fugiram para as montanhas, pois alguns deles conheciam bem os caminhos dos ermos e abençoaram a neve que caía atrás deles e lhes cobria os rastros. Assim, apesar de a caçada logo se iniciar, com muitos homens, cães e relinchar de cavalos, eles escaparam para o sul em direção das colinas.
Então, olhando para trás, viram uma luz vermelha ao longe, na região que haviam abandonado.
— Eles incendiaram o salão — disse Túrin. — Com que finalidade?
— Eles? Não, senhor: ela, imagino — disse um deles, de nome Asgon. — Muitos homens de armas interpretam mal a paciência e o silêncio. Ela fez muito bem entre nós a muito custo. Seu coração não era fraco, e a paciência acaba por se partir.
Agora alguns dos mais robustos, capazes de resistir ao inverno, ficaram com Túrin e o conduziram por estranhas trilhas até um refúgio nas montanhas, uma caverna conhecida de proscritos e fugitivos; e lá havia escondido um estoque de comida. Lá esperaram até que a neve cessou, e então lhe deram alimento e o levaram a uma passagem pouco usada, que conduzia ao sul, ao Vale do Sirion, aonde a neve não chegara. No caminho que descia, separaram-se.
— Agora adeus, Senhor de Dor-lómin — disse Asgon. — Mas não se esqueça de nós.
Agora seremos homens perseguidos; e o Povo-Lobo será mais cruel por causa de sua vinda. Portanto vá, e não volte, a não ser que venha com força bastante para nos libertar.
Adeus!


A chegada de Túrin a Brethil


Agora Túrin descia em direção ao Sirion, e tinha a mente dividida. Pois lhe parecia que, ao passo que antes tinha duas alternativas amargas, agora havia três; e sua gente oprimida o chamava, aqueles a quem trouxera apenas um aumento de desgosto. Tinha apenas este consolo: o de que sem dúvida Morwen e Nienor há muito tempo haviam chegado a Doriath, e somente pela bravura do Espada-Negra de Nargothrond seu caminho se tornara seguro. E disse em pensamento:
— Em que outro lugar melhor eu poderia tê-las guardado, se de fato tivesse chegado antes? Se o Cinturão de Melian for rompido, então tudo estará acabado. Não, é melhor do modo como as coisas estão; pois por minha ira e meus atos impetuosos lanço uma sombra onde quer que eu viva. Que Melian as guarde! Eu as deixarei em paz, sem sombra, por um tempo.
Mas agora era tarde demais para Túrin buscar Finduilas, vagando pela floresta sob as encostas de Ered Wethrin, selvagem e cauteloso como um animal; e espreitou todas as estradas que levavam ao norte, à Passagem do Sirion. Tarde demais. Pois todos os rastros haviam sido levados pela chuva e pela neve. Mas foi assim que Túrin, descendo o Teiglin, topou com algumas pessoas do Povo de Haleth da Floresta de Brethil. Agora a guerra os havia reduzido a um grupo diminuto, e habitavam do modo mais secreto possível dentro de uma paliçada sobre Amon Obel, nas profundezas da floresta. Ephel Brandir era chamado aquele lugar; pois Brandir, filho de Handir, era agora seu senhor, desde que seu pai fora morto. E Brandir não era guerreiro, pois fora aleijado por uma perna quebrada num infortúnio ocorrido na infância; e ademais era de modos gentis, gostando mais da madeira que do metal, e do conhecimento das coisas que crescem na terra mais do que de outra ciência.
No entanto, alguns dos homens da floresta ainda caçavam os orcs em suas fronteiras; e foi assim que, quando lá chegou, Túrin ouviu um barulho de tumulto. Correu naquela direção e, atravessando as árvores cautelosamente, viu um pequeno bando de homens cercado por orcs. Defendiam-se desesperadamente, de costas para um grupo de árvores que cresciam à parte, numa clareira; mas os orcs eram muito numerosos, e havia pouca esperança de escaparem, a não ser que viesse ajuda. Portanto, escondido na vegetação rasteira, Túrin fez um grande ruído de passos pesados e batidas, e então gritou em voz alta, como se liderasse muitos homens:
 — Ah! Aqui os encontramos! Sigam-me todos! Agora saiam e matem!
Ante essas palavras, muitos orcs olharam para trás consternados, e em seguida Túrin surgiu de um salto, acenando como que para homens atrás dele, e os gumes de Gurthang tremeluziam como uma chama em sua mão. Aquela lâmina era demasiado conhecida dos orcs; e, mesmo antes que ele saltasse entre eles, muitos se dispersaram e fugiram. Então os homens da floresta correram para se unir a ele, e juntos perseguiram seus inimigos para dentro do rio: poucos atravessaram.
Por fim detiveram-se na margem, e Dorlas, líder dos homens da floresta, disse:
 — É rápido na caça, senhor; mas seus homens o seguem devagar.
— Não — disse Túrin —, todos corremos juntos como um só homem, e não podem nos apartar.
Então os homens de Brethil riram e disseram: — Bem, um assim vale por muitos. E nós lhe devemos uma grande gratidão. Mas quem é você, e o que faz aqui?
— Apenas sigo meu ofício, que é matança de orcs — disse Túrin. — E moro lá onde meu ofício estiver. Sou o Homem Selvagem dos Bosques.
— Então venha morar conosco — disseram. — Pois habitamos na floresta, e temos necessidade de tais artesãos. Você seria bem-vindo!
— Então restaram alguns que me permitirão pôr os pés em suas casas? — perguntou Túrin, com um olhar estranho. — Mas, amigos, tenho ainda uma missão dolorosa: encontrar Finduilas, filha de Orodreth de Nargothrond, ou pelo menos saber notícias dela.
Ai! Faz muitas semanas que ela foi levada de Nargothrond, mas ainda devo buscá-la. Então olharam-no com dó.
— Não busque mais — disse Dorlas. — Pois um exército de
orcs subiu de Nargothrond em direção das Travessias do Teiglin, e tínhamos sido alertados com muita antecedência: marchava muito devagar, por causa do número de cativos que levava. Então pensamos em desferir nosso pequeno golpe na guerra, e emboscamos os orcs com todos os arqueiros que pudemos reunir, e esperávamos salvar alguns dos prisioneiros. Mas ai! Assim que foram atacados, os orcs imundos mataram primeiro as mulheres entre seus cativos; e a filha de Orodreth foi presa a uma árvore com uma lança.
— Como sabem isso? — perguntou Túrin, como alguém ferido de morte.
— Porque ela falou comigo antes de morrer — disse Dorlas. — Olhou-nos como se procurasse alguém que esperava, e disse: “Mormegil. Diga ao Mormegil que Finduilas está aqui”. Nada mais falou. Mas, por causa de suas últimas palavras, nós a sepultamos onde morreu. Ela jaz em um túmulo à margem do Teiglin. Foi um mês atrás.
— Levem-me até lá — disse Túrin; e o conduziram a um outeiro perto das Travessias do Teiglin. Lá ele se deitou, e caiu sobre ele uma treva, de forma que pensaram que tivesse morrido. Mas Dorlas o olhou deitado, e então voltou-se para seus homens.
— Tarde demais! Que triste acaso! Mas vejam: aqui jaz o Mormegil em pessoa, o grande capitão de Nargothrond. Por sua espada devíamos tê-lo conhecido, assim como os orcs. — Pois a fama do Espada-Negra do sul se espalhara longe, até as profundezas da floresta.
Ergueram-no, pois, com reverência, e o levaram a Ephel Brandir; e Brandir, saindo para encontrá-los, espantou-se com a maca que traziam. Então, tirando a coberta, divisou o rosto de Túrin, filho de Húrin; e uma sombra escura se abateu sobre seu coração.
— Ó cruéis homens de Haleth! — exclamou. — Por que afastaram a morte deste homem? Com grande esforço trouxeram para cá a última perdição de nosso povo.
— Não — retrucaram os homens da floresta —, é o Mormegil de Nargothrond, um valoroso matador de orcs, e há de nos ser de muita ajuda se viver. E. não fosse assim, deveríamos deixar um homem abatido pelo pesar deitado como carniça à beira do caminho?
— De fato não deveriam — disse Brandir. — O destino não quis assim. — E trouxe Túrin para sua casa e cuidou dele com esmero.
Mas, quando por fim Túrin se livrou da treva, a primavera estava retornando; e ele despertou e viu o sol sobre os brotos verdes. Então a coragem da Casa de Hador despertou nele também, e ele ergueu-se e disse em seu coração:
 — Todos os meus atos e dias passados foram escuros e cheios de mal. Mas chegou um novo dia. Aqui ficarei em paz, e renunciarei ao nome e à família; e assim deixarei minha sombra para trás ou ao menos não a lançarei sobre os que amo.
Adotou, portanto, um novo nome, chamando-se de Turambar, que na língua dos altos-elfos significava Senhor do Destino; e habitou entre os homens da floresta, sendo amado por eles, e os encarregou de esquecerem seu antigo nome e de o considerarem nascido em Brethil. No entanto, com a mudança de nome, não conseguiu mudar inteiramente seu temperamento, nem esquecer inteiramente seus velhos agravos contra com os servos de Morgoth; e saía a caçar orcs com alguns da mesma opinião, apesar de isso desagradar a Brandir. Pois este esperava preservar seu povo pelo silêncio e segredo.
— O Mormegil não existe mais — disse —, porém cuidem-se para que a valentia de Turambar não traga uma vingança semelhante sobre Brethil!
Portanto, Turambar guardou sua espada negra, e não a levava mais ao combate, e em seu lugar usava o arco e a lança. Mas não permitia que os orcs usassem as Travessias do Teiglin ou se aproximassem do túmulo onde Finduilas jazia. Haudh-en-Elleth o chamavam, o Túmulo da Donzela-elfo, e logo os orcs aprenderam a temer aquele lugar e o evitavam.
— Você renunciou ao nome — disse Dorlas a Turambar —, mas ainda é o Espada-Negra; e não dizem a verdade os rumores. que ele era filho de Húrin de Dor-lómin, senhor da Casa de Hador?
— Assim ouvi dizer — respondeu Turambar. — Mas não espalhe isso, peço-lhe, se for meu amigo.


A viagem de Morwen e Nienor a Nargothrond


Quando o Inverno Mortal se retirou, chegaram a Doriath novas notícias de Nargothrond. Pois alguns que haviam escapado do saque, e sobrevivido ao inverno nos ermos, vieram afinal buscar refúgio com Thingol, e os guardas das fronteiras os trouxeram ao Rei. E alguns diziam que todos os inimigos se haviam retirado para o norte, e outros que Glaurung morava ainda nos salões de Felagund; e alguns diziam que o Mormegil estava morto, e outros que estava sob o efeito de um feitiço do Dragão e ainda vivia lá, como alguém transformado em pedra. Mas todos declaravam que se soube em Nargothrond, antes do fim, que o Espada-Negra não era outro senão Túrin, filho de Húrin de Dor-lómin.
Então foi grande o temor e o pesar de Morwen e de Nienor.
— Tal dúvida é a própria obra de Morgoth! — disse Morwen. — Não podemos saber a verdade, e conhecer com certeza o pior que temos de suportar?
Agora o próprio Thingol sentia enorme desejo de conhecer mais sobre o destino de Nargothrond, e já tinha em mente enviar alguns que pudessem com grande cautela ir até lã, mas cria que Túrin estava morto de fato ou fora do alcance da salvação, e temia ver a hora em que Morwen soubesse disso com clareza.
— Este é um assunto arriscado, Senhora de Dor-lómin — disse-lhe —, e precisa ser ponderado. Tal dúvida pode verdadeiramente ser obra de Morgoth, para nos atrair para alguma temeridade.
— Temeridade, senhor! — exclamou Morwen, perturbada. — Se meu filho se esconde faminto na floresta, se definha amarrado, se seu corpo jaz insepulto, então prefiro ser temerária. Não quero perder uma hora para ir procurá-lo.
— Senhora de Dor-lómin — disse Thingol —, isso certamente o filho de Húrin não desejaria. Ele acreditaria que você estaria mais bem guardada aqui do que em qualquer outra terra que resta: sob os cuidados de Melian. Por amor de Húrin e de Túrin, não permitirei que você vagueie longe, no negro perigo destes dias.
— Você não manteve Túrin longe do perigo, mas a mim quer manter longe dele! — exclamou Morwen. — Sob os cuidados de Melian! Sim, uma prisioneira do Cinturão. Por muito tempo hesitei antes de entrar nele, e agora me arrependo.
— Não, se falar assim, Senhora de Dor-lómin — disse Thingol — saiba o seguinte: o Cinturão está aberto. Livre você veio para cá; livre há de ficar... ou partir.
— Não parta daqui, Morwen — disse então Melian, que permanecera em silêncio. — Uma palavra verdadeira você disse: esta dúvida é de Morgoth. Se partir, partirá por vontade dele.
— O temor de Morgoth não me reterá do chamado da minha família — respondeu Morwen. — Mas se teme por mim, senhor, então ceda-me alguns da sua gente.
— Não a comando — disse Thingol. — Mas minha gente é minha para comandar. Eu os mandarei segundo meu próprio julgamento.
Então Morwen nada mais disse, mas chorou; e deixou a presença do Rei. Thingol tinha o coração pesado, pois lhe parecia que a disposição de Morwen era tresloucada; e perguntou a Melian se não poderia refreá-la com seu poder.
— Contra a entrada do mal muito posso fazer — respondeu. — Mas contra a saída dos que desejam ir-se, nada. Essa é sua parte. Se ela deve ser mantida aqui, você precisa segurá-la à força. Porém assim talvez você arruine sua mente.
Então Morwen foi ter com Nienor. — Adeus, filha de Húrin. Vou em busca de meu filho, ou de notícias verdadeiras dele, já que aqui ninguém fará nada a não ser esperar até que seja tarde demais. Aguarde-me aqui até que por acaso eu retorne.
Então Nienor, temerosa e aflita, quis retê-la, mas Morwen nada respondeu e foi para seu aposento. E, quando chegou a manhã, ela montou um cavalo e partiu.
Agora, Thingol dera ordem de que ninguém deveria detê-la, nem parecer espreita-la. Mas, assim que ela partiu, ele reuniu uma companhia dos mais resistentes e habilidosos de seus guardas fronteiriços, e pôs Mablung no comando.
— Agora sigam depressa — disse —, porém não a deixem percebê-los. Quando ela chegar ao ermo, no entanto, se houver ameaça de perigo, então apareçam; e, se ela não quiser voltar, protejam-na como puderem. Mas quero que alguns de vocês avancem o quanto puderem e descubram tudo o que for possível.
Assim foi que Thingol enviou uma companhia maior do que inicialmente pretendera, e havia entre eles dez cavaleiros com cavalos de reserva. Seguiram atrás de Morwen, que tinha ido para o sul através de Region, e assim chegou às margens do Sirion acima dos Brejos do Crepúsculo. Ali ela se deteve, pois o Sirion era largo e veloz, e ela não conhecia o caminho. Portanto os guardas então tiveram de se mostrar.
— Thingol pretende deter-me? — perguntou Morwen. — Ou envia-me tarde o auxílio que negou?
— Ambas as coisas — disse Mablung. — Não vai retornar?
— Não! — disse ela.
— Então tenho de ajudá-la — disse Mablung —, embora isso contrarie minha própria vontade. O Sirion aqui é largo e fundo, e nadar nele é perigoso para animais ou homens.
— Então leve-me para o outro lado por qualquer meio que o povo élfico use para atravessar — disse Morwen —; do contrário tentarei nadar.
Portanto, Mablung conduziu-a aos Brejos do Crepúsculo. Lá, entre os riachos e os juncos, havia balsas escondidas e protegidas na margem leste; pois por aquele caminho passavam os mensageiros em ambos os sentidos entre Thingol e seus parentes em Nargothrond. Então esperaram até que fosse tarde da noite estrelada, e atravessaram nas névoas brancas antes do amanhecer. E justamente quando o sol se erguia vermelho acima das Montanhas Azuis, e um forte vento matutino soprava e dissipava as névoas, os guardas subiram na margem oeste e deixaram o Cinturão de Melian. Eram elfos altos de Doriath, trajando cinza e usando mantos sobre as cotas de malha. Da balsa, Morwen os observou passando em silêncio e então de repente soltou um grito, apontando para o último da companhia que passava.
— De onde veio ele? — perguntou. — Três vezes dez vocês vieram a mim. Três vezes dez e um vocês chegam à margem!
Então os outros se voltaram, e viram que o sol brilhava sobre uma cabeça de ouro; pois era Nienor, e seu capuz fora afastado pelo vento. Assim revelou-se que ela seguira a companhia, e se unira a eles no escuro antes de atravessarem o rio. Ficaram consternados, e ninguém mais que Morwen.
— Volte, volte! Eu lhe ordeno! — exclamou.
— Se a esposa de Húrin pode partir contra todos os conselhos ao chamado da família — disse Nienor —, então a filha de Húrin pode fazer o mesmo. Luto você me chamou, mas não ficarei enlutada sozinha, pelo pai, pelo irmão e pela mãe. Mas dentre esses somente conheci a você e a amo acima de tudo. E não temo nada que você não tema.
Na verdade via-se pouco temor em seu rosto ou sua atitude. Parecia alta e forte; pois eram de grande estatura os da Casa de Hador, e assim, trajada em roupas élficas, ela combinava bem com os guardas, e era mais baixa apenas que o mais alto deles.
— O que pretende fazer? — perguntou Morwen.
— Ir aonde você for — disse Nienor. — Esta opção trago de fato. Levar-me de volta e deixar-me em segurança aos cuidados de Melian; pois não é sábio recusar seu conselho.
Ou saber que irei para o perigo, se você for.
— Pois em verdade Nienor fora mais na esperança de que a mãe retornasse por temor e por amor a ela; e Morwen de fato estava em dúvida.
— É uma coisa recusar conselhos — disse. — É muito diferente recusar o comando de sua mãe. Agora volte!
— Não — disse Nienor. — Faz tempo que não sou mais criança. Tenho minha própria vontade e sabedoria, embora até agora ela não tenha se chocado com a sua. Irei com você. De preferência a Doriath, por respeito àqueles que lá governam; mas do contrário para o oeste. De fato, se alguma de nós prosseguir, deverei ser eu, na plenitude do vigor.
Então Morwen viu nos olhos cinzentos de Nienor a natureza inabalável de Húrin; e hesitou, mas não conseguia vencer o orgulho, e não queria aparentar (exceto pelas belas palavras) estar sendo levada de volta pela filha, como alguém velho e senil.
— Prosseguirei, como pretendo — disse. — Venha você também, mas contra minha vontade.
— Que assim seja — disse Nienor.
— É em verdade por falta de julgamento, e não de coragem, que a gente de Húrin traz desgraça aos outros! — disse então Mablung à sua companhia. — É bem assim com Túrin; porém não com seus antepassados. Mas agora estão todos desesperados, e isso não me agrada. Mais temo esta missão do Rei que a caça ao Lobo. O que se há de fazer? Mas Morwen, que viera para a margem e agora se aproximava, ouviu suas últimas palavras.
— Faça o que o Rei lhe mandou — disse. — Procure notícias de Nargothrond, e de
Túrin. Com esse propósito viemos todos juntos.
— O caminho ainda é longo e perigoso — disse Mablung. —Se forem além, hão de estar ambas montadas e no meio dos cavaleiros, e não se afastarão deles nem um pé.
Assim foi que partiram com dia claro, e com lentidão e cautela saíram da região dos juncos e dos salgueiros baixos, chegando à floresta cinzenta que cobria grande parte da planície meridional diante de Nargothrond. Por todo o dia foram direto para o oeste, sem nada ver além de desolação, e nada ouviram; pois as terras estavam em silêncio, e parecia a Mablung que um temor presente pesava sobre eles. Pelo mesmo caminho Beren andara anos antes, e naquela época a floresta estava cheia dos olhos ocultos dos caçadores; mas agora todo o povo do Narog se fora, e os orcs, como parecia, ainda não perambulavam tão longe para o sul. Naquela noite acamparam na floresta cinzenta sem fogueira ou luz.
Prosseguiram pelos dois dias seguintes e, à tardinha do terceiro dia a partir do Sirion, haviam atravessado a planície e se aproximavam da margem leste do Narog. Então abateu-se sobre Mablung um mal-estar tão grande que ele implorou a Morwen que não avançassem mais. Mas ela riu-se.
— Logo se alegrará de se livrar de nós, como é bem provável. Mas tem de nos suportar um pouco mais. Agora estamos perto muito para voltarmos por medo.
— São vocês duas desesperadas e imprudentes! — exclamou Mablung. — Não ajudam a obter notícias, mas atrapalham. Agora ouçam-me! Pediram-me para não detê-las à força; mas pediram-me também para protegê-las como pudesse. Nesta situação, só uma coisa posso fazer. E vou protegê-las. Amanhã vou levá-las a Amon Ethir, o Morro dos Espiões, que fica perto; e lá ficarão sob guarda, e não seguirão adiante enquanto eu comandar aqui. Amon Ethir era uma elevação do tamanho de um morro que Felagund há muito tempo mandara erguer com grande esforço, na planície diante de suas Portas, uma légua a leste do Narog. Era coberta de árvores, exceto no topo, onde se podia enxergar, longe em todas as direções, as estradas que levavam à grande ponte de Nargothrond e as terras em toda a volta. A esse morro chegaram no fim da manhã, e o escalaram pelo leste. Então, olhando na direção dos Altos Faroth, pardos e pelados do outro lado do rio, Mablung avistou com visão élfica os terraços de Nargothrond na íngreme margem oeste e, como um pequeno buraco negro na parede da colina, as Portas de Felagund, escancaradas. Mas não conseguia ouvir nenhum som, nem ver vestígio de nenhum inimigo, nem qualquer sinal do Dragão senão a queimada em torno das Portas que ele fizera no dia do saque.
Tudo estava quieto sob um sol pálido.
Portanto, como havia dito, Mablung mandou que seus dez cavaleiros mantivessem Morwen e Nienor no alto da colina, e que não se afastassem de lá até que ele voltasse, a não ser que surgisse algum grande perigo. E, se isso acontecesse, os cavaleiros deveriam colocar Morwen e Nienor em seu meio e fugir com a rapidez possível, para o leste em direção a Doriath, mandando um à frente para trazer notícias e buscar auxílio.
Então Mablung, com a vintena remanescente de sua companhia, esgueirou-se morro abaixo; e, passando para os campos a oeste, onde havia poucas árvores, dispersaram-se e seguiram cada um por seu caminho, ousados mas furtivos, até a margem do Narog. O próprio Mablung tomou o caminho do meio, avançando para a ponte, e assim chegou à sua extremidade próxima, e a encontrou toda destruída. O rio em seu leito fundo, com a correnteza violenta depois das chuvas longínquas no norte, espumava e rugia entre as pedras caídas.
Mas Glaurung estava deitado lá, logo no início da sombra do grande corredor que conduzia para o interior a partir das Portas arruinadas, e por muito tempo estivera consciente dos espiões, apesar de que poucos outros olhos na Terra Média os teriam discernido. Mas a visão de seus olhos ferozes era mais penetrante que a das águias, e alcançava mais longe que a prodigiosa visão dos elfos. E na realidade ele também sabia que alguns haviam ficado para trás, sentados sobre o topo pelado de Amon Ethir.
Assim, justo quando Mablung se esgueirava entre os rochedos, procurando ver se conseguiria vadear o rio caudaloso por cima das pedras caídas da ponte, de repente Glaurung surgiu com um forte sopro de fogo e desceu rastejando para dentro da correnteza. Então imediatamente houve um violento chiado, e levantaram-se enormes nuvens de vapor. E Mablung e seus seguidores que espreitavam por perto foram tragados por um vapor cegante e fedor imundo; e a maioria fugiu como melhor conseguiu adivinhar na direção do Morro dos Espiões. Mas, quando Glaurung passava sobre o Narog, Mablung afastou-se de lado, deitou-se sob uma rocha, e lá ficou; pois lhe parecia que ainda tinha uma missão a cumprir. De fato, agora sabia que Glaurung habitava em Nargothrond, mas também lhe haviam pedido para descobrir, se pudesse, a verdade a respeito do filho de Húrin; e portanto, no arrojo de seu coração, propôs-se a cruzar o rio assim que Glaurung tivesse ido embora, e a buscar nos salões de Felagund. Pois pensava que todo o possível fora feito para a guarda de Morwen e Nienor: a chegada de Glaurung teria sido observada, e naquele momento os cavaleiros deveriam estar correndo para Doriath.
Glaurung, um enorme vulto na névoa, não levou Mablung em conta; e andava depressa, pois era um Lagarto enorme e no entanto ágil. Então Mablung às suas costas vadeou o Narog com grande risco; mas os vigias sobre Amon Ethir observaram a saída do Dragão e ficaram consternados. Imediatamente mandaram Morwen e Nienor montar, sem debate, e se prepararam para fugir para o leste como lhes havia sido comandado. Mas, justo quando desciam do morro para a planície, um vento maligno soprou sobre eles os grandes vapores, trazendo um fedor que nenhum cavalo podia suportar. Então, cegados pela neblina e loucos de pavor do odor do dragão, os cavalos logo ficaram incontroláveis e corriam desvairados para lá e para cá; e os guardas se dispersaram, sendo arrojados com violência contra as árvores ou procurando em vão uns pelos outros. Os relinchos dos cavalos e os gritos dos cavaleiros chegaram aos ouvidos de Glaurung; e ele se regozijou.
Um dos cavaleiros élficos, lutando com seu cavalo na neblina, viu a Senhora Morwen passar por perto, um espectro cinzento numa montaria enlouquecida; mas ela desapareceu na névoa, gritando Nienor, e não a viram mais.
Mas, quando o terror cego acometeu os cavaleiros, o cavalo de Nienor, correndo ao léu, tropeçou, e ela foi ao chão. Tendo caído de leve na relva, não se feriu; mas quando se pôs de pé estava só: perdida na névoa sem cavalo ou companhia. Seu coração não a traiu, e ela se pôs a pensar. Pareceu-lhe inútil ir na direção de um grito ou de outro, pois havia gritos em toda a sua volta, que soavam, porém, cada vez mais fracos. Pareceu-lhe melhor, nesse caso, procurar o morro outra vez: sem dúvida Mablung iria para lá antes de partir, nem que fosse apenas para se certificar de que nenhum da sua companhia lá ficara.
Portanto, caminhando por suposição, ela encontrou o morro, que de fato estava próximo, seguindo o aclive do solo diante de seus pés; e lentamente subiu a trilha que vinha do leste. E, à medida que subia, a névoa tornou-se mais rala, até que por fim saiu para a luz do sol no cume pelado. Então avançou e olhou para o oeste. E lá, bem à sua frente, estava a grande cabeça de Glaurung, que naquele momento acabava de subir rastejando pelo lado oposto; e, antes que se desse conta, os olhos dela fitaram os dele, e estes eram terríveis, plenos do espírito cruel de Morgoth, seu mestre.
Nienor resistiu, então, a Glaurung, pois era de vontade forte; mas ele aplicou seu poder contra ela.
— O que busca aqui? — perguntou.
— Busco apenas um certo Túrin que por algum tempo morou aqui — disse ela forçada a responder. — Mas ele está morto, talvez.
— Não sei — disse Glaurung. — Foi deixado aqui para defender as mulheres e os fracos; mas, quando cheguei, ele os abandonou e fugiu. Um fanfarrão, mas covarde, ao que parece. Por que busca alguém assim?
— Você mente — disse Nienor. — Os filhos de Húrin, pelo menos, não são covardes.
Nós não o tememos.
Riu-se então Glaurung, pois assim a filha de Húrin se revelou à sua malícia.
— Então são tolos, tanto você quanto seu irmão — disse. — E sua fanfarronice há de ser em vão. Pois eu sou Glaurung!
Então ele atraiu os olhos dela para os seus, e a vontade de Nienor se apagou. Pareceu-lhe que o sol adoeceu e tudo se obscureceu à sua volta. Lentamente uma grande treva se abateu sobre ela, e nessa treva havia um vazio; ela nada soube, nada ouviu e nada lembrou.
Por muito tempo Mablung explorou os salões de Nargothrond, na medida do possível tendo em vista a escuridão e o fedor; mas não encontrou lá nenhum ser vivo: nada se mexia entre os ossos, e ninguém respondia a seus gritos. Por fim, oprimido pelo horror do lugar e temendo o retorno de Glaurung, voltou às Portas. O sol estava se pondo no oeste, e as sombras dos Faroth atrás dele caíam escuras sobre os terraços e o rio violento lá embaixo. Ao longe, porém, abaixo de Amon Ethir, pareceu-lhe divisar a forma maligna do Dragão. Foi mais difícil e arriscada a volta sobre o Narog com tanta pressa e medo; e ele mal havia alcançado a margem leste, e se esgueirado para baixo da ribanceira, quando Glaurung se aproximou. Mas estava agora lento e furtivo; pois todos os fogos em seu interior estavam reduzidos: um grande poder emanara dele, e agora ele queria descansar e dormir no escuro. Assim atravessou a água e se esgueirou até as Portas como uma enorme serpente, cor de cinza, deixando o chão viscoso com a barriga.
Mas virou-se antes de entrar, olhou para trás, para o leste, e saiu dele o riso de Morgoth, obscuro, mas horrível, como um eco de maldade vindo das longínquas profundezas negras. E uma voz, fria e baixa, se seguiu: — Lá está você deitado como um rato silvestre sob a ribanceira, poderoso Mablung! Você executa mal as missões de Thingol. Corra agora ao morro, e veja o que aconteceu com sua tutelada!
Glaurung entrou então em seu covil, o sol se pôs, e uma tarde cinzenta chegou gelada àquela região. Mas Mablung voltou correndo a Amon Ethir; e, ao chegar ao topo, surgiram as estrelas no leste. À frente delas ele viu ali, de pé, escuro e imóvel, um vulto semelhante a uma imagem de pedra. Assim estava Nienor, sem nada ouvir do que ele dizia e sem lhe responder. Mas, quando por fim ele a tomou pela mão, ela se mexeu e permitiu que ele a levasse embora. E enquanto ele a segurava ela o seguia; mas, se a soltasse, ela parava imóvel. Enormes foram então o pesar e a confusão de Mablung; mas não lhe restava outra escolha senão conduzir Nienor dessa forma no longo caminho para o leste, sem auxílio nem companhia. Assim se foram, caminhando como quem sonha, para entrar na planície imersa na noite. E. quando retornou a manhã. Nienor tropeçou e caiu, ficando deitada imóvel; e Mablung sentou-se ao seu lado, desesperado.
— Não foi à toa que temi esta missão — disse. — Pois será minha última, ao que parece. Com essa infeliz filha dos homens, hei de perecer nos ermos, e meu nome há de ser desprezado em Doriath: caso alguma notícia de nosso destino de fato chegue um dia a seus ouvidos. Todos os demais sem dúvida foram mortos, e só ela foi poupada, mas não por compaixão.
Assim foram encontrados por três membros da companhia que haviam fugido do Narog à chegada de Glaurung e, após muito errarem, quando desaparecera a névoa, haviam voltado ao morro; e, encontrando-o deserto, haviam começado a buscar o caminho de casa. Então a esperança voltou a Mablung; e seguiram juntos, tomando o rumo do norte e do leste, pois não havia estrada de volta para Doriath no sul, e desde a queda de Nargothrond os vigias das balsas estavam proibidos de atravessar qualquer pessoa, exceto as que viessem de dentro.
Lenta foi sua viagem, como a dos que conduzem uma criança exausta. Mas à medida que se afastavam de Nargothrond e se aproximavam de Doriath, pouco a pouco as forças retornaram a Nienor, que caminhava hora após hora obediente, levada pela mão.
No entanto, seus olhos arregalados nada viam, seus ouvidos nenhuma palavra escutavam, e seus lábios nenhuma palavra pronunciavam. Por fim, após muitos dias. chegaram perto do limite oeste de Doriath, um pouco ao sul do Teiglin; pois pretendiam atravessar as fronteiras da pequena terra de Thingol além do Sirion, alcançando assim a ponte vigiada perto da confluência do Esgalduin. Lá pararam um pouco; e deitaram Nienor num banco de relva. Ela fechou os olhos como não os fechara ainda, e parecia que dormia. Então os elfos também descansaram, e de tanta exaustão relaxaram a vigilância. Assim foram atacados inesperadamente por um bando de orcs caçadores, tais como então costumavam vagar por aquela região, o mais perto das fronteiras de Doriath que ousavam ir. No meio do tumulto, subitamente Nienor com um salto levantou-se do banco, como alguém que desperta do sono com um alarme noturno, e dando um grito saiu correndo para a floresta. Então os orcs se voltaram e a perseguiram, e os elfos atrás deles. Mas uma estranha transformação ocorreu com Nienor, que agora corria mais depressa que todos, voando como uma corça entre as árvores, com o cabelo esvoaçando no vento de sua velocidade. De fato, Mablung e seus companheiros depressa alcançaram os orcs, mataram todos eles e seguiram às pressas. Mas a essa altura Nienor havia desaparecido como um espectro; e nem visão nem pista dela puderam encontrar, apesar de buscarem por muitos dias.
Então finalmente Mablung voltou a Doriath, curvado de pesar e vergonha.
— Escolha um novo líder dos caçadores, senhor — disse ele ao Rei —, pois estou desonrado.
— Não é assim, Mablung — disse-lhe, porém, Melian. — Você fez tudo o que podia, e nenhum outro entre os servidores do Rei teria feito tanto. Porém por má sorte teve de enfrentar um poder demasiado grande para você; na verdade, demasiado grande para todos os que agora habitam na Terra Média.
— Enviei-o para obter notícias, e você as obteve — disse Thingol. — Não é sua culpa que aqueles mais afetados pelas notícias estejam agora impossibilitados de escutá-las.
Lamentável de fato é este fim de toda a família de Húrin, mas você não pode ser responsabilizado por ele.
Pois agora não apenas Nienor havia fugido, insensata, para os ermos, mas também Morwen estava perdida. E, do destino desta, nem naquela época, nem depois, qualquer notícia certa chegou a Doriath ou a Dor-lómin. Não obstante, Mablung não quis descansar e, com uma pequena companhia, saiu para os ermos. Durante três anos vagou longe, de Ered Wethrin mesmo até as Fozes do Sirion, buscando sinal ou notícia das desgarradas.


Nienor em Brethil


Quanto a Nienor, porém, ela continuou correndo floresta adentro, ouvindo os gritos da perseguição logo atrás; e arrancou suas roupas, jogando longe suas vestes, até ficar nua. E aquele dia inteiro ainda correu como um animal que é caçado à exaustão e não ousa parar ou tomar fôlego. Mas à tardinha subitamente passou sua loucura. Ela se deteve por um momento, como que assombrada, e então, num desmaio de profundo cansaço, caiu numa moita de samambaias como quem foi abatido. E lá, entre as folhas velhas e os jovens ramos da primavera, ficou deitada e adormeceu, descuidada de tudo. Pela manhã despertou e se regozijou com a luz como alguém recém-chamado à vida. Todas as coisas que via lhe pareciam novas e estranhas, e não tinha nomes para elas. Pois para trás havia apenas uma treva vazia, através da qual não vinha lembrança de nada que jamais conhecera, nem eco de qualquer palavra. Só se recordava de uma sombra de medo. Acautelava-se, portanto, e sempre procurava esconderijos: subia em árvores ou se esgueirava para dentro do mato cerrado, rápida como um esquilo ou uma raposa, caso algum ruído ou sombra a assustasse; e de lá espiava muito tempo pelas folhas antes de seguir caminho outra vez.
Avançando desse modo pelo caminho que antes atravessara correndo, chegou ao rio Teiglin, e saciou a sede; mas não encontrou alimento, nem sabia como procurá-lo, e estava faminta e com frio. E, uma vez que as árvores do outro lado da água pareciam mais densas e escuras (como eram de fato, pois eram as beiras da floresta de Brethil), atravessou por fim, chegou a um outeiro verde e se lançou ao solo; estava exausta, e lhe parecia que a treva que deixara para trás a estava alcançando mais uma vez, e que o sol se escurecia.
Mas era na verdade uma negra tempestade que se avizinhava do sul, carregada de raios e chuva intensa; e ficou lá deitada, encolhida de pavor do trovão, enquanto a chuva escura golpeava sua nudez.
Mas aconteceu que alguns dos homens da floresta de Brethil chegassem naquela hora, vindos de uma incursão contra os orcs. passando às pressas pelas Travessias do Teiglin para um refúgio próximo; e veio o forte clarão de um raio, de forma que o Haudhen- Elleth se iluminou como que por uma chama branca. Então Turambar, que liderava os homens, sobressaltou-se, recuou, cobriu os olhos, e tremeu; pois pareceu-lhe ver o espectro de uma donzela morta jazendo sobre o túmulo de Finduilas. Mas um dos homens correu até o outeiro, e gritou para ele:
— Venha cá, senhor! Eis uma jovem deitada, e está viva! — E Turambar veio e a ergueu, e a água escorria do cabelo encharcado, mas ela fechou os olhos, estremeceu e não lutou mais. Então, assombrado por ela estar assim nua, Turambar envolveu-a com seu manto e a carregou para o alojamento dos caçadores na floresta. Lá fizeram uma fogueira e a enrolaram em cobertores; e ela abriu os olhos e os fitou. E, quando seu olhar caiu sobre Turambar, seu rosto se iluminou e ela lhe estendeu a mão, pois lhe pareceu que finalmente encontrara algo que buscava nas trevas, e consolou-se. Mas Turambar tomou-lhe a mão, e sorriu.
— Agora, senhora, não vai nos dizer seu nome e de sua família, e que mal a acometeu?
Então ela balançou a cabeça, e nada disse, mas começou a chorar; e não a perturbaram mais até que tivesse comido voraz a comida que lhe puderam dar. E quando terminou de comer deu um suspiro, e pôs a mão na de Turambar.
— Está a salvo conosco. Pode descansar aqui hoje à noite, e pela manhã vamos conduzi-la a nosso lar na alta floresta. Mas gostaríamos de saber seu nome e sua família, para que possamos achá-los, quem sabe, e lhes levar notícias suas. Não quer nos contar?
Porém mais uma vez ela não deu resposta.
— Não se aflija! — disse Turambar. — Quem sabe a história seja ainda triste demais para contar. Mas vou dar-lhe um nome, e chamá-la de Níniel, Donzela das Lágrimas. — E diante daquele nome ela ergueu os olhos, e abanou a cabeça, mas disse: Níniel. E essa foi a primeira palavra que falou após sua treva, e esse passou a ser seu nome entre os homens da floresta.
Pela manhã carregaram Níniel em direção a Ephel Brandir, e a estrada subia íngreme para Amon Obel, chegando a um lugar onde tinha de atravessar a correnteza turbulenta do Celebros. Lá fora construída uma ponte de madeira, e sob ela o rio passava por cima de uma borda gasta de pedra, e em muitos degraus espumantes caía numa bacia rochosa muito abaixo; e um borrifo semelhante à chuva impregnava o ar. Na cabeceira da cascata havia um amplo gramado, e cresciam bétulas em sua volta, mas de cima da ponte tinha-se uma vista abrangente das Ravinas do Teiglin, umas duas milhas a oeste. Lá o ar era fresco, e no verão os viandantes descansavam e bebiam a água fria. Dimrost, a Escada Chuvosa, chamava-se aquela cascata, mas após aquele dia passou a ser Nen Girith, as Águas Trêmulas; pois Turambar e seus homens ali se detiveram, mas assim que Níniel chegou àquele lugar ela sentiu frio e tremeu, e não conseguiam aquecê-la ou confortá-la. Portanto, apressaram-se em seguir caminho; mas, antes de chegarem a Ephel Brandir, Níniel já delirava em febre.
Muito tempo esteve doente, e Brandir empregou toda a sua habilidade para curá-la enquanto as mulheres dos homens da floresta a velavam noite e dia. Mas, somente quando Turambar estava perto, ela ficava em paz, ou dormia sem gemer. E todos os que a vigiavam observaram o seguinte: durante toda a sua febre, embora estivesse frequentemente muito perturbada, jamais murmurou palavra alguma, em qualquer língua dos elfos ou dos homens. E quando a saúde lentamente lhe voltou, e ela caminhava e começava a comer de novo, então as mulheres de Brethil tiveram de ensiná-la a falar, como se faz com uma criança, palavra por palavra. Mas nesse aprendizado ela era rápida, e muito lhe agradava, como acontece com quem reencontra tesouros, grandes e pequenos, que estavam perdidos; e, quando finalmente aprendera o bastante para falar com os amigos, dizia:
— Qual é o nome desta coisa? Pois em minha treva eu o perdi. — E, quando foi novamente capaz de sair, procurava a casa de Brandir; pois estava avidíssima por aprender os nomes de todos os seres vivos, e ele entendia muito de tais assuntos; e caminhavam juntos nos jardins e nas clareiras.
Então Brandir apaixonou-se por ela; e ela, quando se fortaleceu, dava-lhe o braço para compensar sua manqueira, e o chamava de irmão. Mas seu coração pertencia a Turambar, e ela só sorria quando ele vinha, e só ria quando ele falava com alegria. Certa tardinha, no outono dourado, estavam sentados juntos, e o sol fazia brilhar a encosta e as casas de Ephel Brandir, em meio a um silêncio profundo.
— Já perguntei os nomes de todas as coisas — disse-lhe Níniel — exceto o seu. Como se chama?
— Turambar — respondeu ele.
Então ela fez uma pausa, como se procurasse ouvir um eco.
— E o que isso quer dizer, ou é apenas um nome só para você?
— Significa — disse ele — Mestre da Sombra Escura. Pois também eu, Níniel, tive minha treva, onde as coisas caras se perderam; mas agora, creio, isso já passou.
— E você também fugiu dela, correndo, até chegar a esta bela floresta? — disse ela. — E quando foi que escapou, Turambar?
— Sim — respondeu ele. — Fugi por muitos anos. E escapei quando você escapou.
Pois estava escuro quando você chegou, Níniel, mas houve luz desde então. E me parece que chegou a mim o que por muito tempo busquei em vão. — E ao voltar para casa, no crepúsculo, ele disse consigo: — Haudh-en-Elleth! Do verde túmulo ela veio. Isso será um sinal, e como hei de interpretá-lo?
Aconteceu que aquele ano dourado terminou e passou a um inverno clemente, seguido de outro ano luminoso. Havia paz em Brethil, e os homens da floresta se mantiveram quietos, sem se afastar da região, e não tiveram notícia das terras ao redor. Pois os orcs que naquela época vinham para o sul, ao obscuro reino de Glaurung, ou eram mandados espionar as fronteiras de Doriath, evitavam as Travessias do Teiglin e passavam a oeste, muito além do rio.
E Níniel estava agora plenamente curada, tendo se tornado bela e forte; e Turambar não se conteve mais, e pediu-a em casamento. Então Níniel alegrou-se; mas, quando Brandir soube, seu coração afligiu-se.
— Não se apresse! Não creia que sou cruel se a aconselho a esperar.
— Nada que você faz é com crueldade — disse ela. — Mas então por que me dá tal conselho, sábio irmão?
— Sábio irmão? — respondeu ele. — Manco irmão, isso sim, mal-amado e malajeitado. E mal sei por quê. No entanto uma sombra paira sobre esse homem, e tenho medo.
— Havia uma sombra — disse Níniel —, pois assim ele me contou. Mas escapou dela, do mesmo modo que eu. E ele não merece amor? Apesar de agora manter-se em paz, não foi ele outrora o maior capitão, do qual fugiam todos os nossos inimigos quando o viam?
— Quem lhe contou isso? — perguntou Brandir.
— Foi Dorlas — respondeu ela. — Não disse a verdade?
— A verdade, de fato — disse Brandir, mas isso lhe desagradava, pois Dorlas era o chefe da facção que desejava a guerra contra os orcs. E no entanto ainda buscava razões para fazer com que Níniel protelasse a decisão. — A verdade, mas não toda a verdade; pois ele foi o Capitão de Nargothrond, e antes disso veio do norte, e era (dizem) filho de Húrin de Dor-lómin da combativa Casa de Hador. — E Brandir, vendo a sombra que lhe passava pelo rosto diante daquele nome, interpretou-a mal, e disse mais:
 — De fato, Níniel, bem pode você pensar que um homem desses provavelmente logo volte à guerra, talvez longe desta região. E, se for assim, como você o suportará? Tome cuidado, pois prevejo que, se Turambar voltar à batalha, então pode ser que não ele, e sim a Sombra haverá de prevalecer.
— Eu o suportaria mal — respondeu ela —, mas solteira não seria melhor que casada. E uma esposa talvez possa controlá-lo melhor, e manter a sombra à distância. — No entanto ela ficou perturbada com as palavras de Brandir, e pediu a Turambar que ainda esperasse um pouco. E ele ficou intrigado e abatido; mas, quando soube de Níniel que Brandir a aconselhara a esperar, contrariou-se.
Quando chegou a primavera seguinte, porém, ele disse a Níniel:
— O tempo passa.
Já esperamos, e agora não esperarei mais. Faça o que seu coração mandar, caríssima Níniel, mas veja: estas são as opções que tenho. Agora retornarei à guerra nos ermos; ou a desposarei, e nunca mais voltarei à guerra, a não ser para defendê-la, caso algum mal assalte nosso lar.
Então ela se alegrou de fato, empenhou sua palavra, e no solstício de verão casaram-se. Os homens da floresta fizeram um grande banquete e lhes deram uma bela casa que lhes haviam construído sobre Amon Obel. Lá habitaram felizes, mas Brandir estava perturbado, e a sombra em seu coração se aprofundava.


A chegada de Glaurung


Nessa época o poder e a perversidade de Glaurung cresciam depressa, e ele muito engordou, reuniu orcs em torno de si e governou como um Rei-dragão. Todo o reino de Nargothrond que existira estava sob seu domínio. E antes que terminasse aquele ano, o terceiro da estada de Turambar entre os homens da floresta, Glaurung começou a atacar a terra deles, que por algum tempo conhecera a paz; pois de fato era de perfeito conhecimento de Glaurung e seu Senhor que em Brethil vivia ainda um remanes   cente dos homens livres, os últimos das Três Casas a desafiarem o poderio do norte. E isso não queriam tolerar; pois o propósito de Morgoth era subjugar Beleriand inteira e vasculhar cada um de seus cantos, para que não vivesse ninguém, em nenhuma toca ou esconderijo, que não fosse seu servo. Assim, quer Glaurung adivinhasse onde Túrin se escondia, quer (como afirmam alguns) este na época tivesse de fato escapado ao olho do Mal que o perseguia, pouco importa. Pois ao fim os conselhos de Brandir deviam revelar-se vãos, e só poderiam restar duas opções a Turambar: sentar-se inerte até ser encontrado, acossado como um rato; ou partir logo para a batalha, e revelar-se.
No entanto, quando as notícias da investida dos orcs chegaram pela primeira vez a Ephel Brandir, ele não saiu, e acedeu aos pedidos de Níniel.
— Nossos lares ainda não foram assaltados, e foi essa a palavra que você me deu — disse-lhe ela. — Dizem que os orcs não são numerosos. E Dorlas contou-me que, antes que você viesse para cá, não eram raros tais tumultos, e os homens da floresta os mantinham à distância.
Mas os homens da floresta foram derrotados, pois aqueles orcs eram de raça cruel, feroz e astuciosa; e vinham na verdade com o fim de invadir a Floresta de Brethil, e não, como antes, de passar pelas suas fronteiras com outros destinos, ou de caçar em bandos pequenos. Portanto Dorlas e seus homens foram rechaçados com perdas, e os orcs atravessaram o Teiglin e vagaram longe na floresta. E Dorlas veio a Turambar para mostrar seus ferimentos.
— Veja, senhor, agora nossa hora de necessidade nos alcançou, após uma falsa paz, exatamente como eu previa. Você não pediu para ser considerado um do nosso povo, e não um estrangeiro? Este risco não é seu também? Pois nossos lares não permanecerão ocultos, se os orcs penetrarem mais em nossa terra.
Portanto Turambar ergueu-se, tomou outra vez sua espada Gurthang e foi ao combate; e, quando os homens da floresta ouviram falar disso, muito se encorajaram, e se juntaram a ele até que ele dispunha de um grupo de muitas centenas. Então caçaram por toda a floresta e mataram todos os orcs que se esgueiravam ali, e os penduraram em árvores perto das Travessias do Teiglin. E, quando um novo exército veio atacá-los, eles o capturaram; e os orcs, surpresos tanto pelo número de homens da floresta quanto pelo terror do Espada-Negra que retornara, foram arrasados e mortos em grande quantidade.
Então os homens da floresta fizeram grandes piras e queimaram às pilhas os corpos dos soldados de Morgoth; e a fumaça de sua vingança ergueu-se negra ao céu, e o vento a levou para o oeste. Mas poucos sobreviventes voltaram a Nargothrond com essas novas. Então Glaurung enfureceu-se de fato; mas durante algum tempo permaneceu quieto e ponderou o que ouvira. Assim o inverno passou em paz, e os homens diziam:
— Grande é o Espada-Negra de Brethil, pois todos os nossos inimigos foram derrotados. — E Níniel consolou-se, e ficou contente com o renome de Turambar; mas ele permanecia pensativo, dizendo em seu coração: — O dado está lançado. Agora virá a prova em que minha jactância será confirmada ou falhará por completo. Não fugirei mais. Serei Turambar de fato, e pela minha própria vontade e valentia sobrepujarei meu destino, ou cairei. Mas, caindo ou prevalecendo, ao menos matarei Glaurung.
Estava, porém, inquieto, e enviou homens ousados para muito longe, como batedores. Pois na verdade, apesar de nenhuma palavra ser dita, agora ele organizava as coisas conforme queria, como se fosse senhor de Brethil, e ninguém dava atenção a Brandir. A primavera chegou esperançosa, e os homens cantavam enquanto trabalhavam. Mas naquela primavera Níniel concebeu, tornou-se pálida e abatida, e toda a sua felicidade se nublou. E logo chegaram estranhas notícias, dos homens que haviam avançado além do Teiglin, de que havia uma grande queimada ao longe, nos bosques da planície para o lado de Nargothrond, e os homens se perguntavam o que seria.
Breve chegaram outros relatos: de que o fogo se espalhava cada vez mais para o norte, e de que na verdade Glaurung em pessoa o provocava. Pois ele deixara Nargothrond e estava outra vez ao largo em alguma missão. Então os mais tolos ou mais esperançosos diziam:
— Seu exército foi destruído, e agora finalmente ele tomou juízo e está voltando ao lugar de onde veio. — E outros diziam: — Esperemos que nos deixe de lado. — Mas Turambar não tinha tais esperanças, e sabia que Glaurung vinha procurar por ele. Portanto, apesar de disfarçar seus pensamentos em consideração a Níniel, ponderava sempre, dia e noite, que decisão deveria tomar; e a primavera se transformava em verão.
Chegou um dia em que dois homens voltaram a Ephel Brandir aterrorizados, pois haviam visto o Grande Lagarto em pessoa.
— Em verdade, senhor — disseram a Turambar —, aproxima-se agora do Teiglin, e não se desvia. Estava deitado no meio de uma grande queimada, e as árvores fumegavam em sua volta. Seu fedor mal pode ser suportado. E sua trilha imunda se estende por todas as longas léguas desde Nargothrond, segundo cremos, em uma linha que não se desvia, mas aponta direto para nós. O que se há de fazer?
— Pouco — disse Turambar —, mas sobre esse pouco já pensei. As notícias que trazem dão-me esperança em vez de temor; pois se de fato ele anda em linha reta, como dizem, e não se desvia, então tenho alguns conselhos para os corações intrépidos. — Os homens espantaram-se, pois naquela hora nada mais ele disse; mas encorajaram-se com sua atitude inabalável.
O rio Teiglin corria do seguinte modo. Descia de Ered Wethrin rápido como o Narog, mas inicialmente entre margens baixas, até que, após as Travessias, acumulando força de outras correntezas, abria caminho pelos sopés do planalto sobre o qual ficava a Floresta de Brethil. Depois corria em ravinas profundas, cujas grandes laterais eram como muralhas de rocha, mas as águas, confinadas ao fundo, fluíam com grande força e ruído.
E bem na trajetória de Glaurung ficava agora uma dessas gargantas, não a mais profunda, mas a mais estreita, logo ao norte da confluência do Celebros. Portanto Turambar enviou três homens intrépidos para vigiarem os movimentos do Dragão desde a beirada; mas ele próprio cavalgaria até a alta cascata de Nen Girith, onde as notícias poderiam alcançá-lo depressa, e de onde ele mesmo poderia olhar ao longe por sobre as terras.
Mas primeiro reuniu os homens da floresta em Ephel Brandir e lhes falou:
— Homens de Brethil, abate-se sobre nós um perigo mortal, que somente grande bravura poderá desviar. Mas neste caso os números de pouco adiantarão; temos de usar astúcia e esperar por sorte propícia. Se enfrentássemos o Dragão com todas as nossas forças, como faríamos contra um exército de orcs, estaríamos apenas nos oferecendo a todos para morrer, e assim deixaríamos sem defesa nossas esposas e famílias. Portanto digo que devem permanecer aqui e se preparar para a fuga. Pois, se Glaurung vier, devem abandonar este lugar e se dispersar. Desse modo, alguns poderão escapar e viver. Pois certamente, se puder, ele virá à nossa fortificação e morada para destruir a ela e a tudo o que avistar; mas depois não permanecerá aqui. Em Nargothrond está todo o seu tesouro, e lá estão os fundos salões onde pode se deitar em segurança e crescer.
Então os homens se afligiram, e ficaram totalmente desanimados, pois confiavam em Turambar e esperavam palavras mais esperançosas.
— Não, isso é o pior — disse ele. — E não há de acontecer, se meu julgamento e minha sorte forem bons. Pois não creio que esse Dragão seja invencível, apesar de crescer em força e malícia com o passar dos anos. Sei algumas coisas sobre ele. Seu poder está mais no espírito maligno que mora nele do que no vigor de seu corpo, por enorme que este seja. Pois ouçam agora esta história que ouvi de alguns que combateram no ano das Nirnaeth, quando eu e a maioria dos que me ouvem éramos crianças. Naquele campo os anões lhe resistiram e Azaghâl de Belegost feriu-o tão fundo que ele fugiu de volta para Angband. Mas existe um espinho mais afiado e mais longo que a faca de Azaghâl. E Turambar puxou Gurthang da bainha e deu uma estocada para cima, sobre su cabeça, e aos que observavam parecia que uma chama saltava muitos pés no ar, da mão de Turambar. Então exclamaram em alta voz: — O Espinho Negro de Brethil!
— O Espinho Negro de Brethil — disse Turambar —, Glaurung fará bem em temê-lo. Pois saibam isto: é o destino deste Dragão (e de toda a sua prole, dizem) que, por maior que seja sua armadura córnea, mais resistente que o ferro, por baixo ele tem de andar com o ventre de uma serpente. Portanto, homens de Brethil, agora devo ir buscar o ventre de Glaurung, por qualquer meio que possa. Quem virá comigo? Preciso apenas de alguns, de braços fortes e coração mais forte ainda.
— Irei com você, senhor, pois prefiro sempre avançar a esperar por um inimigo — disse então Dorlas, apresentando-se.
Mas nenhum outro respondeu tão depressa ao chamado, pois o temor de Glaurung pesava sobre eles, e a história dos batedores que o tinham visto espalhara-se e crescera ao ser contada.
— Escutem, homens de Brethil — exclamou Dorlas —, agora bem se vê que para o mal de nossos tempos foram vãos os conselhos de Brandir. Não há como escapar escondendose. Nenhum de vocês tomará o lugar do filho de Handir, para que não seja envergonhada a Casa de Haleth? — Assim foi desdenhado Brandir, que de fato estava sentado na cadeira principal, do chefe da assembleia, porém sem receber atenção, e seu coração se amargurou; pois Turambar não repreendeu Dorlas. Mas um certo Hunthor, parente de
Brandir, levantou-se.
— Você faz mal, Dorlas — disse ele —, em falar assim para vergonha de seu senhor, cujos membros por má sorte não podem fazer o que seu coração deseja. Cuide-se para que em algum momento não se veja o contrário em você! E como se pode dizer que seus conselhos foram vãos, se nunca foram aceitos? Você, seu vassalo, nunca lhes deu valor. Digo-lhe que Glaurung agora vem a nós, como antes a Nargothrond, porque nossos atos nos delataram, como ele temia. Mas, já que agora chegou esta aflição, com sua permissão,
filho de Handir, irei em nome da casa de Haleth.
— Três é o bastante! — disse Turambar. — Levarei vocês dois. Mas, senhor, não o desdenho. Veja! Temos de ir com grande pressa, e nossa tarefa necessitará de membros fortes. Julgo que seu lugar é com seu povo. Pois você é sábio, e tem o poder da cura; e pode ser que haja grande necessidade de sabedoria e cura antes que passe muito tempo. — Mas essas palavras, embora ditas com justiça, apenas amarguraram Brandir ainda mais.
— Vá então — disse ele a Hunthor —, mas não com minha permissão. Pois uma sombra paira sobre esse homem, e ela os conduzirá ao mal.
Agora Turambar estava com pressa de partir; mas, quando se aproximou de Níniel para despedir-se dela, ela se agarrou a ele. em choro angustiado. — Não vá embora, Turambar, eu imploro! — disse ela. — Não desafie a sombra da qual fugiu! Não, não, fuja ainda uma vez, e leve-me com você, para bem longe!
— Caríssima Níniel — respondeu ele —, não podemos fugir para mais longe, você e eu. Estamos confinados nesta terra. E mesmo que eu fosse, desertando o povo que foi nosso amigo, eu poderia somente levá-la para os ermos sem casa, à sua morte e à morte de nosso filho. Cem léguas ficam entre nós e qualquer terra que ainda esteja fora do alcance da Sombra. Mas tenha coragem, Níniel. Pois eu lhe digo: nem você nem eu havemos de ser mortos por este Dragão, nem por qualquer inimigo do norte. — Então Níniel parou de chorar e silenciou, mas seu beijo foi frio quando se separaram.
Então Turambar, com Dorlas e Hunthor, partiu a toda para Nen Girith; e, quando lá chegaram, o sol se aproximava do oeste e as sombras eram compridas; e os dois últimos batedores lá os aguardavam.
— Não está chegando cedo demais, senhor — disseram. — Pois o Dragão avançou e, quando partimos, já havia alcançado a margem do Teiglin e espiado por sobre a água. Move-se sempre à noite, e assim podemos esperar algum golpe antes da aurora de amanhã.
Turambar olhou por sobre a cascata do Celebros e viu o sol descendo para se pôr, e negras espirais de fumaça subindo às margens do rio.
— Não há tempo a perder — disse —; e no entanto essas são boas notícias. Pois eu temia que ele buscasse em volta; e, se fosse para o norte e chegasse às Travessias, e depois à antiga estrada na baixada, então não haveria mais esperança. Mas agora alguma fúria de orgulho e malevolência o impele com precipitação. — Mas fazia-se perguntas mesmo enquanto falava, e meditava em seu íntimo: — Ou pode ser que alguém tão maligno e feroz evite as Travessias, exatamente como os orcs? Haudh-en-Elleth! Finduilas ainda jaz entre mim e meu destino?
Então voltou-se para os companheiros.
— Agora esta tarefa está diante de nós. Precisamos ainda esperar um pouco; pois neste caso cedo demais é tão ruim quanto tarde demais. Quando cair a penumbra, teremos de nos arrastar e descer com toda a cautela até o Teiglin. Mas tenham cuidado! Pois os ouvidos de Glaurung são tão aguçados quanto seus olhos; e são mortíferos. Se alcançarmos o rio sem sermos percebidos, então teremos de descer à ravina, atravessar a água e assim chegar à trilha que ele tomará quando se mover.
— Mas como poderá avançar assim? — perguntou Dorlas. — Pode ser ágil, mas é um grande Dragão, e como há de descer por um penhasco e subir pelo outro, quando uma parte tem de estar subindo outra vez enquanto a traseira ainda estiver descendo? E, se puder fazê-lo, de que nos adiantará estar lá embaixo, na água bravia?
— Talvez ele possa fazer isso — respondeu Turambar —, e de fato, se o fizer, será ruim para nós. Mas é minha esperança, pelo que sabemos dele e pelo lugar onde agora está deitado, que é outro seu propósito. Ele chegou à beira de Cabed-en-Aras, sobre a qual, como vocês contam, um cervo certa vez saltou fugindo dos caçadores de Haleth. Ele agora está tão grande que penso que tentará atravessar ali lançando-se por cima. Essa é toda a nossa esperança, e temos de confiar nela.
A essas palavras Dorlas desanimou; pois conhecia melhor que os demais toda a terra de Brethil, e Cabed-en-Aras era de fato um lugar sinistro. Do lado leste havia um penhasco escarpado de uns quarenta pés sem vegetação mas com árvores no topo; do outro lado havia uma margem, um pouco menos escarpada e mais baixa, coberta de árvores e moitas pendentes; mas no meio a água corria violenta entre as rochas, e, embora um homem intrépido e confiante conseguisse vadeá-la de dia, era arriscado ousar fazê-lo à noite. Mas era essa a decisão de Turambar, e era inútil contradizê-lo.
Portanto partiram ao anoitecer, e não foram diretamente em direção do Dragão, mas tomaram primeiro o caminho para as Travessias; então, antes de chegarem lá, voltaram-se para o sul por uma trilha estreita e entraram na penumbra da floresta acima do Teiglin. E, enquanto se aproximavam de Cabed-en-Aras, passo a passo, parando frequentemente para escutar, chegaram até eles as emanações da queimada, e um fedor que os enojou. Mas tudo estava em silêncio mortal, e não soprava a menor brisa. As primeiras estrelas tremeluziam no leste atrás deles, e tênues espirais de fumaça subiam retas e firmes em contraste com a última luz no oeste. Ora, quando Turambar se foi, Níniel ficou muda como uma pedra; mas Brandir veio ter com ela.
— Níniel, não tema o pior enquanto não for necessário. Mas eu não a aconselhei a esperar?
— Aconselhou — respondeu ela. — Mas de que isso me adiantaria agora? Pois o amor pode conformar e sofrer sem estar casado.
— Isso eu sei — disse Brandir. — Porém o casamento não é para nada.
— Carrego o filho dele há dois meses — disse Níniel. — Mas não me parece que meu temor da perda seja por isso mais pesado de suportar. Não o compreendo.
— Nem eu a mim mesmo — disse ele. — E no entanto tenho medo.
— Belo consolo você me traz! — exclamou ela. — Mas Brandir, amigo: casada ou solteira, mãe ou donzela, meu pavor é maior do que minhas forças. O Senhor do Destino partiu para desafiar seu destino longe daqui, e como hei de ficar aqui e esperar a lenta chegada de notícias, boas ou más? Hoje à noite pode ser que ele enfrente o Dragão, e como hei de passar em pé ou sentada as horas terríveis?
— Não sei — disse ele —, mas de algum modo as horas terão de passar, para você e para as esposas dos que foram com ele.
— Elas que façam o que seu coração mandar! — exclamou ela. — Mas, quanto a mim, hei de ir-me. As milhas não hão de permanecer entre mim e o risco de meu senhor. Vou ao encontro das notícias!
Enegreceu então o pavor de Brandir diante das palavras dela.
— Isso você não há de fazer, se eu puder impedir. Pois assim porá em risco toda a prudência. As milhas que nos separaram de lá poderão nos dar tempo de escapar, se o pior acontecer.
— Se o pior acontecer, não hei de querer escapar — disse ela. — E agora sua sabedoria é inútil, e você não há de impedir-me. — E adiantou-se à frente do povo que ainda estava reunido no largo da Ephel, e gritou: — Homens de Brethil! Não esperarei aqui. Se meu senhor fracassar, então toda esperança será falsa. Sua terra e seus bosques serão totalmente queimados, e todas as suas casas transformadas em cinzas, e ninguém, ninguém, há de escapar. Portanto, por que demorar-se aqui? Agora vou ao encontro das notícias e do que quer que envie o destino. Que todos aqueles que concordam venham comigo!
Então muitos quiseram ir com ela: as esposas de Dorlas e Hunthor, porque os que elas amavam haviam partido com Turambar; outros por pena de Níniel e desejo de serem seus amigos; e muitos mais que eram atraídos pelo próprio rumor do Dragão, esperando por valentia ou por tolice (pouco sabendo do mal) ver feitos estranhos e gloriosos. Pois na verdade em suas mentes tão grande se tornara o Espada-Negra que poucos podiam crer que até mesmo Glaurung conseguisse derrotá-lo. Portanto partiram às pressas, uma grande companhia, na direção de um perigo que não compreendiam; e, caminhando com pouco descanso, por fim chegaram exaustos, bem ao cair da noite, a Nen Girith, muito pouco depois que Turambar dali partira. Mas a noite é um frio conselheiro, e agora muitos estavam espantados com sua própria temeridade; e, quando ouviram dos batedores que lá restavam o quanto Glaurung se aproximara, e o propósito desesperado de Turambar, o coração lhes congelou no peito, e não ousaram ir adiante. Alguns espiavam na direção de Cabed-en-Aras com olhos ansiosos, mas nada podiam ver, e nada ouviam senão a fria voz da cascata. E Níniel sentou-se afastada, e um grande tremor se apossou dela.
Quando Níniel e sua companhia haviam partido, Brandir dirigiu-se aos que permaneciam.
— Vejam como sou desprezado, e desdenhados todos os meus conselhos! Que Turambar seja seu senhor no nome, visto que já tomou toda a minha autoridade. Pois aqui renuncio tanto ao domínio quanto ao povo. Que ninguém nunca mais me peça conselho ou cura! — E partiu seu cajado. Em seu íntimo, pensou: — Agora nada me resta, a não ser meu amor por Níniel: portanto, aonde ela for, com prudência ou loucura, aí devo ir. Nesta hora escura nada pode ser previsto; mas pode bem ser que até mesmo eu possa afastar dela algum mal, se estiver por perto.
Armou-se, portanto, com uma espada curta, como poucas vezes fizera antes, tomou sua muleta e se foi com a rapidez possível porta afora da Ephel, mancando atrás dos demais, descendo a longa trilha para a fronteira oeste de Brethil.


A morte de Glaurung

Por fim, à medida que a noite alta se fechava sobre a terra, Turambar e seus companheiros chegaram a Cabed-en-Aras, e ficaram contentes com o grande ruído das águas; pois, embora prometesse um risco mais abaixo, abafava todos os outros sons.
Então Dorlas conduziu-os um pouco para o lado, para o sul, e desceram por uma fenda até o sopé do penhasco; mas lá seu coração fraquejou, pois havia muitos rochedos e grandes pedras no rio; e, em torno deles, a correnteza forte rangia os dentes.
— Este é um caminho seguro para a morte — disse Dorlas.
— É o único caminho, para a morte ou para a vida — disse Turambar —, e o atraso não o fará parecer mais esperançoso. Portanto sigam-me! — E avançou à frente deles. E, fosse por habilidade, bravura, fosse pelo destino, atravessou, e na profunda escuridão virou-se para ver quem vinha atrás. Um vulto escuro estava de pé ao seu lado. — Dorlas? — perguntou ele.
— Não, sou eu — disse Hunthor. — Dorlas desistiu na travessia. Pois um homem pode gostar da guerra e ainda assim temer muitas coisas. Está sentado na margem, tiritando,
imagino eu; e que a vergonha o domine pelas palavras que disse ao meu parente.
Agora, Turambar e Hunthor descansaram um pouco, mas logo a noite os enregelou, pois estavam ambos ensopados de água. Começaram então a procurar um caminho ao longo do rio, para o norte, em direção à posição ocupada por Glaurung. Lá o abismo ficava mais escuro e mais estreito, e à medida que avançavam às apalpadelas podiam ver acima deles um tremeluzir como que de fogo em brasa, e ouviam o rosnado do Grande Lagarto em seu sono vigilante. Procuraram tateando um caminho de subida, para se aproximarem sob a beira; pois nisso residia toda a sua esperança de chegar ao inimigo por baixo da sua guarda. Mas agora o fedor era tão violento que ficaram tontos, e escorregavam ao escalar, agarravam-se aos troncos das árvores e vomitavam, esquecendo em sua aflição todo o medo, salvo o pavor de caírem nos dentes do Teiglin.
— Estamos gastando nossas forças minguantes sem motivo — disse então Turambar a Hunthor. — Pois, enquanto não soubermos onde o Dragão passará, escalar será em vão.
— Mas quando o soubermos — disse Hunthor —, então não haverá tempo de achar um caminho para sair do abismo.
— É verdade — disse Turambar. — Mas, quando tudo depende da sorte, é na sorte que devemos confiar. — Pararam, portanto, e esperaram, e da ravina escura observaram uma estrela branca, muito alta, arrastar-se de um lado ao outro da tênue faixa de céu; e então Turambar lentamente caiu em um sonho onde toda a sua força de vontade era dedicada a se agarrar, por muito que uma maré negra sugasse e roesse seus membros.
De repente houve um grande barulho, e as paredes do abismo tremeram e ecoaram. Turambar despertou e disse a Hunthor: — Ele se mexe. Chegou a hora. Golpeie fundo, pois agora dois terão de golpear por três!
E com isso Glaurung começou seu ataque a Brethil; e tudo se passou bem como Turambar esperara. Pois agora o Dragão arrastou-se lento e pesado até a beira do penhasco e não se desviou, mas aprontou-se para saltar sobre o abismo com as enormes patas dianteiras para depois puxar o corpanzil. O terror vinha com ele; pois não começou sua passagem bem por cima deles, mas um pouco ao norte, e os que observavam de baixo podiam ver a enorme sombra de sua cabeça diante das estrelas; e suas mandíbulas estavam escancaradas, e tinha sete línguas de fogo. Então soltou um sopro, de forma que toda a ravina se encheu de uma luz vermelha, e de sombras negras voando entre as rochas; mas as árvores diante dele murchavam e se consumiam em fumaça, e pedras caíam no rio com estrondo. E em seguida ele se lançou para diante, agarrou o penhasco oposto com as garras enormes, e começou a se içar para o outro lado.
Agora era preciso ser temerário e rápido, pois, embora Turambar e Hunthor tivessem escapado ao sopro, visto que não estavam exatamente na trajetória de Glaurung, ainda assim tinham de se aproximar dele antes que atravessasse, ou teria sido inútil toda a sua esperança. Indiferente ao perigo, Turambar escalou pela beira da água para se posta debaixo dele; mas tão mortíferos eram lá o calor e o fedor que cambaleou e teria caído se Hunthor, seguindo-o resoluto, não o tivesse segurado pelo braço para equilibrá-lo.
— Coragem admirável! — disse Turambar. — Feliz foi a escolha que o tomou por ajudante! — Mas, no exato instante em que falava, uma grande pedra despencou de cima, atingindo Hunthor na cabeça, e ele caiu na água, e dessa forma faleceu: não o menos valoroso da Casa de Haleth. Então Turambar exclamou: — Ai! É uma desgraça caminhar na minha sombra! Por que busquei auxílio? Pois agora você está só, ó Senhor do Destino, como deveria saber que estaria. Agora vença sozinho!
Então chamou para si toda a sua força de vontade, e todo o seu ódio do Dragão e de seu Senhor, e pareceu que de repente encontrou uma força do coração e do corpo que antes não conhecera; e escalou o penhasco, de pedra em pedra, e de raiz em raiz, até que por fim agarrou uma árvore delgada que crescia um pouco abaixo da beira do abismo, e que ainda estava firmemente enraizada, apesar de ter o topo queimado. E, enquanto ele se equilibrava em uma forquilha dos seus galhos, passou acima dele a parte mediana do Dragão, descendo a oscilar quase sobre sua cabeça, de tão pesada, antes que Glaurung conseguisse erguê-la. Pálido e enrugado era o lado inferior, e todo úmido com uma substância cinzenta e viscosa, à qual estava aderida toda espécie de imundície do solo; e recendia à morte. Então Turambar puxou a Espada Negra de Beleg e desferiu um golpe para cima, com toda a força de seu braço e de seu ódio, e a lâmina mortífera, longa e ávida, entrou no ventre até o punho.
Então Glaurung, sentindo os estertores da morte, soltou um urro que sacudiu toda a floresta, e os vigias em Nen Girith ficaram apavorados. Turambar cambaleou como quem foi golpeado e caiu escorregando; e a espada foi-lhe arrancada da mão e permaneceu enfiada no ventre do Dragão. Pois Glaurung, em um grande espasmo, ergueu todo o corpanzil trêmulo e o lançou sobre a ravina, e lá, na margem oposta, contorceu-se, urrando, debatendo-se e se enrolando em agonia, até destruir uma grande área em seu redor, e finalmente ficou deitado em fumaça e ruína, e não se moveu mais.
Agora Turambar estava agarrado às raízes da árvore, atordoado e quase desmaiado. Mas lutou consigo mesmo e se forçou a avançar; e meio deslizando, meio escalando desceu ao rio, e empreendeu outra vez a perigosa travessia, agora engatinhando em mãos e pés, agarrando-se, cego com os borrifos, até que finalmente passou, e subiu exausto pela fenda por onde haviam descido. Assim chegou afinal ao lugar do Dragão moribundo, fitou seu inimigo abatido sem compaixão e ficou contente.
Lá jazia agora Glaurung com as mandíbulas escancaradas; mas todos os seus fogos estavam extintos, e seus olhos malignos estavam fechados. Estava estendido de comprido e rolara sobre um lado; e o punho de Gurthang estava enfiado em seu ventre. Encheu-se então de alegria o coração de Turambar e, apesar de o Dragão ainda respirar, quis recuperar sua espada, que, se antes lhe era cara, agora valia para ele todo o tesouro de Nargothrond. Demonstraram ser verdadeiras as palavras ditas quando foi forjada, de que nada, grande ou pequeno, que ela mordesse haveria de viver.
Portanto, chegando-se ao inimigo, pôs o pé sobre seu ventre, e agarrando o punho de Gurthang aplicou sua força em puxá-la. E exclamou, zombando das palavras de Glaurung em Nargothrond: — Salve, Lagarto de Morgoth! Mais uma vez feliz encontro!
Morra agora, e que as trevas o tenham! Assim está vingado Túrin, filho de Húrin.
— Então extraiu a espada com toda a força, e, no instante em que o fez, saiu com ela um esguicho de sangue negro, que lhe caiu na mão, e sua carne queimou-se com o veneno, de forma que gritou alto de dor. Com isso Glaurung mexeu-se, abriu os olhos maléficos e encarou Turambar com tanto rancor que lhe pareceu ter sido atingido por uma flecha; e por essa causa e pelo tormento da mão desmaiou, jazendo por cima da espada, como morto ao lado do Dragão.
Então, os urros de Glaurung chegaram aos ouvidos das pessoas em Nen Girith, e elas se encheram de pavor; e, quando os vigias contemplaram de longe a grande ruína e queimada que o Dragão provocara em sua agonia, acreditaram que estava pisoteando e destruindo aqueles que o haviam atacado. Então de fato desejaram que fossem mais longas as milhas até lá; mas não se atreviam a sair da elevação onde se reuniam, pois lembravam-se das palavras de Turambar de que, se Glaurung vencesse, iria primeiro para Ephel Brandir. Portanto, esperaram temerosos por algum sinal de movimento seu, mas nenhum deles era tão intrépido para descer e buscar notícias no lugar da batalha. E Níniel permaneceu sentada, imóvel, exceto pelo fato de que tremia e não conseguia apaziguar os membros; pois, quando ouviu a voz de Glaurung, o coração morreu em seu peito, e ela sentiu que a treva a assolava outra vez.
Assim Brandir a encontrou. Pois chegou finalmente à ponte sobre o Celebros, lento e exausto. Todo o longo caminho, viera mancando sozinho com a muleta, e eram pelo menos cinco léguas de sua casa até ali. O medo por Níniel o impelira, e agora as notícias que ouviu não eram piores do que temera. — O Dragão atravessou o rio — disseram-lhe os homens — e o Espada-Negra certamente está morto, bem como os que foram com ele. — Então Brandir pôs-se ao lado de Níniel, adivinhou-lhe a angústia e enterneceu-se por ela; mas ainda assim pensou:
— O Espada-Negra está morto, e Níniel vive. — E estremeceu, pois de repente parecia fazer frio junto às águas de Nen Girith; e lançou seu manto em torno de Níniel. Mas não achou palavras para dizer; e ela não falou.
O tempo passou, e Brandir ainda estava em pé ao seu lado, em silêncio, espiando a noite e escutando; mas nada podia ver, e não ouvia nenhum som, exceto a queda das águas de Nen Girith, e pensou;
— Agora certamente Glaurung se foi e passou para Brethil.
— Mas não sentia mais pena de seu povo, tolos que haviam desprezado seu conselho e dele haviam zombado. — Que o dragão vá a Amon Obel, e então haverá tempo para escapar, para levar Níniel para longe. — Mal sabia para onde, pois jamais viajara para fora de Brethil.
Por fim inclinou-se e tocou o braço de Níniel.
— O tempo passa, Níniel! Venha! É hora de partir. Se me deixar, vou conduzi-la.
Então ela se levantou em silêncio, tomou-lhe a mão, e os dois passaram sobre a ponte, descendo a trilha que levava às Travessias do Teiglin. Mas quem os viu movendo-se como sombras no escuro não sabia quem eram, e não se importava. E, quando haviam caminhado um pouco através das árvores silenciosas, a lua nasceu além de Amon Obel, e as clareiras da floresta encheram-se de uma luz cinzenta. Então Níniel parou e perguntou a Brandir:
— É este o caminho?
— Qual é o caminho? — respondeu ele. — Pois toda a nossa esperança em Brethil acabou-se. Não temos caminho, exceto para escapar do Dragão, e fugir para longe dele enquanto ainda é tempo.
— Você não se ofereceu para levar-me até ele? — disse Níniel, fitando-o com espanto. — Ou pretende enganar-me? O Espada-Negra era meu amado e meu marido, e só vou para encontrá-lo. Que outra coisa você poderia pensar? Agora faça o que quiser, mas eu preciso apressar-me.
E, enquanto Brandir se detinha estupefato por um momento, ela se afastou dele correndo; e ele a chamou para si, aos gritos.
— Espere, Níniel! Não vá sozinha! Você não sabe o que irá encontrar. Irei com você! — Mas ela não lhe dava atenção, e agora corria como se o sangue a queimasse, aquele que antes estivera frio; e, apesar de ele segui-la como podia, logo não conseguia mais vê-la. Amaldiçoou então seu destino e sua debilidade, mas não retornou.
Agora a lua se erguia branca no firmamento e estava quase cheia; e, quando Níniel desceu do planalto para a região próxima ao rio, pareceu-lhe que se recordava dela e a temia. Pois chegara às Travessias do Teiglin, e Haudh-en-Elleth lá se erguia diante dela, pálido ao luar, com uma sombra negra lançada sobre ele de lado a lado; e do túmulo emanava um grande pavor.
Então ela voltou-se com um grito, e fugiu para o sul, seguindo o rio. Lançou longe o manto ao correr, como se lançasse fora uma treva que aderia a ela; e por baixo estava toda trajada de branco, e reluzia ao luar enquanto esvoaçava por entre as árvores. Assim Brandir, acima dela na encosta, a viu, e desviou-se para cruzar sua trajetória, se conseguisse. Encontrou por sorte a estreita senda que Turambar usara, pois esta saía do caminho mais trilhado e descia íngreme para o rio ao sul, e por fim ele a alcançou outra vez por trás. No entanto, por mais que chamasse, ela não o atendia ou não o ouvia, e logo ganhou distância mais uma vez. Assim se aproximaram da floresta ao lado de Cabed-en-Aras, o lugar da agonia de Glaurung.
A lua navegava então ao sul, descoberta de nuvens, e a luz era fria e límpida. Chegando à borda da ruína que Glaurung fizera, Níniel viu seu corpo ali estendido, e seu ventre cinzento ao clarão da lua; mas a seu lado jazia um homem. Então, esquecendo o medo, ela continuou correndo por entre os destroços fumegantes. e assim chegou até Turambar. Ele caíra de lado. E sua espada estava por baixo dele, mas à luz branca tinha o rosto lívido como a morte. Então ela se lançou ao seu lado, chorando, e o beijou. Pareceu-lhe que sua respiração era muito fraca, mas acreditou que era apenas uma ilusão de falsa esperança, pois ele estava frio, não se movia, nem lhe respondia. E, enquanto o acariciava, descobriu que tinha a mão enegrecida como se tivesse sido chamuscada.
Lavou-a com suas lágrimas e, arrancando uma faixa das vestes, enfaixou-a. Mas ele ainda não se movia ao seu toque, e ela o beijou mais uma vez, e gritou em voz alta:
— Turambar. Turambar, volte! Ouça-me! Desperte! Pois é Níniel. O Dragão está morto, morto, e só eu estou aqui com você. — Mas ele nada respondeu.
Seu grito foi ouvido por Brandir, pois ele chegara à beira da ruína; mas, no momento em que deu um passo à frente na direção de Níniel, foi detido e permaneceu imóvel. Pois, ao grito de Níniel, Glaurung mexeu-se pela última vez, e um tremor percorreu todo o seu corpo. Ele entreabriu os olhos malignos como fendas, e a lua brilhava neles quando ele falou arfando:
— Salve, Nienor, filha de Húrin. Mais uma vez nos encontramos antes do fim. Concedo-te alegria por teres encontrado teu irmão afinal. E agora o conhecerás: o que apunhala no escuro, traiçoeiro com os inimigos, desleal com os amigos, e uma maldição para sua família, Túrin, filho de Húrin! Mas o pior de todos os seus feitos hás de sentir em ti mesma.
Sentou-se então Nienor como que atordoada, mas Glaurung morreu; e com sua morte o véu de sua maldade desprendeu-se dela, e todas as suas lembranças se aclararam, dia após dia. Nem esquecera nada do que lhe havia acontecido desde que se deitara no Haudh-en-Elleth. E todo o seu corpo estremeceu de horror e angústia. Mas Brandir, que tudo ouvira, ficou estupefato e encostou-se a uma árvore.
Subitamente Nienor pôs-se de pé de um salto, parou pálida como um espectro à luz da lua e baixou os olhos para Túrin.
— Adeus, ó duas vezes amado! — gritou. — A Túrin Turambar turún' ambartanem senhor do destino pelo destino assenhoreado! Ó, feliz por estar morto! — Então, desesperada de pesar e com o horror que dela se apossara, fugiu tresloucada daquele lugar; e Brandir seguiu atrás dela trôpego.
— Espere! Espere. Níniel! — gritou ele.
Por um momento ela se deteve, olhando para trás com olhos arregalados.
— Esperar? — gritou. — Esperar? Sempre foi esse seu conselho. Oxalá o tivesse seguido! Mas agora é tarde demais. E agora não esperarei mais na face da Terra Média. — E continuou correndo diante dele.
Chegou rápida à borda de Cabed-en-Aras, e lá parou, olhando para a água ruidosa.
— Água, água! Leve agora Níniel Nienor, filha de Húrin; Luto, Luto, filha de Morwen! Leve-me e carregue-me até o mar! — Com essas palavras, lançou-se sobre a borda: um clarão branco tragado no abismo escuro, um grito perdido no rugir do rio.
As águas do Teiglin seguiram seu curso, mas Cabed-en-Aras não mais existia. Cabed Naeramarth os homens o chamaram depois disso; pois nenhum cervo jamais saltaria ali outra vez. e todas as criaturas vivas o evitavam, e nenhum homem caminhava na sua margem. O último dos homens que olhou pela sua escuridão abaixo foi Brandir, filho de Handir; e afastou-se horrorizado, pois seu coração fraquejou; e, apesar de agora detestar a vida, não pôde buscar lá a morte que desejava. Então seu pensamento voltou-se para Túrin Turambar.
— Odeio-o ou tenho pena de você? — perguntou. — Mas você está morto. Não lhe devo gratidão, a você que tomou tudo o que eu tinha ou desejava ter. Mas meu povo tem uma dívida com você. É adequado que ouçam a história por mim.
E assim começou a voltar coxeando para Nen Girith, evitando com um estremecimento o lugar do Dragão; e ao escalar novamente a trilha íngreme deu com um homem que espiava através das árvores, e recuou à vista dele. Mas percebera seu rosto em um clarão do sol poente.
— Ah, Dorlas! — exclamou. — Que novas pode me dar? Como escapou com vida? E que é de meu parente?
— Não sei — respondeu Dorlas, soturno.
— Então isso é estranho — disse Brandir.
— Se deseja saber — disse Dorlas —, o Espada-Negra queria que vadeássemos as corredeiras do Teiglin no escuro. É estranho que eu não tenha conseguido? Sou mais hábil com o machado do que alguns, mas não tenho pés de cabra.
— Então prosseguiram sem você para atacar o Dragão? — perguntou Brandir. — Mas como foi quando ele passou por cima? Pelo menos você estaria por perto e veria o que aconteceu.
Mas Dorlas não deu resposta e só encarou Brandir com ódio nos olhos. Então Brandir compreendeu, percebendo de repente que aquele homem desertara seus companheiros e então, acovardado pela vergonha, escondera-se na floresta.
— Que vergonha, Dorlas! — disse. — Você é o gerador de nossos pesares: incitando o Espada-Negra, trazendo o Dragão sobre nós, entregando-me ao desdém, levando Hunthor à morte, e depois foge para acovardar-se na floresta! — E, enquanto falava, outro pensamento lhe veio à mente. Disse, então, com grande ira:
— Por que não trouxe notícias? Seria a mínima penitência que poderia fazer. Se as tivesse trazido, a Senhora Níniel não teria precisado buscá-las por si. Jamais precisaria ter visto o Dragão. Poderia ter vivido. Dorlas, eu o odeio!
— Guarde seu ódio! — disse Dorlas. — É tão débil quanto todos os seus conselhos. Não fosse por mim. os orcs teriam vindo pendurá-lo como espantalho em seu próprio jardim. Tome para si o nome de covarde! — E com essas palavras, mais disposto à cólera por estar envergonhado, desferiu um golpe em Brandir com seu punho enorme, e assim terminou sua vida, antes que a expressão de espanto deixasse seus olhos: pois Brandir puxou a espada e lhe aplicou o golpe de morte. Então por um momento ficou ali de pé, tremendo, nauseado com o sangue; e, lançando a espada ao chão, virou-se e seguiu caminho, curvado sobre a muleta.
Quando Brandir chegou a Nen Girith, a pálida lua já se havia posto, e a noite terminava; a manhã se abria no leste. As pessoas que ainda estavam encolhidas ali, perto da ponte, viram-no chegar como uma sombra cinzenta na aurora, e alguns lhe gritaram espantados:
— Onde esteve? Você a viu? Pois a Senhora Níniel se foi.
— Sim, foi-se — disse. — Foi-se, foi-se, para nunca mais voltar! Mas eu vim trazer-lhes notícias. Ouça agora, povo de Brethil, e diga se alguma vez existiu história como a que lhes trago! O Dragão está morto, mas morto está também Turambar a seu lado. E essas são boas notícias: sim, ambas são boas de fato.
Então o povo murmurou, espantado com sua fala, e alguns disseram que estava louco; mas Brandir exclamou: — Ouçam-me até o fim! Níniel também está morta, Níniel, a bela, que vocês amavam, que eu amava mais do que ninguém. Saltou da borda do Salto do Cervo, e os dentes do Teiglin a levaram. Foi-se, odiando a luz do dia. Pois foi o seguinte o que ela soube antes de fugir: eram ambos filhos de Húrin, irmã e irmão. Ele era chamado o Mormegil, Turambar chamava-se a si mesmo, escondendo seu passado: Túrin, filho de Húrin. Níniel a chamávamos, sem conhecermos seu passado: Nienor ela era, filha de Húrin. A Brethil trouxeram a sombra de seu negro destino. Aqui seu destino caiu, e do desgosto esta terra nunca há de se livrar. Não a chamem Brethil, não terra dos Halethrim, mas Sarch nia Hîn Húrin, Túmulo dos Filhos de Húrin!
Então, apesar de ainda não compreenderem como aquele mal chegara a acontecer, o povo chorou no lugar onde estava, e alguns disseram:
— Há um túmulo no Teiglin para Níniel, a amada; um túmulo há de haver para Turambar, mais valoroso dos homens. Nosso libertador não há de ficar deitado sob o céu. Vamos até ele.


A morte de Túrin


Ora, no momento em que Níniel fugiu, Túrin mexeu-se, e pareceu-lhe que desde sua treva profunda ele a ouvia chamando por ele, muito longe; mas, quando Glaurung morreu, o desmaio negro o abandonou, e ele outra vez respirou fundo, suspirou e caiu num sono de grande exaustão. Antes do amanhecer, porém, o frio tornou-se excessivo. Túrin virou-se no sono, e o punho de Gurthang machucou-lhe o flanco, o que o despertou subitamente. A noite estava acabando, e havia um sopro de manhã no ar. Ele pôs-se de pé com um salto, recordando sua vitória e o veneno ardente em sua mão. Ergueu-a, olhou para ela e espantou-se. Pois estava enfaixada com uma tira de pano branco, porém estava úmida e portanto não lhe acusava desconforto.
— Por que alguém me trataria assim — perguntou a si mesmo — e no entanto me deixaria aqui para jazer frio entre a destruição e o fedor do dragão? Que estranhas coisas ocorreram?
Então gritou em voz alta, mas não veio resposta. Tudo estava negro e lúgubre à sua volta, e havia um odor de morte. Agachou-se, levantou a espada, e ela estava inteira sem que a luz de seus gumes tivesse sido turvada.
— Imundo era o veneno de Glaurung — disse —, mas você é mais forte que eu, Gurthang! Todo sangue você bebe. É sua a vitória. Mas vamos! Preciso ir em busca de ajuda. Meu corpo está exausto, e há gelo em meus ossos.
Então deu as costas a Glaurung e deixou-o apodrecer; mas, enquanto se afastava daquele lugar, cada passo parecia mais pesado.
— Em Nen Girith, quem sabe, encontrarei um dos batedores à minha espera — pensou. — Mas preferia estar logo em minha própria casa, sentindo as mãos suaves de Níniel, e as habilidades benfazejas de Brandir! — E assim, caminhando com cansaço, apoiando-se em Gurthang, chegou por fim a Nen Girith através da luz cinzenta do amanhecer, e, no momento em que os homens saíam para procurar seu corpo, eis que estava de pé diante do povo.
Então recuaram de terror, crendo que era seu espírito atormentado, e as mulheres gemiam e tapavam os olhos. Mas ele disse:
— Não, não chorem, mas alegrem-se! Vejam! Não estou vivo? E não matei o Dragão que vocês temiam?
Então voltaram-se para Brandir, aos gritos:
— Tolo, com suas histórias falsas, dizendo que ele jazia morto. Não dissemos que você estava louco? — Mas Brandir estava horrorizado e fitava Túrin com temor nos olhos, sem nada conseguir dizer.
— Então foi você que esteve lá, e tratou minha mão? — perguntou-lhe Túrin. — Agradeço-lhe. Mas sua habilidade está diminuindo, se não é capaz de distinguir um desmaio da morte. — Então voltou-se para o povo: — Não falem assim com ele, tolos, todos vocês. Qual de vocês teria feito melhor? Pelo menos teve a coragem de descer ao lugar do combate, enquanto vocês estavam sentados gemendo!
— Mas agora venha, filho de Handir! Há outras coisas que desejo saber. Por que está aqui, e todo este povo, que deixei na Ephel? Se eu posso assumir risco de morte por vocês, não posso ser obedecido quando partir? E onde está Níniel? Ao menos espero que não a tenham trazido aqui, mas que a tenham deixado onde a guardei, em minha casa, com homens fiéis a vigiá-la? — E quando ninguém lhe respondia:
— Vamos, digam, onde
está Níniel? — perguntou. — Pois quero vê-la primeiro; e a ela contarei primeiro a história dos feitos na noite.
Mas viraram-lhe o rosto, e Brandir disse finalmente:
— Níniel não está aqui.
— Está bem — disse ele. — Então irei para casa. Há um cavalo para levar-me? Ou uma maca seria melhor. Estou fraco de tanto esforço.
— Não, não! — disse Brandir angustiado. — Sua casa está vazia. Níniel não está lá. Está morta.
Mas uma das mulheres, a esposa de Dorlas, que não gostava de Brandir, gritou com estridência.
— Não lhe dê atenção, senhor! Pois está transtornado. Veio gritando que você estava morto, e disse que eram boas notícias. Mas você vive. Por que então haveria de ser verdadeira sua história sobre Níniel: que está morta, e ainda pior?
— Então minha morte era boa notícia? — gritou Túrin, avançando na direção de Brandir. — Sim, você sempre se ressentiu de que ela fosse minha, isso eu sabia. Agora está morta, diz você. E ainda pior? Que mentira gerou em sua malícia, Coxo? Então pretende assassinar-nos com palavras imundas, já que não consegue empunhar outra arma?
Então a ira expulsou a pena do coração de Brandir.
— Transtornado? — gritou ele. — Não, transtornado está você, Espada-Negra do negro destino! E todo esse povo caduco. Não minto! Níniel está morta, morta, morta! Procure-a no Teiglin!
Túrin ficou então imóvel e gelado.
— Como sabe? — perguntou baixinho. — Como maquinou isso?
— Sei porque a vi saltar — respondeu Brandir. — Mas a maquinação foi sua. Fugiu de você, Túrin, filho de Húrin, e lançou-se em Cabed-en-Aras, para nunca mais vê-lo. Níniel! Níniel? Não, Nienor, filha de Húrin.
Então Túrin o agarrou e o sacudiu; pois naquelas palavras ouvia as passadas de seu destino a alcançá-lo, mas em horror e fúria seu coração não as aceitava, como um animal ferido de morte que antes de morrer quer machucar todos os que estão por perto.
— Sim, sou Túrin, filho de Húrin — gritou. — Isso você adivinhou há muito. Mas nada sabe de Nienor, minha irmã. Nada! Ela mora no Reino Oculto e está em segurança. É uma mentira da sua própria mente vil, para ensandecer minha esposa, e agora a mim. Seu manco desgraçado, pretende perseguir-nos até a morte?
Mas Brandir desvencilhou-se dele.
— Não me toque! — disse. — Cesse seus desvarios. Aquela que você chama de esposa foi até você e o tratou, e você não respondeu ao seu chamado. Mas alguém respondeu por você. Glaurung, o Dragão, que, segundo creio, enfeitiçou a ambos para que cumprissem seu destino. Assim falou antes de se acabar: “Nienor, filha de Húrin, eis teu irmão: traiçoeiro com os inimigos, desleal com os amigos, uma maldição para sua família, Túrin, filho de Húrin”. — Então subitamente um riso desesperado apossou-se de Brandir. — No leito de morte os homens falam a verdade, dizem — gargalhou. — E até mesmo um Dragão, ao que parece! Túrin, filho de Húrin, uma maldição para tua família e para todos os que te abrigam!
Então Túrin agarrou Gurthang, e havia uma luz feroz em seus olhos. — E o que se há de dizer de você, Coxo? — perguntou devagar. — Quem disse a ela meu nome verdadeiro, em segredo, pelas minhas costas? Quem a levou à maldade do Dragão? Quem ficou por perto e a deixou morrer? Quem veio aqui para publicar esse horror o mais depressa possível? Quem agora pretende regozijar-se com meu mal? Os homens falam a verdade antes de morrer? Então fale a verdade agora, depressa.
Então Brandir, vendo sua morte no rosto de Túrin, ficou imóvel e não fraquejou, apesar de não ter arma senão a muleta. — Tudo o que ocorreu é uma história longa de se contar, e estou cansado de você. Mas você me calunia, filho de Húrin. Será que Glaurung o caluniou? Se me matar, então todos verão que não. No entanto não temo a morte, pois então irei procurar Níniel, que eu amava, e talvez possa encontrá-la de novo além do Mar.
— Procurar Níniel! — gritou Túrin. — Não, é Glaurung que você há de encontrar, e inventar mentiras juntos. Há de dormir com o Lagarto, sua alma gêmea, e de apodrecer na mesma escuridão! — Então ergueu Gurthang e abateu Brandir. E o golpeou até a morte. Mas o povo tapou os olhos diante daquele feito e, quando ele se virou e partiu de Nen Girith, eles fugiram dele aterrorizados.
Então Túrin andou pela floresta selvagem como quem está ensandecido, ora amaldiçoando a Terra Média e toda a vida dos homens, ora clamando por Níniel. Mas, quando por fim a loucura do seu pesar o deixou, sentou-se um pouco, ponderou todos os seus atos, e ouviu-se gritando: — Mora no Reino Oculto, e está em segurança! — E pensou que agora, apesar de toda a sua vida estar arruinada, devia ir para lá; pois todas as mentiras de Glaurung sempre o haviam extraviado. Portanto levantou-se, foi até as
Travessias do Teiglin e, ao passar pelo Haudh-en-Elleth, lamentou-se:
 — Paguei amargamente, ó Finduilas, por ter um dia dado atenção ao Dragão. Envie-me agora um conselho!
Mas, no exato instante em que se lamentava, viu doze caçadores bem armados que passavam pelas Travessias, e eram elfos. E, quando se aproximaram, reconheceu um deles, pois era Mablung, o principal caçador de Thingol.
— Túrin! — exclamou Mablung, saudando-o. — Que felicidade encontrá-lo por fim! Procuro-o e estou contente em vê-lo vivo, embora os anos tenham sido pesados para você.
— Pesados! — disse Túrin. — Sim, como os pés de Morgoth. Mas, se está contente em ver-me vivo, é o último na Terra Média. Por que isso?
— Porque era honrado entre nós — respondeu Mablung — e, apesar de você ter escapado a muitos perigos, eu temia por você no fim. Observei o surgimento de Glaurung, e pensei que ele realizara seu malévolo propósito e voltava a seu Senhor. Mas voltou-se para Brethil, e ao mesmo tempo eu soube de errantes da região que o Espada-Negra de Nargothrond lá aparecera de novo, e os orcs evitavam suas fronteiras como a morte.
Então enchi-me de temor, e disse: “Ai! Glaurung vai aonde seus orcs não se atrevem, para procurar Túrin”. Portanto, vim para cá o mais depressa que pude, para alertá-lo e auxiliálo.
— Depressa, mas não depressa o bastante — disse Túrin. — Glaurung está morto.
Então os elfos o contemplaram com assombro.
— Matou o Grande Lagarto! Para sempre louvado há de ser seu nome entre os elfos e os homens!
— Não me importo — disse Túrin. — Pois meu coração também está morto. Mas, já que vêm de Doriath, deem-me notícias de minha família. Pois disseram-me em Dor-lómin que haviam fugido para o Reino Oculto.
Os elfos não deram resposta, mas por fim Mablung falou.
— De fato fizeram isso, no ano antes da chegada do Dragão. Mas agora não estão lá, infelizmente! — Deteve-se então o coração de Túrin, ouvindo as passadas do destino que o perseguiam até o fim.
— Continue! — gritou. — E seja rápido!
— Saíram para os ermos à sua procura — disse Mablung. — Isso, contra todos os conselhos; mas insistiam em ir a Nargoth-rond, quando se soube que você era o Espada-Negra; e Glaurung surgiu, e toda a guarda delas foi dispersada. Ninguém mais viu Morwen desde aquele dia. Mas Nienor tinha sobre si um feitiço de mudez, fugiu para o norte, para a floresta, como uma corça selvagem, e perdeu-se.
Então, para espanto dos elfos, Túrin riu alto e estridente.
— Isso não é uma piada? — gritou. — Ó, bela Nienor! Assim correu de Doriath para o Dragão, e do Dragão para mim. Que doce graça da sorte! Morena como uma frutinha era ela, escuro era seu cabelo; pequena e esbelta como uma criança élfica, ninguém poderia confundi-la!
— Mas aqui há algum engano — disse então Mablung, pasmo. — Não era assim sua irmã. Era alta, e tinha os olhos azuis, o cabelo de fino ouro, a própria imagem em forma de mulher de seu pai Húrin. Você não pode tê-la visto!
— Não posso, não posso, Mablung? — gritou Túrin. — Mas por que não! Pois veja, sou cego! Você não sabia? Cego, cego, tateando desde a infância em uma negra névoa criada por Morgoth! Portanto deixe-me! Vá, vá! Vá de volta a Doriath, e que o inverno a faça mirrar! Uma maldição sobre Menegroth! E uma maldição sobre a sua missão! Só faltava isso. Agora vem a noite!
Então fugiu deles, como o vento; e eles encheram-se de espanto e temor. Mas Mablung disse:
— Aconteceu alguma coisa estranha e terrível que não sabemos. Vamos segui-lo e ajudá-lo, se pudermos, pois agora está desesperado e ensandecido. Túrin, porém, corria longe à frente deles, chegou a Cabed-en-Aras e ali parou.
Escutou o rugido da água, e viu que todas as árvores, perto e longe, estavam murchas, e suas folhas crestadas caíam pesarosamente, como se o inverno houvesse chegado nos primeiros dias do verão.
— Cabed-en-Aras, Cabed Naeramarth! — gritou. — Não macularei suas águas onde Níniel foi lavada. Pois todos os meus atos foram maus, e o mais recente foi o pior.
Puxou então a espada e disse:
— Salve, Gurthang. ferro cia morte, somente tu restas agora! Mas que senhor ou lealdade conheces, senão a mão que te empunha? A nenhum sangue te negas! Tomarás Túrin Turambar? Matar-me-ás depressa?
E da lâmina ressoou em resposta uma fria voz:
— Sim, beberei teu sangue, para que eu possa esquecer o sangue de Beleg, meu dono, e o sangue de Brandir, morto injustamente. Matar-te-ei depressa.
Então Túrin pôs o punho da espada no solo, e lançou-se sobre a ponta de Gurthang; e a lâmina negra tomou-lhe a vida.
Mas Mablung veio, e contemplou o pavoroso vulto de Glaurung jazendo morto; e olhou para Túrin e se entristeceu, pensando em Húrin tal como o vira nas Nirnaeth Arnoediad, e no terrível destino de sua família. Com os elfos parados ali, desceram homens de Nen Girith para ver o Dragão, e choraram quando viram a que fim chegara a vida de Túrin Turambar. Os elfos, conhecendo por fim a razão das palavras que Túrin lhes dirigira, ficaram perplexos. Então Mablung comentou em tom amargo:
— Também eu fui enredado no destino dos Filhos de Húrin, e assim matei com palavras alguém que amava.
Então ergueram Túrin e viram que sua espada se havia partido. Assim acabou tudo o que ele possuíra.
Com o labor de muitas mãos, juntaram madeira, empilharam-na alto, fizeram uma grande fogueira, e destruíram o corpo do Dragão até ele se transformar apenas em cinza negra e ossos reduzidos a pó. E o lugar dessa queimada ficou nu e estéril para sempre.
Mas Túrin foi deitado em um alto túmulo, lá onde tombara, e os cacos de Gurthang foram postos ao seu lado. E quando tudo estava pronto, e os menestréis dos elfos e dos homens haviam entoado seus lamentos, contando o valor de Turambar e a beleza de Níniel, uma grande pedra cinzenta foi trazida e colocada sobre o túmulo; e nela os elfos gravaram em Runas de Doriath:
TÚRIN TURAMBAR DAGNIR GLAURUNGA e mais abaixo escreveram também: NIENOR NÍNIEL
Mas ela não estava lá, nem jamais se soube aonde as frias águas do Teiglin a levaram.
Assim termina o Conto dos Filhos de Húrin, a mais longa de todas as baladas de Beleriand.


Apêndice


A partir do ponto da história em que Túrin e seus homens se estabeleceram na antiga moradia dos anões-pequenos em Amon Rûdh, não há narrativa completa com o mesmo plano detalhado, até que o Narn retome com a viagem de Túrin para o norte após a queda de Nargothrond. De muitos esboços e notas tentativos ou exploratórios, no entanto, podem-se obter alguns vislumbres adicionais além do relato mais resumido no Silmarillion, e até mesmo alguns curtos trechos de narrativa coerente na escala do Narn.
Um fragmento isolado descreve a vida dos proscritos em Amon Rûdh na época que se seguiu ao estabelecimento deles ali, e dá uma descrição adicional de Bar-en-Danwedh.

Por muito tempo a vida dos proscritos transcorreu bem a seu gosto. A comida não era escassa, e tinham um bom abrigo, quente e seco, com espaço bastante e até demasiado; pois descobriram que as cavernas poderiam ter alojado cem pessoas ou mais, caso necessário.
Havia outra sala menor mais para dentro. Tinha de um dos lados uma lareira, acima da qual subia uma chaminé pela rocha, até uma abertura ardilosamente escondida em uma fenda na encosta do morro. Havia também muitos outros recintos, que davam para as salas ou para o corredor entre elas, alguns para moradia, outros para trabalho ou para servir de depósito. Na armazenagem Mîm possuía mais arte que eles, e tinha grandes recipientes e baús de pedra e madeira, que pareciam ser muito antigos. Mas a maioria dos recintos estava agora desabitada: nos arsenais estavam suspensos machados e outros equipamentos enferrujados e empoeirados; as prateleiras e os armários estavam vazios; e as forjas estavam ociosas. À exceção de uma: um pequeno quarto que se ligava ao salão interno e possuía uma lareira que compartilhava a chaminé da lareira da sala. Lá Mîm às vezes trabalhava, mas não permitia que outros o acompanhassem.
Durante o restante daquele ano não realizaram mais incursões. E, quando saíam para caçar ou coletar alimento, isso ocorria principalmente em grupos pequenos. Mas por muito tempo acharam difícil reencontrar a trilha; e, além de Túrin, não mais de seis dos seus homens chegaram a conhecer o caminho com certeza. Ainda assim, vendo que aqueles que tinham habilidade em tais coisas seriam capazes de chegar ao covil sem a ajuda de Mím, puseram vigias dia e noite perto da fenda na parede norte. Do sul não exasperavam inimigos, nem havia temor de que alguém escalasse Amon Rûdh por aquele lado; mas de dia havia um vigia postado no cume mais alto a maior parte do tempo, capaz de enxergar longe em toda a volta. Apesar de serem íngremes os lados do cume, seu topo podia ser alcançado, pois a leste da boca da caverna haviam sido escavados degraus grosseiros, que levavam a encostas onde os homens podiam subir sem ajuda.
Assim passou o ano sem prejuízo ou alarme. Mas, à medida que os dias se encurtavam, o lago ficava cinzento e frio, as bétulas perdiam as folhas, e voltavam as fortes chuvas, eles precisavam passar mais tempo abrigados. Então logo se cansaram do escuro debaixo do morro ou da tênue meia-luz dos salões; e à maioria deles parecia que a vida seria melhor caso não a compartilhassem com Mím. Com demasiada frequência, ele surgia algum canto sombrio, ou de um portal, quando achavam que estava em outro lugar; e, quando Mím estava por perto, caía um constrangimento sobre sua conversa. Começaram a falar entre si sempre em sussurros.
No entanto, e isso lhes parecia estranho, ocorria o contrário com Túrin. E ele se tornava cada vez mais amigo do velho anão, e cada vez mais escutava seus conselhos. No inverno seguinte, ficava sentado com Mîm horas a fio, ouvindo suas tradições e as histórias de sua vida; e Túrin não o censurava caso falasse mal dos eldar. Mím parecia bem contente, e em retribuição fazia muitos favores a Túrin; apenas a ele permitia às vezes a entrada em sua forja, e ali conversavam em voz baixa. Os homens ficavam menos contentes; e Andróg observava com um olho ciumento.

O texto utilizado no Silmarillion não dá indicação de como Beleg conseguiu entrar em Bar-en-Danwedh: ele “de repente surgiu entre eles” “no crepúsculo cinzento de um dia de inverno”. Em outros breves esboços, a história conta que, em virtude da improvidência dos proscritos, o alimento escasseou durante o inverno em Bar-en-Danwedh, e Mím de má vontade lhes dava as raízes comestíveis de seu estoque; portanto, no começo do ano saíram da fortaleza numa incursão de caça. Beleg, aproximando-se de Amon Rûdh, encontrou-lhes os rastros, e os acompanhou até um acampamento que foram obrigados a montar em uma nevasca súbita, ou então seguiu-os de volta a Bar-en-Danwedh e lá entrou sorrateiro atrás deles.
Nessa época Andróg, procurando o estoque secreto de alimentos de Mîm, perdeu-se nas cavernas e encontrou uma escadaria oculta que levava ao cume plano de Amon Rûdh (foi por essa escadaria que alguns dos proscritos fugiram de Bar-en-Danwedh quando foi atacada pelos orcs: O Silmarillion). E, no ataque recém-mencionado ou então em ocasião posterior, Andróg, que outra vez tomara arco e flecha desafiando a maldição de Mím, foi ferido por uma seta envenenada — e em apenas uma das várias referências ao evento foi mencionado que ela teria sido uma flecha de orc.
Andróg foi curado desse ferimento por Beleg, mas parece que sua aversão e desconfiança do elfo não foi mitigada por isso; e o ódio de Mîm por Beleg tornou-se ainda mais feroz, pois assim ele “desfizera” a maldição lançada sobre Andróg.
— Ela voltará a morder — disse ele. Veio a Mím a ideia de que, se também comesse o lembas de Melian, renovaria sua juventude e outra vez se fortaleceria; e, visto que não podia consegui-lo furtivamente, fingiu-se de doente e implorou ao inimigo que lho desse.
Quando Beleg recusou, foi selado o ódio de Mîm, especialmente por causa do apreço de Túrin pelo elfo.
Pode-se mencionar aqui que. quando Beleg tirou o lembas da bolsa (vide O Silmarillion), Túrin o recusou:

As folhas prateadas estavam vermelhas à luz do fogo; e quando Túrin viu o selo seus olhos se escureceram. — O que tem aí? — perguntou.
— A maior dádiva que alguém que ainda o ama tem para dar — respondeu Beleg. — Eis lembas, o pão-de-viagem dos eldar, que homem nenhum ainda provou.
— O elmo de meus ancestrais eu aceito — disse Túrin — com boa vontade por você tê-lo guardado; mas não receberei presentes vindos de Doriath.
— Então mande de volta sua espada e suas armas — disse Beleg. — Mande de volta também os ensinamentos e a criação de sua juventude. E deixe seus homens morrerem no deserto para agradar ao seu humor. No entanto, este pão-de-viagem não foi um presente para você, e sim para mim, e posso fazer dele o que quiser. Não o coma se entalar em sua garganta, mas outros aqui podem estar mais famintos e menos orgulhosos.

Então Túrin envergonhou-se e dominou o orgulho quanto a esse assunto. Encontram-se algumas poucas indicações adicionais acerca de Dor-Cúarthol, a Terra do Arco e do Elmo, onde Beleg e Túrin durante certo tempo, a partir de sua fortaleza em Amon Rûdh, tornaram-se líderes de um forte grupo nas terras ao sul do Teiglin (O Silmarillion).

Túrin recebia de bom grado todos os que vinham a ele, mas a conselho de Beleg não admitia nenhum novato ao seu refúgio em Amon Rûdh (e esse chamava-se agora Echad i Sedryn. Acampamento dos Fiéis); o caminho para lá era conhecido somente pelos da Antiga Companhia, e não se admitiam outros. Mas outros acampamentos e fortes vigiados foram estabelecidos em toda a volta: na floresta ao leste, ou nos planaltos, ou nos charcos ao sul, de Methed-en-glad (“o Fim da Floresta”) até Bar-erib, algumas léguas ao sul de Amon Rûdh; e de todos esses lugares os homens podiam ver o topo de Amon Rûdh e, através de sinais, recebiam notícias e comandos.
Dessa forma, antes que tivesse passado o verão, os seguidores de Túrin haviam aumentado e eram um enorme grupo; e o poderio de Angband foi rechaçado. Essas notícias chegaram até mesmo a Nargothrond, e lá muitos se inquietaram, dizendo que, se um Proscrito podia ferir o Inimigo daquele modo, o que não poderia fazer o Senhor do Narog? Mas Orodreth não mudava de opinião. Em todas as coisas seguia Thingol, com quem trocava mensageiros por caminhos secretos; e era um senhor sábio, de acordo com a sabedoria dos que se importam primeiro com seu próprio povo, e com quanto tempo podem preservar suas vidas e suas riquezas contra o desejo do norte. Portanto não permitiu que ninguém de sua gente fosse ter com Túrin, e enviou mensageiros para lhe dizerem que, em tudo que fizesse ou encetasse em sua guerra, não deveria pôr os pés na terra de Nargothrond, nem expulsar orcs para lá. Mas ofereceu aos Dois Capitães auxílio que não era de armas, caso necessitassem (e nisso crê-se que foi movido por Thingol e Melian).

É salientado várias vezes que Beleg sempre permaneceu contrário ao grande plano de Túrin, apesar de lhe dar apoio; que lhe parecia que o Elmo-de-dragão agira com Túrin diferentemente do que ele esperara; e que previa com desassossego o que trariam os dias vindouros. Estão preservados fragmentos das palavras que trocou com Túrin sobre esses assuntos. Em um deles, estavam sentados juntos na fortaleza de Echad i Sedryn, e Túrin disse a Beleg:

— Por que está triste e pensativo? Não vai tudo bem desde que você voltou a mim? Meu objetivo não demonstrou ser bom?
— Tudo está bem agora — disse Beleg. — Nossos inimigos ainda estão surpresos e temerosos. E ainda há dias bons diante de nós, por um tempo.
— E depois o quê?
— O inverno. E depois disso outro ano, para aqueles que viverem para vê-lo.
— E depois o quê?
— A ira de Angband. Queimamos as pontas dos dedos da Mão Negra, nada mais.
Ela não se recolherá.
— Mas a ira de Angband não é nosso objetivo e nosso deleite? — perguntou Túrin. — O que mais deseja que eu faça?
— Você sabe muito bem — disse Beleg. — Mas proibiu-me de falar dessa estrada. Mas escute-me agora. O senhor de um grande exército tem muitas necessidades. Precisa ter um refúgio seguro; e precisa ter riqueza, e muitas pessoas cujo trabalho não seja guerrear.
Com a quantidade, vem a necessidade de alimento, mais do que os ermos proporcionam; e o segredo acaba sendo revelado. Amon Rûdh é um bom lugar para poucos; tem olhos e ouvidos. Mas está isolado e pode ser visto de longe; e não é necessário um grande exército para cercá-lo.
— Ainda assim serei o capitão de meu próprio exército — disse Túrin —; e, se eu tombar, tombarei. Aqui me encontro no caminho de Morgoth; e, enquanto assim permanecer, ele não poderá usar a estrada para o sul. Por isso deveria haver alguma gratidão em Nargothrond, e até mesmo auxílio com coisas necessárias.

Em outro breve trecho de diálogo entre eles, Túrin respondeu aos alertas de Beleg sobre a fragilidade de seu poder com estas palavras:

— Quero dominar uma terra, mas não esta terra. Aqui desejo apenas reunir forças. Meu coração volta-se para a terra de meu pai em Dor-lómin, e para lá hei de ir quando puder.

Também está afirmado que Morgoth durante algum tempo se conteve, e realizou meras fintas de ataque, “para que, através da vitória fácil, a confiança daqueles rebeldes se transformasse em arrogância, como de fato aconteceu”.
Andróg aparece mais uma vez em um esboço do transcurso do ataque a Amon Rûdh. Foi só então que ele revelou a Túrin a existência da escadaria interna; e ele foi um dos que por ali alcançaram o cume. Diz-se que lá ele lutou com mais valentia que todos, mas por fim tombou mortalmente ferido por uma flecha; e assim realizou-se a maldição de Mím. Não há nada notável para ser acrescentado à história no Silmarillion sobre a viagem de Beleg em perseguição a Túrin, seu encontro com Gwindor em Taur-nu-Fuin, o resgate de Túrin e a morte de Beleg pelas mãos de Túrin. Sobre o fato de Gwindor possuir uma das “lanternas feanorianas” de luz azul, e o papel que essa lanterna desempenhou em uma versão da história.
Pode-se notar aqui que meu pai tencionava estender a história do Elmo-de-dragão de Dor-lómin até o período da estada de Túrin em Nargothrond e mesmo mais além, mas isso nunca foi incorporado às narrativas. Nas versões existentes, o Elmo desaparece com o fim de Dor-Cúarthol, na destruição da fortaleza dos proscritos em Amon Rûdh, mas de alguma forma deveria reaparecer em posse de Túrin em Nargothrond. Só poderia ter chegado lá caso tivesse sido levado pelos orcs que conduziram Túrin até Angband; mas tirá-lo deles, por ocasião do resgate de Túrin por Beleg e Gwindor, teria requerido algum desenvolvimento da narrativa naquele ponto.
Um fragmento isolado de texto conta que, em Nargothrond, Túrin não voltou a usar o Elmo “para que não o revelasse”, mas que o usava quando foi à Batalha de Tumhalad (O Silmarillion, onde se diz que usava a máscara de anão que encontrou nos arsenais de Nargothrond). Essa nota continua:

Por temor daquele elmo todos os inimigos o evitavam, e foi desse modo que escapou incólume daquele campo mortífero. Assim foi que voltou a Nargothrond usando o Elmo-de-dragão. e Glaurung, desejando despojar Túrin da sua ajuda e proteção (pois ele mesmo o temia), zombou dele, dizendo que certamente Túrin afirmava ser seu vassalo e servidor, já que portava a efígie de seu senhor na crista do elmo.
Mas Túrin respondeu:
— Mentes, e o sabes. Pois esta imagem foi feita para escarnecer- te; e, enquanto houver alguém para portá-la, a dúvida sempre há de te assolar, com o temor de que o portador te imponha teu destino.
— Então a imagem terá de esperar por um dono com outro nome — disse Glaurung —, pois Túrin, filho de Húrin, eu não temo. É o oposto. Pois ele não tem a audácia de olharme no rosto abertamente.
Valar mas mantivera abaixada a viseira do capacete, resguardando o rosto, e em seu diálogo não elevara o olhar além dos pés de Glaurung. Porém, diante dessa zombaria, com orgulho e temeridade ergueu a viseira e fitou Glaurung nos olhos.

Em outro lugar há uma nota de que foi quando Morwen ouviu falar em Doriath da aparição do Elmo-de-dragão na Batalha de Tumhalad que ela soube ser verdadeira a história de que o Mormegil era de fato seu filho Túrin.
Por fim, existe uma sugestão de que Túrin usaria o Elmo quando matasse Glaurung, e zombaria do Dragão, à morte deste, com suas palavras em Nargothrond sobre “um dono com outro nome”; mas não há indicação de como a narrativa deveria ser conduzida para que isso acontecesse.
Existe um relato acerca da natureza e substância da oposição de Gwindor às políticas de Túrin em Nargothrond, à qual O Silmarillion se refere apenas muito brevemente. Esse relato não está plenamente transformado em narrativa, mas pode ser assim apresentado:

Gwindor sempre se manifestou contrário a Túrin no conselho do Rei, dizendo que havia estado em Angband e sabia algo sobre o poderio de Morgoth, e seus desígnios.
— Vitórias miúdas acabarão sendo sem proveito no final — dizia — , pois assim Morgoth descobre onde podem ser encontrados os mais ousados dentre seus inimigos e reúne forças suficientes para destruí-los. Todo o poderio unido dos elfos e dos edain mal bastou para contê-lo, e para ganhar a paz de um cerco; longo de fato, mas longo somente enquanto Morgoth esperava o momento propício para romper a coligação; e nunca mais poderá ser feita tal união. Somente no sigilo há agora alguma esperança; até que venham os Valar.
— Os Valar! — disse Túrin. — Eles os abandonaram e desprezam os homens. De que adianta olhar para o oeste, por sobre o Mar infindo? Há somente um Vala com temos de nos haver, e esse é Morgoth; e, se ao final não conseguirmos vencê-lo, podemos pelo menos feri-lo e impedi-lo. Pois vitória é vitória, por pequena que seja, e seu valor não consiste apenas no que se lhe segue. Mas também é conveniente; pois, se nada fizerem para detê-lo, Beleriand inteira cairá sob sua sombra antes que se passem muitos anos, e então ele os afugentará de suas terras um por um. E depois o quê? Alguns remanescentes dignos de pena fugirão para o sul e para o oeste, para encolher-se às margens do Mar, apanhados, entre Morgoth e Ossê. É melhor, então, ganhar um tempo de glória, por mais que seja efêmera; pois o fim não será pior. Você fala de sigilo e diz que nele reside a única esperança; mas poderia emboscar e assaltar cada batedor e espião de Morgoth, até o último e menor, para que nenhum jamais voltasse a Angband com notícias, e, no entanto com isso ele descobriria que você está vivo, e adivinharia onde. E também digo isto: apeesar de os homens mortais possuírem pouca vida em comparação com a duração dos elfos, preferem gastá-la na batalha a fugir ou submeter-se. A rebeldia de Húrin Thalion é um grande feito; e, por mais que Morgoth mate seu autor, não pode fazer com que o feito deixe de existir. Até mesmo os Senhores do Oeste o honrarão; e não está ele escrito na história de Arda, que nem Morgoth nem Manwe podem desescrever?
— Você fala de coisas elevadas — respondeu Gwindor — e é evidente que viveu entre os eldar. Mas há uma treva sobre você se coloca Morgoth e Manwe juntos, ou fala dos Valar como inimigos dos elfos ou dos homens; pois os Valar nada desprezam, e menos que tudo os Filhos de Ilúvatar. Nem você conhece todas as esperanças dos eldar. Existe uma profecia entre nós de que um dia um mensageiro da Terra Média chegará a Valinor através das sombras, e Manwe ouvirá, e Mandos se abrandará. Para a chegada dessa hora não havemos de tentar preservar a semente dos noldor, e dos edain também? E Círdan habita agora no sul, e há navios sendo construídos; mas o que você sabe de navios ou do Mar? Você pensa em si mesmo e em sua própria glória, e manda que cada um de nós faça o mesmo; mas temos de pensar nos outros além de nós mesmos, pois nem todos podem combater e tombar, e a esses precisamos proteger da guerra e da ruína, enquanto pudermos.
— Então mande-os aos seus navios, enquanto ainda é tempo — disse Túrin.
— Não se apartarão de nós — disse Gwindor —, mesmo que Círdan pudesse sustentá-lo.

O amor de Finduilas por Túrin também receberia um tratamento mais completo:

Finduilas, filha de Orodreth, tinha cabelos dourados à maneira da casa de Finarfin, e Túrin começou a deleitar-se em sua visão e sua companhia, pois ela lhe lembrava sua família e as mulheres de Dor-lómin na casa de seu pai. Inicialmente só se encontrava com ela quando Gwindor estava por perto, mas após algum tempo ela passou a procurá-lo, e às vezes encontravam-se a sós, embora parecesse ser por acaso. Então ela o questionava acerca dos edain, poucos dos quais vira, e raramente, bem como sobre seu país e sua gente.
Então Túrin lhe falava livremente sobre esses assuntos, apesar de não dizer o nome de sua terra natal nem de ninguém da sua família, e certa vez disse-lhe:
— Tive uma irmã, Lalaith, assim eu a chamava, e você me faz lembrar dela. Mas Lalaith era uma criança, uma flor amarela na verde relva da primavera; e, se tivesse vivido, sua luz estaria agora, quem sabe, apagada de pesar. Mas você é semelhante a uma rainha, e como uma árvore dourada; oxalá eu tivesse uma irmã tão bela.
— Mas você é semelhante a um rei — disse ela —. exatamente como os senhores do povo de Fingolfin; oxalá eu tivesse um irmão tão valoroso. E não penso que Agarwaen seja seu nome verdadeiro, nem ele lhe convém, Adanedhel. Eu o chamo Thurin, o Secreto.
Diante disso Túrin sobressaltou-se, mas disse:
— Não é esse meu nome; e não sou rei, pois nossos reis são dos eldar, como eu não sou. Túrin notou que a amizade de Gwindor se distanciava dele; e espantou-se também com o fato de que, embora de início o desgosto e horror de Angband começassem a deixá-lo, agora ele parecia recair em ansiedade e pesar. E pensou: talvez esteja triste por eu me opor aos seus conselhos, e por superá-lo; oxalá não fosse assim. Pois amava Gwindor como seu guia e curador, e estava pleno de compaixão por ele. Mas naqueles dias o resplendor de Finduilas também se reduziu, seus passos tornaram-se lentos e seu rosto grave. E Túrin, percebendo isso, deduziu que as palavras de Gwindor tinham instilado em seu coração temor sobre o que poderia ocorrer. Na verdade Finduilas estava em dúvida. Pois honrava Gwindor, sentia pena dele e não queria acrescentar nem uma lágrima ao seu sofrimento; mas contra sua vontade crescia dia após dia seu amor por Túrin, e ela pensava em Beren e Lúthien. Mas Túrin não era como Beren! Ele não a desprezava, e se alegrava em sua companhia. No entanto ela sabia que ele não possuía amor da espécie que ela desejava. A mente e o coração dele estavam em outra parte, à margem de rios em primaveras há muito desaparecidas.
— Não deixe que as palavras de Gwindor lhe metam medo — d isse então Túrin a Finduilas. — Ele sofreu na escuridão de Angband; e é difícil para alguém tão valoroso estar aleijado dessa maneira, e forçado a ficar para trás. Precisa de todo o consolo e de um tempo maior para curar-se.
— Bem sei disso — disse ela.
— Mas ganharemos esse tempo para ele! — disse Túrin. — Nargothrond há de permanecer de pé! Nunca mais Morgoth, o Covarde, sairá de Angband, e toda a sua confiança terá de repousar em seus servos, assim diz Melian de Doriath. Eles são os dedos de suas mãos; e nós os golpearemos, e os deceparemos, até que ele retraia suas garras. Nargothrond há de permanecer de pé!
— Talvez — disse Finduilas. — Há de permanecer de pé, se você for capaz de realizar isso. Mas tome cuidado, Adanedhel; meu coração pesa quando você sai para a batalha, de medo de que Nargothrond o perca.
E mais tarde Túrin procurou por Gwindor.
— Gwindor, caro amigo, você está recaindo na tristeza; não faça isso! Pois sua cura virá nas casas de sua gente e na luz de Finduilas.
Então Gwindor encarou Túrin, mas nada disse, e seu rosto nublou-se.
— Por que me olha desse modo? — perguntou Túrin. — Ultimamente seus olhos têm me fitado de um jeito estranho. Como lhe causei desgosto? Eu me opus aos seus conselhos; mas um homem tem de falar conforme pensa, e não esconder a verdade na qual crê, por nenhum motivo pessoal. Oxalá fôssemos da mesma opinião, pois devo-lhe muito, e não me esquecerei disso.
— Não se esquecerá? — disse Gwindor. — No entanto seus atos e seus conselhos mudaram meu lar e minha gente. Sua sombra paira sobre eles. Por que haveria de me alegrar, eu que tudo perdi para você?
Mas Túrin não compreendeu essas palavras, e apenas imaginou que Gwindor o invejava pelo lugar que ocupava no coração e nos conselhos do Rei.

Segue-se um trecho em que Gwindor alertou Finduilas contra seu amor por Túrin, contando-lhe quem Túrin era, e esse trecho baseia-se de perto no texto apresentado no Silmarillion. Mas, ao final da fala de Gwindor, a resposta de Finduilas é bem mais extensa que na outra versão:

— Seus olhos estão turvados, Gwindor — disse ela. — Você não vê nem compreende o que ocorreu aqui. Tenho de envergonhar-me duplamente agora, para revelar-lhe a verdade? Pois eu amo você, Gwindor, e me envergonho de meu amor não ser maior, mas de ter sido dominada por um amor ainda maior, do qual não posso escapar. Não o busquei, e por muito tempo o pus de lado. Mas, se me compadeço de suas feridas, compadeça-se das minhas. Túrin não me ama, nem me amará.
— Você diz isso — disse Gwindor — para tirar a culpa daquele a quem você ama. Por que ele procura por você, senta-se com você por tanto tempo, e a cada vez sai mais contente?
— Porque também ele precisa de consolo — disse Finduilas — e foi despojado da família. Vocês ambos têm suas necessidades. Mas o que dizer de Finduilas? Agora já não basta que eu confesse a você que não sou amada, mas ainda você diz que falo assim para enganar?
— Não, uma mulher não se engana facilmente em tais casos — disse Gwindor. — Nem se encontram muitas que neguem que são amadas, caso isso seja verdade.
— Se um de nós três é infiel, sou eu, mas não voluntariamente. E quanto ao seu destino e aos rumores de Angband? O que dizer da morte e da destruição? O Adanedhel é poderoso na história do Mundo, e sua fama ainda há de chegar a Morgoth em algum longínquo dia que está por vir.
— Ele é orgulhoso — disse Gwindor.
— Mas também é misericordioso — disse Finduilas. — Ainda não despertou, mas ainda assim a piedade sempre consegue atingir-lhe o coração, e ele nunca a nega. Quem sabe a piedade haja de ser sempre a única entrada. Mas ele não tem pena de mim. Ele me reverencia, como se eu fosse ao mesmo tempo sua mãe e uma rainha!
Talvez Finduilas falasse a verdade, por enxergar com os penetrantes olhos dos eldar. E agora Túrin, sem saber o que ocorrera entre Gwindor e Finduilas, era tanto mais gentil com ela quanto ela parecia mais triste. Mas certa vez Finduilas lhe disse:
— Thurin Adanedhel, por que me escondeu seu nome? Se eu soubesse quem você era, não o teria honrado menos, mas teria compreendido melhor seu pesar.
— O que quer dizer? — perguntou ele. — Por quem me toma?
— Túrin, filho de Húrin Thalion, capitão do norte.

Então Túrin censurou Gwindor por revelar seu nome verdadeiro, como está contado no Silmarillion. Um outro trecho, nessa parte da narrativa, existe em forma mais completa que no Silmarillion (sobre a batalha de Tum-halad e o saque de Nargothrond não há outro relato, embora as falas de Túrin e do Dragão estejam registradas com tanto detalhe no Silmarillion que parece improvável que tivessem sido expandidas ainda mais). Este trecho é um relato muito mais completo da chegada dos elfos Gelmir e Arminas a Nargothrond no ano de sua queda (O Silmarillion); para seu encontro anterior com Tuor em Dor-lómin, a que se faz referência aqui.

Na primavera vieram dois elfos, chamados Gelmir e Arminas do povo de Finarfin, e disseram que tinham um mandado para o Senhor de Nargothrond. Foram trazidos à presença de Túrin, mas Gelmir disse: — É com Orodreth, filho de Finarfin, que desejamos falar.
— Senhor — disse Gelmir, quando Orodreth chegou —, éramos do povo de Angrod, e vagamos longe desde a Dagor Bragollach; mas ultimamente moramos entre os seguidores de Círdan perto das Fozes do Sirion. E certo dia ele nos chamou, e nos mandou vir até você; pois o próprio Ulmo, o Senhor das Águas, lhe havia aparecido e o havia alertado sobre um grande perigo que se aproxima de Nargothrond.
— Então por que vocês vêm do norte para cá? — retrucou Orothreth, desconfiado. — Ou será que também tinham outros mandados?
— Senhor, desde as Nirnaeth venho buscando o reino oculto de Turgon — disse então Arminas —, mas não o encontrei. — E nessa busca temo agora ter atrasado em demasia nosso mandado para cá. Pois Círdan enviou-nos ao longo da costa, de navio, em sigilo e pressa, e fomos deixados na praia em Drengist. Mas entre a gente do mar havia alguns que vieram para o sul, em anos passados, como mensageiros de Turgon, e pareceu-me pela sua fala cautelosa que talvez Turgon ainda habite no norte, e não no sul, como a maioria acredita. Mas não encontramos nem sinal nem rumor do que buscávamos.
— Por que buscam Turgon? — perguntou Orodreth.
— Porque se diz que seu reino há de perdurar mais que todos contra Morgoth — respondeu Arminas. E essas palavras pareceram agourentas a Orodreth, e ele desagradou-se.
— Então não se demorem em Nargothrond — disse —, pois aqui não ouvirão notícias de Turgon. E não preciso que ninguém me ensine que Nargothrond corre perigo.
— Não se enfureça, senhor — disse Gelmir —, se respondemos às suas perguntas com a verdade. E não foi infrutífero nosso desvio do caminho reto para cá, pois passamos além do alcance de seus batedores mais avançados; atravessamos Dor-lómin e todas as terras aos pés de Ered Wethrin, e exploramos a Passagem do Sirion, espionando os movimentos do Inimigo. Há um grande ajuntamento de orcs e criaturas malignas naquelas regiões, e um exército está se concentrando em volta da Ilha de Sauron.
— Eu sei — disse Túrin. — Suas notícias não são frescas. Se a mensagem de Círdan tinha algum propósito, deveria ter vindo mais cedo.
— Pelo menos, senhor, há de escutar a mensagem agora — disse Gelmir a Orodreth. — Ouçam, pois, as palavras do Senhor das Águas! Assim falou a Círdan, o Armador: “O Mal do Norte conspurcou as nascentes do Sirion, e meu poder retira-se dos dedos das águas correntes. Mas o pior ainda está por vir. Diga portanto ao Senhor de Nargothrond: Feche as portas da fortaleza e não saia. Lance as pedras de seu orgulho no rio ruidoso, para que o mal rastejante não encontre o portão”.
Essas palavras pareceram obscuras a Orodreth; e, como sempre, ele voltou-se a Túrin para se aconselhar. Mas Túrin desconfiava dos mensageiros.
— O que sabe Círdan das nossas guerras, nós que habitamos perto do Inimigo? — perguntou com desprezo. — Que o marinheiro cuide dos seus navios! Mas se em verdade o Senhor das Águas pretende enviar-nos um conselho, que fale mais claro. Pois do contrário parecerá melhor, em nosso caso, reunirmos nossas forças e sairmos com audácia ao encontro de nossos inimigos, antes que se aproximem demais.
— Falei como me foi mandado, senhor — disse Gelmir, curvando-se diante de Orodreth, e se afastou.
— Você é de fato da Casa de Hador, como ouvi dizer? — perguntou Arminas a Túrin.
— Aqui sou chamado Agarwaen, o Espada-Negra de Nargothrond — disse Túrin. — Parece-me, amigo Arminas, que vocês costumam falar de maneira cautelosa; e é bom que o segredo de Turgon esteja oculto de vocês, pois do contrário logo seria ouvido em Angband. O nome de um homem é só dele. e, caso o filho de Húrin descubra que vocês o traíram quando ele preferia permanecer oculto, então que Morgoth os leve e lhes queime a língua!
Consternou-se então Arminas diante da cólera negra de Túrin.
— Ele não há de ser traído por nós, Agarwaen — disse Gelmir. — Não estamos em conselho a portas fechadas, onde a fala pode ser mais clara? E Arminas fez essa pergunta, creio, porque todos que moram perto do Mar sabem que Ulmo tem grande amor pela Casa de Hador, e alguns dizem que Húrin e  Huor, seu irmão, certa feita chegaram ao Reino Oculto.
— Se assim fosse, ele não falaria disso a ninguém, nem aos grandes nem aos pequenos, e muito menos a seu filho na infância — respondeu Túrin. — Portanto não creio que Arminas tenha me feito essa pergunta esperando descobrir algo sobre Turgon. Desconfio de tais mensageiros maldosos.
— Poupe sua desconfiança! — disse Arminas, irado. — Gelmir interpretou-me mal. Perguntei porque duvidava do que aqui parecem acreditar; pois na verdade você pouco se parece com a família de Hador, não importa qual seja seu nome.
— E o que sabe deles? — perguntou Túrin.
— Húrin eu vi — respondeu Arminas — e seus antepassados antes dele. E nos ermos de Dor-lómin encontrei Tuor, filho de Huor, irmão de Húrin; e ele é como seus antepassados, ao contrário de você.
— Isso pode ser — disse Túrin —, embora sobre Tuor eu até agora não tenha ouvido palavra. Mas, se minha cabeça é escura e não dourada, não me envergonho disso. Pois não sou o primeiro filho que se parece com a mãe; e através de Morwen Eledhwen descendo da Casa de Béor e da família de Beren Camlost.
— Não falei da diferença entre o negro e o ouro — disse Arminas. — Mas outros da Casa de Hador comportam-se de modo diferente, e Tuor entre eles. Pois usam de cortesia e escutam bons conselhos, reverenciando os Senhores do Oeste. Mas você, ao que parece,
aconselha-se com sua própria sabedoria, ou apenas com sua espada; e fala com altivez. E
eu lhe digo, Agarwaen Mormegil, que, se assim fizer, seu destino será diverso do que poderia
esperar alguém das Casas de Hador e Béor.
— Sempre foi diverso — respondeu Túrin. — E se, como parece, devo suportar o ódio de Morgoth por causa da valentia de meu pai, hei de aguentar também as zombarias e os agouros de um errante, por muito que ele reivindique ser parente de reis? Eu lhe aconselho: volte para as praias seguras do Mar.
Então Gelmir e Arminas partiram e retornaram ao sul: mas, a despeito das zombarias de Túrin, de bom grado teriam aguardado a batalha ao lado da sua gente. Foram-se somente porque Círdan lhes havia pedido, sob comando de Ulmo, que lhe trouxessem novas de Nargothrond e do cumprimento de sua missão para lá. E Orodreth perturbou-se muito com as palavras dos mensageiros; mas o humor de Túrin tornou-se ainda mais cruel.
De modo algum queria obedecer aos conselhos deles, e menos que tudo iria permitir que fosse demolida a grande ponte. Pois ao menos essa parte das palavras de Ulmo foi corretamente interpretada.


Não está explicado em nenhum lugar por que Gelmir e Arminas, em missão urgente a Nargothrond, foram enviados por Círdan por toda a extensão da costa até o Estuário de Dren-gist. Arminas disse que assim foi por pressa e sigilo; mas certamente ter-se-ia conseguido maior sigilo numa viagem Narog acima, vindo do sul. Poder-se-ia supor que Círdan assim fez em obediência ao comando de Ulmo (para que pudessem encontrar Tuor em Dor-lómin e guiá-lo através do Portão dos Noldor), mas em nenhuma parte isso está sugerido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!