12 de junho de 2016

Capítulo II - Aldarion e Erendis

A esposa do marinheiro

Meneldur era filho de Tar-Elendil, quarto rei de Númenor. Era o terceiro filho do Rei, pois tinha duas irmãs, chamadas Silmarien e Isilme. A mais velha era casada com Elatan de Andúnie, e o filho deles era Valandil, Senhor de Andúnie, de quem muito mais tarde descenderam as linhagens dos Reis de Gondor e Arnor na Terra Média. Meneldur era um homem de disposição pacífica, sem orgulho, que mais se exercitava em pensamentos que em feitos corporais. Amava apaixonadamente a terra de  Númenor e todas as coisas que ela continha, mas não dava atenção ao Mar que a circundava por todos os lados, pois sua mente olhava para além da Terra Média: era encantado pelas estrelas e pelo firmamento. Estudava tudo o que conseguia reunir sobre as tradições dos eldar e dos edain acerca de Ea e sobre as profundezas que ficavam em volta do Reino de Arda, e seu maior deleite era a observação das estrelas. Construiu uma torre no Forostar (a região mais setentrional da ilha), onde os ares eram mais límpidos, da qual à noite esquadrinhava os céus e observava todos os movimentos das luzes do firmamento.
Quando Meneldur recebeu o Cetro, mudou-se do Forostar como devia, e habitou na grande casa dos Reis em Armenelos. Demonstrou ser um rei bondoso e sábio, embora jamais deixasse de ansiar por dias nos quais pudesse enriquecer seu conhecimento dos céus. Sua esposa era uma mulher de grande beleza, chamada Almarian. Era filha de Veantur, Capitão dos Navios do Rei no reinado de Tar-Elendil; e, apesar de ela não apreciar os navios ou o mar mais do que a maioria das mulheres do país, seu filho seguiu os passos de Veantur, pai dela, e não os de Meneldur.
O filho de Meneldur e Almarian era Anardil. mais tarde renomado entre os Reis de Númenor como Tar-Aldarion. Tinha duas irmãs mais novas: Ailinel e Almiel, a mais velha das quais casou-se com Orchaldor, descendente da Casa de Hador, filho de Hatholdir, que era amigo próximo de Meneldur; e o filho de Orchaldor e Ailinel era Soronto, que aparece mais tarde no conto.
Aldarion, pois é assim que todos os contos o chamam, cresceu depressa até tornarse um homem de grande estatura, forte e vigoroso de mente e corpo, de cabelos dourados como a mãe, generoso e de disposição alegre, porém mais orgulhoso que o pai e ainda mais insistente em sua própria vontade. Desde o início amava o Mar, e sua mente voltou-se ao ofício da construção de navios. Pouco apreciava a região do norte, e passava à beira-mar todo o tempo que o pai lhe concedia, em especial perto de Rómenna, onde estavam o principal porto de Númenor, os maiores estaleiros e os armadores mais habilidosos. Seu pai durante muitos anos pouco fez para impedi-lo, pois lhe agradava que Aldarion tivesse um exercício para sua intrepidez e trabalho para o pensamento e as mãos.
Aldarion era muito amado por Veantur, pai de sua mãe, e passava muito tempo na casa de Veantur, na margem sul do estuário de Rómenna. Essa casa tinha seu próprio cais, ao qual estavam sempre atracados muitos pequenos barcos, pois Veantur jamais viajava por terra se pudesse viajar pela água; e ali, na infância, Aldarion aprendeu a remar e mais tarde a manejar as velas. Antes de estar totalmente crescido, já conseguia comandar um navio com muitos homens, velejando de um porto a outro.
Aconteceu certa feita que Veantur disse ao neto:
— Anardilya, a primavera se aproxima, e também o dia da sua maioridade — (pois naquele mês de abril Aldarion faria 25 anos). — Estou imaginando uma forma de comemorá-la condignamente. Meus próprios anos são muito mais numerosos, e não creio que muitas outras vezes terei coragem de deixar minha bela casa e as costas abençoadas de Númenor; mas pelo menos mais uma vez gostaria de navegar pelo Grande Mar e encarar o vento norte e o leste. Este ano você há de vir comigo, e iremos a Mithlond para ver as altas montanhas azuis da Terra Média e a verde região dos eldar aos pés delas. Você receberá as boas-vindas de Círdan, o Armador, e do Rei Gil-galad. Fale sobre isso com seu pai.
Quando Aldarion falou dessa aventura e pediu permissão para partir assim que os ventos da primavera fossem favoráveis, Meneldur relutou em concedê-la. Um frio abateuse sobre ele, como se seu coração adivinhasse que aquilo continha mais do que a sua mente podia prever. Mas, quando contemplou o rosto ávido do filho, não deixou entrever nenhum sinal disso.
— Faça conforme o chamado de seu coração, onya — disse. — Sentirei muito sua falta; mas com Veantur como capitão, sob a graça dos Valar, viverei com boas esperanças de seu retorno. Mas não se enamore das Grandes Terras, você que um dia terá de ser Rei e Pai desta Ilha!
Assim aconteceu que, numa manhã de sol claro e vento branco, na reluzente primavera do septingentésimo vigésimo quinto ano da Segunda Era, o filho do Herdeiro do Rei de Númenor zarpou da terra. Antes que o dia terminasse viu-a submergir rebrilhante no mar, e por último o pico da Meneltarma como um dedo escuro diante do pôr-do-sol.
Diz-se que o próprio Aldarion escreveu relatos de todas as suas viagens à Terramédia, e que foram conservados em Rómenna por muito tempo, apesar de todos terem se perdido depois. De sua primeira viagem pouco se sabe, exceto que fez amizade com Círdan e Gil-galad, e percorreu grandes distâncias em Lindon e no oeste de Eriador, maravilhando-se com tudo o que viu. Somente retornou depois de mais de dois anos, e Meneldur ficou muito inquieto. Diz-se que seu atraso foi devido à sua avidez em aprender de Círdan tudo o que pudesse, tanto na feitura e no manejo dos navios quanto na construção de muralhas que resistissem à ânsia do mar.
Houve alegria em Rómenna e Armenelos quando foi visto o grande navio Númerrámar (que significa “Asas-do-Oeste”) chegando do mar, com as velas douradas tingidas de vermelho pelo pôr-do-sol. O verão estava quase terminado e o Eruhan-tale estava próximo Pareceu a Meneldur, quando deu as boas-vindas ao filho em casa de Veantur, que aquele crescera em estatura e que seus olhos estavam mais brilhantes mas fitavam muito ao longe.
— O que viu, onya, em suas longínquas viagens, que agora vive principalmente na lembrança?
Mas Aldarion, olhando para o leste em direção à noite, permaneceu em silêncio. Por fim respondeu, mas baixinho, como alguém que fala consigo mesmo.
— O belo povo dos elfos? As verdes margens? As montanhas envoltas em nuvens? As regiões de névoa e sombra além da imaginação? Não sei. — Calou-se.
E Meneldur soube que ele não dissera tudo o que pensava. Pois Aldarion se apaixonaria pelo Grande Mar, e por um navio que lá navegasse longe da vista da terra, levado pelos ventos, com espuma ao pescoço, a costas e portos inimagináveis; e aquele amor e desejo jamais o abandonaram até o fim da vida.
Veantur não saiu mais de Númenor em viagem; mas presenteou Aldarion com o Númerrámar. Passados três anos, Aldarion pediu permissão para partir outra vez, e velejou até Lindon. Ficou fora três anos; e pouco tempo depois fez outra viagem, que durou quatro anos, pois diz-se que não se contentava mais em navegar a Mithlond, mas começou a explorar as costas ao sul, passando das fozes do Baranduin, do Gwathló e do Angren, circundou o escuro cabo de Ras Morthil e contemplou a grande Baía de Belfalas e as montanhas do país de Amroth onde ainda habitam os elfos nandor.
No trigésimo nono ano de sua vida, Aldarion retornou a Númenor, trazendo presentes de Gil-galad para seu pai; pois no ano seguinte, como por muito tempo proclamara, Tar-Elendil abriu mão do Cetro em favor do filho, e Tar-Meneldur tornou-se Rei. Então Aldarion refreou seu desejo e permaneceu em casa por algum tempo para consolo do pai. Nessa época fez uso dos conhecimentos que adquirira de Círdan acerca da fabricação de navios, inventando muitas coisas novas por conta própria, e também começou a empregar homens para a melhoria dos portos e dos cais, pois estava sempre ávido por construir embarcações maiores. Mas a saudade do mar o assaltou de novo, e ele partiu de Númeror repetidas vezes. E sua mente voltou-se então para aventuras que não podiam ser realizadas com a tripulação de um só navio. Portanto fundou a Corporação dos
Aventureiros, que mais tarde adquiriu grande renome. A essa irmandade juntavam-se todos os marinheiros mais valentes e mais dedicados; e os jovens buscavam ser admitidos mesmo que viessem das regiões do interior de Númenor, e chamavam Aldarion de Grande Capitão. Naquela época ele, que não pretendia viver em terra em Armenelos, fez construir um navio que lhe servisse de habitação. Chamou-o portanto de Eambar, e às vezes navegava nele de porto em porto de Númenor, mas a maior parte do tempo estava ancorado ao largo de Tol Uinen: e essa era uma ilhota na baía de Rómenna que lá fora colocada por Uinen, a Senhora dos Mares. A bordo de Eambar ficava a sede dos Aventureiros, e lá se mantinham os registros de suas grandes viagens; pois Tar-Meneldur olhava com frieza os empreendimentos do filho, e não se preocupava em ouvir o relato de suas viagens, crendo que ele semeava as sementes da inquietação e o desejo de dominar outras terras.
Naquela época Aldarion apartou-se do pai, e deixou de falar abertamente sobre seus desígnios e desejos; mas Almarian, a Rainha, apoiava o filho em tudo o que fazia, e Meneldur forçosamente deixava as coisas correrem como corriam. Pois os Aventureiros tornavam-se mais numerosos e mais estimados pelos homens, e chamavam-se de Uinendili, amantes de Uinen; e seu Capitão tornava-se menos fácil de repreender ou refrear. Os navios dos númenorianos tinham volume e calado cada vez maiores naqueles dias, até que se tornaram capazes de fazer viagens longínquas, levando muitos homens e grandes cargas; e Aldarion costumava passar muito tempo longe de Númenor. Tar-Meneldur opunha-se sempre ao filho e limitou a derrubada de árvores em Númenor para a construção de embarcações.
Ocorreu, assim, a Aldarion a ideia de que encontraria madeira na Terra Média e lá buscaria um porto para reparar seus navios. Em suas viagens pelo litoral ele observava com assombro as grandes florestas; e na foz do rio que os númenorianos chamavam Gwathir, Rio da Sombra, estabeleceu Vinyalonde, o Porto Novo.
No entanto, quando se haviam passado cerca de oitocentos anos desde o início da Segunda Era, Tar-Meneldur ordenou que o filho permanecesse em Númenor e durante algum tempo interrompesse suas viagens ao leste; pois desejava proclamar Aldarion Herdeiro do Rei, como naquela idade do Herdeiro haviam feito os Reis antes dele. Então Meneldur e seu filho se reconciliaram por algum tempo, e houve paz entre eles. E, em meio a alegria e festas, Aldarion foi proclamado Herdeiro, em seu centésimo ano de vida, e recebeu do pai o título e o poder de Senhor dos Navios e Portos de Númenor. Às festas em Armenelos veio um certo Beregar, de onde habitava no oeste da Ilha, e com ele veio sua filha Erendis. Ali Almarian, a Rainha, observou sua beleza, de uma espécie raramente vista em Númenor; pois Beregar provinha da Casa de Beor por antiga descendência, apesar de não pertencer à linhagem real de Elros, e Erendis possuía cabelos escuros e uma graça esbelta, com os límpidos olhos cinzentos de sua família. Mas Erendis avistou Aldarion que passava a cavalo, e por sua beleza, e pelo esplendor de seu porte, ela quase não tinha olhos para mais nada. Daí em diante Erendis tornou-se dama da casa da Rainha, e caiu também nas graças do Rei; mas pouco via de Aldarion, que se ocupava do cultivo das florestas, tratando de que nos dias vindouros não faltasse madeira em Númenor. Não demorou para que os marinheiros da Corporação dos Aventureiros ficassem inquietos, pois não se satisfaziam com viagens mais curtas e mais raras, sob comandantes menores; e, quando haviam passado seis anos desde a proclamação do Herdeiro do Rei, Aldarion resolveu navegar outra vez à Terra Média. Do Rei obteve apenas uma permissão relutante, pois recusou a recomendação do pai para ficar em Númenor e procurar uma esposa; e zarpou na primavera daquele ano. Mas, quando foi despedir-se de sua mãe, viu Erendis em meio à companhia da Rainha. Contemplando sua beleza, percebeu a força que ela trazia escondida dentro de si.
— Precisa partir de novo, Aldarion, meu filho? — perguntou-lhe então Almarian. — Não há nada que o retenha na mais bela de todas as terras mortais?
— Ainda não — respondeu — mas há em Armenelos mais beleza do que um homem poderia encontrar em outra parte, até mesmo nas terras dos eldar. Mas os marinheiros são pessoas de mente dividida, em combate consigo mesmos, e o desejo do Mar ainda me prende.
Erendis acreditou que essas palavras também haviam sido proferidas para seus ouvidos; e a partir daquele instante seu coração voltou-se totalmente para Aldarion, porém não com esperança. Naquela época não havia necessidade, por lei ou costume, de que os da casa real, nem mesmo o Herdeiro do Rei, se casassem somente com descendentes de Elros Tar-Minyatur; mas Erendis julgava que a posição de Aldarion era elevada demais. No entanto, depois disso, não olhou com estima para nenhum homem, e dispensou todos os pretendentes.
Passaram-se sete anos até Aldarion voltar, trazendo consigo minérios de prata e ouro; e falou com seu pai sobre a viagem e os feitos.
— Preferia tê-lo ao meu lado — disse-lhe Meneldur — a receber quaisquer notícias ou presentes das Terras Escuras. Esse é o papel de mercadores e exploradores, não do Herdeiro do Rei. De que nos adiantam mais prata e ouro, senão para os usarmos com altivez onde outras coisas serviriam do mesmo modo? O que é necessário na casa do Rei é um homem que conheça e ame este terra e este povo que ele irá governar.
— Não estudo os homens todos os meus dias? — perguntou Aldarion. — Sou capaz de liderá-los e governá-los como quiser.
— Diga melhor: alguns homens, de espírito semelhante ao seu — respondeu o Rei. — Há também mulheres em Númenor, pouco menos que homens; e a não ser por sua mãe, a quem você consegue de fato dominar como quiser, o que sabe delas? No entanto, algum dia deverá tomar uma esposa.
— Algum dia! — disse Aldarion. — Mas não antes de precisar, e mais tarde, se alguém tentar impelir-me ao casamento. Tenho outras coisas para fazer que me são mais urgentes, pois minha mente está ocupada com elas. “Fria é a vida da esposa do marinheiro”; e o marinheiro de propósito único, sem ligações com a terra firme, vai mais longe e melhor aprende a lidar com o mar.
— Mais longe, porém não com mais proveito — disse Meneldur. — E não se 'lida com o mar', Aldarion, meu filho. Está esquecido de que os edain vivem aqui por graça dos Senhores do Oeste, que Uinen nos é favorável e Osse está refreado? Nossos navios são protegidos, e mãos outras que as nossas os guiam. Portanto, não exagere na altivez, ou a graça poderá minguar. E não suponha que ela se estenderá àqueles que se arriscam sem necessidade nos rochedos de praias estranhas ou nas terras dos homens das trevas.
— Qual é então o propósito da graça sobre nossos navios — perguntou Aldarion — se não podem navegar a nenhuma costa, e nada podem buscar que não tenha sido visto antes?
Não falou mais com o pai sobre tais assuntos, mas passava os dias a bordo do navio Eambar em companhia dos Aventureiros, e na construção de uma embarcação maior que qualquer outra feita antes: esse navio ele chamou Palarran, o Errante ao
Longe. No entanto, agora era frequente que se encontrasse com Erendis (e isso ocorria por trama da Rainha); e o Rei, tomando conhecimento de seus encontros, sentia-se inquieto, porém não contrariado.
— Seria mais bondoso curar Aldarion da sua inquietação — disse — antes que ele conquiste o coração de qualquer mulher.
— De que outra forma pretende curá-lo, senão pelo amor? — perguntou a Rainha.
— Erendis ainda é jovem — disse Meneldur. — A família de Erendis não tem a longa vida que é concedida aos descendentes de Elros — respondeu Almarian — e o coração dela já está conquistado.
Quando, pois, estava construído o grande navio Palarran, Aldarion quis partir novamente. Diante disso, Meneldur enfureceu-se; porém, graças à persuasão da Rainha, não usou o poder do Rei para retê-lo. Aqui deve-se contar o costume de que, quando um navio partia de Númenor por sobre o Grande Mar em direção à Terra Média, uma mulher, na maioria das vezes parente do capitão, colocava sobre a proa da embarcação o Ramo Verde do Retorno; ele era cortado da árvore oiolaire, que quer dizer “Sempre-Verão”, que os eldar deram aos númenoria-nos, dizendo que a colocavam em seus próprios navios como sinal da amizade por Osse e Uinen. As folhas dessa árvore eram perenes, lustrosas e fragrantes; e ela se desenvolvia ao ar marinho. Mas Meneldur proibiu à Rainha e às irmãs de Aldarion que levassem o ramo de oiolaire a Rómenna, onde estava o Palarran, dizendo que recusava sua bênção ao filho, que saía em aventura contra a sua vontade; e Aldarion, ouvindo isto, disse:
— Se tenho de partir sem bênção ou ramo, assim partirei.
Então a Rainha entristeceu-se; mas Erendis lhe disse: — Tarinya, se cortar o ramo da árvore élfica, eu o levarei ao porto com sua permissão; pois a mim o Rei não proibiu isso.
Os marinheiros consideraram nefasto que o Capitão tivesse de partir assim; mas, quando tudo estava pronto, e os homens preparados para levantar âncora, Erendis lá chegou, por pouco que apreciasse o ruído e a agitação do grande porto e os gritos das gaivotas.
Aldarion saudou-a com espanto e alegria.
— Trouxe-lhe o Ramo do Retorno, senhor, da Rainha — disse ela.
— Da Rainha? — repetiu Aldarion em outro tom.
— Sim, senhor, mas pedi a permissão dela para assim fazer. Outros além da sua própria família hão de alegrar-se com seu retorno, assim que seja possível.
Nesse momento, Aldarion pela primeira vez olhou com amor para Erendis; e por muito tempo ficou de pé na popa, olhando para trás, enquanto o Palarran se fazia ao mar.
Diz-se que ele apressou sua volta, e ficou em viagem menos tempo do que pretendera. Ao retornar trouxe presentes para a Rainha e as senhoras de sua casa, mas trouxe para Erendis o presente mais rico, que era um diamante. Frios foram então os cumprimentos entre o Rei e seu filho; e Meneldur repreendeu-o, dizendo que um presente semelhante era inadequado para o Herdeiro do Rei, a não ser que fosse um presente de noivado, e exigiu que Aldarion declarasse o que tinha em mente.
— Trouxe-o por gratidão — disse —, por um coração caloroso em meio ao gelo de outros.
— Corações frios não podem inflamar outros para que lhes deem calor em suas idas e vindas — disse Meneldur; e mais uma vez instou com Aldarion para que pensasse em se casar, apesar de não falar em Erendis. Mas Aldarion não queria saber disso, pois sempre e em todos os assuntos tanto mais se opunha quanto mais insistissem os que o cercavam. Eentão, tratando Erendis com mais frieza, determinou-se a deixar Númenor e avançar seus planos em Vinyalonde. A vida em terra era-lhe desagradável, pois a bordo do seu navio não se sujeitava a nenhuma outra vontade, e os aventureiros que o acompanhavam conheciam somente amor e admiração pelo Grande Capitão. Mas então Meneldur o proibiu de partir; e Aldarion, antes que o inverno acabasse completamente, içou velas com uma frota de sete navios e a maior parte dos Aventureiros em desafio ao Rei. A Rainha não ousava incorrer na ira de Meneldur; mas à noite uma mulher encapuzada veio ao porto trazendo um ramo, e o entregou às mãos de Aldarion, dizendo:
— Isto vem da Senhora das Terras Ocidentais — (pois assim chamavam a Erendis), e partiu na escuridão. Diante da rebelião aberta de Aldarion, o Rei rescindiu sua autoridade como Senhor dos Navios e Portos de Númenor; fez fechar a Sede dos Aventureiros a bordo de Eambar bem como os estaleiros de Rómenna e proibiu a derrubada de qualquer árvore para a construção de navios. Passaram-se cinco anos; e Aldarion voltou com nove navios, pois dois haviam sido construídos em Vinyalonde, e estavam carregados de excelentes madeiras das florestas costeiras da Terra Média. Foi grande a ira de Aldarion quando descobriu o que fora feito.
— Se não posso ter boas-vindas em Númenor, nem trabalho para fazer com minha mãos, e se meus navios não podem ser reparados nos seus portos, então partirei de novo e logo — disse ele ao pai —, pois os ventos foram violentos, e preciso de reaparelhamento. O filho de um Rei não tem nada mais a fazer senão estudar os rostos das mulheres para encontrar uma esposa? Assumi o trabalho da silvicultura, e nele tenho sido prudente. Haverá mais madeira em Númenor antes que terminem meus dias do que há sob o seu cetro. — E, fiel à sua palavra, Aldarion partiu outra vez no mesmo ano, com três navios e os mais audazes dentre os Aventureiros, saindo sem bênção nem ramo; pois Meneldur impôs um interdito sobre todas as mulheres de sua casa e dos Aventureiros, e colocou uma guarda em torno de Rómenna.
Nessa viagem Aldarion ficou tanto tempo fora que as pessoas temeriam por ele; e o próprio Meneldur inquietou-se, a despeito da graça dos Valar que sempre protegera os navios de Númenor. Quando se haviam passado dez anos desde que Aldarion partira, Erendis acabou perdendo a esperança; e, crendo que Aldarion tivesse encontrado alguma fatalidade, ou então que tivesse decidido habitar na Terra Média, e também para escapar aos pretendentes importunos, pediu permissão à Rainha e, partindo de Armenelos, voltou à sua própria família nas Terras Ocidentais. Porém, após mais quatro anos, Aldarion finalmente retornou, e seus navios estavam danificados e quebrados pelo mar. Velejara primeiro ao porto de Vinyalonde, e de lá fizera uma grande viagem costeira para o sul, muito além de qualquer lugar jamais alcançado pelos navios dos númenorianos; mas, ao voltar para o norte, encontrara ventos contrários e grandes tempestades. Mal tendo escapado ao naufrágio no Harad, encontrou Vinyalonde destroçado por enormes ondas e saqueado por homens hostis. Três vezes foi impedido de atravessar o Grande Mar por ventos fortíssimos vindos do oeste, e seu próprio navio foi atingido por um raio, perdendo os mastros. Somente a duras penas nas águas profundas conseguiu finalmente chegar ao porto em Númenor. Muito consolou-se Meneldur à volta de Aldarion; mas repreendeu-o por sua rebelião contra o rei e pai, pela qual abriu mão da guarda dos Valar e arriscou atrair a ira de Osse, não somente para si, mas também para os homens que a si ligara pela devoção. Então Aldarion abrandou sua disposição e recebeu o perdão de Meneldur, que lhe restituiu o título de Senhor dos Navios e Portos, e acrescentou o de Mestre das Florestas.
Aldarion entristeceu-se ao ver que Erendis deixara Armenelos, mas era demasiado orgulhoso para buscá-la. E de fato não poderia fazer isso, se não fosse para pedi-la em casamento, e ainda era refratário a comprometer-se. Empenhou-se em reparar o que negligenciara em sua longa ausência, pois estivera fora por cerca de vinte anos; e naquela época grandes obras portuárias foram realizadas, especialmente em Rómenna. Descobriu que muitas árvores haviam sido derrubadas para construções e para a fabricação de muitas coisas, mas tudo fora feito de modo imprevidente, e pouco fora plantado para repor o que havia sido tirado. Viajou então por Númenor inteira para inspecionar as florestas existentes.
Certo dia, cavalgando nas florestas das Terras Ocidentais, viu uma mulher cujos cabelos escuros ondulavam ao vento, e ela estava envolta num manto verde preso ao pescoço por uma joia brilhante. Supôs que ela pertencesse aos eldar, que às vezes vinham àquela parte da Ilha. Mas ela se aproximou; ele reconheceu que era Erendis; e viu que a joia era a que ele lhe dera. Então subitamente conheceu em si o amor que tinha a ela e sentiu o vazio de seus dias. Erendis empalideceu ao vê-lo e quis fugir cavalgando, mas ele foi muito ligeiro.
— Certamente mereço que você fuja de mim, que tantas vezes e para tão longe fugi! Mas perdoe-me, e fique agora. — Então cavalgaram juntos à casa de Beregar, o pai dela, e lá Aldarion expôs seu desejo de contrair noivado com Erendis; mas agora Erendis relutava, embora estivesse na idade certa para casar-se, conforme o costume e a vida de sua gente. O amor que sentia por ele não diminuíra, nem ela recuou por astúcia; mas agora temia em seu coração que, na guerra entre ela e o Mar pela posse de Aldarion, ela não venceria. Erendis nunca aceitaria menos para não perder tudo. E, temendo o Mar, e culpando todos os navios pela derrubada das árvores que apreciava, decidiu que teria de derrotar totalmente o Mar e os navios, ou então ser ela totalmente derrotada.
Aldarion, entretanto, cortejou Erendis com sinceridade, e ia aonde quer que ela fosse. Deixou de lado os portos e os estaleiros bem como todos os interesses da Corporação dos Aventureiros, sem derrubar árvores, e sim dedicando-se apenas ao seu plantio. Com isso encontrou mais contentamento naquela época do que em qualquer outra de sua vida, apesar de não o saber até se recordar dela, muito depois, quando já estava idoso. Após algum tempo tentou persuadir Erendis a navegar com ele numa viagem em torno da Ilha, no navio Eambar, pois já se haviam passado cem anos desde que Aldarion fundara a Corporação dos Aventureiros, e haveria festas em todos os portos de Númenor.
Com isso Erendis consentiu, disfarçando a repulsa e o temor; e partiram de Rómenna para chegar a Andúnie do lado oeste da Ilha. Lá Valandil, Senhor de Andúnie e parente próximo de Aldarion, realizou uma grande festa; e nessa festa bebeu à saúde de Erendis, chamando-a Uinéniel, Filha de Uinen, a nova Senhora do Mar. Mas Erendis, que estava sentada ao lado da esposa de Valandil, disse em voz alta:
 — Não me chame por tal nome! Não sou filha de Uinen: ela é, sim, minha inimiga.
Depois disso, por algum tempo, as dúvidas voltaram a assaltar Erendis, pois Aldarion mais uma vez voltou seus pensamentos às obras em Rómenna, ocupando-se em construir grandes quebra-mares, e em erguer uma alta torre em Tol Uinen: Calmindon, a Torre da Luz, era seu nome. Mas quando essas obras estavam prontas Aldarion voltou a Erendis e instou para que noivassem. No entanto ela ainda contemporizou.
— Viajei de navio com você, senhor. Antes de lhe dar minha resposta, não quer viajar comigo em terra firme, aos lugares que amo? Você conhece muito pouco sobre esta terra, para alguém que há de ser Rei dela. — Portanto partiram juntos, e chegaram a Emerie, onde havia ondulantes colinas relvadas, e esse era o principal local de pastoreio de ovelhas em Númenor; e viram as casas brancas dos fazendeiros e dos pastores, e ouviram o balido dos rebanhos.
— Aqui eu poderia ficar em paz! — disse Erendis a Aldarion naquele lugar.
— Você há de morar onde quiser, como esposa do Herdeiro do Rei — disse Aldarion.
— E como Rainha em muitas belas casas, conforme desejar.
— Quando você for Rei, serei velha — disse Erendis. — Onde habitará o Herdeiro do Rei enquanto isso?
— Com sua esposa — disse Aldarion —, quando seus trabalhos o permitirem, caso ela não possa compartilhá-los.
— Não compartilharei meu marido com a Senhora Uinen — disse Erendis.
— Essa é uma expressão capciosa — disse Aldarion. — Da mesma forma eu poderia dizer que não compartilharei minha esposa com o Senhor Orome das Florestas, porque ela aprecia as árvores que crescem selvagens.
— De fato você não faria isso — disse Erendis —, pois derrubaria qualquer madeira como dádiva a Uinen, se assim lhe aprouvesse.
— Diga o nome de qualquer árvore que aprecia, e ela há de ficar em pé até morrer — disse Aldarion.
— Aprecio todas as que crescem nesta Ilha — disse Erendis. Então cavalgaram em silêncio por muito tempo. Depois daquele dia separaram-se, e Erendis voltou à casa de seu pai. A ele nada disse, mas a sua mãe, Núneth, contou as palavras que haviam sido pronunciadas entre ela e Aldarion.
— Tudo ou nada, Erendis — disse Núneth. — Assim você era quando criança. Mas você ama esse homem, e é um grande homem, sem falar da sua posição. Você não expulsará seu amor do coração com tanta facilidade, não sem grande mágoa. Uma mulher tem de compartilhar o amor do marido por seu trabalho e o fogo do seu espírito, ou então transformá-lo em algo que não pode ser amado. Mas duvido que você alguma vez compreenda esse conselho. No entanto, estou aflita, pois é mais do que tempo de você casar-se; e, já que dei à luz uma bela criança, eu esperava ver belos netos; e não me desagradaria que tivessem seus berços na casa do Rei.
Esse conselho de fato não comoveu a mente de Erendis. Ainda assim, ela descobriu que seu coração não estava sujeito à sua vontade, e que seus dias eram vazios: mais vazios que nos anos em que Aldarion estivera viajando. Pois ele ainda vivia em Númenor; e no entanto os dias passavam, sem que ele voltasse ao oeste.
Então a Rainha Almarian, tendo sido informada por Núneth do que ocorrera e temendo que Aldarion voltasse a buscar consolo nas viagens (pois estivera em terra por muito tempo), mandou pedir a Erendis que voltasse a Armenelos; e Erendis, por insistência de Núneth e do seu próprio coração, fez o que lhe foi pedido. Lá ela se reconciliou com Aldarion; e na primavera do ano, quando chegou a época do Erukyerme, eles subiram no séquito do Rei até o píncaro da Meneltarma, que era a Montanha Sagrada dos númenorianos. Quando todos haviam descido outra vez, Aldarion e Erendis ficaram para trás; e olharam longe, vendo a seus pés toda a Ilha de Ponente, verdejan-te na primavera. E viram o rebrilhar da luz no oeste, onde ficava a longínqua Avallóne, e as sombras no leste sobre o Grande Mar; e o Menel estava azul sobre eles. Não falaram, pois ninguém, a não ser o Rei, falava nas alturas da Meneltarma; mas, ao descerem, Erendis deteve-se por um momento, olhando em direção a Emerie, e além, para as florestas do seu lar.
— Você não ama o Yôzâyan? — perguntou ela.
— Amo-o de fato — respondeu ele —, porém creio que você duvida disso. Pois também penso no que poderá se tornar em tempos vindouros, e na esperança e no esplendor de seu povo; e acredito que uma dádiva não deveria jazer ociosa no tesouro.
— As dádivas que vêm dos Valar, e do Um através deles, devem ser amadas por si sós agora, e em todos os agoras — disse Erendis, discordando de suas palavras. — Não foram dadas para serem permutadas por mais ou por melhor. Os edain continuam homens mortais, Aldarion, por grandiosos que sejam: e não podemos residir no tempo que está por vir, pois assim perderíamos nosso agora em troca de um fantasma que nós mesmos inventamos. — Então, tirando subitamente a joia do pescoço, perguntou-lhe: — Gostaria que eu desse esta em troca, para comprar outros bens que desejo?
— Não! — disse ele. — Mas você não a mantém trancada num tesouro. No entanto creio que lhe dá demasiado valor; pois é ofuscada pela luz dos seus olhos. — Então beijou-a nos olhos, e naquele momento ela pôs o temor de lado e o aceitou; e seu casamento foi contratado na íngreme trilha da Meneltarma.
Então retornaram a Armenelos, e Aldarion apresentou Erendis a Tar-Meneldur como noiva do Herdeiro do Rei; e o Rei alegrou-se, e houve festejos na cidade e em toda a Ilha. Como presente de noivado, Meneldur deu a Erendis uma generosa porção de terra em Emerie, e lá fez construir para ela uma casa branca. Mas Aldarion disse a ela:
— Tenho outras joias acumuladas, presentes de reis em terras longínquas a quem os navios de Númenor levaram auxílio. Tenho gemas verdes como a luz do sol nas folhas das árvores que você aprecia.
— Não! — disse Erendis. — Já tenho meu presente de noivado, apesar de tê-lo recebido antecipadamente. É a única joia que tenho ou desejo ter, e dar-lhe-ei ainda mais valor. — Então ele viu que ela mandara engastar a pedra branca como uma estrela em um filete de prata; e a pedido de Erendis ele lhe atou o filete na testa. Assim Erendis a usou por muitos anos, até que sobreviesse o pesar; e assim a conheciam por toda parte como Tar-Elestirne, a Senhora da Fronte Estrelada. Por algum tempo houve paz e alegria em Armenelos, na casa do Rei, e em toda a Ilha, e está registrado em antigos livros que houve grande fertilidade no verão dourado daquele ano, que foi o octingentésimo quinquagésimo oitavo da Segunda Era.
Dentre o povo, porém, somente os marinheiros da Corporação dos Aventureiros estavam descontentes. Durante quinze anos Aldarion permanecera em Númenor sem liderar nenhuma expedição ao estrangeiro. E, apesar de haver valorosos capitães treinados por ele, sem a riqueza e a autoridade do filho do Rei, suas viagens tornaram-se mais raras e mais breves, e muito raramente iam além da terra de Gil-galad. Ademais, a madeira tornara-se escassa nos estaleiros, pois Aldarion negligenciara as florestas; e os Aventureiros instaram com ele para que retornasse a esse trabalho. Diante desse pedido, Aldarion assim fez, e inicialmente Erendis o acompanhava nos bosques; mas ela se entristecia com a visão das árvores derrubadas em seu apogeu, e depois cortadas e serradas. Portanto, logo Aldarion estava indo sozinho, e eles faziam menos companhia um ao outro.
Enfim chegou o ano em que todos esperavam pelo casamento do Herdeiro do Rei; pois não era costume que o noivado durasse muito mais que três anos. Certa manhã daquela primavera, Aldarion subiu a cavalo desde o porto de Andúnie, tomando a estrada para a casa de Beregar; pois ia hospedar-se lá, e para lá Erendis o precedera, vinda de Armenelos pelas estradas da região. Ao chegar ao topo do grande penhasco que se destacava da terra e protegia o porto ao norte, virou-se e olhou para trás, por sobre o mar.
Soprava um vento oeste, como era comum naquela estação, preferida pelos que pretendessem velejar à Terra Média, e ondas de cristas brancas marchavam para a praia. Então, de repente, a saudade do mar o acometeu, como se uma grande mão se deitasse sobre sua garganta, seu coração bateu forte, e sua respiração se deteve. Lutou para controlar-se, deu a volta por fim e seguiu viagem. E propositadamente passou pela floresta onde vira Erendis cavalgando como se fosse uma dos eldar, quinze anos antes. Quase ansiava por vê-la de novo daquele modo; mas ela não estava lá, e o desejo de rever seu rosto o apressou, de modo que chegou à casa de Beregar antes do cair da tarde.
Lá ela lhe deu as boas-vindas, contente, e ele se alegrou; mas nada disse acerca do casamento, embora todos imaginassem que isso fazia parte de sua missão às Terras Ocidentais. À medida que os dias passavam, Erendis observou que agora ele costumava ficar em silêncio quando na companhia de outros mais animados; e, quando olhava de repente na sua direção, via que ele a estava contemplando. Então o coração de Erendis abalou-se; pois os olhos azuis de Aldarion agora lhe pareciam cinzentos e frios, e no entanto ela percebia como que uma fome no seu olhar. Essa expressão ela o vira antes com demasiada frequência, e temia o que preconizava, mas nada disse. Diante disso Núneth, que percebia tudo o que estava acontecendo, alegrou-se, pois “as palavras conseguem abrir feridas”, como dizia. Logo depois Aldarion e Erendis partiram a cavalo, de volta a Armenelos; e, à medida que se afastavam do mar, ele voltou a alegrar-se. Ainda assim nada disse a ela sobre sua perturbação, pois na verdade estava em guerra consigo mesmo, e irresoluto. Assim avançou o ano, e Aldarion não falava nem do mar nem do casamento, mas muitas vezes esteve em Rómenna e na companhia dos Aventureiros. Por fim, quando chegou o ano seguinte, o Rei chamou-o aos seus aposentos. Estavam os dois juntos à vontade, e o amor que tinham um pelo outro não estava mais nublado.
— Meu filho — disse Tar-Meneldur —, quando me dará a filha que desejei por tanto tempo? Agora passaram-se mais de três anos, e isso já basta. Espanto-me de que você consiga suportar tamanha demora.
Então Aldarion permaneceu em silêncio, mas finalmente disse:
— Fui atacado outra vez, Atarinya. Dezoito anos são um longo jejum. Mal consigo deitar-me quieto na cama, ou manter-me a cavalo, e o chão duro de pedra fere-me os pés.
Então Meneldur afligiu-se, e sentiu pena do filho; mas não compreendia sua perturbação, pois ele mesmo jamais amara os navios.
— Ai! Mas você está noivo. E pelas leis de Númenor e os bons costumes dos eldar e edain um homem não há de ter duas esposas. Você não pode casar-se com o Mar, pois está prometido a Erendis.
Endureceu-se então o coração de Aldarion, pois essas palavras lhe recordavam a conversa com Erendis quando passavam por Emerie; e pensou (porém falsamente) que ela consultara seu pai. Quando achava que os outros estavam em conluio para forçá-lo a seguir por algum caminho que escolheram, sempre era sua tendência afastar-se dele.
— Os ferreiros podem forjar, os cavaleiros cavalgar, e os mineiros escavar, quando estão noivos — disse. — Então por que os marinheiros não podem navegar?
— Se os ferreiros passassem cinco anos na bigorna, seriam poucas as esposas de ferreiros — disse o Rei. — E as esposas de marinheiros são poucas, e suportam o que têm de suportar, pois tal é sua subsistência e sua necessidade. O Herdeiro do Rei não é marinheiro de ofício, nem está sob necessidade.
— Além da subsistência há outras necessidades que impelem um homem — disse Aldarion. — E ainda temos muitos anos pela frente.
— Não, não — disse Meneldur —, você não dá o devido valor à sua graça. Erendis tem esperança mais breve que você, e seus anos fenecem mais depressa. Ela não é da linhagem de Elros, e já o ama há muitos anos.
— Refreou-se por quase doze anos, quando eu estava desejoso — disse Aldarion. — Não peço nem um terço desse tempo.
— Naquela época ela não era noiva — disse Meneldur. —Mas nenhum de vocês está livre agora. E, se ela se refreou, não duvido que fosse por medo do que agora parece provável, caso você não consiga se dominar. De algum modo você deve ter acalmado esse medo; e, embora você possa não ter dito nada às claras, mesmo assim está obrigado, creio eu.
— Seria melhor eu mesmo falar com minha noiva — disse então Aldarion, furioso —, e não parlamentar por procuração. — E saiu da presença do pai. Pouco depois falou com
Erendis do seu desejo de voltar a viajar sobre as grandes águas, dizendo que não encontrava nem sono nem repouso. Mas ela permaneceu sentada, pálida e calada.
— Pensei que tivesse vindo falar de nosso casamento — disse ela por fim.
— Falarei — disse Aldarion. — Há de ser logo após meu retorno, se você puder esperar. — Mas, vendo o pesar no rosto da noiva, comoveu-se, e veio-lhe uma ideia. — Há de ser agora — disse. — Há de ser antes que este ano termine. E então equiparei um navio tal como os Aventureiros jamais fizeram, a casa de uma Rainha sobre as águas. E você há de navegar comigo, Erendis, sob a graça dos Valar, de Yavanna e de Orome a quem você ama. Há de navegar a terras onde lhe mostrarei bosques como nunca viu, onde ainda agora cantam os eldar; ou florestas maiores que Númenor, livres e selvagens desde o início dos dias, onde ainda se pode ouvir a grande trompa de Orome, o Senhor.
— Não, Aldarion — disse Erendis, chorando. — Alegro-me de que o mundo ainda contenha essas coisas de que você fala; mas não hei de vê-las jamais. Pois não desejo isso: meu coração está entregue às florestas de Númenor. E ai! Se eu embarcasse por amor a você, não haveria de voltar. É algo que está além de minhas forças suportar; e longe das vistas da terra eu haveria de morrer. O Mar me odeia; e agora ele está vingado porque o mantive longe dele e ainda assim fugi de você. Vá, meu senhor! Mas tenha piedade, e não leve tantos anos quantos antes perdi.
 Envergonhou-se então Aldarion; pois, assim como ele falara ao pai em ira incontida, ela agora falava com amor. Não navegou naquele ano, mas encontrou pouca paz e alegria.
— Longe das vistas da terra ela morrerá! — dizia. — Logo morrerei, se vir a terra por mais tempo. Então, se quisermos passar juntos alguns anos, tenho de ir sozinho, e ir logo.
— Portanto, aprestou-se afinal para zarpar na primavera; e os Aventureiros estavam contentes, mesmo sendo os únicos na Ilha entre os que sabiam o que estava ocorrendo. Tripularam-se três navios, e no mês cie Víresse partiram. A própria Erendis pôs o ramo verde de oiolaire na proa do Palarran, e ocultou as lágrimas até que o navio saísse das grandes muralhas novas do porto. Seis anos e mais passaram-se antes que Aldarion retornasse a Númenor. Encontrou até mesmo Almarian, a Rainha, mais fria nas boas-vindas, e os Aventureiros haviam caído em desfavor; pois achava-se que ele maltratara Erendis. Mas na verdade estivera fora por mais tempo do que pretendera, pois descobrira que o porto de Vinyalonde estava agora totalmente arruinado, e grandes marés haviam aniquilado toda a sua labuta em restaurá-lo. Os homens próximos à costa começavam a temer os númenorianos, ou tornavam-se abertamente hostis; e Aldarion ouviu rumores sobre um senhor na Terra Média que odiava os homens dos navios. Então, quando estava prestes a voltar para casa, um grande vento veio do sul. e ele foi carregado longe para o norte. Deteve-se algum tempo em Mithlond, mas, quando seus navios outra vez se fizeram ao mar, de novo foram varridos para o norte, impelidos para perigosos ermos congelados, e sofreram com o frio. Finalmente o mar e o vento se abrandaram, mas no mesmo instante em que Aldarion fitava saudoso desde a proa do Palarran e enxergou a Meneltarma ao longe, seu olhar recaiu no ramo verde, e viu que ele estava murcho. Então Aldarion ficou consternado, pois jamais ocorrera nada semelhante com o ramo de oiolaire enquanto era lavado pela espuma do mar.
— Está congelado, Capitão — disse um marinheiro que estava ao seu lado. — O frio foi demasiado. Estou contente em ver a Coluna.
Quando Aldarion foi ter com Erendis, ela o olhou de modo penetrante, mas não se adiantou para encontrá-lo; e por um tempo ele ficou de pé, sem saber o que dizer, ao contrário do que costumava.
— Sente-se, meu senhor — disse Erendis —, e conte-me primeiro todos os seus feitos. Muito deve ter visto e realizado nesses longos anos!
Então Aldarion começou, hesitante, e ela permaneceu em silêncio, escutando, enquanto ele contava toda a história de suas provações e tardanças; e quando ele terminou ela disse:
— Agradeço aos Valar, por cuja graça você finalmente retornou. Mas também lhes agradeço não ter ido com você; pois haveria de murchar mais depressa que qualquer ramo verde.
— Seu ramo verde não viajou até o frio intenso por vontade própria — respondeu ele.
— Mas dispense-me agora se quiser, e não creio que ninguém a culpe. No entanto, não devo ousar ter esperança de que seu amor seja capaz de suportar mais do que o belo oiolaire.
— Assim é de fato — disse Erendis. — Ele ainda não está morto de frio. Aldarion. Ai! Como posso dispensá-lo, quando outra vez o vejo, retornando belo como o sol após o inverno?
— Então que comecem agora a primavera e o verão! — disse ele.
— E que não volte o inverno — disse Erendis.
Então, para alegria de Meneldur e Almarian, o casamento do Herdeiro do Rei foi proclamado para a primavera seguinte; e assim aconteceu. No octingentésimo septuagésimo ano da Segunda Era, Aldarion e Erendis casaram-se em Armenelos, e em todas as casas havia música, e em todas as ruas os homens e as mulheres cantavam. E depois o Herdeiro do Rei e sua noiva cavalgaram a seu bel-prazer por toda a Ilha, até que no solstício de verão chegaram a Andúnie, onde o último banquete foi preparado por seu senhor, Valandil; e todo o povo das Terras Ocidentais lá estava reunido, por amor a Erendis e orgulho de que haveria de provir deles uma Rainha de Númenor.
Na manhã anterior à comemoração, Aldarion olhou pela janela do quarto de dormir, que dava para o oeste, sobre o mar.
— Veja, Erendis! — exclamou. — Lá está um navio correndo para o porto; e não é um navio de Númenor, mas um navio no qual nem você nem eu jamais haveremos de pôr os pés, mesmo que queiramos. — Então Erendis observou, e viu um alto navio branco, com aves brancas girando ao sol em toda a volta; e suas velas rebrilhavam prateadas, enquanto ele navegava para o porto com espuma à proa. Assim os eldar homenageavam o casamento de Erendis, por amor ao povo das Terras Ocidentais, que eram os mais próximos na sua amizade. Seu navio estava carregado de flores para adornar a comemoração, de forma que todos os que lá se sentaram, quando chegou a tardinha, estavam coroados de elanor e da doce lissuin, cuja fragrância traz conforto ao coração.
Também trouxeram menestréis, cantores que recordavam canções dos elfos e dos homens dos dias de Nargothrond e Gondolin, muito tempo atrás; e muitos dos eldar, altos e belos, sentavam-se às mesas entre os homens. Mas o povo de Andúnie, observando a feliz companhia, dizia que nenhum deles era mais belo que Erendis; e diziam que seus olhos eram tão luminosos quanto os olhos de Morwen Eledhwen de outrora, ou mesmo quanto os de Avallóne.
Os eldar também trouxeram muitos presentes. A Aldarion deram uma árvore nova cuja casca era branca como neve, e cujo tronco era reto, forte e flexível como se fosse de aço; mas ainda não tinha folhas.
 — Agradeço-lhes — disse Aldarion aos elfos. — A madeira de tal árvore deve ser preciosa de fato.
— Talvez; não o sabemos — disseram. — Nenhuma delas jamais foi derrubada. Dá folhas frescas no verão, e flores no inverno. É por isso que a apreciamos.
A Erendis deram um casal de aves, cinzentas com bicos e pés dourados. Cantavam docemente uma para a outra, com muitas cadências que nunca se repetiam por todo um longo gorjeio melódico; mas, se fossem apartadas, imediatamente voavam uma para junto da outra, e não cantavam separadas.
— Como hei de guardá-las? — perguntou Erendis.
— Deixe-as voar e ser livres — responderam os eldar. — Pois falamos com elas e mencionamos seu nome; e ficarão onde quer que você more. Formam um par por toda a vida, e têm vida longa. Talvez haja muitas dessas aves a cantar nos jardins dos seus filhos.
Naquela noite Erendis despertou, e uma doce fragrância vinha através da treliça; mas a noite estava luminosa, pois a lua cheia estava se pondo. Então, deixando seu leito, Erendis olhou para fora e viu toda a terra a dormir em prata; mas as duas aves estavam sentadas lado a lado no seu peitoril.
Quando terminou a comemoração, Aldarion e Erendis foram passar algum tempo em casa dela; e outra vez as aves empoleiraram-se no peitoril de sua janela. Mais tarde, despediram-se de Beregar e Núneth, e por fim cavalgaram de volta a Armenelos. Pois lá, pelo desejo do Rei, iria morar seu Herdeiro, e uma casa foi-lhes preparada em meio a um jardim de árvores. Lá plantaram a árvore élfica, e as aves élficas cantavam em seus ramos.
Dois anos mais tarde, Erendis concebeu e, na primavera do ano seguinte, deu uma filha a Aldarion. Mesmo desde o nascimento era uma bela criança, e crescia sempre em beleza: a mulher mais linda, como relatam os antigos contos, que um dia nasceu na linhagem de Elros, exceto Ar-Zimraphel, a última. Quando chegou o tempo de lhe dar o primeiro nome, chamaram-na Ancalime. Erendis tinha o coração alegre, pois pensava:
— Agora certamente Aldarion desejará um filho para ser seu herdeiro, e por muito tempo ainda habitará comigo. — Pois secretamente ela ainda temia o Mar e seu poder sobre o coração do marido; e, apesar de procurar esconder isso e falar com ele sobre suas antigas aventuras, suas esperanças e planos, observava com ciúme se ele ia ao seu navio-casa ou passava muito tempo com os Aventureiros. Uma vez Aldarion pediu-lhe que fosse a Bambar, mas, vendo depressa nos olhos dela que ela não o faria de boa vontade, nunca mais insistiu com ela. O temor de Erendis não era sem causa. Quando Aldarion estivera em terra por cinco anos, começou a se dedicar novamente à sua ocupação de Mestre das Florestas e frequentemente passava muitos dias longe de casa. Agora havia de fato madeira bastante em Númenor (e isso se devia principalmente à sua prudência); no entanto, como a população tinha se tornado mais numerosa, havia sempre necessidade de madeira para construções e para o fabrico de muitas outras coisas. Pois naqueles dias de outrora, apesar de muitos serem extremamente habilidosos com pedras e com metais (já que os edain de outrora muito haviam aprendido com os noldor), os númenorianos gostavam de objetos feitos de madeira, fosse para o uso diário, fosse pela beleza do entalhe. Naquela época, Aldarion voltou a dar mais atenção ao futuro, sempre plantando onde se derrubava, e fez plantar novas florestas onde houvesse espaço, terra livre que fosse adequada a árvores de diferentes espécies. Foi então que se tornou mais conhecido como Aldarion, nome pelo qual é lembrado entre os que detiveram o cetro em Númenor.
No entanto, a muitos além de Erendis parecia que ele tinha pouco amor pelas árvores em si, e cuidava delas mais como madeira que serviria a seus planos. Não era muito diversa a sua relação com o Mar. Pois, como Núneth dissera a Erendis muito tempo antes:
 — Ele pode amar os navios, minha filha, pois eles são feitos pela mente e pelas mãos dos homens; mas creio que não são os ventos nem as grandes águas que fazem seu coração arder dessa maneira, nem a visão de terras estranhas, mas, sim, uma chama na sua mente, ou um sonho que o persegue.
— E pode ser que ela tenha se aproximado da verdade; pois Aldarion era homem de grande visão, e previa dias em que o povo precisaria de mais espaço e maior riqueza; e quer ele próprio o soubesse com clareza, quer não, sonhava com a glória de Númenor e o poder de seus reis, e buscava pontos de apoio a partir dos quais pudessem passar a maiores conquistas. Assim ocorreu que antes de passar muito tempo ele de novo se voltou da silvicultura para a construção de navios, e lhe veio uma visão de uma enorme embarcação, como um castelo com altos mastros e grandes velas como nuvens, levando homens e estoques suficientes para uma cidade. Então nos estaleiros de Rómenna as serras e os martelos se atarefaram, enquanto tomava forma entre muitas embarcações menores um enorme casco com nervuras; e os homens se admiravam com ele. Turuphanto, a Baleia de Madeira, eles a chamavam, mas não era esse seu nome.
Erendis soube dessas coisas, apesar de Aldarion não lhe ter falado delas, e inquietou-se.
— O que é toda essa ocupação com navios, Senhor dos Portos? — perguntou-lhe, portanto, certo dia. — Não temos o bastante? Quantas belas árvores tiveram suas vidas encurtadas este ano? — Falava com leveza, e sorria ao falar.
— Um homem precisa de trabalho para fazer em terra — respondeu ele —, mesmo que tenha uma bela esposa. As árvores brotam e as árvores tombam. Planto mais do que derrubam.
— Também ele falou em tom leve, mas não lhe olhou no rosto; e não voltaram a tocar nesse assunto.
Mas, quando Ancalime tinha quase quatro anos, Aldarion por fim declarou abertamente a Erendis seu desejo de voltar a navegar a partir de Númenor. Ela permaneceu calada, pois ele nada disse que ela já não soubesse; e as palavras eram em vão. Ele esperou até o aniversário de Ancalime, e muito se ocupou dela nesse dia. Ela ria e estava contente, embora outros naquela casa não estivessem; e ao deitar-se disse ao pai:
— Aonde vai levar-me neste verão, tatanya? Eu gostaria de ver a casa branca na terra dos carneiros de que mamil fala. — Aldarion não respondeu; e no dia seguinte saiu de casa e passou alguns dias fora. Quando tudo estava pronto, voltou e despediu-se de Erendis. Então, contra sua vontade, vieram lágrimas aos olhos de Erendis. Elas o entristeceram, e no entanto o irritaram, pois já estava resolvido, e seu coração se endureceu.
 — Ora, Erendis! — disse. —Por oito anos fiquei aqui. Não se pode atar para sempre com amarras delicadas o filho do Rei, do sangue de Tuor e Earendil! E não caminho para minha morte. Breve hei de voltar.
— Breve? — perguntou ela. — Mas os anos são implacáveis, e você não os trará de volta em sua companhia. E os meus são mais curtos que os seus. Minha juventude se escoa; e onde estão meus filhos, e onde está seu herdeiro? Por muito tempo meu leito esteve frio e ultimamente com maior frequência.
— Ultimamente com frequência pensei que você o preferisse assim — disse Aldarion.
— Mas não nos encolerizemos, mesmo discordando. Olhe em seu espelho, Erendis. Você é bela, e aí não há ainda nenhuma sombra da idade. Você tem tempo de sobra para o que pretendo. Dois anos! Dois anos é tudo o que peço!
— Preferia dizer: “Dois anos tomarei, queira você ou não”. — respondeu Erendis. — Tome dois anos então! Porém não mais. O filho de um Rei do sangue de Earendil deveria ser também um homem de palavra.
Na manhã seguinte, Aldarion saiu às pressas. Ergueu Ancalime e a beijou; mas, apesar de ela se agarrar a ele, Aldarion a colocou depressa no chão e partiu a cavalo.
Logo depois o grande navio zarpou de Rómenna. Hirilonde ele o chamou, Descobridor de Portos; mas partiu de Númenor sem a bênção de Tar-Meneldur; e Erendis não estava no porto para colocar o verde Ramo do Retorno, nem mandou ninguém. O rosto de Aldarion estava sombrio e perturbado enquanto ele estava postado à proa de Hirilonde, onde a esposa de seu capitão colocara um grande ramo de oiolaire; mas não olhou para trás até que a Meneltarma estivesse muito longe no crepúsculo.
Naquele dia inteiro Erendis ficou sentada em seu quarto, só e aflita; porém mais fundo no coração sentiu uma nova dor de ira fria, e seu amor por Aldarion foi ferido no âmago. Odiava o Mar; e agora até mesmo as árvores, que amara outrora, ela não desejava mais ver, pois lhe lembravam os mastros dos grandes navios. Portanto, dentro em pouco deixou Armenelos, e foi para Emerie no meio da Ilha, onde sempre, longe e perto, o balido dos carneiros era trazido pelo vento.
— É mais doce aos meus ouvidos que o piado das gaivotas — disse ela, parada às portas de sua casa branca, presente do Rei; esta ficava em um declive dando para o oeste, com amplos gramados em toda a volta que se fundiam sem muro nem sebe com as pastagens.
Para lá levou Ancalime, e eram sempre a única companhia uma da outra. Pois Erendis só tinha serviçais em sua casa, e todas eram mulheres. E procurava sempre moldar a filha conforme sua própria mente, e alimentá-la com seu próprio rancor contra os homens. Na verdade Ancalime raramente via algum homem, pois Erendis não usava pompa, e seus poucos serviçais da fazenda e pastores tinham uma habitação ao longe. Outros homens lá não chegavam, exceto raramente algum mensageiro do Rei, que logo ia embora e logo partia a cavalo, pois aos homens parecia haver na casa um ar gélido que os punha em fuga, e enquanto estavam lá sentiam-se constrangidos a falar a meia voz.  Certa manhã, logo depois que Erendis chegou a Emerié, despertou com o canto de pássaros, e lá, no peitoril de sua janela, estavam as aves élficas que por muito tempo haviam morado em seu jardim em Armenelos, mas que deixara para trás, esquecidas.
— Bobinhas, vão embora! — disse. — Aqui não é lugar para alegria tal como a sua.
Então cessou seu canto, e elas alçaram voo acima das árvores; três vezes rodaram sobre o telhado e então foram-se para o oeste. Naquela tardinha, pousaram no peitoril do quarto na casa de seu pai, onde se deitara com Aldarion na volta da comemoração em Andúnie; e lá Núneth e Beregar as encontraram na manhã do dia seguinte. Mas, quando Núneth lhes estendeu as mãos, elas voaram direto para o alto e fugiram, e ela as observou até se tornarem pontinhos à luz do sol, voando velozes para o mar, de volta à terra de onde haviam vindo.
— Então ele se foi de novo e a deixou — disse Núneth.
— Mas por que ela não deu notícias? — perguntou Beregar. — Ou por que não veio para casa?
— Mandou notícias bastantes — perguntou Núneth. — Pois dispensou as aves élficas, e esse foi um erro. Não é bom presságio. Por quê, por quê, minha filha? Certamente sabia o que tinha de enfrentar? Mas deixe-a a sós, Beregar, onde quer que esteja. Este não é mais o seu lar, e não se curará aqui. Ele há de voltar. E então que os Valar enviem sabedoria a Erendis — ou astúcia, ao menos!
Quando chegou o segundo ano após a partida de Aldarion, por desejo do Rei Erendis mandou que a casa em Armenelos fosse arrumada e aprestada; mas ela própria não se preparou para voltar. Ao Rei mandou uma resposta, dizendo:
— Irei se me ordenar, atar aranya, Mas tenho o dever de apressar-me agora? Não haverá tempo bastante quando sua vela for avistada no leste? — E consigo mesma dizia: — O Rei pretende que eu espere no cais como a namorada de um marinheiro? Antes o fosse, mas não o sou mais. Desempenhei esse papel até o fim.
Mas aquele ano passou, e não se avistou nenhuma vela; e o ano seguinte chegou e se desfez em outono. Então Erendis tornou-se dura e calada. Ordenou que fechassem a casa em Armenelos, e nunca se afastava mais que algumas horas de jornada da sua casa em Emerie. O amor que tinha era todo dado à filha, e agarrava-se a ela, e não permitia que Ancalime saísse do seu lado, nem mesmo para visitar Núneth e seus parentes nas Terras Ocidentais. Todos os ensinamentos de Ancalime vinham da mãe; e bem aprendeu a escrever e a ler, bem como a falar o idioma élfico com Erendis, à maneira como o usavam os homens nobres de Númenor. Pois nas Terras Ocidentais era a língua quotidiana em casas como a de Beregar, e Erendis raramente usava o idioma númenoriano, que Aldarion apreciava mais. Ancalime também aprendeu muito sobre Númenor e os dias antigos nos livros e rolos que havia na casa, os que conseguia compreender; e conhecimento de outros tipos, do povo e da terra, ela escutava às vezes das mulheres da casa, apesar de Erendis nada saber sobre isso. Mas as mulheres eram cautelosas ao falar com a menina, pois temiam sua senhora; e para Ancalimé havia bem pouco riso na casa branca em Emerie.
Esta era calada e sem música, como se há bem pouco tempo alguém tivesse morrido ali; pois em Númenor naquela época era tarefa dos homens tocar instrumentos, e a música que Ancalime ouvia na infância era o canto das mulheres no trabalho, ao ar livre, e longe dos ouvidos da Senhora Branca de Emerie. Mas agora Ancalime estava com sete anos de idade e, sempre que obtinha permissão, saía da casa para as amplas colinas onde podia correr livre; e às vezes ia ter com uma pastora, cuidando dos carneiros e comendo a céu aberto.
Certo dia no verão daquele ano um menino jovem, porém mais velho que ela, veio a casa em missão de uma das fazendas distantes; e Ancalime deu com ele mastigando pão e tomando leite no pátio da fazenda atrás da casa. Ele a olhou sem deferência e continuou bebendo. Então baixou o caneco.
— Pode olhar o quanto quiser, olhuda! — disse ele. — Você é bonita, mas magra demais. Quer comer? — Tirou um pedaço de pão da bolsa.
— Vá embora, Îbal! — gritou uma velha, vinda da porta da queijaria. — E use suas pernas compridas, senão, antes de chegar em casa, vai esquecer a mensagem que lhe dei para sua mãe!
— Não precisam de cão de guarda onde você está, mãe Zamîn! — exclamou o menino, e com um latido e um grito pulou o portão e saiu correndo colina abaixo. Zamîn era uma velha mulher do campo, de língua solta, que não se intimidava com facilidade nem mesmo pela Senhora Branca.
— Que coisa barulhenta era essa? — perguntou Ancalime.
— Um menino — disse Zamîn —, se é que você sabe o que é isso. Mas como haveria de saber? Eles quebram e devoram, em geral. Esse está sempre comendo, mas não sem motivo. Quando o pai dele voltar, vai encontrar um belo rapaz; mas se não for logo, mal vai reconhecê-lo. Posso dizer o mesmo de outros.
— Então o menino tem um pai também? — perguntou Ancalime.
— É claro — disse Zamîn. — Ulbar, um dos pastores do grande senhor lá para o sul: nós o chamamos Senhor dos Carneiros, um parente do Rei.
— Então por que o pai do menino não está em casa?
— Ora, hérinke — disse Zamîn —, porque ouviu falar desses Aventureiros, juntou-se a eles, e foi embora com seu pai, o Senhor Aldarion; mas só os Valar sabem aonde, ou por quê.
Naquela tarde Ancalime de repente disse à mãe:
— Meu pai também é chamado de Senhor Aldarion?
— Era — disse Erendis. — Mas por que pergunta? — Sua voz era calma e fria, mas ela se perguntava e estava perturbada, pois nenhuma palavra acerca de Aldarion havia sido dita entre elas antes.
— Quando ele vai voltar? — perguntou Ancalime, sem responder à pergunta.
— Não me pergunte! — disse Erendis. — Não sei. Nunca, talvez. Mas não se preocupe, pois você tem mãe, e ela não fugirá enquanto você a amar. Ancalime não voltou a falar do pai.
Os dias passaram, trazendo outro ano, e mais outro. Naquela primavera Ancalime fez nove anos. Os cordeiros nasciam e cresciam; a tosa veio e passou; um verão quente queimou a relva. O outono dissolveu-se em chuva. Então, vindo do leste em um vento nebuloso, Hirilonde retornou por sobre os mares cinzentos, trazendo Aldarion a Rómenna. Mandaram aviso a Emerie, mas Erendis não falou a respeito. Não havia ninguém para saudar Aldarion no cais. Ele cavalgou através da chuva até Armenelos; e encontrou sua casa fechada. Ficou consternado, mas não quis pedir notícias a ninguém. Resolveu primeiro procurar o Rei, pois acreditava que tinha muito a lhe dizer.
Teve uma recepção não mais calorosa do que esperava; e Meneldur lhe falou como um Rei a um capitão cuja conduta está em questão.
— Passou muito tempo fora — disse-lhe com frieza. — Agora mais de três anos se passaram desde a data que marcou para a volta.
— Ai! — disse Aldarion. — Até mesmo eu me cansei do mar, e há muito tempo meu coração anseia pelo oeste. Mas fui retido contra minha vontade: há muito o que fazer. E tudo anda para trás na minha ausência.
— Não duvido disso — disse Meneldur. — Descobrirá que isso é verdade também aqui, na sua própria terra, receio dizer.
— Isso eu espero reparar — disse Aldarion. — Mas o mundo está mudando outra vez.
Lá fora passaram-se cerca de mil anos desde que os Senhores do Oeste enviaram seu poderio contra Angband; e esses dias estão esquecidos, ou envoltos em obscuras lendas entre os homens da Terra Média. Eles estão perturbados de novo, e o medo os assombra.
Desejo imensamente consultar-me com você, prestar conta de meus atos e expor meu pensamento acerca do que deve ser feito.
— Há de fazê-lo — disse Meneldur. — Na verdade é o mínimo que espero. Mas há outros assuntos que julgo mais urgentes. “Que um Rei primeiro governe bem sua própria casa antes de corrigir os demais” é o que se diz. Isso vale para todos os homens. Agora vou aconselhá-lo, filho de Meneldur. Você também tem sua própria vida. Metade de si você sempre negligenciou. A você digo agora: Vá para casa!
Aldarion de repente ficou imóvel, e seu rosto era severo.
— Se sabe, diga-me — disse ele. — Onde é minha casa?
— Onde sua esposa está — disse Meneldur. — Você faltou com sua palavra para com ela, por necessidade ou não. Ela agora habita em Emerie, em sua própria casa, longe do mar. Para lá você tem de ir imediatamente.
— Se tivessem me deixado algum aviso para onde ir, eu teria ido diretamente do porto — disse Aldarion. — Mas agora pelo menos não preciso pedir informações a estranhos. — Então voltou-se para partir, mas se deteve.
— O capitão Aldarion esqueceu algo que pertence à sua outra metade, que em sua obstinação ele também considera urgente. Ele tem uma carta que foi encarregado de entregar ao Rei em Armenelos. — Apresentando-a a Meneldur, inclinou-se e saiu do aposento; e em uma hora já tinha montado e partido a cavalo, apesar de estar caindo a noite. Tinha consigo apenas dois companheiros, homens do seu navio: Henderch das Terras Ocidentais e Ulbar. proveniente de Emerie.
Cavalgando depressa, chegaram a Emerie ao cair da noite seguinte, e os homens e cavalos estavam exaustos. Fria e branca parecia a casa na colina, num último brilho do pôr-do-sol sob as nuvens. Deu um toque de trompa assim que a viu de longe.
Ao saltar do cavalo no pátio dianteiro, viu Erendis: trajando branco, estava de pé na escada que subia até as colunas diante da porta. Mantinha-se ereta; mas, ao aproximar-se, ele viu que estava pálida e tinha os olhos demasiado brilhantes.
— Chega tarde, meu senhor — disse ela. — Há muito deixei de esperá-lo. Temo que não haja uma recepção preparada para você tal como fiz quando era sua hora de chegar.
— Os marinheiros não são difíceis de agradar — disse ele.
— Ainda bem — disse ela; e voltou para dentro da casa, deixando-o. Então
adiantaram-se duas mulheres, e uma velha enrugada que desceu a escada. Quando Aldarion entrou, ela se dirigiu aos homens em alta voz, de modo que ele pudesse ouvi-la.
— Não há alojamento para vocês aqui. Desçam para a propriedade ao pé da colina!
— Não, Zamîn — disse Ulbar. — Não vou ficar. Vou para casa, com a permissão do Senhor Aldarion. Está tudo bem lá?
— Bastante — disse ela. — Seu filho comeu tanto que o pai lhe saiu da lembrança. Mas vá, e encontre suas próprias respostas! Lá sua acolhida será mais calorosa que a de seu Capitão.
Erendis não veio à mesa no seu jantar tardio, e Aldarion foi servido por mulheres em uma sala à parte. Mas, antes que ele terminasse, ela entrou, e disse diante das mulheres:
— Deve estar exausto, meu senhor, depois de tanta pressa. Um quarto de hóspedes está preparado para quando desejar. Minhas mulheres vão servi-lo. Se sentir frio, mande fazer fogo.
Aldarion nada respondeu. Recolheu-se cedo ao quarto de dormir e, como agora estava exausto de fato, jogou-se na cama e logo esqueceu as sombras da Terra Média e de Númenor em um sono pesado. Mas ao cantar do galo despertou em grande inquietação e raiva. Levantou-se imediatamente, e pensou em sair da casa sem ruído. Pretendia encontrar seu companheiro Henderch e os cavalos, para cavalgar até seu parente Hallatan, o senhor dos carneiros de Hyarastorni. Mais tarde intimaria Erendis a trazer sua filha a Armenelos, e não trataria com ela em seu próprio terreno. Mas, quando se dirigia para a porta, Erendis adiantou-se. Não se deitara na cama naquela noite e postou-se diante dele na soleira.
— Parte mais rápido do que chegou, meu senhor — disse ela. — Espero que (sendo um marinheiro) já não tenha achado maçante esta casa de mulheres, para partir assim antes de resolver seus negócios. Por sinal, que negócios o trouxeram aqui? Posso sabê-lo antes que parta?
— Disseram-me em Armenelos que minha esposa estava aqui e que para cá havia trazido minha filha — respondeu ele. — Enganei-me quanto à esposa, ao que parece, mas não tenho uma filha?
— Você tinha uma alguns anos atrás — disse ela. — Mas minha filha ainda não se levantou.
— Então ela que se levante, enquanto vou buscar meu cavalo — disse Aldarion. Erendis teria evitado que Ancalime se encontrasse com ele naquela ocasião; mas temia chegar a ponto de perder a estima do Rei, e o Conselho havia muito tempo demonstrara seu descontentamento pela educação da criança no interior. Portanto, quando Aldarion voltou a cavalo, com Henderch a seu lado, Ancalime estava de pé ao lado da mãe, na soleira. Mantinha-se ereta e firme como a mãe, e não lhe fez reverência quando ele apeou e subiu a escada em sua direção.
— Quem é você? — perguntou ela. — E por que me faz levantar tão cedo, antes que haja movimento na casa?
Aldarion olhou-a incisivo e, embora seu rosto estivesse severo, ele sorria por dentro: pois via ali uma filha à sua maneira, e não de Erendis, a despeito todos os seus ensinamentos.
— Você me conheceu outrora, Senhora Ancalime — disse ele —, mas não importa. Hoje sou apenas um mensageiro de Armenelos, para lembrá-la de que é a filha do Herdeiro do Rei; e (até onde me seja dado ver agora) há de ser Herdeira dele por sua vez. Não morará sempre aqui. Mas agora volte à sua cama, minha senhora, se assim desejar, até que sua aia desperte. Apresso-me a ir ao encontro do Rei. Adeus! — Beijou a mão de Ancalime e desceu a escadaria. Montou então e partiu, com um aceno de mão.
Erendis, sozinha à janela, observou-o descendo a colina, e notou que cavalgava para Hyarastorni, e não para Armenelos. Então chorou de pesar, porém ainda mais de raiva. Esperara alguma penitência, para que após a censura ela pudesse conceder um perdão, caso fosse pedido; mas ele a tratara como se fosse ela a ofensora, e a ignorara diante de sua filha.
Tarde demais recordou as palavras de Núneth de muito tempo atrás, e agora via Aldarion como algo grande, que não podia ser domado, impelido por uma vontade feroz, mais perigoso quando frio. Ergueu-se e deu as costas à janela, pensando nas injustiças sofridas.
— Perigoso! — disse. — Mas eu sou de aço duro de quebrar. Isso ele descobriria mesmo que fosse o Rei de Númenor.
Então Aldarion despediu-se das pessoas que lá estavam e partiu, já sem intenção de ficar naquela casa. Quando Hallatan ouviu falar dessa estranha ida e vinda, assombrou-se, até que outras notícias percorressem a região.
Aldarion pouco se afastara de Hyarastorni quando fez o cavalo parar e falou com seu companheiro Henderch.
— Seja qual for a recepção que o aguarde lá no oeste, amigo, não vou privá-lo dela.
Agora siga para casa com meus agradecimentos. Pretendo seguir sozinho.
— Não é apropriado, Senhor Capitão — disse Henderch.
— Não é — disse Aldarion. — Mas é assim que será. Adeus! Cavalgou então sozinho até Armenelos, e nunca mais pôs os pés em Emerié.
Quando Aldarion saiu do aposento, Meneldur olhou, intrigado, para a carta que o filho lhe dera; pois viu que vinha do Rei Gil-galad em Lindon. Estava lacrada e trazia seu emblema de estrelas brancas sobre um círculo azul. Na dobra externa estava escrito:

Dada em Mithlond em mão ao Senhor Aldarion, Herdeiro do Rei de Númenóre, para ser entregue em pessoa ao Rei Supremo em Armenelos.

Então Meneldur rompeu o lacre e leu:

Ereinion Gil-galad, filho de Fingon, a Tar-Meneldur da linhagem de Earendil, saudação: que os Valar o protejam e nenhuma sombra caia sobre a Ilha dos Reis. Há muito tempo devo-lhe gratidão, por tantas vezes ter-me enviado seu filho Anardil Aldarion, o maior amigo-dos-Elfos que existe agora entre os homens, segundo creio. Neste momento, peço-lhe perdão se o retive demasiado a meu serviço, pois eu tinha grande necessidade do conhecimento dos homens e de seus idiomas que somente ele possui. Muitos perigos ele enfrentou para trazer-me conselhos. Da minha necessidade ele lhe falará; no entanto, por ser jovem e cheio de esperança, ele não suspeita de sua real extensão. Portanto escrevo estas linhas para os olhos do Rei de Númenóre apenas. Uma nova sombra ergue-se no leste. Não é tirania de homens maus, como crê seu filho; mas um servo de Morgoth se agita, e coisas perversas voltam a despertar. A cada ano ganha forças, pois a maioria dos homens está madura para seu propósito. Não está longe o dia, segundo julgo, em que se tomará forte demais para que os eldar lhe resistam sem auxilio. Portanto, toda vez que avisto um alto navio dos Reis dos Homens, meu coração se alivia. E agora atrevo-me a solicitar sua ajuda. Se tiver disponível alguma tropa de homens, peço-lhe que a ceda a mim.
Seu filho lhe fará um relato, se assim desejar, de todas as nossas razões. Mas em suma ele julga (e julga sempre com sabedoria) que, quando vier o ataque, como certamente virá, deveríamos tentar manter as Terras Ocidentais, onde ainda habitam os eldar, e homens de sua raça, cujos corações ainda não se obscureceram. Ao menos devemos defender Eriador em volta dos longos rios a oeste das montanhas que chamamos de Hithaeglir, nossa principal defesa. Mas nessa muralha de montanhas há uma grande falha ao sul, na terra de Calenardhon; e por essa via deverá vir a incursão do leste. A hostilidadejá se esgueira ao longo da costa naquela direção. Poderia ser defendida e o ataque ser        impedido, se dominássemos alguma posição de poder na praia próxima.
Assim viu há muito tempo o Senhor Aldarion. Em Vinyalonde na foz de Gwathló muito empenhou-se ele para estabelecer um tal porto, seguro contra o mar e a terra; mas suas enormes obras foram em vão. Ele tem grandes conhecimentos em tais assuntos, pois muito aprendeu com Círdan, e conhece melhor que ninguém as necessidades de seus grandes navios. Mas nunca tem homens suficientes, enquanto Círdan não tem artesãos ou
pedreiros que possa ceder. O Rei conhecerá suas próprias necessidades; mas, se escutar favoravelmente o Senhor Aldarion, e o apoiará como puder, então a esperança crescerá no mundo. As lembranças da Primeira Era são indistintas, e todas as coisas na Terra Média tornam-se mais frias. Que não decline também a antiga amizade entre os eldar e os dúnedain.
Eis que a escuridão vindoura está plena de ódio por nós, mas os odeia igualmente. O Grande Mar não será amplo demais para suas asas, se permitirmos que ela se desenvolva plenamente.
Que Manwe o mantenha sob o Um, e que envie bons ventos às suas velas.

Meneldur deixou o pergaminho cair no colo. Grandes nuvens carregadas por um vento vindo do leste traziam uma escuridão precoce, e os altos círios a seu lado pareciam minguar na penumbra que enchia seu aposento.
— Que Eru me chame antes de chegar um tempo desses! — exclamou em voz alta. Então, disse consigo mesmo: — Ai! Que seu orgulho e minha frieza por tanto tempo tenham mantido nossas mentes separadas. Mas agora, antes do que eu pretendia, a decisão sábia será renunciar ao Cetro em favor dele. Pois esses assuntos estão além de meu alcance.
“Quando os Valar nos concederam a Terra da Dádiva, não nos fizeram seus
representantes: recebemos o Reino de Númenor, não o mundo. Eles são os Senhores. Aqui devíamos afastar o ódio e a guerra; pois a guerra terminara, e Morgoth havia sido expulso de Arda. Assim julguei, e assim me ensinaram”.
“No entanto, se o mundo novamente se obscurece, os Senhores devem sabê-lo; e não me enviaram nenhum sinal. A não ser que este seja o sinal. E então o quê? Nossos pais foram recompensados pelo auxílio que prestaram na derrota da Grande Sombra. Seus filhos hão de ficar à parte, caso o mal volte a erguer-se?”
“Não posso governar com tantas dúvidas. Fazer preparativos ou deixar como está? Fazer preparativos para a guerra, que por enquanto é apenas suspeitada: treinar artesãos e lavradores em meio à paz para derramamento de sangue e batalha; pôr o ferro nas mãos de capitães cobiçosos que amam somente a conquista, e contam os mortos como sua glória? Dirão a Eru: Ao menos seus inimigos estavam entre eles? Ou cruzar as mãos enquanto os amigos morrem injustamente: permitir que os homens vivam numa paz cega, até que o invasor esteja diante do portão? Então o que farão: enfrentarão as armas com as mãos nuas e morrerão por nada, ou fugirão deixando atrás de si os gritos das mulheres? Dirão a Eru: Ao menos não derramei sangue?”
“Quando ambos os caminhos podem conduzir ao mal, de que vale a escolha? Que os Valar governem sob Eru! Renunciarei ao Cetro em favor de Aldarion. Porém também isso é uma escolha, pois bem sei qual caminho tomará. A não ser que Erendis...”
Então o pensamento de Meneldur voltou-se, inquieto, para Erendis em Emerie.
— Mas lá há pouca esperança (se é que pode ser chamada esperança). Ele não se curvará em assuntos tão graves. Conheço a escolha de Erendis, mesmo que ela se dispusesse a escutar o bastante para compreender. Pois seu coração não tem asas além de Númenor, e ela não imagina o custo. Se sua escolha a levasse à morte no seu próprio tempo, ela morreria com bravura. Mas o que fará com a vida, e com outras vontades? Os próprios Valar, assim como eu, terão de esperar para descobrir.
Aldarion retornou a Rómenna no quarto dia depois que Hirilonde voltara ao porto. Estava sujo da viagem e exausto, e foi imediatamente até Eambar, a bordo do qual agora pretendia morar. Àquela altura, como descobriu para seu amargor, muitas línguas já tagarelavam na Cidade. No dia seguinte, reuniu homens em Rómenna e os levou a Armenelos. Lá mandou alguns derrubarem todas as árvores, salvo uma, em seu jardim, e levarem-nas aos estaleiros; outros mandou arrasarem sua casa. Apenas poupou a branca árvore élfica; e, quando os lenhadores haviam partido, olhou para ela. De pé em meio à desolação, e viu pela primeira vez que era bela por si só. No seu lento crescimento élfico, ainda se erguia somente a doze pés, reta, esguia, jovem, agora carregada de botões das suas flores de inverno em ramos levantados que apontavam o céu. Lembrava-lhe sua filha, e ele disse:
— Chamá-la-ei também de Ancalime. Que você e ela assim se ergam em vida longa, sem se dobrarem diante do vento nem da vontade, e sem serem podadas!
No terceiro dia depois de retornar de Emerie, Aldarion foi ter com o Rei. Tar-Meneldur permanecia imóvel em sua cadeira e esperava. Contemplando o filho, sentiu medo; pois Aldarion mudara: seu rosto se tornara cinzento, frio e hostil, como o mar quando o sol é subitamente envolvido por nuvens opacas. Em pé diante do pai, falou lentamente em tom de desprezo, e não de ira.
— Você mesmo sabe melhor do que ninguém o papel que desempenhou neste caso — disse. — Mas um Rei deveria levar em consideração quanto um homem suporta, por muito que seja súdito, até mesmo seu filho. Se pretendia agrilhoar-me a esta Ilha, então escolheu mal sua corrente. Agora não me resta ne m esposa, nem amor por esta terra. Partirei desta mal-encantada ilha de ilusões onde as mulheres, em sua insolência, querem fazer com que os homens se encolham. Usarei meus dias para alguma finalidade em outro lugar, onde não sou desdenhado e recebido com mais honras. Poderá encontrar outro Herdeiro mais adequado ao papel de criado doméstico. Da minha herança exijo apenas isto: o navio Hirilonde e tantos homens quantos ele comportar. Também levaria minha filha, se fosse mais velha: mas vou confiá-la à minha mãe. A não ser que tenha um fraco por carneiros, você não o impedirá, e não permitirá que a criança tenha seu desenvolvimento prejudicado, criada entre mulheres mudas em fria insolência e desprezo por sua família.
Ela pertence à Linhagem de Elros, e você não terá outro descendente através de seu filho. Terminei. Agora vou tratar de negócios mais lucrativos. Até esse ponto Meneldur permanecera sentado paciente, de olhos baixos, e não fizera nenhum sinal. Mas então suspirou e ergueu os olhos.
— Aldarion, meu filho — disse com tristeza — o Rei diria que também você demonstra fria insolência e desprezo por sua família, e que você próprio condena os outros sem ouvilos; mas seu pai, que o ama e se aflige por você, perdoará isso. Não é apenas culpa minha que até agora eu não tenha entendido seus propósitos. Mas quanto ao que você sofreu (assunto sobre o qual gente demais agora está falando), não tenho culpa. Amei Erendis e, como nossos corações têm inclinação semelhante, pensei que ela teve muitas dificuldades para suportar. Agora seus propósitos, meu filho, tornaram-se claros para mim, embora, caso você esteja disposto a ouvir algo diverso de elogios, eu diria que inicialmente também seu próprio prazer o conduziu. E pode ser que as coisas tivessem tomado outro rumo se você tivesse falado com maior franqueza muito tempo atrás.
— O Rei pode ter aí algum agravo — exclamou Aldarion, agora com mais veemência — mas não aquela da qual você fala! Com ela, pelo menos, falei longa e frequentemente: a ouvidos frios e incompreensivos. Do mesmo modo um menino gazeteiro falaria de subir em árvores a uma ama que só se preocupasse com roupas rasgadas e o horário certo das refeições! Eu a amo, ou haveria de me importar menos. Manterei o passado em meu coração; o futuro está morto. Ela não me ama, nem a nada mais. Ela ama a si mesma, com Númenor por pano de fundo, e a mim como a um cão manso que cochila perto do fogão até que ela decida caminhar nos seus próprios campos. Mas, como os cães agora parecem demasiado vulgares, ela quer ter Ancalime para piar numa gaiola. Mas basta disto. Tenho permissão do Rei para partir? Ou ele tem algum comando?
— O Rei — respondeu Tar-Meneldur — muito pensou sobre esses assuntos, no que parecem ser os longos dias desde que você esteve em Armenelos pela última vez. Ele leu a carta de Gil-galad, que tem um tom sincero e grave. Infelizmente, ao pedido dele e aos seus desejos o Rei de Númenor tem de dizer não. Ele não pode fazer outra coisa, de acordo com sua compreensão dos riscos de um e outro caminho: preparar-se para a guerra, ou não se preparar.
Aldarion deu de ombros e deu um passo, como se fosse partir. Mas Meneldur ergueu a mão, exigindo atenção, e prosseguiu:
— No entanto, o Rei, apesar de agora ter governado a terra de Númenor por cento e quarenta e dois anos, não tem certeza de que sua compreensão do assunto seja suficiente para uma decisão justa em casos de tão grande importância e risco. — Fez uma pausa, e tomando um pergaminho escrito de próprio punho, leu-o com voz clara:

Portanto: primeiramente pela honra de seu filho bem-amado; e em segundo lugar para a melhor direção do reino em cursos que seu filho compreende com maior clareza, o Rei resolveu: que renunciará imediatamente ao Cetro em favor de seu filho, que há de tornar-se agora Tar-Aldarion, o Rei.

— Isto — disse Meneldur —, quando for proclamado, tornará conhecido de todos meu pensamento acerca da presente situação. Vai elevá-lo acima do desdém; e libertará seus poderes de forma que outras perdas pareçam mais fáceis de suportar. A carta de Gilgalad, você, quando for Rei, há de respondê-la como achar mais conveniente ao detentor do Cetro. — Aldarion ficou imóvel por um momento, estupefato. Preparara-se para enfrentar a ira do Rei que ele voluntariamente se dispusera a inflamar. Agora via-se desconcertado. Então, como alguém que é arrebatado por um vento súbito de direção inesperada, caiu de joelhos diante do pai; porém um momento depois ergueu a cabeça que inclinara e riu  — sempre fazia assim quando ouvia falar de algum ato de grande generosidade, pois isso lhe alegrava o coração.
— Pai — disse —, peça ao Rei que esqueça minha insolência diante dele. Pois ele é um grande Rei, e sua humildade o coloca muito acima de meu orgulho. Estou dominado: submeto-me totalmente. É inconcebível que um tal Rei haja de renunciar ao Cetro enquanto goza de vigor e sabedoria.
— No entanto, assim está resolvido — disse Meneldur. — O Conselho há de ser convocado imediatamente.
Quando o Conselho se reuniu, depois de passados sete dias, Tar-Meneldur deu-lhes a conhecer sua resolução, e pôs diante deles o rolo. Todos se espantaram então, sem saber ainda quais eram os cursos de que o Rei falava; e todos objetaram, pedindo-lhe que postergasse sua decisão, exceto Hallatan de Hyarastorni. Pois ele havia muito tinha em estima seu parente Aldarion, embora sua própria vida e preferências fossem bem diversas; e julgou que o ato do Rei era nobre e calculado com astúcia, já que tinha de ser.
Mas aos demais, que propunham isto ou aquilo contra sua resolução, Meneldur respondeu: — Não foi sem pensar que cheguei a esta resolução, e em meu pensamento considerei todas as razões que vocês sabiamente apresentam. É agora e não mais tarde a hora mais adequada para que se publique minha vontade, por motivos que todos devem imaginar, apesar de nenhum dos presentes tê-los pronunciado. Portanto, que este decreto seja proclamado imediatamente. Mas, se quiserem, ele não há cie ter efeito até o tempo do Erukyerme na primavera. Até lá, deterei o Cetro.
Quando chegaram notícias a Emerie sobre a proclamação do decreto, Erendis ficou consternada; pois lia nele uma repreensão vinda do Rei em cujo favor confiara. Percebiam corretamente, mas não imaginava que houvesse por trás algo de maior importância.
Logo depois chegou uma mensagem de Tar-Meneldur, um comando na verdade, apesar de expresso de modo elegante. Ela era convidada a vir a Armenelos e trazer consigo a senhora Ancalime, para que lá morassem pelo menos até o Erukyerme e a proclamação do novo Rei.
— É rápido no golpe — pensou ela. — Eu devia tê-lo previsto. Vai despojar-me de tudo. Mas a mim não há de comandar, por muito que seja, através da boca de seu pai.
Portanto respondeu a Tar-Meneldur:
— Rei e pai, minha filha Ancalime deve ir de fato, já que você o ordena. Peço que considere sua idade, e cuide para que ela seja alojada com tranquilidade. Quanto a mim, peço que me desculpe. Ouvi dizer que minha casa em Armenelos foi destruída; e neste momento não apreciaria ser hóspede, especialmente num navio-residência entre marinheiros. Permita-me pois permanecer aqui em minha solidão, a não ser que seja vontade do Rei retomar também esta casa. Tar-Meneldur leu esta carta com preocupação, mas ela errou o alvo em seu coração.
Mostrou-a a Aldarion, a quem parecia dirigida mormente.  Então Aldarion leu a carta; e o Rei, contemplando o rosto do filho, disse:
— Sem dúvida você está aflito. Porém o que mais esperava?
— Não isso pelo menos — disse Aldarion. — Está muito abaixo da esperança que depositava nela. Ela minguou; e, se provoquei isto, então é negra minha culpa. Mas os grandes diminuem na adversidade? Não era esta a maneira, nem mesmo por ódio ou vingança! Ela devia ter exigido que lhe fosse preparada uma grande casa, solicitado uma escolta de Rainha e voltado a Armenelos com sua beleza adornada, regiamente, com a estrela em sua fronte. Poderia então ter enfeitiçado quase toda a Ilha de Númenor em seu favor, e ter-me feito parecer um louco e um grosseirão. Que os Valar sejam minhas testemunhas, eu preferiria que fosse assim: antes uma bela Rainha para me frustrar e escarnecer de mim do que a liberdade de governar enquanto a Senhora Elestirne recai, obscura, em seu próprio crepúsculo.
Então, com um riso amargo, devolveu a carta ao Rei.
— Bem, assim é — disse. — Mas se a uma pessoa desagrada morar num navio entre marinheiros, a outra pode-se desculpar a ojeriza por uma fazenda de carneiros entre criadas. Mas não permitirei que minha filha seja educada assim. Ao menos ela há de escolher com conhecimento. — Ergueu-se e pediu licença para partir.


O desenrolar posterior da narrativa

A partir do ponto em que Aldarion leu a carta em que Erendis se recusava a voltar a Armenelos, a história só pode ser acompanhada em vislumbres e pedaços, de notas e rascunhos: e até mesmo estes não constituem fragmentos de uma história totalmente consistente, visto que foram compostos em épocas diferentes e que frequentemente se contradizem.

Parece que, quando se tornou Rei de Númenor no ano de 883, Aldarion decidiu revisitar a Terra Média imediatamente, e partiu para Mithlond no mesm ano ou no seguinte. Está registrado que não colocou na proa de Hirilonde nenhum ramo de oiolaire, e sim a imagem de uma águia de bico dourado e olhos feitos de pedras preciosas, que era presente de Círdan.

Lá estava pousada, pela arte de quem a fizera, como que pronta a voar certeira até uma meta distante que divisara.
— Este sinal há de nos conduzir ao nosso alvo — disse ele. — Da nossa volta que cuidem os Valar, se nossos atos não lhes desagradarem. Também está dito que “agora não restam relatos das viagens posteriores que Aldarion fez”, mas que “sabe-se que foi longe por terra assim como por mar, e subiu o Rio Gwathló até Tharbad, onde se encontrou com Galadriel”. Não há menção desse encontro em outra parte; mas naquela época Galadriel e Celeborn habitavam em Eregion, não muito longe de Tharbad.

Mas todos os esforços de Aldarion foram anulados. As obras que reiniciou em Vinyalonde nunca foram completadas, e o mar as corroeu. No entanto, estabeleceu as bases para o empreendimento de Tar-Minastir muitos anos após, na primeira guerra contra Sauron, e não fosse por suas obras, as frotas de Númenor não poderiam ter trazido seu poderio a tempo ao lugar certo — como ele previa. A hostilidade já crescia, e homens obscuros vindos das montanhas forçavam entrada em Enedwaith. Mas, no tempo de Aldarion, os númenorianos ainda não desejavam mais espaço, e seus Aventureiros continuaram sendo um grupo pequeno, admirado mas pouco imitado.

Não há menção de nenhuma evolução posterior da aliança com Gil-galad, ou do envio do auxílio que ele pedira na carta a Tar-Meneldur. Na verdade, está dito que

Aldarion chegou tarde demais, ou cedo demais. Tarde demais: pois o poder que odiava Númenor já despertara. Cedo demais: pois ainda não era hora de Númenor mostrar seu poderio ou retornar à batalha pelo mundo.


Houve uma comoção em Númenor quando Aldarion resolveu voltar à Terra Média em 883 ou 884, pois nenhum Rei jamais deixara a Ilha antes, e o Conselho não tinha precedente. Parece que a regência foi oferecida a Meneldur, que a recusou, e que Hallatan de Hyarastorni se tornou regente, quer nomeado pelo Conselho, quer pelo próprio Tar-Aldarion.
Da história de Ancalime durante os anos de seu crescimento não há forma certa. Há menos dúvidas acerca do seu caráter um tanto ambíguo, e da influência que a mãe exercia sobre ela. Era menos rígida que Erendis, e por natureza apreciava ostentação, joias, música, admiração e deferência. No entanto, apreciava-as quando tinha vontade e não ininterruptamente, e fazia da mãe e da casa branca em Emerie uma desculpa para escapar. Aprovava, por assim dizer, tanto o tratamento de Aldarion por Erendis quando aquele retornou tarde, como também a ira de Aldarion, sua impenitência e sua subsequente rejeição implacável a Erendis, que a excluiu de seu coração e de sua consideração. Desagradava profundamente a Ancalime o casamento obrigatório, e no casamento lhe desagradava qualquer restrição da sua vontade. Sua mãe falara incessantemente contra os homens, e de fato está preservado um notável exemplo dos ensinamentos de Erendis a esse respeito:

Os homens de Númenor são meios-elfos (disse Erendis), em especial os nobres; não são nem uma coisa nem outra. A vida longa que lhes foi concedida engana-os, e brincam no mundo, crianças na mente, até que a velhice os encontre — e então muitos só abandonam o jogo ao ar livre pelo jogo em suas casas. Transformaram sua brincadeira em assuntos importantes e assuntos importantes em brincadeira. Gostariam de ser artesãos, mestres das tradições e heróis, tudo ao mesmo tempo; e as mulheres são para eles apenas chamas na lareira — para outros cuidarem até que eles se cansem de brincar, à tardinha.
Todas as coisas foram feitas para servi-los: as colinas são para pedreiras, os rios para fornecer água ou girar rodas, as árvores para tábuas, as mulheres para a necessidade de seu corpo ou, se forem belas, para adornar sua mesa e seu lar; e crianças para serem provocadas quando não há mais nada para fazer — mas brincariam da mesma forma com as crias dos seus cães. São corteses e bondosos com todos, joviais como cotovias pela manhã (se brilhar o sol), pois nunca se encolerizam se puderem evitá-lo. Os homens devem ser alegres, afirmam, generosos como os ricos, dando o que não necessitam. Mostram ira somente quando se dão conta, de repente, de que existem outras vontades no mundo além da sua. Então são implacáveis como o vento do mar se qualquer coisa ousar se opor a eles.
Assim é, Ancalime, e não podemos alterar isso. Pois os homens formaram Númenor: os homens, esses heróis de outrora dos quais eles cantam — de suas mulheres ouvimos falar menos, exceto que choravam quando seus homens eram mortos. Númenor devia ser um repouso após a guerra. Mas, quando se cansam do repouso e dos jogos da paz, logo voltam ao seu grande jogo, assassinato e guerra. Assim é; e fomos postas aqui entre eles. Mas não temos de consentir. Se também nós amamos Númenor, vamos desfrutá-la antes que eles a arruinem. Também nós somos filhas dos grandes, e temos nossas próprias vontades e coragem. Portanto não se curve. Ancalime. Curve-se um pouco uma vez, e eles a curvarão mais até que você esteja inclinada até o chão. Deite suas raízes na rocha, e enfrente o vento, por muito que ele leve todas as suas folhas.

Além disso, e com influência mais forte, Erendis acostumara Ancalime à companhia de mulheres: a vida fresca, tranquila, suave em Emerie, sem interrupções ou alarmes. Os meninos, como Îbal, gritavam. Os homens vinham cavalgando, tocando trompas em horas estranhas, e eram alimentados com grande barulho. Geravam filhos e os deixavam aos cuidados das mulheres quando davam trabalho. E. embora o parto tivesse menos males e perigos, Númenor não era um “paraíso terrestre”, e a exaustão do trabalho ou de todo o fazer não fora removida.
Ancalime, assim como o pai, era resoluta na consecução de suas políticas; e, assim como ele, era obstinada, tomando o caminho oposto a qualquer um que lhe aconselhasse. Tinha um pouco da frieza e do sentido de ofensa pessoal da mãe; e no fundo de seu coração, quase, mas não totalmente esquecida, estava a firmeza com que Aldarion soltara sua mão e a pusera no chão quando ele estava com pressa de partir. Amava apaixonadamente as colinas de seu lar, e (como dizia) nunca em sua vida conseguia dormir tranquila longe do som dos carneiros. Mas não recusou o título de Herdeira, e determinou que, quando chegasse seu dia, seria uma poderosa Rainha Governante: e, quando assim fosse, viveria onde e como lhe agradasse.
Parece que, por durante uns dezoito anos depois de tornar-se Rei, Aldarion frequentemente deixava Númenor; e durante esse tempo Ancalime passava os dias tanto em Emerie quanto em Armenelos, pois a Rainha Almarian muito se afeiçoou a ela e lhe fazia as vontades como fizera as vontades de Aldarion em sua juventude. Em Armenelos todos, e Aldarion não menos, a tratavam com deferência; e apesar de ela inicialmente se sentir pouco à vontade, sentindo falta dos amplos ares de seu lar, acabou por não se sentir mais embaraçada, e se deu conta de que os homens contemplavam maravilhados a sua beleza, que agora alcançara a plenitude. À medida que amadurecia, tornava-se cada vez mais voluntariosa e considerava irritante a companhia de Erendis, que se comportava como viúva e não queria ser Rainha. Continuava, porém, a retornar a Emerie, tanto para refugiar-se de Armenelos quanto por desejar com isso aborrecer Aldarion. Era esperta e maliciosa, e via a possibilidade de se divertir no papel do troféu pelo qual competiam sua mãe e seu pai.
No ano de 892, pois, quando Ancalime tinha dezenove anos de idade, foi proclamada Herdeira do Rei (em idade muito mais precoce do que ocorrera antes, e naquela época, Tar-Aldarion fez com que fosse alterada a lei da sucessão em Númenor). Está dito especificamente que Tar-Aldarion agiu assim “por motivos de consideração particular, mais que por política”, e movido por “sua antiga resolução de derrotar Erendis”'. A mudança da lei está mencionada no Senhor dos Anéis, Apêndice A, I, i:

O sexto rei [Tar-Aldarion] deixou apenas um descendente, uma filha. Ela tornouse a primeira rainha [isto é, Rainha Governante]; pois foi nessa época que se promulgou uma lei da casa real, segundo a qual o descendente mais velho do rei, fosse ele homem ou mulher, deveria assumir o trono.

Mas em outro lugar a nova lei é formulada de outra maneira. O relato mais completo e claro afirma primeiro que a “antiga lei”, como se chamou depois disso, não era de fato uma “lei” númenoriana, e sim um costume herdado que as circunstâncias ainda não haviam questionado; e de acordo com esse costume o filho mais velho do Governante herdava o Cetro. Entendia-se que, caso não houvesse filho, o parente homem mais próximo descendente de Elros Tar-Minyatur pela linha masculina seria o Herdeiro.
Assim, se Tar-Meneldur não tivesse tido filho, o Herdeiro não teria sido seu sobrinho Valandil (filho de sua irmã Silmarien), mas sim seu primo Malantur (neto de Ea-rendur, irmão mais novo de Tar-Elendil). Mas pela “nova lei” a filha (mais velha) do Governante herdava o Cetro, caso ele não tivesse filho (o que está, evidentemente, em contradição com o que se diz no Senhor dos Anéis). Por sugestão do Conselho acrescentou-se que ela teria a liberdade de recusar. Em tal caso, de acordo com a “nova lei”, o herdeiro do Governante era o parente homem mais próximo, fosse pela linha masculina, fosse pela feminina. Assim, se Ancalime tivesse recusado o Cetro, o herdeiro de Tar-Aldarion teria sido Soronto, filho de sua irmã Ailinel; e, se Ancalime tivesse renunciado ao Cetro ou morrido sem filhos, Soronto da mesma forma teria sido seu herdeiro.
Também foi estabelecido, por insistência do Conselho, que uma herdeira teria de renunciar se permanecesse solteira além de determinada idade; e a essas provisões Tar-Aldarion acrescentou que o Herdeiro do Rei não deveria se casar, a não ser na Linhagem de Elros, e que todos os que fizessem o contrário deixariam de ser elegíveis à posição de Herdeiro. Diz-se que essa estipulação decorreu diretamente do casamento desastroso de Aldarion com Erendis, e de suas reflexões a respeito; pois Erendis, não sendo da Linhagem de Elros, tinha um tempo de vida mais reduzido, e Aldarion cria que nisso residia a raiz de todos os seus aborrecimentos.
Inquestionavelmente essas provisões da “nova lei” foram registradas em tanto detalhe porque teriam influência significativa na história posterior desses reinados; mas infelizmente muito pouco pode-se agora dizer sobre isso.
Em alguma ocasião posterior Tar-Aldarion revogou a lei de que uma Rainha Governante teria de se casar ou então renunciar (e isso certamente foi devido à relutância de Ancalime de enfrentar qualquer das duas alternativas), mas o casamento do Herdeiro com outro membro da Linhagem de Elros continuou sendo o costume desde então.
Seja como for. logo começaram a surgir em Emerie pretendentes à mão de Ancalime, e não somente por causa da mudança em sua posição, pois a fama de sua beleza, sua altivez e seu desdém, bem como da estranheza de sua criação correra o país.
Naquela época o povo começou a se referir a ela como Emerwen Aranel, a Princesa Pastora. Para escapar dos importou-nos, Ancalime, auxiliada pela velha Zamîn, escondeu-se em uma fazenda na fronteira das terras de Hallatan de Hyarastorni, onde viveu por certo tempo uma vida de pastora. Os relatos (que na verdade nada mais são do que anotações apressadas) variam no modo como seus pais reagiram a este estado de coisas.
De acordo com um desses relatos, a própria Erendis sabia onde Ancalime estava, e aprovava o motivo de sua fuga, enquanto Aldarion impediu que o Conselho a procurasse, pois concordava que sua filha agisse assim de forma independente. De acordo com outro, no entanto, Erendis perturbou-se com a fuga de Ancalime, e o Rei ficou furioso; e nessa época Erendis tentou uma reconciliação com ele, ao menos no que dizia respeito a Ancalime. Mas Aldarion não se comoveu, declarando que o Rei não tinha esposa, mas que tinha uma filha e herdeira, e que não cria que Erendis ignorasse seu esconderijo.
O que é certo é que Ancalime encontrou um pastor que cuidava dos rebanhos na mesma região; e a ela esse homem disse que se chamava Mámandil. Ancalime estava totalmente desacostumada a companhias como a dele, e se deleitava quando ele cantava, o que fazia com habilidade. Cantava-lhe canções que vinham de dias longínquos, quando os edain pastoreavam seus rebanhos em Eriador, muito tempo atrás, ainda antes de conhecerem os eldar. Assim se encontravam nas pastagens muitas e muitas vezes, e ele alterava as canções dos amantes de outrora e incluía nelas os nomes de Emerwen e Mámandil; e Ancalimé fingia que não compreendia a tendência das palavras. Mas ele acabou declarando abertamente seu amor por ela, e ela se retraiu e o rechaçou, dizendo que o destino dela se interpunha entre eles, pois era Herdeira do Rei. Mas Mámandil não se perturbou, e riu. Contou-lhe então que seu nome verdadeiro era Hallacar, filho de Hallatan de Hyarastorni, da linhagem de Elros Tar-Minyatur.
— E de que outro modo algum pretendente poderia encontrá-la? — perguntou ele. Então Ancalime irritou-se, porque ele a enganara, sabendo desde o início quem era ela.
— Isso é verdade em parte — respondeu ele. — De fato tramei para encontrar a Senhora cujos modos eram tão estranhos que fiquei curioso para vê-la mais. Mas então apaixonei-me por Emerwen, e não me importa quem ela possa ser. Não pense que eu cobice sua alta posição; pois muito preferiria que você fosse apenas Emerwen. Alegro-me somente com o fato de que também sou da Linhagem de Elros, porque do contrário creio que não poderíamos nos casar.
— Poderíamos — disse Ancalime — se eu tivesse alguma pretensão a tal estado. Eu poderia renunciar à minha realeza e ser livre. Mas, se assim fizesse, haveria de ser livre para casar-me com quem quisesse; e esse seria Úner (que é “Homem Nenhum”), a quem prefiro acima de todos os demais.


No entanto, foi com Hallacar que Ancalime acabou se casando. De acordo com uma versão parece que a persistência de Hallacar em sua corte, a despeito de ela rejeitá-lo, e a insistência do Conselho para que ela escolhesse um marido pela tranquilidade do reino, conduziram ao seu casamento, não muitos anos após seu primeiro encontro entre os rebanhos em Emerié. No entanto, em outro lugar diz-se que ela permaneceu solteira por tanto tempo que seu primo Soronto, confiando na provisão da nova lei, insistiu com ela para que entregasse a posição de Herdeira, e que ela então se casou com Hallacar para contrariar Soronto. Em mais outra breve nota está implícito que ela se casou com Hallacar depois que Aldarion revogou a provisão, para acabar com a esperança que Soronto tinha de se tornar Rei caso Ancalime morresse sem filhos.
Seja como for, está clara a história de que Ancalime não desejava amor, nem queria ter um filho; e dizia:
— Tenho de me tornar como a Rainha Almarian, e ser louca por ele? — Sua vida com Hallacar foi infeliz, e ela encarava com má vontade a ligação de seu filho, Anárion, com o pai, e houve discórdia entre eles desde então. Ela tentou sujeita-lo, afirmando ser a proprietária das terras dele, e proibindo-lhe morar nelas, pois, conforme dizia, não queria ter por marido um administrador de fazenda. Vem dessa época a última história registrada sobre esses fatos infelizes. Pois Ancalime não queria permitir que nenhuma de suas mulheres se casasse; e, apesar de a maioria se conter por temor a ela, elas provinham da região em volta e tinham amantes com quem queriam se casar.
Mas Hallacar em segredo providenciou para que elas se casassem; e declarou que faria um último banquete em sua própria casa antes de abandoná-la. Convidou Ancalime para esse banquete, dizendo que era a casa de sua família, e deveria receber uma despedida de cortesia.
Ancalime foi, acompanhada por todas as suas mulheres, pois não apreciava ser servida por homens. Encontrou a casa toda iluminada e enfeitada como para um grande banquete; os homens da casa, adornados de grinaldas como se fossem casar-se, e cada um deles com outra grinalda nas mãos, para a noiva.
— Venham! — disse Hallacar. — Os casamentos estão preparados, e os aposentos nupciais estão prontos. Mas, como não se pode pensar que pediríamos à Senhora Ancalime, Herdeira do Rei, para se deitar com um administrador de fazenda, então, infelizmente! Ela terá de dormir sozinha esta noite. — E Ancalime foi obrigada a lá permanecer, pois era muito longe para voltar a cavalo, e nem queria ela partir desassistida. Nem os homens nem as mulheres esconderam seus sorrisos; e Ancalime não quis participar do banquete, mas ficou deitada na cama ouvindo os risos ao longe, pensando que eram destinados a ela. No dia seguinte partiu a cavalo, em fúria gélida, e Hallacar enviou três homens para escoltá-la. Assim ele se vingou, pois Ancalime jamais retornou a Emerie, onde os próprios carneiros pareciam fazer pouco dela. Mas perseguiu Hallacar com ódio daí em diante.
Dos últimos anos de Tar-Aldarion nada se pode dizer agora, exceto que ele parece ter continuado suas viagens à Terra Média e que mais de uma vez deixou Ancalime como sua regente. Sua última viagem ocorreu por volta do fim do primeiro milênio da Segunda Era; e no ano de 1075 Ancalime tornou-se a primeira Rainha Governante de Númenor. Conta-se que, após a morte de Tar-Aldarion em 1098, Tar-Ancalime negligenciou todas as políticas de seu pai e não prestou mais auxílio a Gilgalad em Lindon. Seu filho, Anárion, que mais tarde foi o oitavo Governante de Númenor, teve primeiro duas filhas.
Não gostavam da Rainha, e a temiam. Recusaram a posição de Herdeiras, permanecendo solteiras, já que a Rainha por vingança não lhes permitia que se casassem. Súrion, filho de Anárion, nasceu por último, e foi o nono Governante de Númenor.
De Erendis está dito que, quando a velhice se abateu sobre ela, negligenciada por Ancalime e em amarga solidão, ela voltou a ansiar por Aldarion; e, sabendo que ele partira de Númenor naquela que acabaria sendo sua última viagem, mas que se esperava que ele logo retornasse, ela por fim deixou Emerie e viajou incógnita e desconhecida até o porto de Rómenna. Lá parece que encontrou seu destino; mas somente as palavras “Erendis pereceu na água no ano de 985” permanecem para indicar como isso ocorreu.

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