28 de junho de 2016

Capítulo 8

Um cavaleiro vestido de cinza estava encolhido tristemente dentro de sua capa, enquanto cavalgava lentamente pela chuva fina que cobria os campos. Os cascos de seus dois cavalos, um de montaria, outro de carga, batiam ruidosamente na terra cheia de poças de água que tinham se formado nas ondulações da estrada.
Quando chegou ao alto de uma colina, as torres e espiras do Castelo Araluen se levantavam para o céu cinzento atrás dele. Mas Halt não se voltou para ver a vista magnífica. Seu olhar estava voltado para a frente. Ele ouviu os dois cavaleiros seguindo-o muito antes de o alcançarem. As orelhas de Abelard se agitaram ao ouvir os cascos batendo com força no chão, e Halt soube que seu pequeno cavalo havia reconhecido os outros dois como cavalos de arqueiros. Mesmo assim, não olhou para trás, pois sabia quem eram os dois cavaleiros e também por que estavam vindo. Ele sentiu uma leve pontada de desapontamento. Ele tinha esperado que, na confusão e tristeza causadas por sua expulsão, Crowley tivesse esquecido o pequeno detalhe ao qual Halt agora teria que se submeter.
Suspirando e aceitando o inevitável, ele tocou as rédeas de Abelard de leve. O altamente treinado cavalo de arqueiro reagiu de imediato e parou. Atrás dele, o cavalo de carga fez o mesmo. As batidas dos cascos se aproximaram, e ele permaneceu sentado, olhando para a frente sem interesse, quando Crowley e Gilan pararam ao seu lado.
Os quatro cavalos se cumprimentaram cutucando-se com delicadeza, enquanto os três homens foram um pouco mais discretos. Um silêncio desagradável se fez entre eles, finalmente quebrado por Crowley.
— Bem, Halt, você foi embora cedo. Tivemos que cavalgar com vontade para alcançar você — ele disse, lutando para mostrar um entusiasmo falso que disfarçasse sua tristeza diante do rumo que os acontecimentos tinham tomado.
Halt olhou com indiferença para os dois outros cavalos. O ar frio e úmido fazia a respiração deles se transformar lentamente em vapor.
— Deu pra ver — ele respondeu com calma, tentando ignorar a angústia no rosto jovem de Gilan.
Ele sabia que seu antigo aprendiz estava sofrendo profundamente por causa de suas atitudes inexplicáveis e endureceu o coração para não ver a tristeza do jovem arqueiro.
Então Crowley também deixou de mostrar entusiasmo e seu rosto ficou sério e preocupado.
— Halt, há uma coisa que talvez você tenha esquecido. Desculpe por insistir, mas... — ele hesitou.
Halt tentou pôr um fim naquela conversa com uma expressão de surpresa no rosto.
— Tenho 48 horas para deixar o reino — ele retrucou. — A contagem de tempo começou nesta manhã. Vou passar a fronteira antes disso. Não há necessidade de vocês me acompanharem.
Crowley balançou a cabeça. Com o canto dos olhos, Halt viu Gilan desviar a atenção para a estrada. Aquela situação estava causando sofrimento a todos. Ele sabia por que Crowley tinha vindo. Procurou a corrente de prata pendurada em seu pescoço, escondida pela capa.
— Eu esperava que você esquecesse — ele disse, tentando aparentar indiferença, mas um nó em sua garganta o impediu.
Crowley sacudiu a cabeça com tristeza.
— Você sabe que não pode ficar com a Folha de Carvalho, Halt. Como uma pessoa banida, você também está automaticamente expulso do Corpo de Arqueiros.
Halt assentiu. Ele sentiu as lágrimas queimarem em seus olhos quando abriu a corrente e entregou o pequeno amuleto de prata para o comandante dos arqueiros. O metal ainda estava morno do contato com seu corpo. Sua vista ficou embaçada quando a viu enrolada na palma da mão de Crowley. “Um pedaço de metal tão pequeno”, pensou, “e mesmo assim com um significado tão importante para mim.” Durante a maior parte de sua vida, tinha usado a Folha de Carvalho com o enorme orgulho que todos os arqueiros sentiam. E, agora, ela não pertencia mais a ele.
— Sinto muito, Halt — Crowley murmurou com tristeza.
Halt sacudiu o ombro.
— Essa é uma questão de pouca importância — replicou.
Outro silêncio caiu entre eles. O olhar de Crowley encontrou o dele e tentou atravessar o véu atrás do qual Halt tentava se esconder. Um véu de aceitação da situação, indiferente e insensível. Aquilo não passava de fingimento, mas era muito bem disfarçado. Finalmente, o comandante se inclinou na sela e apertou o braço de Halt com força.
— Por que, Halt? Por que fez isso? — ele perguntou com veemência e recebeu apenas um furioso sacudir de ombros como resposta.
— Como eu disse — Halt ajuntou — foi conhaque demais. Você sabe que nunca aguentei muita bebida, Crowley.
Halt até conseguiu esboçar um sorriso. Ele sentiu a face empalidecer como se a morte estivesse sorrindo para ele. Crowley soltou seu braço, endireitou o corpo na sela e balançou a cabeça desapontado.
— Felicidades, Halt — ele disse finalmente numa voz trêmula de emoção.
Então, com um movimento brusco incomum, puxou as rédeas, virou a cabeça do cavalo e partiu a galope pela estrada para Araluen.
Halt observou-o se afastar e viu a capa manchada de arqueiro se perder na chuva fina rapidamente. Em seguida, ele se virou para seu antigo aprendiz, sorriu com tristeza, mas dessa vez o sorriso e a tristeza eram verdadeiros.
— Até logo, Gilan. Que bom que você veio se despedir de mim.
Mas o jovem arqueiro balançou a cabeça desafiador.
— Não estou aqui para lhe desejar boa viagem — ele disse com aspereza. — Eu vou com você.
Surpreso, Halt ergueu uma sobrancelha. Essa expressão era tão conhecida de Gilan que o rapaz sentiu o coração se partir quando a viu.
— E ser expulso? — Halt perguntou ao jovem, e Gilan balançou a cabeça novamente.
— Sei o que pretende fazer — ele retrucou e mostrou com um movimento da cabeça o cavalo de carga que estava parado pacientemente atrás de Abelard. — Você está levando Puxão. Vai atrás de Will, não é mesmo?
Por um momento, Halt se viu tentado a negar. Mas os dias de fingimento já estavam sendo insuportáveis. Ele sabia que seria um alívio, pelo menos uma vez, admitir suas razões.
— Tenho que ir, Gilan — ele disse devagar. — Eu prometi a ele. E essa foi a única forma de ser liberado dos meus serviços.
— Sendo expulso? — A voz de Gilan soou incrivelmente alta. — Não lhe passou pela cabeça que Duncan poderia ter mandado executá-lo?
Halt deu de ombros. Mas não foi um gesto de zombaria. Foi apenas um gesto de resignação.
— Não achei que ele fosse fazer isso. Eu tinha que arriscar.
— Bem, expulso ou não, eu vou com você — Gilan afirmou balançando a cabeça com tristeza.
Halt desviou o olhar, respirou fundo e soltou o ar dos pulmões. Tinha que admitir que estava tentado a aceitar. Ele iria enfrentar uma jornada longa, dura e perigosa em que a companhia de Gilan seria bem-vinda, e sua espada poderia ser muito útil. Mas Gilan tinha uma obrigação a cumprir e Halt, já sobrecarregado por ter traído o próprio dever, não podia permitir que o jovem rapaz fizesse o mesmo.
— Gilan, você não pode — ele disse simplesmente.
Gilan inspirou antes de responder e Halt levantou a mão para impedi-lo.
— Olhe, pedi para ser liberado para ir procurar Will e eles me disseram que eu era necessário aqui.
Ele parou e Gilan fez que sim, mostrando que compreendia.
— Bem, acho que não era tão necessário assim. Mas essa é minha opinião e posso estar errado. Essa situação com Foldar é mesmo muito perigosa e é um mal que precisa ser cortado pela raiz. Ele precisa ser perseguido, encontrado e pego numa cilada. E, francamente, não consigo pensar num arqueiro melhor do que você para realizar esse trabalho.
— Depois de você — Gilan ajuntou e Halt reconheceu o fato com uma leve inclinação da cabeça. Ele não estava sendo orgulhoso, era uma avaliação honesta da verdade.
— Pode ser. Mas isso reforça minha opinião. Se nós dois desaparecermos, Crowley vai ter que encontrar outra pessoa para fazer o serviço.
— Não me importo — Gilan retrucou teimoso, torcendo as rédeas nas mãos, formando um pequeno nó e depois as soltando outra vez.
Halt sorriu gentilmente para ele.
— Eu me importo, Gilan. Eu sei como é quebrar a confiança desse jeito. É uma dor profunda e amarga, acredite em mim. E não vou permitir que você passe por isso.
— Mas, Halt — Gilan disse com tristeza, e o homem grisalho e mais baixo pôde sentir que as lágrimas não estavam longe de escorrer de seus olhos. — Fui o responsável por deixar Will. Eu abandonei ele em Céltica! Se tivesse ficado com Will, ele nunca teria sido capturado pelos escandinavos!
— Você não pode se culpar por isso — Halt replicou. — Fez a coisa certa na época. Culpe a mim por recrutar um garoto com a honra e a coragem para agir como ele fez. E por tê-lo treinado de um jeito que nunca deixaria dúvidas de que ele agiria dessa forma.
Ele fez uma pausa para ver se suas palavras estavam tendo algum eleito. Ele sabia que Gilan estava hesitante. Halt acrescentou o toque final.
— Gilan, você não percebe que é por saber que está aqui que posso desertar de meu posto desse jeito? Porque sei que vai me substituir. Mas, se você se recusar a fazer isso, eu também não vou poder ir.
E, quando ouviu isso, Gilan encolheu os ombros submisso e abaixou os olhos.
— Tudo bem, Halt. Mas encontre-o. Encontre-o e traga-o de volta, expulso ou não — ele disse com voz rouca.
Halt sorriu para ele e se inclinou para segurar o ombro de Gilan.
— É só um ano — ele disse. — Vamos estar de volta antes que você perceba. Até logo, Gilan.
— Felicidades, Halt — o arqueiro disse com a voz trêmula.
Sua vista foi obscurecida pelas lágrimas e ele ouviu o bater seco dos cascos dos cavalos na estrada molhada quando Abelard e Puxão se afastaram na direção da costa. O vento atingia o rosto de Halt, enquanto ele cavalgava pelo caminho, e fazia a chuva leve bater em seu corpo. Ela formava pequenas gotas no seu rosto castigado pelo tempo, gotas que rolavam por sua face. Estranhamente, algumas delas tinham gosto de sal.

4 comentários:

  1. Eu sabia que o Halt havia feito tudo isso para ir atrás de Will! Eu sabiaaaaaaa! Amo mais o Halt agora!
    Ass: Bina.

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  2. Quando elen começou a agir como um bobo eu desconfiei.
    Ass: Lua

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  3. Sério que ninguém desconfiou do plano de Halt ? Me surpreende vocês ainda terem dúvidas da burrice necessária dele !!! Halt é um herói !!

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  4. "Estranhamente alhumas dekas tinham gosto de sal" T-T
    Pera ai dexa eu limpa o suor masculo q esta descendo bravamente sobre os meu olhos de homem kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Ass:lana

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