28 de junho de 2016

Capítulo 7

Evanlyn olhava, com irritação cada vez maior, Will completar outra volta na praia, jogar-se no chão e fazer dez rápidas flexões.
Ela não conseguia entender por que ele insistia nesse ridículo programa de exercícios. Se fosse uma simples questão de manter a forma, ela poderia aceitá-lo afinal, não havia quase nada para fazer em Skorghijl, e aquela era uma maneira de se manter ocupado. Mas ela sentia que o motivo era mais sério. Apesar da conversa que tinham tido dias antes, tinha certeza de que Will ainda planejava fugir.
— Teimoso, cabeça-dura — ela resmungou.
“Isso é coisa de menino”, ela pensou. Ele parecia não poder aceitar que ela, uma garota, podia cuidar de tudo e arranjar a volta deles para Araluen. Evanlyn ficou séria. Will não tinha se comportado dessa maneira em Céltica. Quando estavam planejando a destruição da enorme ponte de Morgarath, ele pareceu aceitar as sugestões e ideias dela, e se perguntou por que isso teria mudado.
Enquanto observava, Will andou na areia até a beira da água onde Svengal estava remando o bote de volta à praia. O segundo escandinavo no comando era um exímio pescador. Ele levava o bote para o mar quase todas as manhãs em que o tempo permitia, e os bacalhaus frescos e as percas do mar que pescava nas águas frias e profundas do porto de Skorghijl proporcionavam uma mudança bem-vinda na alimentação composta de carne e peixe salgados e legumes fibrosos.
Com uma pequena ponta de ciúme, Evanlyn observou Will conversar com o escandinavo. Ela não tinha a mesma facilidade para lidar com as pessoas. Ele tinha um comportamento aberto e simpático e, sem dificuldade, iniciava uma conversa com todos os que conhecia. As pessoas pareciam gostar dele instintivamente. Ela, por outro lado, muitas vezes se sentia estranha e pouco à vontade com desconhecidos, e eles pareciam perceber isso. Não ocorria a ela que aquilo pudesse ser resultado de sua criação de princesa. E, como estava com disposição para ficar ressentida com Will naquela manhã, vê-lo ajudar Svengal a puxar o pequeno bote para a praia simplesmente aumentou seu aborrecimento.
Zangada, ela chutou uma pedra na praia, praguejou quando descobriu que era maior e mais firmemente presa na areia do que tinha imaginado e foi mancando até a varanda, de onde Will e seu novo amigo ficariam fora de sua visão.
— A pesca foi boa? — Will perguntou, como todos faziam com um pescador.
Svengal mostrou a pilha de peixes no fundo do bote com a cabeça.
— Peguei uma beleza ali.
Havia um bacalhau grande entre oito ou nove menores, mas ainda de tamanho respeitável. Will concordou impressionado.
— É mesmo uma beleza. Precisa de ajuda para limpar os peixes?
Certamente, ele receberia ordens para limpá-los de qualquer maneira. Ele e Evanlyn recebiam todas as tarefas domésticas, como cozinhar, limpar e arrumar. Mas ele queria conversar com Svengal e, dessa forma, talvez o escandinavo ficasse e conversasse com ele enquanto trabalhava. Will tinha notado que os escandinavos eram grandes tagarelas, principalmente quando alguém estava ocupado.
— Fique à vontade — o grande escandinavo disse tranquilo, jogando uma pequena faca sobre a pilha de peixes.
Ele se sentou no banco do bote enquanto Will tirava os peixes e começava o desagradável trabalho de limpar as escamas e as entranhas. Will sabia que Svengal ficaria e que iria querer levar ele mesmo o enorme bacalhau até a cabana. Pescadores adoravam elogios.
— Svengal — Will começou, concentrado em tirar as escamas de uma perca e fazendo o possível para que a sua voz parecesse casual — por que você não vai pescar na mesma hora todos os dias?
— A maré, garoto — Svengal respondeu. — Gosto de pescar quando a maré está subindo. Ela traz os peixes para o porto, entendeu?
— A maré? O que é isso?
Svengal balançou a cabeça diante da ignorância do garoto de Araluen sobre as coisas da natureza.
— Você não percebeu como a água no porto fica mais alta e depois abaixa durante o dia? — ele indagou. — Isso é a maré. Ela vem e vai, mas a cada dia acontece mais tarde que no dia anterior — ele continuou quando Will assentiu.
— Mas para onde ela vai? — Will perguntou franzindo a testa. — E de onde ela vem, para começar?
Svengal coçou a barba pensativo. Aquela era uma questão com que nunca tinha se preocupado. A maré era um fato simples de sua vida de marinheiro e ele deixava os motivos e consequências para outras pessoas.
— Dizem que é por causa da Grande Baleia Azul — ele afirmou se lembrando da fábula que tinha ouvido quando criança. — Acho que você não sabe o que é uma baleia, certo? — continuou quando viu a expressão interrogativa de Will.
Ele suspirou diante do olhar vazio do menino.
— Uma baleia é um peixe gigantesco.
— Tão grande quanto o bacalhau? — Will indagou, indicando o orgulho da pesca de Svengal.
— Bem maior que isso, garoto. Muito maior — Svengal retrucou rindo verdadeiramente divertido.
— Tão grande quanto uma morsa? — Will continuou.
Havia um grupo dos enormes animais nas pedras na parte sul do ancoradouro e ele tinha ouvido o nome de um dos tripulantes.
— Maior ainda — Svengal contou com um sorriso ainda maior. — Baleias normais são tão grandes quanto casas. Elas são mesmo enormes. Mas a Grande Baleia Azul é totalmente diferente. Ela é tão grande quanto um de seus castelos. Ela respira na água e então a cospe por um buraco que tem no alto da cabeça.
— Entendo — Will disse com cuidado, sentindo que deveria fazer algum comentário.
— Assim, quando ela inspira o ar, a maré desce — Svengal continuou com paciência. — E quando ela o expira...
— Por um buraco no alto da cabeça? — Will repetiu.
Ele começou a limpar o bacalhau. Aquilo tudo parecia fantástico demais: peixes com buracos na cabeça que respiravam água para dentro e para fora. Svengal fez cara feia por causa da interrupção e o tom de dúvida que sentiu na voz de Will.
— Sim. Por um buraco no alto da cabeça. Quando ela faz isso, a maré sobe outra vez. Ela faz isso duas vezes por dia.
— Então, por que ela não faz isso na mesma hora? — Will quis saber, e Svengal se mostrou ainda mais aborrecido.
Para falar a verdade, ele não tinha a menor ideia. A lenda não falava disso.
— Por que ela é uma baleia, menino! E baleias não sabem ver as horas, sabem?
Irritado, ele apanhou os peixes limpos, certificando-se de não esquecer a faca, e saiu pela praia, deixando Will a lavar o sangue e as escamas das mãos.
Erak estava sentado num banco do lado de fora da cabana reservada para refeições quando Svengal se aproximou pela areia.
— Belo bacalhau — ele disse, e Svengal fez um leve gesto de cabeça. — O que foi tudo aquilo? — ele perguntou, fazendo um gesto mm o polegar na direção de Will.
— O quê? Ah, o garoto? Só estávamos falando sobre a Grande Baleia Azul.
Pensativo, Erak esfregou o queixo.
— É mesmo? Como vocês chegaram nesse assunto?
Svengal parou, relembrando a conversa.
— Ele só queria saber sobre a maré, foi isso — o marinheiro contou finalmente.
Ele esperou para ver se Erak tinha mais alguma coisa para dizer, então deu de ombros e entrou.
— Pois agora ele sabe — Erak disse para si mesmo, concluindo que o menino ia precisar ser vigiado.
Nas próximas 4 horas, ele ficou fora da cabana, aparentemente tirando uma soneca ao sol. Mas seus olhos seguiam o aprendiz de arqueiro para todos os lugares. Muitas horas mais tarde, ele viu o garoto jogando pedaços de madeira na água e observando-os sendo levados para o mar pela maré.
— Interessante — o comandante do navio resmungou para si mesmo.
Então ele percebeu que Will estava de pé, espiando a entrada do porto enquanto protegia os olhos com a mão. Erak seguiu a direção do olhar dele e se levantou surpreso.
Fortemente inclinado para um lado, o casco quase todo dentro da água e avançando com um número desigual de remos, um navio entrava com dificuldade na baía.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!