24 de junho de 2016

Capítulo 6

Will leu as palavras escritas no papel e ficou totalmente confuso. Sua primeira reação foi de alívio. Ele não seria condenado a uma vida de trabalho no campo e não seria punido por ter subido ao gabinete do barão. Então, a sensação inicial de alívio deu lugar a uma dúvida repentina e terrível. Além de mitos e superstições, não sabia nada sobre os arqueiros. Ele não sabia nada sobre Halt, além do fato de que o homem sombrio vestido de cinza o deixava nervoso sempre que estava por perto.
Agora, ao que parecia, estava sendo destinado a passar todo o tempo com ele e não tinha certeza de que gostava muito da ideia.
Ele olhou para os dois homens. O barão sorria esperançoso, aparentemente achando que Will devia ficar satisfeito com a ideia. Ele não conseguia ver o rosto de Halt com clareza. O capuz do manto o deixava na sombra.
O sorriso do barão se apagou um pouco, e ele pareceu um tanto confuso com a reação de Will à notícia, ou melhor, com a falta de uma reação visível.
— Bem, o que me diz, Will? — ele perguntou num tom encorajador.
— Obrigado, barão... meu senhor — ele disse hesitante, respirando fundo.
E se a brincadeira que o barão tinha feito antes, sobre o bilhete conter o seu castigo, fosse mais séria do que tinha imaginado? Talvez ser indicado como aprendiz de Halt fosse o pior castigo que ele pudesse receber. Mas o barão não dava essa impressão. Parecia muito satisfeito com a ideia, e Will sabia que ele não era um homem cruel.
O barão soltou um leve suspiro de prazer quando se sentou na poltrona, olhou para o arqueiro e fez um gesto na direção da porta.
— Talvez você possa nos dar alguns minutos a sós, Halt? Eu gostaria de trocar uma palavrinha com Will em particular — ele solicitou.
O arqueiro curvou-se sério.
— Certamente, meu senhor — o arqueiro retrucou com a voz que saía do fundo do capuz.
Ele passou por Will silenciosamente, como sempre, saiu da sala e foi até o corredor. A porta se fechou atrás dele quase sem nenhum barulho e Will estremeceu. Aquele homem era sinistro!
— Sente-se, Will — o barão convidou, indicando uma das poltronas baixas em frente à dele.
Nervoso, Will sentou-se na beirada do móvel como que preparado para fugir. O barão notou a linguagem corporal e suspirou.
— Você não parece muito satisfeito com minha decisão — ele falou parecendo decepcionado.
A reação confundiu Will, pois jamais imaginou que uma figura poderosa como o barão iria se importar com o que um simples protegido pensasse de suas decisões. Ele não soube o que responder e, assim, ficou sentado em silêncio, até que finalmente o barão continuou.
— Você preferiria trabalhar numa fazenda? — perguntou.
Ele não conseguia acreditar que um garoto cheio de entusiasmo e energia como esse iria querer levar uma vida monótona e tranquila como aquela, mas talvez estivesse enganado. Will rapidamente mostrou que não era esse o caso.
— Não, senhor! — ele disse depressa.
— Bem, então teria preferido que eu encontrasse algum castigo pelo que fez? — o barão retrucou com um leve gesto interrogativo das mãos.
Will começou a falar, mas percebeu que suas palavras talvez fossem ofensivas e parou. Com um gesto, o barão pediu que continuasse.
— É que... Não sei bem se não foi isso o que fez, senhor — ele disse.
Então, notando a expressão séria no rosto do barão, se apressou em continuar.
— Não sei muito sobre os arqueiros, senhor. E as pessoas dizem...
Lentamente, ele parou de falar. Era óbvio que o barão tinha grande consideração por Halt, e Will achou que não seria muito educado revelar que as pessoas comuns temiam os arqueiros e pensavam que eles eram feiticeiros. Ele percebeu que o barão acenava com a cabeça, e um olhar de compreensão substituiu a expressão confusa.
— Entendo. As pessoas dizem que eles praticam magia negra, não é mesmo? — ele comentou e Will assentiu sem mesmo perceber que o fazia. — Diga-me, Will, você acha Halt uma pessoa assustadora?
— Não, senhor! — Will respondeu depressa e então, quando o barão o olhou com firmeza, acrescentou relutante: — Bem, talvez um pouquinho.
O barão se recostou na poltrona e juntou os dedos das mãos. Agora que entendia o motivo da relutância do garoto, repreendeu-se mentalmente por não ter previsto essa reação. Afinal, o seu conhecimento sobre o grupo dos arqueiros era melhor do que se poderia esperar de um jovem rapaz que tinha acabado de completar 15 anos e ouvia os comentários supersticiosos habituais dos empregados do castelo.
— Os arqueiros são um grupo de pessoas misteriosas — ele afirmou. — Mas não há motivo para ter medo deles, a menos que você seja inimigo do reino.
Ele percebeu que o menino prestava muita atenção às suas palavras e acrescentou em tom de brincadeira:
— Você não é um inimigo do reino, é, Will?
— Não, senhor! — Will respondeu repentinamente assustado, e o barão suspirou novamente.
Ele detestava quando as pessoas não percebiam que estava brincando. Infelizmente, como senhor do castelo, as suas palavras eram tratadas com grande seriedade por quase todas as pessoas.
— Está bem, está bem — ele disse em tom tranquilizador. — Eu sei que você não é. Mas, acredite, pensei que você ficaria satisfeito com essa indicação. Um rapaz aventureiro como você combina com a vida dos arqueiros como um pato com na água. É uma grande oportunidade para você, Will.
Ele fez uma pausa, analisando o rapaz com atenção, percebendo que ele ainda não estava totalmente convencido.
— Você sabia que poucos rapazes são escolhidos como aprendizes de arqueiros? A oportunidade não costuma aparecer sempre.
Will assentiu ainda hesitante. Ele achou que o seu sonho de entrar na Escola de Guerra merecia mais uma tentativa. Afinal, o barão parecia estar num humor fora do comum naquela madrugada, apesar de Will ter invadido o seu gabinete.
— Eu queria ser um guerreiro, senhor — ele disse hesitante, mas o barão sacudiu a cabeça imediatamente.
— Eu acho que você tem outros talentos. Halt percebeu isso assim que o viu. Foi por isso que ele pediu você.
— Oh!
Will se surpreendeu. Não havia muito mais o que pudesse dizer. Ele sentiu que deveria ficar tranquilo com tudo o que o barão tinha dito e, de certo modo, estava.
Mas todos os acontecimentos ainda estavam cercados de muita incerteza.
— É que Halt parece tão sério o tempo todo.
— Ele realmente não é muito divertido — o barão concordou e então, quando Will olhou para ele com um jeito inexpressivo, resmungou algo.
Will não tinha certeza do que tinha feito para aborrecê-lo e achou melhor mudar de assunto.
— Mas... o que um arqueiro faz, meu senhor? — ele perguntou. Mais uma vez, o barão balançou a cabeça.
— Isso é algo que Halt vai lhe dizer. Eles são um grupo diferente e não gostam que outras pessoas falem muito deles. Agora, acho melhor você voltar ao alojamento e dormir um pouco. Deve se apresentar ao chalé de Halt às 6 horas.
— Sim, meu senhor — Will concordou, levantando-se da posição desconfortável na beira da poltrona.
Ele não estava certo de que iria gostar da vida como aprendiz de arqueiro, mas parecia que não tinha escolha. Curvou-se diante do barão, que respondeu com um leve aceno, e então se virou para sair. A voz do barão o interrompeu.
— Will, desta vez use as escadas.
— Sim, meu senhor — ele replicou sério e um pouco confuso pelo jeito como o barão revirou os olhos para o céu e resmungou algo novamente.
Desta vez, Will conseguiu entender algumas palavras. E teve a impressão de que era algo sobre piadas. Will saiu pela porta. As sentinelas ainda estavam posicionadas no alto das escadas, mas Halt tinha ido embora. Ou, pelo menos, parecia que sim. Com o arqueiro, nunca se podia ter certeza.

3 comentários:

  1. Essa profissão é legal , o problema vai ser num combate corpo a corpo

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