28 de junho de 2016

Capítulo 5

Will estava correndo em Skorghijl pela ilha deserta varrida pelo vento.
Depois de dar cinco voltas na praia coberta de seixos, ele se virou na direção dos penhascos íngremes que se levantavam atrás do pequeno porto. Suas pernas queimavam pelo esforço de escalar, seus músculos das coxas e canelas reclamavam. As semanas de inatividade no navio haviam prejudicado seu preparo físico e agora ele estava determinado a ficar em forma novamente, a enrijecer os músculos e fazer seu corpo voltar à perfeição que Halt exigia dele.
Talvez ele não pudesse praticar arco e flecha ou atirar suas facas, mas podia ao menos garantir que seu corpo estivesse pronto se surgisse uma oportunidade para escapar. Will tinha certeza de que essa oportunidade iria aparecer.
Ele se obrigou a subir uma rampa íngreme, fazendo pequenas pedras e argila deslizarem e cederem debaixo de seus pés. Quanto mais ele subia, mais o vento puxava suas roupas e, finalmente, quando atingiu o alto do penhasco, foi atingido por toda a força do vento norte os ventos do verão, como os escandinavos os chamavam. No lado noite da ilha, o vento fazia as ondas baterem contra as rochas negras e imponentes, fazendo a água espirrar bem alto no ar. No porto atrás dele, a água estava relativamente calma, protegida do vento pela parede maciça de penhascos que o cercava.
Como fazia normalmente quando chegava a esse ponto, ele observou o oceano em busca do sinal de algum navio. Mas, como sempre, não havia nada para ver além das ondas violentas e implacáveis.
Ele olhou para o porto. As duas cabanas grandes pareciam ridiculamente pequenas de onde estava. Uma era o dormitório onde a tripulação de escandinavos dormia. A outra era a sala de refeições onde passavam a maior parte do tempo, discutindo, jogando e bebendo. Ao lado do dormitório, construída ao longo das compridas paredes, estava a varanda que Erak tinha destinado para Will e Evanlyn. O espaço era pequeno, mas pelo menos não tinham que dividi-lo com os escandinavos. Will tinha estendido um cobertor de um lado a outro para que Evanlyn tivesse um pouco de privacidade. Ela estava sentada do lado de fora da varanda.
Mesmo daquela distância, Will conseguia ver seus ombros curvados e desanimados e ficou preocupado. Alguns dias antes, tinha sugerido que ela o acompanhasse em sua tentativa de manter o corpo em boa forma. Evanlyn rejeitou a ideia de imediato e parecia simplesmente ter aceitado seu destino. Ela tinha desistido e, nos últimos dias, suas conversas tinham se tornado cada vez mais difíceis, à medida que tentava levantar o ânimo dela e falava sobre a possibilidade de fuga, pois ele já tinha uma ideia do que poderia fazer.
Ele ficou confuso e magoado com a atitude dela.
Aquela não era a Evanlyn de quem se lembrava da ponte; a parceira corajosa e decidida que tinha corrido pelas vigas estreitas para ajudá-lo sem pensar em sua segurança pessoal e que depois tentou lutar contra os escandinavos quando eles os encurralaram. Essa nova Evanlyn estava estranhamente desanimada. Sua atitude negativa o surpreendia. Ele nunca imaginou que ela seria o tipo de pessoa que iria desistir quando os problemas ficassem muito difíceis.
“Talvez meninas sejam assim”, ele disse a si mesmo. Mas não acreditava nisso. Ele sentia que havia alguma outra coisa que ela não tinha contado. Afastando os pensamentos com um gesto dos ombros, começou a descer o penhasco.
Era mais fácil correr para baixo do que para cima, mas nem tanto. A superfície escorregadia e traiçoeira debaixo dos pés fazia que ele tivesse que correr cada vez mais depressa para manter o equilíbrio, provocando pequenos deslizamentos de terra enquanto descia. Onde a corrida para cima tinha feito os músculos das coxas queimar, agora o fazia sentir dor na barriga das pernas e tornozelos. Ele chegou ao fundo da rampa respirando forte e se deixou cair na praia para fazer uma série de flexões rápidas.
Os ombros ficaram doloridos depois de alguns minutos, mas ele se obrigou a continuar e a ultrapassar o ponto da dor, cego pelo suor que escorria em seus olhos até que, por fim, não pôde mais insistir. Exausto, desabou no chão com os braços incapazes de sustentar seu peso e ficou deitado de bruços na areia, lutando para respirar.
Ele não ouviu Evanlyn se aproximar enquanto fazia os exercícios e se assustou com o som da voz dela.
— Will, isso é perda de tempo.
A voz dela não tinha o tom de discussão tão evidente nos últimos dias, e Evanlyn parecia quase conciliadora. Com um leve gemido de dor, ele levantou o corpo do chão, virou e se sentou, limpando a areia molhada com as mãos.
Will sorriu para ela, Evanlyn devolveu o sorriso e se sentou ao lado dele na praia.
— O que é perda de tempo? — ele perguntou.
Ela fez um gesto vago que incluiu a praia onde ele tinha acabado de se exercitar e o penhasco que escalou e desceu.
— Todas essas corridas e exercícios, e toda essa conversa sobre fuga.
Ele franziu um pouco a testa. Não queria começar uma discussão, portanto foi cuidadoso em não reagir com muita intensidade às palavras dela. Will tentou manter um tom neutro e razoável.
— Nunca é perda de tempo se manter em forma.
— Talvez não — Evanlyn concordou, aceitando o argumento. — Mas fugir? Daqui? Que chance teríamos?
Will sabia que teria que ser cuidadoso naquele momento. Se desse a impressão de que estava lhe passando um sermão, ela poderia voltar para sua concha outra vez. Mas ele sabia como era importante manter a esperança viva numa situação daquelas e queria provar esse fato para ela.
— Admito que não parece muito promissor. Mas nunca se sabe o que pode acontecer amanhã. O mais importante é manter uma atitude positiva. Não podemos desistir. Halt me ensinou isso. Nunca desista porque, se surgir uma oportunidade, você vai estar pronta para aproveitá-la. Não desista, Evanlyn, por favor.
Ela estava balançando a cabeça novamente, mas estava tranquila.
— Você não está entendendo o que quero dizer. Eu não desisti. Eu só estou dizendo que é uma perda de tempo porque isso não é necessário. Não precisamos fugir. Há outro jeito de resolver isso.
Will olhou ao redor com um gesto teatral como se pudesse enxergar a solução de que ela estava falando.
— Existe? Sinto muito, mas não consigo ver.
— Nós podemos ser resgatados — ela afirmou, e ele riu alto, muito divertido com a ingenuidade dela.
— Eu duvido muito. Quem viria resgatar um aprendiz de arqueiro e uma criada? Quer dizer, sei que Halt viria se pudesse, mas ele não tem dinheiro para isso. Quem iria pagar um bom dinheiro por nós?
Ela hesitou e então pareceu tomar uma decisão.
— O rei — ela disse simplesmente.
Will olhou para ela como se estivesse louca. Na verdade, por um momento, ele se perguntou se ela estava bem. Ela certamente parecia estar fora da realidade.
— O rei? — ele repetiu. — Por que o rei iria se interessar por nós?
— Porque sou filha dele.
O sorriso desapareceu do rosto de Will. Ele olhou fixamente para ela, sem saber se tinha ouvido bem. Então ele se lembrou das palavras de Gilan em Céltica, quando o jovem arqueiro o tinha avisado de que alguma coisa não estava muito certa em relação a Evanlyn.
— Você é a... — ele começou e parou. Aquilo era difícil demais para compreender.
— Filha dele. Eu sinto tanto, Will. Eu devia ter lhe contado antes. Eu estava viajando disfarçada em Céltica, quando vocês me encontraram — ela explicou. — Era quase natural não contar meu verdadeiro nome às pessoas. Então, quando Gilan nos deixou, eu ia lhe contar. Mas percebi que, se o fizesse, você iria insistir em me levar de volta ao meu pai imediatamente.
Will balançou a cabeça, tentando assimilar o que estava ouvindo. Ele olhou em volta do pequeno porto cercado por penhascos.
— Isso teria sido tão terrível assim? — ele perguntou com um pouco de amargura.
Ela sorriu para ele com tristeza.
— Pense, Will. Se você soubesse quem eu era, nunca teríamos seguido os Wargals e nunca teríamos encontrado a ponte.
— Nunca teríamos sido capturados — Will ajuntou, mas ela balançou a cabeça mais uma vez.
— Morgarath teria vencido — ela disse simplesmente.
Ele olhou nos olhos dela e percebeu que Evanlyn tinha razão. Houve um longo momento de silêncio entre os dois.
— O seu nome é... — Will hesitou e ela terminou a frase para ele.
— Cassandra. Princesa Cassandra. Me desculpe se tenho agido um pouco como princesa nos últimos dias — ela acrescentou com um sorriso triste. — Estava me sentindo mal porque não lhe contei. Não quis descontar em você.
— Não, tudo bem — ele disse distraído e ainda espantado com a novidade. Então um pensamento lhe passou pela cabeça. — Quando você vai contar ao Erak?
— Não sei se devo — ela respondeu. — Esse tipo de coisa é melhor tratar no alto escalão. Afinal, Erak e seus homens são pouco mais que piratas. Não sei como eles vão reagir. Acho que é melhor eu continuar sendo Evanlyn até chegarmos à Escandinávia. Daí vou encontrar uma forma de me aproximar do governante... qual é mesmo o nome dele?
— Ragnak — Will disse com a mente a toda velocidade. — Oberjarl Ragnak.
“Claro que ela tem razão”, ele pensou. Como princesa Cassandra de Araluen, ela valeria uma pequena fortuna para o Oberjarl. E, visto que os escandinavos eram basicamente mercenários, não havia dúvidas de que ela seria resgatada por um bom dinheiro.
Ele, por outro lado, era uma questão diferente. E então Will percebeu que ela estava falando novamente.
— Assim que eu disser quem sou, vou arranjar para que nós dois sejamos resgatados. Tenho certeza de que meu pai vai concordar.
E Will sabia que esse era o problema. Talvez ela conseguisse convencer o pai se pudesse falar com ele pessoalmente. Mas a questão estaria nas mãos dos escandinavos. Ele diriam para o rei Duncan que tinham a filha dele em mãos e estabeleceriam um preço para o resgate. Nobres e princesas podiam ser resgatados. Na verdade, isso acontecia muitas vezes em tempos de guerra. Mas pessoas como guerreiros e arqueiros eram uma questão diferente. Os escandinavos poderiam muito bem ficar relutantes em libertar um arqueiro, mesmo aprendiz, que poderia causar problemas para eles no futuro.
Havia também outra questão a ser considerada. A mensagem levaria meses, talvez grande parte de um ano, para chegar a Araluen. A resposta de Duncan poderia levar um tempo igualmente longo para fazer a viagem de volta. Só então as negociações começariam. Durante todo esse tempo, Evanlyn seria mantida confortavelmente em segurança, pois afinal era uma propriedade valiosa. Mas quem poderia dizer o que aconteceria a Will? Ele poderia estar morto quando o resgate fosse pago.
Era óbvio que Evanlyn não tinha previsto isso.
— Então você vê, Will — ela continuou a raciocinar — não há motivo para todas essas corridas, escaladas e tentativas de fuga. Você não precisa fazer isso. Além disso, Erak está ficando desconfiado. Ele não é bobo e já o vi observando você. Por isso, relaxe e deixe tudo comigo. Vou conseguir que a gente volte para casa.
Will abriu a boca, pronto para explicar o que estava pensando. Então, mudou de ideia. De repente, ele sabia que Evanlyn não aceitaria seu ponto de vista. Ela era teimosa e determinada e estava acostumada a fazer as coisas do seu jeito. Ela estava convencida de que poderia organizar a volta deles, e nada do que ele dissesse mudaria a opinião dela. Will sorriu para ela e mostrou que concordava com um gesto. Mas era apenas uma sombra do seu sorriso habitual.
No fundo do coração, ele sabia que teria que encontrar o seu jeito de voltar para casa.

2 comentários:

  1. Quando será que ele volta?
    Ass:Lua

    ResponderExcluir
  2. Que coisa mano,é muito arriscado para Cassandra!E eu concordo com Will,devem tentar escapar mas se não conseguirem tentam o plano da Cassandra.
    Ass:Sofia

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!