24 de junho de 2016

Capítulo 5

Já tinha passado muito da meia-noite. As tochas trêmulas ao redor do pátio do castelo, já substituídas uma vez, estavam enfraquecendo novamente. Will tinha observado pacientemente o passar das horas, esperando o momento em que a luz estaria fraca e os guardas estariam bocejando na última hora de seu turno.
O dia tinha sido um dos piores de que podia se lembrar. Enquanto os colegas comemoravam, aproveitavam o banquete e se divertiam barulhentamente pelo castelo e pela vila, Will tinha se escondido no silêncio da floresta a cerca de 1 quilômetro dos muros do castelo. Ali, na sombra verde e fresca das árvores, ele tinha passado a tarde refletindo tristemente sobre o que tinha acontecido na Escolha, sofrendo com o desapontamento e imaginando o que o papel do arqueiro dizia.
À medida que o longo dia se arrastava e as sombras começavam a ficar mais compridas nos campos abertos ao lado da floresta, ele tomou uma decisão. Tinha que saber o que estava escrito no papel. E seria naquela noite.
Quando escureceu, Will voltou, evitando os moradores da vila e do castelo, e se escondeu nos galhos da grande figueira novamente. Antes disso, entrou às escondidas nas cozinhas e se serviu de pão, queijo e maçãs. Ele passou as horas mastigando os alimentos quase sem sentir seu sabor, enquanto o tempo passava e o castelo começava a se preparar para a noite.
Will observou os movimentos dos guardas e os horários das trocas de turno. Além da tropa da guarda, havia um sargento de plantão na porta da torre que levava aos aposentos do barão. Mas ele era gordo e estava sonolento, então havia pouca chance de que pudesse representar risco. Afinal, Will não tinha a intenção de usar a porta ou a escada.
Ao longo dos anos, a sua curiosidade insaciável e a tendência para ir a lugares em que não deveria estar tinham desenvolvido nele a habilidade de atravessar espaços abertos sem ser visto.
O vento balançava os galhos mais altos das árvores, e eles criavam formas agitadas sob a luz da Lua, formas que agora Will sabia usar muito bem. Instintivamente, ele combinava seus movimentos com o ritmo das árvores, misturando-se facilmente às formas criadas pelas sombras no pátio, tornando-se parte delas e se escondendo nelas. De certa forma, a falta de uma cobertura concreta facilitava um pouco a sua tarefa. O sargento gordo não esperava que alguém fosse atravessar o pátio aberto e, assim, por não esperar ver uma pessoa, não via ninguém.
Sem fôlego, Will se achatou contra as pedras ásperas da parede da torre. O sargento estava a menos de 5 metros de distância, e Will podia até ouvir a sua respiração pesada, mas um pilar o escondia do homem. Ele estudou a parede à sua frente e esticou o pescoço para olhar para cima. A janela do gabinete do barão ficava bem no alto, do outro lado da torre. Para chegar até lá, teria que escalar a parede e circundá-la até um ponto além de onde o sargento montava guarda e então subir novamente até a janela. Will molhou os lábios nervoso. Ao contrário das paredes internas lisas da torre, os grandes blocos de pedra que cobriam a parte de fora tinham grandes espaços entre eles. Subir não seria problema, e ele teria vários pontos de apoio para os pés e as mãos em todo o trajeto. Em alguns lugares, a ação do tempo tinha deixado as pedras lisas, e ele teria que se mover com cuidado. Mas tinha escalado todas as outras três torres no passado e não esperava ter dificuldades com essa.
Desta vez, porém, se fosse visto, não poderia alegar que se tratava de uma brincadeira. Ele estaria escalando uma parte do castelo em que não tinha o direito de estar no meio da noite. Afinal, o barão não colocava guardas para vigiar sua torre por diversão. As pessoas deveriam se manter afastadas, a menos que fossem convidadas.
Will esfregou as mãos ansioso. Que castigo poderia receber? Já tinha sido excluído na Escolha, ninguém o queria e já estava condenado a viver nos campos. O que poderia ser pior do que isso?
Mas havia uma dúvida que o perturbava: ele não tinha certeza absoluta de que estava condenado a essa vida. Uma leve centelha de esperança ainda permanecia acesa. Talvez o barão cedesse. Se Will lhe explicasse sobre o pai e dissesse o quanto era importante ser aceito na Escola de Guerra, talvez houvesse uma pequena chance de que seu desejo fosse atendido. E então, depois de aceito, poderia mostrar como seu entusiasmo e dedicação fariam dele um aluno valioso até que se desenvolvesse fisicamente.
Por outro lado, se fosse apanhado nos próximos minutos, não sobraria nem essa pequena chance. Ele não tinha ideia do que lhe fariam se fosse pego, mas estava certo de que não teria nada a ver com sua aceitação na Escola de Guerra.
Ele hesitou, pois precisava apenas de mais uma pequena desculpa para agir. E foi o sargento que a ofereceu. Will escutou o guarda respirar fundo e bater as botas de encontro às pedras enquanto reunia seu equipamento.
“Ele vai sair para fazer uma de suas rondas”, o garoto pensou. Normalmente, isso significava andar alguns metros ao redor da torre e na entrada e então voltar à posição original. A ronda servia mais para mantê-lo acordado do que outra coisa, mas Will percebeu que eles ficariam cara a cara nos próximos segundos se não fizesse alguma coisa.
Rápida e facilmente, começou a escalar a parede. Ele subiu os primeiros 5 metros em questão de segundos, com braços e pernas estendidos como uma aranha gigante. Então, ao ouvir os passos pesados diretamente abaixo dele, Will ficou paralisado, colado à parede para que nenhum barulho alertasse o guarda.
De fato, parecia que o sargento tinha ouvido algo. Ele parou bem embaixo de Will, espiou para dentro da noite, tentando ver além das sombras criadas pela Lua e das árvores que balançavam. Mas, como Will tinha percebido na noite anterior, as pessoas raramente olham para cima. O sargento, finalmente certo de que não tinha ouvido nada importante, continuou a marchar lentamente ao redor da torre.
Aquela era a oportunidade de que Will precisava. Ela também lhe permitia passar ao outro lado da torre e ficar exatamente embaixo da janela que queria. Ele encontrou apoio para os pés e as mãos com facilidade e se movimentou quase tão depressa quanto se estivesse andando, a cada instante atingindo um ponto mais alto da parede.
Em certo momento, cometeu o erro de olhar para baixo. Apesar de se sentir à vontade em lugares altos, a sua visão oscilou levemente quando viu até onde tinha chegado e o quanto as pedras que revestiam o pátio estavam longe. O sargento, que ele conseguia ver outra vez, era somente uma figura minúscula lá embaixo. Will esforçou-se para dominar a leve tontura e continuou a escalada, talvez agora um pouco mais devagar e com mais cuidado do que antes.
Will ficou um pouco nervoso quando, ao esticar o pé direito em busca de um novo apoio, o pé esquerdo escorregou na borda arredondada dos enormes blocos de pedra e ele ficou pendurado apenas pelas mãos, procurando desesperadamente um local para apoiar os pés. Mas logo em seguida se recuperou e continuou a escalada.
O garoto foi invadido por uma onda de alívio quando as mãos finalmente chegaram ao peitoril da janela e ele impulsionou o corpo para cima, pulando para dentro da sala.
Como era de se esperar, o gabinete do barão estava deserto. A Lua jogava a sua luz pela janela imensa. E ali, na escrivaninha onde o barão a tinha deixado, estava a folha de papel que continha a resposta sobre o futuro de Will. Inquieto, ele olhou ao redor. A enorme cadeira de encosto alto do barão parecia uma sentinela atrás da mesa. Os outros poucos móveis se erguiam escuros e inertes. Em uma das paredes, o retrato de um dos ancestrais do barão olhava acusador para o menino.
Ele afastou esses pensamentos cheios de imaginação e foi rapidamente até a mesa, os pés se movimentando em silêncio dentro das botas de couro macio. A folha de papel, muito branca sob a luz da Lua, estava a seu alcance.
“Olhe, leia e vá embora”, ele disse a si mesmo. Aquilo era tudo o que tinha a fazer. Will estendeu a mão em sua direção.
Os seus dedos a tocaram.
E uma mão disparou do nada, segurando seu punho.
Will gritou assustado. Seu coração deu um salto, e ele se deparou com os olhos frios de Halt, o arqueiro.
De onde ele tinha vindo? Will tinha certeza de que não havia mais ninguém na sala e não tinha ouvido o barulho de nenhuma porta se abrindo. Então ele se lembrou de como o arqueiro conseguia se envolver no estranho manto verde-acinzentado e se misturar ao ambiente, escondendo-se nas sombras até ficar invisível.
Não que importasse como Halt tinha conseguido entrar. O verdadeiro problema era que Will tinha sido apanhado ali, no gabinete do barão, e isso significava o fim de todas as suas esperanças.
— Imaginei que você tentaria alguma coisa desse tipo — o arqueiro disse em voz baixa.
Will, com o coração acelerado por causa do susto, não disse nada. Baixou a cabeça envergonhado e desesperado.
— Você não tem nada a dizer? — Halt perguntou.
Ele balançou a cabeça negativamente, sem querer encontrar o olhar sombrio e penetrante do arqueiro. As palavras seguintes de Halt confirmaram os seus temores mais profundos.
— Bem, vamos ver o que o barão vai achar disso.
— Por favor, Halt! Não... — e então Will parou.
Não havia desculpa para a sua atitude, e o mínimo que podia fazer era enfrentar o castigo como um homem. Como um guerreiro. Como o seu pai.
O arqueiro o analisou por um momento, e Will imaginou ter visto o que poderia ser um leve brilho de reconhecimento, mas então o olhar escureceu outra vez.
— O quê? — Halt perguntou ríspido.
Will não respondeu, balançando a cabeça.
A mão de Halt parecia de ferro quando ele conduziu Will pelo punho para fora da sala até as escadas em curva que levavam aos aposentos do barão. As sentinelas que se encontravam no alto dos degraus olharam surpresas ao verem o rosto zangado do arqueiro e o garoto ao seu lado. A um leve sinal de Halt, afastaram -se e abriram as portas do apartamento do barão.
O aposento estava muito bem iluminado e por um momento, Will olhou ao redor confuso. Ele estava certo de que tinha visto as luzes se apagarem enquanto vigiava na árvore. Então viu as cortinas grossas na janela e compreendeu. Ao contrário do gabinete de trabalho, com poucos móveis, o quarto era uma confortável combinação de sofás, banquetas, tapeçaria e poltronas. O barão estava sentado em uma delas lendo uma pilha de relatórios.
Ele levantou o olhar da página que segurava quando Halt entrou.
— Então você tinha razão — o barão comentou, e Halt assentiu.
— Exatamente como previ, meu senhor. Atravessou o pátio do castelo como uma sombra, passou pela sentinela como se ela não existisse e escalou a torre como uma aranha.
O barão colocou o relatório numa mesa de canto e se inclinou para a frente.
— Você está me dizendo que ele escalou a torre? — ele perguntou quase sem acreditar.
— Sem cordas nem escadas, meu senhor. Escalou com a mesma facilidade com que o senhor monta seu cavalo pela manhã. Com mais facilidade, eu diria — Halt completou com um leve sorriso.
O barão franziu a testa. Ele estava um pouco acima do peso e, às vezes, precisava de ajuda para montar no cavalo depois uma noite mal dormida. Estava claro que não tinha achado graça do comentário de Halt.
— Ora, então — ele disse, olhando sério para Will — esse é um assunto grave.
Will não disse nada. Não sabia se deveria ou não concordar. Qualquer uma das alternativas apresentava desvantagens, mas desejou que Halt não tivesse deixado o barão de mau humor ao lembrá-lo de seu excesso de peso. Isso certamente não facilitaria as coisas.
— Então, o que devemos fazer com você, meu jovem Will? — o barão continuou.
Ele levantou da cadeira e começou a andar pelo quarto. Will olhou para ele e tentou avaliar o seu humor.
O rosto forte e barbado nada demonstrava. O barão parou de andar e deslizou o dedo pela barba pensativo.
— Diga-me, meu jovem Will, o que você faria no meu lugar? — ele perguntou sem olhar para o garoto angustiado. — O que você faria com um garoto que invade seu gabinete no meio da noite e tenta roubar um documento importante?
— Eu não estava roubando, meu senhor!
A frase escapou da boca de Will antes que pudesse impedir. O barão se virou para ele com uma das sobrancelhas erguidas, parecendo não acreditar no que ouvia.
— Eu só queria... ver o papel, só isso.
— Talvez — o barão replicou ainda com a sobrancelha levantada. — Mas você não respondeu minha pergunta. O que faria no meu lugar?
Will abaixou a cabeça outra vez. Ele podia pedir misericórdia, pedir desculpas ou tentar explicar. Mas então endireitou os ombros e tomou uma decisão. Sabia quais seriam as consequências de ser apanhado e tinha escolhido correr o risco. Não tinha o direito de pedir perdão.
— Meu senhor... — ele começou hesitante, sabendo que aquele era um momento decisivo em sua vida.
O barão olhou para ele, ainda um pouco virado para a janela.
— Sim? — ele perguntou e, de algum modo, Will encontrou forças para continuar.
— Meu senhor, não sei o que faria em seu lugar. Sei que não há desculpas para minha atitude e vou aceitar qualquer castigo que decidir me dar.
Enquanto falava, ele ergueu o rosto para olhar nos olhos do barão. E, ao fazer isso, notou quando o nobre olhou rapidamente para Halt. Era estranho: esse olhar parecia ser de aprovação e concordância, mas logo desapareceu.
— Alguma sugestão, Halt? — o barão perguntou num tom cuidadosamente neutro.
Will olhou para o arqueiro. Como sempre, o rosto dele estava sério. A barba grisalha e os cabelos curtos faziam que parecesse ainda mais descontente, mais ameaçador.
— Talvez devêssemos mostrar o papel que ele estava tão ansioso para ver, meu senhor — ele sugeriu, tirando a folha de dentro da manga.
O barão permitiu que um sorriso surgisse em seu rosto.
— Não é má ideia concordou. Acho que, de certa forma, ele mostra o seu castigo, não é mesmo?
Will olhou para os dois homens. Estava acontecendo alguma coisa que ele não entendia. O barão parecia pensar que o que ele tinha dito era um tanto divertido. Halt, por outro lado, não estava se divertindo nem um pouco.
— Se essa é a sua opinião, meu senhor... — ele respondeu sem demonstrar emoções.
O barão acenou para ele impaciente.
— Não fique tão sério, Halt! Vamos lá, mostre-lhe o papel.
O arqueiro atravessou o aposento e entregou a Will a folha pela qual ele tinha se arriscado tanto. A mão garoto tremia ao pegá-la. Seu castigo? Mas como o barão sabia que ele merecia um castigo antes de tudo acontecer?
Ele se deu conta de que o barão o observava ansioso. Halt, como sempre, parecia uma estátua imperturbável. Will desdobrou a folha de papel e leu o que Halt tinha escrito nela.

O garoto Will tem potencial para ser treinado como arqueiro. Vou aceitá-lo como meu aprendiz.

7 comentários:

  1. Kkkkkkkkkk. Quer dizer que ele correu risco para nada?kkkk.
    Ass: Bina.

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  2. Não .. Foi apenas um teste..

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  3. Foi um teste.....meio cruel ..; mas é preciso pra separar os destemidos dos covardes

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  4. Eu sempre imagino o Halt como o Jeffrey Dean Morgan. Se tiver um filme vou torcer pra que chamem ele.

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