29 de junho de 2016

Capítulo 4

Will acordou com um sobressalto. Ele estava sentado ao sol na beira da varanda e percebeu que tinha cochilado. Desanimado, pensou em quanto tempo ele passava dormindo naqueles dias. Evanlyn disse que era de se esperar, pois ele estava recuperando as forças. Ele imaginou que ela tinha razão.
Também era preciso levar em consideração que não havia muita coisa para fazer na cabana onde eles passavam o tempo desde que tinham fugido da fortaleza escandinava. Ele tirou a mesa e lavou a louça do café da manhã, fez as camas e arrumou as poucas peças de mobiliário na cabana. Isso não levou mais que meia hora, então ele escovou o pônei na cobertura atrás da pequena cabana até o pelo brilhar. O animal olhou para ele e depois para si mesmo com uma leve surpresa. Ele deve ter pensado que nunca alguém tinha passado tanto tempo cuidando de sua aparência no passado.
Depois disso, Will vagueou sem rumo em volta da cabana e da pequena clareira, inspecionando os pontos em que a grama marrom e úmida estava começando a aparecer pela cobertura de neve. Ele pensou em armar mais algumas armadilhas, mas descartou a ideia. Sentindo-se entediado e inútil, sentou-se na varanda para esperar a volta de Evanlyn. Em algum momento, ele deve ter cochilado afetado pelo calor do sol.
O calor já tinha desaparecido há muito. O sol tinha atravessado toda a clareira e agora os pinheiros lançavam longas sombras sobre a cabana. Will imaginou que devia ser o meio da tarde.
Uma ruga de preocupação apareceu em sua testa.
Evanlyn tinha saído bem antes do meio-dia para verificar as armadilhas. Mesmo considerando que tinham instalado a linha de armadilhas ainda mais longe da cabana, ela tinha tido tempo de chegar até lá, verificar tudo e voltar. Ela devia estar fora há pelo menos três horas talvez mais.
A menos que ela já tivesse voltado e, ao vê-lo dormir, tivesse decidido não acordá-lo. Ele se levantou, fazendo as juntas rígidas protestarem, e procurou dentro da cabana. Não havia sinal de sua volta. A sacola de caça e o grosso casaco de lã não estavam lá. Will franziu ainda mais a testa e começou a andar na pequena clareira, perguntando-se o que deveria fazer. Ele desejou saber há quanto tempo exatamente ela tinha saído e, em silêncio, censurou-se por ter adormecido. Sentiu uma vaga inquietação na boca do estômago ao se perguntar o que poderia ter acontecido com a companheira. Ele reviu as possibilidades.
Ela poderia ter se perdido e está andando entre os grossos pinheiros cobertos de neve, tentando encontrar o caminho de volta para a cabana. Era possível, mas improvável. Ele tinha deixado marcas discretas nas trilhas que levavam às armadilhas, e Evanlyn sabia onde procurá-las.
Talvez ela estivesse ferida. Ela podia ter caído ou torcido o tornozelo. Os caminhos eram acidentados e íngremes em alguns lugares e essa era uma possibilidade verdadeira. Ela podia estar deitada naquele momento, ferida e incapaz de andar, estendida na neve, vendo a tarde se transformar em noite.
A terceira possibilidade era que ela tinha encontrado alguém. E era provável que a pessoa com que tivesse se deparado naquela montanha fosse um inimigo. Talvez tivesse sido recapturada pelos escandinavos. O coração dele acelerou por um momento quando pensou nessa possibilidade. Ele sabia que eles mostrariam pouca compaixão por uma escrava fugitiva. E, embora Erak tivesse ajudado os dois antes, não era provável que o fizesse de novo. Mesmo que tivesse oportunidade.
Enquanto pensava nessas possibilidades, ele tinha começado a se movimentar em volta da cabana, reunindo suas coisas e se preparando para procurar à amiga. Ele tinha enchido um dos cantis no balde com água do riacho que levava todos os dias para a cabana e enfiou alguns pedaços de carne fria numa sacola. Amarrou as grossas botas para caminhar, envolvendo as pernas com os cordões rapidamente até quase o joelho, e tirou o colete de pele de carneiro do gancho atrás da porta.
Considerando todas as possibilidades, a segunda era a mais provável. As chances eram de que Evanlyn estivesse ferida em algum lugar sem poder andar. A possibilidade de ela ter sido recapturada pelos escandinavos era muito pequena. Ainda era muito cedo para que as pessoas andassem pelas montanhas. A única razão para isso seria a caça. E, mesmo assim, ainda havia poucos animais para que valesse a pena atravessar a neve pesada que bloqueava o caminho em muitas partes da montanha. Não, considerando tudo, era mais provável que Evanlyn estivesse a salvo, mas incapacitada.
Isso significava que seria lógico pôr a sela e os arreios no pônei e levá-lo enquanto procurava pistas da amiga, para que ela pudesse voltar para a cabana montada quando a encontrasse. Will não tinha dúvida que iria encontrá-la.
Ele já era ótimo em seguir pistas, embora ainda estivesse longe de Halt ou Gilan, e seguir uma garota num território coberto de neve seria uma tarefa relativamente simples. Mas, mesmo assim... Relutou em levar o pônei com ele. O pequeno cavalo faria barulhos desnecessários e uma dúvida incômoda disse a Will que deveria ser cuidadoso.
Era improvável que Evanlyn tivesse encontrado estranhos, mas não impossível.
Talvez fosse mais sensato viajar sozinho até descobrir o que realmente estava acontecendo. Quando tomou essa decisão, tirou as cobertas das camas e com elas formou uma trouxa que pendurou no ombro. Talvez fosse preciso passar a noite ao ar livre e seria melhor estar preparado. Ele apanhou uma pedra de fogo de junto do fogareiro e a deixou cair num dos bolsos.
Finalmente, estava pronto para sair. Parou na porta e deu uma última olhada para ver se havia mais alguma coisa de que pudesse precisar. O pequeno arco e a aljava com flechas estavam recostados no batente da porta. Seguindo um impulso, pegou os objetos e pendurou a aljava no ombro junto com a trouxa de cobertores. Então ele teve outra ideia e foi até a lareira, onde apanhou uma vareta meio queimada do meio das cinzas.
Do lado de fora da porta, ele escreveu com letras malfeitas: “Procurando você. Espere aqui.” Afinal de contas, era possível que Evanlyn aparecesse depois que ele saísse, e Will queria ter certeza de que ela não iria sair às cegas para procurá-lo enquanto ele estivesse tentando achá-la também. Se ela voltasse, suas pegadas acabariam trazendo-o de volta à cabana.
Ele levou alguns segundos para colocar a corda no arco. A voz de Halt ecoou em seus ouvidos: “Um arco sem corda é só um peso extra para carregar. Um arco com corda é uma arma”. Will observou o objeto com desdém. Aquilo não se parecia com uma arma, mas ele e a pequena faca na cintura eram tudo o que tinha. Will foi até a beira da clareira e procurou as pegadas de Evanlyn na neve. Elas estavam pouco nítidas depois de uma manhã de sol de primavera, mas ainda eram visíveis. Com passadas firmes, saiu para a floresta.
Will seguiu facilmente a trilha que subia tortuosa para o alto da montanha. Não demorou muito para que seu ritmo passasse de uma corrida regular para uma caminhada mais lenta. Ele respirava com dificuldade e percebeu que estava em péssima forma física. Houve um tempo em que podia correr durante horas. Agora, depois de quase vinte minutos, estava ofegante e exausto. Will balançou a cabeça desanimado e continuou a seguir as pegadas.
Naturalmente, seguir a pista ficava mais fácil porque ele já sabia a direção que Evanlyn tinha tomado. Ele a tinha ajudado a recolocar as armadilhas alguns dias antes. Will se lembrou de que naquele dia tinham andado mais devagar, parando com frequência para não se cansar demais. Evanlyn tinha relutado em deixar que ele fosse tão longe, mas tinha cedido diante do inevitável. Ela não sabia bem como montar as armadilhas onde eles teriam a melhor chance de pegar pequenos animais. Essa era uma área em que Will tinha experiência. Ele sabia como procurar e reconhecer os pequenos sinais que mostravam onde coelhos e pássaros se movimentavam, onde era mais provável que apontassem as cabeças confiantes para fora e as colocassem nos laços.
Evanlyn tinha levado quarenta minutos para chegar ao local naquela manhã. Will cobriu a distância em uma hora e quinze minutos, parando mais frequentemente para descansar e recuperar o fôlego. Ele sentia parar tanto, pois sabia que perdia a luz do dia. Mas não havia alternativa. De nada adiantaria se esforçar até ficar extremamente exausto. Ele tinha que ficar em condições de dar a Evanlyn qualquer ajuda de que ela precisasse quando a encontrasse.
O sol tinha se posto atrás do pico da montanha quando chegou à árvore queimada que marcava o início da linha das armadilhas. Ele tocou o tronco com uma das mãos e se virou para seguir a trilha entre as árvores quando viu algo com o canto do olho. Algo que fez seu coração parar de bater por um segundo.
Havia marcas nítidas de cascos de cavalo na neve. E elas cobriam as pegadas de Evanlyn. Alguém a tinha seguido.
Esquecendo o cansaço, Will correu meio agachado entre os grossos pinheiros até o ponto em que a primeira armadilha tinha sido colocada. A neve ali estava remexida e escavada. Ele ficou de joelhos, tentando interpretar a história que estava escrita ali.
Em primeiro lugar, a armadilha: ele viu onde Evanlyn tinha tornado a armar o laço, alisando a neve em volta e espalhando algumas sementes. Isso significava que havia um animal na armadilha quando ela tinha chegado. Depois, uma olhada mais ampla o deixou ver outras pegadas se movendo por trás dela enquanto estava ajoelhada, concentrada na tarefa de armar o laço e provavelmente feliz pelo fato de ter pego alguma coisa.
Will percebeu que as pegadas do cavalo tinham parado a uns 20 metros de distância. Obviamente, o cavalo tinha sido treinado para se mover em silêncio: do mesmo jeito que os cavalos dos arqueiros. Will foi dominado por uma sensação inquietante de receio. Ele não gostou da ideia de um inimigo que tinha esse tipo de habilidade, agora já sabia que estava lidando com algum tipo de inimigo. Os sinais de luta entre Evanlyn e quem quer que fosse estavam muito claros para seus olhos treinados. Ele quase podia ver o homem, pois imaginava ser um homem, movendo-se em silêncio atrás dela, agarrando-a e arrastando-a pela neve.
O chão remexido com violência mostrava que Evanlyn tinha chutado e lutado. Então, de repente, a luta tinha parado e dois pequenos sulcos na neve o levaram até onde o cavalo tinha esperado. Ele percebeu que eram as marcas dos calcanhares quando o corpo imóvel foi arrastado.
Inconsciente? Ou morta? E uma sensação de frio tocou seu coração ao pensar nisso. Mas ele afastou o pensamento com determinação.
— Não teria sentido levar ela embora se estivesse morta — ele disse para si mesmo.
E ele quase acreditou nisso. Mas uma incerteza incômoda ainda lhe apertava a boca do estômago quando seguiu as pegadas do cavalo até a trilha principal e depois na direção oposta da que levava de volta à cabana.
Ficou satisfeito por ter trazido os cobertores. Ia ser uma noite fria. Will também ficou contente por ter se lembrado de trazer o arco, embora desejasse estar com o poderoso arco recurvo que tinha perdido na ponte em Céltica. Era uma arma muito superior ao fraco arco de caça escandinavo. E ele teve a desagradável certeza de que iria precisar de uma arma muito em breve.

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